segunda-feira, 6 de julho de 2009

DSI 1 - O ambiente da "Rerum Novarum"


Charles Dickens escreve em 1854 no romance “Tempos Difíceis”: “Seguramente, nunca houve porcelana mais frágil do que aquela de que eram feitos os industriais de Coketown... Ficavam arruinados se se lhes pedia para mandar as crianças operárias à escola, ficavam arruinados quando eram designados inspectores para visitarem as suas fábricas, ficavam arruinados se estes mesmos inspectores consideravam duvidoso que tivessem direito a cortar as pessoas aos bocados com as suas máquinas, ficavam completamente arruinados se se insinuava que talvez nem sempre precisassem de fazer tanto fumo”.

Coketown é um nome fictício. Trata-se da típica cidade industrial do séc. XIX. Provavelmente nenhum autor como Charles Dickens soube escrever tão bem as consequências sociais da Revolução Industrial: condições de vida miseráveis nas cidades, exploração do trabalhador, crianças enviadas para orfanatos (quando ainda não podiam estar na fábrica), luxo e arrogância para a alta burguesia. Os salários eram baixos, havia trabalho infantil em grande escala (nas minas, as crianças podiam passar por galerias mais pequenas), os horários de trabalho podiam ser de 18 horas, abundavam os castigos físicos, não havia direitos de férias, descanso semanal, auxílio no desemprego. A conquista dos direitos é lenta e com muitos mártires.

A Revolução Industrial (RI), iniciada na segunda metade do séc. XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos têxteis, a exploração mineira em grande escala e o caminho-de-ferro, alastra-se a outros países e transforma por completo a vida da pessoas (a Portugal só chegou no séc. XX; e o processo repete-se hoje no Extremo Oriente). Algumas consequências: a casa deixa de ser o local de trabalho (como era desde a Idade Média) para ser a fábrica; as cidades crescem (Londres é a primeira cidade moderna a ultrapassar um milhão de habitantes porque é possível lá fazer chegar, por comboio, todos os dias, alimentos frescos); a família deixa de ser alargada e passa a nuclear; a mulher, trabalhando, torna-se autónoma; os bens são produzidos e consumidos em massa; o calendário passa a ser gerido em função do trabalho (as férias são um fruto da RI)… Hoje, os nossos costumes são, ainda, claramente fruto da RI, mais do que da Revolução Francesa de 1789.

Se Dickens descreve a sociedade, outros autores, naquela época, avançavam já para a interpretação e solução política. Karl Marx e Friedrich Engels escreveram em 1848 o “Manifesto do Partido Comunista” (MPC - mais tarde simplesmente "Manifesto Comunista"), que termina com o célebre apelo: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”

Encíclias sociais

Amanhã será finalmente revelada a nona encíclica social dos papas e primeira de Bento XVI, “Caritas in veritate”, segundo se diz. As outras oito são: Rerum Novarum (1891), Quadragesino Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963), Populorum Progressio (1967), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annus (1991).

Ao longo dos próximos dias vou inserir neste blogue alguns textos sobre cada um destes documentos de doutrina social da Igreja (DSI).

Movimento perpétuo


A afirmação de que os jornais não trazem nada de interesse é desmentida em cada edição que leio. Provavelmente, tal frase revela mais sobre a pessoa que a profere do que sobre a realidade e o reflexo dela nos jornais. Três exemplos no diário que sigo com mais atenção, relativos apenas a sábado e domingo (para além da nota já inserida sobre São Paulo):


Tecnociências e ser humano

Bento Domingues, no "Público" de 5 de Julho: “A pastoral da Igreja já compreendeu que não pode preocupar-se, apenas, com a aliança da cultura e da fé no campo da diversidade das expressões filosóficas e artísticas. As tecnociências, que estão a modificar a imagem que o ser humano tinha da sua própria natureza, da sua origem, das suas relações interpessoais, interpovos e com os outros seres vivos ou não, levantam novas questões à inteligência da fé e exigem um confronto entre diversas concepções éticas. Mediante o controlo da reprodução humana, do comportamento psíquico e das doenças, as tecnociências marcam já alguns aspectos da cultura do futuro. É preciso, para isso, que haja futuro”.


Fim da vida e ser humano

Matilde Sousa Franco, “a favor da humanização da morte”, citando Mons Feytor Pinto, no "Público" de 4 de Julho: “São inúmeras as questões que se levantam. Subsiste porém em todas elas uma preocupação dominante, a de servir o homem em crise e de lhe dar a esperança de que ele é capaz. Todos somos homens terminais, todos temos diante de nós a certeza da morte como acontecimento universal. Mas o doente terminal tem mais próxima a morte. O importante é ajudá-lo a viver esse momento como a síntese de toda a vida, com o sentido que marcou todos os caminhos já percorridos. O grande convite que é feito ao técnico de saúde é que, perante o doente terminal, se aproxime, pare, aceite ter tempo para escutar e acompanhe esse homem que sofre e que, em última análise, apenas espera uma outra mão para segurar a sua própria mão. É que a esperança de um amigo é sempre uma nova razão de esperança”.


Economia e ser humano

António Marujo, no "Público" de 5 de Julho: “Será finalmente publicada na terça-feira, após dois anos de expectativas e adiamentos, a terceira encíclica do Papa Bento XVI. Um texto onde o Papa aplicará os temas das duas encíclicas anteriores – o amor e a esperança – às questões sociais e no qual a crise actual será tema central (e uma das razões do adiamento). A mesma crise que mostra que devem “repensar” os modelos económicos e financeiros preponderantes”.

domingo, 5 de julho de 2009

Clássicos 12: "Ortodoxia", de Chesterton


(Primeiro parágrafo:) “A única desculpa possível para este desafio é o facto dele ser a resposta a um desafio. Um atirador, por muito mau que seja, fica sempre dignificado, desde que aceita um duelo. Quando, há algum tempo, sob o nome Heretics, publiquei uma série de ensaios um tanto apressadamente mas com sinceridade, alguns críticos, cujas qualidades de inteligência merecem o meu maior respeito (refiro-me especialmente a Mr. G. S. Street), vieram declarar que eu convidava toda a gente a tornar públicas as suas teorias sobre os problemas cósmicos, mas evitava, cuidadosamente, apoiar os meus preceitos com o exemplo. «Começarei a inquietar-me com a minha filosofia» - disse, nessa ocasião, Mr. Street - «quando Mr. Chesterton nos tiver apresentado a sua». Era, talvez, uma imprudente sugestão feita a quem está sempre inteiramente preparado para escrever um livro à mais leve provocação”.

