
No "Público" de hoje, uma afirmação de passagem, num texto sobre "A legitimidade perdida dos media", isto é, sobre as mudanças no mundo da informação, de Miguel Gaspar (na última página):


Francisco Xavier Nguyen Van Thuan numa prisão vietnamita:
“Quando fui colocado no isolamento, fui confiado a um grupo de cinco guardas: dois deles estão sempre comigo. Os chefes mudam-nos de duas em duas semanas com os de outro grupo, para que não sejam «contaminados» por mim. Depois, decidiram não mudar mais, pois de outra forma todos ficariam contaminados!
No início, os guardas não falavam comigo, respondiam apenas «yes» e «no». É muito triste; quero ser gentil, cortês com eles, mas é impossível, evitam falar comigo. Não tenho nada para lhes dar de presente: sou prisioneiro, todas as roupas são marcadas com grandes letras «cai-tao», isto é, «campo de reeducação». Que devo fazer?
Uma noite, vem-me um pensamento: «Francisco, tu és ainda muito rico. Tens o amor de Cristo no teu coração. Ama-os como Jesus te ama.» No dia seguinte, comecei a amá-los, a amar Jesus neles, sorrindo, trocando palavras gentis. Começo a contar histórias das minhas viagens ao exterior, como vivem os povos na América, Canadá, Japão, Filipinas, Singapura, França, Alemanha… a economia, a liberdade, a tecnologia. Isso estimulou a curiosidade dos guardas, e excitou-os a perguntarem-me muitas outras coisas. Pouco a pouco, tornamo-nos amigos. Querem aprender línguas estrangeiras: francês, inglês… Os meus guardas tornam-se meus alunos! A atmosfera da prisão melhorou muito.
Até com os chefes da polícia. Quando vieram a sinceridade do meu relacionamento com os guardas, não só pediram para continuar a ajudá-los no estudo de línguas estrangeiras, mas ainda me mandaram novos estudantes”.
in "Cinco pães e dois peixes", de Francisco Xavier Nguyen Van Thuan (ed. Paulinas)

Nem liberalismo absoluto, nem socialismo, ainda que moderado
Pio XI afirma claramente o porquê de uma encíclica social em 1931, a “Quadragesimo anno” (QA). No n.º 15 aponta três motivos: assinalar os 40 anos da “Rerum Novarum” (“Quadragesimo anno” significa “No quadragésimo aniversário”, as primeiras palavras da encíclica); responder a algumas dúvidas deixadas pela RN; e “chamar a juízo o regime económico moderno”, “instaurando processo ao socialismo” (que entretanto atingira grande grau de desenvolvimento, quer sob a forma de partidos comunistas na Europa Ocidental, quer sob a forma de regime, na URSS) e “apontando a raiz do mal-estar da sociedade contemporânea”.
Quando Pio XI escreve, o mundo ainda não conhece a real dimensão da crise iniciada com o “crash” bolsista de 1929. A crise teria consequências tão profundas que, ao chegar à Europa, principalmente à Alemanha (que no rescaldo da I Guerra Mundial vivia a crédito dos EUA) provocaria a ascensão de Hitler e, por fim, a II Guerra Mundial.
Muitos vêem na depressão económica iniciada em 1929 o cumprimento das profecias de Karl Marx: a implosão do capitalismo sobre si próprio. E na actualidade, são várias as vozes que dizem que a presente crise financeira é semelhante à de 1929 e terá consequências igualmente drásticas.
Mas o que aconteceu em 1929? Na origem está a famosa “quinta-feira negra”, o dia 24 de Outubro de 1929, com a queda a pique dos títulos da Bolsa de Nova Iorque porque a especulação bolsista já não tinha correspondência com o valor real das empresas cotadas. A seguir, todo o sistema financeiro norte-americano desmorona. Os bancos ficam sem liquidez quando milhares de portadores vendem os seus títulos ao desbarato. Sem liquidez, deixam de conceder crédito e retiram os seus investimentos do estrangeiro (sendo a Alemanha o país mais afectado). Refreia-se o investimento e o consumo e a economia cai a pique. A crise era financeira (o Dow Jones cai 79% num curto espaço de tempo), mas torna-se económica (quebra das actividades económicas), social (subida do desemprego, que chega aos 22% nos EUA e 17% na Alemanha) e política (ascensão das ditaduras).
Pio XI não antevia as consequências do “crash” bolsista (ninguém antevia) e a QA detém-se mais nos perigos da “solução socialista” no que dos do “liberalismo absoluto”. Mas a especulação financeira e o poderio dos grandes grupos económicos são notados:
“Nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência” (QA 105-108).
“As últimas consequências deste espírito individualista no campo económico são essas que (…) vedes e lamentais : a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio económico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz” (QA 109).
Para evitar o despotismo do capitalismo será aceitável a via comunista ou a “facção mais moderada” do socialismo, com “princípios tendentes para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou”?
Pio XI vai dizer que não. “A regeneração social” só se alcançará com a “profissão franca e sincera da doutrina evangélica” (QA 136). E apontará alguns princípios cristãos que devem dar forma à vida económica, na linha do seu lema, “Pax Chisti in regno Christi”, como veremos em artigo seguinte. Pio XI é o Papa da solenidade de Cristo Rei, da Acção Católica, da reconquista cristã da sociedade…

