segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Walter Kasper: Crise e futuro da Igreja


O texto é longo, mas tratando-se de um teólogo apreciado por estes lados, sobre uma questão de grandes consequências para qualquer católico - o ser e estar da Igreja - não hesito em colocá-lo todo aqui. Walter Kasper pronunciou-o em abril passado na Academia Católica de Bréscia. Copiei daqui.


Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha profunda gratidão pelo convite a vir a Bréscia. Devo confessar que é a primeira vez que venho pessoalmente a esta famosa e bela cidade. Mas, através da editora Queriniana, estou ligado a ele há décadas.

1. Experiências pessoais com a Igreja

O tema que tratarei a seguir é: "Crise e futuro da Igreja". Eu não me ocupo apenas atualmente com a Igreja. Esse tema me interessa desde quando eu posso pensar, e já são mais de 70 anos. Por isso, gostaria de começar esta conferência com algumas notas biográficas, para esclarecer que o tema da "Igreja" não é para mim um tema com o qual eu tenho a ver apenas em nível acadêmico ou por "dever de ofício". A Igreja tem alguma coisa a ver comigo, com a minha vida e com a minha experiência de vida. Trata-se da minha Igreja.

Eu cresci antes e durante a Segunda Guerra Mundial, no período do nazismo e da guerra, quando a Igreja, entre nós, na Alemanha, não estava bem. O bispo da nossa diocese havia sido expulso pelos nazistas. No campo de concentração de Dachau, havia um grande bloco para os sacerdotes e, no fim da guerra, muitas Igrejas estavam reduzidas a escombros. Quando menino, eu sabia que não deveria contar aos meus companheiros o que a minha mãe me dizia (meu pai era soldado) sobre os nazistas, porque senão eu acabaria em um campo de concentração. A discriminação era clara, havia um claro "sim" ou um claro "não". Mas justamente com essa identidade clara, a Igreja para nós era pátria, casa. Era, como se diz hoje, a Igreja pré-conciliar. Eu não a percebia como limitante. Tínhamos orgulho de pertencer a ela.

Depois da guerra, eu encontrei o reflorescimento do movimento juvenil, intimamente ligado aos movimentos litúrgico e bíblico. Depois do nazismo e dos horrores da guerra, foi um novo começo. Durante os meus estudos universitários nos anos 1950, eu tomei conhecimento da teologia de Tübingen. Não se tratava nem de uma neoescolástica cristalizada, nem de uma teologia liberal. Era, ao invés, uma teologia baseada na concepção da tradição viva da Igreja. Ela foi concebida por Johann Adam Möhler, um dos maiores precursores da teologia do século XX, que, analogamente a John Henry Newman, preparou a renovação eclesiológica do Concílio Vaticano II.

No entanto, para nós, foi uma surpresa absoluta que o Papa João XXIII, no dia 25 de janeiro de 1959, anunciasse que queria convocar um Concílio. Ninguém esperava. Mas nunca percebemos o Concílio como uma ruptura. Para nós, ele foi, ao contrário, a implementação de aspirações não ditas, que já estavam há muito tempo nos nossos corações. Propagou-se uma onda de entusiasmo, como os jovens hoje não podem nem sequer imaginar e que não poderiam mais reviver.

A experiência do Concílio me deu uma marca permanente. O Concílio se tornou para mim ponto de referência fixo da minha teologia. Posteriormente, algumas expectativas de então podem ser julgadas como ingênuas. No entanto, ainda hoje considero os documentos conciliares como uma bússola segura para o caminho da Igreja no século XXI e no ainda jovem terceiro milênio. Espero que o 50º aniversário da abertura do Concílio, que celebramos este ano, torne novamente presente e fecundas as riquezas dos 16 documentos conciliares.

Muitas vezes fala-se de uma crise da Igreja depois do Concílio. Sim, ela existe principalmente na Europa Ocidental. Mas nem tudo o que aconteceu depois do Concílio ocorreu por causa do Concílio. Ao invés, só aprofundando o conhecimento e a compreensão do Concílio e realizando melhor as suas intenções profundas, se lermos e compreendermos os textos conciliares em uma hermenêutica não de ruptura, mas sim de uma continuidade viva e inovadora, seremos capazes de superar as dificuldades atuais. Nesse espírito e com essa intenção, nos anos depois do Concílio, eu publiquei a cristologia [1] e o livro sobre a doutrina de Deus [2] para ajudar a reforçar os fundamentos sobre os quais a Igreja está construída.

