sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Morreu o Cardeal Martini

Morreu o Cardeal Martini. E sinto que morreu alguém da minha família.

Os preconceitos na história da relação do Vaticano com os judeus


Veio no "Q" (DN, aos sábados) de 11 de agosto. O autor é um dos colaboradores da seguinte obra (ler excertos aqui):


O grande iconoclasta


A minha ideia a respeito de Deus não é uma ideia divina. Ela tem que ser arrasada sempre de novo. O próprio Deus arrasa-a sempre. Ele é o grande iconoclasta. Não poderíamos quase dizer que essa destruição da ideia de Deus é uma das marcas da sua presença? A maioria das pessoas ofende-se com esta ação iconoclasta. Bem-aventurados os que não ofendem!

C. S. Lewis

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Tertuliano: As mulheres, essas sem pneuma, querem agora fazer ações do Espírito?

Pão, só fazê-lo. Reparti-lo, nunca.

Este texto surge como resposta a um comentário de J.S. sobre a oposição dos Padres da Igreja ao sacerdócio ministerial das mulheres (nos comentários daqui). Em vez de escrevê-lo nos comentários, ponho-o no corpo principal do blogue (algo que farei mais vezes). Agora fala-se apenas de Tertuliano.

Temos então os Padres da Igreja e a condenação do sacerdócio feminino. Foi unânime, é certo. Tão unânime que a respeito disso têm surgido algumas teses, recentes, cujo valor seria interessante debater.

Uns, pró-mulheres (da apologética feminista), dizem:

- As heresias foram mais defensoras da mulher do que a Igreja oficial.

Outros, antimulheres (do conservadorismo antifeminista) dizem:

- As mulheres eram mais dadas a correntes heréticas, pelo que a Igreja teve que proibir as mulheres de ensinar (entre outras coisas).

Não vou dizer o autor de onde colhi isto, mas, com ele, e com a autora que aponta (Anne Jensen, uma católica convertida, filha de um Nobel, falecida em 2008), também as considero erróneas.

Mais interessante, na mesma linha, seria verificar nos movimentos chamados heréticos e que dão destaque às mulheres o que é causa de quê. Se o movimento é herético por dar relevo a mulheres ou dá relevo a mulheres por causa de ser herético ou coincidindo com o ser herético. Em alguns casos, a chamada heresia está precisamente em dar relevo (mais protagonismo) às mulheres.

Outro dado significativo é o facto de “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” (as expressões são minhas, mas apontam para a retórica dos que dizem que as mulheres não podem nem poderão vir a ser ordenadas) a ordenação ser proibida. Isto quer dizer, pelo menos, que “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” o problema tem sido posto, mesmo que teoricamente – ou seja, não é uma questão irrelevante, nunca está resolvida ou então a resposta é não satisfaz ou não é percebido e recebida como tal. E o facto de “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” a resposta ser a mesma, o não (é mesmo? julgo que não, mas a oficialidade diz sim), não significa que a justificação dessa resposta seja a mesma. Pelo contrário. E na maior parte da história cristã está subjacente uma antropologia pouco recomendável (para hoje, claro), que, entre outros aspetos, é pouco bíblica.

O caso de Tertuliano

= É curioso que um opositor à ordenação das mulheres me cite Tertuliano. Curioso porque, num outro debate (o de diabo/demónio) com a mesma pessoa, quando citei alguns autores, tentou desconsiderá-los porque em algum momento tinham sido admoestados – ou algo do género – pela autoridade eclesiástica. Pois Tertuliano, em alguns aspetos, foi considerado não ortodoxo. Mas, obviamente, defendo que mesmo os não-ortodoxos podem ser chamados ao debate. E no caso de Tertuliano, se é invocado aqui por um opositor à ordenação, espero que não seja esquecido quando o assunto em debate for o divórcio. É que Tertuliano (e não é por isto que era herético) defendeu o recasamento cristão depois do divórcio. =

Tertuliano opõe-se a que as mulheres ensinem, debatam, façam exorcismos, curas, oferecer (supõe-se que o Pão da Eucaristia)…

O que Tertuliano terá dito, por outro lado, sobre a sexualidade e a mulher? Assim de repente (ou seja, sem grandes pesquisas), leio o que ele escreveu sobre o papel da mulher na reprodução: “Ela não dá nem esperma, nem pneuma, nem matéria para o embrião, mas apenas sem dúvida o seu alimento, ao passo que o homem produz pneuma e matéria”.

E ele até explica com algum pormenor: “Enfim, na própria febre do prazer extremo, pelo qual é emitido o suco gerador, não sentimos que também se escapa de nós algo da nossa alma, ao ponto de contrairmos langor e debilidade, ao mesmo tempo que a vista diminui? Eis a substância animada, a qual vem direta da destilação da alma, como aquele suco é a semente corporal saída de um desprendimento da carne”. Ainda faltava muito para Hildegarda, a nova doutora da Igreja, descrever o orgasmo feminino.

Resumo: O homem sozinho faz tudo.

Se não há aqui uma desconsideração da mulher e conceções antropológicas insuficientes (naturalmente baseadas no conhecimento disponível na época), o que há? A mulher, que logo na reprodução tinha um papel passivo, de mero depósito, e que, como sabemos, era considerada “algo que não chegou a ser homem”, podia ensinar, ser líder, debater, fazer exorcismos, curas, oferecer a Eucaristia? De certo que a coisa nunca iria ficar bem feita. Como é que essas que não são fonte de “pneuma” querem presidir ou ser ministras para a ação do Espírito (pneuma)? – podia bem ser este o raciocínio de Tertuliano.

Quatro teses e uma leitura sociológica do Vaticano II


O leitor João (Fernando) Duque, que não é o teólogo de Braga nem o economista de Lisboa, deixou um extenso comentário no último texto de Anselmo Borges, que, com a devida autorização, reproduzo aqui.


O tema do Concilio Vaticano II dá muito “pano para mangas”, como se costuma dizer, e muito mais neste ano de 2012, em que se comemoram os 50 anos do início desse magno acontecimento (eclesial e civilizacional).

É provável que ao longo deste ano saiam vários livros sobre o tema, algumas memórias de bispos que nele participaram (embora o contributo dos portugueses tenha sido insignificante, o que todos os historiadores dizem).

Na Comunicação Social, receio bem que os jornalistas afinem todos pelo mesmo diapasão e que venham glosar até à exaustão o mote do “Concílio-oportunidade-perdida-para-a-renovação-da-reacionária-Igreja-Católica-concílio-esse-cujas-premissas-foram-traídas-nos-anos-subsequentes-pelos-Papas-e-pelo-aparelho eclesiástico”).

Basicamente, julgo que há quatro teses interpretativas sobre o Concílio Vaticano II, e começo por apresentá-las, da Esquerda para à Direita (usando uma linguagem política, que também pode ser eclesial... embora se trate de uma simplificação algo abusiva):

1) Tese dos Progressistas radicais (os que ainda estão - mais ou menos - dentro da Igreja): “O Concílio foi apenas uma mudança cosmética e superficial numa Igreja irreformável, autoritária, patriarcal, e misógina; deveria ter ido muito mais longe (abolição do celibato sacerdotal, ordenação de mulheres, reconhecimento dos anticoncetivos, do divórcio, regime parlamentar na Igreja, - e toda uma agenda progressista radical tipo BE, muito anos 60-70) - mas não foi, e daí o seu fracasso”.

