quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A mulher de Jesus, os filhos e a nora de Deus



A notícia de hoje é que um “papiro cita Jesus a falar da sua mulher”, segundo o “Público” (aqui). E o DN pergunta: “Será que Jesus foi casado?” (aqui).

Os factos resumem-se a isto:
Uma historiadora norte-americana [Karen King, da Universidade de Harvard] revelou num congresso em Roma ter identificado um papiro escrito no século IV com uma frase que nunca se viu nos Escrituras: “Jesus disse-lhes: ‘A minha mulher…”
Sobre a origem do bocadinho de papiro (uns 8 por 4 centímetros), convém acrescentar o seguinte, que as notícias acima não referem (li aqui):
Karen diz que ficou sabendo do que chama de "O Evangelho da Mulher de Jesus" quando recebeu, em 2010, um e-mail de um colecionador de papiros coptas, gregos e arábicos com um pedido de ajuda para traduzir o documento. O colecionador o comprou em 1997 de um professor de egiptologia alemão. Não se sabe onde, quando ou como o papiro foi descoberto originalmente.  
Karen recebeu o fragmento em dezembro passado. Após três meses, ela o levou a Nova York para mostrá-lo a dois papirologistas, das renomadas Universidades de Nova York e Princeton. Eles concluíram que "é algo impossível de falsificar" e que o significado das palavras "minha mulher" não pode ser questionado. A idade do fragmento será confirmada por espectroscopia.
Claro que, para muitos, com agendas mais ou menos explícitas (casamento dos padres, ordenação de casados e casadas), um eventual casamento de Jesus dá jeito para algumas reivindicações ou estraga os fundamentos de certas teologias, consoante o lado da barricada. Mas, lê-se no “Público”…
…Isto não quer dizer que Jesus, o homem real, tenha sido casado, sublinhou Karen L. King, investigadora da Harvard Divinity School ao New York Times, que viu o papiro e falou com a historiadora antes de ela revelar o seu trabalho esta terça-feira em Roma, no Congresso Internacional de Estudos Coptas. 
Este texto terá sido escrito vários séculos depois da vida de Jesus, e as fontes mais contemporâneas são omissas nesse importante pormenor. Mas, a confirmar-se a veracidade deste papiro, é mais uma prova de que havia uma grande discussão na altura sobre se Jesus era celibatário ou casado, e qual a via que os seus seguidores deveriam seguir, disse King ao New York Times. 
“Já sabíamos que havia uma controvérsia no século II sobre se Jesus era casado, que foi incluída no debate sobre se os cristãos deviam casar-se e fazer sexo”, explicou a investigadora, que é especialista em literatura copta e escreveu livros sobre o Evangelho de Judas, o Evangelho de Maria Madalena, o gnosticismo e as mulheres na antiguidade.
Se o Papiro é do séc. IV, é já algo tardio, digamos, em relação ao Novo Testamento (cujos últimos livros são de por volta do ano 100 d.C.) e a Clemente de Alexandria, que morreu por volta de 215. Segundo o DN, foi este o primeiro a dizer que Jesus não era casado.
"Desde o início, os cristãos discordavam sobre se era melhor não casar, mas só um século após a morte de Jesus começaram a recorrer ao estatuto marital de Jesus para defender as suas posições", indicou [Karen King]. Só a partir de 200 d.C. é que começaram a surgir indicações, através de um teólogo conhecido como Clement de Alexandria, de que Jesus não era casado. "Este fragmento sugere que outros cristãos do mesmo período defendiam que era casado", concluiu.
Pode-se colocar, então, uma questão: um papiro é suficiente para negar a tradição – ainda que sem fundamento neotestamentário – de Jesus ter sido celibatário?

John P. Meier, biblista norte-americano, padre diocesano - e não jesuíta, ao contrário do que refere Bento  XVI na página 438 do seu primeiro volume sobre Jesus -, refere uma “influência subliminar” de Jesus célibe e aponta uma obra como sendo a primeira a defender o casamento de Jesus, de William E. Philips ("Was Jesus Married?"). Crê, no entanto, haver “razões sólidas para afirmar que Jesus foi célibe” (pag. 343 do vol I de “Un Judío Marginal”).