Karl Malden, filho de pais sérvios, tinha o nariz abatatado por ter levado com uma bolada, ou talvez uma cotovelada, num jogo de futebol americano. A parte do jogo é verdadeira. A da causa próxima é incerta. Creio ter lido que foi uma bolada, num jornal do dia seguinte à morte, mas não pude confirmar.
No DN de 4 de Julho, na última coluna do jornal, Ferreira Fernandes refere um pormenor que mostra a grandeza de Malden. Baptizado Mladen Sekulovich, mudou de nome para ser actor. Vê-se de onde provém o “Malden”. O nome próprio deu origem a apelido.
O seu pai, emigrante sérvio em Chicago, não gostou da mudança, pelo que, quando Malden se tornou famoso, passou a exigir que o nome Sekulovich fosse pronunciado nalgum momento do filme. É por isso que há um soldado Sekulovich em “Patton”, um preso Sekulovich em “O Homem de Alcatraz”, um sindicalista Sekulovich em “Há lodo no cais”… Remata Ferreira Fernandes: “Nos filmes de Karl Malden houve sempre um Sekulovich. Conheço poucos arrependimentos tão belos”.
Mas não era aqui que eu queria chegar, nem ao seu casamento duradouro. O “Público” diz: “Deixa a sua esposa Mona, com quem era casado desde 1938 num dos mais longos casamentos conhecidos em Hollywood, bem como duas filhas, três netas e quatro bisnetos”.
Aonde eu pretendo chegar é a isto: em “Há lodo no cais”, Malden faz de padre. Padre Barry, em concreto, um padre social, que lida com os sindicalistas e estivadores, amigo dos operários. Na verdade, o papel do padre Barry inspira-se na vida do padre John M. Corridan (1911-1984), um jesuíta que lutou contra a corrupção e o crime organizado nos portos de Nova Iorque. John M. Corridan deu origem a uma entrada na Wikipedia. Há lá mais informação. E há um livro escrito sobre o jesuíta. É o “Waterfront Priest”.

«Leão XIII lamentava o isolamento para o qual Pio IX empurrara a Igreja, com a sua hostilidade em relação ao mundo contemporâneo. E decidiu traçar um novo caminho. Tomou como mestre [aquele que], mais do que ninguém, conseguiu fazer uma síntese de fé e razão, graça e naturalidade, cristianismo e humanismo: São Tomás de Aquino. E, em 1891, fez chegar ao mundo inteiro uma carta, a “Rerum Novarum”, o primeiro texto do pensamento papal moderno sobre a sociedade, a magna carta da visão católica da “reconstrução da ordem social”. E esse documento, embora não fosse perfeito, acabou por revelar-se profético.»
Michael Novak, "A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo", Ed. Princípia, pág. 60
Grandes ideias da Rerum Novarum
* Defesa da propriedade privada e do destino universal dos bens. A Terra foi dada a todos. “Apesar de dividida entre particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos” (RN 6);
* Princípio da subsidiariedade. A família está antes do Estado, pelo que os poderes públicos devem vir em seu auxílio, mas sem ultrapassar limites. A família não deve ser abolida nem absorvida pelo Estado (RN 10);
* Dignidade do trabalho e do trabalhador. “Não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do rosto. É o que Jesus Cristo nosso Senhor confirmou como seu exemplo” (RN 17);
* O Estado tem deveres: fazer leis justas; promover o Bem Comum; assegurar os direitos a todos os cidadãos, em especial “aos operários, visto serem eles do número da classe pobre” (RN 27);
* O trabalho, o salário e o descanso devem ser regulados, justos, proporcionais (RN 30-32);
* Direito de associação: têm-no patrões e operários e muito pode contribuir para a solução da “questão operária”. “Aos operários cristãos apresentam-se dois caminhos: ou empenharem-se nas sociedades de que a religião tem tudo a temer [referência aos sindicatos de matriz comunista], ou organizarem-se eles próprios e unirem as suas forças para poderem sacudir o jugo injusto e intolerável” (RN 37). A encíclica termina com sugestões para os estatutos e objectivos duma associação católica (RN 39-40).

No “Público” de 6 de Julho de 2009, num texto de Isabel Coutinho, pode ler-se:
“António Lobo Antunes começou a escrever versos «por necessidade material». O seu outro avô tinha morrido e a sua avó era uma mulher «muito piedosa, tinha um oratório em casa, estava sempre rezando». Então, António Lobo Antunes fazia «sonetos a Cristo» que depois vendia à avó. «Isso foi muito bom porque me salvou de andar a pedir esmolas nas esquinas. Entregava-lhe um soneto, fazia um ar triste, ela tinha um oratório muito grande – a minha avó portuguesa – e, à frente do oratório, não sei porquê, é uma relação curiosa, tinha o cofre do dinheiro, mesmo em frente dos santos. Santos, santos, santos e por baixo, o dinheiro. Eu entregava-lhe o soneto a Cristo, que ela punha no oratório, ficava a olhar para ela com olhos de cão batido, até que ela dizia: “Quanto queres, filho?”» Risos por toda a plateia”.
O que merece mais comentários? O facto de ALA contar o episódio? Os risos por toda a plateia? O caso de “enriquecimento” à custa da religião? A piedade da avó? A afirmação de ter sido salvo das esquinas, de uma vida indigente que com certeza teria muito de literário? O comentário do escritor sobre a “relação curiosa” do cofre com os santos? A estranha relação entre ter ganho dinheiro à custa dos sonetos a Cristo (seriam “insinceros” naquela idade de ALA?), à custa do divino, e no final da conversa ter dito: “Deus vos pague”?

