quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Entre vós



"Entre vós, entre o Colégio Cardinalício, está também o futuro Papa, ao qual já hoje prometo a minha incondicional reverência e obediência”.

Bento XVI
(Tomei a frase de um comentário anónimo numa entrada anterior; a foto é do Público / AFP)

Bento Domingues: Não basta um novo Papa

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Está disponível para todos aqui.


É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes. Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados.



1. A preocupação única com o perfil do próximo Papa é ambígua. Pode dar a ideia de que as qualidades do novo Papa, humanas e sobrenaturais, irão resolver, por si só, as questões com que se debatem as comunidades católicas no mundo inteiro.

Na memória de muitos católicos, e não só, a eleição de João Paulo II era uma primavera de promessas: novo, desportista, actor, assistente de movimentos juvenis, com uma capacidade de comunicação espantosa, confessava que o caminho da Igreja era a do ser humano e vinha de um país de Leste.

Quando ficou irremediavelmente doente, as suas grandes qualidades foram celebradas, de novo, na sua capacidade sacrificial. Para esta mentalidade, renunciar seria uma traição ao vitalício carisma papal. Veio Bento XVI e, de repente, o importante era o Papa teólogo, capaz de dialogar com o pensamento moderno e, para alguns devotos, o maior pensador do século XX. O cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não tinha mostrado grande respeito pelos seus colegas teólogos, nem capacidade ou vontade de diálogo com todos aqueles que tinham uma hermenêutica diferente do Vaticano II. Ele defendia a da continuidade, dizendo que os outros eram por uma hermenêutica da ruptura. Reduziu, de facto, a teologia a um comentário do Magistério.

Tendo, porém, criado um vazio à sua volta, no mundo teológico, não associou ao seu governo as Conferências Episcopais, nem valorizou o papel dos Sínodos dos Bispos. Acabou por ficar confinado ao mundo da Cúria, com ferrugem de séculos, segundo D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro.

Seja como for, pelo que consta, o seu legado na reforma da Cúria não parece brilhante, nem sequer aos olhos de Bento XVI.

2. É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes.

Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados. Personalidades assim não se podem encomendar, sobretudo num grupo já de si tão restrito, o dos cardeais eleitores: estes eram 117 até ao último domingo. 61 europeus; 19 latino-americanos; 14 norte-americanos; 11 africanos; 11 asiáticos e um da Oceânia. Na Europa, 28 são italianos.

A verdadeira questão não é a das características individuais do Papa. A questão é a do papado, isto é, a do sistema de governo da Igreja Católica.

Os Papas apresentam-se como sucessores de S. Pedro. Pedro era casado e, talvez, a sua mulher o acompanhasse nas suas viagens missionárias. (1 Cor 9,5).

No Novo Testamento aparecem quatro listas de Apóstolos e, nas quatro, Pedro figura em primeiro lugar. O texto-chave sobre a sua primazia é o de Mt. 16, 17-19: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Jesus não o tratou sempre assim: arreda-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens (Mc 8,27-33). Durante o processo de Jesus, traiu o Mestre três vezes. Paulo enfrentou a sua hipocrisia, em Antioquia (Gal 2, 11-14). No entanto, a referência a Pedro é clara, mas quem escolheria, hoje, para Papa alguém com estas características?

3. Seria um abuso responsabilizar S. Pedro pela história do papado e pela sua configuração actual. Segundo parece, o primeiro bispo de Roma a ser chamado Papa foi João I, no séc. VI, embora fosse um termo do vocabulário cristão, de carinho pelos pastores das comunidades.

Nas circunstâncias actuais, nos limites da escolha de um novo Papa, seria desejável ver alguém eleito disposto a fazer uma reforma do governo da Igreja Católica. Antes de mais, que se lembre da ausência de representação de metade da Igreja, denunciada pelo cardeal Suenens, no Vaticano II: as mulheres. Acabar com a forma actual de sigilo na escolha dos bispos. A eleição do Papa seria mais representativa se fosse escolhido a partir de representantes das Conferências Episcopais do mundo católico. Os movimentos laicais, na sua diversidade, deveriam dispor de canais de representação. As Congregações Religiosas, femininas e masculinas, não poderiam ficar de fora, dado o seu carisma de carismas na Igreja.

Certamente estou a esquecer muita coisa. Pouco importa agora. Pretendo apenas ver restaurado e aplicado um princípio antigo do direito: o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos, segundo as modalidades possíveis, em cada época e nas diversidades das culturas.

Os direitos humanos são secularizações de valores cristãos: liberdade, igualdade, fraternidade. É sintomático que a fraternidade nunca tenha tido muita aceitação, mas sem ela a liberdade e a igualdade serão sempre abstractas.

Jesus, o ecuménico

Jesus tem consciência de ser enviado, com a sua pregação da soberania de Deus [Reino dos céus / de Deus], a todo o povo de Israel. Ao contrário dos vários grupos existentes da altura, Jesus recusa qualquer intenção separatista.

Joachim Gnilka

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

João César das Neves: "Um grande papado"

No "Correio da Manhã" de ontem.

O travesseiro de Jesus


“Houve momentos em que as águas estavam agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir, mas sempre soube que nessa barca está o Senhor e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas é sua e a não deixa afundar”.

Bento XVI, 27 de fevereiro de 2013

Bento XVI disse isto há pouco, numa das últimas aparições públicas.

A frase remete para Mc 4,37-38. Jesus ia na barca, diz Marcos, quando surge uma grande tempestade que lança ondas para dentro da barca.

"Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada".

Sempre me intrigou esta almofada, que parece um objeto insólito no meio do evangelho. Para mais, quando Jesus, como se diz nas pregações, "não tinha sequer uma pedra onde reclinar a cabeça".

Mais Jesus menos Papa. Centremo-nos em Jesus. Ele era precavido, aviava-se em terra. E tinha uma almofada. Espero que Ele agora diga: "Encosta-te aqui Joseph. Deixa as tormentas. A almofada é grande. Dá para os dois. Descansa".

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Igreja e Reino

O Reino de Deus é a grandeza definitiva. Quanto mais ela [Igreja] o reconhecer, mais se conformará à missão de Jesus.

Joachim Gnilka

O dia depois de amanhã


Um leitor, anónimo, deixou um link para esta foto (nos comentários daqui), da secção inglesa da Rádio Vaticano no FB, e escreveu:

Cansado, magro, vesgo. As minhas orações estão com ele bem como com aqueles membros da Igreja que conduziram ataques ferozes contra ele e agora vêm dizer que o amam.

Humildade: a encíclica de Bento XVI na hora da despedida


Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera.  Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita.  Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.

A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.

Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.

Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica:  crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...

Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.

Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

Jean-Marie Guénois
Copiado do SNPC.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

João César das Neves "ao lado do essencial"

Texto de João César das Neves no DN de hoje.



