sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Shakespeare era católico?

Há muito que se diz que Shakespeare talvez fosse católico. A mundividência da sua dramaturgia parece católica. Há referências a ritos católicos (mas nessa época os ritos anglicanos ainda não eram muito diferentes dos católicos). Os seus pais eram católicos (o testamento do pai, John Shakespeare, segue um modelo de Carlos Borromeu, cardeal, bispo de Milão). Há uma visão dramática que os especialistas dizem ser católica (o pecado e a graça, a redenção).

Talvez Shakespeare seguisse a “Old Faith” às escondidas, numa época em que não se podia ser papista em Inglaterra. Nas peças, algumas delas tendo como palco a católica Itália, há referências aos sacramentos católicos. Aparecem padres (que na Inglaterra isabelina eram perseguidos). E o fantasma com que Hamlet fala descreve um mundo que os católicos identificariam como sendo o purgatório.

Agora o I (aqui) e o JN (aqui) vêm dizer que durante uns anos o dramaturgo foi peregrino em Itália, deixando o seu nome inscrito, indirectamente, num livro de peregrinos.

Explica o I: O livro a que se refere [o padre Andrew Heaton, vice-reitor do Venerable English College, um seminário romano para sacerdotes católicos ingleses] está assinado em 1585 por um certo Arthurus Stradfordus Wigomniensis. Também há referência a Gulielmus Clerkue Strafordiensis, que deixou a sua marca no livro em 1589, informa o “The Independent”. Ambos os nomes pertenciam, na realidade, a William Shakespeare. Segundo o vice-reitor, o primeiro nome pode decifrar-se como “(O compatriota) do (rei) Artur de Startford (na diocese) de Worcester”.

Mas existe ainda uma terceira menção, de 1587, noutro livro de peregrinos: Shfordus Cestriensis. Segundo Heaton pode querer dizer “Sh(akespeare de Strat)Ford (na diocese de) Chester”.

E o JN acrescenta que estas referências reportam-se a um período de quatro anos em que se desconhece por onde o autor de "Hamlet" terá andado. Shakespeare abandonou a sua Stratford natal em 1585 e reapareceu em 1592 em Londres, onde começou a sua carreira de dramaturgo. "Há vários anos na vida de Shakespeare dos quais nada se sabe", assinalou Heaton, que aponta como mais provável a hipótese de o poeta ter então visitado Roma como católico clandestino.

25 de Dezembro do ano 1000. Fundação do reino da Hungria

No dia 25 de Dezembro do ano 1000, é fundado por Estêvão I (mais tarde canonizado pela Igreja Católica) o reino cristão da Hungria. Julgo que a data não terá sido arbitrária porque, no mesmo dia, mas duzentos anos antes, Carlos Magno foi coroado imperador do Sacro Império Romano, por Leão III, em Roma. No que diz respeito à Hungria, também houve intervenção papal. Silvestre II (Papa de 999 a 1003) enviou de Roma a coroa que hoje se encontra do Parlamento da República da Hungria.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Vem para todos

Afinal, o que sabemos sobre Maria de Nazaré?

A Virgem adorando o Menino Jesus, de Sandro Botticelli

No P2 de hoje ("Público"), António Marujo escreve sobre o que alguns téologos e ensaístas vão dizendo sobre Maria, Jesus e os irmãos. É Natal.


Afinal, o que sabemos sobre Maria de Nazaré?

Teve vários filhos ou só foi mãe de Jesus? Por que foi ela quase divinizada? Permanecem muitos mistérios sobre a vida de Maria de Nazaré. Uma mulher única, cuja história é lida de forma polémica no interior do cristianismo, tendo dado origem a profundas divisões. Ler aqui.

Morreu Schillebeeckx

Morreu Edward Schillebeeckx, ontem, 23 de Dezembro, aos 95 anos. Dominicano, este teólogo belga (nascido em Antuérpia, a 12 de Novembro de 1914) que viveu a maior parte do tempo na Holanda, antecipou a renovação do II Concílio do Vaticano, sendo assessor dos bispos holandeses no Concílio.

Mais tarde foi crítico do Vaticano. Ensinou na Universidade de Nimega até a reforma. O seu livro sobre Jesus (em espanhol, língua em que li alguns capítulos, o título era “Jesús. La historia de um viviente”) mereceu as críticas do Vaticano, melhor, da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1984 (já lá estava Joseph Ratzinger).

24 de Dezembro de 1294. Eleição do Papa Bonifácio VIII

Bonifácio VIII por Giotto

Benedetto Caetani (1235 - 1303) foi eleito Papa no dia 24 de Dezembro, após a abdicação de Celestino V, no dia 13 de Dezembro anterior.