Perto do fim do meu período na universidade, também quis publicar uma eclesiologia. Mas as coisas ocorreram de forma diferente. Depois de 25 anos de docência na universidade, fui chamado para ser bispo de uma grande diocese e tive que fazer uma eclesiologia prática. Foi o momento da verdade para a minha eclesiologia, antes mais do que nada teórica, e, ao mesmo tempo, foi uma experiência que me enriqueceu. Eu fiz uma experiência concreta do povo de Deus. Além disso, eu também era responsável pelas relações com a Conferência Episcopal do Terceiro Mundo. Eu viajei para muitas partes do mundo, conheci as jovens Igrejas da África, da América Latina e da Ásia, fiquei impressionado com a sua vitalidade, mas também fui confrontado com muitas situações de pobreza, miséria e perseguição. Os problemas da nossa casa, em comparação, pareciam modestos.

Eu também experimentei do que eram capazes de fazer as freiras católicas e os voluntários das organizações humanitárias. Foi uma experiência grandiosa pertencer a essa Igreja de tantas formas, mas que é uma só, universal; uma Igreja que é uma luz de esperança para inúmeras pessoas e em que em toda a parte estamos em casa, em um mundo que, por outro lado, está tão dilacerado.

Ainda hoje, a Igreja é, apesar de todas as suas divisões, o maior movimento pela paz que existe no mundo, é um sinal de esperança para inúmeras pessoas em todo o mundo. Assim, todas essas experiências eram para mim uma ampliação de horizonte formidável e positivo para além das palavras.

Quando, há 12 anos, fui chamado a Roma para o Pontifício Concílio para a Promoção da Unidade dos Cristãos, começou uma fase existencial totalmente nova. Vindo da Alemanha, país confessionalmente dividido, eu estava familiarizado com os problemas entre católicos e evangélicos. Da ortodoxia, eu só sabia o que se aprende nos livros escolares. Desde o início, ficou-me claro que não podemos nos ocupar do ecumenismo a partir da escrivaninha e que nem os documentos por si só são suficientes. Em vez disso, trata-se de construir relações ou, melhor, confiança e amizade com os outros cristãos. Isso me levou, novamente, a fazer muitas viagens ao redor do mundo e a viver muitas experiências comoventes. Eu conheci a Igreja universal e a cristandade mundial na sua variedade de cores. As Igrejas orientais pré-calcedonianas, ortodoxas e católicas, a Igreja Católica latina, as Igrejas protestantes tradicionais, as Igrejas livres e as novas comunidades carismáticas e pentecostais, as Igrejas do hemisfério Norte e do Sul. À primeira vista, tudo isso parece ser muito desorientador; a um segundo olhar, enriquece; por fim, contudo, é doloroso fazer uma experiência concreta da dilaceração do único corpo de Cristo.

Todas essas experiências de vários tipos, feitas como professor universitário, bispo de uma grande diocese e a responsabilidade na Igreja mundial reforçaram a minha fé católica e ampliaram a minha eclesiologia original. Era disso que eu queria prestar contas e também queria compartilhar com os outros, na obra que agora é publicada [3]. Ao mesmo tempo, eu queria dizer que, apesar das diferenças que existem, a experiência ecumênica de pertencimento de todos os batizados em Cristo, a cooperação e a amizade ecumênica indicam que a unidade plena de todas as Igrejas é uma grande tarefa. Essa é a vontade do Senhor, a tarefa que nos foi confiada pelo Concílio.

2. O método e os atuais desafios da eclesiologia

Depois de ter ilustrado o pano de fundo, coloca-se agora a pergunta: como se faz eclesiologia? Qual é, portanto, o método da eclesiologia? Como se sabe, a questão do método é constitutivo para toda disciplina acadêmica.