Quando Jesus nasceu foi dito d'Ele: "Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Parece que essa propriedade se mantém no Seu Vigário, pois muito do que se tem dito nestes dias acerca de Bento XVI manifesta mais a atitude pessoal de quem fala do que o problema que julga analisar.

A Igreja é a instituição mais comentada fora dela. Por todo o lado se proclamam opiniões taxativas sem lhe pertencer, ou sequer simpatizar. O Cristianismo é, sem dúvida, o tema com mais treinadores de bancada. Pelo seu lado o Papado, que é o seu elemento mais criticado, exerce a espantosa atracção que se vê. Não conseguem gostar dele, nem deixar de falar disso. O fenómeno merece análise.

É verdade que a Igreja Católica constitui uma realidade única no mundo. Existindo há 2000 anos, hoje com 1200 milhões de fiéis, é facilmente a maior e mais influente instituição da história. Bento XVI, o 265.º Papa, é também caso único. A mais antiga monarquia, a do Japão iniciada em 660 a. C., tem actualmente "apenas" o seu 125.º imperador, enquanto o Dalai Lama, que pode ser considerado o líder mundial mais parecido, é só o 14.º desde 1357. Em termos meramente estéticos e intelectuais é fascinante.

No entanto, essas análises incluem um elemento inesperado pois, em geral, os comentadores, sendo alheios, não fazem o menor esforço para entrar dentro da lógica daquilo que consideram. Mas não tomam isso como um obstáculo à qualidade do seu juízo. É evidente que quem emite opiniões sobre ciência, música, jardinagem ou alpinismo faz um esforço para entender essas entidades, mesmo que se mantenha exterior ao próprio. Ninguém escreve sobre indígenas do Pacífico, cinema japonês ou cultura punk sem procurar dominar o respectivo ponto de vista. No caso da Igreja isso não sucede, o que leva a generalidade dos críticos a pronunciar candidamente os dislates mais flagrantes, sem perceber que está totalmente ao lado da questão. O motivo desta situação é um fenómeno curioso.

Como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias, a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo no fenómeno que consideram: Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus. Do mesmo modo, toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus, e espera do Senhor a continuação desta história. Ignorar isto é como discutir música sem som ou alpinismo sem montanhas.

Olhar para os recentes acontecimentos desta forma, ou seja a partir de dentro, muda completamente as conclusões. Bento XVI não renunciou por causa da Cúria, que é igual há séculos, ou devido a escândalos e ataques, iguais aos que acompanharam cada momento do pontificado. Nem sequer foi por motivos de saúde, apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está plenamente convencido ser essa a vontade de Deus. Ele acha mesmo que é isso que aquele Senhor que segue atenta e minuciosamente em cada passo da vida há muito anos, e a quem entregou cada gota da sua existência, quer que ele faça.

Ver assim as coisas também muda totalmente as conversas que estes dias se multiplicam sobre o próximo Papa. Aqueles para quem essa eleição terá consequências, porque seguirão realmente na sua vida o novo "Cristo na terra", como lhe chamava S. Catarina de Sena, vêem as coisas de outra forma. Eles estão pouco preocupados se ele será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. Essas são as questões das escolhas na ONU ou Comité Olímpico, mas o Conclave nada tem a ver com isso.

Para os eleitores o propósito é, como diz a Constituição Apostólica que regula o processo, ter "em vista unicamente a glória de Deus e o bem da Igreja" (Universi Dominici Gregis, 83). Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.


Comentário: Um bom texto para confrontar com o de Bento Domingues e o de Anselmo Borges na última semana. Eu gosto dos três colunistas, embora sejam contraditórios. E até me sinto mais perto da ideologia económica de João César das Neves, tirando um ou outro ponto (eu acho que dou mais valor à DSI do que o professor da Católica) do que da de Bento e Anselmo (que não são totalmente  iguais entre sim, penso eu).

Também gosto dos paradoxos do professor de economia, mas já não consigo lê-lo sem lhe dar um desconto. Há muita coisa com aparência de verdade que não é. Neste texto, por exemplo, diz que em geral os comentadores da Igreja são-lhe (à Igreja) alheios. Mas como pode ser, se em geral são catolicamente batizados e se a Igreja se pronuncia sobre tudo o que diz respeito à vida humana? Ninguém é alheio à Igreja Católica no Ocidente. Podem não querer nada com ela, mas sentem-na presente.

Diz, citando Catarina de Sena, que o papa é o novo "Cristo na terra". Pois. Deus nos livre. Quer dizer, até é. No sentido em que todos os ministros são. E todos os cristão o são. E todos os seres humanos o são. Principalmente os mais frágeis. Caso contrário, é a papolatria de que falava Bento Domingues, com razão, porque de facto existe.

Diz que não renunciou por causa da Cúria e dos outros motivos todos, mas somente por causa da vontade de Deus... que se manifestou nas dificuldades todas com que o Papa se confrontou, acrescento. Ou terá Deus falado especialmente ao que, nas suas próprias palavras não é nada místico Joseph Ratzinger?

Diz que as pessoas estão pouco preocupadas se o novo Papa será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. É ir à rua e perguntar. De facto estão. Nunca de falou tanto destas possibilidades. Até os bispos e cardeais eleitores falam disto. Até Bento XVI está interessado no que lhe vai suceder, a julgar pela declaração de renúncia. Tem se ser forte para enfrentar todo um mundo de problemas. Liderar a Igreja neste mundo.

"Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam". Quem dera que assim fosse. Se trocarmos o "menos" pelos "mais"... É um sonhador o João César das Neves.

Bento Domingues: "O Papa não é a cabeça da Igreja"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.


1. Quando a anormalidade se torna normal, o reencontro com a mais pura normalidade surge como algo de extraordinário. É certamente essa secular situação que explica o espanto, ora sincero ora fictício, diante da clarividente renúncia de Bento XVI. Além disso, as canonizações rituais dos titulares de certas funções na Igreja e a intensa promoção do culto da personalidade acabam por se exprimir numa beata retórica de finados: "Que iria ocorrer agora? Como continuaria sem ele o Ano da Fé?"

É precisamente porque estamos no chamado Ano da Fé, que importa não a desfigurar com expressões ridículas resvalando para a idolatria. Os católicos sabem que o Papa não é a Igreja, nem a cabeça da Igreja e que a si próprio se designa como "servo dos servos de Deus". Como diz S. Paulo, seguindo a verdade no amor, cresceremos em tudo em direcção Àquele que é a cabeça,Cristo; Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que plenifica tudo em todos (Ef. 4, 15; 1, 22-23 e par.).

O apóstolo escolheu e usou estas imagens para que ninguém, na Igreja, pretenda substituir Jesus Cristo, fundamento da unidade eclesial na pluralidade dos seus carismas, por qualquer culto idolátrico. Como os papas não são sucessores de Cristo, é de elementar decência teológica denunciar qualquer expressão de papolatria.

