sexta-feira, 31 de julho de 2009

Lisboa "de profundis"

"A fé é legítima, genuína, em muitos casos, e até saudável. Mas na minha opinião parte dos princípios errados. Se Deus me coloca perante a hipótese de um milagre e mo retira, então é má pessoa. A resposta mais simples é Deus não existir".

Rui Cardoso Martins num texto de Alexandra Lucas Coelho no Ípsilon (Público) de hoje.

Contexto: Rui Cardoso Martins escreveu "Deixem Passar o Homem Invisível" (Dom Quixote), livro que, tudo indica, é muito belo. Um cego e um escuteiro de oito anos, um lobito, percorrem Lisboa de S. Sebatião da Pedreira (ao pé do El Corte Inglés) até ao Tejo. Mas percorrem-na pelo boqueirão, debaixo de terra. O autor do livro e a jornalista fazem o mesmo trajecto, mas à superfície.

Subtexto: Rui Cardoso Martins perdeu a mulher, Tereza Coelho, há meses, a quem o livro é dedicado. Suponho que esperava um milagre. Foi operada a um tumor na cabeça. Mas morreu mais tarde de uma septicémia.

"Rui caminha pelo meio da rua vestido de preto, com os anéis de Tereza no dedo mindinho".

(O meu) Pretexto: A hipótese de Deus não existir pode ser a mais simples. (Até nem é.) Mas o que interessa é se é a mais verdadeira. Se Deus me coloca perante a hipótese de um milagre, é porque existe. Se não mo dá, talvez eu possa perguntar: "Para quê?" Embora a mente descaia para o "Porquê?" A resposta "A resposta mais simples é Deus não existir" satisfaz o "porquê" (do ponto de vista do autor), mas para viver é mais preciso o "para quê".

Rui Cardoso Martins também diz como uma personagem: "Ainda bem que não sou pessoa para interrogar os desígnios de Deus, ou começava a desanimar". Mas isso é no meio do texto. No fim, fica o desencanto da perda. "Não é a fé das igrejas".

O texto pode ser lido aqui.

DSI 25: Da RN à CV, a "Centesimus Annus" (2)

Consumismo e a questão ecológica

A encíclica Ano Centenário ("Centesimus Annus", CA), escrita no rescaldo da queda das ditaduras de esquerda do Leste Europeu, reconhece que o mercado livre (ou seja, o capitalismo) é – na verdade, a CA diz: “parece ser” – “o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder às necessidades” (CA 34). Realça, no entanto, que “a actividade económica não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político”, contra os gurus da desregulamentação. Por outro lado, reconhece, na sequência, a “justa função do lucro”. O lucro é “indicador do bom funcionamento da empresa: quando esta dá lucro, isso significa que os factores produtivos foram adequadamente usados e as correlativas necessidades humanas devidamente satisfeitas” (35). Não é pecado ter lucro quando se salvaguardam os “outros factores humanos e morais”, “igualmente essenciais para a empresa”. Falta grave, perante a sociedade e a comunidade de trabalhadores, é a má gestão, a incapacidade de gerar resultados positivos…

Mas a CA chama a atenção para “problemas específicos” e “ameaças que se levantam no interior das economias mais avançadas”. O primeiro problema é o consumismo com os seus “estilos de vida objectivamente ilícitos e frequentemente prejudiciais à saúde física e espiritual”. João Paulo II nota que o sistema económico não tem critérios para classificar as necessidades humanas, pelo que é “urgente uma grande obra educativa e cultural” sobre o poder de escolha dos consumidores.

Outra ameaça é a questão ecológica, ligada ao consumismo: “A pessoa, tomada mais pelo desejo de ter e do prazer do que pelo ser e de crescer, consome de maneira excessiva e desordenada os recursos da Terra e da sua própria vida” (37).

Por muitos outros motivos (a empresa como comunidade de trabalho, o conhecimento como nova mercadoria, o papel do Estado…), esta encíclica mantém actualidade, mesmo com a saída da "Caritas in Veriate". Como todas, deve ler-se com atenção, tendo em conta que a Igreja “não tem modelos [económicos] a propor” (43), mas tem a obrigação de lembrar os valores que devem ser respeitados por todos e quaisquer modelos.

Imagem: Cartoon de Luís Afonso no Jornal de Negócios de 5 de Maio de 2008

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Para terminar o dia

"Existe alternativa a Deus?"

Paul Johnson in "La Búsqueda de Dios. Un peregrinaje personal", Planeta, 1996

Semeando Primavera em pleno Verão

Escreve Roberto Carneiro na contracapa: “António rego semeia Primaveras. Por onde passa deixa um ramo de amendoeira… em flor. Oferece a marca de água da sua esperança cristã”. Quem lê as crónicas do P.e António Rego nas páginas on-line da agência Ecclesia ou, por vezes, na imprensa regional, sabe bem que é mesmo de Primavera que se trata. A Primavera, como a amendoeira do profeta Jeremias, que podemos imaginar em flor, comporta a esperança do fruto, da colheita. Os textos do padre, jornalista da TVI, consultor do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais e director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, comportam a capacidade de ver mais longe, de não ficarmos pela epiderme dos acontecimentos.

“Por mais avassalador que seja o volume de informação que diariamente ingerimos, nunca saberemos o suficiente sobre o que se passa no mundo. Por mais compêndios que estudemos acerca de história, ciências e artes, sempre ficará por compreender, no seu todo, o incomensurável mistério do homem”, escreveu no Natal de 2005. Mas, há que dizê-lo, os textos agora reunidos em livro (de Novembro de 2003 a Maio de 2009), são uma janela para vislumbrar em doses digeríveis ora o tal “mistério incomensurável” ora o facto do dia-a-dia, que tanto pode ser a paixão pelo futebol como a “geração mp3” ou o exercício do poder.

Helena Matos, o Bispo e a ETA

Helena Matos diz no “Público” de hoje que a “ETA só existe porque conta com o apoio de simpático de activistas que lhes garantem apoio aos presos; de gente que lhes diz onde vivem juízes, polícias e opositores, de partidos nacionalistas legais, sindicatos e empresários que mantêm com os terroristas relações mafiosas e de uma Igreja católica que não os condena”.

Mas o Bispo de Bilbau já disse: "Mais uma vez, afirmamos energicamente que a ETA deve desaparecer. A sua existência é um grave perigo para a nossa vida, a nossa liberdade e segurança" (aqui, na Ecclesia; e aqui, na diocese espanhola).

