domingo, 31 de janeiro de 2010

31 de Janeiro de 1686. Nasce o missionário luterano Hans Egede

Estátua de Hans Egede em Nuuk, Gronelândia

No dia 31 de Janeiro de 1888 morreu João Bosco, grande educador italiano, fundador dos salesianos. Mas gostaria de lembrar hoje Hans Poulsen Egede, que nasceu num 31 de Janeiro, mas em 1686 (e morreria no dia 5 de Novembro de 1758).

Luterano norueguês, Hans Poulsen Egede evangelizou a Gronelândia. É tido precisamente como “o Apóstolo da Gronelândia”, por ter levado o cristianismo ao povo inuit. Fundou a capital (Godthab em dinamarquês e Nuuk na língua dos inuit) e fez com que a Noruega e a Dinamarca voltassem a interessar-se pelo território, que hoje é uma região autónoma da Dinamarca.

Bento Domingues: "Suma Teológica de folhas substituíveis""


Bento Domingues escreve sobre Tomás de Aquino e sobre como hoje ser tomista deveria implicar ser criativo na procura de sínteses e na investigação racional e teológica, por um lado, e ser humilde ao falar de Deus, por outro.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Café

No dia da eleição do Papa a quem, de certa forma, devemos o café na Europa, uma frase célebre:


“O café deve estar quente como o inferno, ser negro como o diabo, puro como um anjo e doce como o amor”.

Charles Maurice de Talleyrand-Périgord (1754 – 1838), diplomata francês

Anselmo Borges: "A humanidade sob ameaça"

Anselmo Borges escreve sobre quatro ameaças (revoluções: a económica, a cibernética, a genética e a ecológica) e deixa um dado, pontual mas significativo, lá mais para o fim do texto, sobre a evolução da percepção do valor da vida humana pelos estudantes universitários. Mais uma vez, fica a ideia de que sem Deus o humanismo não vai longe. Fonte: DN.


Não há dúvida de que estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo, uma revolução talvez só parecida com a do "tempo-eixo", como lhe chamou Karl Jaspers.

Há quatro revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a mundialização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma "pequena aldeia" e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes. Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um "sexto continente". A revolução genética transforma a nossa relação com a vida, a procriação e pode fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Sem esquecer o perigo atómico e do terrorismo global.

Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não sei de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma "modernidade mestiça", mas, para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. Há anos que o famoso teólogo Hans Küng se não cansa de repetir que, sem paz entre as religiões, não haverá paz entre as nações, e essa paz supõe o conhecimento e o diálogo entre as religiões.

Coube também a Hans Küng o desafio para preparar o projecto do que em 1993 se tornou a "Declaração para uma ética mundial", aprovada pelo Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago. A Declaração é um documento humanista, que proclama programaticamente: "Frente a toda a inumanidade, as nossas convicções religiosas e éticas exigem que cada ser humano deve ser tratado humanamente. Isto significa que cada ser humano - sem distinção de idade, sexo, raça, cor da pele, capacidades físicas ou espirituais, língua ou religião, consideração política, origem nacional ou social - possui uma dignidade inalienável e inviolável. Todos - tanto o indivíduo como o Estado - têm de respeitar esta dignidade e garantir a sua defesa efectiva". Os direitos e os deveres humanos é aqui que assentam.

Este princípio fundamental de humanidade determina-se mais proximamente pela regra de ouro - o princípio da reciprocidade --, que constitui o segundo princípio de uma ética comum à Humanidade: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" ou, formulado positivamente: "Faz aos outros o que queres que te façam a ti."

Mas onde se fundamentam a dignidade e os direitos humanos? Questão gigantesca, que tem a ver com a problemática do pré-jurídico e do pré-político, debatida há anos, num diálogo célebre entre o então cardeal J. Ratzinger e o filósofo J. Habermas, e a que se referiu também, pouco antes de morrer, L. Kolakovski: "Sem tradições religiosas, que razão haveria para respeitar os direitos humanos? Vendo as coisas cientificamente, o que é a dignidade humana? Superstição? Do ponto de vista empírico, os homens são desiguais. Como justificar a igualdade? Os direitos humanos são uma ideia a-científica."

Numa universidade portuguesa, o professor de Ética confronta há anos os estudantes com um experimento mental: "Suponhamos que um país vai invadir outro - nessa hipótese, vai haver, evidentemente, muitos mortos. Mas o país invasor suspende a invasão, se o Governo do país a ser invadido estiver na disposição de matar um inocente." Há quatro anos, todos os estudantes se revoltaram contra a perspectiva da morte do inocente. Há dois anos, já dois estudantes se pronunciaram a favor. No ano lectivo em curso, em 16 estudantes, só uma jovem se opôs ao assassinato do inocente. Os outros foram argumentando que, aceitando a invasão, muitos morreriam, eventualmente também o inocente. Portanto...

A conclusão é que o próprio Homem se tornou objecto de cálculo, coisa negociável. Assim, já não pode haver dúvidas: no meio das gigantescas crises mundiais, o núcleo mesmo da crise no nosso tempo é a crise de valores, a crise moral.

30 de Janeiro de 1592. Eleição do Papa do café

Clemente VIII. Túmulo na Basílica de Santa Maria Maior, Roma

Clemente VIII (Ippolito Aldobrandini, 1536-1605) foi eleito Papa no dia 30 de Janeiro de 1592. O pontificado deste Papa, aluno de Filipe Neri (“um santo triste é um triste santo”) e dos oratorianos, ficou marcado pela paz entre França e Espanha e pela condenação do Giordano Bruno (17 de Fevereiro de 1600). Além disso, diz-se que deu um impulso determinante para a introdução do café na Europa.