2. S. Tomás de Aquino teve o cuidado de lembrar que o terminal da Fé cristã não é o articulado do Credo, fruto das Igrejas cristãs, mas o próprio Mistério de Deus e, por isso, acrescentou que, em rigor, nem sequer é na Igreja que acreditamos, mas no Espírito Santo, que santifica a Igreja (Cf. ST II-II q. 1 a 1 ad 2; a. 9 ad 5).

Seria, no entanto, abusivo concluir: se o que importa é o Espírito Santo, então não se preocupem nem com a qualidade humana e espiritual da hierarquia eclesiástica, nem com as formulações da fé cristã. Deus providenciará!

Um tal sobrenaturalismo seria uma ofensa à própria teologia de Tomás de Aquino. Bento XVI, no dia 27 do mês passado, véspera da festa deste santo, aludiu a uma das suas mais ousadas buscas de harmonia, embora carregada de tensões, sobretudo em momentos de grandes viragens culturais: a fé cristã não eclipsa a razão; oferece-lhe até, no seu interior, uma nova paisagem e novos campos de investigação. Como diz no seu hino eucarístico, de poética modernidade, quantum potes tantum aude (atreve-te quanto puderes).

A graça não substitui a natureza, nem a natureza dispensa a graça do infinito amor. Importa derrotar as representações que substituem uma tensão existencial por uma persistente rivalidade: se damos muito a Deus, roubamos o ser humano, se concedemos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Yves Congar, no diagnóstico da situação religiosa dos anos 30 do século passado, escreveu de forma lapidar: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião. Jesus Cristo é a radical superação desta rivalidade. Ele incarna a abertura humana ao Mistério de Deus e a abertura divina ao Mistério do Mundo. O encontro da finitude humana, do não divino, com a infinita profundidade divina, faz parte da identidade cristã.

3. Como escreveu E. Schillebeeckx, um dos grandes teólogos do séc. XX: não existe automatismo da graça. Os católicos acreditam que o Espírito de Cristo actua no mundo, na vida da Igreja e na acção ministerial das suas lideranças, mas também sabem que o povo crente e, dentro dele, a hierarquia eclesiástica podem, de diversas formas, acolher ou recusar os dons do Espírito. Quem não está atento à multiforme mediação eclesial da acção do Espírito Santo - porque supõe que goza do monopólio da verdade - acaba por se subtrair à sua influência.

Sempre que o magistério oficial deixa de estar atento às diversas instâncias de mediação que estruturam, o povo cristão corre o perigo de não escutar os reais apelos do Espírito de Deus. Quem ignora estas mediações sucumbe à tentação do facilitismo ou da negligência e torna-se vítima de cegueira e de surdez ideológicas.

Um apelo do Magistério ao Espírito Santo, sem ter em conta as mediações eclesiais, informando-se cuidadosamente antes de assumir as suas próprias responsabilidades, é um apelo em vão. Retirar-se para escutar os murmúrios do Espírito é, sem dúvida necessário, mas não basta nem dispensa o estudo das situações concretas de um mundo em mudança. A omnipresença do mistério da graça não suprime, automaticamente, a presença do mistério da iniquidade na história do mundo, das religiões e das Igrejas cristãs, no passado e na actualidade.

O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afectariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que, sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.

Mensagem e mensageiro

O interesse por Jesus de Nazaré é maior do que pelo anúncio da sua mensagem pela Igreja, devendo, portanto, colocar-se a questão da origem desta situação.

Joaquin Gnilka

domingo, 24 de fevereiro de 2013

José Manuel Fernandes sobre Bento XVI

Texto de José Manuel Fernandes no "Público" de sexta-feira, 22 de fevereiro.

Bento Domingues: "O Papa não é a cabeça da Igreja"


O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afetariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que, sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.

Bento Domingues no "Público" de hoje. Texto na íntegra, hoje, na banca dos jornais. Amanhã aqui.

José Mourinho sucede a Bento XVI?


"José Mourinho sucede ao Papa?" A pergunta é do jornal "Record", que adianta:
As casas de apostas estão ao rubro com a escolha do sucessor do Papa Bento XVI. Tanto que algumas dessas empresas especializadas decidiram colocar o nome do treinador do Real Madrid no lote de possíveis candidatos a Sumo Pontífice. Mas José Mourinho não é o único “desportista” entre os possíveis sucessores do Papa. Na lista constam o ex-ciclista Lance Armstrong, o proprietário do Milan, Silvio Berlusconi, e o avançado italiano Mario Balotelli. Haverá apostadores tentados em arriscar a sorte em alguma destas personalidades?
Li aqui.

Coisa tão insólita tem uma explicação. Basicamente, humor inglês. Mas agora vai em espanhol:
El entrenador portugués podría hacerse con un puesto en la Curia Vaticana, ya que en principio cumple con los requisitos imprescindibles para ser elegido como tal: Ser varón y estar en pleno uso de razón. Además, posee un carisma reconocido por todos los que han tenido la ocasión de cruzarse con él y escucharle, y quizá sus discursos polémicos e incisivos servirían para volver a poner en el candelero a la Iglesia Católica. 
Además, ya tiene experiencia como entrenador de "Cristianos", lo que debería contar a su favor. 
Los que quieran apostar por Mourinho como nuevo Papa, pueden aprovecharse de esta oferta de Ladbrokes, casa inglesa que en España opera como LBapuestas, por la que, en caso de acertar, obtendrían 1.001 euros por cada euro apostado. 
De todas formas, está claro que esta apuesta es un gancho humorístico de la casa de apuestas con sede en España, que proviene de la tradición inglesa en la que es habitual hacer apuestas con tintes cómicos y surrealistas. En España hace poco tiempo que se legalizaron completamente las apuestas y aún estamos poco acostumbrados a ver este tipo de bromas, pero sin duda pueden resultar muy graciosas, aunque poco rentables.
Li aqui.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sobre as revelações do "La Repubblica"


As revelações do jornal "La Repubblica" - em síntese, o Papa teria renunciado por causa do relatório de 300 páginas elaborado por três cardeais na sequência do "Vatileaks" onde se pode ler que há corrupção e um "lobby gay" no Vaticano - podem ser falsas. Ou não. Um leitor, no post anterior, desconsidera a peça por ter sido escrita por uma jornalista comunista, Concita de Gregorio.

Para conhecer mais o processo, que foi precedido por um artigo de Ignazio Ingrao na "Panorama" (mas o "La Repubblica" é que deu internacionalidade à coisa), vale a pena ler o blogue de Robert B. Monihan (um bem conhecido do Cardeal Saraiva Martins), que é editor da revista "Inside the Vatican". Eu espero arranjar um tempinho para ler este texto e os anteriores.

Anselmo Borges sobre José Gómez Caffarena: "As bem-aventuranças de um crente afável e crítico"

José Gómez Caffarena

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Era um homem muito educado, afável e atencioso. Invulgarmente penetrante e culto, um dos maiores especialistas em Kant, foi o filósofo da busca do enigma do Homem. Morreu, lúcido até ao fim, no passado dia 5, o dia em que fazia 88 anos. O jesuíta José Gómez Caffarena.

