quarta-feira, 31 de julho de 2013

Baptista-Bastos é capaz de ir à missa de Francisco

Mais um franciscólogo instantâneo, Baptista Bastos, no DN de hoje.

Comecei a contar as asneiras - factuais, teológicas, de interpretação, ideológicas - e desisti na dezena. É ler para ver. E rir. Lá para o fim há coisas mais acertadas.

Ele até regressou ao "Por que não sou cristão", de Bertrand Russell, um livro (sim, li-o em adolescente e foi das primeiras obras que me fez tomar consciência de que para ser ateu culto é preciso estar informado sobre religião) que tem argumentos contra o cristianismo deste calibre: O cristianismo não pode ser divino porque Jesus disse aos discípulos que voltaria antes de eles chegarem aos confins de Israel. Ora, eles demorariam quando muito um mês a cumprir tal tarefa e Jesus ainda não voltou.

Estou a citar de cor, mas não estou a inventar. O argumento vem lá, em Russell, matemático de grande nível, sem dúvida, e insólito Nobel da Literatura. Mas o melhor é ler o senhor do laço.


Homossexuais: Novidade de conteúdo e novidade de atitude

A maior parte da imprensa laica destacou as palavras do Papa sobre os homossexuais: "Se alguém é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para o criticar?"

Na peça do El Mundo que citei (aqui), era essa frase que surgia em primeiro lugar. A generalidade dos jornalistas vaticanistas - não vai no avião do Papa qualquer um e não vão os jornalistas que "não percebem nada de religião" - deu destaque a esse assunto.

Depois disso, diversos comentadores católicos vieram dizer que não havia nada de novo nessas palavras, que a seguir o Papa disse para ler o Catecismo nesse capítulo, que... É verdade que não há novidade no conteúdo, estritamente falando (mas desde quando é que o critério da novidade de conteúdo serve para destacar o que um Papa diz? Eles não andam propriamente preocupados com as novidades de conteúdo). Mas há novidade de atitude. Algum dia alguém ouviu um Papa falar deste modo sobre os homossexuais?

E se as palavras do Papa forem levadas a sério - ou seja: deixar de haver críticas aos homossexuais que "procuram o Senhor e têm boa vontade" - continua tudo na mesma nas comunidades cristãs? O conteúdo não será novo, mas as atitudes mudarão muito. E, se tanto se criticam os católicos não praticantes, talvez se deixe se ter na mente que os homossexuais católicos só podem ser homossexuais não praticantes.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Casamentos de uma vida inteira. Ou mais.


Há dias, um jornal dizia que tinha surgido em Portugal um sítio eletrónico para os casados cometerem infidelidades. E já levava não sei quantas mil inscrições. Julgo que trinta mil. Na "2", do "Público" de domingo, surgiu entretanto uma das mais belas capas dos últimos tempos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Bento Domingues: "Os trabalhos do Papa Francisco"

No "Público" de ontem.

Francisco: "Se alguém é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para o criticar?"

"Si una persona es gay y busca al Señor y tiene buena voluntad, ¿quién soy yo para criticarlo?". Palabra de Francisco, quien ayer dejó con la boca abierta a los 71 periodistas que viajábamos con él en el avión que le llevó de vuelta a Roma al concluir su viaje a Río de Janeiro.

Ler aqui, em espanhol, o que Francisco conversou com os jornalistas no regresso a Roma.

Desproporção

As questões abordadas pelos antigos teólogos a propósito do modo de vida de Cristo refletem com frequência essa desproporção entre os dados sagrados vividos ou imaginados e os testemunhos evangélicos.