Bebida dos muçulmanos, num tempo em que o inimigo da Europa eram os chamados “infiéis”, o café entrou por Veneza, vindo da Turquia, e só se propagou depois da aprovação de Clemente VIII. Diz-se que o Papa encontrou logo uma vantagem na bebida: permitia-lhe ficar a rezar até mais tarde, sem sono. E que terá dito: “É tão deliciosa que seria uma pena deixá-la para uso exclusivo dos infiéis. Vamos baptizá-la”.

Quando hoje tomar um cafezinho, lembre-se de Clemente VIII.

D. Carlos Azevedo: "República porquê?"


D. Carlos Azevedo escreve ("Correio da Manhã" de 29 de Janeiro) sobre as comemorações do centenário da República.

Inicia dia 31 de Janeiro a comemoração dos 100 anos da República. Como surge o novo regime? Porquê? A implantação do regime republicano resultou de uma vanguarda sócio-ideológica muito compósita e teve a preciosa colaboração de um regime monárquico esgotado.

De facto, na conjuntura das últimas décadas de oitocentos vemos os factores que conduziram ao declínio da monarquia: uma economia profundamente desajustada ao processo de industrialização europeu, fortemente marcada por actividades comerciais; uma pesada dívida externa; uma debilitada presença ultramarina, colonial e imperial; uma crescente instabilidade devido a tensões urbanas; a militância por novos valores e nova sociedade.

O confronto ideológico não apareceu repentinamente. Provinha do liberalismo. Foi-se radicalizando. Começa por apelar à cidadania, passa pelo sistema democrático, chega à agitação revolucionária.

Os olhares críticos lançavam compreensões da realidade seja decadentistas, motivadas pelo crónico atraso nacional, seja saudosistas, justificando perspectivas de restauração nacional ou de regeneração. O poder político arrastava o País para a decadência.

Na base das aspirações republicanas havia correntes de cientismo, positivismo e espiritualismo. Os diversos movimentos sociais e as diferentes soluções correspondiam a distintas percepções.

É no final da década de 70 que o republicanismo se autonomiza, deixa em segundo plano o movimento social operário e opta pela propaganda e agitação política, actuando entre a conquista do poder pelo processo eleitoral e a conspiração militar. A instauração da República correspondia à valorização de um paradigma assente na realidade regeneradora, protagonizada pelos sectores sociais urbanos em ascensão.

A agitação de grupos e a crescente propaganda era ambiente para a revolta do Porto a 31 de Janeiro de 1891, considerada geralmente como primeira tentativa de revolução republicana.

As fragilidades internas, o desgaste do sistema rotativo e a crise da autoridade conduziram à ditadura, fora do controlo parlamentar. A alternativa de sucessivos governos, com base demasiado fragmentada, cria a decomposição da autoridade política. Neste contexto aconteceu o regicídio (Fevereiro de 1908) e as forças republicanas conquistavam espaço e organizavam a revolta de 5 de Outubro de 1910.

Veremos, a seguir, como entrou a Igreja na mira da revolução.


D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Fonte: CM


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

29 de Janeiro de 904. Sérgio III é Papa

Sérgio III foi Papa de 904 a 911, numa época em que o papado foi um instrumento nas mãos de famílias romanas.

Neste tempo obscuro, também por haver poucas fontes, confirmou uma série de novas sés na Inglaterra (onde a cultura estava mais florescente do que na Europa continental) e restaurou a Basílica de São João de Latrão.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Deus e a ciência, mas também a ecologia e Lévinas

O número de Janeiro-Fevereiro do “Le Monde des Religions” (n.º 39) não é interessante apenas pelo grande tema de capa, dossiê, “Deus e a Ciência”, brilhantemente desenvolvido pelo editorial de Frédéric Lenoir (com críticas quer para o “delírio criacionista” quer para Richard Dawkins e a sua tentativa de provar cientificamente a não-existência de Deus) e por, entre outros textos, um debate entre Jean Staune (que diz que “o mundo não é ontologicamente suficiente”) e André Comte-Sponville (que diz que “passar dos problemas científicos para um discurso religioso sobre a transcendência” é uma “escroquerie intellectuelle”).

Interessa também pelo ensaio sobre “ecologia e religiões” e pelas “três chaves para compreender Emmanuel Lévinas”. E as três chaves são: o rosto, o amor e a morte.

Bento Domingues referiu-se a esta publicação na sua última crónica e inspira-se grandemente no editorial de Frédéric Lenoir.

28 de Janeiro de 1547. Morre Henrique VIII

Henrique VIII (nasceu no dia 28 de Junho de 1491 e foi rei a partir de 21 de Abril de 1509), o rei que para poder casar novamente revolver criar uma Igreja em que ele (e os seus sucessores) é que mandam, morreu no dia 28 de Janeiro de 1547.

O feriado de São Tomás

"A Apoteose de São Tomás", de Francisco Zurbarán, 1631

Hoje é dia de S. Tomás de Aquino. Não sei por que razão escolheram o dia de hoje, porque o filósofo dominicano (1225-1275) morreu a 7 de Março.

Mas neste dia lembro-me sempre que tive um professor de filosofia, padre italiano, que nunca dava aulas no dia 28 de Janeiro. Desconfio que também não daria se houvesse um dia de Aristóteles e ainda, talvez, no dia de Santo Agostinho. Mas no dia desde último, 28 de Agosto, não há aulas.

Aristóteles, Tomás e Agostinho, a trindade do P.e Signioretti.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Karl Barth sonhou que examinava Mozart


Mais um excerto sobre Mozart, agora na companhia do teólogo suíço, da Igreja Reformada, Karl Barth.

"Karl Barth, talvez a mais importante cabeça teológica deste século [XX], tinha o costume de todas as manhãs, antes de sentar-se a escrever as páginas da sua Dogmática, interpretar ao piano algumas das sonatas de Mozart, como se esperasse que a música do salzburguês lhe revelasse essa «sabedoria central» que Barth considerava superior a todas as teologias, e que o levava a pensar que ele, ao fim e ao cabo, se salvaria mais pelo que guardasse do Mozart menino do que pelos conhecimentos que conseguisse armazenar em sua vida.