A aplicação da máquina (“rápidas, regulares, precisas, incansáveis” – a expressão é de David Landes, na obra “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, Ed. Gradiva) ao trabalho gerou a revolução industrial. Não uma revolução rápida, como são as políticas, mas profunda, como são as económico-sociais. Nada ficou como antes. E muitos ficaram pior do que antes, “numa situação de infortúnio e de miséria imerecida” ("Rerum Nvarum" 1), “como instrumentos de lucros”, apenas considerados “em termos de quanto podem a sua fora e o seu vigor” (RN 14), embrutecidos de espírito e enfraquecidos de corpo (RN 31)...
Onde havia massas de operários (centro e norte de Europa), a Igreja percebeu que estava a perder a classe trabalhadora, atraída pelas ideologias socialistas (“perdeu os intelectuais no séc. XVIII, os trabalhadores no séc. XIX e está a perder as mulheres nos séc. XX”, afirmou um padre teólogo espanhol, há década e meia). Note-se que no “socialismo” desta época cabiam diversas ideologias de esquerda, todas elas muito distantes do actual socialismo democrático.
Leão XII denota o afastamento dos trabalhadores da Igreja em diversos pontos da RN. Tal acontece por dois motivos: por um lado, o próprio trabalho impede o descanso e a dedicação de um dia por semana a Deus (RN 31); por outro, há a influência de associações “de que a religião tem tudo a temer”, “governadas por chefes ocultos” e obedecendo a uma “orientação externa” (RN 37). Estas associações e partidos, nas suas correntes mais extremadas defendiam a supressão da propriedade privada. Contra eles, escreve Leão XIII, quase a abrir a encíclica: “Os socialistas, para curar este mal [a imposição por um pequeno número de ricos e de opulentos de um jugo quase servil à massa imensa do proletariado], instigam nos pobres o ódio contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares seja suprimida, que os bens de qualquer indivíduo sejam comuns a todos, e a sua administração pertença aos municípios ou ao Estado” (RN 2). Não se pense, contudo, que a defesa contundente da propriedade privada é a defesa do liberalismo económico vigente da época. Pelo contrário, Leão XII defende a propriedade privada na óptica do trabalhador, visto que “o fim imediato visado pelo trabalhador [ao trabalhar] é conquistar um bem que possuirá como seu” (RN 3).
Contra o “erro capital” de “crer que as duas classes [patrões / trabalhadores, ricos / pobres] são inimigas natas uma da outra”, o Papa parece embarcar numa visão fixista da sociedade ao invocar a imagem da complementaridade dos vários membros no corpo humano (RN 14), mas a seguir afirma principalmente as obrigações dos “ricos e patrões”. “Devem respeitar no operário a dignidade de homem (…). Devem ter em conta os interesses espirituais dos operários (…). Que o trabalhador tenha tempo para cumprir os seus deveres religiosos (…), não seja afastado da família. (…) Não tenha um trabalho superior às suas forças ou que não seja adaptado à sua idade ou sexo. (…) Receba um salário justo.” (RN 14).
A "Rerum Novarum" representou uma sistematização do pensamento social católico e foi positivamente acolhida por trabalhadores cristãos. Sem dúvida que fez despertar uma esquerda católica que veio mais tarde a constituir-se em socialismo cristão (com ou sem esse nome) e na democracia cristã.

(Primeiro parágrafo:) “Hesitei em reunir e publicar estes textos, de tal modo tenho consciência de que ficaram muito aquém da realidade ecuménica que hoje vivemos. Pois, contrariamente ao que repetem os menos entusiastas, o ecumenismo avança em planos diferentes ou segundo os diversos modos da sua prática, que não tem esmorecido. Estes textos são de um teólogo. Não me envergonho deste qualificativo – exprime a minha vocação e o meu serviço. Serviço necessário: será de lamentar, isso sim, que não seja mais aplicado ao ecumenismo. Alguns destes textos datam de há dez ou mesmo quinze anos, como aquele que trata da avaliação da eclesialidade dos outros, por exemplo. Mas, no âmbito da teoria, não se adiantou nada desde então; o reconhecimento prático, esse progrediu. Evidentemente, tínhamos considerado a questão do ponto de vista católico”.
Ensaios Ecuménicos | Essais oecuméniques, le mouvement, les hommes les problèmes | Yves Congar | Verbo, 1985, 330 páginas
Obra fundamental para a história do ecumenismo do lado católico até ao pontificado de Paulo VI. Yves Congar, francês, “o apóstolo da paciência” – tantas foram as vezes que se calou por ordens superiores –, foi padre dominicano (1904-1995). Em 1994, foi nomeado cardeal por João Paulo II. Os seus “Diário de um teólogo” e “Diário de um teólogo no concílio” são obras espantosas para perceber a grandeza do homem e a sua actividade (e também o seu sofrimento).