Eu já mencionei que venho da tradição da Escola de Tübingen do século XIX. Para ela, o método histórico é determinante. No entanto, o método histórico não significa apenas o uso dos métodos históricos críticos. Ele tem um significado teológico muito mais profundo. Significa que a fé e a doutrina da Igreja não são um sistema abstrato de dogmas, enunciados e princípios. O conteúdo da fé é uma história concreta, a história de Deus com as pessoas, que começa com Abraão, Moisés, os profetas e que se cumpre em Jesus Cristo.

Em última análise, a fé orienta para uma Pessoa concreta, Jesus Cristo, Filho de Deus, e, portanto, a alguém que testemunhou Deus como Pai misericordioso, precisamente na própria morte e na própria ressurreição. Mas Jesus Cristo não só viveu há 2.000 anos na Palestina, para depois ir embora. Ele está presente permanentemente, através do seu Espírito Santo, na história da Igreja, no seu anúncio, nos seus sacramentos e em toda a sua vida, especialmente a dos santos.

Se, portanto, quisermos conhecer e compreender a fé, então devemos estudar essa história. Certamente, os dogmas são importantes. Mas não caíram do céu. Eles são, ao contrário, na história, por assim dizer, o sedimento, a expressão da experiência de fé e da proclamação da fé por parte da Igreja. Se quisermos compreendê-los, devemos compreender como eles se formaram e, ao mesmo tempo, é preciso traduzi-los na história de hoje, nos problemas e nos horizontes de hoje. Nesse sentido, fala-se de uma tradição viva, que não é só um conteúdo fixo, mas também um processo de tradição ativa. Isso não tem nada a ver com o relativismo, mas, ao contrário, quer dizer e mostrar que, nessa tradição se expressa algo duradouramente válido, duradouramente importante e duradouramente meritório de reflexão. A tarefa da teologia é dar desse tesouro o que é duradouramente válido, torná-lo frutífera para hoje e, assim, transmiti-lo vivo para o futuro.

Então, eu sempre parto do testemunho do Antigo e do Novo Testamento e da sua interpretação, vivida e, muito frequentemente, sofrida, na História da Igreja. Nisso, reveste-se de uma especial importância o testemunho dos Padres da Igreja dos primeiros séculos e também dos grandes Santos. Justamente essa era a intenção do Concílio Vaticano II: ele queria um certo aggiornamento, mas não uma atualização que fosse uma adaptação para os dias de hoje. Ao invés, ele queria, como dizem os franceses, uma ressourcement, um retorno às fontes para nelas obter água fresca e refrescante. O Concílio, assim, não encaminhou uma Igreja nova, mas sim uma Igreja renovada, uma Igreja que está em linha de continuidade com a tradição até agora, mas uma continuidade viva, inovadora. A sua mensagem é a mesma em todos os séculos, que nunca é velha. Ao invés, é sempre jovem e sempre nova, porque Jesus Cristo é a novidade que nunca se desgasta, é a novidade eterna, jovem.

Esta História, às vezes, é complicada, mas também é enormemente reconfortante. Pois indica que a Igreja não se encontra em dificuldades só hoje, mas se encontrou em dificuldades, por assim dizer, desde o início e que já superou muitas crises, das quais saiu, normalmente, reforçada. Toda a História da Igreja é uma história de crise, e Jesus não anunciou nada de diferente aos discípulos: "Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo" (Jo 16, 33).

Perguntamo-nos, então: quais são os desafios que temos pela frente hoje, e a quais desafios a eclesiologia hodierna deve responder? Eu vejo um tríplice desafio.

1. Há dificuldades e crises concretas, diferentes de acordo com os países. Por exemplo, nos últimos anos, os terríveis escândalos de abusos em diversas países, inclusive no meu país. Custaram muito à Igreja, em confiança, e lesaram gravemente o seu prestígio. Devemos nos perguntar, portanto: o que deu errado? E o que se deve fazer, como processo de cura, para ajudar as vítimas? A Igreja deve ser ecclesia semper purificanda et renovanda: Igreja que precisa continuamente de purificação e renovação (Lumen gentium 8). Uma eclesiologia, portanto, deve ser apologeticamente certa, no sentido de defender a estrutura permanente da natureza da Igreja desejada por Cristo, mas não deve defender tudo da Igreja; também deve indicar formas de renovação nas pegadas do Concílio.