Christian Duquoc

domingo, 28 de julho de 2013

Bento Domingues: "Os trabalhos do Papa Francisco"

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

Para muita gente, o que parece é e, ao que parece, temos dois papas. Vestem-se ambos de branco, usam ambos um solidéu branco, os sapatos são diferentes. Um escreve a encíclica para o outro a publicar com a sua assinatura, mas declarando que não foi ele que a escreveu. O seu a seu dono, sem se saber quem é o dono. Os meios de comunicação informaram que, para a viagem ao Rio de Janeiro, o Papa Francisco foi-se aconselhar com o ex-Bento XVI. Quem andava assustado com o desembaraço deste Papa, gosta de saber que ele se aconselha com a sisudez de Ratzinger. Para os tempos que correm e para enfrentar os lobos do Vaticano, dois papas não são de mais.
Esta parece conversa de quem não quer que se toque no poder da Cúria, nas vergonhas do Banco do Vaticano e se distrai com um regime de indulgências a bom preço e de fácil acesso, a qualquer hora e lugar: basta ver, escutar e twittar.

Se vieres visitar a minha sepultura...

"Se vieres visitar a minha sepultura, não te espantes de ver o monumento a dançar. Pega no teu tamborete, porque a tristeza não fica bem no banquete de Deus".

Poema  de Abdullah Anri de Herat, poeta sunita do séc. XI, na sepultura do padre dominicano francês Serge de Beaurecueil. Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe.

sábado, 27 de julho de 2013

Anselmo Borges: "Os três estádios da existência e o combate da fé"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Deixou uma obra filosófica importante, um dos fundamentos das posteriores filosofias da existência - é dele o adjectivo "existencial". Refiro-me a Sören Kierkegaard, cujo segundo centenário se celebra este ano - nasceu em Copenhaga em 1813.

O que lhe interessava não era o saber na sua pureza teórica, mas como agir e viver. Escreveu: "O que no fundo me falta é ver claro em mim mesmo, saber o que hei-de fazer e não o que hei-de conhecer, excepto na medida em que o conhecimento deve preceder a acção. Trata-se de compreender o meu destino, descobrir aquilo que Deus no fundo quer de mim, encontrar uma verdade que seja tal para mim, encontrar a ideia pela qual possa viver e morrer."


Contra Hegel, cujo eco ouviu em Berlim, argumentou que não há um sistema da existência e do indivíduo. Ora, o decisivo é o indivíduo e a sua interioridade, a liberdade, a possibilidade, a angústia, o desespero, a salvação, numa decisão intransferível. Como dirá Unamuno, "eu sou único e não há outro eu no mundo", como também não há outro tu ou outro ele/ela.


É célebre a sua definição da existência humana como "uma relação que se relaciona consigo mesma ou, por outras palavras, como o que na relação faz com que a relação se relacione consigo mesma". É decisiva esta auto-referência, que é, inevitavelmente, hetero-referente. De facto, "uma relação que se relaciona consigo mesma -portanto, um eu -, tem que ter-se posto a si mesma ou ter sido posta por outro". Ora, a existência humana não se põe a si mesma e, por isso, a auto-relação é, necessariamente, relação a outro, o autor da relação, Deus, numa relação única de "comunicação existencial".


A existência está colocada perante três possibilidades fundamentais, a que chamou "estádios", não no sentido cronológico e lógico de passagem sucessiva de um a outro, mas de atitudes ou modos de existência. Seja como for, a passagem de um a outro não se dá dialecticamente, mas por um "salto" que transforma radicalmente a existência.


O estádio estético (do grego aisthesis, sensação, sensibilidade) tem a sua figura no Don Juan e caracteriza-se pela busca saltitante do gozo imediato das sensações, no instante fugidio da conquista, de prazer em prazer. Esta via da repetição hedonista desemboca no sentimento de frustração e melancolia e pode levar ao desespero. Pode dar-se então o salto para o estádio ético, empenhando a liberdade própria e assumindo a seriedade da existência, no cumprimento do dever e da responsabilidade, concretamente na relação estável e fiel com o outro no casamento. Mas, aqui, o indivíduo ainda está sob a lei geral. Só no estádio religioso o indivíduo se encontra verdadeiramente a si próprio e à sua singularidade no "abandono mais absoluto" a Deus, o totalmente Outro. O religioso é "o sério, e o sério é: o único". "Tornar-se cristão é a coisa mais decisiva que um homem pode tornar-se", pois resolve o seu "paradoxo": no tempo, decidir e encontrar a eternidade.


