segunda-feira, 7 de maio de 2012

Com tanta culpa, estamos a ficar mais judeus

O Abrupto (Pacheco Pereira) enumera-se as novas culpas (aqui):


Ser pobre é uma culpa
(Significa não ser competitivo, ser preguiçoso, depender dos subsídios, explorando as novas gerações e hipotecando o seu futuro.)

Ser funcionário público é uma culpa.
(Viver a expensas dos contribuintes.)

Ser desempregado é uma culpa. 
(Não ser competitivo no mercado de trabalho, não se ser “empreendedor”.)

Ser desempregado de longa duração é uma culpa. 
(Sinal de preguiça e não-“ajustamento”. Condição sensível à “pieguice”.)

Ser desempregado com mais de quarenta anos é uma culpa. 
(Não se ter “adaptado” a tempo. Condição sensível à “pieguice”.)

Ser desempregado com vinte anos é uma culpa. 
(Não ter escolhido uma formação com “empregabilidade”.)

Ter estudado História é uma culpa. 
(Escolher ser não-empregável.)

Ter estudado Filosofia é uma culpa. 
(Escolher ser não-empregável.)

Ter estudado Literatura é uma culpa. 
(Escolher ser não-empregável.)

Ter estudado Sociologia é uma culpa. 
(Escolher ser não-empregável.)

Ser de “humanidades” é uma culpa. 
(Escolher ser não-empregável.)

Viver mais do que sessenta e cinco anos é uma culpa
(Ameaça à segurança social por via das reformas.)

Exercer os seus direitos legais à reforma é uma culpa. 
(Significa pensar que se tem direitos quando não se tem nenhum. As carreiras contributivas para a segurança social são mais úteis para controlar o défice.)

Ter nascido entre 1940 e 1950 é uma culpa. 
(Fazer parte da geração maldita dos anos sessenta que tem todas as ideias erradas.)

Ter nascido entre 1950 e 1960 é uma culpa. 
(Fazer parte da geração maldita dos anos setenta, a segunda em perigosidade depois da dos anos sessenta.)

Ter nascido entre 1960 e 1970 é uma culpa.
(É a geração do “cavaquismo”, como se sabe, um resquício de um PSD  “social-democrata” anacrónico.)

Ter nascido entre 1970 e 1980 é uma culpa.
(Idem.)

Estar vivo e adulto em 2012 é uma culpa.
(Viveu-se “acima das suas posses”.)

Estar vivo no 25 de Abril de 1974 é uma culpa. 
(Veja-se este comunicado da JSD:  “O sucesso da marca do 25 de Abril e da conquista da democracia será tanto maior quanto menos depender dos agentes da mudança de 1974.”)

Não pensar que o 25 de Abril é uma “marca”, é uma culpa. 
(Sinal de “corporativismo” a favor de uma marca duvidosa.)

Ter direitos sociais é uma culpa. 
(O que é bom é ser-se contra os direitos, em particular quando a família é rica.)

Não ter uma família rica é uma culpa. 
(Significa que os pais e os avós já não foram competitivos, genética errada.)

Ser sindicalizado é uma culpa. 
(Fazer parte das forças do bloqueio antiquadas que resistem ao “ajustamento”.)

Viver fora de moda é uma culpa. 
(Significa não querer ser competitivo.)

Duvidar do modo como somos governados é uma culpa. 
(Ser-se “socratista” ou “velho do Restelo”.)

(Podia continuar sempre.)


Fim de citação.



Agradeço a HD, que me alertou para o catálogo.

Tal acentuar da culpa recordou-me uma passagem de "Angels in America", de que julgo já ter falado neste blogue para dizer que o perdão é coisa dos católicos. Os judeus só têm culpa. 

Estamos assim a ficar mais judeus, a julgar pelo elenco do morador da Marmeleira (o diretor do DN critica-o, a propósito da análise do que se passou no Pingo Doce, com uma frase de antologia: "Armados de superioridade intelectual, refinada nos mosteiros de sabedoria livresca nas marmeleiras em que Portugal produz alguns dos seus mais venerados sábios, descortinam sempre coisas fantásticas", aqui).

O vídeo da passagem sobre a culpa para os judeus e o perdão para os católicos. Este bocadinho no cemitério, de 01'05'' a  03'31'', está no meu top 5 das melhores cenas das últimas décadas, mesmo que o inglês do rabi custe a perceber.

2 comentários:

Anónimo disse...

De verdade. Pedir perdão só os cristãos. Fala, por contraposição dos judeus, mas omite os maometanos. Eles jamais têm culpa! Desconhecem essa realidade que decorre de uma teologia centrada no amor.

Segundo os seus textos, Alá, odiando a quem não peca, quer que eles pequem para que possa ser misericordioso (e se Jesus, mesmo segundo o Corão, não pecou, a conclusão está à vista). A culpa, essa, é imputada nos judeus e cristãos de modo a que os maometanos possam ir para o paraíso e os cristãos para o inferno. [ver Sahih Muslim 6665 e 6668]. Apenas uma referência que explica muito do que vivemos nestes dias.

Fernando d'Costa

Anónimo disse...

De verdade. Pedir perdão só os cristãos. Fala, por contraposição dos judeus, mas omite os maometanos. Eles jamais têm culpa! Desconhecem essa realidade que decorre de uma teologia centrada no amor.

Segundo os seus textos, Alá, odiando a quem não peca, quer que eles pequem para que possa ser misericordioso (e se Jesus, mesmo segundo o Corão, não pecou, a conclusão está à vista). A culpa, essa, é imputada nos judeus e cristãos de modo a que os maometanos possam ir para o paraíso e os cristãos para o inferno. [ver Sahih Muslim 6665 e 6668]. Apenas uma referência que explica muito do que vivemos nestes dias.

Fernando d'Costa

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