domingo, 17 de fevereiro de 2013

João Miguel Tavares: "Papa interrompido"



Texto de João Miguel Tavares no "Público" de 15 de fevereiro.


Precisamente uma semana antes de Bento XVI anunciar a sua resignação, estreou-se na televisão americana o novo documentário de Alex Gibney "Mea Maxima Culpa - Silence in the House of God". Gibney é um dos mais conceituados documentaristas da actualidade, vencedor de um Óscar em 2007 por Taxi to the Dark Side, e aplica aqui todo o seu talento a desvendar a longa e vergonhosamente impune história dos abusos do padre Lawrence Murphy durante os anos 60 e 70, quando violou mais de 200 crianças surdas numa escola católica do Milwaukee. Mea Maxima Culpa é um documentário chocante, revoltante e arrasador, que não deixa quaisquer dúvidas sobre as responsabilidades da hierarquia da Igreja Católica no encobrimento de milhares de casos de pedofilia em todo o mundo.

Gibney começa em Murphy e acaba em Ratzinger, e é a linha que leva de um a outro que é exibida com uma clareza inédita. Há mais excelentes documentários sobre este tema - como Livrai-nos do Mal, de Amy Berg -, mas nunca nenhum deles tinha chegado tão próximo, e de forma tão sustentada, das paredes do Vaticano. Bento XVI, justiça lhe seja feita, não fechou os olhos ao problema da pedofilia de forma tão escandalosa quanto João Paulo II (santo?, a sério?), mas também não foi capaz de pôr cobro ao maior dos pecados da Igreja Católica: colocar invariavelmente os interesses da estrutura à frente dos interesses dos mais desprotegidos, espezinhando o Evangelho que tem por missão proteger.

E tudo isto por uma única razão: manter a imagem de instituição exemplar. Impondo o interesse da Igreja como supremo bem, e não sendo ao mesmo tempo capaz de lidar com o escrutínio da modernidade, o Vaticano transferiu padres violadores de paróquias em paróquias, pagou dois mil milhões de dólares em indemnizações, tentou comprar silêncios, ameaçou com excomunhões, protegeu sacerdotes e bispos até ao fim. Há uma lógica fundamentalista que dá sentido a essa protecção. "Ninguém tem direito a receber o sacramento da Ordem", lê-se no catecismo. "É-se chamado a ele por Deus." E se é Deus quem chama, quem é o Homem para dizer que um pedófilo não pode ser padre? Eis a armadilha ontológica do sacerdócio católico: tanto se quer aproximar o padre da imagem de Cristo que a Igreja perde a capacidade para lidar com a sua mais trágica humanidade.

Joseph Ratzinger viveu uma vida preso nessa armadilha, mas é provável que ao chegar a papa tenha sentido que ela se fechava demasiado sobre si. Basta ler o livro de Gianluigi Nuzzi Sua Santidade, escrito a partir das cartas secretas conhecidas como "Vatileaks", para se perceber a dimensão homérica de intriga palaciana, e a incapacidade do Papa em lidar com ela. Ora, a sua renúncia é o mais radical gesto contra este estado de coisas. Ao abdicar, Ratzinger institui que o exame de consciência de um indivíduo, realizado perante Deus, se sobrepõe às tradições milenares da Santa Madre Igreja. É um gesto revolucionário, que dessacraliza o cargo que João Paulo II cultivou como se fosse a nova cruz. Esta resignação não faz de Bento XVI nem um herói, nem um santo. Mas faz dele um homem e pode obrigar o Vaticano a descer das nuvens onde tem escondido as maiores barbaridades em nome de uma pureza falsa como Judas.

12 comentários:

Anónimo disse...

Já que tantos comentadores andam a dizer que o futuro Papa deve dar ao mundo o que o mundo quer, espero que tal Papa seja uma gaja muito boa, bem mamalhuda e cuzuda.

maria disse...

incómodo, JMT, bem expresso pelo comentário anterior.

Miguel Apelido Marques disse...

Diga-me isso na cara ó Maria. Mas de cara de frente, ok? Ou não está de acordo que o Papa tenha que estar sensível ao que o "mundo" quer? Esse "mundo" que tem valores tão opostos aos do Evangelho?

maria disse...

engraçadinho...por esse mundo há de tudo - valores e contravalores. E cabe ao mundo, também, ter uma palavra a dizer sobre que papa e papado espera.

Anónimo disse...