A fé tem o seu modelo em Abraão a quem Deus mandou sacrificar o filho. Segundo a exegese, o que o texto diz é que Deus põe termo aos sacrifícios humanos. Aliás, Kant, confrontado com o tema, escreveu que Abraão deveria ter dito a Deus que não era seguro que a voz que ouvia fosse de Deus, mas era certo que não devia matar. Kierkegaard, porém, coloca-se noutro plano: o do combate da fé, numa luta de vida e de morte com Deus. Deus põe à prova a fé de Abraão e o seu amor, quer ver se realmente O ama. Abraão, por sua vez, põe também Deus à prova: dispõe-se a matar o filho, mas, se Deus não intervier, só pode tornar-se ateu. Deus interveio. A fé e o amor são levados ao paroxismo.


Luterano, foi crítico ácido da Igreja oficial dinamarquesa: "Na sumptuosa catedral, eis que aparece o Reverendíssimo e Venerabilíssimo pregador da Corte, o eleito do grande mundo, e aparece perante um círculo de uma elite e prega com emoção sobre este texto que ele mesmo escolheu: "Deus escolheu o que é humilde e desprezado no mundo" - e ninguém se põe a rir." Mas, já à beira da morte, foi-lhe perguntado se acreditava em Jesus Cristo. E ele (cito de cor): "Sim. Em quem haveria de acreditar nesta hora?"

O Além de tudo

Ó Tu, o Além de tudo,
Como chamar-te por outro nome?

Gregório de Nazianzo

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco, o diabo e o mal

Cartune do "Público" de hoje

O DN traz a seguinte afirmação, logo a abrir a peça, que me fez pensar que o Papa Francisco finalmente é claro sobre a existência do diabo:
O papa Francisco apelou hoje [24 de julho, ler online aqui] aos fiéis para não perderam a esperança, afirmando que ainda que o diabo exista, Deus é o mais forte, e colocando ainda o povo latino-americano sob a proteção da Virgem de Aparecida.
Só com esta afirmação, parecia-me claro que "diabo" deixava de ser uma representação simbólica do mal para poder ser uma força pessoal, um ser, como afirma a DTDD (doutrina tradicional do diabo e do demónio). E o DN prosseguia:
"Ainda que o diabo, o mal, exista, não é o mais forte, o mais forte é Deus", disse o papa Francisco durante a celebração da missa no Santuário de Aparecida, no interior de São Paulo, a cerca de 200 quilómetros do Rio de Janeiro.
Mas agora já temos uma dissonância em relação à DTDD, que alguns gostam tanto de ver refletida nas palavras de Francisco. De acordo com a frase, o diabo é o mal. Ou então: "mal" esclarece o que Francisco pensa que é o diabo, podendo nós presumir que não se trata do ser pessoal da DDTD, mas do mal cuja existência e efeitos todos notamos, sendo o diabo símbolo de todo o mal. Na realidade, segundo a DDTD, mal e diabo não se equivalem, não são intermutáveis. O diabo está ao serviço do mal, dedicado ao mal, mas não é o mal. Ora, na teologia franciscana, diabo e mal equivalem-se, bem na linha do que propõem alguns teólogos e exegetas: interpretar as referências bíblicas (principalmente neotestamentárias) ao diabo como sendo alusões ao mal (o demónio é outra coisa).

Mas o que disse mesmo Francisco? Vamos ver o que vem no sítio do Vaticano (texto na íntegra aqui):
A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros.

Parece-me claro que temos todos os elementos para interpretar o diabo, "o dragão", como símbolo do mal e não como um ser pessoal (anjo) dedicado a tentar-nos.