Benedetto Caetani influenciou a abdicação de Celestino V, um humilde monge beneditino (de certa forma lembrando-o, Giovanni Papini publicou as “Cartas aos Homens de Celestino VI”, que obviamente não existiu, mas seria um Papa exemplar), pelo menos sugerindo tal possibilidade, e a seguir foi eleito para a Cadeira de Pedro.

Defensor da supremacia espiritual e temporal dos Papas (acrescentou à tiara papal sua segunda coroa que representa a Ordem, o poder espiritual, uma vez que a primeira coroa já representava a Jurisdição, o poder régio ou temporal), Bonifácio VII viveu conflitos com as principais famílias e reis europeus. Os conflitos com Filipe IV são os mais conhecidos. Filipe IV tentou, sem conseguir, que Bonifácio VIII fosse condenado post mortem.

Bonifácio VIII institui em 1300 o primeiro jubileu cristão por meio da bula Antiquorum fide relatio, o que levou a Roma muitos cristãos e permitiu ao Papa restaurar as basílicas de São Pedro, São João de Latrão e Santa Maria Maior. A partir desse data houve jubileus de meio em meio século.

Este Papa foi patrono de Giotto. Dante, que não gostava dele por causa das concepções papais do poder, coloca-o no Inferno, pelo crime de simonia, apesar de Bonifácio ainda estar vivo na data em que se passa o poema. Boccaccio também o satiriza no Decameron.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A fé é nocturna, como o combate de Jacob, diz Tolentino Mendonça

Fé, luz, noite, poesia e, de caminho, uma explicação para a origem deste blogue, tudo neste excerto da entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Tolentino Mendonça para a “Ler” n.º 86 (Dezembro de 2009).


Tolentino Mendonça - O silêncio é um caminho. Não basta, por exemplo, estarmos calados para estar em silêncio. Podemos estar calados e o rumor ser ensurdecedor. Há uma qualidade de silêncio que é uma conquista, que é um processo em que nós entramos.

Carlos Vaz Marques – Talvez esta insistência na noite e no silêncio sirva para explicar uma frase sua na qual dizia que “a fé é um salto no escuro”.

TM - A fé tem a ver com a noite.

CVM – A fé não é diurna, não é luminosa?

TM – Não. A fé é claramente nocturna.

CVM – Mas uma das construções imagéticas mais presentes ao falar da fé é a ideia de “ver a luz”.

TM – Mas a luz só se vê à noite, como as estrelas. As estrelas brilham no céu nocturno. A luz da fé brilha na noite. A fé é um lugar sem certezas. A fé é um lugar de abertura. A fé é uma forma de hospitalidade radical. Para mim, as grandes imagens bíblicas da fé são as da luta de Jacob com o anjo (quando ele, no amanhecer ainda escuro, ao atravessar um riacho, luta com o próprio Deus sem saber que está a lutar com Deus; mas essa imagem do combate nocturno, agónico, um bocado imperceptível mas que nos fere e deixa depois no nosso corpo a ferida, é a imagem mais prodigiosa do que é a fé no Antigo Testamento) e a do percurso que as mulheres fazem de manhãzinha, com o dia ainda muito escuro, a caminho de um sepulcro que encontram vazio. A fé tem necessariamente esse lado nocturno de indagação e de expectativa. A fé é uma expectativa. E é nesse sentido a imagem do salto no escuro.

CVM – A sua poesia é um acto de fé?

TM - A minha poesia é o mapa da minha procura. É o testemunho de que eu busquei. Nem sempre diz o que busco mas diz sempre que eu busquei.

Não parece, mas foi a orelha esquerda que Van Gogh mutilou

Van Gogh fazia os auto-retratos olhando para um espelho. Parecendo que cortou a orelha direita, cortou mesmo a esquerda (ou só o lóbulo, segundo algumas versões). Foi depois de uma discussão com Gaugin. Levou esse bocado seu a Rachel, embrulhado num lenço e acompanhado de um bilhete: "Guarde com cuidado".

23 de Dezembro de 1888. Van Gogh corta a orelha

No dia 23 de Dezembro de 1888, Vicent van Gogh (1853-1890) corta a sua orelha esquerda (talvez só uma parte) e leva-a a uma prostituta. Raquel de seu nome. Quando pintou este quadro, “Pietá” (óleo sobre tela, 73 x 60 cm, no Van Gogh Museum, Amesterdão), em 1889, já só tinha uma orelha.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Lázaro - poema de José Régio

Juan de Flandres (1500)

Por damascos e púrpuras de rei
Despi, lá fora, os meus vestidos velhos;
E entre o tumulto, as luzes, os espelhos,
Insólito conviva, me assentei.

Erguendo a taça de cistal, brindei;
Quebrei a taça de cristal nos joelhos...
E apertando nas mãos lírios vermelhos,
Ensaiei risos fúteis e cantei.