2. A Igreja, para nós, na Europa, encontra-se atualmente em uma difícil fase histórica de transição. As premissas culturais e sociais do milieu católico e da Igreja popular de velho estilo estão no fim ou, em muitos lugares, já tiveram fim. Por Igreja popular de velho estilo, entende-se a situação em que a Igreja determina do modo mais amplo a vida pública e os parâmetros que valem publicamente, enquanto nos encontramos em uma situação amplamente secularizada e de pluralidade social. Em muitos países, estamos indo ao encontro de um novo tipo de situação de diáspora, em que os cristãos convictos e praticantes, católicos e não católicos juntos, ainda constituem uma grande minoria, mas não são mais a maioria. O Papa Bento XVI falou de minoria qualitativa, desperta e criativa.

Tal situação preocupa e assusta muitos cristãos. Mas se seguirmos o grande e famoso historiador Arnold J. Toynbee, então, nos períodos de maior crise e de revolução da história da humanidade, sempre foram minorias, despertas e criativas, que encontraram uma saída e uma solução, que depois também pôde ser seguida pela maioria. As minorias, portanto, não devem se tornar seitas; elas podem ter uma enorme influência cultural, se forem despertas e criativas. Por isso, não é preciso ter medo. Porém, esse desenvolvimento nos pões desafios significativos, por exemplo na reestruturação das nossas paróquias e na nossa atividade de cuidado pastoral, como já ocorre na França e na Alemanha e, parcialmente, também na Itália. Em última análise, no entanto, trata-se do problema eclesiológico: o que é uma Igreja local? O que é uma comunidade local (paróquia)? Como ela se parecerá no futuro e como se parecerá a relação entre Igreja universal e local?

3. O verdadeiro e mais profundo desafio, na nossa situação secularizada e pluralista, é a questão de Deus. Não nos referimos apenas, em primeiro lugar, ao novo ateísmo agressivo, que existe, mas sim à indiferença para com Deus, o obscurecimento da consciência de Deus e a aparente ausência de Deus. Muitos, na nossa sociedade, vivem como se Deus não existisse e pensam, assim, que podem viver muito bem. Além disso, também há muitos, muitos numerosos do que pensamos, que se definem como agnósticos, mas são, por assim dizer, agnósticos devotos que interiormente estão em busca, são em certo sentido peregrinos, e se encontram, por assim dizer, no átrio dos gentios. Eles não se interessam pelas questões estruturais internas à Igreja, como as do celibato, da ordenação de mulheres e similares, que atualmente muitas vezes são os insiders que colocam em primeiro plano.

Eles perguntam se e o que a Igreja tem a dizer sobre a questão basilar da sua existência, isto é, em última análise, sobre a questão de Deus que está indelevelmente impressa nos corações dos seres humanos criados à imagem de Deus. Estou convencido de que o futuro da Igreja nas nossas sociedades depende disto: se somos ou não capazes de responder a essa pergunta, e se não nos pronunciamos apenas com a boca, mas também se podemos testemunhar com credibilidade na vida.

E com isso nos encontramos diante da questão basilar da eclesiologia de hoje. Ela não pode tratar apenas de questões estruturais dentro internas à Igreja. Deve fazê-lo, também, obviamente. Mas, acima de tudo, deve pôr a questão da Igreja à luz da questão de Deus. A eclesiologia, portanto, pode ser não apenas hierarcologia, da qual se interessam os insiders, mas não as pessoas de fora. A eclesiologia deve ser teologia, isto é, discurso (logos) sobre Deus (theos). Isso é o que tenta fazer a eclesiologia que eu proponho. Mais exatamente, ele tenta tratar a eclesiologia no horizonte da escatologia, portanto, da mensagem do reino vindouro de Deus e da esperança que ele nos dá. A esperança hoje é mercadoria escassa. O próprio Jesus provavelmente nunca falou explicitamente da Igreja, mas sim do reino de Deus; a Igreja é o seu sinal e instrumento. Dito teologicamente: a Igreja é quase-sacramento, isto é, sinal que já torna presente e instrumento do reino incipiente de Deus, reino de verdade, de justiça, de santidade e de felicidade.

