sábado, 22 de setembro de 2012

Procurar Deus nos buracos da ciência?


Excertos de uma entrevista que o IHU fez ao físico Marcelo Gleiser.


A espiritualidade é parte da nossa humanidade
Não vejo que a ciência avance devido ao diálogo com a fé, ao menos nos tempos modernos. Sem dúvida, historicamente alguns dos grandes nomes da ciência eram também profundamente religiosos; Copérnico, Galileu, Kepler, Newton. Para eles, a ciência engrandecia a obra de Deus e era interligada com a fé. Hoje, existe uma separação prática entre as duas. A religião não faz parte do discurso científico, ao menos diretamente. É perigoso para as duas buscar-se por estas ligações. Ciência e fé devem coexistir e não insistir numa relação de dependência mútua. Por outro lado, se buscarmos por uma inspiração na ciência, o que faz tantos homens e mulheres dedicarem suas vidas ao estudo da Natureza, encontraremos, em muitos casos, uma relação de profunda espiritualidade com o mundo, mesmo que, na maioria deles, esta relação não inclua fatores sobrenaturais. A espiritualidade é parte da nossa humanidade, e se manifesta de formas diferentes em tempos diferentes. (…)

Humildade de crentes e ateus
Acho que Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens pecam pelo excesso, pelo uso da mesma retórica virulenta que criticam nos extremistas religiosos. Todo fundamentalismo é, por definição, exclusivista e destrutivo. Mesmo que muita gente ache que eles representam a posição da ciência, isso não é verdade. Existem muitos cientistas que, mesmo sendo ateus ou agnósticos, não adotam uma postura combativa em relação à fé. Esse tipo de atitude não só não leva a nada como é filosófica e extremamente ingênua. Basta dar uma olhada mais cuidadosa na ciência e em como ela funciona para entender que têm limitações essenciais, questões que estão além do seu alcance. Isso não significa que as pessoas de fé devam buscar Deus nos limites da nossa compreensão científica, mas que os cientistas precisam ter mais humildade em seus pronunciamentos sobre o que a ciência já compreende e o que é ainda mera especulação. Achar que todas as questões podem ser reduzidas ao método científico é privar a cultura humana de outros modos de compreensão. A realidade é bem mais rica do que isso.

Deus nas brechas? Estratégia de fracasso
Buscar por Deus nas brechas da ciência é uma estratégia que leva inevitavelmente ao fracasso; a ciência avança e esse Deus que “explicava” o que não se sabia explicar torna-se desnecessário. Melhor guardar a fé para questões de aspeto transcendente, que não são necessariamente abordadas pela ciência e seus métodos: qual o sentido da nossa existência, o que é o amor, por que existe o mal, o que é verdade etc.

Ler tudo, que não é muito mais, aqui.
Mais Marcelo Gleiser aqui.

3 comentários:

Anónimo disse...

Falam de espiritualidade mas esquecem-se que a religião é prévia a qualquer espiritualidade.

Fernando d'Costa

Jorge Pires Ferreira disse...

E não põe a hipótese se haver espiritualidade sem religião, como defendem Comte-Sponville, De Botton e mesmo A. C. Grayling?

Anónimo disse...

Olá Jorge.

Não. Sou da opinião de que esses autores estão a querer construir uma narrativa sobre o telhado (que o podem fazer: há imensos livros sobre telhados) ignorando as paredes que o sustentam. Por outras palavras: se há uma dimensão espiritual em todos nós (mesmo nos que não acreditam em Deus e na religião), eu estimo que isso se deve ao facto de sermos seres religiosos (embora não precisemos se aderir a uma religião instituída).

Fernando d'Costa

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