sábado, 14 de junho de 2014

Relendo a "Caritas in veritate"

Relendo a "Caritas in veritate", de Bento XVI. Temos aqui o melhor documento para o panorama económico e financeiro da atualidade. Não tem tantos chavões, frases fortes, lugares-comuns, parangonas. Mas tem o equilíbrio que não leva ao repúdio impulsivo. Bem sei, para os tempos das reações instantâneas e epidérmicas não serve. É mais fácil ler (ou ouvir) quatro palavras e não pensar do que ter de refletir.
(N.º 65) Em seguida, é preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. É certamente útil, se não mesmo indispensável em certas circunstâncias, dar vida a iniciativas financeiras nas quais predomine a dimensão humanitária. Isto, porém, não deve fazer esquecer que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, é necessário que não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores. Recta intenção, transparência e busca de bons resultados são compatíveis entre si e não devem jamais ser separados. Se o amor é inteligente, sabe encontrar também os modos para agir segundo uma previdente e justa conveniência, como significativamente indicam muitas experiências no campo do crédito cooperativo.

11 comentários:

Miguel disse...
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Miguel disse...

Relendo a "Evangelii Gaudium"….

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Não a um dinheiro que governa em vez de servir

57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos». ("Evangelii Gaudium" Cap. II)

Miguel disse...
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Miguel disse...

Jorge, sobre a sua frase: “É mais fácil ler (ou ouvir) quatro palavras e não pensar do que ter de refletir.”, não me parece que haja aqui alguma fuga à reflexão, até porque sobra matéria, dentro do pedaço da encíclica que nos “obriga” a todos, a uma reflexão muito séria, do que ali é dito! Mas voltemos ao que diz o (N.º 65):

“Enquanto instrumentos, a economia e as finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos.”

Afinal, de que “modo ético” é que se têm pautado, as acções da economia liberal, usada como instrumento por um governo liberal, a par com grupos económicos e financeiros, de maior destaque e poder económico em Portugal? Terão na verdade, essas acções, contribuído para o desenvolvimento do homem e da nação? É que “desenvolvimento”, é um tema muito abrangente! Por exemplo, a questão da “dimensão humanitária” que é ali tb focada! Atente o que diz sobre essa matéria, a fundação de Soares dos Santos, na sua página oficial, no capítulo: “O que a Fundação não faz”:

http://ffms.pt/fundacao-o_que_faz

Repare bem, quais são os primeiros 3 temas nessa lista das áreas em que a fundação não se envolve:

Saúde - Beneficência - Educação!

De que nos serve que ela gaste milhares em projectos de produção de ideias sociais e outras, se depois, não as coloca em acção! Pois, voltamos à questão da criação de emprego! Acha mesmo que há “almoços grátis” neste domínio! Já viu tais grupos, que olharam sempre para os seus trabalhadores, não como um investimento, mas como um custo, já os viu alguma vez, mais preocupados com estes, do que com o aumento da sua capacidade produtiva! E andamos nós depois em teatralidades, como o são, a maioria desses fóruns e conferencias, a discutir a doutrina social da Igreja! …. Ora, paciência!

Jorge Pires Ferreira disse...

Miguel, não poderei responder-lhe nos próximos dias, mas hei de voltar ao assunto.

Anónimo disse...

Tanto Bento XVI como Francisco têm feito uma critica pertinente ao liberalismo que eu só posso concordar na generalidade. Mas atenção, nao propuseram acabar com tudo, mas sim apontar os maus caminhos qu muitas vezes têm sido seguidos. E isso consegue-se através de uma sociedade civil independente cada vez mais activa e com capacidade critica para afinar o sistema e (seria pedir demais!) com a mudança de cada um no sentido ético. Este sistema permite que estejamos aqui a discutir livremente enquanto q outros sistemas a primeira coisa q nos cortam é o piu e se necessario a seguir o pescoço mas isto para muitos sao apenas pormenores ou precalços no caminho rumo ao tal mundo socialista. Uma coisa q tb nunca toleram é a liberdade de consciencia e religiosa pois isso põe em perigo a verdade unica. Fico pasmado como isto q estou aqui a afirmar nao está clarinho para mt q persistem na estupidez e na utupia de um regime estatal q obrigatoriamente origina o pensamento unico...até qd.
Jacome

Anónimo disse...