Ortodoxia | Ortodoxy | Gilbert Keith Chesterton | Livraria Tavares Martins | 252 páginas, Porto, 1974

Gilbert Keith Chesterton (1874 - 1936), “príncipe do paradoxo”, especialista em Dickens, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, historiador, etc., etc., chegou a ter o seu próprio jornal, o "G. K.'s Weekly". Hoje teria blogues, além do jornal. Foi um dos maiores apologetas católicos do séc. XX. Pio XI admirava-o. Criou o detective Padre Brown.

Paulo e Pedro


Pedro Mexia, no “Público” de 4 de Julho, escreve sobre Paulo de Tarso. Além do habitual – que nasceu em Tarso, que é o primeiro intelectual cristão, que escreveu cartas (Mexia prefere a aos Gálatas), que escreveram sobre ele no Livro dos Actos, que teve uma revelação, que de Jesus valoriza a morte e ressurreição – diz, em notável síntese:

“A grande revelação Paulina consiste na convicção de que a fé em Cristo não se dirige apenas a judeus mas a todos. Ele é conhecido como «o apóstolo dos gentios» porque recusou a tese «judaizante» segundo a qual primeiro era preciso ser judeu (ou convertido ao judaísmo) e só depois se podia abraçar o cristianismo. Além disso, os judaizantes defendiam o cumprimento estrito da Lei, enquanto para Paulo a Lei era suplantada pelo espírito, e por isso os rituais e mandamentos judaicos estavam ultrapassados. Nenhuma outra doutrina causou tantos ataques. A polémica entre Paulo e Pedro é um dos momentos mais marcantes de toda a história do cristianismo e revela até que ponto o cristianismo é também uma religião de polémica e confronto, bem diferente de uma certa imagem beatífica e sentimental”.

Pedro Mexia dedica o texto a Tiago Cavaco, que é pastor baptista, bloguista (Voz do Deserto) e, ao mesmo tempo, músico panque-roque, como gosta de dizer, sob o nome de Tiago Guillul.

Imagem: "Damascus Illumination", de Paul Granlund, 1967, bronze na Igreja Luterana de S. Paulo, West Avenue at Madison.

sábado, 4 de julho de 2009

O Cardeal Martini e o Padre Brown


No texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

“Scalfari, cujo último livro é L’uomo che non credeva in Dio (O homem que não acreditava em Deus), disse ao cardeal que não crê em Deus e que o diz “com plena tranquilidade de espírito”. E o Cardeal: “Eu sei, mas não estou preocupado por causa de si. Por vezes, os não crentes estão mais próximos de nós do que muitos devotos fingidos”. Para ler aqui.

A afirmação do Cardeal Martini vai directamente para o interior da Igreja, porque, na sequência, seguindo o texto do DN, denuncia-se o carreirismo eclesiástico e realça-se a primazia da caridade sobre a prática religiosa e a necessidade de um concílio.

Mas faz lembrar aquela dimensão purgante do são ateísmo, do ateísmo sem preconceitos que é capaz de dialogar com os crentes, do ateísmo que quase sempre nega aquilo em que os crentes também não acreditam. Podem estar de facto, ateísmo e critianismo, muito próximos, o que faz lembrar a missão do Padre Brown, invocado precisamente no último número da “Communio”, revista tem sido referida em entradas anteriores neste blogue.

Escreve Tolentino Mendonça no artigo “A Bíblia e o Fantástico”: “Figura pequena e atarracada, atrás de uns óculos defensivos, mas munido de um humor desarmante, ele [Padre Brown, que é detective, criação de Chesterton] atravessa enredos que são na aparência Fantásticos: o sobrenatural irrompe aí das formas mais diversas, provocando reviravoltas espectaculares e inauditas. Ora, a missão do Padre Brown é precisamente dissolver o «efeito Fantástico», encontrando uma explicação racional para o que havia sido, demasiado rapidamente, declarado inexplicável. Aos olhos dos outros personagens, o Padre detective não pode ser senão controverso: mais descrente que os descrentes, irónico e minucioso, a agarrar-se convictamente à racionalidade, quando tudo nos deveria deslocar para o âmbito das formas espirituais. No fundo, ele combate para purificar o modo como o cristianismo e a religião são olhados, num tempo que diz não acreditar em nada, mas que na verdade acredita em demasiadas coisas e projecta-as caoticamente na cultura”.

Imaginários contemporâneos na "Communio"


COMMUNIO - Revista Internacional Católica

“Imaginários contemporâneos”

Out/Nov/Dez 2008


Da Apresentação:

“No mundo ocidental, desde a época das Luzes, vivemos um poderoso movimento iconoclasta e de desmitologização: venera-se a «positividade», os factos históricos, a máquina, o racional. Ironicamente, ao querer-se superar os «obscurantismo» do mito cria-se um outro mito – o do positivismo. Deu-se, depois, o movimento contrário: o ressurgimento do imaginário, em geral, e do mito, em particular. Ora, os produtos que emergem da imaginação humana exercem uma atracção bastante disseminada pelas várias formas de expressão cultural”.