2) Tese dos Progressistas moderados: “O espírito do Concílio foi travado pela reação neoconservadora de João Paulo II e da Cúria romana e de movimentos conservadores (Opus Dei, Comunhão e Libertação, etc.), mas virá um dia um novo João XXIII e será retomado”; “Estamos a atravessar um Inverno, um parêntesis, mas virá uma nova Primavera da Igreja”.

3) Tese dos Conservadores moderados (Bento XVI, e também linha atual da Igreja, pelo menos desde 1978): “O Concílio foi bom e inspirado pelo Espírito Santo, mas os progressistas e modernistas deturparam o sentido dos documentos conciliares e daí a crise pós- conciliar. É preciso ler o Concílio à luz da tradição da Igreja, que começou há dois mil anos com Jesus Cristo e não em 1962. Na Igreja há espaço para reformas, mas nunca para revoluções (cortes abruptos com o passado)”; “Temos que descobrir o verdadeiro Concílio Vaticano II e não a caricatura que os progressistas radicais dos anos 60-70 quiseram veicular e que foi a verdadeira causa da crise”.

4) Tese dos Conservadores radicais (Integristas de Mons. Lefebvre e similares): “O Concílio foi a vitoria dos hereges “modernistas” sobre a verdadeira Tradição católica, apoiados por dois Papas de ortodoxia duvidosa (João XXIII e Paulo VI) e o resultado foi uma enorme crise da Fé católica, da Moral, de vocações, que infetou a Igreja até aos dias de hoje”; “Só um milagre é que salvará a Igreja da sua decomposição às mãos dos modernistas/progressistas”; “Bento XVI é apenas um gestor moderado e não um verdadeiro restaurador da Tradição”.

Haveria também uma quinta tese, mais e laica e “sociológica”, que se poderia formular mais ou menos da seguinte maneira:

1. Nos anos 60 produziu-se, no mundo ocidental, uma revolução cultural e de mentalidades, que se caracterizou pela contestação geral de qualquer tipo de Autoridade (do Estado, da família, no Exército, na Universidade, na Igreja); à separação definitiva do sexo e da reprodução (invenção e comercialização da pílula); à entrada maciça e definitiva das mulheres (de todos os estratos sociais) no mercado de trabalho e à sua autonomia sexual e financeira; por um ideal simultaneamente Individualista e Coletivista (movimentos sociais, como os Hippies, etc.), pelo trunfo de uma Contra-Cultura baseada na exaltação do momento, do instante, do prazer momentâneo (música, sexo casual, droga, “happenings”); pela ascensão de uma sociedade de abundância, depois da penúria do Pós-guerra (apogeu dos “Trinta Gloriosos”, de Jean Fourastié, antes da crise petrolífera de 1973); pela consolidação das classes médias neste capitalismo “civilizado” e social-democratizado, governado alternadamente pelos Socialistas e pelos Conservadores democratas-cristãos.

2. Esta revolução usou ainda uma linguagem marxista, dado o “zeitgeist” dominante na Europa Ocidental do Pós-Guerra, em que um marxismo difuso dominava as ciências humanas, e até o jornalismo: mas na sua essência, era libertária-individualista.

3. Nos anos 70-80, quando o Marxismo perde a aura que o envolvia há décadas como horizonte utópico da Historia humana (graças às revelações de Soljenitsine sobre o Gulag soviético, o genoidio do Cambodja, a revelação das atrocidades do Maoismo depois da morte de Mao em 1976, os “Nouveaux Philosophes” parisienses que desmarxizaram a intelectualidade francesa e europeia), o que ficou de todo este vasto movimento foi a ideia de uma autonomia do indíviduo em todas as esferas; assim, da comuna “hippie” ou da célula maoísta ou trotskista dos anos 60 para o escritório “chic” dos arrogantes e sôfregos “yuppies” neoliberais dos anos 80, há mutação mas não rutura;

4. Uma instituição conservadora, como é a Igreja Católica tentou uma conjunto de reformas e adaptações ao mundo contemporâneo num período de grande turbolência , como foram os anos 60; ora era impossível não ser envolvida pelos “ventos “ que então sopravam; a isto há ainda a acrescentar a celebre frase de Tocqueville que o pior momento para um sistema “autoritário” (sem sentido pejorativo, referia-se à Monarquia de Luís XVI) é quando decide enveredar pelo caminho das reformas;

5. Os ventos desta “revolução cultural” (muito mais profunda que a chinesa de Mao Tse Tung, embora com muitíssimos menos mortos...) entraram na Igreja católica através das janelas abertas pelo Concílio, Igreja católica essa que era “quase” um vaso hermético desde pelo menos, o pontificado ultramontano de Pio IX (meados do século XIX), e o resultado foi não tanto a renovação ou um novo impulso (como desejavam o “bom Papa João” e numerosos católicos de boa vontade…) mas sim a confusão, o caos instalado, as crises de consciência de numerosos padres e fieis, a quebra das vocações religiosas, a sedução pelas ideologias revolucionárias por parte do “Progressismo católico” (mais de um século depois dos socialismos utópicos de 1830-1848 que ainda sonhavam com a síntese Cristianismo/Socialismo), a contestação da autoridade do Papa (o celebre episódio da encíclica “Humanae Vitae”, de 1968, contestada em todo o mundo, até por alguns bispos e teólogos), o desânimo e desagregação de numerosos movimentos eclesiais, o decréscimo do número de praticantes, o esvaziar dos seminários e toda uma decadência/crise eclesial que persiste, com muito mal-estar interno , mesmo após os movimentos “retificativos” de João Paulo II e Bento XVI.

6. O movimento de secularização, iniciado em meados do século XVIII, prosseguiu ao longo dos últimos dois séculos, com fases alternadas de avanço rápido e de “slow motion”; nos anos 60-70, toda esta revolução cultural produziu uma aceleração acentuada deste processo, que reduziu a Igreja Católica, nos países europeus (o resto do Mundo: América Latina, África, Ásia é um caso a analisar à parte) a uma sombra do que foi. Ainda assim, resistiu melhor que as Igrejas anglicanas (Grã-Bretanha) e luteranas (países escandinavos), muito mais permeáveis ao “ar do tempo”, mas que curiosamente (ou talvez mesmo por causa disso), conheceram um declínio muito mais acentuado.

Desilusão, começo da verdadeira vida

A desilusão é o começo da verdadeira vida. Tornamo-nos homens quando saímos das ilusões para entrar no real. É o que se verifica em todas as circunstâncias: educação, casamento, caridade.

Abbé Pierre

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mudanças em Bragança

No "Público" de hoje, confirmando o que alguns leitores já escreveram neste blogue, que o bispo brigantino vai (está) a surpreender. Na última página do matutino, no "sobe e desce", D. José Cordeiro aparece em alta. (Um abraço para os leitores admiradores deste bispo - desconheço-os, mas habitualmente manifestam-se).

"Na cama com Deus" - sobre romance de Graham Greene


Saiu no sábado, no "Público". Sobre Graham Greene e o seu romance "O Fim da Aventura", uma história de adultério, milagre, amor, morte e Deus na II Guerra Mundial. Penso que a entrada do texto está incorreta. O livro foi reeditado no final dos anos 90 (ou princípios de 2000), pela Asa, quando saiu o filme (que é de 1999).

