sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mário Soares: "O Papa dos pobres"

Texto de Mário Soares no DN de 3 de abril. Daqui.

Os portugueses sabem que não sou religioso, apesar de o meu Pai ter sido um católico praticante e antigo padre capelão e ter posto uma ação no Vaticano - com êxito - para poder casar-se com a minha Mãe pela Igreja, como aconteceu, tinha eu oito ou nove anos.

Mas não sou ateu, sou agnóstico, por nessa matéria não ter certezas, só dúvidas. Aliás, sempre me interessei pelas religiões monoteístas, do cristianismo ao budismo, dos ortodoxos aos muçulmanos, sunitas, xiitas e os outros. Na minha modesta biblioteca tenho livros de todos eles.

É sabido, de resto, que durante cerca de dois anos fui nomeado, pelo primeiro-ministro Sócrates e pelo ministro da Justiça, Alberto Costa, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, onde estive voluntariamente e sem aceitar sequer senhas de presença. Onde aliás aprendi muito, com os membros da Comissão, representantes de todas as religiões, existentes em Portugal. Que são mais do que se julga, desde os católicos aos judeus, dos muçulmanos aos protestantes, aos budistas e aos hindus.

Vem isto a propósito do Papa dos pobres, o italo-argentino, antigo cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco (em homenagem a Francisco de Assis), antigo jesuíta, hoje chamado o Papa dos pobres. Porquê? Porque a sua mensagem e preocupação desde o primeiro dia do seu mandato são os pobres, os que sofrem por terem grandes carências. É pois o Papa dos pobres e do apego à simplicidade, sejam católicos, ateus ou de outras religiões - como disse e repetiu -, todos são irmãos e filhos de Deus.

É pois um Papa antineoliberal, valorizando as pessoas, em favor do Estado social, sem dar valor ao dinheiro, às riquezas, à ostentação, mas sim aos pobres, independentemente das religiões que praticam e mesmo dos que são ateus, porque, segundo ele, são todos filhos de Deus. Com a sua simplicidade, visitando os presos, lavando e beijando os pés das mulheres e dos homens, como iguais, visitando o seu antecessor, o Papa a que chamou emérito, Bento XVI, Francisco conquistou não só os católicos mas a gente de todas as religiões - e os não religiosos - provocando uma verdadeira revolução pacífica no Vaticano, afastando a ostentação, a riqueza inútil e a corrupção, em favor dos pobres e dos que sofrem, sejam de que religiões forem ou mesmo de nenhuma. A crise da instituição eclesiástica é profunda e deve ser ultrapassada, como disse o teólogo Leonardo Boff. É o que pretende o Papa Francisco.

Confesso que, como não religioso, este Papa me fascina. Como me fascinou João XXIII, que lançou o Concílio Vaticano II. Para varrer a Igreja Católica da corrupção, da pedofilia e da ostentação da riqueza precisávamos de um Papa vindo da América Latina, onde o catolicismo é aberto e progressista, com uma visão anti-neoliberal e anticapitalismo selvagem. Não podia ser da Europa, cujos dirigentes são incapazes e sedentos tão-só de dinheiro e não veem outra coisa. Podia vir do Brasil ou de outro país latino. Mas este enche-me as medidas, com o facto de ter 76 anos e uma experiência imensa que o levou de Santo Inácio de Loyola a Francisco de Assis. Um caminho muito original. Sabe o que quer e tem a coragem de defender o Estado social. E atacar os mercados usurários. Não tem papas na língua e está decidido. Oxalá não o eliminem, como sucedeu com alguns outros. Seria o começo do fim do Vaticano e o descrédito absoluto da Igreja Católica.

12 comentários:

Anónimo disse...

se por um lado não posso deixar de ficar contente por Mario Soares gostar de Francisco, sempre me espanto com Mario Soares: essa de afirmar que se interessa pelas religiões monoteistas entre elas o budismo(!!!). E depois as acusações de corrupção, pedofilia e ostentação de riqueza da Igreja vindas de alguém que o Estado engorda, que é conduzido num mercedes de alta cilindrada pago (o carro e as multas) por todos nós, de alguém que abafou por completo o escandalo de Macau, de alguém que nunca produzio nenhuma afirmação acerca da pedofilia entre politicos e diplomatas nacionais, alguns seus amigos. é esta ligeireza e este à vontade dos pregadores da ética republicana que me repugna profundamente e tão só porque é sectaria e tem sempre uma agenda pessoal e de interesses por trás. e por fim revela a sua habitual ligeireza na abordagem dos assuntos , neste caso recai na figura de Francisco, pois Tanto JPII como Bento XVI já se tinham referido aos erros do capitalismo selvagem e todos os outros assuntos. Francisco limitou-se a ser ele próprio e logo muitos julgaram que eram gestos politicos de confronto com o passado. São lógicas diferentes que a cabecinha politica e narcisica de Soares, infelizmente, não alcança
Saudações
Jacome

Anónimo disse...