Os Padres da Igreja tinham uma bela imagem para expressar essa ideia. Eles diziam que a Igreja é como a lua: não brilha com luz própria, mas somente com a luz que recebe do sol. A Igreja também não tem um esplendor próprio, mas apenas o que cai sobre ela de Deus e de Jesus Cristo. Ela não é importante em si mesma, mas é importante como sinal e instrumento de Deus e de Jesus Cristo na história da humanidade e do mundo. As duas primeiras palavras da Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II são Lumen Gentium (Luz das Nações), mas depois não se continua com "a luz das nações é a Igreja", mas sim com "Lumen gentium quod est Christus" (luz dos gentios, que é Cristo).

Diz-se que a Igreja é somente um sacramento, isto é, sinal e instrumento de unidade com Deus e da unidade dos seres humanos. A Igreja está no seguimento de Cristo, testemunho de Deus servidor para os outros. Ela existe ouvindo a Palavra de Deus e pronunciando-a e dando a sua vida por muitos, isto é, por todos.

3. Redescobrir a Igreja

Movendo-nos a partir dessa visão teológica da Igreja, devemos redescobri-la. É como uma árvore, que só pode resistir à tempestade se tiver raízes profundas. Portanto, devemos nos interrogar sobre as raízes da Igreja e perguntar: Igreja, quem tu és? O que tu dizes sobre ti mesma? Hoje, o grande risco é o achatamento da compreensão da Igreja. Esse perigo não vem só de fora, mas muitas vezes da própria Igreja. É o risco da autossecularização da Igreja, que se envolve em muitas coisas, certamente importantes, com grande zelo, mas às vezes se esquece da sua missão fundamental. O que precisamos é de uma reviravolta teocêntrica. Uma visão teológica da Igreja.

O primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II inicia, com razão, com um capítulo sobre o mistério da Igreja. Ela, portanto, não é, primeiramente, uma entidade social. Certamente, deve se comprometer com a caritas, com a justiça social, com o desenvolvimento e com a paz no mundo, e também o faz. Mas as suas raízes se espalham mais profundamente. Em última análise, ela está fundamentada no desígnio eterno de salvação, assumido por Deus antes de todos os tempos, para trazer novamente para casa a humanidade inteira e toda a realidade por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo. Recapitular e conduzir novamente para Cristo, única cabeça, todas as coisas (Ef 1, 10). Com a Igreja, Deus deu um início. Ela é, por assim dizer, a vanguarda do reino de Deus

As quatro grandes Constituições do Concílio Vaticano II indicam essa natureza, cada uma de um modo diferente. A Constituição sobre a Igreja [4]: A Igreja é o povo de Deus e o Corpo de Cristo, ela fará resplandecer a luz de Cristo no mundo, por meio da sua própria palavra e dos sacramentos e de toda a sua própria vida.

A Constituição sobre a Revelação [5] acrescenta: por isso, a Igreja deve escutar a Palavra de Deus, ela é, portanto, essencialmente, Igreja que escuta: assim, no entanto, também deve testemunhar a Palavra com energia e coragem. Deve dar orientação e ser uma lâmpada que dá luz na escuridão.

A Constituição sobre a Liturgia [6] afirma que, na liturgia, particularmente na celebração eucarística, o reino vindouro de Deus se faz presente, já agora, sob sinais sacramentais, como força e alimento no caminho da vida e da história. A Igreja é Ecclesia de Eucharistia (João Paulo II, 2003): Igreja que vive da Eucaristia.

Por fim, a Constituição pastoral [7] afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias das pessoas de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja, portanto, deve ser solidária com as desventuras e as alegrias das pessoas. Ela deve ser Igreja no mundo e para o mundo.

Nesse âmbito, gostaria de ir ao essencial e redescobrir o mistério profundo da Igreja: e assim também mostrar a beleza da Igreja como a Esposa de Cristo, apesar das suas manchas e rugas (Ef 5, 27). A Igreja, diziam os Padres da Igreja citando o Cântico dos Cânticos, é negra, mas bonita. Porém, as únicas reformas exteriores não ajudam a avançar. É como uma casa que deve ser reparada: não basta preencher as fissuras e renovar a pintura; é preciso, em primeiro lugar, assegurar os fundamentos. Assim é também para a Igreja: os meros reparos cosméticos não resolvem. É preciso uma renovação que venha da fé e uma renovação espiritual. Então, como a Igreja é uma realidade encarnatória, ou seja, uma realidade complexa de uma dimensão divina e uma dimensão humana (LG 8), tal renovação pode e deve conduzir também a reformas concretas. As duas coisas se integram. Eu gostaria de tratar, a partir desse ponto, ao menos de uma questão de reforma concreta.

