sábado, 5 de outubro de 2013

Anselmo Borges: "Ratisbona, laicidade e laicismo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Quando, após o que parecia a "Primavera Árabe", surgiu um inverno, igrejas são destruídas e cristãos mortos - o Grande Mufti da Arábia Saudita, Abdul Aziz bin Abdullah, acaba de declarar que "é necessário destruir todas as igrejas da região" -, não falta quem se lembre do famoso discurso de Bento XVI em Ratisbona, no dia 12 de Setembro de 2006. Tratou-se de uma lição universitária na Aula Magna da universidade na qual tinha ensinado. A reacção de alguns sectores muçulmanos foi violenta.

Bento XVI começou por dizer que tinha acabado de ler a parte editada pelo professor Th. Khoury, de Münster, do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo tivera em 1391 com um persa culto sobre o cristianismo e o islão e a verdade de ambos. A um dado momento, o imperador toca o tema da jihad, guerra santa. Certamente, ele sabia que na sura (capítulo) 2, 256, talvez uma das suras do início, quando Maomé ainda não tinha poder e era ameaçado, se lê: "Não deve haver coacção na religião." Mas conhecia também as disposições posteriores acerca da guerra santa. Ora, "de modo surpreendentemente brusco, a ponto de ser para nós inaceitável, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: "Mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua directiva de difundir por meio da espada a fé que pregava"." O imperador explica em seguida as razões por que a difusão da fé através da violência é um comportamento irracional. A violência é contra a natureza de Deus e a natureza da alma. "A Deus não agrada o sangue, diz o imperador. Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus".

É esta a ideia que Bento XVI queria sublinhar: "A afirmação decisiva nesta argumentação contra a conversão através da violência é: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus." Para o imperador, formado na filosofia grega, esta afirmação era evidente. Na compreensão muçulmana, porém, porque Deus é absolutamente transcendente, a Sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas categorias, nem sequer à racionalidade, de tal modo que, se fosse essa a Sua vontade, "o Homem deveria praticar também a idolatria".

Aqui, para Bento XVI, abre-se um dilema que nos desafia: "A convicção de que agir contra a razão está em contradição com a natureza de Deus é só um pensamento grego ou vale sempre e por si? Eu penso que neste ponto se manifesta a profunda concordância entre o que é grego no melhor sentido e o que é fé em Deus com o fundamento na Bíblia." Lá está o prólogo do Evangelho de São João: "No princípio, era o Logos", que significa ao mesmo tempo razão e palavra, "uma razão que é criadora e capaz de comunicar-se, mas precisamente como razão".

Ainda nesse ano, Bento XVI visitou a Turquia. No regresso, declarou que o mundo muçulmano se encontra hoje, "com grande urgência", perante uma tarefa semelhante à dos cristãos a partir do Iluminismo e que o Vaticano II levou a bom termo. "É necessário acolher as verdadeiras conquistas do Iluminismo, os direitos humanos e especialmente a liberdade da fé e do seu exercício, reconhecendo neles elementos essenciais também para a autenticidade da religião." Mas, por outro lado, não deixou de prevenir para os perigos do laicismo, que quer retirar a religião do espaço público, cortando a relação com a Transcendência. Não é aceitável "uma ditadura da razão positivista que exclui Deus da vida da comunidade e dos ordenamentos públicos, privando assim o Homem de critérios específicos seus de medida".

Por mim, penso que este diálogo, que foi tão difícil para Igreja Católica, o será ainda mais para o mundo islâmico. De facto, enquanto Jesus disse que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mandou Pedro meter a espada na bainha, e os cristãos nunca entenderam a Bíblia como ditado de Deus; o Alcorão, para lá de um livro sagrado, vindo directamente de Deus, é um código civil e penal, e Maomé, para lá de fundador religioso, foi também um líder político e militar.

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