E o mesmo se diga do amor

Uma amizade que pode acabar nunca foi uma verdadeira amizade.

Aelredo de Rievaulx

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Virginia Woolf horrorizada com a conversão de T. S. Elliot



T. S. Eliot com Virginia Woolf. A da direita é Vivienne, mulher de Eliot. A foto é de 1932. A conversão foi em 1927. Talvez Woolf tivesse mudado de ideias

Virginia Woolf ficou horrorizada quando descobriu que T. S. Eliot se tornara cristão:

Tive uma entrevista vergonhosa e difícil com o pobre e querido Tom Eliot que, de hoje em diante, se poderá dizer morto para nós. Tornou-se anglo-católico, acredita em Deus e na imortalidade, e vai à igreja. Fiquei realmente horrorizada. Um cadáver parecer-me-ia mais credível do que ele. Creio que há algo de obsceno numa pessoa viva, que se senta à lareira e acredita em Deus.

Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe, das Paulinas.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Francisco quer ler livro de Boff

No DN de hoje, entre as várias notícias do Papa no Brasil, está esta acima. O Papa quer ler o mais célebre livro de Leonardo Boff, precisamente o que mais conflito criou na relação com a Congregação para a Doutrina da Fé, então comandada por Ratzinger. A notificação da CDF sobre esse livro está aqui. Então Francisco ainda não leu este clássico da teologia? Não acredito. E deve haver vários exemplares lá pelos arquivos do Vaticano.

Na realidade, uma notícia do "Público" de segunda-feira diz outra coisa. O que Francisco quer ler é "Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja?" Ver notícia abaixo. Boff cheio de esperança.


O que é surpreendente

O que é surpreendente, para nós que acreditamos que Jesus era o Cristo, não são os milagres da vida pública, mas a ausência de milagre durante a vida oculta.

Mauriac

terça-feira, 23 de julho de 2013

Camisolas para Francisco. Agora dos clubes brasileiros

O Papa chegou ao Brasil ontem e teve milhares de pessoas à espera dele mais uma camisola de futebol. Desta vez do Fluminense.

O arquirrival Flamengo antecipou-se e ofereceu uma em Roma.


Fotos de Abola.pt (a de cima) e da revista Veja, que aqui tem mais uma série de camisolas de futebol papais.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bento Domingues: "Paciência com Deus (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

Os corninhos de Francisco


A "Time", nas suas várias edições (mas não na dos EUA) de 29 de julho, pôs Francisco na capa. Não é a primeira fez. Quando foi eleito, também lá apareceu. A polémica está em que os duas pontas do M parecem dois corninhos sobre Francisco. E logo neste Papa que de vez em quando fala do diabo.

Já agora, a outra capa "Time" de Francisco:



E se quiser ver os Papas que apareceram na capa desta revista, quando foram eleitos, clique aqui.

David vencido

Deus gigante! Vê, envergonhada, fraca e nua,
Esta criança que te desafia: nem sua funda tem pedra
E seus joelhos estão feridos por antigas orações,
O meu desejo - este David que quer ser vencido.

François Mauriac

domingo, 21 de julho de 2013

Uma frase de Bento Domingues no "Público" de hoje. Fé, muleta ou cajado?

Nós ainda estamos a caminho. A fé cristã — ao contrário da religiosidade natural, fácil e despreocupada — é sempre uma fé em processo de ressurreição. Encontra-se em fases muito diversas, ao longo das nossas vidas. O comentário irónico de que a fé é uma muleta para fracos e coxos, dispensável pelos fortes, pode ser, apenas, um expediente de conversa. Prefiro a metáfora de cajado do peregrino, que todos somos.

