De vez em quando dizem cá pelos lados do blogue que Bento Domingues é pouco católico, tal como este blogue (Jacob é judeu, ainda não repararam?). Pois esta foto saída na "Sábado", há semanas, mostra que o dominicano é profundamente católico. Está aqui toda a exuberância e universalidade do catolicismo. Nada de puritanismo, calvinismo, jansenismo. Desarrumação imensamente católica.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
Bento Domingues: "Católicos não cristãos"
Bento Domingues, no "Público" de hoje, fala dos "católicos não cristãos". Um excerto, que o texto todo estará cá amanhã:
Que se entende aqui por católico não cristão? Para o teólogo Martín G. Ballester, de quem recebi esta designação, trata-se de alguém que se atribui o título de católico de forma excludente. Considera-se a medida do verdadeiro católico e só pode ser católico quem for como ele. Católico é o seu pronto-a-vestir. Segundo Ballester, esses católicos costumam ser beligerantes. Reforçam a sua identidade na condenação do outro, isto é, naquilo que os separa. Procuram inimigos seja onde for, pois o que lhes dá vida é precisamente o inimigo. Além de beligerantes são intransigentes, incapazes de reconhecer algo de bom em quem não pensa como eles.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Bento Domingues: "Perfil do papa ou perfil da Igreja?"
Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem. É infeliz a referência à marca Prada (deve ser por causa dos sapatos, que não são Prada, como já foi dito mil vezes; mais uma). O mesmo se diga da "emérita infalibilidade". Mas vale a pena pensar no que diz o texto.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Mais um artigo arrojado: Os jesuítas são os luteranos católicos; e os opus são os calvinistas católicos
Há dias pus aqui um artigo de Pedro Arroja, que ultimamente tem
vindo a refletir sobre a catolicidade da Igreja e do país.
Ontem, no jornal “A Ordem”, saiu o que a seguir reproduzo. Tem
a sua piada, embora, na minha perspetiva, ainda que haja comparações entre
Lutero e Inácio, o otimismo jesuíta não se coaduna com o pessimismo luterano (segurança
antropológica jesuíta versus insegurança luterana). Mais parecidos com os
luteranos eram os jansenistas, ambos fruto de tendências agustinianas exacerbadas.
Ora, jesuítas e jansenistas não se podiam ver nem pintados, ainda que ambos
andassem de preto (o preto dos jesuítas, diz a lenda, era do mais negro que há
desde que o decretasse o superior, ainda que fosse branco).
O jornal “A Ordem”, quinzenário, é do Porto, de um grupo de leigos,
suponho, e vai no centésimo ano de publicação.
Posso já adiantar que a edição
de 21 de fevereiro traz novo artigo de Pedro Arroja. Desta vez o economista
reflete sobre a “religião pública” que deve ser o catolicismo. Se o catolicismo
está cada vez menos público (“os representantes da Igreja deixam de estar
presente nas cerimónias oficiais, os padres agora raramente aparecem em debates
na televisão…”), é porque está a privatizar-se, ou seja, a protestantizar-se. Como sei? O número de 21 de fevereiro já saiu hoje.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
O pecado pode ser perdoado antes de ser cometido?
Um pecado pode ter um perdão adiantado, antes de ser cometido? Não é este o enredo principal do filme, mas reconheça-se que sem o contexto católico o drama não teria tanto sentido.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Bento Domingues: "Ano da fé. Um decreto, para quê? (3)"
Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.
1. No passado domingo, referi alguns dos movimentos que,
durante a primeira metade do século XX, não aceitaram um destino previsível: a
uma religião exterior ao tecer do mundo, sucederia um mundo fechado a qualquer
transcendência.
Esses movimentos recusaram as alianças da Igreja com os
poderes de dominação que a divorciavam de Cristo, dos pobres, do mundo operário
e dos novos percursos culturais de surpreendentes e estranhas linguagens
filosóficas, científicas, poéticas, musicais, artísticas. Eles desejavam-na
mais leve, mais disponível, sem fixações doutrinais ou rituais que a impedissem
de caminhar no interior misterioso de Deus e do mundo. Para ser fiel à sua
condição de peregrina do Absoluto, bastavam-lhe provisórios recursos de viagem.