A empáfia oca deste homem nunca deixará de provocar o meu riso.

Rui Jardim

Anónimo disse...

"Oxalá não o eliminem como aconteceu com outros". Ui. Está a ir pelas teorias da conspiração?

Anónimo disse...

Um texto que será do apresso do autor deste blog:


To say that resurrection is essential doesn’t mean that if someone were to discover a tomb with Jesus’ remains in it that the entire enterprise would come crashing down. The truth is that we don’t know what happened to Jesus after his death, anymore than we can know what will happen to us. What we do know from the stories handed down is how Jesus’ followers experienced his resurrection. What we know is how we experience resurrection ourselves.

That experience is the beginning of faith, not in the sense of intellectual acceptance of an outlandish proposition, but of being touched by something so powerful that it changes you, or so gentle that it gives you courage to persevere when life is crushingly hard…

Anónimo disse...


O "Oxalá não o eliminem" é muito bom, mas o melhor
autoridade que atribui a si próprio pelo facto de ser filho de um antigo padre e ter sido nomeado por um maçon para uma comissão onde, com grande espírito franciscano, não recebeu sequer senhas de presença. Genial!

Rui J.

Anónimo disse...

a lata e o desplante permite-lhe afirmar que esteve como voluntário mas não aceitou 'sequer' senhas de presença!!!!!!, de onde se conclui que aqui abriu uma excepção pois normalmente recebe senhas de presença maiores ou menores independentemente de se apresentar como convidado ou voluntário. Um Estado assim também eu quero para mim! (não quero nada). É apenas uma grande lição (mais uma) de soberba e orgulho do 'pai da democracia'
Jacome

Paulo Francisco disse...

Agora a sério: qual o interesse deste artigo? Que novidade apresenta,que argumentos? Se o interesse é o autor,confesso que nunca me interessou.

Leiamos o nosso Papa Francisco:

"Purtroppo, spesso si è cercato di oscurare la fede nella Risurrezione di Gesù, e anche fra gli stessi credenti si sono insinuati dubbi. Un po’ quella fede “all’acqua di rose”, come diciamo noi; non è la fede forte.", Audiência Geral de 3 de Abril

A ver se alguns aí acordam para a Fé Católica forte e se deixam da fé à la carte.

Euro2cent disse...

Já está tudo dito acima.

Talvez falte realçar a alegre inconsciência com que escritos tão reveladores são produzidos e publicados.

De facto, o peixe não se apercebe da água. Ou, neste caso, da lama.

Anónimo disse...

Caro Paulo Francisco, viver ou caminhar pela Fé exige sempre escolhas, e elas devem ser livres e conscientes… não se trata aqui de escolher ou não os “pratos” que nos colocam à mesa da Fé, mas de fazer um caminho com a razão e o coração juntos! O caminho com Deus não é estático e ele exige sempre um renovar-se… a Palavra é sempre NOVIDADE…e a sua “força” está no Espírito Santo que lhe dá a FORMA e o conteúdo, e não está dependente de uma qualquer doutrina humana… por mais semelhanças e fidelidades que ela tenha com o Evangelho! Uma “Fé Católica forte” só pode acontecer se ela deixa espaço para essa liberdade de fazer escolhas do Caminho que nos levam-apontam sempre a mais horizontes do que aqueles que os homens nos indicam, por mais santos que eles sejam! Todos fazemos caminhos… todos buscamos, e essa BUSCA não se esgota num compêndio de doutrinas já encerrado definitivamente pela via da força de decisões puramente humanas às exigências que nos trazem o RENOVO que nos sopra constantemente o Espírito Santo!

Peter

Anónimo disse...

. Este blogue, é uma espécie de rede de pesca de arrastão.Como em Portugal não há um pensamento filosófico e teológico, toca a meter aqui todos (-os poucos !)que escrevem sobre este assunto.Isto é pouquinho, para a nossa Igreja Católica. Mais esforço e melhores leituras! Em Portugal, a nossa fé só ganha com isso. Quem não sai da mediania, do politicamente correcto português, não sai da cepa torta.

Anónimo disse...

Ui... o Peter, cristão frustrado cheio de verborreia, deve estar com as "orelhas quentes" com o comentário das 11:32AM...

Anónimo disse...

Concordo com o Sr. Paulo Francisco.
Nem percebo em que sentido a "Fé forte" na Ressurreição impeça ou dificulte o caminho a que Sr. Peter faz referência.

O Sr. das 11:32 tem razão. Mas é de louvar o esforço que o autor faz de, publicando-os, suscitar alguma boa discussão - mesmo se na maioria das vezes se ataca mais as personalidades que o escrevem.

Neste caso, tenho todo o respeito pelo Dr. Soares, mas o texto é fraquinho, sim.

Maria João Brás

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