segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Precisamos de outro Inácio, se quisermos evitar o surgimento de outro Lutero


Paul Valadier, jesuíta francês (julgo que foi ele que mostrou que uma das grandes invenções do cristianismo foi a consciência), afirma que a Igreja só terá credibilidade no presente e no futuro se fizer uma coisa óbvia: admitir dentro de si o pluralismo - como soube fazer ao longo da história. É preciso um novo Inácio, diz, para que não surja outro Lutero. E já agora, ao contrário da primeira vez, que o novo Inácio apareça antes do novo Lutero.
Deveria ser óbvio que, mesmo sem ter de conformar-se com o mundo atual, a Igreja não pode anunciar a mensagem da qual é portadora se ela mesma não se deixar marcar pelo Evangelho. Como na época de Inácio, mas de formas diferentes, a Igreja precisa reformar-se, converter-se, abrir-se para o Espírito. Isso é, na verdade, uma banalidade. Mas suas consequências são significativas. Inácio inventou meios para uma transformação da Igreja, fazendo um apelo à missão apostólica de um papado considerado irreformável por outros (Lutero). Nossa situação não é mais a mesma, mas, como Inácio, convém certamente chamar a Igreja a cumprir a sua própria missão. Esta foi muito significativamente esclarecida e atualizada pelo Concílio Vaticano II.

Como anda a abertura às grandes decisões desse Concílio? Os questionamentos sobre mentalidades e estruturas eclesiásticas esclerosadas continua? Não se está presenciando antes uma preocupante restauração, incentivada pelas mais altas autoridades da Igreja? Restauração imposta que, como vemos nos Estados Unidos, ameaça religiosas devotadas que dedicaram uma vida inteira aos outros e são amplamente reconhecidas pela opinião pública. Restauração sorrateira, quando a hierarquia romana incentiva as forças mais tradicionais e fechadas entre os fiéis ou no seio da sociedade.

Ora, a Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio um justo pluralismo, segundo sua longa tradição, que sempre aceitou a vasta pluralidade das liturgias (não só no Oriente, mas também no Ocidente antes do Concílio), assim como admitiu espiritualidades diversas e ordens religiosas de estilos de vida tão diferentes! Aceitar tal pluralismo pressuporia, da parte da hierarquia, uma escuta deliberada do povo de Deus, movido pelo Espírito, abandonando a arrogância, muito romana, daqueles que creem estar acima, quando, em princípio, são servidores. Uma revolução copernicana como essa é improvável de imediato. No entanto, é uma condição de sobrevivência do catolicismo num mundo pluralista que suporta cada vez menos o autoritarismo de uma minoria apartada das raízes vivas da vida cristã e, por esta razão, cada vez menos “reconhecida” pelos fiéis, sem falar das outras. Para tanto, precisamos de outro Inácio, se quisermos evitar o surgimento de outro Lutero.
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13 comentários:

João Silveira disse...

Se viesse outro Inácio, este cavalheiro seria logo posto a andar.

"Igreja Católica só terá credibilidade se..."

A Igreja tem credibilidade porque é o Corpo de Cristo, não se fizer isto ou aquilo.

Essa tal "preocupante restauração" está a ser feita pelo Papa, a quem este senhor fez um voto de especial obediência, o quarto voto dos jesuítas. Mas o que é isso de jurar alguma coisa nesta sociedade "plural". Isso já não vale o que valia, com Inácio.

Esse tal pluralismo deve ser contra a Summorum Pontificum, claro.

Jorge Pires Ferreira disse...

A Igreja Católica só tem credibilidade quando é como o seu fundador, que é a fonte de toda a pluralidade, a começar pelos evangelhos, que são quatro porque um único não chegava.

Anónimo disse...

Não dá jeito ao autor do blogue. O Padre deve obediência ao Papa. Mas isso ele não entende...

Jorge Pires Ferreira disse...

Valadier deve obediência ao Papa, como todos os jesuítas. "Mas isso ele não entende"?! Como sabe que Valadier não entende isso? E o Papa não deve obediência a ninguém?

Anónimo disse...

Questionar se o papa deve obedecer a alguém diz bem das suas intenções. Mas o senhor lá sabe das suas razões... Tenha um pouco de juízo

Jorge Pires Ferreira disse...

Só perguntei:
E o Papa não deve obediência a ninguém?

Pergunta desnecessária, claro. É óbvio que sim.

Quanto às minhas intenções, parece mais informado do que eu próprio - no sentido de saber algo que eu não sei.