Questão difícil, essa de transformar a Igreja em democracia. Porque a maioria não tem sempre razão. Sublinho: NÃO tem! É verdade o que se diz noutras secções de comentário deste blog, e que o João Miguel Tavares também afirma neste artigo (e aliás o próprio Ratzinger o afirmára há muitos anos atrás) que a consciência é a instância máxima de decisão, porque é ali que o homem, na solidão ontológica decisiva, se confronta a si mesmo com Deus. Mas é preciso saber de que tipo de consciência falamos, de que forma a pessoa sabe escutar o essencial no seu discernimento (e não apenas a sua sensibilidade epidérmica), e se se é capaz de interpretar a consciência sem auto-justificações imaginativas para pré-decisões anteriores ao discernimento. Num mundo em que a palavra «consciência» passou a significar apenas a opinião de uma qualquer Oprah ou Hilton, a democracia transformou-se na escravidão da sensibilidade. Isto é discurso conservador? Não sei... mas é, para mim (no melhor discernimento de que sou conscientemente capaz), evidente de que é evangélico.
E a decisão de Ratzinger parece-me também a de alguém que se soube escutar. A avaliar pelos frutos, claro!
Pedro

Anónimo disse...

Pedro, é exactamente isso. Às vezes ponho-me a pensar o que é que seria da Igreja se qualquer pessoa, que até acha que o "Cordeiro de Deus" é um animal e que "hierarquia" é sinónimo de clero, pudesse votar no que quer. Mas olhe que o povo cristão é menos parvo do que parece. Um inquérito feito a 1.000.000 de católicos de todo o mundo tinha, entre outras, duas perguntas que em interessaram particularmente (e que destruíram o mito de que a ordenação de mulheres é querida por aquele povo): a) concorda que as mulheres possam ser ordenadas? b) acha que a ordenação das mulheres é um tema relevante para a Igreja? Ora bem: acerca da 1ª, apenas 7% disseram que sim (61% na Europa e América do Norte); acerca da 2ª, apenas 0,5% disse que sim (17% na Europa e América do Norte). Ou seja e como em tudo: a pergunta condiciona a resposta. Claro que os grupelhos liberaloides vieram logo, com uma imensa caridade, chamar aos que não pensam como eles de "não esclarecidos e retrógrados", mas face a isto a pergunta surge: quem são tais grupelhos para falarem em nome do povo católico?

maria disse...

sim, (isto sobre o argumento da ordenação das mulheres) como foi ontem perguntado a um padre, num canal de televisão e ele respondeu com uma não resposta:"não sou eu que tenho de decidir. Graças a Deus". Enfim, não custa nada viver à sombra das opções tomadas por outros, chame-se-lhe obediência ou seguidismo acrítico.

Anónimo disse...

ou a humildade de reconhecer não ter certezas absolutas... mas o direito à não-opinião é sempre tida como fraqueza e cobardia!! Infelizmente!

maria disse...

mas a questão não é ter ou não ter opinião. eu falei e, "opção" é diferente. opiniões todos damos, pensar decidir e ser consequente, já nem todos.

depois, é corriqueiro na igreja a identificação de "não expressão" ou concordar com o estabelecido, como atitude de humildade. a humildade é outra coisa radicalmente diferente.

Anónimo disse...

Concordo. É demasiado corriqueiro o concordar com o estabelecido. E concordo também que a humildade é outra coisa, muito diferente: a humildade é a verdade. Nada mais. Nada menos. O que estava a querer dizer é que somos constantemente pressionados a optar, aqui e agora... e eventualmente aqui e agora pode não ser a altura certa para uma determinada opção. Apenas isso. Para além disso, as opções implicam discernimentos, que se esperam conscientes, e abertos à acção da graça. E as pressões, os receios, os escândalos, ..., não são bons conselheiros. Às vezes, os discernimentos implicam tempo. E «dar tempo» é algo a que o nosso mundo mediático se desabituou.
Pedro

maria disse...

sem discordar consigo, Pedro, penso que "dar tempo" é o que mais tem acontecido na Igreja. dar tempo sem sermos capazes de enfrentar os desafios do presente, deixar que outros resolvam, que outros se comprometam. Não "levantar ondas" porque a carreira eclesiástica tem de ser levada com muita discrição.

Quando não se quer ter em conta as interpelações de quem pensa diferente, arrumam-se-lhe com defeitos e desqualificações para cima. Depois é fácil, descartado o mensageiro, a mensagem não vale nada.

O que isto só comprova é que na Igreja perdeu-se a capacidade de diálogo e confrontação. E assim só ficamos mais pobre.

brunabora disse...

Baixar o Documentário - Livrai-nos Do Mal - Conheça um pouco do padre pedófilo irlandês Oliver O´Grady - http://mcaf.ee/5xw93

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