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Porcos-espinhos e gorgulho vermelho atacam Vaticano

Uma das quatro palmeiras foi atacada pelo gorgulho vermelho

“A atividade da Santa Sé” é o título do volume que anualmente revela as ações realizadas pelo Papa, pela cúria romana e pelos outros organismos vaticanos. É uma “publicação não oficial”, como se especifica no frontispício, mas – compilada pela Secretaria de Estado – que contém uma substancial quantidade de informações e não poucas curiosidades, muitas vezes inéditas.

A última edição, referida às atividades de 2011, foi publicada no final de junho pela Librería Editorial Vaticana. Consta de 1.366 páginas e custa 80 euros.

Sandro Magister recolheu desta publicação alguns factos interessantes. E eu copiei do seu texto as frases anteriores os seguintes factos:

- Em 2011 a Congregação para a Doutrina da Fé abriu 599 novos procedimentos, 404 dos quais se referem a casos de abusos clericais sobre menores.

- Em 2011 foram concedidas 1.321 entradas ao Arquivo Secreto Vaticano, para estudiosos provenientes de 54 países, assim distribuídos:

673 italianos
102 espanhóis e outros tantos alemães
64 norte-americanos e outros tantos franceses
35 polacos
30 britânicos
0 de Israel

- Em 2011 parece ter sido felizmente erradicada a invasão de porcos-espinhos na Catacumba de Giordani. Os animais provinham do parque de Villa Ada.

- E o flagelo do gorgulho vermelho, que atacou uma das quatro palmeiras do pórtico da basílica de São Paulo Extramuros, foi combatido por uma empresa especializada.

“Ter um espírito crítico é um grande serviço à Igreja”

“Ter um espírito crítico é um grande serviço à Igreja”, diz o vice-decano de Direito Canónico de Comillas, Madrid, numa entrevista sobre o delicado tema do direito canónico (o que inclui bispos sancionados e casamentos anulados), deixando claro que a pastoral importa mais do que as sanções. Ler aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Neil Armstrong prefirió las pisadas de Cristo a la Luna


O escuteiro Armstrong

El primer hombre que pisó suelo lunar falleció este sábado a los 82 años. En su visita a Jerusalén en 1988 pidió ver dónde de seguro camino Cristo y comentó la emoción que le significó haber podido seguir esas huellas.

Corrían los años sesenta, y en la carrera espacial entre Estados Unidos y la Unión Soviética era importante "ser el primero". Los rusos, con Yuri Gagarin, fueron los primeros en conseguir que un hombre completara un viaje espacial completo. Fue en 1961, y el astronauta héroe del comunismo declaró sarcásticamente para confirmar el materialismo oficial: "No veo ningún Dios aquí arriba". Murió en 1968 en un accidente de avión, sin llegar a ver la siguiente gran hazaña de la navegación extraterrestre. 
El 21 de julio de 1969 el Apolo XI, con aquella histórica tripulación (Neil ArmstrongEdwin "Buzz" AldrinMichael Collins), llegó a la órbita de la luna, y cuando el módulo tocó su superficie Armstrong descendió, dejó su huella y pronunció en directo, para millones de telespectadores, aquella frase: "Un pequeño paso por un hombre, un gran paso para la Humanidad". 
Tras los pasos de Cristo
Su fallecimiento este sábado a los 82 años ha recordado sobre todo este momento, aunque también que llegó a la NASA tras un brillante historial militar que incluye 78 misiones de combate como piloto naval en Corea
A diferencia de Gagarin, Armstrong era un hombre muy religioso y profundamente cristiano. Quizá la historia más conocida en ese sentido es la que sucedió en Jerusalén en 1988. 
Neil visitó Jerusalén ese año, y le pidió a Thomas Friedman, un profesor experto en arqueología bíblica que le hizo de guía por la ciudad, que le llevase a un lugar donde pudiese tener la certeza de que había caminado Jesucristo
El profesor, una de cuyas alumnas, Ora Shlesinger, ha relatado la historia más de una vez, llevó a Armstrong a los restos de escaleras del templo construido por Herodes el Grande que aún se conservan. "Estos peldaños constituían la principal entrada al templo", le dijo: "No hay duda de que Jesús subió por ellos". 
Armstrong se concentró entonces profundamente y rezó durante un rato. Al terminar, se volvió a Friedman, y, emocionado, le dijo: "Para mí significa más haber pisado estas escaleras que haber pisado la Luna".
Notícia tirada daqui. Confronte-se com o boato segundo o qual, na Lua, ouviu um som que não compreendeu e mais tarde se converteu ao islamismo (aqui).

Calendário de 2012 beneficia diabo

Notícia do JN de sábado, 25 de agosto. A festa realiza-se na sexta anterior ao último sábado de agosto. Algumas pessoas pensam que é na última sexta de agosto. Daí o título. Em 2012, a festa teve menos gente.

sábado, 25 de agosto de 2012

O grande fenómeno mundial da cultura e da arte - do momento


No DN de hoje, para continuar um assunto iniciado aqui.

Anselmo Borges: "A religião do gato"


Francis X. D'Sa

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui)

Era uma vez um guru que todas as noites fazia meditação com os seus discípulos. Um dia, um gato entrou na sala e, correndo por todo o lado, perturbou a meditação. O guru ordenou então que se prendesse o gato fora, durante a hora da meditação. Deste modo, todos puderam meditar sem serem importunados. O tempo passou. O guru morreu e foi substituído por outro guru, que tudo fez para que se respeitasse estritamente a tradição, dizendo, entre outras coisas, que era necessário prender um gato fora, durante a hora da meditação. Quando também o gato morreu, procurou-se outro, para prendê-lo fora, durante a hora da meditação. Uma vez que as pessoas não compreendiam o sentido desta medida, apelou-se a teólogos, que escreveram dois grossos volumes cheios de notas sobre a necessidade sagrada de se ter um gato preso fora, durante a meditação da noite. O tempo passou, a meditação caiu fora de uso, já ninguém se interessava por ela. Mas, para respeitar o rito, continuou-se a prender um gato."

Aí está uma bela estória, contada pelo teólogo indiano Francis X. D'Sa, que diz bem como tantos costumes e leis, mas sobretudo a religião, se podem tornar vazios de sentido, sem qualquer conteúdo.

De tal modo Jesus atacou a religião meramente formal, ritualista, que poderia bem ser o autor desta estória. Verberou de modo cru a hipocrisia: "Ai de vós, hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Ai de vós, hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade! Ai de vós, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, quando por dentro estão cheios de rapina e iniquidade! Ai de vós, hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície!" E não foi ele que pronunciou a afirmação mais revolucionária na história das religiões: "o Homem não foi feito para o Sábado, mas o Sábado para o Homem", significando deste modo que o critério último de validade de todas as leis, mesmo das leis de Deus, é o serviço ao Homem, a todos os seres humanos, na sua dignidade?