Pólo das religiões no MNE francês

O Ministério dos Negócios Estangeiros francês ("Ministère des Affaires Étrangères et Européennes") criou um "pólo religiões" porque "o facto religioso tem um papel importante nas relações entre nações, nas questões do desenvolvimento e nos equilíbrios políticos internos" (aqui). Dirige-o Joseph Maila (na imagem), antigo reitor do Instituto Católico de Paris, especialista em Médio Oriente, membro da comissão de redacção da revista "Esprit".

Esta nota chega via Esther Mucznik, que no "Público" de hoje escreve sobre os três monoteísmos e o Estado. Como título escolheu uma frase do rabino Jonathan Sacks: "Se a religião não fizer parte da solução, será parte do problema".

DSI 24: Da RN à CV: a "Centesimus Annus" (1)

A “Centesimus Annus” (“Ano Centenário”, CA) é a penúltima carta papal dedicada exclusivamente à doutrina social. É de 1991, de João Paulo II. Foi escrita para comemorar os 100 anos da inaugural “Rerum Novarum”, de Leão XIII.

Como quase sempre nos documentos papais, também na CA o Papa olha primeiro para o passado, para a seguir falar do presente e do futuro. João Paulo II afirma que da encíclica leonina brota “seiva abundante” que se torna “mais fecunda com o decurso dos anos” e relê a história mundial do último século, centrada na Europa, para chegar ao ano admirável de 1989.

Não é sem emoção que o Papa escreve sobre o ano da Queda do Muro de Berlim e das revoluções democráticas nos países da Europa Central e de Leste. “Os factos de 1989 oferecem o exemplo do sucesso conseguido pela vontade de negociação e pelo espírito evangélico, contra um adversário decidido a não se deixar vincular por princípios morais (…). É certo que a luta, que levou às mudanças de 1989 exigiu lucidez, moderação, sofrimentos e sacrifícios; em certo sentido, nasceu da oração, e teria sido impensável sem confianças ilimitada em Deus, Senhor da história, que tem nas suas mãos o coração dos homens”.

Os acontecimentos de 1989 têm grandes consequências sociais e económicas (além de políticas) porque implicam a “reorganização radical das economias” dos países de Leste, até então colectivizadas. João Paulo II pede ajuda aos países ocidentais (CA, 29) e reconhece que o “mercado livre”, isto é, o capitalismo, “parece ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder às necessidades” (CA 34), ainda que nem tudo seja comercializável.

A CA encerra um arco documental que vai da “questão operária” e da filiação dos trabalhadores em organizações de tipo comunista à dissolução das economias centralizadas, as quais surgiram como reacção ao capitalismo típico do tempo da questão operária mas em países onde, por paradoxal que seja, não havia verdadeira revolução industrial. O fim dos sistemas comunistas (1991 é o ano da dissolução da URSS) não significa, é claro, que acabem as questões a que a doutrina social quer responder. O mercado livre tem limitações e a CA vai apontá-las.

A primeira frase

“O Centenário da promulgação da Encíclica do meu predecessor Leão XIII de veneranda memória, que começa com as palavras «Rerum Novarum», assinala uma data de importância relevante na história presente da Igreja e também no meu pontificado” (CA 1).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Isto anda tudo ligado

Eduardo Guerra Carneiro dizia que isto anda tudo ligado (“Isto Anda Tudo Ligado”, título de livro de poesia, 1970). Lembrei-me dele, embora não conheça a sua poesia. Lembro-me da sua morte, em 2004, e da referência à sua obra nas páginas dos jornais. Lembrei-me dele por dar com uma alusão de João Paulo II, num dos volumes autobiográficos, ao cardeal vietnamita que tenho evocado neste blogue. Na pág. 168 de Levantai-vos! Vamos!” (D. Quixote), João Paulo II escreve:

“No memorável ano jubilar, [Francisco Xavier Nguyen Van Thuan] pregou o retiro para nós, no Vaticano. Em 18 de Março de 2000, agradecendo-lhe as meditações por si dirigidas, disse-lhe: «Ele próprio, testemunho da Cruz nos longos anos de cárcere no Vietname, contou-nos frequentemente factos e episódios do seu doloroso cativeiro, reforçando-nos assim na consoladora certeza de que, quando tudo se desmorona em torno de nós e talvez também dentro de nós, Cristo permanece um amparo indefectível»”.

Imagem: João Paulo II com Van Thuan

A idade de Cristo

A notícia vem na última página do “Jornal de Notícias” de hoje. Jasper Joffe, um artista plástico norte-americano radicado em Londres, vai leiloar tudo o que tem excepto a roupa que trouxer vestida durante o leilão. Quer recomeçar a viver do zero porque a namorada deixou-o no Natal passado. Tem 33 anos, “a idade em que Cristo morreu para voltar a viver”, segundo as suas palavras. O leilão começa hoje na Generation Gallery, no Leste de Londres.

Desculpar Deus

“Os filósofos: eles não sabem como desculpar Deus; é por isso que ou o negam ou o provam; o que vem dar ao mesmo. Com efeito, em vez de, em primeiro lugar, procurarem vê-lo, eles começam por concebê-lo”.

Jacques Rivière (1886-1925)

Cristianismo no n.º 82 da "Ler"

Li a “Ler” (n.º 82, de Julho de 2009) de uma ponta à outra. Ao princípio, comecei a lê-la só pelos artigos que me interessavam, um aqui, outro ali, uma crónica, uma entrevista, duas recensões… Mas a certa altura surgiu a questão: Se de vez em quando surgem referências à religião, por que não empreender uma busca exaustiva do fenómeno religioso e tentar encontrar uma tónica dominante nas referências? Haverá um uso típico da religião na revista “Ler”?

Como o tempo é um bem raro, demorei dois fins-de-semana na primeira metade de Julho a ler a “Ler” toda. Usei pequenos intervalos, cafés, esperas de alguém, intervalos noutras tarefas…

Eis as referências religiosas católico-cristãs explícitas que encontrei. Muitas outras há como a fé de Ray Bradbury nas biliotecas (“Foram as bibliotecas que me educaram. Acredito nas bibliotecas”), só para dar um exemplo. Mas essas não contam (entre parênteses, o número da página):

* Paulo Lopes reconstitui o que sentiam os portugueses em mares desconhecidos na época dos Descobrimentos. O texto é de José Riço Direitinho: “Gradualmente dá-se uma «transformação estruturante», em que o medo continua a ter uma presença importante, mas transfigurado num elemento «imbuído de carácter cristão» (não o dos primeiros séculos, o de santo Agostinho ou de Isidoro de Sevilha) acompanhado por novas soluções. Cria-se um conjunto de práticas com o «principal objectivo de cristianizar o mar anulando os seus elementos negativos e malignos», rituais propiciatórios que acontecem a bordo e em terra” (11).