Com erros e acertos, procuravam que a Igreja fosse vivida e
entendida, na diversidade de carismas e serviços do povo cristão, como voz de
Cristo num mundo dilacerado por duas terríveis guerras mundiais. A repressão
exercida sobre as expressões dos mais audazes criou uma atmosfera irrespirável,
em vários sectores católicos. Perdia-se a esperança de que ela se tornasse um
espaço de liberdade. Temos muitas narrativas dessa situação.
2. João XXIII, com os olhos postos nesse mundo em
transformação, apostou no aggiornamento da Igreja. Este termo, usado para
expressar uma das intenções fundamentais do Vaticano II, é muito mais do que
uma operação de marketing ou um truque, como se este Papa procurasse uma imagem
modernaça para um catolicismo envelhecido. Entretanto, já circulava outra
expressão de sinal oposto, "voltar às fontes". Acabaram ambas
conjugadas com os enigmáticos "sinais dos tempos". A aproximação
destas metáforas é um bom caminho para perceber a importância incontornável da
iniciativa deste Concílio, sem cair na sua sacralização.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Bento Domingues: "Ano da fé. Um decreto, para quê? (3)"
Do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (amanhã poderá lê-lo aqui na íntegra; entretanto, se comprar o jornal, surpreender-se-á com a quantidade de informação relevante):
Diante dos gravíssimos problemas actuais da sociedade e da Igreja, nota-se um tal retraimento e timidez, que é legítimo perguntar: não estarão as comunidades cristãs a serem vítimas de um longo período no qual a sua voz não contou para nada? Quando, agora, nos interrogamos sobre a sua falta de empenhamento militante, talvez esqueçamos uma resposta antiga: ninguém nos convocou, ninguém quis ouvir a nossa voz, compartilhar as nossas dúvidas e interrogações, tomar a sério a nossa situação pouco canónica e pouco alinhada com a opinião dominante. Deixaram-nos em autogestão...E explica o sentido da expressão "naquele tempo", com que habitualmente os evangelhos dominicais começam, que não é "inocente nem passadista".
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Da feminilidade da economia portuguesa
Mais uma que nos fizeram Lutero e Calvino. Ou antes, não fizeram. Artigo de Pedro Arroja no "Vida Económica". A economia portuguesa é feminina por causa da sua matriz católica, diz o gestor.
Não sei se este Pedro Arroja é o mesmo que lia em meados dos anos noventa no DN. Na altura, apreciava q.b. as suas opiniões liberais e heterodoxas. Agora parece que alinha por um catolicismo muito típico de certos meios (à falta da expressão adequada, escrevo "certos meios").
Este Pedro é o mesmo que no blogue "Portugal Contemporâneo" escreve:
Na minha opinião, um dos pilares centrais da tradição portuguesa e católica que vai ter de ser reposto é o ensino diferenciado entre rapazes e raparigas, pelo menos até à adolescência.
Numa cultura feminina como é a nossa, o ensino misto feminiliza os rapazes. Na cultura protestante, que é masculina, é ao contrário, o ensino misto masculiniza as raparigas.
Na nossa cultura feminina, quando se põem rapazes e raparigas, homens e mulheres, sob o mesmo tecto, mais cedo ou mais tarde as mulheres controlam e dominam o ambiente. O ensino misto em Portugal é um ónus sobretudo para os rapazes, tolhe o desenvolvimento da sua masculinidade.
Em Inglaterra, 80% das melhores escolas são escolas diferenciadas. E, sendo assim no estrangeiro, pode estar certo que aquilo que eu disse é verdade. O ensino misto em Portugal feminiliza os rapazes.
Está aqui uma das razões por que o Joaquim acha os jovens de hoje tão passivos (aqui).
E agora já se compreende mais o conteúdo da expressão
"certos meios".
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Agostinho via Ratzinger: Assim como na Igreja Católica pode-se encontrar o que não é católico, assim também fora da Católica pode haver algo de católico
Bento XVI disse isto no Angelus de domingo passado, ecoando
as leituras das missas de domingo, que falavam de gente que andava a profetizar
sem a autorização de Moisés e de gente de fora do círculo de Jesus que
expulsava demónios em nome de Jesus, deixando incomodados os seguidores mais
próximos:
"Assim como na Católica – isto é, na Igreja – pode-se encontrar o que não é católico, assim também fora da Católica pode haver algo de católico" (Agostinho, Sobre o batismo contra os donatistas: PL 43, VII, 39, 77). Por isso, os membros da Igreja não devem sentir ciúmes, mas se alegrar se alguém externo à comunidade faz o bem em nome de Cristo, contanto que o faça com reta intenção e com respeito. Mesmo dentro da própria Igreja pode acontecer, às vezes, que se custe a valorizar e a apreciar, em um espírito de profunda comunhão, as coisas boas realizadas pelas várias realidades eclesiais. Em vez disso, todos devemos ser capazes de nos apreciar e estimar reciprocamente, louvando o Senhor pela infinita 'fantasia' com a qual ele age na Igreja e no mundo."