Harry Potter é baptizado


Recentemente foi notícia o recuo da Igreja na nomeação de um padre austríaco para bispo. O padre era polémico por dizer que os livros do Harry Potter são satânicos ou que o furacão Katrina foi um castigo de Deus à cidade de New Orleans. Se em relação ao segundo assunto a visão do padre austríaco era inaceitável, em relação ao primeiro, não sendo original, revelava desconhecimento profundo dos livros, pelo menos é o que se conclui da leitura do artigo de Suzanne Bray intitulado “Da boa utilização da literatura fantástica”, no mais recente número da “Communio – Revista Internacional Católica”. “Os romances da série Harry Potter não são explicitamente cristãos”, escreve Suzanne Bray, mas J. K. Rowling “serve-se da imagética cristã”, além de inúmeras alusões à mitologia clássica e à alquimia. Mais: “Ela [a autora de Harry Potter] afirma-se cristã e praticante. Os seus filhos foram baptizados, e fez também baptizar o filho que criou, Harry”, acrescenta. "Rowling confirmou, na Feira do Livro de Edimburgo, em Agosto de 2004, que Harry foi baptizado à pressa numa cerimónia privada", afirma Bray. No entanto, "não tem madrinha".

Suzanne Bray sugere que a literatura fantástica, nomeadamente os livros e filmes de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crónicas de Nárnia, é útil para os educadores cristãos: “Em geral, Harry e os seus amigos não ultrapassam os obstáculos que encontram por meio da magia, mas sim graças à perseverança, à lealdade e à coragem", refere leiga anglicana e professora no Instituto Católico de Lille. "Escusado será dizer que a educação cristã deve, num ou noutro momento, integrar uma apresentação clara e sem ambiguidade do kerigma. No entanto, para aquele que já encontrou e compreendeu Aslan, Harry Potter e o Gandalf, o sacrifício de Cristo não será um conceito estranho. Do mesmo mesmo, aquele que seguiu as histórias de Edmund e Eustáquio em As Crónicas de Nárnia aceitará mais facilmente a conversão de um ser amado, ou até a sua”, prossegue.

Excelente número este, sobre “Imaginários Contemporâneos”, para o sempre necessário diálogo fé/cultura, com artigos, entre outros, de Michael Devaux (“Itinerarium imaginationis ad Deum. Viagem a Númeror com os Inklings), Tolentino Mendonça (“A Bíblia e o fantástico”), Olivier Riaudel (“Prescindir do mito e da desmitologização”), Carlos Salema (“O gato de Schrodinger”) e Antonio Sapadaro (“Second Life. O desejo de uma outra vida”).

Existência e inexistência de Deus


"Se não se pode provar a existência de Deus, ainda menos se pode provar a sua inexistência. As provas e a sua refutação não mostram senão disto: um Deus provado não é Deus: Ele não será mais do que uma coisa no mundo".

Karl Jaspers (1883-1969)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O poço de Hillesum


"Existe em mim um poço muito profundo. E, nesse poço, existe um Deus. Por vezes eu consigo atingi-lo, Mas, o mais frequentemente, as pedras e o entulho obstruem esse poço e Deus está soterrado. Então, é preciso trazê-lo à luz do dia".

Etty Hillesum (1914-1943)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Gratia Plena"

Escreve Maria João Avillez na página 113 da “Sábado” (2 a 8 de Julho de 2009):

“Segunda-feira, 29

Seria a mão do anjo, tão decisivamente interpelativa no seu anúncio? Seria o fulgor imperativo daquele gesto? A posição de Maria, sobre si mesmo sobrada de espanto a um canto do desenho? O sussurro do extraordinário diálogo que ali se operava? A espessura daquele segredo, o voo daquela pomba? Ainda hoje não sei. Só sei que, mal abri o pequeno catálogo desta exposição de Rui Sanches (Gratia Plena, na galeria João Esteves de Oliveira), telefonei de um avião pestes a descolar para a Turquia e disse ao João que o desenho tinha de ser para mim. Como se a mão erquida do anjo me tivesse também interpelado e de algum modo eu me visse subitamente envolvida na evocação do indizível mistério da Anunciação. Rui Sanches não sabe mas fui, de certeza. Agora o anjo vive connosco, mas é também comigo que ele fala, de uma das paredes cá de casa”.

O desenho não ilustra a opinião de M.J. Avillez, mas as palavras certas no Google permitem encontrar o grão de areia no meio da praia. Estava aqui.

Uma questão de verdade

O discurso da verdade, ou da procura da verdade, não pode nunca ausentar-se do cristianismo, quer na mais pura especulação teológica de uma qualquer faculdade, quer na mais singela homilia de uma aldeia perdida nos montes ou de uma comunidade suburbana.

Santo Agostinho dizia que é preciso compreender para acreditar (“intellige ut credas” – “compreende para acreditares”) e acreditar para compreender (“crede ut intelligas”). E acentuava que o primeiro momento precedia a opção de fé. Compreender, o esforço da razão, seria uma condição prévia à opção da fé. Por outras palavras, não pode haver decisão de coração (numa linguagem que nos aproxima de Rahner e Balthazar), sem haver decisão da cabeça, ainda que, para Agostinho, como mais tarde para Tomás, num segundo momento, só a Revelação permitisse aceder à verdade. A razão é uma escada que nos permite subir no entendimento da realidade, mas para a ver melhor, a partir de certo ponto, só a iluminação de Deus.

Hoje, contudo, no discurso da fé, a procura da razão é muito discreta se não totalmente ausente. Quem fala da adesão à fé, do Baptismo e do Matrimónio, da contracepção e da economia, das seitas e das religiões como questões da procura da verdade? O Papa lá vai atirando umas farpas ao relativismo, mas esse combate não desce do pico da pirâmide às bases.

