sábado, 8 de setembro de 2012

Anselmo Borges: "Uma igreja outra é possível"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.

O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.

Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"

Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".

Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".

Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".

Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.

Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.

Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.

5 comentários:

João Silveira disse...

Este artigo também é interessante: http://rorate-caeli.blogspot.com/2012/09/i-am-not-martinian-i-am-catholic.html

Jorge Pires Ferreira disse...

João,

não devemos julgar as pessoas pelas companhias porque conhecemos um que andava habitualmente mal acompanhado, mas um sítio que admira D. Williamson deve ser muito recomendável, deve.

Antonio Socci não é martiniano (olha, está a negar o que não vi ninguém afirmar). Felizmente não temos de ser soccialistas.

João Silveira disse...

Jorge, o texto não pertence a esse blog, este limitou-se a publicá-lo.

O Antonio Socci é um jornalista conhecido, em itália pelo menos.

Mas percebo que o Jorge tenha ficado sem palavras ao ler esse artigo.

Jorge Pires Ferreira disse...

Claro que sim, limitou-se a publicá-lo.

De facto, o blog ou sítio que o publica é muito pior (na minha perspectiva, ok, martiniana, pode ser) do que o blog do próprio Antonio Socci, um admirador das aparições de Medjugorje (atenção: não tenho nada contra nem nada a favor; aliás, "nada" define bem o que penso sobre isso) e do Padre Pio (também não tenho nada contra, as esta associação diz algo do seu cristiamismo).

Não são lugares que eu recomende, de facto. Não os frequento.

Basicamente, no que escreve, Antonio Socci está contra o que Bento XVI escreveu para o funeral de Martini.

O João já leu? Discorda de Bento XVI?

João Silveira disse...

O Jorge sabe perfeitamente que quando se faz um elogio fúnebre costumam referir-se as partes “positivas” da vida do defunto e omitir as “negativas”. Estaria à espera que o Papa dissesse o que está neste artigo? Não faria o mínimo sentido ter o Papa a falar assim dum Cardeal que acabou de morrer.

Eu não disse que concordava na íntegra com este artigo mas traz dados relevantes para o juízo sobre a vida deste Cardeal, que agora de repente parece que era o salvador da Igreja.

Quando temos o pensamento mainstream a aplaudir um príncipe da Igreja é caso para desconfiar.

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