Assim vós me julgastes um dos vossos,
E a mesa do festim me recebeu,
E me coroaram de hera em flor os moços.

E, quando toda a orgia adormeceu,
Só eu !, só eu me vi roendo os ossos
Desse banquete que não era meu!

José Régio (17-09-1901 — 22-12-1969)

Richard Dawkins e o bispo de Oxford

Li hoje na “Ler” n.º 86:

Curiosamente, Richard Dawkins, que demonstra sempre, de maneira quase festiva, fervorosa e militante, o seu «orgulho de ser ateu» e a sua sanha contra as religiões, recorre desta vez às autoridades eclesiásticas inglesas, nomeadamente ao antigo bispo de Oxford, para recordar um artigo escrito por ambos, publicado em 2004 no Sunday Times – «Actualmente não há nada a debater. A Evolução é um facto e, na perspectiva cristã, uma das maiores obras de Deus» -, sem contudo deixar de fazer notar que a última oração não é de sua autoria (fim de citação).

É simpática a amizade entre o ateu Dawkins e o bispo anglicano, quando o biólogo tem sido um autêntico apóstolo pela razão, contra a fé. Esta última, sem distinções de correntes e religiões, é sempre considerada por Dawkins como irracional, tendente ao fundamentalismo, viral no mau sentido.

Há muitos vídeos sobre as conversas do cientista com o bispo. Este, longo (34 minutos, em várias partes), deve ser dos mais interessantes.

Segunda parte

Terceira parte

Quarta parte

José Régio morreu há 40 anos

Leio na Agência Ecclesia que José Régio morreu há 40 anos (22 de Dezembro de 1969).

José Régio, de seu verdadeiro nome José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde, no longínquo ano de 1901. Passados 24 anos, em 1925 escreveu um livro que assinala a sua revelação como poeta, perante o público e a crítica: "Poemas de Deus e do Diabo". (...) O poeta foi sempre, poeticamente, um insaciável buscador de Deus.

Ler aqui.

22 de Dezembro de 1419. Morre João XXIII, antipapa

João XXIII (Baldassare Cossa) foi antipapa de 1410 a 1415. Parece que também foi corsário em jovem, o que será uma originalidade na carreira eclesiástica. Tinha origens napolitanas e estudou em Bolonha. Morreu no dia 22 de Dezembro de 1419, em Florença, como cardeal, depois de ter reconhecido no ano anterior que Martinho V é que era o verdadeiro Papa (chegou a haver três pretensos papas, um em Roma, outro em Avinhão e outro em Pisa).
Durante séculos discutiu-se a legitimidade deste Papa. Aparecia em algumas listas de historiadores como legítimo. No séc. XX, Giuseppe Roncalli, ao escolher como nome João XXIII encerrou o assunto. Se algumas dúvidas havia, o Papa declarava implicitamente que Baldassare Cossa não entra na lista dos Papas.

"Tele-grama" de Natal, por Pedro José

"Tele-grama" de Natal
O que falta para ser feliz?

Espalhe o Natal.
É mais simples transmitir o bem.
Deixe de lado o auto-engano.
No presente, grávido de mistério (reler Odo Casel),
Deus encarnando-se santificou nossa Carne.
O Natal é a festa do Corpo.
O Corpo de um só Desejo.
Hodie é Natal.
Pequeno, prevenido e fecundo:
tomai, vivei e fazei... viver o Natal...
nas horas da Morte, nas horas de Vida.
Com o Ardor da Ternura!

Pedro José

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Inverno - Poema de Eugénio de Andrade

Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,

O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:

Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.


Eugénio de Andrade (1923 –2005)

Clássicos 23 - "A Bíblia tinha Razão", de Werner Keller

[Primeiro parágrafo] “Se traçarmos no mapa uma linha, que, do Egipto até ao Golfo Pérsico, passe pelo Mediterrâneo, pela Palestina e pela Síria, seguindo logo o curso do Tigre e do Eufrates através da Mesopotâmia, resultar-nos-á uma meia lua perfeitamente desenhada”.

A Bíblia Tinha Razão | Werner Keller | Edição Livros do Brasil, sem data | 430 páginas

Escrita por um não especialista e publicada pela primeira vez em 1955 (título original: “Und Die Bibel Hat Doch Recht”), esta obra foi traduzida em três dezenas de línguas, somando mais de 12 milhões de exemplares de tiragem. Embora não seja usada em nenhuma Faculdade de Teologia credenciada, devido ao concordismo histórico-bíblico subjacente (subtítulo: "A verdade histórica da Bíblia demonstrada pela arqueologia"), continua a ser popular em grupos cristãos evangélicos, onde o sentido apologético é mais agudo. Marcou uma época, mesmo entre católicos.