4. Renovação da forma de communio da Igreja

Nas questões de reforma institucional, a abordagem deve ser feita a partir do lado da compreensão da Igreja como communio. Essa é a Leitidee, a ideia principal e diretriz da Igreja no Concílio Vaticano II. Mas o que se entende por communio? “Communio” não significa, simplesmente, comunhão, que se fundamenta na derivação e proveniência comum, ou que se origina por simpatia e interesses comuns e por meio da união e da fusão entre nós. Communio indica, no sentido do Novo Testamento, originalmente participação (participatio); mais exatamente, participação na realidade salvífica de Jesus Cristo, na vida e no Espírito de Jesus Cristo; em última análise, participação na communio trinitária, portanto, na vida trinitária de Deus.

Em tal acepção, a Igreja é entendida pelo Concílio no sentido dos Padres da Igreja como imagem, por assim dizer ícone da Trindade. Assim como nós adoramos um único Deus em três Pessoas, assim também a Igreja, como communio, é uma única unidade na variedade (Lumen gentium 4; Unitatis Redintegratio 3). A communio é fundada mediante o Batismo e a Eucaristia. Mediante o único Batismo, participamos do corpo de Cristo (Gal 3, 28, 1Cor 12, 13). Sobre Eucaristia, Paulo diz: "E como há um único pão, nós somos um só corpo" (1Cor 10, 16ss). Communio é, portanto, um conceito teológico e não sociológico.

Se entendermos a Igreja em sentido escritural, patrístico e conciliar, como a communio fundada por meio do Batismo e da Eucaristia, então toda renovação deve principiar com o Batismo e com a Eucaristia. Renovação do Batismo significa, acima de tudo, renovação da catequese para os sacramentos iniciação, o Batismo (juntamente com a Crisma) e a Eucaristia. Ela era o segredo do sucesso da Igreja antiga e o é também hoje na Igreja em missão. Entre nós, pelo fato de que muitos cristãos são batizados sem saber o que significa ser cristão, há atualmente um difundido analfabetismo cristão, que leva a um cristianismo certificado apenas no papel de um certificado de Batismo. Muitos se dizem cristãos, mas vivem como todos os gentios modernos. A renovação da catequese para os sacramentos de iniciação para as crianças e para os jovens, mas também para os adultos, é como o alfa e o ômega da renovação eclesial e é de primeira importância para o Ano da Fé que nos espera. Devo dizer que em Roma conheci algumas paróquias que, nesse aspecto, dão um notável exemplo e o fazem com grande sucesso.

Acrescenta-se a isso que a communio requer um estilo comunicativo na Igreja, isto é, um estilo dialógico e fraterno, que se distinga tanto daquele estilo vetusto, feudal, quanto daquele estilo novo, aparentemente moderno, burocrático. Tal forma de communio da Igreja não comporta a democratização da Igreja. A democracia tem o seu lugar legítimo no âmbito político. A Igreja não é um povo qualquer: ela é o povo de Deus, é uma realidade de gênero próprio. Trata-se, portanto, da realização da realidade do povo de Deus, onde todos são filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs na mesma família de Deus. Na revelação, Deus fala aos seres humanos como a amigos e se entretém com eles (DV 2). Daí, a vida da Igreja também deveria ser caracterizada por um estilo comunicativo, participativo e dialógico de fraternidade, amizade e confiança e por uma cultura do diálogo disposta à escuta e à aprendizagem.

"Diálogo" é uma palavra-chave do último Concílio, que se encontra nos documentos cerca de 30 vezes, em diversos contextos. Paulo VI escreveu a propósito uma encíclica sua, a Ecclesiam suam (1964), e João Paulo II abordou-a em profundas reflexões antropológicas: diálogo não só como partilha de ideias, mas também de dons (Ut unum sint, 1995, n. 28). Por isso, devemos nos admirar pelo fato de que, recentemente, alguns levantaram suspeitas sobre a pura palavra "diálogo", banindo-a do uso linguístico eclesial, quase querendo-a tornar objeto de um anátema.