Estes três parágrafos são apenas introdução para esta pérola de C. S. Lewis (na imagem):

"Pode-se ter uma boa vida sem se acreditar no cristianismo? Esta é a questão sobre a qual me pediram para escrever e, imediatamente antes de tentar respondê-la, tenho um comentário a fazer. A questão parece ter sido formulada por uma pessoa que diz a si própria, “Não me importo se o cristianismo é ou não verdadeiro. Não estou interessado em descobrir se o universo real é mais parecido com o dos cristãos ou com o dos materialistas. Tudo em que estou interessado é em ter uma vida boa. Vou escolher minhas crenças não porque as penso verdadeiras mas porque as considero úteis.” Francamente, acho difícil alguém simpatizar com esse estado mental. Uma das coisas que distingue o homem de outros animais é que ele quer conhecer as coisas, quer descobrir o que é a realidade, simplesmente por conhecer. Quando esse desejo é, em alguém, completamente sufocado, penso que esse alguém tenha se tornado algo menos que um homem. De fato, não acredito que nenhum de vocês tenha perdido esse desejo. Muito provavelmente, pregadores tolos, ao sempre dizerem o quanto o cristianismo ajudará a vocês e o quanto ele é bom para a sociedade, tenham levado vocês a esquecerem que o cristianismo não é um comprimido que se toma para algum mal. O cristianismo alega ter uma explicação para factos – alega poder dizê-los o que é o universo real. Sua explicação sobre o universo pode ser verdadeira, ou pode não ser, e uma vez que a questão está à sua frente, então sua natural curiosidade deve fazê-los querer conhecer a resposta. Se o cristianismo não é verdadeiro, então nenhum homem honesto desejará nele acreditar, não importa o quão útil ele seja: se ele é verdadeiro, cada homem honesto desejará nele acreditar, mesmo se isso não o ajudar de forma alguma”.

(Excerto de God in the dock, que surge no Blog do Angueth)

Fundadora de ordem religiosa

O realizador Fellini disse da coreógrafa Pina Bausch, que morreu no dia 30 de Junho e a quem dera um papel no filme “O Navio”, que era “uma monja com um gelado, uma santa com patins, um rosto de rainha no exílio, de fundadora de ordem religiosa, de juíza de um tribunal metafísico, que de repente nos pisca o olho…” (Público, 1 de Julho).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Clássicos 11: “O Diálogo”, de Santa Catarina de Sena


(Primeiro parágrafo:) "Estava certa pessoa arrebatada em grandíssimo desejo da glória divina e da salvação dos homens… Exercitara-se durante algum tempo na prática da virtude, vivendo habitualmente na cela do autoconhecimento para melhor conhecer a Deus presente em si mesma. Quem ama, procura seguir a Verdade e revestir-se dela. Não existe, porém, melhor modo de saborear a Verdade e de ser por ela iluminado, que a oração humilde e contínua, baseada no conhecimento de si e de Deus. Tal oração une o homem a Deus nas pegadas de Cristo crucificado; identifica-o com ele no desejo, na afeição, na união amorosa. Jesus parece afirmar tudo isso, quando diz: “Quem ama, guarda as minhas palavras e eu me manifestarei a ele; será uma só coisa comigo e eu com ele” (Jo 14,21; 17,21). Em outras passagens bíblicas, ainda, encontramos o seguinte: pelo amor, o homem torna-se um outro Cristo!"

O Diálogo | Santa Catarina de Sena | Paulus, 1984, 420 páginas

Catarina nasceu em Sena (1347). Era a vigésima quarta filha de Tiago e Lapa Benincasa. Mística, ingressou na Ordem da Penitência de São Domingos, em 1362. Morreu no dia 29 de Abril de 1380, repetindo: “Pequei, pequei Senhor, tem piedade de mim”. Foi canonizada em 1461 e declarada doutora da Igreja em 1970, por Paulo VI. Dizem que era anoréctica. Os seus restos mortais estão na Basílica do Vaticano.

Zaqueu em duplicado

(Imagem: Mosaico da Basílica de São Marcos, em Veneza)


In Urbe
Zaqueu subiu a uma árvore
Para ver o Senhor.
A falta de árvores será então
o meu alibi.

Pedro Mexia, “Eliot e outras Observações”, Gótica, pág. 135


Zaqueu
A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pásssaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez.

Daniel Faria, "Poesia", edições quasi, pág. 167

terça-feira, 30 de junho de 2009

Paulo como era mesmo

O que surpreende na imagem recentemente descoberta (ver entrada anterior) é a semelhança com esta reconstituição do instituto alemão LKA NRW. Suponho que o instituto pertence à polícia. Terá feito a reconstituição em Janeiro de 2008.

A imagem paulina mais antiga?

Poderá ser esta a imagem mais antiga que se conhece de Paulo. É do séc. IV.

Diz o sítio da BBC Brasil:

“O fresco estava debaixo de uma camada de argila endurecida na catacumba de Santa Tecla, em Roma, a poucos metros da Basílica de São Paulo Fora dos Muros – dedicada ao apóstolo que se converteu ao Cristianismo após ter perseguido os cristãos.

A pintura foi descoberto no dia 19 de Junho, mas o anúncio foi feito apenas neste final de semana [na conclusão do Ano Paulino], na edição de domingo do jornal L'Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé”. Mais aqui.

Rahner e Ratzinger - III

Rahner e Ratzinger, numa altura em que se considerava que ambos estavam na dianteira da Igreja, ou melhor, do pensamento teológico. Muitos dizem que Rahner foi o teólogo mais influente do Concílio. Outros dizem que foi Congar. E outros, ainda, Ratzinger.

Rahner e Ratzinger - II

Logo após o Concílio, em 1965, Rahner, com A. van den Boogaard, P. Brand, Y. Congar OP, H. Küng, J.-B. Metz e E. Schillebeeckx, funda a revista Concilium. Ratzinguer, com Hans Urs von Balthasar e Henri de Lubac fundam a Communio, em 1972 (edições alemã e italiana). Dificilmente os nomes poderiam mais programáticos. Mas ambos os programas são essenciais.

Vitral de Rahner

Estimado por católicos e protestantes, Karl Ranher está representado no vitral da catedral episcopal (anglicanos norte-americanos) de S. Francisco (ao fundo, à esquerda, é só clicar).

