domingo, 11 de dezembro de 2011

Dilema da fé no mundo de hoje



Num espantoso parágrafo sobre o dilema da fé no mundo de hoje, Joseph Ratzinger afirma a certa altura:
O paradoxo fundamental inerente à própria fé é aprofundado pelo facto de a fé se apresentar com uma roupagem do passado, parecendo até identificar-se com ele, ou seja, com as formas de vida e de existência de outros tempos. Nenhuma das actualizações, quer sejam chamadas «desmitificação» no meio intelectual académico ou aggiornamento no meio eclesiástico, pragmático, é capaz de mudar essa situação (...). A fé [...] parece um atrevimento, já que prende exigir, hoje em dia, um comprometimento com o passado, declarando-o válido para sempre. E quem se disporia a tal numa época em que o lugar da ideia de «tradição» foi ocupado pela ideia de «progresso»? (pág. 37 de "Introdução ao Cristianismo", obra de 1967, publicada em 2005 na Principia).
O dilema continua actual, ainda que a ideia de progresso, penso eu, não esteja tão presente na mentalidade do nosso tempo como estava nas décadas de 1960 e 1970. A questão é que a "roupagem do passado" da fé é uma roupagem eclesiástica. Se pensarmos em Jesus Cristo, uma pessoa profundamente enraizada na sua comunidade e no seu tempo, que é, afinal, o centro e verdadeiramente único motivo e objecto da fé, não o vemos vestido com essa roupagem do passado. Estando no seu tempo, a sua mensagem é actual, universal, significativa nos tempos e no espaços.


No fundo, este dilema da fé mundo de hoje é um questionamento da mediação eclesial nos seus modos e processos. Ainda que Ratzinger não resolva o dilema por essa via (a do questionamento eclesial), não deveríamos ter tanto medo de discutir a igreja que fomos e somos. Recentemente, não já Ratzinger mas Bento XVI disse que o que está em causa não deve ser a mudança das estruturas, mas a conversão pessoal. É uma boa forma de dizer que continua tudo na mesma.

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