Sobre a Encarnação do Verbo

A explicação do Natal varia de época para época. Há 1700 anos era claro que o Verbo de Deus tinha vindo à terra para acabar com o paganismo. Hoje as percepções são outras. Atanásio de Alexandria (296-373), conterrâneo de Hipátia (370-415), que agora é celebrada no cinema como vítima do cristianismo fanático, escreve sobre a Encarnação do Verbo:

Um rei, mesmo humano, não permite que suas cidades se entreguem a estranhos e se submetam a eles. Adverte os súbditos, envia-lhes mensageiros e, se necessário, vai em pessoa tentar comovê-los: unicamente para evitar que sirvam a senhor alheio e se inutilize a obra sua. Com mais razão, Deus não se apiedaria da criatura a fim de evitar que errasse longe de si e fosse servir a fantasmas inexistentes? Tanto mais que tal erro seria causa de ruína para o ser que um dia participou da imagem de Deus!

Que haveria pois de fazer o Senhor, senão renovar o que era nos homens a divina imagem, a fim de por ela chegarem ao seu conhecimento? Mas como se realizaria isto de outro modo que não pela presença da própria Imagem de Deus, nosso Salvador Jesus Cristo?

Sim, a coisa não seria realizável jamais por homens, pois também foram criados segundo a imagem; nem por anjos, que não são em si mesmos imagens. Veio, pois, o próprio Verbo de Deus, Imagem do Pai, a fim de recriar o homem segundo a divina imagem; e se esta obra não se podia fazer sem destruição, sem a corrupção da morte, convinha que ele assumisse um corpo mortal, para nele destruir a morte e renovar os homens segundo a divina imagem. Com vistas a tal obra nenhum outro se credenciava mais que a própria imagem do Pai .

Se aos poucos se apagou uma efígie impressa na madeira, pelo acumular da pátina exterior, pode acontecer que sua renovação só se torne possível, ali no mesmo material, pela presença do modelo… (…)

Um bom mestre interessa-se pelos alunos, procura descer, com ensinamentos mais simples, aos que não entendem as lições mais difíceis. Assim também faz o Verbo de Deus, conforme Paulo: "Já que o mundo, com a sua sabedoria, não chegou a conhecer a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem".

Como apareceu a "Noite Feliz" - inclui partitura


"Sol – Lá – Sol – Mi. A 24 de Dezembro de 1818, quando o professor de música Franz Gruber pegou na guitarra, as quatro primeiras notas saíram para musicar as palavras que o seu amigo, o jovem pastor Joseph Mohr, acabara de lhe trazer: Stille Nacht. Noite silenciosa, noite tranquila. Heil'ge Nacht! Noite santificada. Ambos estavam longe de imaginar que aqueles primeiros acordes e palavras dariam a volta ao mundo, tornando-se na mais conhecida e mágica melodia de Natal".

No Religionline, a história da mais célebre música de Natal, "Stille Nacht", que em português é conhecida por "Noite Feliz".

Rezar a Avé-Maria faz bem à saúde

Não é o padre que o diz. É o médico. Lido na Notícias Sábado (vem ao sábado com o DN e o JN), na página 12, num canto de página que passa quase despercebido:

Medicina. Respirar como quem reza faz bem à saúde

Rezar a Avé-Maria faz bem e muito para lá de todos os preceitos religiosas e de fé inerentes ao acto. A ciência médica descobriu que o ritmo respiratório a que a métrica da oração obriga - com menos inspirações e expirações por minuto - reduz a frequência cardíaca e baixa a pressão arterial. O cardiologista italiano Luciano Bernardi, que orientou o estudo na Universidade de Pavia, Itália, reforçou outros estudos sobre o efeito da respiração no controlo de várias doenças, da ansiedade à dor crónica ou á hipertensão.

21 de Dezembro de 1933. Morre o Padre Himalaya, grande inventor, pioneiro da ecologia em Portugal


Padre Manuel Himalaya

Manuel António Gomes nasceu em Santiago de Cendufe (Arcos de Valdevez), no dia 9 de Dezembro de 1868, e morreu em Viana do Castelo, no dia 21 de Dezembro de 1933, vítima mielite (bloqueamento dos impulsos nervosos), talvez por auto-envenenamento, uma vez que costumava experimentar em si próprio plantas medicinais. Era vegetariano.

No Seminário de Braga, acrescentou ao seu nome “Himalaya” – no início, uma alcunha posta por um colega devido à sua grande estatura.


Ao Padre Himalaya devem-se duas grandes invenções: o Pireliófero e a Himalayite.


O Pireliófero (“eu trago fogo do sol”) é um aparelho que concentra a energia solar até aos 3500 graus. Servia para fundir metais ou rochas. Na Exposição Universal de São Luís (EUA), o invento obteve duas medalhas de ouro e uma de prata. Com a febre actual pela energia solar, o que faria o Padre Himalaya?