Falei várias vezes com ele, sempre amável e atento, esclarecendo dúvidas e problemas. A última vez que o vi, há dois anos, sabia que era a despedida. Convidei-o uma vez para vir a Portugal para um Colóquio. E falou sobre dois temas, com textos, excelentes: "Antropologia Filosófica: fenomenológica ou objectiva?" e "A Filosofia da Religião, uma mediação teórica importante". O que aí fica são apenas dois apontamentos e quer prestar uma homenagem a quem passou a vida dedicado à procura da verdade, no diálogo aberto, leal e crítico: pelo seu Instituto Fe y Secularidad, em Madrid, passaram todos os grandes intelectuais espanhóis, crentes ou não, como Pedro Laín, J. Aranguren, J. Sádaba, F. Savater. É preciso dar razões da própria fé e da esperança, o que implica a escuta das razões do outro. "Se um crente afirma na sua fé que existe uma verdade absoluta, afirma com isso que ele não a possui nem a pode possuir, pois está sempre a uma distância infinita dela. Deve admitir que, onde quer que um ser humano alcance algo de verdade, nessa medida também participa da Verdade Absoluta."

O Homem não é redutível às ciências objectivantes, pois a condição de possibilidade de objectivar é ele mesmo enquanto sujeito consciente, sempre co-implicado na busca de si. Por isso, é preciso avançar, no quadro de uma hermenêutica em processo, sempre a caminho. A "prova" da existência de Deus encontrava-a no dinamismo e inquietação radicais, constituintes do ser humano.

Com H. Bergson, admitia duas fontes da religião e da moral. A primeira está na consciência das nossas deficiências. A outra, a dos grandes místicos, está na intuição ou contacto profundo que tiveram com "o Fundo último, generoso, da realidade, contacto que transformou a sua visão do mundo e os impeliu a querer continuar no mundo a obra criadora dessa suprema Realidade amorosa".

Neste contexto, pensava que talvez seja legítimo formular, "como último acto de fé", que humanistas teístas e não teístas podem partilhar algo do género: "No seu esforço moral secular, e apesar dos seus fracassos, a Humanidade merece que não seja frustrada a sua esperança: merece que Deus exista."

Foi também dentro desta fé que proclamou as suas bem-aventuranças.

"Bem-aventurado aquele que ama e descobriu a dita de partilhar o mundo. Bem-aventurado quem não se isola na sua pequenez pensando ilusoriamente com isso que se vai 'realizar'. Bem-aventurado aquele que ama a vida tal como é e não como tende a representá-la. Bem-aventurado o humano que é capaz de acolher o outro humano para lá de toda a consideração das vantagens que possa trazer-lhe, que entendeu o perdão sem memória e a ternura sem retorno. Bem-aventurado aquele que chegou a conceber o imenso projecto da universalidade reconciliada. Bem-aventurado aquele que é consciente de que na sua pequenez é puro dom e graça, e sabe, no entanto, sentir-se a partir dela responsável pelo Reino inteiro da justiça, participante de um olhar divinamente maternal para os mais humildes e sofredores, as vítimas da opressão. Bem-aventurado quem não se escandaliza da pequenez humana, nem da própria nem da alheia, e crê que é possível que essa pequenez floresça na grandeza de uma fraternidade sem fronteiras. Bem-aventurado quem aceita a dor da luta sem ódio pelo dar à luz da verdade. Bem-aventurado quem é capaz de ver a possibilidade da paz antecipada, quem compreende que a violência é promessa enganosa, quem acha fecundo crer na bondade primeira do coração humano. Bem-aventurado quem não se escandaliza de a dor e a morte terem o seu tempo que não é possível eliminar definitivamente. Bem-aventurado quem crê que uma morte prematura de profeta é também eternamente fecunda." A dor e a morte não são a última palavra: "uma intuição da Humanidade praticamente universal."

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Santo Padre, renuncie à renúncia

Enrico Maria Radaelli

Um leitor escreveu: "Já coloquei no meu carro um autocolante a dizer: «Reelejam Bento XVI»" (nos comentários daqui). Não era ironia. Não é o único triste, inconformado, sei lá se desorientado com a renúncia de Bento XVI. Tem havido uma ou outra manifestação nesse sentido. Eu imaginava que seriam mais em vez do coro de aplausos.

O apelo mais contundente vem de Itália. Enrico Maria Radaelli pede, em 13 páginas, que o Papa renunciE à renúncia. "Por que o Papa Ratzinger-Bento XVI deveria retirar a sua renúncia. Ainda não é o tempo de um novo Papa porque seria um anti-papa". Ler em italiano aqui.

Das notícias Unisinos retirei alguns parágrafos da antirrenúncia.

A renuncia “não é permitida metafísica e misticamente, porque na metafísica está ligada ao núcleo do ser, que não permite que uma coisa, simultaneamente, seja e não seja, e na mística está ligada ao núcleo do Corpo místico que é a Igreja, para a qual a vicariedade assumida [pelo sucessor de Pedro] com o juramento da eleição coloca o ser do eleito em um plano ontológico substancialmente diferente do deixado para trás: no plano mais alto metafísica e espiritualmente do Vigário de Cristo”. 
“Não considerar estes fatos é, na minha opinião, um golpe mortal ao dogma. Renunciar é perder o nome universal de Pedro e retroceder ao ser privado de Simão, mas isto não pode acontecer, porque o nome de Pedro, de Cefas, de Rocha, é dado em um plano divino a um homem que, recebendo-o, já não faz só a si mesmo, mas ‘faz Igreja’. Sem contar que ao o papa que renunciou não poder na realidade renunciar, o papa que o sucede, apesar disso, só poderá ser um antipapa. E quem reinará será ele, o antipapa e não o verdadeiro papa”. 
“A consideração final é, portanto, a seguinte: o papa Joseph Ratzinger-Bento XVI não deveria renunciar, mas desistir de sua suprema decisão reconhecendo o caráter metafísica e misticamente irrealizável e, por conseguinte, também legalmente inconsistente. Deste modo, não é a renúncia, mas a retirada da mesma, que se converte em um ato de sobrenatural coragem, e só Deus sabe o quanto a Igreja necessita de um papa sobrenaturalmente, e não humanamente, corajoso. Um papa que seja aclamado não pelos ‘liberais’ de toda a terra, mas pelos anjos de todos os céus. Um papa mártir, além disso, um jovem leão do Senhor, leva mais almas ao céu que cem papas que renunciaram”.

Orações e candidaturas

Agradeço ao P.B., que me enviou este cartune.