* Pedro Mexia escreve no seu espaço “Biblioteca Fútil” sobre “O Segredo de Fátima”. Invoca as referências mariana para falar de um romance de Fátima Lopes. “O terceiro romance (e não o terceiro segredo) de Fátima chama-se A Viagem de Luz e Quim” (A Esfera dos Livros). Suponho que é a primeira aparição de “Quim” em títulos portugueses (…)”. Conclui deste modo, depois de perorar sobre o sucesso dos romances das apresentadoras de TV: “E há alguns, como Fátima, que descobriram o segredo” (19).

* Junot Díaz diz numa entrevista que ao ler um poema de Walcott pensou: “Meu Deus, isto é verdade”. Junot Díaz escreveu “Vida de Oscar Wao”, na Porto Editora (24).

* Francisco José Viegas (FJV) diz que Pedro Adão e Silva cita a Bíblia em “O Sal na Terra”, um livro sobre surf na Bertrand Editora (27). A propósito da nova edição da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Mónica (Quetzal), escreve: “Acho que ainda hoje me ressinto de ter lido O Crime do Padre Amaro no Inverno, suspeitando que Leiria viva debaixo de chuvas eternas e de um céu cinzento triste e enfadonho” (28). Revisitando o Dicionário de Khazar, de Milorad Pavic, FJV, a propósito de “livros sobre livros (e de livros sobre livros que falam de livros)”, refere a história - Pavic leu Borges, diz FJV – da queima da edição de Daubmannus, pela Inquisição, em 1692, restando apenas um exemplar envenenado. “O leitor morria, efectivamente, na nona página, ao ler as seguintes palavras: Verbum caro factum est (o verbo se fez carne)”, escreve FJV.

* Na secção “Livros no top” aparecem estes pelo menos no título relacionados com o tema em questão: Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert (Objectiva); Original Sin, de Tasmina Perry (Harper Collins); Pegadas na Areia, de Margaret F. Powers [Estrela Polar]. O resumo diz que “a história por detrás do poema de Fishback, escrito em 1964, é uma espécie de «renovação espiritual»”. Constata-se, ainda que o livro do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, 1810-1910-2010 – Datas e Desafios está no top da Lello, no Porto (30 e 31).

* Na entrevista a Vasco Pulido Valente, abundam as referências cristãs. Vejamos: 1) VPV diz que se interessa pelas origens do cristianismo e que lê a Bíblia. O estudo das origens do cristianismo implica conhecimentos “de História, da doutrina e teologia cristã e um certo conhecimento do Império Romano”; 2) na adolescência VPV lia Mauriac e Bernanos (dois católicos franceses); 3) diz que Eça, “a meio da vida, escreveu dois romances religiosos que indicam que teve um grave problema religioso. O Mandarim e A Relíquia são, em última análise, uma declaração de ateísmo”; 4) sobre o talento literário, VPV diz: “As pessoas escrevem o que podem mas o valor daquilo que escrevem não depende da opinião das pessoas que compram os livros: Senão, o maior romancista do mundo era aquele rapaz – como é que ele se chama? – que escreveu a filha de Cristo…” [Dan Brown – diz Carlos Vaz Marques, que conduz a entrevista]; 5) diz que escrevia o que lhe vinha à cabeça no tempo de O Tempo e o Modo [a revista liderada por católicos progressistas] (32-43).

* “O padre Jovito Soares, um dos elementos da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, um sobrevivente que não tem piedade da sua própria dor, explicou-me que «não podemos contar com esta geração. Os que morreram, morreram como animais, não morreram como homens. É apenas o futuro que pode restituir-lhes dignidade», escreve Pedro Rosa Mendes, regressado de Timor (53).

* Rogério Casanova diz, ultrapassados uns diálogos inconsequentes e uma longa viagem de autocarro, que chegará ao País de Gales, mais concretamente a Tupperware e a um dos maiores festivais literários do mundo, “se Deus e a Rainha assim o permitirem” (57).

* António Manuel Baptista escreve sobre o livro de José Jorge Letria que se chama O Que Darwin Escreveu a Deus e Outras Cartas Que Nunca Chegaram ao Seu Destino (Oficina do Livro). Neste livro, Cristo escreve a Maomé e o autor, no final, a Deus (sendo cartas que não chegam ao destino, deduzo que o autor escreve como não crente, ou como desejando ser crente) (61).

* 1866 foi o ano da inauguração do Seminário-Liceu de S. Nicolau, diz Francisco Benard, a propósito da colectânea O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Caboverdianas (Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2008) (63).

* “O ódio ao nazismo e ao catolicismo acompanhá-lo-á durante toda a vida, chegando a escrever que «ambos são doenças do espírito, nada mais»”, escreve José Riço Direitinho a propósito Thomas Bernhard, que só “por dinheiro” aguentava a “humilhação vergonhosa” das entregas de prémios (64).

* Há um jesuíta chamado Naptha (“arrivista e medievalista”) em A Montanha Mágica, de Thomas Mann (Dom Quixote) (67).

* O novo livro de Mia Couto chama-se Jesusalém (Caminho). Impossível não associar a Jerusalém. E lê-se como “Jesus além” – pelo menos assim lê Mia Couto, vi na TV (67).

* O novo livro de Nuno Júdice chama-se Os Passos da Cruz (D. Quixote) – a história de um escritor que investiga a história de Antónia Margarida, que se torna noviça no Convento da Madre de Deus, em Lisboa, e de Brás Teles, que acabou também num convento, no séc. XVII, diz Carlos Câmara Leme (73).

* Em A Potência de existir – Manifesto Hedonista (Campo da Comunicação), Michel Onfray (diversas vezes citado neste blogue) retoma temas que lhe são caros, como “a sexualidade liberta da ganga judaico-cristã e burguesa” e o “ateísmo pós-cristão” (77).