Rahner e Ratzinger - I

Karl Rahner escreveu em 1962, com o Concílio a iniciar-se: “Com Ratzinger, entendo-me bem. Ele é muito estimado por Frings”. Ranher viu ser levantada, à última hora, a “censura preventiva” que o impedia estar presente no concílio. Estes dois seriam os teólogos mais influentes no Vaticano II. Ratzinger foi como especialista de Frings, cardeal de Colónia. Rahner, a convite de Konig, cardeal de Viena.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Clássicos 10: “Curso fundamental sobre la fe”, de Karl Rahner

(Primeiro parágrafo:) "Este livro propõe-se dar uma introdução ao conceito de cristianismo. Portanto, em primeiro lugar, trata-se somente de uma introdução e nada mais. Evidentemente, tal empresa está muito mais próxima de uma decisão pessoal pela fé do que outras publicações científicas ou teológicas ou que certos cursos académicos. Contudo, deve tratar-se aqui de uma introdução no contexto de uma reflexão intelectual, e não directa e imediatamente de um escrito edificante, embora seja claro que a relação de uma teologia do espírito e do entendimento com uma teologia do coração, da decisão e da vida religiosa represente de novo um problema muito difícil. Pretendemos, em segundo lugar, uma introdução ao conceito de cristianismo. Para isso, pressupomos à partida, a existência deste nosso cristianismo pessoal e próprio, na sua forma normal eclesiástica, e tentamos, em terceiro lugar, reduzi-lo ao conceito. Esta palavra “conceito” foi acrescentada para que fique claro que, falando com Hegel, se trata de um “esforço do conceito”. Por isso, quem de antemão procura somente estímulos religiosos e receia este esforço da reflexão paciente, fatigante e monótona, deveria prescindir desta investigação".

Curso fundamental sobre la fe | Título original: Grundkurs des Glaubens | Karl Rahner | Herder, 536 páginas | Barcelona, 1989

Karl Rahner (1904-1984), jesuíta alemão, talvez o mais importante teólogo católico do séc. XX, sintetizou na teologia o tomismo e o existencialismo, Kant e Husserl, J. Maréchal e M. Heidegger. Uma grande “reflexão paciente, fatigante e monótona” foi, afinal, o que Rahner fez ao longo da maior parte da vida. Mas falta acrescentar um adjectivo à caracterização da reflexão: “fecunda”.

O futebolista católico

Início da entrevista-a-tender-para-o-inquérito da revista “Ler” (Junho 2009) a João Miguel Tavares (JMT), jornalista e director-adjunto da “Time Out”:
Ler - João Miguel, qual é o seu pior defeito?
JMT - Sou um canalha da pior espécie. Um pulha sem princípios. Um patife que só pensa em si próprio.
Ler - A sério?
JMT - Não. Mas sempre sonhei dizer isto. Quando esta pergunta é feita nos inquéritos – sobretudo a jogadores de futebol -, dois terços respondem «Sou muito teimoso», e o outro terço varia entre «Tenho dificuldade em perdoar a traição» e «Confio demasiado nos outros». Nunca encontrei uma única alma que arranjasse um defeito que não dosse uma espécie de qualidade camuflada. Esta dificuldade em indagar o nosso interior só prova que o catolicismo não fez bem o seu trabalho. Tantos séculos de confissões, tanta gente ajoelhada diante do pároco, e hoje em dia não se consegue arranjar um pecado de jeito. Lamentável.
(Fim de citação).

Transcrevi aqui parte da entrevista por três motivos, cumulativos:
- o jornalista é dos mais estimulantes a escrever actualmente na imprensa portuguesa (escreve na lisboeta "Time Out", no "Diário de Notícias" e de vez em quando na "Notícias Magazine"). Gosto do humor dele;
- o jornalista usa recorrentemente uma linguagem com referências católicas (creio ter-se afirmado católico, mas não posso assegurar; de qualquer maneira, conhece bem os hábitos);
- faz pensar que a confissão não devia ser um mecânico dizer dos pecados, mas uma real introspecção; não um exercício de desarrisca ("desobriga") dos antigos cardenos paroquiais, nem uma correria nos tempos litúrgicos mais fortes, na actualidade, nas povoações ainda mais ou menos católicas, mas um encontro de autoconhecimento e renovação interior.
O que diriam então os futebolistas? "Vivo a tensão do já e do ainda não; do já viver como ser intregral, que foi criado para a plenitude, e do ainda não por não se terem realizado em mim todas as potencialidades, por viver marcado pelo homem velho". "Está a falar como futebolista?" - pergunta o entrevistador. "Sim, porque prognósticos só no fim do jogo, na plenitude dos tempos", diria o futebolista católico.

domingo, 28 de junho de 2009

Bento e Anselmo

Bento Domingues, no "Público" de 28 de Junho:

“Dir-se-ia que no Vaticano, há horror ao vazio; ainda não tinha terminado a vindima do Ano Paulino, já estava feita a sementeira do chamado Ano Sacerdotal. Ao dizer «chamado» quero destacar os equívocos a que está exposta a designação pastoral deste próximo ano, que os próprios bispos portugueses se encarregaram de desfazer: «A Igreja de Cristo é toda ela um povo sacerdotal. A vida e o ministério dos sacerdotes ordenados nascem do povo sacerdotal e a ele se destinam, em dedicação plena de alma e coração»”.


Anselmo Borges, no "Diário de Notícias" de 26 de Junho:

“Durante séculos, foi pregado um deus irado e mesquinho. (…) Mas, depois, foi-se para um outro extremo, não menos pernicioso. Começou-se a pregar um Deus que é amor, mas sem se perceber o que é o amor. Prega-se então um deus “bonzinho”, que nada exige, que não impõe regras nem limites, que permite tudo”.