“A Ikea é uma igreja. Aos domingos há mais famílias britânicas a prestar culto no santuário do design de mobiliário sueco do que numa igreja. Tornou-se um ritual entranhado na sociedade moderna – discutivelmente tão forte e rotineiro como a ida semanal à missa, há 40 anos. Cerca de 550 milhões de pessoas, em todo o mundo, visitaram a Ikea em 2007 e todas estão dispostas a fazer 150 quilómetros para lá chegar.
A Ikea tem tanto que ver com o ser como com o comprar. Trata-se de uma jornada de compras em que esperamos ser atraídos pela convicção da Ikea, segundo a qual podemos atingir o bem-estar do eu interior através da combinação entre design e preços baixos. O mundo da Ikea é semi-armazém e semicatedral”.
In “Boa Ikea”, de Elen Lewis, edições Gestão Plus
A "Rerum Novarum" é um ponto de partida, mas não parte do zero. Padres, bispos, cristãos dedicam-se à pastoral dos operários. Em França, Albert de Mun (1841-1914) cria a Obra dos Círculos. Na Alemanha, Ketteler de Mogúncia - ou Mainz - (1811-1877) intervém no sentido de reformas como a limitação das horas de trabalho, o descanso dominical, a participação dos operários nos lucros e a dádiva de uma pensão às mães que ficam em casa. Também neste país, o Padre Adolph Kolping (1813-1865) funda centros de convívio de jovens operários. Em Inglaterra, o cardeal Manning arbitra a greve dos estivadores de Londres (1889). Em Sydney, Austrália, o cardeal Moran (1830-1911) convida os católicos a aderirem aos sindicatos.

D. Ketteler de Mogúncia
Da Revolução Industrial à "Rerum Novarum"
1764 – James Hargreaves inventa a “spinning Jenny”, roda de fiar que faz o trabalho de 24 trabalhadores
1776 – Adam Smith (1723-1790) publica “Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”
1779 – James Watts inventa a máquina a vapor
1789 – Revolução Francesa
1807 – Barco a Vapor
1822 – Locomotiva
1830 – George Stephenson inicia o transporte ferroviário entre Liverpool e Londres
1848 – “Manifesto do Partido Comunista”, por Karl Marx e Friedich Engels
1867 – Primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx
1886 – (1 de Maio) – Milhares de trabalhadores saem à rua em Chicago
1889 – (1 de Maio) Começa-se a comemorar o Dia Mundial do Trabalhador
1891 – (15 de Maio) Leão XIII publica a encíclica "Rerum Novarum"
CARTA ENCÍCLICA
CARITAS IN VERITATE
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
AOS FIÉIS LEIGOS
E A TODOS OS HOMENS
DE BOA VONTADE
SOBRE O DESENVOLVIMENTO
HUMANO INTEGRAL
NA CARIDADE E NA VERDADE
INTRODUÇÃO
1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — « caritas » — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, acaridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6). Ler mais.
...diz na revista "Pública" (28-06-2009) que tem como religião o FC Porto.
Pública: “Mantém uma relação afectiva, irracional, com o FC Porto?”
Burmester: Sempre. É a minha única fé e religião. Nasci e morrerei com o FC Porto. Aquilo que o clube desperta em mim é sempre igual; é sempre forte e intenso. Mesmo quando perde, e o Porto ganha e aprende muito quando perde. Sabe perder para seu proveito próprio. Se calhar, foram estes muitos anos a perder que lhe deram a força que agora tem. Pelo FC Porto, até toquei Beethoven pendurado de uma grua, na inauguração do Estádio do Dragão. Fiquei a flutuar sobre o estádio. Foi uma sensação incrível.