Um dia Barth teve um sonho: estava designado para fazer a Mozart um exame de teologia, e como admirava profundamente, para ele poder fazer um exame brilhante, interrogou-o sobre a teologia das suas missas. Mas Mozart, o interrogado, continuava totalmente silencioso, sabendo muito bem que não podia traduzir em palavras o que ele quisera exprimir através da música. Trauteava por isso o «Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo», como se quisesse dizer que ali se resumir toda a sua teologia”.
José Luís Martín Descalzo, "Razões para o Amor" (Ed. Missões, Cucujães), pág. 101

Mozart: A fantasia contra a mecânica

Guy Consolmagno (“A Mecânica de Deus”, pág. 228):

“Neste livro, citei Bach, um Luterano alemão, como uma exemplo de alguém cuja música simula o estilo criativo de Deus como nenhuma outra, produzindo uma beleza complexa a partir da interacção de temas simples. Eu adoro-a. Mas também poderá ser um pouco, não sei bem, mecânica ou desprovida de alma, em comparação, por exemplo, a Mozart ou Beethoven, estes últimos sendo produtos da cultura germânica Católica”.

Mozart, Barth, Balthasar e Ratzinger

Bento XVI toca Mozart. Foto de Julho de 2006

Há dias, a propósito da semana da oração pela unidade dos cristãos, o padre Tolentino Mendonça escrevia (a semana ecuménica acaba a 25 de Janeiro; 27 é dia de Mozart):

"No significativo património ecuménico que o século XX construiu, destacam-se, como pilares, histórias assim. Recordo aquela vivida por dois nobilíssimos teólogos: Hans Urs von Balthasar, católico, e Karl Barth, da Igreja Reformada. Conheceram-se em Basileia, nos anos 40, e certamente conversaram muito sobre as suas visões teológicas, sobre os grandes mestres da tradição cristã que revisitavam, sobre conceitos, distinções e distâncias. Conheceram-se a esse nível tão a fundo, que Balthasar escreveu uma introdução ao pensamento de Barth, hoje unanimemente considerada na bibliografia crítica daquele autor. Mas talvez essa sintonia não fosse possível, se a uni-los não estivesse também uma arrebatada paixão pela música de Mozart, que escutavam juntos naqueles anos tão carregados de incerteza, vendo (ou melhor, ouvindo) nela um sinal palpável da Redenção.

(...) Semana de Oração pela unidade dos cristãos! Vamos juntos ouvir Mozart?"

Texto todo aqui.

27 de Janeiro de 1756. Nasce Mozart

Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart (nome de baptismo) nasceu no dia 27 de Janeiro de 1756. Génio absoluto da música. Está sempre nos três primeiros de sempre. Só Bach e Beethoven ombreiam com ele.

E tem a preferência de três grandes teólogos do séc. XX. Karl Barth, Hans Urs von Balthasar e Joseph Raztinger, que no séc. XXI é Papa.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Harvard tem uma capelania para os ateus

Greg Epstein

A Universidade de Harvard, nos EUA, tem 40 capelães, representantes de 25 “tradições mundiais”. Há o capelão católico, o baptista, vários judeus, o adventista e até o do zoroastrismo, entre muitos outros. Mas há também o capelão humanista. Mais concretamente, Greg Esptein, autor do livro “Being good without God”, que explica que humanismo é acreditar na vida cheia de significado, apenas graças à força da razão e da compaixão, sem uma ajuda sobrenatural. E quando lhe perguntam se os humanistas rezam, ele responde que os humanistas cantam. Há textos ligados à capelania humanista que defendem que devem ter rituais, o que não deixa de ser curioso.

A capelania dos humanistas acolhe “humanistas, ateus, agnósticos e não-religiosos”, diz o capelão. Greg Epstein, uma estrela entre os humanistas, estudou na… Harvard Divinity School. Refere-se várias vezes à compaixão humanista.

Até onde pode ir uma compaixão alicerçada neste humanismo que exclui Deus? Bento XVI diz que não vai longe.

Ah, a página Internet dos Humanistas é muito mais bonita e funcional do que a dos Católicos, que logo na abertura pedem dinheiro. Os humanistas têm como símbolo uma chama. Se eu não soubesse, pensava que eram carismáticos católicos ou então pentecostais.

Bíblia de Santo Estêvão Harding

Já que se fala da fundação de Cister, veja-se esta página da "Bíblia de Santo Estêvão Harding”. Tamanho original: 44x32 cm. A Bíblia pertence à Biblioteca de Dijon. Início do Evangelho segundo São Mateus. Clique para ampliar.

26 de Janeiro de 1108. Morre Alberico de Cister

Biblioteca da Abadia de Cister (Cîteaux)

Alberico foi um dos fundadores da Ordem de Cister, com Roberto de Molesmes (primeiro abade da nova ordem) e Estêvão Harding (terceiro abade), no dia 28 de Março de 1098.

A nova ordem, fundada em Cister, perto de Dijon, viria a ter muita influência no Portugal medieval (a região do Oeste, à volta de Alcobaça, é também referida por região de Cister). Alberico foi o seu segundo abade (Roberto regressa ao convento beneditino de Molesmes), morrendo no dia 26 de Janeiro de 1108. Durante o seu abadado, Alberico mandou que se revisse a Bíblia latina (em ordem à reforma litúrgica), mesmo consultando rabinos. O trabalho foi continuado por Estêvão e ficou conhecido por “Bíblia de Santo Estêvão Harding”, a melhor edição da época.

