quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Há por aí muitos amalricanos



Suplício dos amalricanos

A leitura das coisas mais ou menos improváveis de áreas que não domino permite a descoberta do inesperado em áreas que pensava conhecer minimamente.
Hoje dei com um filósofo de que nunca ouvira falar. Amalrico de Bena. Um livre-pensador da Idade Média, portanto, uma raridade. Andou entre Paris e Chartres, os centros culturais dos séculos X-XIII, foi o líder da escola panteísta medieval. A coisa não acabou bem. Foi condenado, teve de se emendar, regressou à Universidade de Paris e dizem que morreu por causa desta humilhação. Passados quatro anos, os seus seguidores foram condenados à fogueira. O corpo de Almerico foi exumado e queimado com os discípulos. Isto foi em 1210.
E o que defendia Almerico (segundo a Wikipedia)?
- que Deus é tudo (omnia sunt deus) e, assim, todas as coisas são uma, porque o que quer que seja, é Deus (omnia unum, quia quidquid est, est Deus);
- que cada cristão é obrigado a acreditar que é um membro do corpo de Cristo, e que essa crença é necessária para a salvação;
- que quem permanece no amor de Deus não pode cometer nenhum pecado.
Já os amalricanos achavam que:
- o Inferno é a ignorância, portanto, o Inferno está dentro de todos os homens, "como um dente ruim na boca";
- Deus é idêntico em tudo que existe; mesmo o mal pertence a Deus e prova a omnipotência de Deus;
- um homem que sabe que Deus actua através de tudo não pode pecar, porque todo acto humano é, então, o acto de Deus;
- um homem que reconhece a verdade de que Deus age através de tudo já está no Céu e esta é a única ressurreição. Não há outra vida; a realização do homem está apenas nesta vida.
Amalrico e os seguidores estavam fora da ortodoxia cristã, mas é curioso verificar como hoje há muitos amalricanos quanto à ideia de Deus e da salvação, quanto à identificação do inferno com a ignorância, quanto à realização exclusivamente intra-histórica.

2 comentários:

Anónimo disse...

Por que razão o erro teológico é por vezes tão "interessante" ?

Anónimo disse...

Porque pode moldar (desgraçadamente, para a infelicidade) a vida da humanidade durante indeterminado tempo ?

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