Devemos simplesmente saber o que se entende por diálogo. Diálogo não significa conversa informal, nem mesa redonda, nem disputa acadêmica, nem manifestação informativa, nem negociação política, nem procedimento quase parlamentar. No diálogo, não compartilhamos algo com o outro, mas compartilhamos com ele a nós mesmos ou, melhor, compartilhamos a nós mesmos. O diálogo, entendido teologicamente, significa dar-se um recíproco testemunho, cada um, da própria fé e, desse modo, participar da riqueza do outro, deixar-se enriquecer, mas depois compreender ainda melhor e mais profundamente a própria fé. Por isso, no diálogo, não nos encontramos no nível do mínimo denominador comum. O diálogo não tem nada a ver nem com o relativismo, nem com o sincretismo. Ao contrário; através do diálogo, somos introduzidos mais profundamente na verdade e, mediante isso, somos enriquecidos, especialmente no diálogo ecumênico, na nossa compreensão da verdade.

Se, nesse sentido, queremos traduzir na prática a realidade da communio da Igreja na realidade concreta, então disso faz parte a comunicação, e isso quer dizer dar nova vida e reforçar as instituições sinodais na Igreja, tanto em nível local quanto universal. Tal renovação não é algo a ser fazer ex novo. A Igreja, a partir do concílio dos Apóstolos, tem uma tradição sinodal, cuja redescoberta poderia dar à Igreja um rosto jovem, fresco e uma forma renovada.

O ideal me parece estar descrito na Regra de São Bento. Para São Bento, o abade tem um lugar importante na comunidade monástica; por assim dizer, ele representa Jesus Cristo. Mas, no caso de decisões importantes, diz Bento, ele deve ouvir o conselho dos coirmãos e deve ouvir também o mais jovem, porque o Espírito Santo também pode falar através dele. Depois de ter se consultado, continua Bento, o abade deve refletir sobre tudo, rezar por isso e depois deve decidir, isto é, ele não é o executor de nenhum voto democrático; decide livremente, mas decide com base em uma consulta. Autoridade e fraternidade, portanto, se integram e se condicionam mutuamente. Na Igreja, deve haver auctoritas, na acepção original da palavra, de augere, crescer. Autoridade que não oprime a vida, mas que fundamenta a vida, multiplica a vida, faz crescer a vida e promove a vida.

Tal conjunto comunicativo de ministério e comunidade ou, melhor, de Igreja deveria existir em todos os níveis da vida eclesial, paroquial, diocesana, universal. Em nível da Igreja universal, a Igreja precisa, por amor à unidade na variedade, em um mundo cada vez mais globalizado, mas interiormente dilacerado, de um centro forte. Precisamos de Pedro, que, com a sua profissão de fé em Cristo, é a rocha sobre a qual foi fundada a Igreja (Mt 16, 18) e que deve fortalecer os seus irmãos (cf. Lc 22, 32). Precisamente em tempos difíceis como os nossos, vale a pena reunir-nos em torno de Pedro. Da mesma forma, a Igreja precisa reforçar a estrutura colegial/sinodal. As duas coisas não estão em contradição. A integração, desejada pelo Concílio Vaticano II, dos dois pontos de vista poderia, ao invés, contribuir para reforçar a unidade interna e para superar um certo afeto antirromano, que infelizmente ainda está presente.

Ao diálogo voltado para dentro, corresponde o diálogo voltado para fora: o diálogo com o povo de Deus da Antiga Aliança; o diálogo ecumênico e o diálogo com as outras religiões; o diálogo com a cultura de hoje e com todos os seres humanos de boa vontade. Com esses diálogos, o Concílio indicou o caminho no futuro: de uma Igreja que se entende como uma rocha e fortaleza fechada a uma Igreja comunicativa e aberta ao diálogo. Diálogo não significa renunciar à própria identidade; significa, ao invés, crescer na própria identidade. Porque, para a identidade cristã, no seguimento de Jesus, é essencial o ser para os outros e com os outros. Isso exclui tanto a adaptação quanto uma mentalidade ansiosa, que se isola para cultivar o próprio território circunscrito.