A Himalayite é uma pólvora sem fumo, de baixo custo, resistente ao choque. Chegou a ser usada pelo exército norte-americano.


O Padre Himalaya concebeu ainda um plano para irrigar todo o país, inventou um novo tipo de farinha, e fez modificações em motores.


O sítio Naturlink, num longo artigo, apresenta-o como pioneiro da ecologia em Portugal. Ver aqui.


Pireliófero

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Concílio de Copenhaga, por José Diogo Quintela


Por vezes aponto aqui a aplicação de termos de origem religiosa a outros contextos e situações. A de hoje vem na revista Pública (do Público) de hoje. Já é habitual o uso da linguagem religiosa por José Diogo Quintela. Haverá quem não goste, mas do que tenho observado, o humorista faz um uso inteligente das referências religiosas. Não dá para escandalizar. E dá para rir. Eu acho.

Desinteresse pela religião associado à violência urbana

A França está por estes dias alerta para uma possível onda de violência nos subúrbios - como a de 2005. A crise e o debate sobre a identidade nacional são apontados como factores que criam instabilidade. Há no país, segundo o Observatoire National de Zones Urbaine Sensibles, 824 povoações e pequenas cidades que só vivem graças a fortes subvenções sociais.

Carros queimados é quase todos os dias. Quando, há semanas, a Argélia se apurou para o mundial, arderam mais umas dezenas. O apuramento foi vivido pelos magrebinos como uma festa nacional dentro de outra nação e mais mostrou a divisão que há na sociedade francesa.

Entre as causas para uma nova revolta está também esta: “Desinteresse pela religião. As hierarquias religiosas cristã, judaica e muçulmana tentam o diálogo entre si. Contudo, a juventude dos guetos tem nulo interesse pelas religiões e crenças”. Li no ABC (Espanha).

Bento Domingues: O Presépio, ao contrário do Pai Natal, é simples mas não é simplório

Bento Domingues, no "Público" de hoje, escreve sobre a "vitória publicitária do Pai Natal sobre o Presépio". Refere uma revista de filosofia dedicada a "A Bíblia dos Filósofos", em que os filósofos vivos e mortos se pronunciam sobre Jesus, os Evangelhos, as Cartas, etc. (já aqui apontada). E lê a mensagem do presépio: "Ali, nascia um menino judeu que não cabia no judaísmo nacionalista. O seu reino era o advento do humano universal. (...) A simplicidade do Presépio não é simplória como a do Pai Natal".

20 de Dezembro de 1838. Nasce o autor de “Flatland”


Edwin Abbott Abbott, professor de inglês e teólogo, escreveu a sátira matemática e alegoria religiosa “Flatland”, em 1884.

Abbott, inglês, nasceu no dia 20 de Dezembro de 1838 e morreu no dia 12 de Outubro de 1926.

A Obra “Flatland” está publicada em português com o título “Flatland. O país plano”, na Gradiva (1993). Está numa colecção de livros científicos e é habitualmente lida como uma exploração do mundo bidimensional e tridimensional (começa assim: “Chamo Flatland [País Plano] ao mundo em que vivo, não porque seja esse o seu nome, mas para vos tornar mais clara a sua natureza, felizes leitores, que tendes o privilégio de habitar o Espaço. Imaginai uma imensa folha de papel sobre a qual...”).

Porém, é também uma sátira social e religiosa. Quando uma Esfera entra no mundo bidimensional (primeiro um ponto, depois círculos sucessivamente maiores, e depois círculos menores até desaparecer), O Quadrado e só o Quadrado se apercebe disso. E defende, ensinado pela Esfera (que no mundo bidimensional é apenas Círculo) que há um mundo tridimensional. E por causa disso é preso. Onde é que já lemos histórias parecidas?


sábado, 19 de dezembro de 2009

João Carlos Espada e a liberdade na I República

No I de hoje, um artigo de João Carlos Espada sobre os conceitos de liberdade, a I República e a Igreja, a propósito de um livro sobre D. António Barroso, Bispo do Porto nos primeiros anos da República. Cito o título, a entrada e o primeiro parágrafo.


Liberdade ou conformidade? O caso de D. António Barroso


Por que razão a Primeira República perseguiu a Igreja Católica em nome da liberdade? Porque a Igreja se opunha à liberdade? Ou porque os republicanos usavam a palavra "liberdade" para designar uma coisa muito diferente da liberdade propriamente dita?

Há um livro recente que tem um título curioso e que vale a pena ler. Chama-se "Réu da República: o Missionário D. António Barroso, Bispo do Porto" (Aletheia, 2009). Os autores, Carlos Azevedo e Amadeu Araújo, contam a história de um homem - D. António Barroso - e da época em que ele viveu, entre 1854 e 1918. Na história desse homem e dessa época estão contidos alguns dos grandes equívocos que em Portugal - bem como na generalidade das culturas europeias continentais - foram associados ao conceito de liberdade. Foi em nome desses equívocos que se cometeram, e por vezes ainda cometem, gravíssimos atentados contra a liberdade.