O Manifesto do Partido Comunista, de 1848, teve um efeito inebriante junto de muitos trabalhadores. Ainda hoje, mesmo sabendo dos efeitos catastróficos que a aplicação das teses marxistas viria a ter nos países de Leste (principalmente a ditadura do proletariado, a luta de classes, o materialista dialéctico, a abolição da propriedade privada… pela via leninista), que não estavam industrializados (daí a junção da foice dos agricultores ao martelo dos proletários), é tentador ceder à explicação marxista da história, interpretada como uma luta entre exploradores e explorados, senhores e esvravos, senhores feudais e servos, capital e trabalhadores - na fase moderna.
“O operário torna-se um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono, mais fácil de aprender. (…) Massas de operários, comprimidos na fábrica, são organizadas como soldados. São colocadas, como soldados rasos da indústria, sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais subalternos e oficiais”, escrevem Marx e Engels no MPC.
A Igreja apercebe-se – com atraso, dizem alguns – que “os acontecimentos ligados à RI subverteram a secular organização da sociedade, levantando graves problemas de justiça e pondo a primeira grande questão social, a “questão operária”, suscitada pelo conflito entre capital e trabalho” (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, Ed. Princípia, n. 88). Fala-se então da “res novae” (realidade nova). É necessário “um renovado discernimento da situações, apto a delinear soluções apropriadas para problemas insólitos e inexplorados” (CDSI, 88).
É neste contexto que surge a encíclica Rerum Novarum (“Das coisas novas”), de Leão XIII, em 1891, que escreve logo na primeira página: “Os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito” (RN, 1).
Charles Dickens escreve em 1854 no romance “Tempos Difíceis”: “Seguramente, nunca houve porcelana mais frágil do que aquela de que eram feitos os industriais de Coketown... Ficavam arruinados se se lhes pedia para mandar as crianças operárias à escola, ficavam arruinados quando eram designados inspectores para visitarem as suas fábricas, ficavam arruinados se estes mesmos inspectores consideravam duvidoso que tivessem direito a cortar as pessoas aos bocados com as suas máquinas, ficavam completamente arruinados se se insinuava que talvez nem sempre precisassem de fazer tanto fumo”.
Coketown é um nome fictício. Trata-se da típica cidade industrial do séc. XIX. Provavelmente nenhum autor como Charles Dickens soube escrever tão bem as consequências sociais da Revolução Industrial: condições de vida miseráveis nas cidades, exploração do trabalhador, crianças enviadas para orfanatos (quando ainda não podiam estar na fábrica), luxo e arrogância para a alta burguesia. Os salários eram baixos, havia trabalho infantil em grande escala (nas minas, as crianças podiam passar por galerias mais pequenas), os horários de trabalho podiam ser de 18 horas, abundavam os castigos físicos, não havia direitos de férias, descanso semanal, auxílio no desemprego. A conquista dos direitos é lenta e com muitos mártires.
A Revolução Industrial (RI), iniciada na segunda metade do séc. XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos têxteis, a exploração mineira em grande escala e o caminho-de-ferro, alastra-se a outros países e transforma por completo a vida da pessoas (a Portugal só chegou no séc. XX; e o processo repete-se hoje no Extremo Oriente). Algumas consequências: a casa deixa de ser o local de trabalho (como era desde a Idade Média) para ser a fábrica; as cidades crescem (Londres é a primeira cidade moderna a ultrapassar um milhão de habitantes porque é possível lá fazer chegar, por comboio, todos os dias, alimentos frescos); a família deixa de ser alargada e passa a nuclear; a mulher, trabalhando, torna-se autónoma; os bens são produzidos e consumidos em massa; o calendário passa a ser gerido em função do trabalho (as férias são um fruto da RI)… Hoje, os nossos costumes são, ainda, claramente fruto da RI, mais do que da Revolução Francesa de 1789.
Se Dickens descreve a sociedade, outros autores, naquela época, avançavam já para a interpretação e solução política. Karl Marx e Friedrich Engels escreveram em 1848 o “Manifesto do Partido Comunista” (MPC - mais tarde simplesmente "Manifesto Comunista"), que termina com o célebre apelo: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”
Amanhã será finalmente revelada a nona encíclica social dos papas e primeira de Bento XVI, “Caritas in veritate”, segundo se diz. As outras oito são: Rerum Novarum (1891), Quadragesino Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963), Populorum Progressio (1967), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annus (1991).
Ao longo dos próximos dias vou inserir neste blogue alguns textos sobre cada um destes documentos de doutrina social da Igreja (DSI).

A afirmação de que os jornais não trazem nada de interesse é desmentida em cada edição que leio. Provavelmente, tal frase revela mais sobre a pessoa que a profere do que sobre a realidade e o reflexo dela nos jornais. Três exemplos no diário que sigo com mais atenção, relativos apenas a sábado e domingo (para além da nota já inserida sobre São Paulo):
Tecnociências e ser humano
Bento Domingues, no "Público" de 5 de Julho: “A pastoral da Igreja já compreendeu que não pode preocupar-se, apenas, com a aliança da cultura e da fé no campo da diversidade das expressões filosóficas e artísticas. As tecnociências, que estão a modificar a imagem que o ser humano tinha da sua própria natureza, da sua origem, das suas relações interpessoais, interpovos e com os outros seres vivos ou não, levantam novas questões à inteligência da fé e exigem um confronto entre diversas concepções éticas. Mediante o controlo da reprodução humana, do comportamento psíquico e das doenças, as tecnociências marcam já alguns aspectos da cultura do futuro. É preciso, para isso, que haja futuro”.
Fim da vida e ser humano
Matilde Sousa Franco, “a favor da humanização da morte”, citando Mons Feytor Pinto, no "Público" de 4 de Julho: “São inúmeras as questões que se levantam. Subsiste porém em todas elas uma preocupação dominante, a de servir o homem em crise e de lhe dar a esperança de que ele é capaz. Todos somos homens terminais, todos temos diante de nós a certeza da morte como acontecimento universal. Mas o doente terminal tem mais próxima a morte. O importante é ajudá-lo a viver esse momento como a síntese de toda a vida, com o sentido que marcou todos os caminhos já percorridos. O grande convite que é feito ao técnico de saúde é que, perante o doente terminal, se aproxime, pare, aceite ter tempo para escutar e acompanhe esse homem que sofre e que, em última análise, apenas espera uma outra mão para segurar a sua própria mão. É que a esperança de um amigo é sempre uma nova razão de esperança”.
Economia e ser humano
António Marujo, no "Público" de 5 de Julho: “Será finalmente publicada na terça-feira, após dois anos de expectativas e adiamentos, a terceira encíclica do Papa Bento XVI. Um texto onde o Papa aplicará os temas das duas encíclicas anteriores – o amor e a esperança – às questões sociais e no qual a crise actual será tema central (e uma das razões do adiamento). A mesma crise que mostra que devem “repensar” os modelos económicos e financeiros preponderantes”.