Há 50 anos, precisamente em Julho de 1962, quando um calor sufocante fazia transpirar os cardeais nas comissões de trabalho conciliares - estava-se na preparação do Concílio Vaticano II -, o Papa João XXIII começou a distanciar-se de alguns esboços preliminares. Conta Juan Masiá, citando o biógrafo dos Papas, P. Hebblethwaite: Um dia o bom Papa João "mediu uma página com a sua régua e disse: 'Quinze centímetros de condenações e apenas dois centímetros de louvor. Porventura é este o modo de dialogar com o mundo contemporâneo?

"Coube ao cardeal Montini (depois, Papa Paulo VI) a tarefa de fazer compreender este ponto, na reunião final da Comissão Central. Os anátemas e as condenações, disse Montini, não são a resposta para os erros contemporâneos. No mundo moderno, os remédios contra os erros são a misericórdia, a caridade e o testemunho de vida cristã.

"Após este discurso, ouviu-se o cardeal Ottaviani - era o inquisidor do Santo Ofício - murmurar: 'Peço a Deus que me chame antes de acabar o Concílio; assim estarei seguro de que morro como católico.'

"Chegava o momento de partir para férias. O Papa não ficaria livre antes de 31 de Julho. No dia 30, recebeu Shizuka Matsubara, superior de um santuário xintoísta em Quioto. Anotou no seu 'Diário': Deu-me muito gosto receber uma visita tão boa... O Papa deseja estar unido a todas as almas honradas e rectas, onde quer que se encontrem, de qualquer nação, num clima de respeito, compreensão e paz..."

À distância de 50 anos, não falta quem atribua em grande parte ao Concílio a causa da actual crise da Igreja, por causa da perda da sua identidade. Ora, aqui, é preciso dizer que a identidade nunca é dada de modo fixo e definitivo, pois é histórico-narrativa. Apesar de o processo nem sempre ser fácil nem isento de sofrimento, numa identidade sã e adulta, auto-afirmação e abertura ao outro, a todos os outros, co-implicam-se.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Calisto III excomungou mesmo o cometa Halley?


Vem na "Super Interessante - Especial" de agosto que Calisto III excomungou o cometa Halley em 1456. Mas terá sido mesmo assim?

Numa primeiríssima pesquisa - ok, foi dar à Wikipedia, mas respondeu ao assunto, aqui - encontro o seguinte:
Según una versión conocida por primera vez en una biografía póstuma, y luego embellecida y popularizada por el matemático francés del siglo XVIII Pierre-Simon Laplace, Calixto III habría excomulgado al cometa Halley en 1456, con ocasión de su aparición sobre Europa. 
La razón de la curiosa medida estaría fundamentada en la tradicional creencia en los cometas como símbolo de mal agüero, que en particular en aquella oportunidad lo sería contra los defensores cristianos de la ciudad de Belgrado, sitiada por los otomanos. Esta versión, sin embargo, carece de sustento histórico firme. La bula de Calixto III del 29 de junio de 1456, en donde solicita las oraciones de los fieles para el triunfo de la cruzada, ni siquiera menciona al cometa. Para el 6 de agosto de 1456, cuando el sitio de la ciudad fue roto por los defensores, hacía varias semanas que el cometa había dejado de ser visible.
Um outro artigo, dedicado ao cometa, diz que Calisto III mandou rezar o Angelus ao meio dia (rezava-se à tarde), mas não fala em excomunhão (aqui).

Enfim. Se a lenda tem mais piada que a realidade, imprima-se a lenda.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

23 de agosto de 1912. Nasce Nelson Rodrigues


O escritor brasileiro Nelson Rodrigues nasceu há cem anos - 23 de agosto de 1912, no Recife. Morreu em 1980. Veio no "Público" de hoje, que dedica duas páginas, por Pedro Lomba, ao "prolífico dramaturgo, jornalista, cronista e ficcionista".

Conheço pouquíssimo do escritor - somente umas passagens das crónicas futebolísticas - mas as páginas do jornal, lidas apenas porque tive de esperar um pouco mais para o almoço, despertaram o apetite.

Uma frase: "Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno".

Outra, de quem se via como "anjo pornográfico" e tinha como grande talento a construção de personagens como o "revolucionário de festival", o "padre de passeata" e o "idiota da objectividade": "É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez".

Restauradora de Borja inspira corrente artística


Li a notícia ontem no DN (parece que também passou nas televisões) e muito me ri, tanto com a generosidade da velhinha como com o novo rosto de Jesus, no fundo tão perto ou tão longe do verdadeiro rosto como qualquer outra pintura, já que não existe qualquer imagem fidedigna do Jesus histórico.

A notícia dizia:
Uma senhora na casa dos 80 anos decidiu 'restaurar' um fresco que está exposto na Igreja do Santuário da Misericórdia em Borja (Aragão), Espanha. A intenção era boa mas o resultado, que aqui mostramos... foi hoje divulgado pela autarquia.
A pintura, da autoria do espanhol Elías García Martínez, foi realizada nos primeiros anos do século passado (XX) e decora uma das paredes da Igreja do Santuário da Misericórdia em Borja (Aragão), Espanha. 
Ler o resto aqui.

Agora, enquanto a igreja da obra de arte em questão já é o quinto sítio religioso mais visitado da Espanha, diz a Wikipedia, aqui (o "El País" e a BBC, entre outros, deram uma ajuda; e tanto Ferreira Fernandes, no DN, como Miguel Esteves Cardoso, no "Público", escrevem sobre o assunto), pululam pelo ciberespaço arranjos inspirados por Cecília Gimenez - assim se chama a voluntariosa senhora. Aqui ficam dois.



O Vaticano é um antro de...


Na "Visão" desta quinta-feira. Parece-me excessiva a expressão que serviu para dar título à peça e são-me indiferentes os chapéus do Papa (ao sol, poderia usar um simples boné, provavelmente amarelo e branco? Ou de qualquer cor? Porque não? Mas não deixaria de haver gente "horrorizada"). Mas concordo com a linha de fundo. Gostava que houvesse mulheres a presidir à Eucaristia em nome de Jesus e pela Igreja.

"O Vaticano é um antro de..." Que substantivos já completaram esta frase? Muitos. Dos melhores aos piores, se bem que "antro" tenha conotação negativa. Alguns são impublicáveis neste blogue.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

P.e Tolentino Mendonça entrevistado pelo DN

Saiu no último domingo, no DN. Parte da entrevista, pequena parte, pode ser vista e ouvida aqui.



A fotografia por cima da cama

Estou farto das pessoas que penduram com uma tacha uma fotografia do Abbé Pierre por cima da sua cama. De manhã, ao acordar, deixam cair uma lágrima ao olhá-la e pensam que trabalharam muito. Não se agiu porque se chorou.

Declaração aos jornalistas em 1970. Título dos periódicos no dua seguinte de manhã: "Não me chateie com o Abbé Pierre!", declara o Abbé Pierre. In "As quatro verdades", de Abbé Pierre (Notícias Editorial, 1995).

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"Maratona de amor"?

Excerto do texto de Alberto Gonçalves no DN de ontem (domingo, 19 de agosto). Tirado daqui.
A maratona de amor 
Quem foi o orador que, defronte de milhares de pessoas, pediu uma "maratona de amor" contra o "capitalismo desgovernado" (e contra a "justiça negociada", a "saúde economizada" e a "educação parcial")? Sem referências adicionais, eu responderia Abbie Hoffman em 1967 e na Virgínia, durante a marcha para a levitação do Pentágono. E falharia: o orador foi D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, no Santuário de Fátima em 2012. Mas não é curiosa a mera plausibilidade do equívoco? 