Bento Domingues

Público, 21-07-2013

sábado, 20 de julho de 2013

Anselmo Borges: "Desabafos de um habitante do Absurdistão"

Início do texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Absurdistão será o reino do absurdo - do latim, por contaminação, de ab-sonus (que não soa bem) e surdus (surdo, que não percebe), ab-surdus: etimologicamente, absurdo é, pois, o dissonante, e, depois, o contra-senso. Num Dicionário de Filosofia, poderá encontrar-se esta definição: a destruição de uma relação normal ou lógica que se esperava entre as coisas ou entre si e o mundo. A situação portuguesa é, neste nosso tempo, assim: surreal, que não se entende, com um futuro incerto e perigoso.

Ler tudo aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Memória perigosa

O Messias aponta-nos a grande missão de compaixão pela humanidade. Se percebêssemos isso como cristãos, hoje, essa seria a nossa memória perigosa.

Johann Baptist Metz em entrevista a António Marujo (24 de dezembro de 2006) in "Deus vem a Público"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Perdão até pelo Twitter


No "Correio da Manhã" de hoje. Nunca consigo compreender estes perdões papais.

Americano acorda a falar sueco. E isso é o quê?


O americano Michael Thomas Boatwright acordou a falar só sueco e pensa que é Johan Ek. Li aqui. Noutros tempos, e nestes parece que cada vez mais, haveria pelo menos duas explicações muitos claras para este fenómeno:

a) efeitos do demónio;
c) prova da reencarnação.

Não sei qual é a explicação para tal situação (os parapsicólogos são capazes de dizer algo do género: que em algum momento o sr. Boatwright ouviu falar sueco, que isso ficou gravado na mente e que agora, por algum motivo, essa parte do cérebro foi ativada e lá está ele a falar sueco), mas cá está um caso em que não nos devemos satisfazer com as explicações pseudo-religiosas que não explicam nada.

Poder versus comunhão

Deus decidiu perder poder a fim de poder oferecer comunhão.

Karl Barth

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Uma profissão com futuro: exorcista


No DN de hoje.

Cá está uma área de atividade diretamente proporcional à publicidade. Quanto mais se disser que o diabo possui pessoas, mais atividade diabólica desta haverá (desta, que de diabólico nada tem; os pecados do mundo e no mundo, ou as "estruturas de pecado", como dizia João Paulo II, pouco interessam aos exorcistas) e mais exorcistas serão necessários. O inverso também é verdade. Quantos mais exorcistas forem nomeados e mais se publicitarem, mais clientela aparecerá. O mercado a funcionar.

Bento Domingues: "Paciência com Deus (2)"

Texto de Bento Domingues no "Público" e ontem.

domingo, 14 de julho de 2013

Bento Domingues: "Paciência com Deus (2)"

Dizem-me que Deus deveria mandar encerrar as suas agências de publicidade, pois onde mantêm o monopólio do mercado religioso a sua invocação foi-se tornando um susto, uma ameaça; onde há liberdade religiosa, cada uma pretende ser a única com garantia sobrenatural, todas a fazer de conta que a divindade é sua propriedade privada e exclusiva.

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

sábado, 13 de julho de 2013

Diz um rapazito católico ao colega judeu

Diz um rapazito católico ao colega judeu:
- O meu padre sabe muito mais do que o teu rabino...
O colega responde:
- Claro que sabe. Tu contas-lhe tudo.