* De Laura Ferreira dos Santos, que se tem apresentado como católica, é referido o livro “Ajudas-me a morrer?” (Sextante) (80).

* Eduardo Lourenço no ensaio “Esquerda, para onde vais tu?” fala de “pecados políticos”, lembra João XXIII para dizer como ele disse da Igreja que “a esquerda não tem inimigos”, diz que não se espera que “salvemos o mundo que parece ninguém estar em condições de salvar” (82-83).

* Valter Hugo Mãe, que diz que não faz sentido assinar com maiúsculas já que escreve só com minúsculas (é lá com ele), diz: “Nunca esperei ser romancista, queria antes ser poeta porque os poetas convivem com o insondável, ou sejam, com Deus” (84).

* Finalmente, Pedro Adão e Silva (o do livro do surf) diz na secção “Ponto Final” que a política portuguesa, “mais do que de férias, precisa é de um retiro espiritual”. Na literatura portuguesa, quem destaca o professor universitário e surfista? “Estamos fadados a ser um país de poetas, logo, o José Tolentino Mendonça” (96).

Falta uma taxonomia destas referências. O cristianismo católico é abordado nos seus aspectos históricos, como referência cultural, como origem de metáforas, comparações e paródias, como objecto de reflexão (neste caso, a combater), quase nunca como convicção pessoal. Porém, as questões introdutórias deste elenco continuam por responder. Haverá um uso cultural (literário, intelectual) típico das referências católicas?

terça-feira, 28 de julho de 2009

DSI 24: Sollicitudo Rei Socialis (2)

Solidariedade não é vaga compaixão, mas antes a determinação firme de se empenhar no bem comum - é esta a pedra angular da Sollicitudo Rei Socialis (SRS), que João Paulo II publicou em 1987. São cinco os aspectos fundamentais da encíclica.

* Esperanças distantes. A SRS constata que as esperanças de desenvolvimento que havia na década de 1960 “parecem hoje [1987] muito longe da sua realização”. O “optimismo difuso quanto à possibilidade de colmatar, sem esforços excessivos o atraso económico dos povos menos favorecidos” não se concretizou. Pelo contrário, o fosso entre países pobres e ricos agravou-se.

* Há, no entanto, novas tendências positivas, como a consciência da interdependência radical – e, por isso, “da necessidade de uma solidariedade que a assuma e traduza no plano moral” –, a preocupação pela paz, a preocupação ecológica e “certa auto-suficiência alimentar”.

* Novo conceito de desenvolvimento. Paulo VI já havia dito que o desenvolvimento deve ser integral, “para todas as pessoas” e “para a pessoa toda”. João Paulo II insiste na recusa da redução da questão ao aspecto económico. O “superdesenvolvimento que consiste na excessiva disponibilidade de todo o géneros de bens materiais” é consumismo ou “civilização do consumo”. O genuíno desenvolvimento tem de estar orientado por um “parâmetro interior” que é a natureza corporal e espiritual específica do ser humano (SRS 29); consiste em melhorar a sorte da pessoa toda e de todas as pessoas à lua da fé em Cristo (30), promovendo os Direitos humanos (33) e respeitando todos os seres criados (34).

* Estruturas de pecado. O conceito surge no n.º 36. Trata-se de uma categoria para aplicar à situação do mundo contemporâneo. João Paulo II refere-se a estruturas sociais, instituições, sistemas ou “o conjunto de factores negativos, que agem em sentido contrário a uma verdadeira consciência do bem comum universal”. Nesta noção cabem os sistemas opostos em que o mundo se dividia (Ocidente e Bloco de Leste), o sistema económico gerador de desigualdade, os regimes políticos não democráticos… O Papa insiste que as estruturas de pecado e os pecados sociais radicam no pecado pessoal. Na actividade económica tem de haver juízos ético-morais. Sistemas aparentemente impessoais não podem isentar-se de uma avaliação ética e mesmo de uma avaliação em perspectiva religiosa – o que será um exercício especialmente delicado para os políticos católicos.

* A doutrina social da Igreja não tem soluções técnicas para dar ao desenvolvimento; não tem preferências por sistemas os programas económicos e políticos, desde que a dignidade humana seja devidamente respeitada. Como é “perita em humanidade” e cumprindo a sua missão de evangelizar, a Igreja quer contribuir para a “solução do urgente problema do desenvolvimento quando proclama a verdade acerca de Cristo, de si mesma e do ser humano”.

A doutrina social é um instrumento de denúncia e de anúncio. Este é mais importante do que aquela, porque “lhe dá a verdadeira solidez e a forma da motivação mais alta”. A doutrina social assume-se como dimensão profética da Igreja (41).

A história do velho Jim

Escreve Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, recordando-se dos tempos que passou na prisão:

“Ali houve dias em que, reduzido ao maior cansaço, à doença, não consegui rezar uma única oração!
Vem-me à lembrança uma história, a do velho Jim. Todos os dias, às doze horas, Jim entrava na igreja, não mais do que dois minutos, depois saía. O sacristão era muito curioso e, um dia, deteve Jim e perguntou-lhe:
- Porque vem aqui todos os dias?
- Venho para rezar.
- Impossível! Que oração você pode fazer em dois minutos?
- Sou um velho ignorante, rezo a Deus à minha maneira.
- Mas o que é que você diz?
- Digo: Jesus, eis-me aqui, sou o Jim. E vou-me.
Passam os anos. Jim, sempre mais velho, doente, entra no hospital, na enfermaria dos pobres. Parece que Jim vai morrer depressa. O padre e a freira enfermeira estão perto de sua cama.
- Jim, diga uma coisa: porque é que, desde que você entrou nesta enfermaria, tudo mudou para melhor, e as pessoas ficaram mais contentes, felizes e amigas?
- Não sei. Quando eu posso caminhar, vou aqui e ali, visitando a todos, saúdo toda a gente, chamo toda a gente, faço-os rir, faço-os felizes. Com o Jim estão todos sempre felizes.
- Mas porque é que você é feliz?
- Vocês, quando recebem uma visita todos os dias não se sentem felizes?
- Certamente. Mas quem é que o visita? Nunca vimos ninguém.
- Quando entrei nesta enfermaria pedi duas cadeiras: uma para você e outra para o meu visitante, não vêem?
- Quem é o seu visitante?
- É Jesus. Antes eu ia à igreja visitá-lo, agora já não posso. Então, às doze hoiras, Jesus vem.
- E o que é que Jesus lhe diz?
- Diz: Jim, eis-me aqui, sou Jesus…
Antes de morrer, vimo-lo sorrir e fazer um gesto com a mão em direcção à cadeira próxima da sua cama, convidando alguém a sentar-se. Sorriu de novo e fechou os olhos”.