Livro: Para rezar com mais uns milhares de portugueses


Para apresentar este livro, nada mais adequado do que as palavras do P.e Peter Stilwell, no Prefácio, que o explica a quem não segue habitualmente a programação da Rádio Renascença (RR): “Todas as manhãs, discretamente, nos interstícios de uma comunicação em catadupa, a animação matutina da RR altera, por um instante, o seu ritmo e abre-se uma fresta por onde sopram ventos de outras paragens, mais longínquas e profundas, onde a nossa humanidade continuamente se refaz. É um serviço de repercussões incalculáveis que a Renascença presta, quando, em casa, no caminho ou no trabalho, mesmo antes do sinal horário das oito, nos propõe a oração da manhã. São milhares os portugueses que, por um momento, interiormente se detêm para escutar e deixar-se mover ao ritmo de uma meditação ou de uma prece e, em paz, elevar o coração para Deus. O efeito derrama-se seguramente pelo mundo em volta numa filigrana de esperança e fraternidade”.

“Acordar com Deus” reúne as orações da manhã proferidas aos microfones da rádio por António Rego (padre e jornalista), João Aguiar (padre, presidente do Conselho de Gerência da RR), José Eduardo Borges de Pinho (leigo, teólogo), Maria da Conceição Costa Barreira de Sousa (mãe de quatro filhos, servita), Maria Teresa Frazão (professora), Maria Victor (leiga, educadora), Teodoro Mendes (leigo, ensaísta).

Orações que se lêem num minuto e que podem iluminar um dia inteiro.


Acordar com Deus, Vários autores, Ed. Paulinas, 166 páginas

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vinho do Porto e Felicidade


Tem sido uma descoberta recente a filosofia-sabedoria-espiritualidade de C.S. Lewis, o célebre autor das “Crónicas de Nárnia” (sete livros que deram origem a filmes e peças de teatro). Bento XVI citou-o numas das suas catequeses, logo no início do pontificado, e foi motivo para ficar de orelhas guiadas. Mas só recentemente procurei conhecer o autor, em parte por causa de um artigo da revista “Communio” sobre o itinerário da imaginação para Deus (“itinerarium imaginationis ad Deum)”.
C.S. Lewis era anglicano, convertido. Um dia, numa conversa com empregados da Electric and Musical Industries Ltd., em Heyes, Middlesex (Inglaterra), no dia 18 de Abril de 1944, perguntam-lhe:
“Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade?”
A resposta de Lewis: "Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou a abordar o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso à procura da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se vocês quiserem uma religião que vos faça felizes, não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que será de maior utilidade. Mas quanto a isso, não sei como vos ajudar”.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

E um debate entre Onfray e Zizek?

Imaginemos agora um debate entre Onfray e Zizek (ler entrada anterior). Um dizendo que o Deus cristão é um entrave à liberdade. O Outro rebatendo que Cristo é o verdadeiro potenciador da liberdade. Um afirmando a necessidade de supressão da religião, o outro realçando as possibilidades da fé.

Liberdade, Cristo e ateísmo

O que é ser livre? Quem pode ser livre? O cristão, acreditando que, em última análise tudo depende de Deus, pode ser livre? Se Deus for o Senhor do universo e do para-lá-do-universo, da vida e do para-lá-da-vida, do ser e do para-lá-do-ser, o homem será independente e livre?

Os cristãos pensam que sim. São mais livres porque acreditarem em Deus-Pai e em Jesus Cristo, o libertador. Pensam, segundo o exemplo de Cristo, que quanto maior for a dependência filial, maior será a liberdade. Pensam que a verdade, seja qual for, libertará.

Os ateus dizem o contrário, que é preciso matar Deus, apagá-lo da sociedade e das mentes, das aulas, das artes, das praças, da vida. Esquecê-lo. Ignorá-lo. Suprimi-lo. Em nome da verdade e da liberdade.

“Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso libertar-me. A liberdade nunca é dada. Ela constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem”, assim pensa Michel Onfray, na linha de Nietzsche, como disse numa entrevista à Veja (Brasil).

Esta é a linha comum dos ateísmos mais ou menos militantes.

Zizek, porém, afirmando-se materialista dialéctico, diz algo diferente. Em "A Monstruosidade de Cristo" (Relógio d’Água), afirma que Jesus, ao encarnar, faz-nos perder a transcendência paternal. Leva-nos a assumir a responsabilidade pelas escolhas. "Quando as pessoas imaginam toda a espécie de sentidos profundos porque as 'assustam as palavras que dizem: Ele fez-se Homem', aquilo que na realidade receiam é perderem o Deus transcendente que garante o sentido do universo, Deus como o senhor oculto que move os cordelinhos - em seu lugar encontramos um deus que abandona a sua posição transcendente e se precipita na sua própria criação, comprometendo-se com ela até à morte, o que faz com que nós, seres humanos, fiquemos sem qualquer Poder superior que olhe por nós, sem outra coisa que não seja o terrível fardo da liberdade e da responsabilidade pelo destino da criação divina e, portanto, do próprio Deus. Não continuaremos hoje a recear demasiado todas as consequências dessas palavras?"

Insistindo na última ideia: a encarnação de Cristo não será o maior incentivo à liberdade humana?

"Inklings": Escrita e cristianismo

“Temos uma espécie de clube informal chamado os Inklings; as qualificações [para ser membro] (…) são o gosto pela escrita e o cristianismo”.

C. S. Lewis


O clube Inklings existiu desde 1936 até à morte de Lewis (1963), embora a partir de 1949 as reuniões fossem menos regulares. “Tolkien e Lewis eram os pilares do grupo, que tinha uma vintena de pessoas. Tolkien leu aí o Hobbit, O Senhor dos Anéis, The Notion Club Papers (que põe em cena o próprio grupo dos Inklings!); e Lewis Out of The Silent Planet, Perelandra, The Problem of Pais e The Great Divorce”. Fonte: "Communio", Out/Nov/Dez 2008.