Anselmo Borges: "A última encíclica de Bento XVI"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, do ano 2013, primeiro do meu Pontificado. Francisco" (assinado à mão, sem a indicação habitual de papa). Termina assim a primeira encíclica do Papa Francisco, dedicada ao tema da fé: "Lumen Fidei" (a luz da fé).
Como ele próprio diz, a encíclica foi substancialmente redigida pelo seu predecessor: Bento XVI "já tinha completado praticamente uma primeira redacção desta Carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração e assumo o seu precioso trabalho, acrescentando alguns contributos". De facto, o papa emérito tinha em mente uma trilogia sobre as três virtudes teologais e já publicara uma encíclica sobre a esperança, outra sobre o amor, faltando a referente à fé, que aparece agora. Um texto belo, bem fundamentado, talvez demasiado académico, com citações de Nietzsche, Dante, Dostoievsky, Wittgenstein, Rousseau,T. S. Eliot.
A sua assunção por parte de Francisco revela humildade e também o reconhecimento do mérito intelectual do seu antecessor e, ao mesmo tempo, a importância da teologia para o cristianismo. Sem teologia, a fé não é argumentável. Mas, se a fé não dialoga com a razão, não tem lugar na Universidade, ficando reduzida a puro sentimento. Esta era uma preocupação fundamental de Bento XVI.
Será a fé religiosa uma mera ilusão, fruto do espelhismo? Lá está a citação de Nietzsche, numa carta à irmã, convidando-a a arriscar-se, a "empreender novos caminhos... com a insegurança de quem procede autonomamente". E acrescenta: "Aqui se dividem os caminhos do homem: se queres alcançar paz na alma e felicidade, crê; mas, se queres ser discípulo da verdade, indaga." Como se a fé fosse, portanto, o contrário de buscar, abandonando a novidade e a aventura da vida.
Aconteceu então que "o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande", contentando-se com a verdade da tecnologia, com a verdade do cálculo, com pequenas luzes que iluminam o instante fugaz, mas incapazes de abrir o caminho da vida plena. "É urgente recuperar o carácter luminoso próprio da fé", pois, "quando falta a luz, tudo se torna confuso, é impossível distinguir o bem do mal". Aqui, acrescento eu, poderia citar a advertência que Nietzsche, sete anos antes do seu colapso pessoal, fez à mulher do seu amigo Overbeck, de nome Ida, para que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, quero criar algo novo e não posso nem quero voltar atrás. Vou perecer por causa das minhas paixões, que me atiram daqui para ali; desmorono-me continuamente, mas isso nada me importa."
A fé tem o seu fundamento na experiência crente de Jesus, naquela sua experiência avassaladoramente felicitante de Deus enquanto Abbá (querido paizinho). Acreditou, entregando a sua vida até à morte a esse Deus-Amor e ao seu Reino de vida digna para todos. Os cristãos acreditam como ele e nele, que está vivo em Deus, o Deus da Vida. E procuram agir como ele, levando avante, na confiança e no combate pela vida, o Reino do Deus da vida para todos.
Penso que é pena a encíclica não começar pelo dado antropológico de base: a vida humana está desde a raiz fundada na fé, na confiança. Na presente situação, percebemo-lo perfeitamente, pois o que nos falta é precisamente fé, confiança, crédito.
Leonardo Boff também chamou a atenção para outra lacuna: não aborda com profundidade a crise de fé do homem contemporâneo, as suas dúvidas, as suas perguntas. Onde está Deus, quando um tsunami faz milhares e milhares de mortos? Como crer ainda, depois dos campos de extermínio, dos milhões de torturados e assassinados no corpo e na alma? "Crer é sempre crer apesar de... A fé não elimina as dúvidas e angústias de um Jesus que grita na cruz: "Pai, porque me abandonaste?" A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo há um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará?"
A encíclica: "A luz da fé não dissipa todas as nossas trevas, mas, como lâmpada, guia os nossos passos na noite, e isto basta para caminhar."

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Nível

Deus põe-se a viver à maneira humana para que o ser humano aprenda a viver de maneira divina. Deus põe-se ao nível do ser humano para que o ser humano possa pôr-se ao nível de Deus.

Tertuliano

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Francisco recusa feiras de vaidades


O Papa esta na capa da "Vanity Fair" italiana (que em janeiro de 2013 pôs na capa o então ainda somente padre Georg). Papa coragem". Mas o Francisco não gosta de feiras de vaidades, pelo que mandou retirar a sua estátua da catedral de Buenos Aires.


Pessoa histórica

A pesquisa sobre o Jesus histórico é necessária porque o anúncio da fé quer conduzir o fiel a um encontro existencial com uma pessoa histórica: Jesus de Nazaré.