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, “Cinco pães e dois peixes” (Ed. Paulinas), pág. 32-34

Oração pelas férias

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.

Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.

Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.

Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.

Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.

Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita
a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.

Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.

Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.

José Tolentino Mendonça
Fonte: SNPC (clicar em "Umbrais")

Livro: "Cinco pães e dois peixes"

Referi como “clássico” o livro “O Caminho da Esperança”, de Nguyen Van Thuan. E é-o, pela afirmação da Presença contra a solidão mais atroz. Pela escrita longamente meditada. Pela mensagem perene.

Na encíclica “Spe Salvi”, Bento XVI invoca o cardeal vietnamita: “O orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão” (n.º 32).

Quero acrescentar um livro mais recente deste cardeal que chegou a presidir ao Conselho Pontifício «Justiça e Paz», “Cinco pães e dois peixes” (ed. Paulinas), o qual, aliás, já neste blogue foi citado (aqui e aqui). O título remete para a passagem evangélica proclamada no domingo passado. Neste livrinho de 92 páginas sobressai uma fé simples e profunda que ilumina mais do que um bom ensaio de Teologia (mas os bons ensaios de Teologia são tão necessários). O título refere-se a estes pães e peixes:

1. Pão da esperança que o libertou da angústia da expectativa da libertação
2. Pão da fé, que operou nele uma verdadeira conversão
3. Pão da oração, que no meio da “noite escura” assegura a Presença
4. Pão eucarístico, “capaz de renovar a humanidade”
5. Pão do amor, linguagem que a todos “contaminou” na prisão
6. Peixe do amor filial a Maria
7. Peixe do seguimento de Jesus.

Há no livro uma história do “velho Jim” que mostra bem a essência do cristianismo. Espero transcrevê-la aqui muito proximamente.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O aviso de Stefan Zweig

Há um aviso de Stefan Zweig (1881-1942) que deve pôr alerta qualquer cristão mais dado a inquisições:

"Aqueles que anunciam que lutam a favor de Deus são sempre os homens menos pacíficos da terra. Como crêem receber mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos a qualquer palavra de humanidade".

DSI 23: Da RN à CV, a "Sollicitudo Rei Socialis" (1)

Libertação da solidariedade

Quando a SRS foi publicada, no final de 1987 (30 de Dezembro), as atenções recaíram no n.º 44, que afirma que há nações que “precisam de reformar algumas estruturas injustas e, em particular, as suas instituições políticas, para substitui regimes corruptos, ditatoriais ou autoritários por regimes democráticos, que favoreçam a participação”. Nunca um documento eclesial fora tão explícito a pedir reformas políticas nem tão claro a apontar as causas do subdesenvolvimento. João Paulo II refere-se aos “dois blocos contrapostos” e também ao imperialismo e neocolonialismo, ao desvio de recursos para o armamento, ao isolamento egoísta, ao comércio de armas, ao problema demográfico…

A SRS, escrita já no declínio da Teologia da Libertação, será provavelmente a encíclia social mais próxima desta corrente de teologia que, principalmente na América Latina, defendia energicamente a participação social dos mais desfavorecidos, por vezes com ideologias e métodos tidos próximos do marxismo. O Papa a ela se refere com estas palavras: “No período que se seguiu à publicação da encíclica «Populorum Progressio» nalgumas áreas da Igreja Católica (…), difundiu-se uma nova maneira de enfrentar os problemas da miséria e do subdesenvolvimento, que faz da libertação a categoria fundamental e o primeiro princípio de acção”. “Aspirar à libertação de toda e qualquer forma de escravatura, relativa à pessoa e à sociedade, é algo de nobre e válido”, acrescenta depois de notar que a Teologia da Libertação tinha (tem) valores positivos e desvios.

Porém, a ideia que está na base da SRS é a de solidariedade – não esquecer que o João Paulo II vinha da Polónia, onde a revolução provocada pelo sindicato Solidariedade (Solidarnosc) ainda estava em curso.

O termo «solidariedade» aparece 27 vezes na SRS, substituindo, por exemplo, «igualdade» (como no n.º 33: “O desenvolvimento deve realizar-se no quadro da solidariedade e da liberdade, sem jamais sacrificar uma e outra, com nenhum pretexto”). A solidariedade é definida não como “sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes”, mas como “determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. “A solidariedade que nós propomos – diz João Paulo II – é caminho para a paz e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento”.

Para terminar o dia

Eu vivo sem viver em mim mesmo

Eu vivo sem viver em mim mesmo
E espero tão alta vida
Que eu morro por não morrer.
Esta reunião divina
Que é o amor com o qual vivo
Faz de Deus meu cativo
Enquanto o meu coração é livre;
Mas eu experimento paixão tal
De ver Deus meu prisioneiro
Que eu morro por não morrer.

Teresa d'Ávila (1515-1582)

domingo, 26 de julho de 2009

Meditação

“S. Tomás de Cantuária usava uma camisa de penitente por baixo do seu ouro e púrpura, e muito há a dizer a favor desta combinação, porque ele tirou o benefício dessa camisa de penitente, ao passo que o povo da rua aproveitou o benefício do ouro e da púrpura. E isto é, sem dúvida, melhor do que o processo do moderno milionário que, para os outros, se mostra negro e sujo exteriormente, mas traz ouro junto ao coração”.

G. K. Chesterton, “Ortodoxia” (Ed. Livraria Tavares Martins), pág. 161

Bento e Anselmo

Bento Domingues escreve no “Público” de hoje, na sua última crónica antes das férias, sobre a capacidade humana para resolver os problemas, a propósito do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, desde que haja vontade política.

“Jesus Cristo não deixou nenhum método científico nem qualquer fórmula técnica para resolver os nossos problemas. Ninguém lhe peça, mesmo que seja muito católico, um programa de governo ou qualquer projecto de desenvolvimento.
(…)
Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo. Não são um método. A graça provoca a nossa responsabilidade, não a substitui. Não há falta de recursos. Há falta de sonho e de coração”.