Clássicos 9: "Jesus Cristo Libertador", de Leonardo Boff


(Primeiro parágrafo:) «Quem dizem os homens que eu sou?» Essa pergunta de Jesus a seus discípulos ressoa através dos séculos até hoje e possui a mesma actualidade como quando foi colocada pela primeira vez em Cesaréia de Filipe (Mc 8,29). Todo homem que alguma vez se interessou por Cristo não pode se esquivar a semelhante questionamento. A cada geração cabe responde dentro do contexto de sua compreensão do mundo, do homem e de Deus».

Jesus Cristo Libertador | Leonardo Boff | Vozes, 1972, 286 páginas


Começar um livro (ou um artigo) sobre Jesus com a pergunta “Quem dizem os homens que eu sou” é um lugar lugar comum. E pode ser não eclesialmente correcto (!) considerar um clássico a obra de um teólogo que abandonou o sacerdócio. Mas este livro apresenta um Jesus Cristo comprometido no seu tempo, um Jesus que morre como consequência de uma vida que não podia deixar de ser um escândalo. Mas morre para a libertação da humanidade. E isso é da teologia mais ortodoxa que há. Leonardo Boff (Concórdia, Brasil, 1938) foi frade franciscano de 1959 a 1992. Diz que nunca abandonou a Igreja. Tem mais de 60 livros publicados e continua a dar conferências, principalmente no Brasil, onde vive com a educadora popular Márcia Miranda.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Somos petrinos e paulinos


O facto de a Igreja celebrar Pedro e Paulo no mesmo dia (29 de Junho) não querá significar que os cristãos são petrinos e paulinos? Crêem no Cristo da morte e ressurreição (paulino), mas também no carpinteiro, amigo de publicanos e prostitutas, proclamador de parábolas, provocador do templo e dos sacerdotes, profeta itinerante, perdoador de pecados, fazedor de milagres (petrino).
A Igreja celebra-os juntos, porque tanto precisamos do que viu e ouviu "in loco" e teve medo de caminhar sobre as águas (Pedro era pescador, mas, como quase todos no seu tempo, poderia não saber nadar) como daquele que não-viu-mas-sabe-que-é-assim e não teve medo de naufragar (Paulo, nas suas viagens, principalmente na última, quando naufraga antes de Malta, sabe que nada de mal acontecerá aos que viajam com ele).

Paulo e Lenine, segundo Zizek


O Ano Paulino está a acabar. Para muitos cristãos, nem terá começado. Na realidade, há que dizer, vive-se bem sem Paulo. O evangelho de Paulo é o da morte e ressurreição de Cristo. Os cristãos olham também, olham mais, ou olham quase exclusivamente para os outros Evangelhos, que, logo à partida, têm duas grandes versões, a de João e a de Marcos, Lucas e Mateus. Temos, pois, pelo menos, três acessos escritos a Jesus: Paulo, que fica pela morte e ressurreição; João, que parte do Verbo chegar à humanidade; e os Sinópticos, que partem da humanidade para chegar ao Salvador.
Pode-se ficar pelo Jesus dos Evangelhos sem chegar ao Cristo de Paulo. Talvez seja esta a situação da maioria dos católicos. Perde-se muito? O que se perde mesmo? Ganha-se? Como seria um cristianismo sem Paulo?
O Ano Paulino está a acabar. O Papa encerra-o na tarde de 28 de Junho.
Um pouco atento à realidade eclesial, vi algumas iniciativas sobre Paulo, mas não vi reflexões ponderadas sobre o significado de Paulo. Sobre as consequências, sim. Falou-se da fé em Cristo contra as obras da Lei; da paixão evangelizadora; da fundação de comunidades; do Cristo ou morte (“para mim, viver é Cristo”); das viagens; da seita que o cristianismo seria sem Paulo…
Mas não houve explicações sobre o ser e significado de Paulo. Por que é que Paulo não fala do que viria a seguir a ficar gravado nos Evangelhos? (Os Evangelhos ainda não estavam escritos no tempo de Paulo, mas a memória e o testemunho deviam existir) Porque não interpreta as parábolas de Jesus? Porque não fala de Maria? (Diz que Jesus Cristo é nascido de mulher… mas o que diz isto sobre Maria?) Qual o significado dessas ausências?
Slavoj Zizek (na foto) afirma: “O que lhe interessa não é Jesus como figura histórica, mas apenas a sua morte na cruz e a sua ressurreição de entre os mortos; uma vez estabelecida a morte e a ressurreição de Jesus, dedica-se à sua verdadeira tarefa, uma autêntico empreendimento leninista: a organização de um novo partido chamado comunidade cristã… São Paulo como leninista: não foi ele caluniado pelos partidários do cristianismo-marxismo das origens? A temporalidade Paulina – a do «já, mas não ainda» - não corresponderá também à situação de Lenine entre a revolução de Fevereiro e a de Outubro de 1917? A revolução já ficou para trás, o antigo regime morreu, a liberdade foi conquistada, mas o verdadeiro trabalho ainda está por fazer”.
Para o provocador filósofo materialista dialéctico esloveno (mas não desevangelizador militante como Michel Onfray), o que permitiu a Paulo “formular os princípios fundamentais do cristianismo, fazer passar o cristianismo de uma seita judia para a religião universal (a religião da universalidade), foi precisamente o facto de não ter feito parte do círculo estreito dos íntimos de Cristo”.
O seguinte excerto de “A Marioneta e o Anão” (Ed. Relógio D’Água), descontado a piada, é revelador sobre o significado de Paulo. Um católico não deixará de ver no modo com as coisas aconteceram a acção do Espírito Santo. Claro que tem de acreditar que é Ele o guia da Igreja. Um ateu poderá dar uma explicação circunstancial e inteligente do como. Um crente pergunta pelo porquê e encontra a coerência do desenrolar dos acontecimentos. A economia da salvação.
Escreve Zizek (pág. 15): “Podemos imaginar o círculo íntimo dos apóstolos recordando as suas conversas durante a ceia: «Lembras-te que, na Última Ceia, Jesus me pediu que lhe passasse o sal?» Para Paulo, isso é impossível: ele está de fora e, como tal, substitui simbolicamente (ocupa o lugar de) o próprio Judas, entre os apóstolos. De certo modo, Paulo também traiu Cristo, não se preocupando com as suas particularidades, reduzindo-os brutalmente ao essencial, sem mostrar a menor ternura pela sua sabedoria, pelos seus milagres e outros afins”.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sophia e Assis

Se Sophia foi a Pádua ver um franciscano, é capaz de ter passado por Assis. Pelo menos escreveu:

Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.

