domingo, 6 de outubro de 2013

Bento Domingues: "Perdão da dívida"

Terceiro e último ponto do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


Não seria eticamente aceitável fazer despesas com o propósito de as não pagar. Mas o "perdão da dívida", desde as épocas mais recuadas até aos tempos mais recentes, nada tem de insólito. A própria Alemanha, depois de guerras criminosas, beneficiou largamente desse gesto ancestral. 
Há 60 anos, 20 países, entre eles a Grécia, Irlanda e Espanha, decidiram perdoar mais de 60% da dívida da Alemanha Ocidental. Segundo uma análise de Éric Toussaint - historiador e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo -, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, com juros. A dívida do pós-guerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado, em Londres, estes montantes foram reduzidos para 7,5 mil e 7 mil milhões respectivamente. Isto equivale a uma redução de 62,6%. O historiador alemão, Albrecht Ritschl, confirmou que existiu um perdão de dívida gigantesco ao país, que no caso do credor Estados Unidos foi quase total. Em 1953, os Estados Unidos ofereceram à Alemanha um haircut, reduzindo o seu problema de dívida a praticamente nada (Cf. Dinheiro Vivo 28/02/2013). 
Pedir o perdão da dívida pode ter inconvenientes. Não lutar por ele é continuar com o país estrangulado. Na Eucaristia, os cristãos confessam que é no perdão que Deus manifesta o seu poder. Demos essa oportunidade a Angela Merkel.


Amanhã porei o texto todo aqui. Mas desde já digo que não concordo de maneira nenhuma com o perdão da dívida portuguesa. Invocar a situação da Alemanha do pós-guerra para exigir ou pelo menos sugerir um perdão da dívida portuguesa não faz qualquer sentido. E nem sei se não será uma afronta ao povo alemão, destroçado, ainda que por vezes convivente, com o poder totalitário. Em Portugal, não houve guerra, o país não está destruído, não tem de começar do zero. A dívida foi feita livremente pela democracia e o país vive em democracia, apesar de tudo.

Se a dívida portuguesa se fez com consumo (entre outras coisas, certamente), tem de ser paga com menos consumo e mais produção. Além do mais, o discurso de Bento Domingues é contraditório com outro das mesmas bandas que diz que "os ricos paguem as dívidas" ou "a crise". Se os ricos deveriam pagar as dívidas e se agora se pede para que ela seja perdoada, deseja-se que seja perdoada aos ricos? Também me custa, mas eu quero pagar a dívida. Todos devem pagá-la, segundo o princípio cristão-marxista de "cada um segundo as suas capacidades".

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