Comentário de Christian Albini no blogue Sperare per Tutti:
Essas palavras de Bento XVI, pronunciadas durante o Ângelus desse domingo, pertencem àquela parte do seu magistério que muitos de seus laudatores mais entusiastas parecem esquecer. São os intransigentes da identidade e do exclusivismo. Não querem admitir que o Espírito está presente fora das fronteiras eclesiais, gostariam de cercá-lo, de reconduzi-lo à sua própria medida.
Se palavras desse tipo, que, de fato, são uma paráfrase do Evangelho desse domingo, são ditas pelo papa, no máximo são ignoradas. Se, ao contrário, são ditas por outros, acusa-se-lhes de querer se comprometer com o "mundo" e de relativismo. Isso aconteceu e acontece com muitos expoentes de um catolicismo mais aberto e dialogante.
domingo, 30 de setembro de 2012
Bento Domingues: As mulheres não contam?
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Precisamos de outro Inácio, se quisermos evitar o surgimento de outro Lutero
Paul Valadier, jesuíta francês (julgo que foi ele que mostrou que uma das grandes invenções do cristianismo foi a consciência), afirma que a Igreja só terá credibilidade no presente e no futuro se fizer uma coisa óbvia: admitir dentro de si o pluralismo - como soube fazer ao longo da história. É preciso um novo Inácio, diz, para que não surja outro Lutero. E já agora, ao contrário da primeira vez, que o novo Inácio apareça antes do novo Lutero.
Deveria ser óbvio que, mesmo sem ter de conformar-se com o mundo atual, a Igreja não pode anunciar a mensagem da qual é portadora se ela mesma não se deixar marcar pelo Evangelho. Como na época de Inácio, mas de formas diferentes, a Igreja precisa reformar-se, converter-se, abrir-se para o Espírito. Isso é, na verdade, uma banalidade. Mas suas consequências são significativas. Inácio inventou meios para uma transformação da Igreja, fazendo um apelo à missão apostólica de um papado considerado irreformável por outros (Lutero). Nossa situação não é mais a mesma, mas, como Inácio, convém certamente chamar a Igreja a cumprir a sua própria missão. Esta foi muito significativamente esclarecida e atualizada pelo Concílio Vaticano II.Ler tudo aqui.
Como anda a abertura às grandes decisões desse Concílio? Os questionamentos sobre mentalidades e estruturas eclesiásticas esclerosadas continua? Não se está presenciando antes uma preocupante restauração, incentivada pelas mais altas autoridades da Igreja? Restauração imposta que, como vemos nos Estados Unidos, ameaça religiosas devotadas que dedicaram uma vida inteira aos outros e são amplamente reconhecidas pela opinião pública. Restauração sorrateira, quando a hierarquia romana incentiva as forças mais tradicionais e fechadas entre os fiéis ou no seio da sociedade.
Ora, a Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio um justo pluralismo, segundo sua longa tradição, que sempre aceitou a vasta pluralidade das liturgias (não só no Oriente, mas também no Ocidente antes do Concílio), assim como admitiu espiritualidades diversas e ordens religiosas de estilos de vida tão diferentes! Aceitar tal pluralismo pressuporia, da parte da hierarquia, uma escuta deliberada do povo de Deus, movido pelo Espírito, abandonando a arrogância, muito romana, daqueles que creem estar acima, quando, em princípio, são servidores. Uma revolução copernicana como essa é improvável de imediato. No entanto, é uma condição de sobrevivência do catolicismo num mundo pluralista que suporta cada vez menos o autoritarismo de uma minoria apartada das raízes vivas da vida cristã e, por esta razão, cada vez menos “reconhecida” pelos fiéis, sem falar das outras. Para tanto, precisamos de outro Inácio, se quisermos evitar o surgimento de outro Lutero.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Os "pingos amargos" do sr. Pingo Doce
Bento Domingues referiu há dias (ver aqui e comentários), na
sua crónica, a entrevista que Alexandre Soares dos Santos deu a Anabela Mota
Ribeiro (revista “2” do “Público” de 2 de setembro). Aqui ficam os “pingos
amargos” do acionista principal da Jerónimo Martins.