Ciência, Homem e Deus

Anatole France no seu ambiente de trabalho

Não se despreza a ciência sem desprezar a razão; não se despreza a razão sem desprezar o homem; não se despreza o homem sem desprezar Deus.

Anatole France (1844-1924)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A janela de João XXIII


O Papa João XXIII a abrir uma janela perante os cardeais, para entrar ar fresco, ao dizer que tenciona convocar um concílio, pode muito bem ser ficção. Mas a certa altura afirmou: "Abri as janelas para que os ventos da História soprassem a poeira do Trono de Pedro".

Como estais luz sem luz, vida sem vida

Como estais luz sem luz, vida sem vida,
Sol sem curso, com sede fonte pura,
Imagem do pai eterno, sem figura
Do mesmo pai, palavra emudecida!

Vara santa de Arão, já não florida,
Belo espelho de ceo, sem fermosura,
Doce favo de Sansão, entre amargura,
Torre de David forte, enfraquecida!

Mas sem vida dais vida, luz sem luz,
Vossa sede farta ao mundo, e a imagem,
Que tentes, me faz ver onde vos pus.

Calado ensinais, imovel moveis
Mais duros corações que a dura lagem,
Morto, espelho mais belo pareceis.

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), frade do Convento da Arrábida (na imagem)


Meditação breve: Bento XVI, Cura d'Ars e Heraclito

Natureza

O Papa diz que para os cristãos a “natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade”. Para Heráclito, lembra Bento XVI, a natureza é “um monte de lixo espalhado ao acaso” (n.º 48 da Caritas in Veritate).

O Cura d’Ars (1786-1859) partilharia mais a concepção de natureza de Bento XVI do que a o filósofo grego. Mas isso não o impede de afirmar: “Quando Deus quei dar uma comida à nossa alma para a sustentar na peregrinação da vida, Ele passeou sos eus olhos pela Criação e não encontrou nada que fosse digno dela. Então dobrou-se sobre si mesmo e decidiu dar-se a si próprio”.

25 de Janeiro de 1959. João XXIII anuncia a convocação de um concílio

Missa de abertura do Concílio, no dia 11 de Outubro de 1962

No dia 25 de Janeiro de 1959, com muita surpresa para o mundo e para os cardeais com quem falava, João XXIII anuncia que tenciona convocar um concílio. Seria o segundo do Vaticano, de 1962 a 1965.

O concílio devia provocar um "aggiornamento", na expressão que o próprio Papa popularizou. Isto é, uma adaptação da Igreja aos novos tempos.

João XXIII viu apenas a conclusão da primeira etapa conciliar, entre 11 de Outubro e 8 de Dezembro de 1962. Morreu no dia 3 de Junho de 1963, sem ver nenhum documento aprovado. Paulo VI convocaria a segunda sessão para 29 de Setembro seguinte.

Diz a lenda que para explicar a necessidade de um concílio, João XXIII abriu uma das janelas do Vaticano e entrou uma brisa que levantou alguns papéis. O vento, na tradição cristã, é sinal do Espírito Santo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Deus ajuda os cientistas

Para a ciência e os cientistas, pelo menos de um ponto de vista histórico, não é indiferente acreditar (ou não) em Deus.

Bento Domingues, no artigo abaixo digitalizado, remetendo para Charles Townes, que é referido no mais recente número da “Le Monde des Religions”, afirma que “sem acreditar que há uma ordem no universo e que o espírito humano – o do próprio investigador – é capaz de compreender essa ordem, o cientista não investigaria”.

Num outro livro que ando a ler mais intermitentemente do que desejo, e que já aqui várias vezes citei, afirma-se: “(…) De facto, tem sido argumentado que não é coincidência encontrar a ciência pura, isto é, o estudo da Natureza sem um objectivo específico (e não somente para podermos fazer horóscopos ou obtermos melhores colheitas agrícolas) apenas em culturas que aceitam a história do Génesis relativa a um Deus Criador: no Judaísmo, no Cristianismo e no Islão. Poderemos encontrar excelentes éticas, filosofias e matemáticas provenientes das antigas culturas chinesa, japonesa e indiana, mas não encontramos ciência pura” (Guy Consolmagno, pág. 185 de “A Mecânica de Deus”).

24 de Janeiro de 1439. O Papa Eugénio IV recebe o patriarca de Constantinopla

Poderia ter sido um dos grandes encontros da história se as consequências fossem outras. No dia 24 de Janeiro de 1439, Eugénio IV recebe o José, patriarca de Constantinopla, em Florença, numa das sessões do Consílio de Basileia / Ferrara / Florença. O concílio fora convocado precisamente para tratar da união das Igrejas do Ocidente e do Oriente.

O Papa descreve assim o encontro:

Eu, Eugénio, bispo, servo dos servos de Deus, para que fique registado. É-nos concedido prestar graças ao Deus Todo-Poderoso.... Vejam-nos os povos do ocidente e do oriente, que estiveram separados por tanto tempo, apressem-se a entrar num pacto de harmonia e unidade; e aqueles que sofreram justamente durante a longa discordância que os manteve separados, enfim, depois de muitos séculos, sob o impulso Dele, de quem provém toda a boa dádiva, encontram-se pessoalmente nesse lugar, impulsionados pelo desejo de Santa União.

Contudo, o encontro não tem grandes consequências. Contra o conciliarismo, os poderes papais saem reforçados do concílio que teve sessões em três lugares. Os ortodoxos não gostam. E passados uns anos, em 1453, Constantinopla cai na mão dos otomanos perante a indiferença generalizada do ocidente. A união, apesar de papalmente decretada, continua adiada.