(Primeiro parágrafo:) “A única desculpa possível para este desafio é o facto dele ser a resposta a um desafio. Um atirador, por muito mau que seja, fica sempre dignificado, desde que aceita um duelo. Quando, há algum tempo, sob o nome Heretics, publiquei uma série de ensaios um tanto apressadamente mas com sinceridade, alguns críticos, cujas qualidades de inteligência merecem o meu maior respeito (refiro-me especialmente a Mr. G. S. Street), vieram declarar que eu convidava toda a gente a tornar públicas as suas teorias sobre os problemas cósmicos, mas evitava, cuidadosamente, apoiar os meus preceitos com o exemplo. «Começarei a inquietar-me com a minha filosofia» - disse, nessa ocasião, Mr. Street - «quando Mr. Chesterton nos tiver apresentado a sua». Era, talvez, uma imprudente sugestão feita a quem está sempre inteiramente preparado para escrever um livro à mais leve provocação”.
Ortodoxia | Ortodoxy | Gilbert Keith Chesterton | Livraria Tavares Martins | 252 páginas, Porto, 1974
Gilbert Keith Chesterton (1874 - 1936), “príncipe do paradoxo”, especialista em Dickens, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, historiador, etc., etc., chegou a ter o seu próprio jornal, o "G. K.'s Weekly". Hoje teria blogues, além do jornal. Foi um dos maiores apologetas católicos do séc. XX. Pio XI admirava-o. Criou o detective Padre Brown.

Pedro Mexia, no “Público” de 4 de Julho, escreve sobre Paulo de Tarso. Além do habitual – que nasceu em Tarso, que é o primeiro intelectual cristão, que escreveu cartas (Mexia prefere a aos Gálatas), que escreveram sobre ele no Livro dos Actos, que teve uma revelação, que de Jesus valoriza a morte e ressurreição – diz, em notável síntese:
“A grande revelação Paulina consiste na convicção de que a fé em Cristo não se dirige apenas a judeus mas a todos. Ele é conhecido como «o apóstolo dos gentios» porque recusou a tese «judaizante» segundo a qual primeiro era preciso ser judeu (ou convertido ao judaísmo) e só depois se podia abraçar o cristianismo. Além disso, os judaizantes defendiam o cumprimento estrito da Lei, enquanto para Paulo a Lei era suplantada pelo espírito, e por isso os rituais e mandamentos judaicos estavam ultrapassados. Nenhuma outra doutrina causou tantos ataques. A polémica entre Paulo e Pedro é um dos momentos mais marcantes de toda a história do cristianismo e revela até que ponto o cristianismo é também uma religião de polémica e confronto, bem diferente de uma certa imagem beatífica e sentimental”.
Pedro Mexia dedica o texto a Tiago Cavaco, que é pastor baptista, bloguista (Voz do Deserto) e, ao mesmo tempo, músico panque-roque, como gosta de dizer, sob o nome de Tiago Guillul.
Imagem: "Damascus Illumination", de Paul Granlund, 1967, bronze na Igreja Luterana de S. Paulo, West Avenue at Madison.

No texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
“Scalfari, cujo último livro é L’uomo che non credeva in Dio (O homem que não acreditava em Deus), disse ao cardeal que não crê em Deus e que o diz “com plena tranquilidade de espírito”. E o Cardeal: “Eu sei, mas não estou preocupado por causa de si. Por vezes, os não crentes estão mais próximos de nós do que muitos devotos fingidos”. Para ler aqui.
A afirmação do Cardeal Martini vai directamente para o interior da Igreja, porque, na sequência, seguindo o texto do DN, denuncia-se o carreirismo eclesiástico e realça-se a primazia da caridade sobre a prática religiosa e a necessidade de um concílio.
Mas faz lembrar aquela dimensão purgante do são ateísmo, do ateísmo sem preconceitos que é capaz de dialogar com os crentes, do ateísmo que quase sempre nega aquilo em que os crentes também não acreditam. Podem estar de facto, ateísmo e critianismo, muito próximos, o que faz lembrar a missão do Padre Brown, invocado precisamente no último número da “Communio”, revista tem sido referida em entradas anteriores neste blogue.
Escreve Tolentino Mendonça no artigo “A Bíblia e o Fantástico”: “Figura pequena e atarracada, atrás de uns óculos defensivos, mas munido de um humor desarmante, ele [Padre Brown, que é detective, criação de Chesterton] atravessa enredos que são na aparência Fantásticos: o sobrenatural irrompe aí das formas mais diversas, provocando reviravoltas espectaculares e inauditas. Ora, a missão do Padre Brown é precisamente dissolver o «efeito Fantástico», encontrando uma explicação racional para o que havia sido, demasiado rapidamente, declarado inexplicável. Aos olhos dos outros personagens, o Padre detective não pode ser senão controverso: mais descrente que os descrentes, irónico e minucioso, a agarrar-se convictamente à racionalidade, quando tudo nos deveria deslocar para o âmbito das formas espirituais. No fundo, ele combate para purificar o modo como o cristianismo e a religião são olhados, num tempo que diz não acreditar em nada, mas que na verdade acredita em demasiadas coisas e projecta-as caoticamente na cultura”.