Ai frei Bento; o teu cristianismo é só teu.

Miguel disse...
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Miguel disse...

Tudo bem Jorge, esteja à vontade. Estamos a trocar e a partilhar opiniões e factos na busca de abrir caminhos à luz da verdade, e não a cumprir “programa”! Obrigado pela sua abertura!

As melhoras para a sua Mãe.

Miguel disse...

Jacome, esta “resposta”, vai na direcção do seu comentário das (12:33 da manhã) no post “Irlanda” e agora tb a este das (1:55 da tarde)!

Meu caro, não consigo perceber a sua fixação! Como se eu estivesse aqui, a fazer a apologia do “socialismo/comunismo” e ainda por cima, usando para isso o próprio Evangelho! O caro não me tinha pedido uma proposta!? E eu não fui claro!? Repito-a: o EVANGELHO… Mas qual é a dificuldade! Acha-a mesmo uma utopia e algo impraticável! Eu sei que vivemos numa realidade em que há (!!!), separação entre Igreja e Estado! Mas o Estado não é abstracto, ele é feito de pessoas! E entre essas pessoas, estão também aqueles que se identificam como católicos, que, na realidade portuguesa, segundo uma sondagem da UCP, serão sete milhões, (não entro agora n questão dos “católicos praticantes” que diz também a mesma sondagem, ficam pelos 1,8 milhões.) A questão que importa agora é: como é que estes sete milhões (e não só os católicos, mas todos os cristãos), como é que estes exercem, ou têm exercido, a sua cidadania, à luz do Evangelho!

A política não é um conceito abstracto, ela é feita de acções, numa cadeia de interdependências, com impacto na vida de todos! Os cristãos leigos, como o Jacome e eu, não podemos separar a nossa vida, (sobretudo os temas da justiça social, da moral e da ética), nem a fragmentar em direcções diferentes conforme os nossos interesses pessoais!

"Não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida espiritual, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida secular, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura". João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, n. 59.

E o Catecismo também é muito claro no tema: P.58.3 Cristãos leigos e a construção da política: §899 A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e económicas com as exigências da doutrina e da vida cristãs. Esta iniciativa é um elemento normal da vida da Igreja.

Resumindo: o que estou a propor não é mais um sistema político-económico, mas um estilo e uma forma de vida aplicada em todos os sectores da sociedade; o Evangelho! Sermos fermento, sairmos todos das nossas “zonas de conforto” e agir como sujeitos activos, não como sujeitos passivos, peões de um jogo de uma pequena elite de decisores políticos e económico/financeiros! É a partir desta via, propondo (e isso começa pelo testemunho), não impondo, que conseguiremos a MUDANÇA para uma vida digna e autêntica, bem longe dessas mentiras que todos esses sistemas nos querem impingir à força de um poder, que até pode ter sido adquirido na legalidade de umas eleições, mas que na maior parte das vezes, se conseguiu alcançar, à custa de muita manipulação e mentira!

"Temos que nos envolver na política, porque ela é uma das formas mais altas de caridade". Papa Francisco

Anónimo disse...

caro Miguel não tenho qq fixação sobre a questão comunismo/socialismo apenas dei alguma atentão ao assunto pq após o ter abordado ao de leve no meu 1º comentário você disse q lhe fazia lembrar "queles sermões exorcizadores da figura do papão comunismo, das manhãs de Sábado (era o dia dedicado à religião e moral!), numa primária, segregadora de sexos, ainda em tempos do estado Novo!". Fiquei com a ideia q vocÊ estava a exercer aquele tipo de coação normalmnente aplicada àqueles q falam sobre este assunto o q considero intolerável. para mim infelizmente os papões não desapareceram - este e os outros no extremo oposto - a unica diferença é que uns aparecem a fazer estrondo e outros sempre com o cadastro estranhamente ´limpo' entram de mansinho normalmente secundados por muita gente com 'bom curriculo'.

Mas não se fala mais sobre o assunto.

Por fim não posso deixar de afirmar q assino por baixo o seu ultimo comentário.
Jacome

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