Ler mais.

Orígenes condenado – um erro da Igreja?

De Anastácio I ao II Concílio de Constantinopla (ano 553; texto dos anátemas, em inglês, aqui), vai um arco de condenação de Orígenes.

O platonismo do teólogo de Alexandria (um contemporâneo do neoplatónico Plotino, embora, provavelmente, nunca se tenham encontrado) e a consequente teoria da preexistência das almas foram repudiados pela Igreja. E, como quase sempre, com alguma parte do pensamento, deita-se fora o pensamento todo. Na realidade, o pensamento de Orígenes, principalmente o que diz respeito à interpretação das Escrituras, continuou na Igreja, mas por outras vias.

Hans Kung coloca Orígenes entre os seis maiores teólogos do cristianismo (juntamente com Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, Friedrich Schleiermacher e Karl Barth) no livro “Os grandes pensadores do cristianismo”.

E cita Hans Urs von Balthasar, que afirma: “Se se retirar a Eusébio [o historiador, de Cesareia], o brilho de Orígenes, ficaremos apenas com um teólogo mediano e um historiador aplicado. Jerónimo limita-se a transcrevê-lo nos seus comentários da Escritura, mesmo depois de, com uma aparente dureza e revolta, ter rompido a ligação com o seu mestre. Basílio e Gregório de Nazianzo recolhem com uma admiração entusiástica as passagens mais sedutoras da obra imensa daquele a quem eles próprios recorriam sempre que a luta quotidiana lhes permitia um momento de descanso. Gregório de Nissa deixou-se seduzir por ele mais profundamente ainda. Os escritores capadócios transmitem-no quase integralmente. A maior parte dos textos do Breviário, compostos por Ambrósio (assim como os de Jerónimo e de Beda), que o conheceu directamente e que o transcreve, não passam de citações praticamente literais de textos de Orígenes” (H.U.v. Balthasar, Origenes, Geist und Feuer. Ein Aufbau aus seinen Schriften. Salzburg, 1938, p. 11, citado na pág. 46 de Os grandes pensadores do cristanismo, de Hans Kung, Ed. Presença).

19 de Dezembro de 401. Morre o Papa Anastácio I

Anastácio I foi Papa de 27 de Novembro de 399 a 18 de Dezembro de 401. Era amigo de Agostinho e Jerónimo. Mas os factos que marcaram este papado foram a condenação das obras de Orígenes (por influência de Jerónimo?), nessa altura acabadas de traduzir para latim, a luta contra o donatismo (por influência de Agostinho?), que emergia no Norte de África, e uma ordem simples que ainda hoje se pratica: que as pessoas estejam de pé enquanto se proclama o Evangelho.

Anselmo Borges: "A subversão da religião"

A propósito do Natal, "no meio da vertigem das compras e das prendas", Anselmo Borges lembra no DN o essencial da acção e do pensamento de Jesus (tenha-se em conta que em ninguém como Jesus a acção o e pensamento estiveram tão unidos).


Qual foi o núcleo da sua mensagem? A sua revolução consistiu em primeiro lugar numa nova ideia de Deus. Deus não é o Deus longínquo e tenebroso, que quer adoração e submissão, que exclui, que explora e humilha os seres humanos. Pelo contrário, Jesus fez a experiência de Deus como Abbá, paizinho. Embora as crianças se dirigissem com esta palavra ao pai, em Jesus, não se trata, com esta invocação, nem de infantilismo nem de machismo, pois este Deus-Pai tem traços de Mãe.

A partir desta experiência radical, deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade. Como mostrou recentemente o teólogo José M. Castillo, o centro do interesse de Jesus não foi a religião, mas a saúde, a comida, as relações humanas boas, a liberdade, o bem-estar e a felicidade das pessoas. Com Jesus, revelou-se a humanidade de Deus e que o caminho para Deus é a humanidade. O Deus de Jesus encontra-se, antes de mais, no secular, não no religioso. "O 'sagrado', o 'religioso' e o 'espiritual' são autênticos, aceitáveis e meios para encontrar Deus, na medida, e só na medida, em que nos humanizarem, nos tornarem mais profundamente humanos". Para Jesus, o "sagrado" indubitável neste mundo é o ser humano.


O texto todo está aqui.

O Papa precisa de psicólogo – filme de Moretti


“Habemus Papam” estreia em 2010. É o novo filme de Nanni Moretti (em cima, um dos artistas que recentemente esteve no encontro com Bento XVI). Após a eleição, o Papa fica indeciso e não sabe o que fazer. Chama então um psicanalista ao Vaticano (Moretti). As sinopses que já andam na rede dizem que o filme (está a entrar em produção) tanto tende para a comédia como para o drama. O papel do Papa é desempenhado pelo francês Michel Piccoli (em baixo).