Eu acho que é. Com crescente frequência, ou pelo menos com crescente notoriedade, certa Igreja deu em adoptar um discurso difícil de distinguir do de um hippie clássico ou, descontadas certas incongruências, do de um líder "moderno" da nossa esquerda radical. Aliás, a versão caseira da Teologia da Libertação e os franciscanos tendência Louçã (ou, consta, tendência Semedo) encontram-se tão próximos que é uma pena permanecerem separados na luta afinal comum e não se encontrarem de vez. 

Porém, nada está perdido. Basta que, por um lado, os sacerdotes abandonem cismas antigas como o aborto, que D. Ortiga também condenou de um modo algo incongruente com a desejada "maratona de amor", a qual, no sentido em que os simples pecadores a entenderão, é altamente propícia a gravidezes indesejadas e nociva para os valores familiares. Por outro lado, importa que a extrema-esquerda enterre os tiques avessos ao catolicismo institucional. Se a fúria marxista convive muito bem com a fé religiosa no caso do fundamentalismo islâmico, nada lhe impede o entendimento com os pontífices católicos mais engajados. 

Na hipótese de chegarem a acordo, a Igreja ganha consistência ideológica, a extrema-esquerda ganha audiências. E embora ninguém ganhe juízo, em Portugal não se pode pedir o impossível: só maratonas de amor e coisas assim prosaicas e vitais.

"Como é estúpido defender o cristianismo"


John F. Haught

A história do cristianismo é mais uma história do sofrimento e da ignorância humanas do que uma história da resposta ao amor de Deus.
Sam Harris

Como é estúpido defender o cristianismo… Defender algo equivale sempre a desacreditá-lo.
Kierkegaard


Frases citadas por John F. Haught no último capítulo de “Diós e el nuevo ateísmo” (Sal Terra; índice e primeiro capítulo aqui). Este autor tem pelo menos uma obra em português, "Cristianismo e evolucionismo em 101 perguntas e respostas", na Gradiva.

domingo, 19 de agosto de 2012

Da prisão para o mosteiro


Michelle Martin, ex-mulher e cúmplice do pedófilo Marc Doutroux, vai entrar para o convento das Clarissas de Malonne, sul da Bélgica, depois de cumprir mais de metade da pena de 30 anos (foi condenada em 2004, após oito anos de prisão). Durante a estadia na prisão, tornou-se muito religiosa. Li aqui. As famílias das vítimas consideram a libertação um “ultraje”.


Noutros tempos, um criminoso convertido parecia mostrar a riqueza e superioridade moral do catolicismo. Hoje, um cúmplice de pedofilia convertido deixa(-me) muito desconforto.

Ainda é tempo

O que sinto como o maior fracasso foi, creio eu, não ter tido a coragem de ousar. Quando não corri o risco de me objurgarem para dizer: ""Assim não!" Reparai, ainda é tempo.

Abbé Pierre, 17 de dezembro de 1992

sábado, 18 de agosto de 2012

Anselmo Borges: "Os Papas e o desporto"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Durante os Jogos Olímpicos, foi para mim uma surpresa simpática saber que o Papa Pio X tinha sido promotor dos Jogos Olímpicos, em 1908. De facto, não podendo realizar-se em Roma por causa de uma grave crise económica - acabaram por ser celebrados em Londres -, Pierre de Coubertin, instigador dos Jogos modernos, pediu ajuda à Santa Sé, e foi o próprio Pio X que o apoiou.

Quem o afirma é Antonella Stelitano no livro Pio X e o Desporto, fazendo notar que nos começos do século XX menos de um por cento da população praticava desporto. Ora, Pio X via no desporto uma forma de educar os jovens. "São Pio X viu a possibilidade de o desporto ser educativo. Uma forma de aproximar os jovens, para que, estando juntos, seguissem regras e respeitassem o adversário. Creio que entendeu que era possível fazer com que as pessoas estivessem juntas de uma forma simples, unidas sem problemas de raça, religião ou ideias políticas diferentes."

Aliás, dada a dificuldade em se compreender nessa altura a ginástica, o próprio Papa terá dito a um cardeal: "Muito bem! Se não entendem que é algo que se pode fazer, pôr-me-ei eu próprio a fazer ginástica diante de todos e assim verão que, se o Papa a pratica, todos a podem praticar."

É claro que os Jogos Olímpicos não se reduzem ao lema olímpico: citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte). Lá estão interesses outros que não os desportivos (aliás, não é o que se passa nos outros desportos, concretamente no futebol?), como os negócios e a corrupção, o perigo da idolatria e imensas frustrações e humilhações.

Seja como for, nunca foi esquecido o lema: "mens sana in corpore sano" (mente sã num cor- po são) e os Papas recentes não deixaram de sublinhar a importância e o valor do desporto.

Pio XII, chamado "o amigo dos desportistas" e o primeiro a mandar instalar um ginásio no Vaticano, perguntava e respondia:"Qual é, em primeiro lugar, o sentido e o objectivo do 'desporto', sã e cristãmente entendido, senão precisamente cultivar a dignidade e a harmonia do corpo humano, desenvolver a saúde, o vigor, a agilidade e a graça do mesmo?" E acrescentava: "O desporto, adequadamente dirigido, desenvolve o carácter, faz do ser humano uma pessoa valorosa, que perde com generosidade e vence sem presunção; ele afina os sentidos, ilumina a mente, e forja uma vontade de ferro para perseverar. Não é só desenvolvimento físico. O desporto correctamente entendido tem em conta o homem todo."

O desporto tem a capacidade de contribuir para a formação integral e para a fraternidade universal e a paz. João XXIII notou que o desporto "constitui um dos fenómenos mais vivos e interessantes da cultura contemporânea". O Concílio Vaticano II recomendou: "Empreguem-se os descansos oportunamente para distracção do ânimo e para consolidar a saúde do espírito e do corpo, ... com exercícios e manifestações desportivas que ajudam a conservar o equilíbrio espiritual e a estabelecer relações fraternas entre os homens de todas as classes, nações e raças."

Paulo VI dirigiu-se aos atletas das XIX Olimpíadas: "Procedeis de tantos países, representais ambientes e culturas, mas une-vos um ideal idêntico: ligar todos os homens com a amizade, a compreensão, a estima recíproca. Isto prova que a vossa meta final é mais elevada: a paz universal." O desporto simboliza a vida: "A vida é um esforço, a vida é um risco, a vida é uma corrida, a vida é uma esperança para a meta final, uma meta que transcende o palco da experiência comum e que a alma entrevê e a religião nos apresenta."

João Paulo II, o papa dos desportistas, disse-lhes: "Sede conscientes da vossa responsabilidade. Não apenas o campeão no estádio, também o homem com toda a sua pessoa deve converter-se num modelo para milhões de jovens, que têm necessidade de 'líderes' e não de 'ídolos'." E exortou: "Que o desporto esteja sempre ao serviço do homem e não homem ao serviço do desporto." Neste sentido, Bento XVI afirmou que, para os cristãos, a luz da chama olímpica "remete para o Verbo encarnado, luz do mundo que ilumina o homem em todas as dimensões, incluindo a desportiva."