Bento XVI, um papa moderno


José Manuel Fernandes também escreve sobre Bento XVI. Uma página quase toda.
Com Bento XVI a Igreja mostrou que se pode ser moderna sem ir atrás do que apresenta como moderno mas, muitas vezes, não passa de uma moda. (...) 
Não sendo crente, aquilo que me interessa e me interpela em Bento XVI é precisamente a sua capacidade de olhar para a sociedade contemporânea de uma forma que é moderna sem ter perdido as referências da tradição e os ensinamentos da experiência. Em contrapartida não me interessaria, e estou certo que não interessaria aos crentes, uma Igreja mimética e submetida às novas regras das opiniões dominantes nos espaços públicos.
Vale a pena ler. No "Público" de hoje. Ou aqui, mas amanhã. Na realidade [acrescento no dia 24 de fevereiro], está disponível aqui desde domingo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O que interessa a todos


Já aqui escrevi que penso que deveria haver um limite de idade para o Papa renunciar. Poderia ser mais do que o dos bispos diocesanos (75), porque Pedro é o “primeiro entre pares”, mas talvez pudesse ser igual à idade de um cardeal para participar num conclave (80). Sendo realista, penso que a ideia não avançará. Pelo menos a médio prazo. Quando alguém a expressa – não sou o único –, o primeiro motivo que apontam para a sua não concretização é o dos jogos de bastidores, de influências, a que os cardeais cederiam ao verem chegar o fim de determinado pontificado.

Registo isto porque quem recusa uma limitação do poder papal no tempo defende também que o que interessa é que o Papa seja santo, que a Igreja não é uma democracia, uma república ou uma empresa, e que o Papa é, em última análise, uma escolha do Espírito Santo. 

Mas o motivo que dão para não haver limites temporais no pontificado é precisamente o que acontece quando um pontificado termina por morte ou renúncia do papa: perguntar qual será o melhor para comandar a barca de Cristo. Faz-se imprevistamente (quando um Papa morre ou abdica) o que poderia ser feito com mais esclarecimento. Não seria mais aberto, transparente, comunitário, eclesial, mesmo, porque na escolha do papa não é nem em segundo ou terceiro lugar a santidade que interessa, saber-se que um pontificado está a terminar e que o que interessa a todos deve ser decidido por todos, mesmo que só se converse?

Quem disse que a síntese razão, fé e vida já não convence?

Quem escreveu isto?

Olhando retrospectivamente, podemos dizer que a forma que transformou o cristianismo numa religião mundial consistiu na sua síntese entre razão, fé e vida; esta síntese condensou-se precisamente na expressão religio vera. Impõe-se, por isso, cada vez mais a questão: porque é que, hoje, esta síntese já não convence? Porque é que, hoje,ao invés, surgem contraditórios e até reciprocamente exclusivos a racionalidade e o cristianismo? Que é que mudou na racionalidade? Que é que mudou no cristianismo?

a) Hans Kung
b) Leonard Boff
c) Joseph Ratzinger

Resposta (selecione para ver): c) Joseph Ratzinger na pág. 84 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Para uma nova moral sexual católica

Todd Salzman

Todd Salzman e Michael Lawler reivindicam uma nova moralidade católica da sexualidade. Enraízam-na numa antropologia renovada, que se foca em pessoas e não em atos, em relacionamentos e não na biologia, no real e vivencial e não na perceção de um ideal, em princípios e virtudes (como, por exemplo, a justiça e o amor) e não em normas absolutas.

Os resultados desta nova antropologia e nova moralidade católicas são polémicos (e pelo facto de alguns leitores não deixarem escapar uma, já imagino o que poderão escrever por aqui; aceito o que vier como flores num jardim), mas julgo que vale a pena ler a entrevista, que cita muito Ratzinger, porque, de facto, há um mal-estar de origem sexual no catolicismo. Pensemos nos divorciados recasados e nos homossexuais, para referir apenas dois exemplos.

Em conclusão, afirmam os teólogos,que acabaram de publicar um livro no Brasil: “Alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais”.

Ler tudo aqui.

Vasco Graça Moura: O que fazer com esta tiara?


Mais um daqueles artigos do género tive-educação-católica-mas-não-sou-crente-no-entanto-lá-vou-eu-perorar-sobre-a-situação-da-Igreja-e-ser-for-sobre-o-Papa-ainda-melhor. O seguinte artigo é de Vasco Graça Moura, no DN de hoje. Note-se, contudo, que eu gosto deste tipo de artigos. Como a Igreja é uma coisa pública, todos podem escrever sobre ela. E se for escrito com inteligência, ainda melhor. É o caso.

Sem dúvida que vivemos numa cultura de matriz cristã, pelo menos no horizonte que ficou para trás. Mesmo os ateus são católicos. Como naquele diálogo:
- Qual é a tua religião?
- Nenhuma. Sou ateu. 
- Mas ateu de que religião? Católico? Protestante? Muçulmano?
- Ah, sou ateu católico, claro.



Como toda a gente que teve uma educação católica, mesmo sem depois ter tirado dela consequências de maior no plano das convicções religiosas, também eu, ao saber da renúncia de Bento XVI, fiquei com a impressão de estar a viver um momento histórico cujas consequências principais estão ainda muito longe de poder ser abarcadas.

Não foi apenas o ineditismo da situação, já tantas vezes referido e perspectivado, para trás e para a frente, que me impressionou. Também não direi que me tenha propriamente preocupado a discussão a lo divino, já a puxar as coisas para o plano híbrido em que o direito canónico e a área do sagrado se confrontam, sobre a liberdade plena do acto de renúncia ao vicariato de Deus ou as eventuais dificuldades de coexistência de quem "já foi" e de quem "passou a ser", num caso de tamanha envergadura.

O que me veio ao espírito foi a relação histórica tão profunda e tão antiga de Igreja de Roma com a Europa, a começar pelo sacro Império Romano-Germânico de que o Habsburgo Carlos V, após tê-lo vitoriosamente disputado ao Valois Francisco I, veio ainda a ser um poderoso símbolo moderno, não obstante o terrível saque de Roma que promoveu com os seus lansquenetes em 1527.

O cristianismo é uma vitória da desmitologização

(12)
Quem escreveu isto?

A fé cristã não assenta na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera o Ser que é o fundamento de tudo o que existe, o «Deus verdadeiro». No Cristianismo, a racionalidade tornou-se religião, e já não é o seu adversário. Para que tal acontecesse, para que o cristianismo se compreendesse como vitória da desmitologização, a vitória do conhecimento e, assim, da verdade, devia necessariamente encarar-se como universal e der levado a todos os povos.


a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Rudolf Bultmann

Resposta: a) Joseph Ratzinger na pág. 80 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Mais uma de João XXIII contada por Bento XVI


Ratzinger e Frings com medo de lhes puxarem as orelhas

No último encontro com o clero de Roma, no dia 14 de fevereiro de 2013, Bento XVI lembrou que, quando era um jovem teólogo, o cardeal Joseph Frings, de Colónia, pediu-lhe para ajudar a preparar um discurso expondo uma visão para o Concílio Vaticano II.

Mais tarde, em Roma, enquanto se dirigia com o jovem Ratzinger para uma cerimónia, Frings estava nervoso pelo facto de o seu discurso ter ido longe demais. "Esta pode ser a última vez que eu uso a púrpura", disse a Ratzinger, temendo que fosse deposto como bispo.