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Deus e o meu quintal

Para terminar esta sequência de três anedotas teológicas, Deus e o nosso conceito de omnipresença.

Na catequese, o João pergunta à catequista:
- Sr.ª catequista, é verdade que Deus está em todo lado?
- É, Joãozinho. Deus está em todo o lado.
- Então também está no meu quintal?
- Sim, Joãozinho. Também está no teu quintal…
- Mentira! Eu não tenho quintal. Vivo no quinto esquerdo!

Deus, o tempo e o dinheiro

Novamente os conceitos humanos aplicados a Deus. Agora, o tempo.

Um homem reza a Deus:
- Senhor, gostaria de te fazer uma pergunta.
Deus responde:
- Não há problema. Podes perguntar o que quiseres.
- Senhor, é verdade que para ti um milhão de anos é apenas um segundo?
- Sim, é verdade. Até vem nos Salmos. Mil anos são como o dia de ontem que passou.
- Bem, nesse caso também podemos dizer que um milhão de euros, para ti, são uns meros trocos, não é?
- Sim, um milhão de euros não passa de um cêntimo.
- Então, nesse caso, Senhor, podes dar-me um cêntimo?
- Claro - responde Deus -, espera um segundo.

A vontade de Deus e o preço das rendas

Os conceitos humanos aplicados a Deus originam equívocos. Por vezes cómicos. Mas também já os houve trágicos, como quando se julga que Deus precisa de defesa e, atacando o erro, se ataca também quem o comete. As inquisições são sempre isso.

Fiquemos pelo cómico. Consolmagno conta esta história (pág. 87 de "A mecânica de Deus"), que joga com a vontade de Deus e o modo de a perscrutar e é sinal para não considerarmos a nossa religião como a via perfeita para Deus (é nesse contexto que o jesuíta conta a anedota):

"Numa pequena povoação do Michigan, onde vivi em tempos, um recém-chegado tentou negociar a renda de uma loja com um residente de longa data que tinha precisamente este tipo de mentalidade religiosa. Quando o primeiro perguntou ao devo senhoria quanto queria este pelo arrendamento, ele respondeu:
- Terei de perguntar ao Senhor; volte amanhã.
No dia seguinte, o senhorio disse ao seu potencial arrendatário:
- Ontem à noite, o Senhor disse-me para cobrar 500 dólares por mês.
O interessado não se sobressaltou.
- É curioso - disse ele. Eu também falei com o Senhor na noite passada. E ele disse-me que eu não deveria pagar mais de 250 dólares".

"Estou a construir uma catedral"

A história já foi contada de muitas maneiras. Também João César das Neves a conta no livro “Ética empresarial”. Lembrei-me dela ao dar com esta magnífica “Santa Bárbara”, de Van Eyck (mas suponho que a catedral da imagem não seja a de Chartres).

Um dia, o rei Luís IX, S. Luís de França, visitou as obras da catedral de Chartres, em reconstrução depois do seu incêndio em 1194, causado por um raio. O rei, passeando pela construção, ia perguntando a cada um o que estava a fazer. As respostas foram várias.

Um carpinteiro afirmou-lhe que estava a fazer um dos bancos da nave central; um pedreiro lamentou-se que estava a trabalhar para ganhar a vida e dar de comer aos filhos; um escultor, apontando para um capitel, a que dava os últimos retoques, explicou que estava a seguir as novas regras da arte gótica, criando uma linha decorativa revolucionária.

Depois de perguntar a muita gente e de ter recebido respostas variadas, o rei encontrou, num canto escuro, um velhinho curvado que varria aparas de madeira. Quando o rei lhe perguntou o que estava a fazer, o velho respondeu: "Estou a construir uma catedral".

D. Carlos Azevedo: Às voltas com o Planeta

D. Carlos Azevedo, na sua coluna do Correio da Manhã, escreve sobre crise ecológica e crise moral, invocando a Cimeira de Copenhaga, a mais recente encíclica de Bento XVI ("A Caridade na Verdade") e a mensagem do mesmo Papa para o dia 1 de Janeiro de 2010, "Se queres cultivar a paz, preserva a criação".

O texto foi retirado daqui.

Passou o tempo de pagar a quem ridicularizasse as ‘questões verdes’. Já não há lugar para desvalorizar a consciência ecológica, que implica a responsabilidade de todos, como "problema social de grande envergadura". Assim o revelou a Cimeira de Copenhaga, na Dinamarca, que termina hoje com a presença de delegados de 192 países. Só a quantidade de países, quase totalidade do mundo, é por si extremamente significativa da gravidade do problema ecológico.

