quinta-feira, 7 de março de 2013

Pedro Casaldáliga e outros: "Deixa a Cúria, Pedro"


Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinédrio e as muralhas,
Ordena que todos os pergaminhos impecáveis
sejam alterados
pelas palavras de vida e amor.

Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.

A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anónimos.

Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.

O povo é apenas um "resto",
um resto de esperança.
Não O deixes só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção - lei e selo - do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.

Diz-lhes, diz-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.

Não te conturbes mais!

Como tu O amas,
ama-nos a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.

Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas...
... a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia,
ecumenicamente, aberto para o mundo.

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia (Brasil), para reflexão pós-renúncia papal.




Texto enviado por F.M., a quem agradeço. Não pude confirmar se é original.

Já o apelo de deixar a cúria, em si, não é absolutamente original. O insuspeito Hans Urs von Balthazar sugeriu que o Papa fosse viver para os subúrbios de Roma e transformasse todo o Vaticano em museus (aqui; ver comentários). Karl Rahner, escrevendo como se fosse o Papa em 2020, pediu um "downsizing" no estatuto do Papa, tão ao contrário do que se tem visto, pois o Papa não precisa de ser, em todos os aspetos,
o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais perante o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens (ler tudo aqui).
E o próprio Bento XVI recordou, com S. Bernardo (p. 77 do livro-entrevista “Luz do Mundo”), que o Papa é “não é um sucessor do imperador Constantino, mas sim o sucessor de um pescador”.

2 comentários:

Helena V. disse...

Obrigada, F.M. Obrigada, Jorge. Como gostei!
Que bem nos fazem os poetas e seus poemas!

Deixo a esse propósito - e a todos os propósitos do que por este fórum passa - um poema do José Augusto Mourão.

NAS FRONTEIRAS DESTE MUNDO

Deus nas fronteiras deste mundo,
Deus que cruzamos como as sombras,
dá-nos um corpo de desejo
e um ouvido de começo,
fica connosco Deus que passas
e nossas mãos te larguem,
Deus confundido com a sede,
e as palavras que dizemos,
vem alterar o nosso corpo,
vem confundir a nossa fome,
Deus da palavra,
flor do vento,
manhã que vem em Jesus Cristo.

Dê-te prazer o nosso canto,
Deus das manhãs azuis e rosa,
que o nosso corpo te anuncie qual fonte, rio ou chaga aberta,
que nossas mãos persigam o teu passar escondido.

Deus invisível para os olhos,
palavra solta, luz que passa,
é neste tempo que dizemos o claro escuro do teu nome,
onde é secreta a tua face e o teu passar adivinhado.

Anónimo disse...

O advérbio ecumenicamente, aí onde está, é qualquer coisa...

Rui Jardim

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