Nota deste blogue: O episódio de Pio X, com ligação para a notícia do livro, ja havia sido referido aqui.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Não há milagres" - texto de Rui Tavares

Texto de Rui Tavares no "Público" de 15 de agosto. Interessa-me o episódio histórico, pouco a política que serve de pretexto.

Companheiro


É um companheiro! Se ele não entrar, também não entro.

Abbé Pierre à sentinela da guarda presidencial, que queria proibir a entrada no Eliseu do seu motorista. Paris, junho de 1955.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

15 de agosto de 1917. Nasce Oscar Romero, mártir


Somos pedreiros, não encarregados de obra,
ministros, não o Messias.
Somos profetas de um futuro que não é nosso.

Oscar Romero


Oscar Romero, o bispo salvadorenho assassinado no dia 24 de março de 1980 enquanto presidia a uma eucaristia, nasceu no dia 15 de Agosto de 1917. Era jesuíta. Com certeza que sabia que a sua congregação fora fundada no seu dia de anos… mas em 1534.

O declínio do Vaticano a par do «coma» capitalista


Artigo no "Avante!" de 9 de agosto de 2012. 2012, sim, não 1912. O artigo é significativamente escrito por Jorge Messias. Como já foi abundantemente afirmado, o comunismo é um messianismo profano. Só é pena que a sociedade perfeita que se vislumbra no horizonte da ideologia comunista se afaste à medida que dele nos aproximamos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Desporto por desporto" - a mística olímpica por João César das Neves


Meditação de João César das Neves, no DN da semana passada (6 de agosto, aqui), sobre a dimensão pararreligiosa dos jogos olímpicos. Pus a negrito as palavras mais explicitamente religiosas.

A sociedade moderna, cortando as relações com o transcendente, teve de arranjar mitologias, cultos, teologias para se inspirar. O desporto, como a ciência, música e heroísmo, é um elemento central dessa espiritualidade. Os atletas alegadamente mostram o melhor do ser humano, esquecendo misérias, desgraças e maldades, promovendo a auto-superação, camaradagem, colaboração e paz. Os Jogos Olímpicos são a grande celebração mundial da mística, proclamando bem alto este evangelho.
Mas existe um abismo entre desporto e a alta competição dos certames mundiais que bate recordes. Aí a situação aproxima-se do que a sociedade moderna mais se orgulha de erradicar: a escravatura. O facto de ser voluntária e rodeada de fama não a redime. Torna-a paradoxal.
A vida dos atletas manifesta bem este paralelo. Treinos, dietas, disciplina, lesões, exaustão e sofrimento são coisas que, se fossem impostos a alguém, seriam consideradas campo de concentração. Além disso, há a rivalidade, obsessão pelas marcas, pressão psicológica, humilhações, violência moral, isolamento, exclusividade que são brutais. Até o mandamento central desta , levar-se a si próprio ao extremo, é vicioso, pois a virtude está no equilíbrio e moderação. A vida de atleta é, realmente, bastante miserável, destruindo a humanidade, em vez de a ampliar, como garante a mística. 
O dogma oculta a verdade com um truque. Não nega a violência e angústia, mas, centrando a atenção nos vencedores, garante que tudo vale a pena perante a alegria do sucesso e a glória da vitória. Mas, ao contrário dos filmes de aventuras, os adversários vencidos não são vilões malvados. São outros atletas, que também pagaram os custos altíssimos, também forçaram e esfrangalharam a sua humanidade, tendo como única recompensa vergonha e fiasco. 
A isto junta-se extrema injustiça e impiedade, oculta debaixo do rigor dos resultados. Com os níveis a que chegaram os recordes, o fracasso acontece por milésimos de segundo, centímetros, queda na pirueta, pequeno deslize, ligeira indisposição. Esse nada deita a perder anos de trabalho brutal, que valem zero. E o injustiçado, que se escravizou voluntariamente, nem sequer pode protestar contra o cronómetro, a fita métrica e evidência dos árbitros. Só tem de desaparecer e tentar outra vez, se ainda tiver idade. 
Isto aponta outra evidente falha da mística: desporto é para jovens saudáveis. Uma que apenas dá sentido à vida a alguns durante uns anos, não presta. Os apóstolos defendem-se dizendo que desporto é para toda a vida, sendo a alta competição apenas dos mestres, como os mosteiros e eremitérios na religião. Mas no desporto, ao contrário da religião, vitória e fama fazem parte da mística. A falsidade da tese vê-se na vida posterior dos grandes atletas.Tirando o pequeno punhado de superestrelas que vive da celebridade, à esmagadora maioria dos desportistas, mesmo grandes campeões, espera-os anos de nostalgia, anonimato, até miséria, pois muitos desperdiçaram a juventude sem aprender uma profissão útil. A mística tenta esconder a verdade, celebrando glórias passadas, mas ela por vezes emerge, como no filme Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou nas notícias recorrentes de ex-campeões que vendem as medalhas para comer. 
É verdade que estes são precisamente os pontos em que toca o espírito olímpico. Ao contrário dos campeonatos, os Jogos dirigem-se a amadores, pessoas que praticam desporto por desporto, não por obrigação. Participar é mais importante do que vencer ou bater recordes. Esta é a teoria, muito longe da realidade. Repetidamente se ouvem os sumo sacerdotes lamentar a perda do espírito olímpico. Em grande medida, os Jogos são apenas mais um campeonato, para os mesmos profissionais que batem o circuito. Mas o mal estava na origem: se apenas interessa a prática, porquê criar medalhas e podium? 
O desporto é uma excelente actividade humana, como a arte ou ciência, mas, como elas, não suporta ser erigida em finalidade de vida. O desporto só é desporto se for praticado por desporto.

domingo, 12 de agosto de 2012

A isso chama-se caminho

Sentimos uma necessidade absoluta de nos movermos. Mais, de nos movermos numa direção específica. Uma dupla necessidade, portanto: de nos pormos a caminho e de sabermos para onde.

D. H. Lawrence citado por Paul Theroux em "A Arte da Viagem" (ed. Quetzal)

sábado, 11 de agosto de 2012

Anselmo Borges: Golpe de Estado financeiro

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).


O pior que pode acontecer é o medo, porque não há confiança nem horizonte a abrir caminho. Mesmo sem se ser pessimista, percebe-se que a humanidade se encontra numa encruzilhada e é preciso estar preparado para o pior.

Nestas circunstâncias, não bastam boas intenções. É preciso reflectir e tentar ver claro. Deixo aí alguns pensamentos sobre a crise, a partir de reflexões do teólogo José Ignacio Calleja, prestigiado professor de Teologia Moral Social na Faculdade de Teologia de Vitoria, num texto em que afirma precisamente que "há um golpe de Estado financeiro no mundo, gerido por políticos", sendo necessário "impedir o fascismo social, para poder sair da crise".

É verdade que a crise é também de cultura moral e espiritual, mas não é possível avançar sem uma implicação séria e a fundo na social. Não se pode pretender fugir ao problema social, invocando apenas o caminho da crise espiritual e de valores. "Nada mais alienante e falso do que a religião desencarnada."

Aí ficam, pois, algumas reflexões fundamentais.