Bento Domingues escreve sobre o diálogo fé/ciência

sábado, 23 de janeiro de 2010

A metamorfose é a nova revolução

Mera coincidência ou não, reparo em vários articulistas que na imprensa escrita (praticamente não consumo das outras) usam o termo metamorfose para falar da mudança que é necessária. Alterações climáticas, consumismo, novas formas de família, corrupção, políticas... quase tudo serve para falar da metamorfose urgente. Acabaram as exigências de revolução. É tempo da metamorfose.

A revolução é social por natureza. A metamorfose é individual. É social se forem muitos a fazê-la. A revolução vem de fora. A metamorfose vem de dentro. A revolução pode acontecer ou não. A metamorfose, não há como evitá-la.

23 de Janeiro de 1986. Morre o artista Joseph Beuys

Beuys: "How to Explain Pictures to a Dead Hare", 1965

23 de Janeiro é um bom dia para os artistas ligados às artes plásticas morrerem. Gustave Doré, mais conhecido pelas suas gravuras (e a “Bíblia de Gustave Doré”, que tem edição em português), morreu neste dia, em 1883. Edvard Munch, de “O grito”, morreu neste dia, mas em 1944. Até o português Rafael Bordalo Pinheiro, pintor, político, caricaturista, criador do “Zé Povinho”, morreu num 23 de Janeiro, em 1905. E em 1989, morreu Salvador Dali. Morreram muitos e nasceu um grande neste dia, Éduard Manet, em 1832.

Destaco, porém, Joseph Beuys, que morreu em 1986 e é considerado um dos artistas mais influentes da segunda metade do séc. XX (além de ter sido fundador do partido verde alemão – depois afastou-se), embora relativamente desconhecido entre nós (ao contrário de Salvador Dali, que os críticos dizem ser um artista menor).

Beuys dizia que "toda a gente é um artista". E ainda: “Libertar as pessoas é o objectivo da arte; portanto, a arte para mim é a ciência da liberdade".

O artista alemão passou uma temporada em Manresa, perto de Barcelona, criando sob inspiração dos “Exercícios Espirituais” e a “Autobiografia” de Inácio de Loyola.

Manresa foi onde o fundador dos jesuítas parou para recuperar dos ferimentos quando ainda era soldado.

Joseph Beuys foi piloto da Luftwaffe durante a II Guerra Mundial e despenhou-se perto da fronteira russa, em 1943. Foi ajudado por tártaros, que o cobriram de gordura e feltro. Estes passariam a ser materiais favoritos da sua criação artística.

"Última Ceia", de Philippe de Champaigne

O texto de Anselmo Borges, no Diário de Notícias deste sábado (23 de Janeiro de 2010), edição em papel, é acompanhado por uma "Última Ceia". A pintura não está identificada. É de Philippe de Champaigne (1602-1674), um pintor barroco próximo do jansenismo. Pintada em 1648, está no Museu do Louvre.

'Potestas' e 'auctoritas', texto de Anselmo Borges

Anselmo Borges escreve hoje no DN sobre "potestas" e "auctoritas", que "deveriam caminhar juntas e entrecruzadas". "Quando isso não acontece, surgem inevitavelmente problemas" - uma reflexão oportuna sobre o poder que culmina na afirmação de que Jesus, sem qualquer poder institucional, agiu com "autoridade", aquela qualidade que faz crescer e aumentar.

Texto na íntegra.

Mesmo não entrando em tecnicismos, esta distinção que os romanos faziam entre potestas e auctoritas pode ser fundamental, concretamente para os tempos que atravessamos.

Claro: há muitas formas de poder, desde os órgãos de soberania ao poder da moda, e Max Weber, por exemplo, distinguiu vários tipos de poder: legal, carismático, tradicional. Mas, aqui, poderíamos dizer, ainda que simplificando muito, que a potestas - vem de potis, com o significado de senhor de, que exerce o poder sobre - tem a ver com o poder no sentido institucional. Assim, os magistrados têm poder, os presidentes de câmara têm poder, os deputados, os bispos, os ministros, os presidentes de junta de freguesia, os polícias, os pais, os padres, os generais, os professores... têm poder. As sociedades humanas não podem subsistir sem o exercício do poder. Há sempre o poder enquanto domínio para que os grupos possam viver organizadamente e sem violência.

Auctoritas - vem do verbo augere, que significa fazer crescer, aumentar, donde vem também auctor, com o sentido de aquele que faz crescer, aquele que produz e, consequentemente, autor (de uma obra artística ou literária) - significa cumprimento, realização, aquilo que tem autoridade ou constitui prova, o que serve de modelo, e pode ter sentido jurídico, mas, no nosso contexto, tem a ver com excelência pessoal e força intelectual e moral de atracção, de congregação e orientação.

Há, neste quadro, um passo muito significativo do Evangelho segundo São Mateus. Jesus disse-lhes: "Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir." Jesus não põe em causa concretamente o poder político, mas quer que os discípulos não adoptem o seu modelo de exercício. Note-se, aliás, que ainda hoje, mesmo no contexto político, os governantes são designados pelo termo "ministro", sendo seu chefe o "primeiro-ministro", que vem do latim minister, que significa servo, aquele que serve.

Neste contexto, percebe-se que potestas e auctoritas deveriam caminhar juntas e entrecruzadas. Quando isso não acontece, surgem inevitavelmente problemas. Vejamos exemplos.

Os pais, pelo facto de o serem, têm o poder paternal. Mas o que acontece, quando não há força moral, capacidade pessoal de inteligência, de afecto, de competência emocional para exercê-lo no sentido da tal auctoritas, no sentido de fazer crescer e aumentar os filhos em humanidade digna?

Qual é o critério de escolha dos bispos? E se a sua potestas - ou a dos padres - não é acompanhada de competência humana e cristã, de inteligência lúcida e corajosa na defesa dos direitos humanos, da força adulta do amor que serve?