(…) Sou católico, crente, praticante, e gostava, se na realidade houver alguma coisa para lá, de encontrar o meu pai (…).
Tem na sala uma fotografia com o Papa João Paulo II. Foi importante para si o encontro com ele? O que é que representou?
Foi importante conhecê-lo, mas o Papa que conheci era um Papa com muita idade. Era uma reunião privada, organizada por um padre muito nosso amigo. Eu tinha esperado uma hipótese de… falar.
Sobre o quê?
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…)
A conversa com o Papa seria para discutir a sociedade. Não seria para falar dos seus problemas íntimos. Tudo está direccionado para o domínio social.
Filha, quando se chega à minha idade, sei exactamente para onde vou. (...)
Tanto diz coisas que politicamente consideraríamos à esquerda como outras à direita.
Mas isto não é um problema de esquerda ou de direita. Eu não sou de esquerda nem de direita. O António Barreto diz-me que sou um conservador liberal. Sou é cristão. Não digo que sou católico. Sou cristão. Como tal, tenho um conjunto de valores e princípios que tenho de respeitar (...).
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Quatro teses e uma leitura sociológica do Vaticano II
O leitor João (Fernando) Duque, que não é o teólogo de Braga
nem o economista de Lisboa, deixou um extenso comentário no último texto de
Anselmo Borges, que, com a devida autorização, reproduzo aqui.
O tema do Concilio Vaticano II dá muito “pano para mangas”,
como se costuma dizer, e muito mais neste ano de 2012, em que se comemoram os
50 anos do início desse magno acontecimento (eclesial e civilizacional).
É provável que ao longo deste ano saiam vários livros sobre
o tema, algumas memórias de bispos que nele participaram (embora o contributo
dos portugueses tenha sido insignificante, o que todos os historiadores dizem).
Na Comunicação Social, receio bem que os jornalistas afinem
todos pelo mesmo diapasão e que venham glosar até à exaustão o mote do
“Concílio-oportunidade-perdida-para-a-renovação-da-reacionária-Igreja-Católica-concílio-esse-cujas-premissas-foram-traídas-nos-anos-subsequentes-pelos-Papas-e-pelo-aparelho
eclesiástico”).
Basicamente, julgo que há quatro teses interpretativas sobre
o Concílio Vaticano II, e começo por apresentá-las, da Esquerda para à Direita
(usando uma linguagem política, que também pode ser eclesial... embora se trate
de uma simplificação algo abusiva):
1) Tese dos Progressistas radicais (os que ainda estão - mais
ou menos - dentro da Igreja): “O Concílio foi apenas uma mudança cosmética e
superficial numa Igreja irreformável, autoritária, patriarcal, e misógina;
deveria ter ido muito mais longe (abolição do celibato sacerdotal, ordenação de
mulheres, reconhecimento dos anticoncetivos, do divórcio, regime parlamentar na
Igreja, - e toda uma agenda progressista radical tipo BE, muito anos 60-70) -
mas não foi, e daí o seu fracasso”.
2) Tese dos Progressistas moderados: “O espírito do Concílio
foi travado pela reação neoconservadora de João Paulo II e da Cúria romana e de
movimentos conservadores (Opus Dei, Comunhão e Libertação, etc.), mas virá um
dia um novo João XXIII e será retomado”; “Estamos a atravessar um Inverno, um
parêntesis, mas virá uma nova Primavera da Igreja”.
3) Tese dos Conservadores moderados (Bento XVI, e também
linha atual da Igreja, pelo menos desde 1978): “O Concílio foi bom e inspirado
pelo Espírito Santo, mas os progressistas e modernistas deturparam o sentido
dos documentos conciliares e daí a crise pós- conciliar. É preciso ler o Concílio
à luz da tradição da Igreja, que começou há dois mil anos com Jesus Cristo e
não em 1962. Na Igreja há espaço para reformas, mas nunca para revoluções
(cortes abruptos com o passado)”; “Temos que descobrir o verdadeiro Concílio
Vaticano II e não a caricatura que os progressistas radicais dos anos 60-70
quiseram veicular e que foi a verdadeira causa da crise”.
4) Tese dos Conservadores radicais (Integristas de Mons.