J. A. T. Robinson

terça-feira, 9 de julho de 2013

Mário Soares diz que puseram na missa do patriarca de Lisboa "capangas" para "bater palmas aos políticos"

Mário Soares no DN de hoje (tudo, aqui):
TEMOS ESPERANÇA NO NOVO PATRIARCA?No último domingo, realizou-se a primeira missa de D. Manuel Clemente, atual patriarca, no Mosteiro dos Jerónimos. Havia a esperança de ser um novo impulso para a Igreja portuguesa, muito mais aberta do que a espanhola e mais próxima do pensamento do novo Papa Francisco. 
Mas não foi. A missa, instrumentalizada pelo Governo moribundo que temos, tornou-se uma vergonha inaceitável. A presença do Presidente da República, nada discreta, de Passos Coelho e de Paulo Portas e mais a claque dos capangas que lá puseram para bater palmas aos políticos presentes resultou num escândalo. Nenhum católico verdadeiro pode aceitar uma tal humilhação a que sujeitaram o patriarca, que, julgo, não a merecia. Mas a verdade é que não reagiu e pelo contrário parecia satisfeito, como se viu na televisão. 
Se a Igreja não deve intrometer-se na política, a verdade é que os políticos também não devem aproveitar-se da Igreja para fazerem propaganda. Teremos voltado ao tempo triste do fascismo? 
Foi o que aconteceu, sem que o senhor patriarca tivesse reagido minimamente. Começou muito mal com a sua primeira missa. Direi mesmo que foi uma vergonha que infelizmente o vai marcar negativamente perante os católicos sinceros e progressistas, sem falar dos leigos, como eu, que se lembram bem dos tempos em que o fascismo utilizava a religião... 
Não sei agora como é que o senhor patriarca vai falar dos desempregados e dos pobres, quando deixou que os responsáveis por essa desgraça nacional fossem aplaudidos nessa primeira missa, obviamente organizada pelos políticos, como está à vista, quando são vaiados sempre que se atrevem a aparecer na rua.
É óbvio que uma Igreja como o Mosteiro dos Jerónimos é um local sagrado. 
Não se compreende assim que o novo patriarca, que é uma pessoa culta e experiente, deixasse que os políticos presentes fossem aplaudidos sem que ele, patriarca, lhes lembrasse que a Igreja onde estavam é um lugar sagrado, não é um lugar próprio para esse tipo de manifestações políticas. Começou mal, muito mal, as suas novas funções, como o povo católico mais humilde vai compreender.
Concordo que as palmas aos governantes são despropositadas numa igreja. Mas daí até dizer que se tratava de uma "claque dos capangas que lá puseram para bater palmas aos políticos" ou  de uma "primeira missa, obviamente organizada pelos políticos", vai uma grande distância. E parece que Mário Soares não ouviu que novo patriarca pediu aos políticos que apostem na criação de emprego.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Bento Domingues: "Paciência com Deus (1)"

Texto de bento Domingues no "Púbico" de ontem.

D. Manuel III, Patriarca de Lisboa?

Corre para aí que o novo patriarca de Lisboa é D. Manuel III. O "Público" usa e abusa da designação. Não imagino de onde vem tal designação. Obviamente, já terá havido dois patriarcas Manuel. Se é o próprio que quer tal designação, o que pretende com isso? (É o que dá a entender a "Visão", que lhe chama "pontífice".) Até parece que os bispos (ou será prerrogativa dos patriarcas?) estão numa sucessão dinástica. Sucessão, sim, mas apostólica.


