domingo, 26 de maio de 2013

"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"


Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um ano. E regressou num ou noutro comentário  de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em erro.

Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro, nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso, vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aquirefiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos para aqueles tempos e os tempos de hoje.

A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos” repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não pode mentir, errar, enganar.

Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).

Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos, esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época, pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais, como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam continuar.

Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.

Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.

Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto. Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.

O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador… jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.

12 comentários:

Anónimo disse...

Caro Jorge. Pare e leia atentamente o que escreveu. O argumento que usa para negar a existência de demónios serve, por um paralelismo e na perfeição, para negar a possibilidade da ordenação feminina. Já se deu conta disso? Imagino que não. Deixo-lhe a chamada de atenção, não insultando a sua inteligência ao explicar a razão do mencionado paralelismo.

Peter disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Pires Ferreira disse...

Imagina mal. E é precisamente o contrário do que diz. Por causa das conceções culturais (e por outras razões) seria "impossível" Jesus escolher seis apóstolos mulheres, se é que pensa que o sacerdócio ministerial está ligado Doze, que eram 12, todos homens e todos judeus.

De qualquer maneira, o que escrevi vale para o diabo/demónios. Noutros momentos já disse o que penso sobre Jesus e as mulheres e não julgo haver contradição entre uma coisa e outra. Pelo contrário, há relação (mais que não seja concomitante nas mesmas pessoas) entre a defesa da existência pessoal do diabo e a desvalorização da mulher.

Peço-lhe, por fim, que faça o favor de insultar a minha inteligência explicando o aludido paralelismo.

E já agora, ainda mais um ponto em relação ao que o anónimo pensa: acredita na existência pessoal do diabo? Defende a ordenação das mulheres?

Peter disse...

Não consigo descortinar a intenção ou o objectivo, (eu até compreendo que o “diabólico” pode tornar-se um oposto do “simbólico” e que este último corre o risco quando o outro ganha espaço no coração humano, de ser submetido depois a um processo de desconstrução, de desintegração e por aí adiante…!) Agora imagine-se tal situação para aqueles que fazem do(s) simbolismo(s) o asfalto dos caminhos das suas crenças! Bom, até aqui tudo bem, é compreensível… Mas por outro lado, fico confuso, pois a constatar pelas reacções, parece que se ”deseja” manter e alimentar a “coisa”…!

Mas o que mais me intriga é ainda existir espaço para uma visão redutora e tão carregada de um literalismo bíblico que até faz aflição, refiro-me ao que foi exposto nesses argumentos apontados no facebook aqui partilhados! E pelos visto parece que partiu de alguém que passeia à vontade por tal área “académica”… adiante! Mas será mesmo possível que ainda não se tenha percebido-apreendido que tais narrativas não passam disso mesmo, que elas são apenas “narrativas” e estão carregadas de simbolismos, imagens e mensagens concretas com objectivos claros no horizonte kerigmático a que se propunham os narradores! Mas alguém ainda tem dúvidas disso e acha que é assim tão inacessível e complicado fazer-se uma exegese séria e simples que desmonta e descodifica facilmente tais narrativas uma a uma! Vou só usar um exemplo com o caso do “Gadareno” em Marcos 5.1-20… atente-se na codificação, nas imagens e nos simbolismos que se podem encontrar em tal narrativa:

Gadareno: habitante de Gadara uma cidade ocupada pelos Romanos depois de já ter anteriormente sofrido outras ocupações de povos diferentes e até destruição…!

Gadara:nome de origem semítica derivada do termo hebraico “gader” que significa “cercado ou fronteira”…! Agora reparem na situação do Gadareno, não só estava possuído como também cercado com a sua vida delimitada pelos romanos e pelo poder do mal e ainda por cima preso por cadeias que intrigadamente não eram sólidas ao ponto de ele conseguir quebrá-las! Repare-se aqui nos detalhes: o pobre homem estava possuído por um demónio que se chamava a si próprio de ”legião” (atente-se ao paralelismo com as legiões romanas que ocupavam e os escravizavam..) e depois o tema das grilhetas! Mas afinal porque é que aquela gente não arranjou grilhetas sólidas, ou será que eram também cúmplices de uma situação que lhes interessava manter, (não esqueçamos que eles também o alimentavam), quem sabe, talvez assim não se expunham directamente, usando o pobre homem numa espécie de porta-voz da dor e revolta projectada pelo colectivo naqueles seus gritos que no fundo representavam tudo aquilo que eles também sentiam e viviam como povo dominado-ocupado!

Outro paralelismo no “lançar ao mar" dos porcos: atente-se na história da caminhada de Israel e o simbolismo do mar na linguagem bíblia (a morte, o abismo onde acaba tudo… etc…)… e na simbologia de teor politico-religioso que aqui também está impressa: demónio, porcos, legião… sobretudo quando colocados dentro do espaço judaico…!

Muito fica por dizer… no entanto, não quero deixar de reafirmar que o interesse de Jesus era e foi sempre e somente a libertação total da pessoa em todas as suas dimensões… Jesus nunca perdeu tempo com explicações nem com teses doutrinais sobre o campo da Demonologia… e na maior parte das vezes, perante as situações nem sequer era necessário que ele actua-se, bastava-lhe apenas estar presente como ainda hoje, para o mal mostrar imediatamente o seu verdadeiro rosto que está bem definido e presente no coração dos “homens” de todos os tempos..!

maria disse...

e Cristo podia ter deixado a fórmula para extinguir pulgas e carraças e melgas etc., etc., etc...foi mesmo má vontade, caramba!