O concelho do juízo, que a minha filha de 14 meses também me dá, é bem recebido. Obrigado.

José J.C. Serra disse...

jorge, paciência, meu caro. e um grande abraço de solidariedade: fazes um bom trabalho de questionamento e ouves «desaforo». o que me admira é esta gente que apregoa que cristo liberta e depois escreve insultos sob anonimato. jesus chamou-lhes «sepulcros caiados»...

Anónimo disse...

Não percebo a sleuma que o texto de Paul valadier possa levantar. Muito bem dito e ponto! Ele bem sabe o que a Companhia sofreu em tempos e pela obediência em nada se opôs ao Papa. (Vide Relação IHS e João Paulo II). Por outro lado parece bem claro a ideia de tentar evitar/abafar a pluraridade (vide experiências no Oriente; Teologia da Libertação; ritos não romanos etc....esquecendo, como muito bem diz o Jorge, os 4 evangelhos e a forma visivelmente inspirada como Paulo e os apóstolos se dirigiam às diferentes gentes com quem se cruzavam...pois é não havia direto canónico nem algumas hierarquias mais preocupadas com jogos politicos e menos com o Reino dos Céus (vide caso do senhor mordomo e a forma como o Papa falou do caso)
Obrigado Jorge por ter este blog e por colocar estas grandes entrevistas online...os media Católicos não estão "nem aí" para estas coisas! Verdade que, na comparação com a maior parte das hieraquias europeias ainda vamos tendo muito ES a pairar neste pequeno retangulo.

João Silveira disse...

Jorge, a Igreja é o Corpo de Cristo.

Deixo-lhe aqui um video: http://www.youtube.com/watch?v=HpI_-UXmKYM&feature=share

Anónimo disse...

O D. José Policarpo falou destas coisas na sua intervenção no encerramento do Simpósio do Clero este ano. AH! Por sinal este blogue nada referiu acrca disso. Mas seria bom consultar essa intervenção. Acho que tem lá as respostas para este post.

Anónimo disse...

"...Aceitar tal pluralismo pressuporia, da parte da hierarquia, uma escuta deliberada do povo de Deus, movido pelo Espírito, abandonando a arrogância, muito romana, daqueles que creem estar acima, quando, em princípio, são servidores..."

Absolutamente verdade. Já não estamos no tempo em que a ignorância de muitos permitia a arrogância e prepotência de poucos.

Agradeço a Deus "os Inácios" que nos vai dando . São os apóstulos de presente. Peço para eles a força do Seu Espírito.

Jorge Pires Ferreira disse...

Caro anónimo das 12:50,

Li agora mesmo um texto sobre o que o D. Policarpo disse aos padres no simpósio

http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=92359

Compreende, certamente, que este blogue não é uma agência de notícias, pelo que só refiro coisas que me chamam a atenção, que considero relevantes ou para as quais sou me sinto convidado. O simpósio do clero não se encaixa em algumas destas condições.

Leio na notícia…

Numa intervenção intitulada ‘O Padre, peregrino da Fé’, o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse ser “preocupante saber de sacerdotes que, acerca de aspetos vitais, ousam dizer: ‘a Igreja pensa que …, mas eu penso de outro modo’”.

…e compreendo o que quis dizer com o “que tem lá as respostas para este post”. Mas não sei a que "aspetos vitais" se refere D. José Policarpo. Tê-los-á esclarecido. O caro anónimo sabe quais são?

Mas não me parece que Valadier e Policarpo estejam em campos opostos. Podem, até, ser complementares.

Por outro lado, o Patriarca afirma:
“Se o sacerdote no exercício do seu ministério relativizar esta fé da Igreja e, ao sabor dos tempos, das teologias e correntes de opinião, optar por uma maneira pessoal de acreditar, ele torna-se um ‘funcionário do sagrado’, deixa de ser pastor”.

E concordo, ainda que me interrogue onde há mais “funcionários do sagrado”, se nos que relativizam ou nos que não relativizam nem uma vírgula da fé, dos costumes e da moral da Igreja.

Mas também podia afirmar o seguinte:

“Se o sacerdote no exercício do seu ministério não relativizar a letra da lei, se não olhar para os sinais dos tempos e para as circunstâncias e os contextos, opta por uma maneira impessoal de acreditar, ele torna-se um ‘funcionário do sagrado’, deixa de ser pastor”.

O padre José Policarpo fez o seu doutoramento precisamente sobre os sinais dos tempos. É preciso saber lê-los.

Anónimo disse...

Isso são palavras suas. O que muda tudo...

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