Anselmo Borges, no DN de ontem (aqui), continuou a reflexão sobre a “Caritas in Veritate” (“A Caridade na Verdade”). E escreveu:

“O amor é o princípio de toda a acção humana individual e colectiva. Evidentemente, não pode existir sem a justiça, embora a supere. Mas o amor e a justiça têm de ser iluminados pela verdade, sendo esta luz da verdade simultaneamente a da razão e da fé.
(…)
A partir deste fundamento, a encíclica, lembrando que "a Igreja, estando ao serviço de Deus, está ao serviço do mundo em termos de amor e de verdade", acusa os desvios e problemas dramáticos do desenvolvimento, ao mesmo tempo que avança com princípios e propostas".

sábado, 25 de julho de 2009

Filme de perdão, memória e média


João Lopes diz que há no filme «Cinco Minutos de Paz» “a capacidade de não desistir de um cinema que resiste à frivolidade dos tempos, sem medo de ser contundente, grave e adulto” (DN, 23 de Julho).

No mesmo jornal, Eurico de Barros, por seu lado, diz, citando o actor Liam Neeson, que o filme é sobre dois homens que tentam abordar “30 anos de violência, ódio e desconfiança”.

Ao fazê-lo, palavras de Barros, “«Cinco Minutos de Paz» revela-se como um dos filmes mais intensos e originais, e menos simplistas e maniqueístas já rodados sobre este tema, e uma das boas surpresas do anémico Verão cinematográfico de 2009”.

O enredo: Em 1975, Alistair Little, 16 anos, protestante, mata a tiro James Griffins, católico, como represália pelos atentados do IRA. Joe Griffin assiste ao assassínio do irmão mais velho. Na cadeia, Alistair Little dedica-se a ajudar outros homens que, como ele, foram tomados pelo remorso. 30 anos após o crime, um programa de televisão pretende pôr Alistair e Joe frente-a-frente em nome do “perdão” e da “reconciliação”.

O filme é realizado por Oliver Hirschbiegel (de “A Queda”, sobre Hitler). Parece ser um filme com densidade.

DSI 22: "Laborem Exercens", "Mediante o trabalho..."

“O ensino da Igreja exprimiu sempre a firme e profunda convicção de que o trabalho humano não diz respeito simplesmente à economia, mas implica também sobretudo valores pessoais”, escreve João Paulo II na “Laborem Exercens”, n.º 15.

Esta frase-síntese lembra que na questão do trabalho, como em todas, a doutrina social tem uma visão personalista. “O trabalho humano é a chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social, se procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem da pessoa” (LE 3).

Nesta questão, o principal conflito passa-se entre trabalho (trabalhadores) e capital (detentores dos meios de produção). Iniciou-se com a Revolução Industrial e ainda não foi superado. Continuamos a vivê-lo com mais força nestes tempos de crise económica. Ora a LE diz que neste conflito tem prioridade o trabalho humano (LE 12). Uma consequência imediata deste princípio será o não despedimento de trabalhadores em períodos de dificuldade, algo que as correntes económicas mais liberais dizem que não podem acolher, sob colapso das estruturas produtivas, mas que de algum modo é amparado pelos sistemas se segurança social – os quais são suportados pelos impostos sobre o trabalho e o capital.

Neste contexto a doutrina social da Igreja lembra que o “pleno emprego” continua a ser um ideal que a sociedade deve concretizar. Todos os que podem trabalhar devem, de facto, ter trabalho. Se não há trabalho para todos, é porque o conjunto da sociedade está mal ordenado. Quais as medidas para conseguir trabalho para todos é que já é mais complicado apontar. Os economistas não estão de acordo: há os que dizem que quanto mais fácil for contratar/despedir, mais dinâmica é a economia e mais emprego se gera a prazo (e algumas legislações laborais liberais coexistem com baixas taxas de desemprego); e os que preferem legislação mais protectora do posto de trabalho e de maior apoio no desemprego (e toda a gente conhece casos de desempregados que até nem se importam da situação enquanto o subsídio dura).

A DSI, que não que ser uma terceira via entre capitalismo e socialismo, neste ponto pende claramente para o “elo mais fraco”: o trabalhador. “O papel das instituições [económicas e políticas que determinam o sistema político-financeiro] é actuar contra o desemprego, que é sempre um mal” (LE 18). A LE não fica pelo princípio vago; aponta que deve ser criado um “banco de trabalho”, com planificação global e colaboração internacional (LE 18).

A LE devia ser conhecida pelos trabalhadores cristãos e ainda mais pelos empresários e gestores cristãos – mesmo que os princípios que afirma, com consequências económicas, provoquem discussões (há sectores católicos que praticamente ignoram a doutrina social…). Há na LE, contudo, uma parte sobre a espiritualidade do trabalho que todos devíamos conhecer. Que outra visão do mundo diz que “trabalhar é participar na obra do Criador” (em vez de visões falsamente cristãs que associam o trabalho ao “castigo” bíblico)? Que outra religião ou fé tem na sua origem um artesão, o carpinteiro de Nazaré? Também sobre o trabalho humano, composto de direito e dever, de prazer e fadiga, de esforço e recompensa, incide a luz da Cruz e da Ressurreição de Cristo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A gripe e a comunhão. Ponto final.

Não pretendo alimentar polémicas (se bem me lembro, a palavra vem do grego e quer dizer guerra), mas devem-se alguns esclarecimentos sobre a troca de palavras entre mim e José Vítor Malheiros (JVM).

1.º JVM fala do “exemplo do polícia”. Trata-se de uma referência ao polícia que anda de bicicleta e come sandes de alface e pepino versus o barrigudo que come hambúrgueres gordurosos. Uma jornalista dizia que se sentia mais segura com o segundo, mais capaz de pôr a sua pele em risco.

2.º Ele não sabe (e suponho que o mesmo acontece com a maioria dos que seguem este blogue) que sou jornalista. Pelo que, mesmo trabalhando num semanário humilde (mas 59 anos mais velho do que o “Público”), sei como funciona um jornal. Mas nunca concordaria que isso alguma vez pudesse dar-me legitimidade para opiniar sobre o trabalho de um jornalista. O que dá legitimidade é o facto de o ler. E pronto. Todos os leitores podem opinar sobre o que está escrito. Nisso creio que ambos concordamos.

