quarta-feira, 23 de maio de 2012

Seremos transfigurados



Michel Hubaut
Do Corpo Mortal ao Corpo de Luz
Gráfica de Coimbra 2
238 páginas

Tendo como subtítulo “Fundamentos e significado da ressurreição”, este livro parte da constatação de que a esperança cristã aparece como pouco atraente na cultura atual. Centra-se depois na análise dos textos do Novo Testamento que falam da ressurreição. E numa terceira parte fala da “fé na ressurreição de Cristo e a nossa transfiguração”.

Para falar do que promete a fé cristã, o autor prefere o termo transfiguração a ressurreição. Mas os termos são intercambiáveis, já desde as páginas bíblicas, em que a Transfiguração de Jesus aponta para a Ressurreição. Numa entrevista, esclareceu que “a palavra ressurreição continua a ser um pouco abstrata. A palavra transfiguração visa a mesma realidade. É a tradução da palavra grega «metamorphosis». Ela fala mais ao imaginário. Todas as crianças sabem muito bem o que é a metamorfose, a do bicho-da-seda, por exemplo, que deixa a sua crisálida para desenvolver asas de borboleta. Transfiguração tem a noção de mudança de forma”.

Hubaut detém-se em cada uma das passagens do Novo Testamento sobre a ressurreição de Jesus, no que constitui um ótimo guia para descobrir o sentido de muitas das leituras que são proclamadas no tempo litúrgico pascal. Mas o grande objetivo da obra é atingir cada leitor no momento presente. De pouco adianta falar da ressurreição de Jesus se ela nada tiver a ver com a nossa vida. Por isso, o capítulo mais que atualiza para nós a mensagem que mudou o mundo (“Ele está vivo!”) tem como título “Chamados a ser transfigurados, a nossa ressurreição começa hoje. Jesus transfigurado esclarece o seu itinerário pascal e o nosso”. E aí se realça que, porque a transfiguração já começou, a esperança cristã em vez de nos desmobilizar, impele-nos à transformação (transfiguração) do mundo em mais justiça, mais solidariedade, mais desenvolvimento, mais fraternidade (p. 210).

Para esta obra – e muito outros autores, principalmente da área da Bíblia e da antropologia – , a doutrina católica é capaz de não ser lá muito cristã quando fala do que acontece após a morte. Linguagem defeituosa do corpo e alma, demasiado colada aos conceitos gregos, como aparece no Catecismo e em algumas homilias. Escreve Hubaut:

“Segundo a doutrina oficial da Igreja Católica, só a alma sobrevive depois da morte biológica, uma alma que tem de esperar pela última Vinda de Jesus no fim dos tempos, para reencontrar o seu corpo. Este cenário não é muito coerente com as aparições de Cristo pascal, nem sequer com o conjunto da antropologia bíblica. Podemos perguntar se o cristianismo não se trará deixado contaminar um pouco pelo «dualismo platónico» segundo o qual a alma é uma entidade espiritual, autónoma, prisioneira do corpo” (pág. 112).

O último capítulo é “Ressurreição ou reincarnação”. Impõe-se o esclarecimento, já que a reincarnação bem ganhando terreno no mercado ocidental das crenças, ainda que, como defende o autor, não seja compatível com os conceitos judeocristãos de Deus, Homem, História e Mundo.

Michel Hubaut, padre franciscano, é autor de mais de duas dezenas de livros de teologia e espiritualidade. Anima o centro de espiritualidade e de peregrinações das Grutas de Santo António (o português), em Brive, no centro de França, e é conselheiro de uma associação de pais que perderam filhos.

2 comentários:

Anónimo disse...

Pena que a igreja católica não trate estes assuntos com mais transparência e com mais seriedade.
De qualquer modo, ainda bem que alguém o fez, ainda que com bastante hermetismo.

Jorge Pires Ferreira disse...

Obrigado pelo comentário. A ressurreição é de facto algo de que não se fala. Afirma-se, mas nãos e pensa no assunto. Por que será?

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