Pelo contrário, contou há dias Bento XVI, o Papa João XXIII abraçou o cardeal Frings e disse: "Eminência, obrigado pelo seu discurso. O senhor disse exatamente o que eu queria dizer, mas não conseguia encontrar as palavras".

João Carlos Espada e seus papas

Texto de João Carlos Espada, no "Público" de segunda-feira. Como sempre, consegue relacionar o assunto em debate, a renúncia do Papa, com o seu papa filosófico, Karl Popper. Dois "Popes", portanto. Um ainda mais papa do que o outro ("poper", em inglês). Só não sei como lhe escapou o Churchill. Teríamos então uma trindade de papas e igrejas (church).

Eduardo Lourenço: "O peso da tiara abolida"

Texto de Eduardo Lourenço no "Público" de sexta-feira, 15 de fevereiro.

"Nenhuma fraqueza humana explica a renúncia de olhos abertos a um tipo de poder tido e vivido durante séculos, quer na mera ordem temporal quer na ordem simbólica, como "eterno". Só um teólogo eminente e um filósofo podia considerar um "oxímoro" insuportável, fora do plano da pura fé, esta eternidade assumida como natural. Aquela que é consubstancial a todo o Poder, se não divino, divinizante, como é próprio de todo o Poder, natural ou naturalisticamente incarnado e exercido. Tal era, a título paradigmático, na ordem histórica de que o Ocidente emergiu, o Poder que chamamos pagão, antes de o Cristianismo o ter transfigurado sem jamais ter conseguido aboli-lo".

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As potencialidades do Homem-Aranha na nova evangelização

Um padre benze os fiéis com uma pistola de água, ou uma metralhadora, e veste paramentos com super-heróis estampados. Passa-se no México. Deve ser isto a nova evangelização. Li no Público.




Paramento com o "Homem-Aranha". Têm de ser estudadas as virtualidades do Homem-Aranha na evangelização. É a segunda vez que dou com ele em coisas de temática cristã, ou a terceira, se contar com um texto em que João César das Neves afirma que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades" (uma frase tirada de um dos filmes do aracnídeo). A segunda vez foi num dvd da Paulus, sobre São Paulo em Corinto. O dvd intitula-se "O Céu de Corinto". O Homem-Aranha aparece várias vezes entre a multidão que ouve o apóstolo Paulo. E também aparece no seguinte trailer, aí pelos minutos 2:29 e 2:52.



Algumas coisas que aprendi com Bento XVI - 2


Bento XVI disse:

No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.

“Deus caritas est”, 1

Esta frase apareceu no primeiro número da primeira encíclica de Bento XVI. Como é sabido, as primeiras encíclicas de cada papa são programáticas. Ou pelo menos assim são lidas. A de Bento XVI, julgo eu que ninguém tem dúvidas, foi-o. Iniciou um percurso que começou no amor, seguiu pela esperança (“Spe salvi”) e terminou no amor em ação (“Caritas in veritate”). Se alguém esperava uma encíclica sobre a fé, como eu, não a teve. Talvez o Ano da Fé constitua um paliativo.

Penso que será uma das marcas deste pontificado – como deveria ser de todos – a procura do rosto de Jesus Cristo. Os três volumes que sobre Jesus Cristo escreveu mostram precisamente o resultado da procura ratzingeriano-beneditina ao longo dos anos. Parece-me que qualquer teólogo, com o passar dos anos e das investigações, tem a tentação de escrever uma cristologia. Chamemos-lhe tentação teofílica: “Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído” (Lucas 1). Ainda bem que Bento XVI caiu nessa tentação, ainda que mantenha, como noutro ponto já disse, que os três volumes, no panorama da cristologia, são obras menores. Interessam mais para a espiritualidade do que para a teologia – o que talvez, afinal, seja mais importante.

Ter dito, entre outras coisas, que os cristãos devem ser uma minoria criativa vai na mesma linha da afirmação da “Deus caritas est” e, como se costuma dizer, ao arrepio da pastoral vigente, que continua interessada em multidões, massas, e não em minorias, fermentos.

Imaginemos que uma paróquia, diocese, conferência episcopal, etc. leva a sério aquela afirmação de Bento XVI. Continuaria a haver casamentos católicos só porque os noivos querem? E crismas de jovens que não são capazes de dizer três ou quatro ideias da mensagem de Jesus? E batismos de crianças que, obviamente, nunca se encontraram com a pessoa e acontecimento (vida, mensagem) de Jesus? Comunhões de quem não se interessa pela palavra de Jesus?

Levada a frase a sério, o cristianismo talvez se transformasse em seita. Mas antes seita transformadora, pequenos focos de sentido pessoal e comunitário, do que massa sensaborona com saudades da cristandade impossível.

Algumas coisas que aprendi com Bento XVI -1

Bento Domingues: Venha o novo Papa

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

Das costas largas do Espírito Santo

Anda para aí uma teoria da dupla verdade, como na Idade Média. Diz respeito ao Papa. É mais ou menos assim: "Eu acho que o próximo Papa devia fazer isto mais aquilo e aquilo, por isso devia ser esta pessoa com estas características mais aquelas. Mas quem vai decidir é o Espírito Santo e esse será o meu Papa".

Ontem Marcelo Rebelo de Sousa, depois de conjeturar sobre tudo e coisa nenhuma, como é costume, disse: "Mas o Espírito Santo é que vai decidir". Nem sei por que hão de gastar dinheiro no conclave, ao preço a que as viagens estão. Mais valia fazerem um sorteio, como no livro dos Atos dos Apóstolos, para a eleição de Matias. Poupava-se dinheiro, tempo e a responsabilidade ficava toda do lado do Espírito Santo.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Estou a pensar em não permitir comentários anónimos no meu blogue - como alguns, aliás, me têm aconselhado. Ainda não decidi, mas penso nisso. É muito triste porque, suponho, um blogue como este só interessará a cristãos. A temática é cristã-católica. O que significa que alguns comentários anónimos, cheios de má educação e ódio, com calúnias e mau gosto, por vezes também dirigidos a mim, são escritos por cristãos. Quando são dirigidos a mim, tolero. Entristeço-me é quando são dirigidos a terceiros.

Tenho defendido o anonimato porque "não saiba a tua mão esquerda o que fez a direita", porque para fazer o bem não precisamos de dar o nome, porque pode haver razões positivas para esconder a identidade. Mas a cobardia não é uma delas.

A possibilidade do anonimato não é uma obrigação. Quem quiser pode sempre identificar-se. Infelizmente, dá azo à inveja, à maledicência, à maldade, o que muito me entristece.

Se decidir não permitir comentários anónimos, haverá sempre a possibilidade de identidades falsas. Em todo o caso, é a alternativa que está em cima da mesa.

João Miguel Tavares: "Papa interrompido"



Texto de João Miguel Tavares no "Público" de 15 de fevereiro.