É fundamental uma palavra credenciada para orientar a reflexão, dado que sobre o tema do clima e da salvaguarda da criação há muita confusão, diversidade de visões, de análises e até de explicações científicas. A ciência parece vendida a quem lhe encomenda o estudo ou o parecer! Realmente, qual a evolução, qual a gravidade, qual o peso das intervenções humanas na evolução do Planeta? Bento XVI dedica a sua mensagem para o dia 1 de Janeiro de 2010, Dia Mundial da Paz, ao tema ‘Se queres cultivar a paz, preserva a criação’.

Ora, é impossível ignorar a preocupação não alarmista, mas fidedigna, que o desleixo ou mesmo o abuso em relação à terra e aos bens naturais está a causar. "Seria irresponsável não tomar em séria consideração" o apelo a uma nova solidariedade que atinja uma renovação cultural profunda. Na linha do que Bento XVI afirmou na ‘Caritas in Veritate’, a crise ecológica só pode ser avaliada por uma "revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir disfunções e deturpações".

Dado que o ‘estado da saúde ecológica’ se inter-relaciona com as outras crises, como a crise moral, impõe-se um modo de viver "marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso". É este discernimento que os governantes do mundo têm imperiosamente o dever de operar de modo responsável pelo futuro das novas gerações. O ser humano não é um igual entre os seres vivos. Somos guardiães da criação e não podemos cruzar os braços. "Quando cuidamos da criação, verificamos que Deus, através da criação, cuida de nós." Atravessa a mensagem papal um vivo apelo à responsabilidade ecológica de todos os cidadãos. A degradação ambiental questiona comportamentos e estilos de vida, modelos de consumo e de produção. Só uma "real mudança de mentalidade" salvará o Planeta. Divulguem-se modelos positivos que inspirem a educação para a responsabilidade ecológica.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

18 de Dezembro de 1870. Termina o primeiro Concílio do Vaticano

Bênção de Pio IX, no dia 25 de Abril de 1870

Convocado por Pio IX (Papa de 1846 a 1878) o I Concílio do Vaticano começou no dia 8 de Dezembro de 1869 e terminou no dia 18 de Dezembro de 1870.

Deste concílio sobressaem dois documentos: as constituições dogmáticas “Dei Filius” (“O Filho de Deus”, sobre a revelação – no II Concílio do Vaticano seria aprofundada pela “dei Verbum”) e “Pastor Aeternus”, que afirma a infalibilidade do Papa quando se pronuncia ex-cathedra em assuntos de fé e de moral.

Como é frequente, após um concílio, há quem não aceite as novas disposições (após o II CV surgiram os lefebvrianos). Neste caso, surgiram os Velho Católicos ou Vetero-Católicos, também conhecidos por União de Utreque (os bispos holandeses não participaram no Concílio). Existem no centro da Europa, Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça, e também nos EUA e no Brasil. Têm um sítio aqui.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Baptistas-Bastos e a imagem de igreja quando fala de D. Manuel Clemente

Baptista Bastos escreveu no DN sobre a atribuição do Prémio Pessoa a D. Manuel Clemente (obrigado, Fernando Correia de Oliveira, pela sugestão). Diz isto, por exemplo:

"De certo modo, o galardoado, pela sua activa e heterodoxa curiosidade intelectual, contraria a cultura de repressão, o arbítrio da verdade única, a cumplicidade com os poderosos de que a Igreja é funesto exemplo. Sem deixar de ser um "deles". A questão reside, quanto a mim, nessa contradição fundamental. De que modo D. Manuel Clemente objecta contra as regras e contraria os postulados da hierarquia, pesada e retrógrada, de que, afinal, faz parte?"

E eu comento. Não faço parte da hierarquia, mas faço parte da grande maioria que convive com e aceita a hierarquia que D. Manuel Clemente integra. E não sei de que é que o cronista fala quando refere a “cultura de repressão, o arbítrio da verdade única, a cumplicidade com os poderosos”. De que Igreja está a falar? Da Católica, nos quarenta nãos que levo de vida, não, certamente.

A Igreja possibilita, felizmente, muitos homens como D. Manuel Clemente. Incentiva-os, até. Nem todos os bispos têm a craveira intelectual do D. Manuel Clemente, mas todos os bispos portugueses que conheço (cerca de metade - um conhecimento que naturalmente não é profundo) conversariam de bom grado com Baptista Bastos ou Saramago. Se eu fosse bispo, talvez até pensasse como Berlusconi: porque odeiam tanto a Igreja? Mas teria a certeza, como tenho, de que a Igreja procura genuinamente servir bem a sociedade. Ou a humanidade. Mesmo que uma ou outra vez se equivoque. De Berlusconi não falo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...