Mas a condição de jornalista talvez dê mais propriedade para distinguir os géneros (o que, no entanto, não será exclusivo dos jornalistas) e afirmar que qualquer jornalista poderá escrever sobre factos, desde que os saiba interpretar, mas nem sempre estará suficientemente esclarecido para opinar sobre os factos (principalmente sobre os que não são da sua área; recuso-me a fazer uma crítica de futebol, embora perceba que ganha quem marca mais). A comparação é antiga, mas julgo que continua válida: quando se fala da Igreja, comete-se geralmente o mesmo erro que um crítico de arte (ou um historiador) cometeria se só analisasse os vitrais do lado de fora. É preciso entrar na igreja. A crítica eclesial a partir de fora sem dúvida que é legítima, e será muito significativa (poderia dizer “profética”) quando atinge as consequências sociais da fé cristã (JVM de alguma forma pode invocar que é disso mesmo que se trata), mas será sempre incompleta.

3.º Invoca o exemplo de Cristo e aí isto entra numa outra dimensão. Cristo tocou em doentes, principalmente em leprosos, que deixavam ritualmente impuro quem lhes tocasse, à face das leis antigas. Sem dúvida que havia o aspecto médico: o perigo de contágio; e o aspecto religioso: o ficar ritualmente impuro, logo impróprio para o culto.

Quando ao aspecto médico, não sei o que Cristo pensava. A minha cristologia diz-me que ele era plenamente humano, portanto, podia ficar doente. Não sei porque não ficou, não sei sequer se ficou ou não – os evangelhos são omissos –, mas tenho a certeza de que podia ficar. Não estava imune. E tinha que ter cuidados para não apanhar doenças. Deve ter tido varicela e sarampo quando era pequeno. E dor de dentes. E de barriga, se bem que a dieta mediterrânica seja das melhores. Será que teve cuidados para não apanhar doenças? Não sei. Talvez ele não tocasse em todos os doentes. Talvez ele tenha levado a pensar que em alguns doentes que parecia terem lepra podia-se tocar (tudo o que era doença de pele era tido como lepra; até as casas tinham lepra, quando apareciam manchas nas paredes e também elas tinham de submeter-se a rituais de purificação – vem no Antigo Testamento). Talvez a aproximação aos doentes tenha levado a pensar: destes podemos aproximar-nos; daqueles, não. E tenha levado à diferenciação dos tipos de doenças - a medicina!

Mas quanto ao aspecto religioso, é claro o que Cristo pensava. Ele veio para os pobres e doentes (e para os outro também, já agora). Ele veio para reintegrar os excluídos numa grande sociedade sob o olhar bondoso de Deus a que chamava Reino de Deus (ou dos Céus, segundo S. Mateus). Com o gesto de tocar em doentes (e também: comer com ladrões, cobradores de impostos, pessoas de má vida e outros das classes rasteiras; curar ao sábado; dizer que os últimos serão os primeiros; falar com mulheres e crianças…) queria mostrar que as doenças não deviam ser factor de exclusão (os leprosos – até por estratégia social – andavam de sineta ao pescoço e diziam: fujam de mim, fujam de mim que sou leproso). Ele queria dizer entre a lei e o ser humano há que optar pelo ser humano, mesmo quando a lei parece divina. Tocar, acolher, era (e é) o contrário de excluir, diabolizar.

Mas ele também disse que o cego não pode guiar outro cego (embora eu já tenha visto cegos a guiarem-se muito bem – os tempos são outros e as capacidades dos cegos evoluíram muito).

O máximo de prudência não é contrária à solidariedade. Como sabe, “prudência” é uma boa desculpa para, por vezes, não se fazer na Igreja o que deve ser feito (alguém disse uma vez que a palavra “prudência” era a que mais se ouvia nos paços episcopais). Mas, em termos de saúde, se a gripe A for a ameaça que dizem ser, prudência é o primeiro mandamento da solidariedade. Se todos ficarem doentes, que visitará os doentes? Quem lhes levará a Comunhão?

[Desculpe(m) se me alonguei.]

O jornalista do "Público" responde

Enviei ao jornalista do "Público" José Vítor Malheiros o comentário que neste blogue escrevi no dia 22 (aqui) e ele respondeu-me ontem:

Não sou católico nem sequer crente. E, naturalmente, não frequento a missa. Não penso que isso me deva inibir de comentar questões religiosas, como não imagino que o facto de não saber como funciona um jornal o deva inibir a si de comentar o que eu escrevo.

Não atribua qualquer sentido pejorativo à expressão "coisa". Não tem.

O meu texto apenas chama a atenção para a contradição entre a comunhão (em sentido lato) que a missa representa (e o gesto simbólico para com o desconhecido do lado) e os cuidados de higiene agora recomendados. Cristo não recomenda distância no tratamento dos doentes, nem sequer dos leprosos, cujo contágio se sabia já ser arriscado.

Por isso falo antes do exemplo do polícia. O texto põe lado a lado duas atitudes (prudência e assunção de risco, prudência e solidariedade), ambas positivas e mesmo meritórias, e chama a atenção para a contradição. O máximo de prudência é contrário à solidariedade. Pelo meu lado penso - e o texto diz - que a religião deve preocupar-se antes de mais com a solidariedade. É apenas uma questão de ângulo de abordagem e de prioridade. E penso que é essa a mensagem cristã.

Ninguém sugere que a Pastoral da Saúde dê conselhos contrários aos da DGS. Não pode ter lido isso no meu texto. Mas o que a DGS faz, por correcto e necessário que seja, não tem de ser o papel da Pastoral da Saúde. É verdade que é da Saúde, mas por alguma coisa é Pastoral.

jvm

Quanto faltarem os outros…

Se precisas de valentes sob o teu estandarte
aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…
aí estão Lourenço, Cecília…

Mas se, por acaso,
alguma vez precisares de um preguiçoso
e de um medíocre, de um ou outro ignorante,
de um orgulhoso, de um cobarde,
de um ingrato e de um impuro,
de um homem que esteve de coração fechado
e rosto duro…
aqui estou eu.

Quando te faltarem os outros,
a mim sempre me terás.

Charles Péguy (1873-1914)

Clássicos 17: “O Caminho da esperança”, de Francisco Xavier Nguyen Van Thuan


(Primeiras palavras:) “Se ainda estás amarrado com uma corrente de ouro, ainda não estás preparado para este caminho.

1. O Senhor conduz-te por este caminho para que tu possas «ir e dar fruto, um fruto duradouro» (cf. Jo 15,16).

O caminho chama-se «O CAMINHO DA ESPERANÇA» porque é belo como a esperança que o ilumina. Porque não havias de ter esperança, se te pões a caminho com Jesus, em direcção ao Pai?”