Lefebvre e similares): “O Concílio foi a vitoria dos hereges “modernistas”
sobre a verdadeira Tradição católica, apoiados por dois Papas de ortodoxia
duvidosa (João XXIII e Paulo VI) e o resultado foi uma enorme crise da Fé
católica, da Moral, de vocações, que infetou a Igreja até aos dias de hoje”; “Só
um milagre é que salvará a Igreja da sua decomposição às mãos dos
modernistas/progressistas”; “Bento XVI é apenas um gestor moderado e não um
verdadeiro restaurador da Tradição”.
Haveria também uma quinta tese, mais e laica e
“sociológica”, que se poderia formular mais ou menos da seguinte maneira:
1. Nos anos 60 produziu-se, no mundo ocidental, uma
revolução cultural e de mentalidades, que se caracterizou pela contestação
geral de qualquer tipo de Autoridade (do Estado, da família, no Exército, na
Universidade, na Igreja); à separação definitiva do sexo e da reprodução
(invenção e comercialização da pílula); à entrada maciça e definitiva das
mulheres (de todos os estratos sociais) no mercado de trabalho e à sua
autonomia sexual e financeira; por um ideal simultaneamente Individualista e
Coletivista (movimentos sociais, como os Hippies, etc.), pelo trunfo de uma
Contra-Cultura baseada na exaltação do momento, do instante, do prazer momentâneo
(música, sexo casual, droga, “happenings”); pela ascensão de uma sociedade de
abundância, depois da penúria do Pós-guerra (apogeu dos “Trinta Gloriosos”, de
Jean Fourastié, antes da crise petrolífera de 1973); pela consolidação das
classes médias neste capitalismo “civilizado” e social-democratizado, governado
alternadamente pelos Socialistas e pelos Conservadores democratas-cristãos.
2. Esta revolução usou ainda uma linguagem marxista, dado o
“zeitgeist” dominante na Europa Ocidental do Pós-Guerra, em que um marxismo
difuso dominava as ciências humanas, e até o jornalismo: mas na sua essência,
era libertária-individualista.
3. Nos anos 70-80, quando o Marxismo perde a aura que o
envolvia há décadas como horizonte utópico da Historia humana (graças às
revelações de Soljenitsine sobre o Gulag soviético, o genoidio do Cambodja, a
revelação das atrocidades do Maoismo depois da morte de Mao em 1976, os
“Nouveaux Philosophes” parisienses que desmarxizaram a intelectualidade
francesa e europeia), o que ficou de todo este vasto movimento foi a ideia de
uma autonomia do indíviduo em todas as esferas; assim, da comuna “hippie” ou da
célula maoísta ou trotskista dos anos 60 para o escritório “chic” dos
arrogantes e sôfregos “yuppies” neoliberais dos anos 80, há mutação mas não rutura;
4. Uma instituição conservadora, como é a Igreja Católica
tentou uma conjunto de reformas e adaptações ao mundo contemporâneo num período
de grande turbolência , como foram os anos 60; ora era impossível não ser
envolvida pelos “ventos “ que então sopravam; a isto há ainda a acrescentar a
celebre frase de Tocqueville que o pior momento para um sistema “autoritário”
(sem sentido pejorativo, referia-se à Monarquia de Luís XVI) é quando decide
enveredar pelo caminho das reformas;
5. Os ventos desta “revolução cultural” (muito mais profunda
que a chinesa de Mao Tse Tung, embora com muitíssimos menos mortos...) entraram
na Igreja católica através das janelas abertas pelo Concílio, Igreja católica
essa que era “quase” um vaso hermético desde pelo menos, o pontificado
ultramontano de Pio IX (meados do século XIX), e o resultado foi não tanto a
renovação ou um novo impulso (como desejavam o “bom Papa João” e numerosos
católicos de boa vontade…) mas sim a confusão, o caos instalado, as crises de
consciência de numerosos padres e fieis, a quebra das vocações religiosas, a
sedução pelas ideologias revolucionárias por parte do “Progressismo católico”
(mais de um século depois dos socialismos utópicos de 1830-1848 que ainda
sonhavam com a síntese Cristianismo/Socialismo), a contestação da autoridade do
Papa (o celebre episódio da encíclica “Humanae Vitae”, de 1968, contestada em
todo o mundo, até por alguns bispos e teólogos), o desânimo e desagregação de
numerosos movimentos eclesiais, o decréscimo do número de praticantes, o
esvaziar dos seminários e toda uma decadência/crise eclesial que persiste, com
muito mal-estar interno , mesmo após os movimentos “retificativos” de João
Paulo II e Bento XVI.