1. Na base, está "uma globalização económica, gerida no quadro do neoliberalismo, que apodreceu especulativamente todo o sistema financeiro e social". Para se ganhar dinheiro, este já não tinha de passar pela produção, pois o lucro tornava-se incomparavelmente mais fácil e vantajoso num mercado de capitais, "único, opaco e sem controlo sério". A apregoada auto-regulação não funcionou e o vírus especulativo tudo infectou e tornou-se incurável. Agora, há quem queira baixar a febre, mas, sem se ir às causas profundas, não se consegue. Sem reconhecer as causas desses efeitos e "os grupos sociais enriquecidos" que os protagonizam com vantagem, não se vai lá.

2. Com o objectivo de encontrar paliativos para esses efeitos, mas sem descer ao fundo do mal, "há um golpe de Estado financeiro no mundo, com especial efeito nos elos mais débeis do sistema dos ricos e subordinação das democracias e dos gestores políticos do momento ao poder financeiro".

3. No sentido de pensar uma resposta alternativa, J. I. Calleja apresenta algumas pistas.

Uma: "Impedir socialmente o que alguns já chamam o fascismo social", ou seja, que cada sector da população, encostando-se ao velho princípio do "salve-se quem puder e cada um que se arranje", aceite tudo o que viola os direitos dos outros, desde que os nossos não sejam afectados.

Outra tem a ver com a justiça e a equidade nos impostos e com o modo como estão a ser repartidos os esforços e as dificuldades, sem capacidade para tocar nos privilégios injustos inclusivamente da classe politico-partidária. Entre parêntesis - lembro eu -, não se pode esquecer que Portugal continua a ser um dos países ou mesmo o país da União Europeia onde o abismo entre os muito ricos e os muito pobres é mais fundo. "Sem uma reforma fiscal, orçamental e política profunda, não há saída para a solidariedade, imprescindível hoje."

Em terceiro lugar, é necessário aprofundar a convicção de que "não há saída, sem o controlo 'social-democrático' do sistema económico e financeiro internacional e nacional, na sua opacidade, desregulação, acumulação e 'soberania expropriada'". Os governantes do G20 não se podem esquecer do que disseram no início da crise - Bento XVI juntou-se-lhes com entusiasmo na sua encíclica "Caridade na Verdade" -, exigindo "refundar o capitalismo, regular o sistema financeiro internacional, acabar com os paraísos fiscais (aqui, lembro que os média davam conta nestes dias dos biliões dos super-ricos nesses paraísos, sem pagamento de impostos), desenvolver a taxa Tobin". De outro modo, não há democracia, pois o que fica é "a obediência a um golpe de Estado financeiro".

Talvez não se esperasse a última exigência, mas estou de acordo com ela e julgo que é fundamental. Escreve: Se se quiser uma saída justa e duradoura, é imprescindível uma vida moderada, "o decrescimento no desenvolvimento, para viverem todos com menos e bem". Isto é muito difícil politicamente, mas é necessário a curto prazo. Nem os recursos nem o ecossistema geral da vida nos permitem outra alternativa.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Coisas que não deviam passar despercebidas (1): Edith Stein morreu há 70 anos

Edith Stein em 1926

Edith Stein, a discípula preferida se Edmund Hurssel, morreu há 70 anos. Completados ontem. Andrea Tornielli escreveu no sítio “Vatican Insider” sobre a carmelita judia que é copadroeira da Europa. Reproduzo o texto que saiu no IHU.

Há 70 anos, morria em Auschwitz a Irmã Teresa Benedita da Cruz, ou Edith Stein, filósofa. Ela nascera em uma família judaica, havia se batizado e, depois, entrara no mosteiro das Carmelitas de Colônia, na Alemanha. Em 1939, encontrava-se no Carmelo de Echt, na Holanda, e foi capturada em julho de 1942, durante as blitz nazistas que se seguiram à carta de denúncia das deportações, assinada pelos bispos católicos dos Países Baixos e lida em todas as igrejas. Até aquele momento, os nazistas haviam poupado os judeus batizados: foram capturados cerca de 300 religiosos de origem judaica. 
Cristiana Dobner, em um artigo publicado pela agência SIR, lembra que o jornalista Van Kempen conseguiu contatá-la no campo de triagem e se encontrou diante de "uma mulher espiritualmente grande e forte". Ela não quis fugir nem receber um tratamento diferente dos outros judeus. "Ela me disse: 'Eu jamais poderia acreditar que os homens pudessem ser assim e que os meus irmãos tivessem que sofrer tanto!'. Quando não havia mais dúvidas de que ela seria transportada para outro lugar, eu lhe perguntei se eu poderia ajudá-la (tentar libertá-la); novamente, ela me sorriu suplicando-me que não. Por que abrir uma exceção para ela e para o seu grupo? Não seria justiça tirar vantagem do fato de ser batizada! Se não pudesse participar do destino dos outros, a sua vida estaria arruinada: 'Não, não, isso não!'". 
Edith Stein repetia que não havia traído o seu povo ao reconhecer Jesus como Messias. Ela seria proclamada bem-aventurada por João Paulo II em 1987 e santa em 1998. No ano seguinte, também copadroeira da Europa. No dia 12 de abril de 1933, Stein escreveu uma carta ao Vaticano, dirigida ao Papa Pio XI. Ela a enviou através do arquiabade beneditino de Beuron, Raphael Walzer, ao cardeal secretário de Estado, Eugenio Pacelli. 
"Padre Santo! Como filha do povo judeu, que pela graça de Deus é há 11 anos filha da Igreja Católica, me atrevo a expressar ao pai da cristandade o que preocupa milhões de alemães. Há semanas, somos espectadores, na Alemanha, de acontecimentos que envolvem um total desrespeito da justiça e da humanidade, sem falar do amor ao próximo. Durante anos, os líderes do nacional-socialismo pregaram o ódio contra os judeus. Agora que conquistaram poder e armaram os seus seguidores – entre os quais há conhecidos elementos criminosos – recolhem o fruto do ódio semeado". 
Depois de falar dos muitos casos de suicídio de judeus submetidos a vexações pelos nazistas, Edith Stein acrescentava: "Pode-se considerar que os infelizes não tivessem suficiente força moral para suportar o seu destino. Mas se a responsabilidade em grande parte recai sobre aqueles que os levou a tal gesto, ela também recai sobre aqueles que se calam". 
"Tudo o que aconteceu e o que acontece cotidianamente vem de um governo que se diz 'cristão'. Não só os judeus, mas também milhares de fiéis católicos da Alemanha e, creio, de todo o mundo esperam e confiam há semanas que a Igreja de Cristo faça ouvir a sua voz contra tal abuso do nome de Cristo. A idolatria da raça e do poder do Estado, com a qual a rádio martela cotidianamente as massas, não é uma aberta heresia? Essa guerra de extermínio contra o sangue judeu não é uma ultrajem à santíssima humanidade do nosso Salvador, da Santíssima Virgem e dos Apóstolos? Não está em absoluto contraste com o comportamento de nosso Senhor e Redentor, que, mesmo na cruz, rezava pelos seus perseguidores?". 
"Todos nós – concluía a filósofa – que olhamos para a atual situação alemã como filhos fiéis da Igreja tememos o pior para a imagem mundial da própria Igreja, se o silêncio se prolongar ainda mais. Estamos convencidos de que esse silêncio não pode a longo prazo obter a paz do atual governo alemão. A guerra contra o Catolicismo ocorre em silêncio e com sistemas menos brutais do que contra o Judaísmo, mas não menos sistematicamente". 
Como se pode ver, uma denúncia específica e clarividente, acompanhada pelo pedido de um posicionamento por parte da Santa Sé contra o nazismo. A Santa Sé respondeu à carta de Stein. O cardeal Pacelli, escrevendo em alemão, respondeu ao arquiabade beneditino Walker ainda no dia 20 de abril de 1933, informando que a carta "foi devidamente apresentada à Sua Santidade". 
Em 1937, Pio XI publicaria a encíclica “Mit Brennender Sorge”, na qual a ideologia nacional-socialista é condenada como pagã e anticristã.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Oração para católicos frustrados