A questão de se era melhor casar ou não, a que supostamente o papiro quer sugerir uma resposta a partir dos procedimentos de Jesus, aparece já no NT, nas cartas de Paulo, em I Coríntios. O contexto, dizem, era de convicção de que o fim do mundo estava próximo (para quê ter filhos e netos, se isto vai durar pouco?). Ora, Paulo é omisso em relação à prática de Jesus.
Relendo São Paulo, capítulo 7 de I Coríntios, é curioso notar os conselhos que dá sobre matrimónio, celibato e virgindade. Só invoca uma vez a autoridade de Jesus Cristo: “Aos que estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (…), e o marido não repudie a mulher (v. 10)”. (Não cabe aqui interpretar o preceito, mas sabe-se bem o que significava o divórcio para a mulher em termos de degradação da sua condição social). De resto, diz: “Aos outros, digo eu, não o Senhor…” (v. 12). E ainda: “A respeito de quem é solteiro, não tenho nenhum preceito do Senhor, mas dou um conselho…” (v. 25). O Apóstolo preocupa-se em separar o que é do seu pensamento e o que tem origens no Senhor.
Citei-me a mim próprio (aqui).

Se Jesus tivesse sido casado, São Paulo teria sabido? Parece-me que sim. Mas também teria sabido se fosse solteiro. Por outro lado, o Senhor de Paulo é o Jesus ressuscitado. Se Paulo não diz que Jesus foi casado ou solteiro e se não retira qualquer conclusão da condição de Jesus, o que significa isto?

Significa algo de muito concreto, pelo menos assim me parece. Não devemos justificar com Jesus as nossas opções de estado civil ou condição sexual, nem esperar que Ele nos diga o que deve ser uma decisão nossa. Digo isto numa perspetiva individual e eclesial.

Sobre esta questão, Anselmo Borges escreveu aqui (ele diz que Jesus foi celibatário) e deixei lá duas notas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Posso estar enganado, mas para a fé cristã é relativamente indiferente se Jesus teve ou não uma mulher. Mas não é isso que este manuscrito diz. Independentemente de poder ser um texto gnóstico assaz tardio e em contraposição à mensagem dos textos mais antigos sobre Jesus, até se pode admitir que Jesus estivesse a falar da Igreja ou a relatar uma mera parábola.

Fernando d'Costa

Rui Almeida disse...

No Facebook, a propósito deste assunto, o meu amigo Ruy Ventura escreveu: «Se eu escrever um papel a dizer que o Juan Carlos de Espanha é casado com Angela Merkl e ele for achado daqui por 2000 anos prova alguma coisa?»
Eu acrescentei: «e há ainda a questão de q em Espanha haverá mais gente a chamar-se Juan Carlos e a família Merkl pode ter mais do q uma Angela.»
Depois, alguém comentou mais isto: «.....mas eu acho que o papiro fala da mulher do......Jorge Jesus.....»

Anónimo disse...

Este, como outros, são achados importantes e que devem ser alvo de averiguação e reflexão. Quanto ao facto de Jesus ter sido casado ou não. A mim, sinceramente, não incomoda, mas em termos de dogmas católicos... Eu vejo Jesus como um modelo a seguir e não como um modelo a copiar. Sigo os seus ensinamentos nas palavras e nos actos, não tento ser o seu clone (se ele casou, eu caso; se ele tinha cabelo comprido, eu tenho; se ....). No entanto, para algumas pessoas este, e outros achados, poderão fazer alguma confusão.

Jorge Pires Ferreira disse...

Há tempos o sr. Pingo Doce chamou "filha" à jornalista Anabela Mota Ribeiro (http://tribodejacob.blogspot.pt/2012/09/os-pingos-amargos-do-sr-pingo-doce.html) e ela acusou-o de paternalismo (essa parte não a citei)...

De qualquer forma, no papiro aparece "minha mulher" no sentido de "minha esposa" (abaixo de Coimbra ninguém diz "minha esposa"), se se traduz o copta por "my wife"...

Trata-se de um apócrifo (e conhecem-se as mirabolâncias de muitos outros apócrifos, como Jesus a fazer uma palmeira dobrar-se para amanhar as tâmaras). Mas poder ser um bom pretexto para afirmar que sobre a sexualidade de Jesus, nada. Só suposições.


Anónimo disse...

Afinal é uma fraude...

Vamos ver se há uma correria dos media a rectificar o que disseram. Mas não creio.

Fernando d'Costa

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