In "Cem Poemas de Sophia", Ed. Visão/ JL, 2004, pág. 37

Sophia, pagã-cristã


No P2 (do “Público”), de 21 de Junho, num texto de Alexandra Lucas Coelho (ALC) sobre o espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Portuguesa, inequivocamente cristã, é a poeta de um mundo pagão”, escreve ALC. Por causa da paixão pela Grécia e a antiguidade grega.

Na Grécia, Sophia toma banhos de mar, bebe vinho de resina “e quer ajudar as pessoas, como um jovem americano que precisa de boleia”, diz ALC. Porque “o amor cristão é prático e concreto, como na parábola do samaritano”, deixa Sophia escrito num caderno de viagens.

Em Pádua, Sophia escreve: “Toquei a minha aliança no túmulo de Santo António, comprei um vela e rezei pelo Francisco [Sousa Tavares], filhos e pela minha mãe”.

“Pagã-cristã, poeta e mulher de família, tudo isto nela parece coexistir com verdade”, resume ALC. Pagã de referências culturais, cristã de valores existenciais, diria eu.

Clássicos 8: "O coração do mundo", de Hans Urs von Balthasar


(Primeiro parágrafo:) “Oh! Como vive encarcerado todo o ser finito! O homem também nasce num cárcere. Alma, corpo, ideias, aspirações, esforços; tudo nele tem fronteiras; é tudo, já de si, uma fronteira palpável, tudo um isto, um aquilo, separado, apartado do resto. Pelas grades dos sentidos cada qual olha para fora de si mesmo, para o que lhe é estranho, para aquilo de que nunca fará parte; e, embora o seu espírito percorra voando – como as aves – os espaços do mundo, nunca ele será esse espaço; o seu rasto desaparece, não deixa vestígios duradoiros. Que distância não vai dum ser a outro! E, ainda mesmo quando se amam, quando de ilha para ilha, procuram entender-se e iludir o seu isolamento como uma unidade aparente, logo os surpreende – quão mais dolorsa! – a desilusão, ao esbarrarem, como pássaros engaiolados, contra os varões invisíveis duma gélida e transparente muralha. Não conseguem evadir-se. Nenhum deles sabe quem o outro é. Às apalpadelas, por conjecturas, abeira-se o homem da mulher, a criança do adulto, pouco menos misteriosos, uns para osoutros, do que o são, para os homens, os animais”.

O coração do mundo | Título original: Das herz der welt | Hans Urs von Balthasar | Porto, 1959, 284 páginas

“O coração do mundo” é uma longa e apaixonada meditação sobre o amor de Deus concretizado na doação de Cristo na cruz, que é o verdadeiro coração do mundo. Hans Urs von Balthasar (12 de Agosto de 1905 – 26 de Junho de 1988), doutorado em Literatura, foi o grande ausente do II Concílio do Vaticano. Fundou com Ratzinger e Henri de Lubac a “Communio”, Revista Internacional Católica (foi dele a ideia). João Paulo II nomeou-o cardeal (sem direito de voto em eleições pontifícias), mas von Balthasar morreu dois dias antes da cerimónia.

O filósofo repetitivo

O filósofo francês Michel Onfray, “ateu, hedonista, libertário e anti-liberal”, disse numa entrevista à TSF, no dia 13 de Maio, que não acreditava no “velhote de barba branca”, nem na “transcendência de Deus” e que a religião é uma “ficção que torna a vida impossível”, que “apodrece a existência”.

Os argumentos de Michel Onfray são os mesmos de Nietzsche. Mas, há que admitir, passados mais de cem anos, estão a ganhar mais visibilidade.

Talvez a religião até apodreça algumas existências. Mas a fé em Cristo engrandece a vida. É a experiência genuína dos crentes. As palavras do filósofo, como qualquer boa provocação, merecem resposta.

Ele tem um livro em português que é Tratado de Ateologia. Não vou comprá-lo, porque não quero investir o meu dinheiro nisso, mas vou saber o que diz – o que até nem é difícil através da net.

Por exemplo, diz que «três milénios testemunham, dos primeiros textos até hoje, a afirmação de um Deus único, violento, invejoso, quezilento, intolerante, belicoso, que gerou mais ódio, sangue, mortos, brutalidade do que paz…»

Diz ainda que é preciso “trabalhar para uma nova ética e criar as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, onde o corpo deixe de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, e a vontade uma danação».

Numa expressão ou noutra destas citações, é possível ver uma crítica válida à prática dos cristãos. Mas nada de substancial. Nada de novo.

Voltando à entrevista, quando Carlos Vaz Marques lhe pergunta: “Qual é a sua direcção pessoal?”, a resposta é: “A minha direcção é o hedonismo é fazer as coisas de maneira que na breve existência que me foi concedida que não me arrependa de nada”.

Esta resposta não está longe de um excerto da epopeia de Gilgamesh (rei sumério do séc. XXVIII a. C.). A pergunta é a mesma (a da direcção, o sentido). E a resposta, tal e qual (o prazer).

«Para onde vão os teus passos, Gilgamesh? Não encontrarás a vida que procuras; quando os deuses criaram o homem, deram-lhe a morte por herança. Tinham a vida nas suas mãos. Gilgamesh, enche a barriga, sê feliz dia e noite, faz com que os dias transbordem de alegria, dança e faz música dia e noite. Veste roupa novas, lava a cabeça e saboreia um bom banho. Olha para a criança que levas pela mão. Faz com que a tua esposa goze o teu abraço. Só estas coisas são dignas do homem».

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...