6. O movimento de secularização, iniciado em meados do
século XVIII, prosseguiu ao longo dos últimos dois séculos, com fases
alternadas de avanço rápido e de “slow motion”; nos anos 60-70, toda esta
revolução cultural produziu uma aceleração acentuada deste processo, que
reduziu a Igreja Católica, nos países europeus (o resto do Mundo: América
Latina, África, Ásia é um caso a analisar à parte) a uma sombra do que foi.
Ainda assim, resistiu melhor que as Igrejas anglicanas (Grã-Bretanha) e
luteranas (países escandinavos), muito mais permeáveis ao “ar do tempo”, mas
que curiosamente (ou talvez mesmo por causa disso), conheceram um declínio
muito mais acentuado.
sábado, 25 de agosto de 2012
Anselmo Borges: "A religião do gato"
Francis X. D'Sa
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui)
Era uma vez um guru que todas as noites fazia meditação com os seus discípulos. Um dia, um gato entrou na sala e, correndo por todo o lado, perturbou a meditação. O guru ordenou então que se prendesse o gato fora, durante a hora da meditação. Deste modo, todos puderam meditar sem serem importunados. O tempo passou. O guru morreu e foi substituído por outro guru, que tudo fez para que se respeitasse estritamente a tradição, dizendo, entre outras coisas, que era necessário prender um gato fora, durante a hora da meditação. Quando também o gato morreu, procurou-se outro, para prendê-lo fora, durante a hora da meditação. Uma vez que as pessoas não compreendiam o sentido desta medida, apelou-se a teólogos, que escreveram dois grossos volumes cheios de notas sobre a necessidade sagrada de se ter um gato preso fora, durante a meditação da noite. O tempo passou, a meditação caiu fora de uso, já ninguém se interessava por ela. Mas, para respeitar o rito, continuou-se a prender um gato."
Aí está uma bela estória, contada pelo teólogo indiano Francis X. D'Sa, que diz bem como tantos costumes e leis, mas sobretudo a religião, se podem tornar vazios de sentido, sem qualquer conteúdo.
De tal modo Jesus atacou a religião meramente formal, ritualista, que poderia bem ser o autor desta estória. Verberou de modo cru a hipocrisia: "Ai de vós, hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Ai de vós, hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade! Ai de vós, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, quando por dentro estão cheios de rapina e iniquidade! Ai de vós, hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície!" E não foi ele que pronunciou a afirmação mais revolucionária na história das religiões: "o Homem não foi feito para o Sábado, mas o Sábado para o Homem", significando deste modo que o critério último de validade de todas as leis, mesmo das leis de Deus, é o serviço ao Homem, a todos os seres humanos, na sua dignidade?
Há 50 anos, precisamente em Julho de 1962, quando um calor sufocante fazia transpirar os cardeais nas comissões de trabalho conciliares - estava-se na preparação do Concílio Vaticano II -, o Papa João XXIII começou a distanciar-se de alguns esboços preliminares. Conta Juan Masiá, citando o biógrafo dos Papas, P. Hebblethwaite: Um dia o bom Papa João "mediu uma página com a sua régua e disse: 'Quinze centímetros de condenações e apenas dois centímetros de louvor. Porventura é este o modo de dialogar com o mundo contemporâneo?
"Coube ao cardeal Montini (depois, Papa Paulo VI) a tarefa de fazer compreender este ponto, na reunião final da Comissão Central. Os anátemas e as condenações, disse Montini, não são a resposta para os erros contemporâneos. No mundo moderno, os remédios contra os erros são a misericórdia, a caridade e o testemunho de vida cristã.
"Após este discurso, ouviu-se o cardeal Ottaviani - era o inquisidor do Santo Ofício - murmurar: 'Peço a Deus que me chame antes de acabar o Concílio; assim estarei seguro de que morro como católico.'
"Chegava o momento de partir para férias. O Papa não ficaria livre antes de 31 de Julho. No dia 30, recebeu Shizuka Matsubara, superior de um santuário xintoísta em Quioto. Anotou no seu 'Diário': Deu-me muito gosto receber uma visita tão boa... O Papa deseja estar unido a todas as almas honradas e rectas, onde quer que se encontrem, de qualquer nação, num clima de respeito, compreensão e paz..."