Precisamente uma semana antes de Bento XVI anunciar a sua resignação, estreou-se na televisão americana o novo documentário de Alex Gibney "Mea Maxima Culpa - Silence in the House of God". Gibney é um dos mais conceituados documentaristas da actualidade, vencedor de um Óscar em 2007 por Taxi to the Dark Side, e aplica aqui todo o seu talento a desvendar a longa e vergonhosamente impune história dos abusos do padre Lawrence Murphy durante os anos 60 e 70, quando violou mais de 200 crianças surdas numa escola católica do Milwaukee. Mea Maxima Culpa é um documentário chocante, revoltante e arrasador, que não deixa quaisquer dúvidas sobre as responsabilidades da hierarquia da Igreja Católica no encobrimento de milhares de casos de pedofilia em todo o mundo.

Gibney começa em Murphy e acaba em Ratzinger, e é a linha que leva de um a outro que é exibida com uma clareza inédita. Há mais excelentes documentários sobre este tema - como Livrai-nos do Mal, de Amy Berg -, mas nunca nenhum deles tinha chegado tão próximo, e de forma tão sustentada, das paredes do Vaticano. Bento XVI, justiça lhe seja feita, não fechou os olhos ao problema da pedofilia de forma tão escandalosa quanto João Paulo II (santo?, a sério?), mas também não foi capaz de pôr cobro ao maior dos pecados da Igreja Católica: colocar invariavelmente os interesses da estrutura à frente dos interesses dos mais desprotegidos, espezinhando o Evangelho que tem por missão proteger.

E tudo isto por uma única razão: manter a imagem de instituição exemplar. Impondo o interesse da Igreja como supremo bem, e não sendo ao mesmo tempo capaz de lidar com o escrutínio da modernidade, o Vaticano transferiu padres violadores de paróquias em paróquias, pagou dois mil milhões de dólares em indemnizações, tentou comprar silêncios, ameaçou com excomunhões, protegeu sacerdotes e bispos até ao fim. Há uma lógica fundamentalista que dá sentido a essa protecção. "Ninguém tem direito a receber o sacramento da Ordem", lê-se no catecismo. "É-se chamado a ele por Deus." E se é Deus quem chama, quem é o Homem para dizer que um pedófilo não pode ser padre? Eis a armadilha ontológica do sacerdócio católico: tanto se quer aproximar o padre da imagem de Cristo que a Igreja perde a capacidade para lidar com a sua mais trágica humanidade.

Joseph Ratzinger viveu uma vida preso nessa armadilha, mas é provável que ao chegar a papa tenha sentido que ela se fechava demasiado sobre si. Basta ler o livro de Gianluigi Nuzzi Sua Santidade, escrito a partir das cartas secretas conhecidas como "Vatileaks", para se perceber a dimensão homérica de intriga palaciana, e a incapacidade do Papa em lidar com ela. Ora, a sua renúncia é o mais radical gesto contra este estado de coisas. Ao abdicar, Ratzinger institui que o exame de consciência de um indivíduo, realizado perante Deus, se sobrepõe às tradições milenares da Santa Madre Igreja. É um gesto revolucionário, que dessacraliza o cargo que João Paulo II cultivou como se fosse a nova cruz. Esta resignação não faz de Bento XVI nem um herói, nem um santo. Mas faz dele um homem e pode obrigar o Vaticano a descer das nuvens onde tem escondido as maiores barbaridades em nome de uma pureza falsa como Judas.

"Venha o novo Papa", diz Bento Domingues no "Público" de hoje

Começa assim:


1. O Código de Direito Canónico (Cân.401) reza assim: roga-se ao bispo diocesano, que tiver completado 75 anos de idade, que apresente a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice. O cardeal Ratzinger, quando foi eleito Papa, isto é, bispo da diocese de Roma, testemunha da fé apostólica de Pedro e Paulo, em comunhão e ao serviço dos bispos das outras dioceses da Igreja Católica, já tinha 78 anos. Quanto à idade, um bispo diocesano merece mais cuidados do que um Papa, que tem uma responsabilidade muito mais ampla e pesada.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Tolentino sobre Ruy Belo


Na "Ler" 121, de fevereiro de 2013. Um texto de Tolentino Mendonça. Eu gosto do que Tolentino Mendonça escreve e gosto de Ruy Belo, embora conheça pouco deste poeta. Gastei umas tardes, maravilhado, a ouvir "A margem da alegria", sobre Inês de Castro, porque me ofereceram o poema em CD (duplo). Corria o ano de 2004 e desde então deu para perceber, eu, porque outros já perceberam há muito, que Ruy Belo está no lote dos maiores poetas portugueses do séc. XX (reparei agora que este blogue tem um poema Ruy Belo).

Como tem sido habitual nos últimos tempos, este texto vai gerar mais comentários negativos sobre Tolentino Mendonça. É pena. Principalmente porque anónimos. Mas já vou estando habituado cá por estes lados. É Tolentino, é Bento, é Anselmo, é Opus, é... Ninguém gera consensos absolutos, claro está. Mas eu desejaria que ao menos não se gerasse maledicência gratuita. Crítica, com certeza, mas com rosto.

O Reino de Jesus - 2

Todas as parábolas de Jesus, semeaduras, crescimentos, ou banquete de núpcias, obscuras para aquele que acredita saber tudo, mas luminosas para aquele que aceita contemplar, evocam esta realidade maravilhosa: Deus está disposto a subverter o nosso mundo para que o amor, enfim, aí tome o poder. É isso o Reino.

Jean-Noël Bezançon

Anselmo Borges: "Bento XVI resigna. E depois?"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Julgo que não se consegue imaginar o peso que cai em cima de quem aceita ser Papa. Torna-se o responsável primeiro pela Igreja Católica, com 1200 milhões de fiéis. Uma Igreja vergada sob a rigidez da tradição e talvez a única instituição verdadeiramente global, portanto, confrontada com múltiplas sensibilidades, problemas e aspirações: as questões dos europeus não são as dos norte-americanos, dos sul-americanos, dos africanos, dos asiáticos, dos australianos. É uma figura de relevo mundial, com imensa influência política no mundo, mas sujeito aos seus jogos, manhas e ardis. Mesmo viajando pelo mundo inteiro, fica a viver num pequeno território, com os seus rituais seculares e rígidos. Num mundo de homens. Só, onde, quando e como contacta com a família e com os amigos? E os olhos de todos estão sobre ele. Quase sem vida privada. Monarca absoluto, mas com todos os passos vigiados. Qual é o seu poder real? O Papa João XXIII, interrogado por um estudante num Colégio universitário pontifício: "Santidade, como é sentir-se o primeiro?", terá respondido: "Está enganado. Pus-me a contá-los e eu, lá no Vaticano, devo ser o quarto ou quinto."