E quando aos políticos em geral e às chamadas "autoridades civis e militares " - tradicionalmente, os jornais referiam a presença das "autoridades religiosas, civis e militares" - lhes falta competência intelectual, técnica, moral? Quando à função de deputados ou "ministros" só restasse o nome?

Quando os estudantes descobrem que um professor é incompetente, é melhor pôr-se a salvo.

Julgo que praticamente ninguém porá em dúvida que Jesus é a figura mais influente da História. No entanto, é impressionante verificar que ele não tinha qualquer poder institucional. Não era sacerdote, por exemplo, nem pertencia a nenhuma estrutura de poder oficial, civil, política ou militar. No entanto, seguiam-no multidões, e o Evangelho diz a razão: "Ensinava com autoridade." Cá está aquela autoridade, que, como diz o étimo, faz crescer e aumentar. Os homens e as mulheres que entraram em contacto com ele sentiram-se aumentados em humanidade, em liberdade e dignidade. Ficaram fascinados pela sua relação íntima com Deus e com a força libertadora do encontro. A sua identidade tinha-se transformado e agora eram outros, numa existência digna e com futuro.

Anselmo Borges

D. Carlos Azevedo: "O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas"


Ontem, no Correio da Manhã, D. Carlos Azevedo escreveu sobre o diálogo ecuménico. O
bispo auxiliar de Lisboa enumera os principais frutos do movimento ecuménico e diz o que muitos pensam mas não dizem: "O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas".

O texto na íntegra.

A semana da oração pela unidade dos cristãos, que termina a 25, é momento para reconhecer os passos dados no ecumenismo, ou seja, no esforço para encontrar meios e modos, atitudes e gestos que encaminhem para refazer os desencontros e as separações mais duras e importantes como a que originou os ortodoxos, no século XI, e a do protestantismo, ao longo do século XVI, com sucessivas cisões. Passo a passo, como todos os caminhos, requer paciência. As etapas intermédias são fundamentais: já se passou do anátema ao diálogo; do diálogo está a passar-se ao acolhimento e do acolhimento passaremos ao reconhecimento recíproco.

Podemos enumerar os principais frutos. Em primeiro lugar dissiparam-se inúmeros preconceitos e favoreceu-se a compreensão verdadeira, não facciosa, ou astuciosa ou polémica. O segundo fruto é ter mantido a possível compatibilidade de doutrinas que no passado eram apresentadas e vividas unicamente como antagonistas e alternativas. O terceiro é ter clarificado o núcleo irredutível de diversidades reais ou também divergências que não podem ser harmonizadas nem podem ser simplesmente consideradas complementares. A estação do diálogo deu o que podia dar e importa continuá-la sem a prolongar até ao infinito, iludindo os empenhos ulteriores. O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas.

Perante a persistência das divisões entre as igrejas, admite-se não ter soluções simples a propor. Não há euforia ecuménica. A visão cristã da reconciliação deve empenhar todos os cristãos a procurar entre eles "incansavelmente" a unidade visível. Para isso será necessário "reexaminar as decisões", perguntando se elas não são produto de diferenças que noutros tempos foram consideradas fonte de divisão, mas hoje podem aparecer como um enriquecimento.

Além disso, os cristãos são chamados a dar passos: 1) Para avançar na unidade e chegar à comunhão é fundamental curar as feridas da memória, sobretudo com factos. 2) Favorecer a colaboração em todos os campos, evitando a rivalidade que destrói já que a construção de justiça social para com os pobres, os doentes, os marginalizados, os mais débeis e pequenos é a verdade da caridade. 3) Afirmar a igualdade de estatuto e de direitos das igrejas e dos povos minoritários. 4) Empenhamento comum pelo conhecimento sempre mais aprofundado da Bíblia. É esta palavra de Deus e o Seu Espírito que guiarão as igrejas para a comunhão.

O ecumenismo pede um novo arranque com a coragem da fé, uma vez que o olhar da esperança já abraça novo tempo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Temos de reler toda a história da arte cristã"?

Leio no “Público” de hoje, no “Ípsilon”: “Um norte-americano, Timothy Verdon [na foto], foi a Itália anunciar que a arte cristã tem de ser recontextualizada. Em 1200 páginas, explica que a liturgia é a nova chave de leitura e recorda que, na história do Cristianismo, são as imagens que levam «directamente à experiência da fé»”.

O artigo chama-se “Temos de reler toda a história da arte cristã” e é escrito por António Marujo.

Confesso alguma perplexidade com a tese do norte-americano e vai ser leitura nocturna, hoje, o texto do “Público”, novamente, porque a primeira leitura foi por alto, e o que mais encontrar sobre Timothy Verdon, que tem um sítio, aqui – e não foi propriamente a Itália, porque vive lá há 40 anos, em Florença, onde é responsável pela catequese e pela arte diocesanas, como se diz ao longo do texto. É padre.

Perplexidade porque, sabendo que há diferenças entre arte sacra e arte religiosa, sabendo que estas diferenças têm nuances consoante a época história, acho espantoso que alguém apresente como novidade que a liturgia é chave para ler a arte cristã. Como poderia não ser, se muita da arte é arquitectura dos templos, se muita da pintura está nos altares e nas cúpulas? Basta entrar na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima - para dar só o exemplo mais recente. Provavelmente, não estou a perceber alguma coisa. É claro que a liturgia mudou muito e com isso talvez se tenham perdido algumas chaves de leitura. Mas mesmo assim…

Dar crédito, segundo Abbé Pierre


Na página 39 do Testamento:
"Crer na vida é crer nos outros. Não em todos os noutros, naturalmente, mas quando assumimos as nossas responsabilidades perante a vida fazemos aliados. Estarmos juntos torna-se uma necessidade absoluta. E para fazer aliados, é preciso dar crédito. Sem esse crédito dado à Humanidade, não se poderia respirar, tantos são os seres humanos que se comportam pior do que animais e se massacram uns aos outros como loucos. Perante o escândalo do sofrimento, da injustiça, do mal, fico mudo como Job. Afinal, depois de ter protestado, quem sou eu para me revoltar perante o incompreensível? Não terei esquecido que posso, sempre, fazer alguma coisa?"