COMMUNIO - Revista Internacional Católica
“Imaginários contemporâneos”
Out/Nov/Dez 2008
Da Apresentação:
“No mundo ocidental, desde a época das Luzes, vivemos um poderoso movimento iconoclasta e de desmitologização: venera-se a «positividade», os factos históricos, a máquina, o racional. Ironicamente, ao querer-se superar os «obscurantismo» do mito cria-se um outro mito – o do positivismo. Deu-se, depois, o movimento contrário: o ressurgimento do imaginário, em geral, e do mito, em particular. Ora, os produtos que emergem da imaginação humana exercem uma atracção bastante disseminada pelas várias formas de expressão cultural”.

Recentemente foi notícia o recuo da Igreja na nomeação de um padre austríaco para bispo. O padre era polémico por dizer que os livros do Harry Potter são satânicos ou que o furacão Katrina foi um castigo de Deus à cidade de New Orleans. Se em relação ao segundo assunto a visão do padre austríaco era inaceitável, em relação ao primeiro, não sendo original, revelava desconhecimento profundo dos livros, pelo menos é o que se conclui da leitura do artigo de Suzanne Bray intitulado “Da boa utilização da literatura fantástica”, no mais recente número da “Communio – Revista Internacional Católica”. “Os romances da série Harry Potter não são explicitamente cristãos”, escreve Suzanne Bray, mas J. K. Rowling “serve-se da imagética cristã”, além de inúmeras alusões à mitologia clássica e à alquimia. Mais: “Ela [a autora de Harry Potter] afirma-se cristã e praticante. Os seus filhos foram baptizados, e fez também baptizar o filho que criou, Harry”, acrescenta. "Rowling confirmou, na Feira do Livro de Edimburgo, em Agosto de 2004, que Harry foi baptizado à pressa numa cerimónia privada", afirma Bray. No entanto, "não tem madrinha".
Suzanne Bray sugere que a literatura fantástica, nomeadamente os livros e filmes de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crónicas de Nárnia, é útil para os educadores cristãos: “Em geral, Harry e os seus amigos não ultrapassam os obstáculos que encontram por meio da magia, mas sim graças à perseverança, à lealdade e à coragem", refere leiga anglicana e professora no Instituto Católico de Lille. "Escusado será dizer que a educação cristã deve, num ou noutro momento, integrar uma apresentação clara e sem ambiguidade do kerigma. No entanto, para aquele que já encontrou e compreendeu Aslan, Harry Potter e o Gandalf, o sacrifício de Cristo não será um conceito estranho. Do mesmo mesmo, aquele que seguiu as histórias de Edmund e Eustáquio em As Crónicas de Nárnia aceitará mais facilmente a conversão de um ser amado, ou até a sua”, prossegue.
Excelente número este, sobre “Imaginários Contemporâneos”, para o sempre necessário diálogo fé/cultura, com artigos, entre outros, de Michael Devaux (“Itinerarium imaginationis ad Deum. Viagem a Númeror com os Inklings), Tolentino Mendonça (“A Bíblia e o fantástico”), Olivier Riaudel (“Prescindir do mito e da desmitologização”), Carlos Salema (“O gato de Schrodinger”) e Antonio Sapadaro (“Second Life. O desejo de uma outra vida”).

Escreve Maria João Avillez na página 113 da “Sábado” (2 a 8 de Julho de 2009):
“Segunda-feira, 29
Seria a mão do anjo, tão decisivamente interpelativa no seu anúncio? Seria o fulgor imperativo daquele gesto? A posição de Maria, sobre si mesmo sobrada de espanto a um canto do desenho? O sussurro do extraordinário diálogo que ali se operava? A espessura daquele segredo, o voo daquela pomba? Ainda hoje não sei. Só sei que, mal abri o pequeno catálogo desta exposição de Rui Sanches (Gratia Plena, na galeria João Esteves de Oliveira), telefonei de um avião pestes a descolar para a Turquia e disse ao João que o desenho tinha de ser para mim. Como se a mão erquida do anjo me tivesse também interpelado e de algum modo eu me visse subitamente envolvida na evocação do indizível mistério da Anunciação. Rui Sanches não sabe mas fui, de certeza. Agora o anjo vive connosco, mas é também comigo que ele fala, de uma das paredes cá de casa”.
O desenho não ilustra a opinião de M.J. Avillez, mas as palavras certas no Google permitem encontrar o grão de areia no meio da praia. Estava aqui.