Disso faz parte, particularmente na nossa situação, o diálogo ecumênico. É tarefa dada por Jesus e é impulso e obra do Espírito Santo. A decisão a propósito, portanto, é irreversível e irrevogável; é um canteiro de obras importante da Igreja do futuro. Alcançamos muito e já podemos colher frutos. Mas ainda há questões sérias diante de nós. Ainda não chegamos à meta. Não é só a questão do ministério, mas a questão do ministério em relação com a da Igreja. Pois – algo que nenhum especialista contestará – assim como nós temos com os protestantes uma concepção diferente da Igreja, nós também temos uma concepção diferente da unidade da Igreja. Aqui tocamos as dificuldades fundamentais do diálogo ecumênico hoje. Apesar dessas dificuldades, também devemos fazer juntos o que podemos já hoje, na verdade e no amor.

Obviamente, o diálogo inter-religioso também é um mandamento desta época. É a alternativa à violência e ao choque de culturas, etnias e religiões. Mediante tal diálogo na verdade e no amor, a Igreja, como povo escatológico de Deus, pode ser, em meio aos conflitos do nosso mundo, exemplo e instrumento da paz (shalom) escatológica.

5. Conclusão: alegria nova para a Igreja

Com os diálogos voltados para dentro e para fora, o Concílio Vaticano II iniciou desenvolvimentos que não podemos programar. O Concílio indicou a direção para uma nova época. Isso nos deu uma luz para o caminho que não é um farol capaz de iluminar uma pista inteira que leva ao futuro; ele pôs em nossas mãos uma lanterna que, como toda lanterna, faz luz apenas na medida em que avançamos. Fornece luz para cada passo individual, que deve e pode seguir o passo seguinte. Por isso, um programa detalhado para o futuro não é possível. O futuro está nas mãos de Deus.

O Papa João XXIII, ao convocar e abrir o Concílio Vaticano II, falou de um renovado Pentecostes. Se estamos convencidos de que, em última análise, só o Espírito do Pentecostes pode dar a renovação, então devemos, acima de tudo, fazer o que os primeiros discípulos e discípulas fizeram antes de Pentecostes. Naquele tempo, os discípulos e as mulheres que tinham acompanhado Jesus se reuniram com Maria, mãe de Jesus, assíduos e concordes na oração (At 1, 12-14). Hoje também o futuro da Igreja está determinado, em primeira linha, por aqueles que rezam, e a Igreja do futuro será, acima de tudo, uma Igreja de pessoas que rezam.

O Espírito pode vir, como no primeiro Pentecostes, na tempestade e com o fogo (Atos 2, 2ss): com a tempestade que varre algumas coisas e com o fogo que queima coisas que, hoje, ainda nos parecem importantes. O Espírito, no entanto, também pode, como no caso do profeta Elias, vir na brisa suave do vento (1Reis 19, 12ss), pode purificar e transformar a nós e ao mundo, com o seu ardor, a partir de dentro. Pode nos tornar novamente conscientes de que a alegria para Deus é a nossa força (Neemias 8, 10).

Se nós, movendo-nos a partir dessa alegria, como povo de Deus, regozijamo-nos na Igreja, a Igreja também viverá amanhã e terá futuro depois de amanhã. Então, ela se tornará esplendor que preanuncia o reino vindouro de Deus e atrairá pessoas que buscam e interpelam, jovens e velhos, e será novamente, para muito, pátria espiritual. O fato de se lamentar não atrai ninguém; alegria, ao contrário, é contagiosa. A alegria de ser cristão convence. Se eu pude contribuir um pouco com essa alegria, ficarei muito feliz.

Notas:

1. KASPER, Walter. Gesù il Cristo. Bréscia: Queriniana, 1986.
2. KASPER, Walter. Il Dio di Gesù Cristo. Bréscia: Queriniana, 1984.
3. KASPER, Walter. Chiesa cattolica. Essenza – Realtà – Missione. Bréscia: Queriniana, 2012.
4. Lumen Gentium.
5. Dei Verbum.
6. Sacrosanctum Concilium.
7. Gaudium et Spes.

2 comentários:

Anónimo disse...

Ainda há Esperança...

Anónimo disse...

Conheço um sorriso muito parecido. Só ainda não é Cardeal... mas lá chegará!

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...