quarta-feira, 25 de abril de 2012

Meu irmão, o Papa. Gostei muito



Claro que o trato por Joseph,
qualquer outro tratamento seria inimaginável.
Georg Ratzinger, pág. 237

Do alto dos seus 87 anos, idade que tinha quando o livro foi ditado e escrito, em 2011, Georg Ratzinger (1924) oferece-nos um relato cheio de simpatia, bondade e alguma graça sobre a sua vida e a do seu irmão, Joseph (1927), que desde 2005 é o Papa Bento XVI.

Ordenados padres no mesmo dia (29 de junho de 1951) – Georg atrasou-se uns anos devido à II Guerra Mundial – sempre os irmãos andaram próximos, ainda que o mais velho tenha ficado por Ratisbona, onde dirigiu o coro infantil dos “Pardais de Ratisbona”, de fama mundial, enquanto o irmão, desde 1982, está por Roma. Supõe-se que a dependência seja mútua, mas Georg descreve a sua em relação ao irmão Papa com uma abertura admirável. Conta, pois, como ficou “abatido” quando ouviu o nome “Ratzinger” para sucessor de João Paulo II, na tarde de 19 de abril de 2005, e não só por causa dos desafios e fardos do ofício. “Fiquei triste porque ele já não teria tempo para mim. Naquela noite, deite-me bastante deprimido. Durante toda noite e no dia seguinte até à tarde, o telefone não parou de tocar, mas foi-me completamente indiferente. Simplesmente não atendi. «Não me chateiem!», pensei” (pág. 227). Mal imaginava que algumas dessas chamadas partiam do próprio Bento XVI. Para que não volte a acontecer tal desencontro, Georg comprou um segundo telefone. “Só ele [Bento XVI] tem o número da segunda linha. Se esse telefone tocar, sei que é o meu irmão, o Papa” (pág. 228). “Desde então, telefona-me várias vezes por semana, mas eu nunca o faço. É muito mais fácil para ele apanhar-me a mim, porque estou sempre em casa enão tenho de cumprir nenhuma agenda” (pág. 236).

Além de constituir um belo exemplo de amizade fraternal, este livro permite-nos ficar a conhecer muito da vida de Joseph Ratzinger, principalmente antes do Papado, e em especial dos pais, o guarda Joseph Ratzinger (1877-1959) e a cozinheira Maria Peintner (1884-1963), que se conheceram através de um anúncio colocado no jornal “Mensageiro de Nossa Senhora de Altotting”, quando o pai do Papa tinha 43 anos, corria o ano de 1920.

Uma família contra o nazismo
Entre os muitos dados e histórias deste livro, realço a relação da família Ratzinger com o nazismo. O futuro Papa tinha cinco anos quando Hitler subiu ao poder, no início de 1933, e 12 no início da guerra, em 1939, mas não têm faltado, principalmente na imprensa internacional, insinuações maldosas – porque infundadas – quanto a alguma simpatia pelo nazismo, já que em 1943, 16 anos feitos, foi requisitado para ajudar na defesa antiaérea de indústrias como a BMW, que nessa altura fabricava motores de avião (a hélice continua a fazer parte do emblema da marca). Joseph, durante uma inspeção militar, contou que queria ser padre e foi motivo de gozo. Perto do final da guerra, em abril de 1945 (a guerra terminaria na Europa a 8 de maio desse ano), consegue desertar e só por motivos nunca esclarecidos – talvez porque os próprios oficiais antevissem o desfecho da guerra – não é fuzilado ao ser descoberto em casa dos pais, para mais porque o seu Ratzinger sénior  desabafou e revelou toda a sua ira contra Hitler.