O jesuíta James Martin, que é autor de um guia jesuíta para quase tudo, "The jesuit guide to (almost) everything: A spirituality for real life" (ler algumas páginas aqui), de um livro sobre humor e cristianismo (ler introdução e primeiro capítulo, fracote, aqui) e de um outro sobre santos para tempos atuais (ver links aqui), escreveu uma oração para católicos frustados. A certa altura, diz:
Ajuda-me a ser pacífico quando as pessoas me dizem que eu não pertenço à Igreja, que eu sou um herege ao tentar fazer as coisas melhor, ou que eu não sou um bom católico. Eu sei que fui batizado. Tu me chamaste pelo nome para estar em tua Igreja, Deus. Enquanto eu respirar, ajuda-me a lembrar como as águas sagradas do batismo me acolheram em tua sagrada família de santos e pecadores. Que a voz que me chamou à tua Igreja seja o que eu ouço quando outras vozes me dizem que eu não sou bem-vindo na Igreja.
Rezar tudo aqui (texto em português e vídeo em inglês).

Episódio gay num romance impede que búlgaro seja embaixador no Vaticano?

Kiril Marichkov

O Vaticano vetou o diplomata búlgaro Kiril Marichkov, que também é jurista e escritor, para embaixador na Santa Sé. As razões para a nega não foram adiantadas, mas diz-se que se devem a um episódio de homossexualidade narrado no livro “Clandestinação” [desconheço o título original; traduzo o espanhol “Clandestinación”], de que o diplomata, casado e com filhos, é autor.

No livro, dedicado à mulher de Kiril, aos filhos e a Deus, um jovem do Leste da Europa prostitui-se com um homem num bairro periférico de Roma e depois vai a uma igreja pedir perdão a Deus.

Li a notícia aqui.

A serem verdade as presunções da imprensa, pesa mais na decisão um episódio de prostituição homossexual do que a denúncia do drama dos imigrantes de Leste. Ou será que o nome do diplomata (não sei como se pronuncia o apelido) causa engulhos – ou talvez risos - nos corredores latinos do Vaticano?

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sentido e amparo

Não nego que a fé dá um «sentido e amparo» últimos. Mas é um sentido e amparo «provados e tentados», que não retiram ao crente partilhar a «fria escuridão do cosmos».

J. I. González Faus

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Anselmo Borges: O trabalho, o ócio, festas e férias


Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (retirado daqui).

O negócio ocupou tudo e esqueceu o ócio, no sentido grego das palavras, como explica o filósofo Gabriel Amengual. Ócio (no grego scholê, no latim otium), em princípio, significa estar livre dos negócios políticos ou do Estado e do governo e de actividades económicas, que, na Antiguidade, se definiam como o não-ócio, o negócio (a-scholía), e implica a orientação para o âmbito do pensar e da contemplação. "Ter ócio" significava festejar, ter alegria e a ocupação própria do tempo descansado - debates, concertos, teatro, etc. -, passando depois a significar o lugar dessas actividades (a escola, scholê). "Ócio significa tempo livre, possibilidade, oportunidade de algo." Neste quadro, o ócio era, para Platão, o pressuposto para a filosofia, em conexão com a liberdade e a verdade. Num contexto de escravatura, era, pois, privilégio dos homens livres. Para superar a tirania e a escravidão, não é, portanto, do ócio para a liberdade e a verdade que precisamos?

Aristóteles mostra a relação entre ócio e negócio ou trabalho: "Somos activos a fim de ter ócio", o que significa que o ócio é de algum modo fim em si mesmo. No início da Modernidade, este primado começou a ser ultrapassado, segundo a ideia de que o saber já não é contemplativo, mas tem como finalidade o domínio da natureza, a utilidade e o poder. Com a segunda revolução industrial, o ócio ficou em conexão com o tempo livre e chegou-se ao paradoxo da "indústria do ócio", de tal modo que tudo se transforma em negócio.

Entre as muitas características do homem, está a de homo faber. Karl Marx escreveu que "o homem se diferencia dos animais a partir do momento em que começa a produzir os seus meios de vida". Referindo-se aos "traços distintivos" estritamente biológicos, como o bipedismo, a estrutura das mãos, com a oposição do polegar, a visão em campos abertos, etc., Eudal Carbonell afirma que "são o substrato biológico sobre o qual se apoiam as aquisições culturais que já são plenamente humanas: a produção de ferramentas, o domínio do fogo, a linguagem duplamente articulada, a arte, a religião...". Mas o que "motiva o seu aparecimento" é "a selecção técnica. Desde o princípio, os humanos adaptam-se porque fabricam ferramentas".

Enquanto o animal se acomoda ao que a natureza dá, o homem, em ordem à satisfação das suas necessidades, transforma-a. O trabalho consiste neste intercâmbio entre o ser humano e a natureza: acolhe a natureza, transforma-a e, nesta transformação, não só recolhe o que precisa para as suas necessidades como se transforma a si próprio, humanizando-se, ao realizar possibilidades.

Na medida em que forma a pessoa e configura as relações sociais, o trabalho, para lá de meio de sobrevivência e realização do indivíduo, adquire o sentido amplo de serviço à sociedade, tanto no trabalho manual, industrial, como no trabalho intelectual, espiritual. Por isso, o desemprego não é só desastroso por pôr em causa os meios de vida, mas também porque fere a dignidade pessoal e marginaliza, impedindo a identidade própria no contributo para a realização da sociedade.

O trabalho vive na ambiguidade, como tudo o que é humano. Assim, pode ser sentido como espaço da liberdade e da auto-realização, mas também da alienação. Não é por acaso que há o trabalho, de tripalium, um instrumento de castigo, e a obra, de érgon, enquanto criação - diz-se de um artista que realizou uma obra.

O ócio, a festa e as férias estão vinculados ao trabalho. O homem é homo laborans, faber e homo festivus. A festa tem originariamente sentido religioso, implicando a suspensão do tempo vulgar; o seu é outro tempo: o tempo originário, sagrado, quando os deuses criaram e puseram a ordem do mundo. As férias, do latim feriae (dies festus), dizem também a interrupção, mas mais longa, das actividades laborais: o homem não é besta de carga.

Uma visão integral do ser humano significa vê-lo na harmonia das suas múltiplas dimensões: "A sua dimensão laboral e cultural-cultural, social e pessoal, activa e contemplativa, produtiva e artística, a dimensão do dever e a do desejo, a determinação e a liberdade", o ter e o ser.

Semana dos Seminários

Parece que se dizem agnósticos (ou o mais conhecido deles). Mas a simbologia católica (sim, mais católica do que simplesmente protestante ou...