O Caminho da esperança | Il Cammino della speranza | Francisco Xavier Nguyen Van Thuan | Paulinas, 2007, 220 páginas.

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan (Vietname 1928 – Roma 2002), nomeado bispo em 1967, passou 13 anos da prisão, logo após a nomeação como bispo coadjutor de Saigão (Ho Chi Minh). Este clássico da espiritualidade contemporânea, feito de 1001 pequenos textos (transcreveu-se o primeiro), foi escrito durante os 13 anos de cativeiro.

Para terminar o dia

"Os rituais não requerem muito tempo. Posso transformar o decurso de um dia de trabalho normal num ritual, como, por exemplo, o levantar-me, o lavar-me, o pequeno-almoço, a ida para o trabalho. Se transformar estas pequenas acções num ritual, elas acabam por divertir-me e eu passo a viver com base nelas. Os rituais tornam-se pontos de paragem no tempo. Durante os rituais, o tempo pára. Termina aí a caracterização do tempo orientada por um objectivo. Concedo-me a honra de ter um ritual. Entro em contacto comigo mesmo. Consigo respirar".

Anselm Grun, "Ao ritmo do tempo dos monges" (Ed. Paulinas), pág. 137

quinta-feira, 23 de julho de 2009

DSI 21 - Da RN à CV: A "Laborem Exercens"

A encíclica do trabalho humano

João Paulo II dedica a primeira das suas três encíclicas ao trabalho. O trabalho é a chave da questão social, bem fundamental para a pessoa, factor primário da actividade económica.

O trabalho humano e o desenvolvimento dos povos (que, obviamente, se alicerça no trabalho dos seus membros) são os dois fios condutores a que se agregam todos os documentos da Doutrina Social da Igreja. Neste aspecto, a Igreja é um pouco marxista, visto que põe o trabalho no centro das questões sociais. No entanto, não retira daí as mesmas conclusões. Mais do que marxista, será "marxiana"?

Logo no primeiro parágrafo, João Paulo II afirma que trabalhar é muito mais do que uma questão individual de ganhar o sustento: “Mediante o trabalho [«Laborem exercens» - LE] deve o ser humano ganhar o pão de cada dia, contribuir para o progresso da ciência e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os outros irmãos”.

Ao longo do documento o Papa polaco “delineia uma espiritualidade e uma ética do trabalho, no contexto de uma profunda reflexão teológica e filosófica” (CDSI, 101). Sem nunca perder de vista o ideal do pleno emprego (“encontrar um emprego adaptado para todos aqueles que são capazes de o ter”), João Paulo II olha para o trabalho na actualidade e ilumina-o com uma “espiritualidade do trabalho”, do Génesis à Ressurreição de Cristo. O Papa fala da mecanização e automatização do trabalho, da “mercadoria” em que não deve transformar-se, dos sindicatos, do salário justo, do trabalho dos portadores de deficiência, da emigração. Quanto à espiritualidade, em resumo, trabalhar é “participar na obra do Criador”, é «co-laborar» com Deus. Mais alta do que isto, a dignidade do trabalho não podia estar. Por isso, o desemprego além de drama humano é drama teológico.

A LE estava para ser publicada no dia 15 de Maio de 1981, quando se completavam os 90 anos da “Rerum Novarum”, mas foi adiada para 14 de Setembro, visto no dia 13 de Maio João Paulo II ter sofrido o atentado na Praça de São Pedro.

Apesar de publicada pelos 90 anos da RN, nem uma única vez cita a encíclica inaugural. Escrita por um papa que chegou a ser operário, a LE marca um estilo novo de doutrina social.

O Papa que ria de si próprio

André Frossard (1915-1995; membro da Academia Francesa de Letras a partir de 1987) escreveu quatro livros sobre João Paulo II. Penso que apenas um está traduzido em português: "Retratos de João Paulo II" (Europa-América). Em "N'ayez pas peur, dialogue avec Jean-Paul II", de 1982, diz que ouviu pessoalmente esta anedota da boca de João Paulo II:

"O Papa pergunta a Deus:
- Senhor, a Polónia vai conquistar um dia a liberdade?
- Sim, responde Deus. Mas não durante a tua vida.
A seguir, o Papa pergunta:
- Senhor, depois de mim haverá outro Papa polaco?
E Deus responde:
- Não durante a minha vida."

Madeleine Albright: "Acredito fortemente na separação da religião e do Estado"

Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA no tempo de Bill Clinton, deu uma entrevista ao "Público" (20 de Julho). No final, Teresa de Sousa perguntou-lhe: «Escreveu em 2006 “Os poderosos e o todo-poderoso: reflexões sobre a América, Deus e o Mundo”. A diplomacia deve ter em conta a dimensão religiosa?»

E a norte-americana que nasceu na Checoslováquia em 1937, foi educada catolicamente, mas entretanto aderiu à Igreja Episcopal (anglicanos dos EUA), respondeu:

“Como americana, acredito fortemente na separação da religião e do Estado. O meu país foi criado sobre isso. Mas também sou realista. O que escrevi no meu livro foi que precisamos de perceber o background religioso de muitos dos conflitos. Falou do conflito do Médio Oriente – há pessoas que lutam porque acreditam que aquela pequena porção de terra lhes foi dada por Deus.

O que argumento no livro é que os nossos diplomatas entendam esta dimensão religiosa [dos conflitos]. Que os líderes religiosos, mesmo que não estejam envolvidos directamente na mesa das negociações, devem estar envolvidos na prevenção dos conflitos. E também sugiro que, uma vez encontrado um acordo entre os negociadores, os líderes religiosos podem servir como validadores. ‘Nós pensamos que este compromisso faz sentido, pode ajudar, devemos tentar aplicá-lo’.

Também tento explicar um pouco o Islão, porque há pessoas que pensam que é uma religião monolítica, que não é. Como não o são o cristianismo ou o judaísmo.

Observei o que os religiosos podem fazer. O Vaticano tem essa comunidade religiosas de santo Egídio, que trabalhou em Moçambique e na Bósnia e que conseguiu juntar as pessoas.

Mas não quero que as pessoas me interpretem mal sobre a relação entre religião e o Estado. Como americana acredito profundamente na separação” (fim de citação).

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...