Bento XVI não foi sempre conservador. Ainda só professor, escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Também escreveu que era necessário repensar a descentralização da Igreja, abrindo um debate sobre o primado papal. Opondo-se à teologia da "satisfação" que situava a Cruz "no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido", rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa". Defendeu, com outros grandes teólogos, a necessidade de debater a questão do celibato obrigatório.

Quando, jovem professor de Teologia, chegou ao Concílio Vaticano II como assessor do cardeal J. Frings, de Colónia, foi crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios e foi provocador, criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Em 1968, frente à revolução de estudantes ateus de Teologia, teve medo, encontrando-se aí o ponto decisivo para a sua orientação conservadora; abandonou então a Universidade de Tubinga e o colega e amigo Hans Küng, para ir para Ratisbona. Depois, foi feito arcebispo de Munique e, mais tarde, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou dezenas de teólogos.

Aceitou o papado como "humilde servidor da vinha do Senhor". Deixa uma marca num tema que lhe é caro: a exigência do diálogo entre a fé e a razão; acabou por ser duro e inequívoco contra a pedofilia na Igreja; prosseguiu, embora timidamente, o diálogo com as confissões cristãs e as diferentes religiões, em ordem à paz; condenou sistematicamente a ditadura financeira sem regulação.

Percebeu que não controlava a Cúria, mergulhada em escândalos de corrupção e intrigas, até ao Vatileaks. Foi admoestando cardeais para "renunciarem ao estilo mundano de poder e glória", e dizendo que lhe coubera viver o pontificado de "um pastor rodeado de lobos". Queixava-se: "Os javalis entraram na vinha do Senhor." O cardeal W. Kasper foi advertindo que Bento XVI andava "muito triste" com o péssimo clima no Vaticano.

Fragilizado, sentindo-se sem forças no corpo e no espírito, anunciou que resigna no próximo dia 28, às 20.00 (19.00 em Lisboa e Funchal). Um gesto de inteligência, honestidade e humildade, que fica para a História, pois quebra um tabu e mostra que o Papa é tão-só um servidor da Igreja e do mundo, continuando humano, também com as suas debilidades. Depois, retira-se para um convento, para rezar, meditar, tocar e ouvir música, escrever, mantendo o apagamento. Os cardeais elegerão um novo Papa. Talvez europeu ou latino-americano.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dois modos de agir, uma mesma fidelidade, ponto de interrogação

Mais um exercício de contorcionismo papal. Têm sido muitos por estes dias. Parece ser assim: “Santo Padre, faço o que quiser que a gente justifica”. O gesto de Bento XVI desencadeou páginas e páginas disto.

Digo contorcionismo papal porque, por muito que queiram, ainda que haja “uma mesma fidelidade”, os gestos são opostos. Bento XVI diz-nos que não quer ter um final como João Paulo II.

Por outro lado, há, na realidade, há cristãos que se sentem defraudados. Como os compreendo. São mais coerentes do que os que se perdem em encómios para com Bento XVI. Há movimentos ditos conservadores que estão desiludidos com este Papa e receiam que seja eleito um mais novo, pois é essa uma das leituras possíveis quanto ao significado da resignação de Bento XVI. Alguém com forças.

O texto seguinte, de Miguel Almeida, padre jesuíta (diretor do CUPAV - Centro Universitário Pe. António Vieira, Lisboa), veio no “Público” de ontem.

 Há mais ou menos oito anos víamos como um Papa, o Papa João Paulo II, resistia até ao extremo das suas forças para levar até ao fim a missão que lhe fora confiada. Agora soubemos que outro Papa, o Papa Bento XVI, apresentou a sua renúncia. 
Há oito anos, muito se discutia, dentro e fora da Igreja, se João Paulo II devia "abdicar", já que estava manifestamente incapacitado para exercer convenientemente o seu mandato, devido à idade e à falta de saúde. Entre os fiéis católicos, porém, muitos defendiam que o Papa devia permanecer na Sede de Pedro até ao fim dos seus dias. Era, diziam, um testemunho para o mundo. Um mundo em que as pessoas idosas contam pouco mais que nada, em que a imagem é tudo, um mundo que valoriza as pessoas por aquilo que fazem e não pelo que são. O Papa Wojtyla surgia então como uma luz, ténue é verdade, mas uma luz que iluminava caminhos de fidelidade e de compromisso, bem para lá do "apetecer" ou da imagem a manter. E esta foi a opção clara de João Paulo II. Discutível? Sim. E a atitude assumida hoje por Bento XVI mostra, pelo menos, que há outros caminhos. Mas a posição de João Paulo II foi, então e de facto, um testemunho de fidelidade e de entrega como poucos. 
Surpreendentemente, Bento XVI apresentou aos cardeais em Consistório a sua renúncia: "Bem consciente da gravidade deste acto - afirma o Papa -, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro." As razões são declaradas com uma lucidez, humildade e clareza notáveis: "... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado." 
Esta decisão apanhou o mundo inteiro de surpresa. Percebeu-se pelas reacções dos próprios cardeais que, até para os colaboradores mais directos do Papa, esta declaração não era de todo esperada. De facto, assim reagiu o cardeal decano, Angelo Sodano: "Ouvimo-la [a sua comovida comunicação] com um sentimento de perplexidade, quase completamente incrédulos." Por muito apoiada e bem acompanhada que uma pessoa esteja, as grandes decisões da vida são tomadas na solidão. Ainda mais quando a pessoa de quem falamos é um Papa. Ainda mais quando a decisão que ele toma é algo que muito raramente aconteceu na história da Igreja e que altera necessariamente o modo de pensar e de actuar a que nos habituámos. Para quem tanto fora acusado de tradicionalista e retrógrado, há que lhe reconhecer a liberdade e a coragem de assumir uma opção que é tudo menos tradicional. Um Papa não abdica. Pelo menos assim diz a tradição. Com esta renúncia, Bento XVI sabe que está a abrir novas portas no modo de exercer o Papado, está a fazer Tradição. 
O interessante, no meio de todo este acontecimento, é que os cristãos não se sentem defraudados. Mesmo aqueles que defenderam que João Paulo II devia permanecer na Cadeira de Pedro até morrer, sentem hoje uma paz grande - depois da perplexidade própria da surpresa - ao lerem o discurso de renúncia de Bento XVI. Porquê? É que a motivação que levou o Papa Wojtyla a manter-se até morrer e que conduz o Papa Ratzinger a resignar é uma e a mesma motivação. São tão-só dois modos antagónicos de viverem e exprimirem o amor inquestionável à Igreja e ao mundo. Para um, o testemunho de ficar até ao fim era, então, essencial para mostrar como "da cruz não se abdica"; para o outro, a necessidade que o mundo actual tem de uma Igreja que possa responder às "rápidas mudanças e às questões de grande relevância para a vida da fé", requer um Papa cujo vigor Bento XVI sente escapar-lhe. 
As opções são diferentes, mas a fidelidade à missão de Pedro é a mesma: anunciar a liberdade com que Cristo nos libertou.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...