quarta-feira, 11 de julho de 2012

Como criticar a Igreja

Num debate sobre a Igreja, entre crentes, é comum a certa altura dizer-se que os mais críticos da Igreja, ao criticarem a Igreja, criticam o próprio Jesus Cristo. Já por este blogue, diversas vezes, andaram conceções semelhantes, que radicam numa eclesiologia que diz que a Igreja é o "corpo místico de Cristo", ou que não é possível ter a foz sem ter o rio todo, servindo-me agora de uma imagem de John Henry Newman.

Walter Kasper, no livro que tenho andado a reler com imenso proveito, vai por outro lado. (E não é, claro,o único.) Diz que acentuar o carácter escatológico da fé (isto é, uma fé aberta ao futuro, nunca completamente realizada no momento presente) implica que se tome a sério a diferença entre Igreja e Reino de Deus, entre Cristo e a Igreja. "Esta não mais pode ter-se a si mesma como representação de Deus ou como Christus prolongatus". Aponta depois o fundamento e, de certa maneira, o modo de fazer boa crítica eclesial, que, a meu ver, assemelha-se muito ao fundamento e ao modo como Jesus Cristo criticou o judaísmo, com base nas Escrituras, sem nunca deixar de ser completamente judeu:
No passado, conseguiu-se muitas vezes, por meio de tal pretensão, ficar imune contra toda a crítica, recusando-se esta como expressão da falta de eclesialidade ou até de descrença. Mas, no caso de se reconhecer que a Igreja possui no Evangelho uma norma prévia e superior, então é viável e susceptível de fundamento teológico a crítica sobre a Igreja. Por derivar do Evangelho e sublinhar o seu carácter escatológico de crise, será mais radical que toda a crítica proveniente do exterior. Toma, por assim dizer, a Igreja pela própria palavra e tenta transformá-la a partir de dentro. Não constitui uma crítica altaneira e distante, a partir de cima, mas uma crítica ativa e passiva, cuja finalidade única consiste em relevar o elemento cristão distinto e decisivo, movendo-o à provocação no meio da Igreja. 
Pág. 182 de "Introdução à fé"

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