Um livro do Abbé Pierre


Capa e primeira página de um dos livros do Abbé Pierre. Na introdução à edição portuguesa, em 1996, numa colecção dirigida por Frei Bento Domingues, o dominicano escreve: "Devo confessar que fiquei deslumbrado com o Testamento... do Abbé Pierre. Em centena e meia de páginas somos iniciados nos símbolos, gestos e parábolas de uma fortuna colossal de sabedoria reunida ao longo de mais de oitenta anos. Este livro de herança cresce com o aumento dos herdeiros".

22 de Janeiro de 2007. Morre Abbé Pierre


O Abbé Pierre, nascido Henri Antoine Groué, em Lyon, 5 de Agosto de 1912, morreu no dia 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos. Passou pelos franciscanos, salvou judeus durante a II Guerra Mundial, foi preso, conseguiu fugir para a Suíça (num saco do correio), encontrou-se com De Gaulle na Argélia, fez parte da resistência, entrou na Assembleia Nacional francesa e de lá saiu por não concordar com uma lei e, finalmente, dedicou-se por inteiro à organização Emaús, de auxílio aos mais pobres (lemas: “A força da partilha"; "Injustiça não é desigualdade, injustiça é não partilhar"), que hoje está presente em cerca de 40 países. Tudo começou quando viu que num país rico como a França havia gente a morrer de frio. Além do movimento Emaús, existe uma Fundação Abbé Pierre.

Secularistas, humanistas e católicos



Um revista humanista inglesa, ou seja, anti-religiosa, resolveu presentear os seus assinantes com um conjunto de cartas sobre os sistemas religiosos.

Insiro aqui duas dessas cartas. As outras podem ser vistas online, aqui. Os secularistas/humanistas são os menos maus. Piores do que os católicos, só os muçulmanos.

As religiões saem muito mal vistas. Mas a leitura dos cartões acaba por ser instrutiva se for feita com um olhar tolerante. "O que dizem eles de nós?"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Humanismo sem Deus é desumanismo

Na encíclica sobre o desenvolvimento “Caritas in veritate”, Bento XVI diz que “o ser humano não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo”.

Entende o Papa que o verdadeiro humanismo funda-se, afinal, em Deus, no Absoluto, que, segundo a revelação cristã, encarnou na humanidade em Jesus Cristo. Porque Jesus Cristo é homem, o cristianismo é um humanismo – podemos resumir assim a questão.

“A maior força do desenvolvimento é um humanismo cristão que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra coo dom permanente de Deus”, diz Bento XVI (CV, 78).

Curiosamente, a Europa a os EUA entendem “humanismo” e “humanista” de forma diferente, pelo menos na cultura popular. Nos EUA os “humanistas” são ateus. Se incluírem Deus nas suas visões, deixam de ser humanistas. Na Europa, não se entende um cristão sem ser humanista. Daí que haja humanismo ateu e humanismo cristão.

Mas não são a mesma coisa, pelo que Bento XVI afirma: “O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano”.

Um “humanismo desumano” é um oximoro. Mas sabemos bem que depois da morte (filosófica e cultural) de Deus veio a morte (filosófica e cultural) do ser humano. O humanismo sem Deus é desumanismo.

Na questão do desenvolvimento, Bento XVI acrescenta: “O fechamento ideológico a Deus e o ateísmo da indiferença, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento”.

21 de Janeiro de 1950. Morre George Orwell

Neste dia, mas em 1924, morreu Lenine, comunista, fundador da União Soviética. Em 1950 morreu o ensaísta e romancista George Orwell, que criticou o autoritarismo em “1984”, onde surge o “Big Brother”, e o estalismo (que é sequência e consequência do leninismo) em “Animal Farm” (“O triunfo dos porcos”).

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, nasceu em Motihari, na Índia, a 25 de Junho de 1903, e morreu em Londres, há 60 anos.

Documentário da BBC sobre George Orwell aqui.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cristianismo forte no meio da perseguição

Poznan, Polónia

Visto da América do Norte:

"No século XX, as igrejas na Europa eram mais fortes nos locais onde sofriam com uma oposição mais forte. Enquanto que a religião se arrastava apática no Ocidente, onde tinha uma liberdade completa, a Igreja Católica, na Polónia, e a Igreja Evangélica, na Alemanha de Leste, eram peças-chave na queda do comunismo (mas após o terem derrotado, a sua popularidade desvaneceu-se de forma significativa em ambos os países)".

Guy Consolmagno, in "A Mecânica de Deus", Publicações Europa-América

12 propostas de Bento XVI na "Caritas in veritate"

Entre ontem e hoje reli a "Caritas in veritate". Na verdade, menos do que reli. Li pela primeira vez de uma ponta à outra. Antes disso, tinha lido alguns números, aos saltos, consoante as conveniências, as necessidades, os alertas. E a ideia que me ficou do tom geral deste documento é que tem muito mais a ver com a economia de mercado (vulgo capitalismo) do que com o apregoado novo sistema económico que, obviamente, ninguém sabe o que é. As ideias de Bento XVI são de reforma, não de revolução. A economia de mercado pode ser má, mas ainda é a menos má que se conhece. Ou seja, é a melhor. Há é que fazer ajustes.

Sintetizo as propostas de Bento XVI em 12 pontos. Há algumas ideias importantes que não são explicitadas nestes pontos (como a da subsidiariedade fiscal, que permitiria aos cidadãos decidirem o destino de parte dos impostos). Mas há mais marés.

