domingo, 15 de dezembro de 2013

«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

Perguntaram a Jesus, como porta-vozes de um outro inquiridor:

«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

E Jesus, como sempre, não dá uma resposta direta. Poderia simplesmente dizer:

- Sim, sou eu.
Ou
- Não, não sou eu.

E neste segundo caso a história teria terminado por aqui. Ou nem teria chegado a este ponto, se não fosse ele o esperado.

Jesus não diz que é Ele. Jesus habitualmente não tem medo de falar na primeira pessoa (Eu sou isto, Eu sou aquilo...), mas neste caso parece um jogador de futebol a falar de si mesmo na terceira pessoa. Manda contar a João, o tal inquiridor na base do pedido, o que viram e ouviram, curas e ações que pressupomos que foram protagonizadas por Jesus.

«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.

Há aqui duas coisas (há sempre muitas, mas eu só capto duas). É que a fé vem e vai sempre pelo ouvido e pelo testemunho. É preciso que vejam, ouçam e contem. Até João, o maior, precisa que lhe anunciem.

E, por outro lado, quem precisa de se convencer são os mensageiros. Se eles não verem e ouvirem, se não acreditarem nisso, não é Ele que devem esperar. Será outro. Se tiverem outra explicação, tipo: eles andam porque não estavam bem coxos; parecia que tinham lepra, mas era só pó da estrada; ou não estavam mortos, só atordoados... então ainda não é este o esperado. Virá outro.

Infelizmente, na maior parte das vezes, estou na fase em que arranjo uma explicação para o sinal do reino (notícia dos últimos dias: há um milagre atribuído a Paulo VI; reação minha: oh, não, também tu, Papa Paulo VI? Esperava que me poupasses a ter de gramar com o milagre...), o que me traz dissabores no encontro com o Mestre. Por isso, acho que é para mim que Ele diz:

E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».

É que eu encontro em ti (mudei de registo, de falar dele para falar com ele) motivo de escândalo. Motivos de não escândalo seria dizeres:

«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos não vêem, os coxos não andam, os leprosos não são curados,
os surdos não ouvem, os mortos não ressuscitam.


E assim as coisas já seriam mais viáveis hoje. O problema são os pobres. Se eu continuar a manipular a tua palavra, dá:

...e a boa nova  não é anunciada aos pobres.

Mas este milagre - sinal do reino - já pode acontecer hoje. A boa nova pode ser anunciada aos pobres (Olá, Papa Francisco). Não podemos fazer os primeiros cinco milagres, mas podemos cooperar no sexto. Estragaste-me o meu ceticismo milagreiro. Mas consigo arranjar nova desculpa: deverias era ter esclarecido quanto vale um pobre, qual o limiar abaixo do qual se é pobre. Meio denário por dia? Um quarto de denário?

Deixaste-nos uma porta aberta. Podemos continuar a discutir o que é "pobre", evitando lidar com eles. E isso nós sabemos fazer bem.

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