Anónimo disse...


Peter, não pude deixar de me envolver nas descodificações dessas passagens que colocou acima, que desconhecia e que achei muito interessantes.

A literatura evangélica é muito pobre em termos de estudos bíblicos, sendo a maioria de natureza apologética.

Assim, eu vou procurando na net um ou outro artigo católico, e por vezes compro um ou outro volume de origem católica. A última obra que comprei foi: "Quem foi, que, é Jesus Cristo", que consta de uma série de artigos de autores diversos sob a coordenação de Anselmo Borges. (Penso que não me enganei no nome). Também comprei, (e gostei), da trilogia de Bento XVI sobre Jesus.

Mas gostaria de comprar algo mais "técnico" e profundo, onde possa encontrar as interpretações / descodificações de que falou. Aconselha-me alguma(s) obra(s) em particular? (De preferência em português ou espanhol).

Sou evangélico mas não sou fanático, e gosto sempre de aprender.

Cumprimentos.

JMC

Peter disse...

JCM, decerto deu-se conta que a minha intervenção foi apressada e desorganizada, apenas apontei algumas questões que podem certamente ser muito mais desenvolvidas e com outro cuidado e aprofundamento, (imagine que cada simbologia apontada dava para páginas inteiras de descodificações e significados)… mas a pressa do momento, e também o espaço não permite ir muito longe!

JMC, como é um Irmão evangélico deve conhecer Rudolf Bultmann e a sua obra, sobretudo a sua “concepção hermenêutica”…! para mim um dos melhores autores na área, e olhe que ele vem do lado “luterano”… meu caro, afinal existe material muito bom desse lado também..risos! Deixo-lhe aqui um blog onde pode encontrar uma listagem das suas obras mais importantes:

http://rudolfbultmann.blogspot.pt/2013/04/a-obra-de-bultmann.html

Já agora, penso que seria bom se pudesse também abordar a “Hermenêutica Ricoeuriana” outro autor bastante bom que é Paul Ricoeur… eu gosto imenso dele, sobretudo da sua “hermenêutica da suspeita”…!

Já do lado católico, é “obrigatório” para quem quer caminhar por tal área começar por ler a “Dei Verbum”:

http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

Depois, tem outras obras como por exemplo:

“Metodologia de Exegese Bíblica.” São Paulo: Paulinas (Cássio Murilo Dias da Silva)

”Bíblia, literatura e linguagem” Paulus (Júlio Paulo Tavares Zabatiero e João Leonel)

”Psicologia histórica do Novo Testamento”(Klaus Berger) Paulus «trata do diálogo moderno entre a psicologia e a exegese…»

Por fim, deixo-lhe um trabalho também muito bom em PDF:

”Análise literária e exegese bíblica” (Camile Focant):

https://docs.google.com/file/d/0B9NYHdRmfMfZemZ4bGhlZi1lcjQ/edit

JMC, material não falta... já sobre a obra de Bento XVI é excelente sim,(foi até uma surpresa para mim!).. a outra que citou com Anselmo Borges tb está muito boa…

Saudações

Anónimo disse...


Obrigado pelas indicações, Peter.

Já li algo de Bultmann sobre a desmitologização, mas penso que este teólogo protestante já está de certa forma "ultrapassado" pela teologia que surgiu posteriormente.

Já ouvi falar de Paul Ricoeur mas não conheço nada dele. Vou procurar algo.

Quanto às demais indicações que me facultou, anotei-as todas e vou tê-las em consideração a fim de me aprofundar nestas temáticas.

Vi também já há uns tempos um comentário bíblico em 3 volumes, (das Edições Loyola), que estou tentado a comprar.

Mais uma vez, obrigado

JMC

Anónimo disse...

Depois de tantos comentários e apenas começando pelo titulo, ou seja, a existência do demónio, sinto que existe, assim como existem pessoas boas, isto é, nas sagradas escrituras falasse no demónio e, como tal, não venham sacerdotes dizer que isso é uma metáfora para outras coisas e não verdadeiramente a existência do maligno. Ele existe verdadeiramente e o facto de estarmos cada vez menos a pensar que não existe, já é um êxito para ele mesmo, crermos que não é verdade.

Jorge Pires Ferreira disse...

Caro anónimo das 10:12. O título é uma citação sobre um modo típico de pensar. O que defendo é que apesar de Jesus ter expulsado demónios, eles não existem enquanto seres sobrenaturais (como a teologia os elaborou séculos mais tarde) e no entanto Jesus não nos enganou.

Anónimo disse...

" O que defendo é que apesar de Jesus ter expulsado demónios, eles não existem enquanto seres sobrenaturais." Esta afirmação é de uma pessoa que não tem conhecimento sobre o que são eles. Eles são sobrenaturais e têm poder...mais poder e força do que a humanidade pensa. Sabe porque que eu digo isto. Porque vi eles e sei do que eles são capazes!

Jorge Pires Ferreira disse...

Caro anónimo, se viu, se sabe, se tem certezas, diga-mas, mostre-mas, por favor. Só enunciar não serve, porque isso é o que todos podem fazer. Se não quiser partilhar com todos, partilhe só comigo: jorgepiresf@gmail.com

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