1. Gratuidade e dom nas relações económicas e políticas
2. Genuíno espírito empresarial precisa-se
3. Orientar a globalização em termos de relacionamento, comunhão e partilha
4. A partilha dos deveres recíprocos mobiliza muito mais do que a mera reivindicação de direitos.
5. São necessárias políticas que promovam a centralidade e a integridade da família
6. Correcto relacionamento do ser humano com o ambiente natural
7. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família
8. A razão tem necessidade de ser purificada pela fé
9. O princípio da subsidiariedade há-de ser mantido estritamente ligado com o da solidariedade e vice-versa
10. Coligação mundial em favor do trabalho decente
11. Desenvolvimento é questão de técnica e de espírito
12. O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus.

20 de Janeiro de 1709. Morre Père La Chaise

François d’Aix, senhor de La Chaise, nasceu no dia 25 de Agosto de 1624, num castelo do Loire, e morreu no dia 20 de Janeiro de 1709, em Paris. Este jesuíta, confessor de Luís XIV durante 34 anos, deu nome ao primeiro cemitério civil de Paris, conhecido justamente por Cemitério Père-Lachaise. O cemitério abriu apenas em Maio de 1804, mas foi construído em terras que haviam sido do padre jesuíta e da sua família.

Quem vai a Paris tem obrigatoriamente de visitar o Père-Lachaise (e, já agora, o de Montparnasse, onde estão Beckett, Larousse, Sartre e Boudelaire, por exemplo), que desde 1993 é considerado monumento. No Père-Lachaise estão Abelardo e Heloísa (um ao pé do outro, por fim), Oscar Wilde, Jim Morrison, Balzac, Molière, La Fontaine… Não se anda dez metros sem se encontrar um nome da cultura francesa e mundial.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O imperador tem de fazer penitência

"Ambrósio e Teodósio", de Antoon van Dyck (1599-1641)

No ano 388, Ambrósio, bispo de Milão, não deixa que Teodósio entre na catedral de Milão. O imperador Teodósio era cristão. Tinha sido baptizado em 380. Por que é que não podia entrar? Porque ordenara um massacre em Tessalónica. O bispo de Milão recrimina a crueldade do imperador. Exige que este faça penitência. Teodósio invoca o exemplo do rei David. Ambrósio responde que o imperador deve imitar David não só no pecado, mas também na penitência.

A proibição mantém-se durante oito meses, até que Teodósio, vestido com um “saco de penitência”, pelo Natal, foi perdoado. Mais tarde, o imperador diria: “Sem dúvida que Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo".

O episódio é visto como um primeiro exemplo de submissão do poder político ao poder religioso. Pelo menos para isso será evocado ao longo da história. Mas, na origem, não é essencialmente isso. É apenas a exigência coerência entre fé professada e actos.

E é interessante descortinar o que esteve por detrás do massacre de Tessalónica.

No massacre de Tessalónica terão morrido entre 500 e 5000 pessoas. Os relatos variam. Mas foi um massacre. Os populares estava num estádio, durante um espectáculo, e o imperador mandou matá-los. Mais tarde, escreveu-se que Teodósio teria revogado a ordem. Mas foi tarde. A ordem foi executada.

Mas por que é que mandou matá-los? Simplesmente, porque os populares tinham matado antes o general Buterico, o qual, cumprindo as novas leis que condenavam a homossexualidade, mandara matar um condutor de quadrigas (ou seja, um auriga), pederasta, muito popular na época.

Os que Teodósio mandou matar eram na sua grande maioria não-cristãos e, é de concluir, defensores da homossexualidade (que era praticada entre mais velhos e mais novos). É por causa da morte deles que Ambrósio ordena a penitência de Teodósio.

Justiça e Caridade, segundo Bento XVI

A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer, ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir.

Excerto do n.º 6 da encíclica "Caritas in veritate", de Bento XVI, que faz lembrar aquela quase-anedota contada por Hannah Arendt sobre João XXIII e a precedência da justiça sobre a caridade (aqui).

O jesuíta que elogiava Marx

Jean-Yves Calvez, 1927-2010

Era um dos maiores especialistas em marxismo, sendo padre. Foi redactor de importantes documentos sociais católicos, mesmo criticando as falhas da Igreja nesta área. Por António Marujo, no Público de hoje.

Um dos livros deste padre, sobre o marxismo, era recomendado pelo antigo Partido Comunista da União Soviética. Por causa do seu conhecimento sobre o tema, era considerado de esquerda por muitos católicos - mas foi ele um dos principais redactores de importantes documentos de doutrina social católica. Filósofo, teólogo, especialista em marxismo, poliglota, o jesuíta Jean-Yves Calvez morreu segunda-feira, dia 11, em Paris, na sequência de um edema pulmonar, agravado por complicações cardíacas. Tinha quase 83 anos.

Com menos de 30 anos, em 1956, um dos seus primeiros livros - O Pensamento de Karl Marx, que continua a ser reeditado e é já um clássico - revelou-se um sucesso. Nessa altura, Calvez já era jesuíta (entrara aos 16 anos), mas ainda não era padre - seria ordenado a 31 de Julho de 1957.

De tal modo o livro foi bem acolhido que, conta Claire Lesegretain no La Croix, era recomendado nas células do Partido Comunista Francês. Também o PC da União Soviética sugeria a sua leitura. O que lhe trouxe desconfianças, mesmo no interior da Igreja Católica: "O padre Calvez era um homem de consensos, acima de tudo", diz dele o colega jesuíta Georges de Charrin, citado pelo mesmo jornal.

Ler tudo aqui.

E ler mais aqui (António Marujo entrevista o teólogo).

E em francês no La Croix.

Ainda o milagre dos dois pastorinhos

“Não posso dizer mais nada. O novo regulamento da Causa de Todos os Santos refere explicitamente que o autor da causa [bispo de Leiria-Fáti...