À distância de 50 anos, não falta quem atribua em grande parte ao Concílio a causa da actual crise da Igreja, por causa da perda da sua identidade. Ora, aqui, é preciso dizer que a identidade nunca é dada de modo fixo e definitivo, pois é histórico-narrativa. Apesar de o processo nem sempre ser fácil nem isento de sofrimento, numa identidade sã e adulta, auto-afirmação e abertura ao outro, a todos os outros, co-implicam-se.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Ah, grande Romano
A Igreja não se identifica com uma parte concreta da sua hierarquia, com uma escola teológica ou com uma práxis tradicional. A Igreja é muito mais que tudo isto, e em qualquer momento cabe o recurso à sua totalidade e essência. Sei que tudo isto deve ser dito e feito com cautela, pois a autoridade torna-se atual no concreto e a obediência deve também ser exercitada concretamente. Apesar disso, existe igualmente uma relação imediata com a Igreja na plenitude da sua essência, a partir da qual é possível agir "sem temor", como diz S. Paulo, quando a inteligência e a voz da consciência assim o exigem. Posso dizer que sempre me senti Igreja, até quando, para servi-la, tive de caminhar sozinho.
Romano Guardini na sua "Autobiografia"
domingo, 3 de junho de 2012
Umas notas sobre o encontro mundial das famílias
O Encontro Mundial das Famílias parece que correu
bem. Ainda bem, também para o Papa, que nestes dias, como quase sempre desde
que é Papa, se tem visto cercado de quase todos os lados.
Espero ler algo mais sobre o encontro das famílias,
mas das primeiras notícias na imprensa generalista só me ficam lugares comuns.
O primeiro é o do domingo para o descanso, com as
inevitáveis críticas ao comércio aberto neste dia. É uma reclamação “muito
católica”. Mas na verdade inconsequente e impraticável. Geralmente, o alvo é o
grande comércio, os centros comerciais, as “catedrais do consumo” (engraçado
que os centros comerciais são “catedrais do consumo” enquanto as religiões todas
fazem parte do “supermercado religioso”). Mas se o descanso tivesse mesmo de
ser para todos, quem nos atenderia no cinema, na esplanada do café, na bomba de
gasolina ou mesmo num hospital? Dirão que o que está em causa são os serviços
não essenciais. Mas quem decreta o que é essencial? Para muitas famílias, ir ao
supermercado, no único dia em que não há trabalho, infantários, escola… pode
mesmo ser algo de essencial.
O segundo é o das “medidas” para os divorciados
recasados. O Papa disse (li aqui) que os recasados “ficaram
marcados pela experiência dolorosa do fracasso e da separação" e que o "papa e a
Igreja apoia a vossa dor". E acrescentou: "Encorajo-vos a manterem-se
unidos às vossas comunidades, desejando que as dioceses tomem a iniciativa de
vos acolher, com a proximidade adequada".
Com certeza que o divórcio é algo de
doloroso para quem aposta a vida numa relação a dois. Mas julgo que pelo menos
quando uma nova relação acontece – geralmente mais bem-sucedida do que a
primeira – as marcas do “fracasso” e da “dor” desaparecem. Alguns acham mesmo
que finalmente encontraram a pessoa da vida deles. Estou a pensar em casos
concretos. E esses, se católicos, geralmente gostariam de receber a bênção da
Igreja - têm a de Deus - e a Comunhão. Acolhimento com “a proximidade adequada”? O que é isso? Se
pretendem unicamente a bênção e a Comunhão e não lhes podem dar isso… Isto não
vai lá com iniciativas das dioceses. O divórcio entre recadados e Igreja só pode aumentar.
Última nota. Quem participasse no encontro milanês obtinha uma “indulgência plenária”. O papel que decretou a indulgência
foi assinado pelo cardeal Manuel Monteiro de Castro. Indulgência plenária? Faz
sentido este tipo de coisas? E depois querem que o sacramento da Reconciliação tenha credibilidade. Espero que isto não se tenha sabido entre os
participantes.
domingo, 13 de maio de 2012
Para não cair no monte de resíduos religiosos
Hoje, de modo algum, deve-se libertar o cristianismo do
campo de tensão. Se este não é universalmente (catolicamente) significativo,
então cai, com todos os discursos – sejam eles pronunciados a partir da palavra
da Bíblia ou de um magistério eclesiástico – no monte de resíduos religiosos.
Hans Urs Von Balthasar, em 1972, na fundação da “Communio”
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