O discurso da verdade, ou da procura da verdade, não pode nunca ausentar-se do cristianismo, quer na mais pura especulação teológica de uma qualquer faculdade, quer na mais singela homilia de uma aldeia perdida nos montes ou de uma comunidade suburbana.
Santo Agostinho dizia que é preciso compreender para acreditar (“intellige ut credas” – “compreende para acreditares”) e acreditar para compreender (“crede ut intelligas”). E acentuava que o primeiro momento precedia a opção de fé. Compreender, o esforço da razão, seria uma condição prévia à opção da fé. Por outras palavras, não pode haver decisão de coração (numa linguagem que nos aproxima de Rahner e Balthazar), sem haver decisão da cabeça, ainda que, para Agostinho, como mais tarde para Tomás, num segundo momento, só a Revelação permitisse aceder à verdade. A razão é uma escada que nos permite subir no entendimento da realidade, mas para a ver melhor, a partir de certo ponto, só a iluminação de Deus.
Hoje, contudo, no discurso da fé, a procura da razão é muito discreta se não totalmente ausente. Quem fala da adesão à fé, do Baptismo e do Matrimónio, da contracepção e da economia, das seitas e das religiões como questões da procura da verdade? O Papa lá vai atirando umas farpas ao relativismo, mas esse combate não desce do pico da pirâmide às bases.
Estes três parágrafos são apenas introdução para esta pérola de C. S. Lewis (na imagem):
"Pode-se ter uma boa vida sem se acreditar no cristianismo? Esta é a questão sobre a qual me pediram para escrever e, imediatamente antes de tentar respondê-la, tenho um comentário a fazer. A questão parece ter sido formulada por uma pessoa que diz a si própria, “Não me importo se o cristianismo é ou não verdadeiro. Não estou interessado em descobrir se o universo real é mais parecido com o dos cristãos ou com o dos materialistas. Tudo em que estou interessado é em ter uma vida boa. Vou escolher minhas crenças não porque as penso verdadeiras mas porque as considero úteis.” Francamente, acho difícil alguém simpatizar com esse estado mental. Uma das coisas que distingue o homem de outros animais é que ele quer conhecer as coisas, quer descobrir o que é a realidade, simplesmente por conhecer. Quando esse desejo é, em alguém, completamente sufocado, penso que esse alguém tenha se tornado algo menos que um homem. De fato, não acredito que nenhum de vocês tenha perdido esse desejo. Muito provavelmente, pregadores tolos, ao sempre dizerem o quanto o cristianismo ajudará a vocês e o quanto ele é bom para a sociedade, tenham levado vocês a esquecerem que o cristianismo não é um comprimido que se toma para algum mal. O cristianismo alega ter uma explicação para factos – alega poder dizê-los o que é o universo real. Sua explicação sobre o universo pode ser verdadeira, ou pode não ser, e uma vez que a questão está à sua frente, então sua natural curiosidade deve fazê-los querer conhecer a resposta. Se o cristianismo não é verdadeiro, então nenhum homem honesto desejará nele acreditar, não importa o quão útil ele seja: se ele é verdadeiro, cada homem honesto desejará nele acreditar, mesmo se isso não o ajudar de forma alguma”.
(Excerto de God in the dock, que surge no Blog do Angueth)

O realizador Fellini disse da coreógrafa Pina Bausch, que morreu no dia 30 de Junho e a quem dera um papel no filme “O Navio”, que era “uma monja com um gelado, uma santa com patins, um rosto de rainha no exílio, de fundadora de ordem religiosa, de juíza de um tribunal metafísico, que de repente nos pisca o olho…” (Público, 1 de Julho).

(Primeiro parágrafo:) "Estava certa pessoa arrebatada em grandíssimo desejo da glória divina e da salvação dos homens… Exercitara-se durante algum tempo na prática da virtude, vivendo habitualmente na cela do autoconhecimento para melhor conhecer a Deus presente em si mesma. Quem ama, procura seguir a Verdade e revestir-se dela. Não existe, porém, melhor modo de saborear a Verdade e de ser por ela iluminado, que a oração humilde e contínua, baseada no conhecimento de si e de Deus. Tal oração une o homem a Deus nas pegadas de Cristo crucificado; identifica-o com ele no desejo, na afeição, na união amorosa. Jesus parece afirmar tudo isso, quando diz: “Quem ama, guarda as minhas palavras e eu me manifestarei a ele; será uma só coisa comigo e eu com ele” (Jo 14,21; 17,21). Em outras passagens bíblicas, ainda, encontramos o seguinte: pelo amor, o homem torna-se um outro Cristo!"
O Diálogo | Santa Catarina de Sena | Paulus, 1984, 420 páginas
Catarina nasceu em Sena (1347). Era a vigésima quarta filha de Tiago e Lapa Benincasa. Mística, ingressou na Ordem da Penitência de São Domingos, em 1362. Morreu no dia 29 de Abril de 1380, repetindo: “Pequei, pequei Senhor, tem piedade de mim”. Foi canonizada em 1461 e declarada doutora da Igreja em 1970, por Paulo VI. Dizem que era anoréctica. Os seus restos mortais estão na Basílica do Vaticano.

(Imagem: Mosaico da Basílica de São Marcos, em Veneza)
In Urbe
Zaqueu subiu a uma árvore
Para ver o Senhor.
A falta de árvores será então
o meu alibi.
Pedro Mexia, “Eliot e outras Observações”, Gótica, pág. 135
Zaqueu
A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pásssaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez.
Daniel Faria, "Poesia", edições quasi, pág. 167
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...