domingo, 7 de julho de 2013

O milagre de João Paulo II - 2


Floribeth Mora, costarriquenha de 50 anos, no dia 30 de abril de 2011,
“asistió a misa y a una procesión en su comunidad, pero que su condición de salud le impidió participar en una jornada de oración en el Estadio Nacional de San José, donde se transmitiría por pantalla gigante la ceremonia de beatificación de Juan Pablo II”. 
"No sé como me desperté y vi toda la beatificación por televisión en mi casa. Al ser las 8 de la mañana del siguiente día (1 de mayo), me desperté, cuando escucho una voz que me dice: 'levántate, no tengas miedo', y yo estaba sola en mi cuarto", expresó Mora. 
Tras escuchar esas palabras, la mujer dice que observó una revista conmemorativa a la beatificación de Juan Pablo II que le habían regalado y que la imagen del beato alzó sus manos y volvió a escuchar la voz: "levántate, no tengas miedo". 
Mora cuenta que en ese momento se puso de pie, salió de su cuarto y se encontró con su esposo, que le preguntó qué hacía levantada. 
"Le dije a mi esposo: me siento bien. Y desde ese día me paré de esa cama y sigo en pie, camino, hablo, estoy bien. El señor me vio con ojos de misericordia por la intercesión de Juan Pablo II, miró a esta mujer indigna y me sanó", afirmó Mora. 
El 11 de noviembre de 2011 se practicó exámenes de seguimiento de su enfermedad y los médicos determinaron que el aneurisma había desaparecido sin explicación científica.

Li aqui. O (2) do título aponta para esta notícia.

Bento Domingues: "Paciência com Deus (1)"

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


Há pessoas que falam da vontade de Deus e dos seus desígnios, com tanta certeza e desenvoltura, que até parece que Deus lhes lê o seu jornal todas as manhãs. Fico, depois, perplexo com o recurso ignorante a certas construções teológicas acerca da vida interna da SS. Trindade, como se andassem nos corredores de um museu de antiguidades. Não posso deixar de admirar essa arrojada arquitectura mental, cheia de subtilezas, para que o mistério da divina unidade na trindade das pessoas não surja como um absurdo, no contexto da sua recepção na cultura grega. Admito que esta concepção possa ajudar a acolher e cultivar a unidade plural nas nossas sociedades e no mundo em geral. Não tenho, todavia, paciência para a racionalização neutralizante da vida das metáforas. Ao perderem a sua energia poética passam a ser conceitos de nada. Tenho diante de mim, uma curiosa imagem com três cabeças numa só. Coitada. Prefiro a sobriedade enigmática dos textos do Novo Testamento.

Todo o texto aqui, amanhã. E, já agora, três imagens como a que o dominicano tem diante dele.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

João Paulo II curou um aneurisma

No CM de ontem. O milagre que iria surpreender o mundo (ver aqui) é a cura de um aneurisma. Ok, um aneurisma é uma coisa complicada, mas parece-me que o mundo não ficou lá muito surpreendido.

Sempre que me falam de milagres, a minha fé (admito, não deve ser muita) enfraquece-se um bocadinho.

Lumen fidei

"Lumen fidei", a primeira encíclica de Francisco (e a última de Bento XVI), aqui em português. E aqui em PDF.

É mas não é só

Segundo Jesus, ainda que Deus seja amor, o amor não é Deus; ainda que Deu seja uno, a unidade não é o Deus de Jesus.

Richard Niebuhr

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Obrigação

O abismo da tua encarnação
obriga-me a pronunciar estas palavras apaixonadas:
Tu, o incompreensível, feito compreensão;
Tu, o incriado, feito criatura;
Tu, o inconcebível, feito concebível;
Tu, o espírito intangível, tocado pelas mãos dos homens.

Ângela de Foligno (séc. XIII-XIV)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sondagem: Conhecem alguma revista de teologia?

Conhecem alguma revista de
- teologia
- reflexão cristã
- cultura católica
- espiritualidade
que valha a pena ler?

Em papel, digital, online... Gostava de saber as respostas de quem habitualmente anda por aqui. Podem responder como "anónimo".

Fé, o que é?

A fé em Cristo não é só o reconhecimento mental da superioridade do seu ensinamento, mas a espontânea inclinação.

Dostoiévski

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...