O pai do Papa, embora tivesse uma função ligada ao Estado, como guarda, reformou-se em 1937, ao atingir os 60 anos e desconfiava visceralmente de Hitler (certamente conhecia a posição do bispo que crismou e ordenou os Ratzinger, D. Faulhaber, defensor dos judeus e redator principal da encíclica com que Pio XI condenou o nazismo, “Mit brennender Sorge”, “Com profunda preocupação”). Antes disso, recusou-se determinantemente a filiar-se no partido nazi. Para não pôr em perigo a família, pediu à esposa que aderisse à organização feminina do regime. “A minha mãe – diz Georg – contava o que se passava nas reuniões da secção feminina nacional-socialista de Aschau. Não falavam de Hitler, mas trocavam receitas de culinária, falavam dos seus jardins e às vezes rezavam o terço em conjunto. Essas reuniões «nazis» eram bastante atípicas e não tinham nada a ver com a ideologia castanha”. Quando começa a guerra, Joseph sénior compra uma telefonia “porque tinha a certeza de que os nazis só nos mentiam”, diz Georg. E Hesemann acrescenta: “Quando em 1940 Hitler festejava os seus grandes triunfos, quase todos andavam eufóricos. Só o pai Ratzinger se manteve obstinado. Uma vitória de Hitler nunca poderia ser uma vitória da Alemanha, teimava. Aquela não era senão a vitória do Anticristo que ia trazer tempos apocalípticos para os crentes e não só” (pág. 112).

Ursinho de peluche
Como curiosidade, uma entre várias, registe-se que Bento XVI, em criança, ficou encantado com um ursinho de peluche que viu numa montra. Todos dias ele e o irmão passavam pela loja a admirar o brinquedo. Um dia, antes do Natal, o ursinho desapareceu e Joseph “chorou amargamente”, diz o irmão mais velho. “Por fim, chegaram o Natal e as prendas. Quando o Joseph entrou na sala enfeitada onde estava a árvore de Natal ornamentada, riu-se de felicidade. Entre as prendas para as crianças, lá estava o Teddy para o Joseph. Trouxera-o o Menino Jesus. Foi a maior felicidade da sua jovem vida” (pág. 43).

Mais tarde, Ratzinger teria direito a outro urso, o do seu brasão de bispo de Munique e Freising, e, desde 2005, com algumas modificações, de Papa. O urso nele representado é o urso de São Corbiniano, o primeiro bispo de Freising (séc. VIII). Segundo a lenda, quando Corbiniano se dirigia para Roma, um urso atacou e matou o seu cavalo. Não restando outro meio, Corbiniano acalmou o urso e fê-lo transportar a bagagem até Roma. Diz-se que o urso domado pela graça de Deus é o próprio bispo, enquanto a bagagem é o fardo do episcopado.

O primeiro ursinho foi a maior alegria da “jovem vida”. Desejamos que o segundo, com o inesperado fardo do pontificado, com as preocupações e responsabilidades de ser sucessor de Pedro, represente a maior alegria da vida que já vai nos 85 anos, feitos no dia 16 de abril, sendo sete de Papa, assinalados no dia 19 deste mês (a eleição) e ontem (o início do pontificado).

Nota: Ficam para mais tarde umas breves notas sobre dois aspetos negativos deste livro.
Nota 2: Para os que dizem que Bento XVI ri - contra a minha opinião de que ele não tem grande sentido de humor -, realço esta afirmação de Georg: “Por fim, chegaram o Natal e as prendas. Quando o Joseph entrou na sala enfeitada onde estava a árvore de Natal ornamentada, riu-se de felicidade. Entre as prendas para as crianças, lá estava o Teddy para o Joseph". Desejo do fundo do meu coração que Bento XVI ria muitas vezes de felicidade.



2 comentários:

João Silveira disse...

Jorge, muito obrigado pelo resumo. Já me disseram que este livro vale muito a pena, mas ainda não pude ler.

Deixo aqui um artigo com a (mudança de) opinião dos vaticanistas em relação ao Papa: http://www.zenit.org/article-30156?l=portuguese

JP disse...

Muito interessante as suas citações sobre a obra do irmão de Ratzinger.
Muitas bênçãos em 2013.

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