sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Back to basics



Ao ver os distúrbios de Londres e de outras cidades inglesas, lembrei-me de uma frase de João Maria Vianney que diz que numa paróquia sem padre, numa geração, a pessoas transformam-se em bestas. Quando comecei a escrever estas linhas foi confirmar a frase do pároco de Ars. E o que diz é outra coisa: “Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas”. Mas continua a servir para esta reflexão.


Isto é despropositado em relação ao que passa na Inglaterra? Será somente um caso isolado e fruto da crise económica? Penso que não ao ver o que move os que causam distúrbios. Não há ideologia (que não desculparia os distúrbios) nem causas ou valores. Aliás, a ausência de valores morais em todo aquele caos talvez explique o panorama – o que leva José Manuel Fernandes a escrever hoje no “Público”, que “se não existir um sentido moral nas nossas regas de vida em comum, não haverá ordem nas nossas cidades”.


É sabido que muitos daqueles jovens passaram a nada ter que fazer devido ao fecho de clubes e outras organizações que viram os seus orçamentos diminuídos por causa da austeridade imposta pelo governo. Mas já não é tão dito – isso geralmente não entra nas reflexões dos sociólogos e comentadores políticos – que é uma geração sem qualquer referência religiosa. E aqui entra, em dúvida, o pensamento do cura d’Ars, mesmo que não se simpatize com o seu estilo pastoral (duvido que tê-lo proposto como modelo para os padres actuais, coisa que fez bento XVI em 2009, tenha servido para algo).


Ouvi há tempos que um responsável prisional português disse que, no percurso dos que estão nas prisões portuguesas, geralmente faltou a catequese. Não o disse certamente por beatice.


Ainda está por provar que uma sociedade consegue viver sem uma ou várias religiões que lhe dêem um substracto moral. As tentativas voluntariosas de construir comunidades sem Deus nunca resultaram. Mas em sociedades em que a irreligiosidade é resultado da liberdade individual – a Inglaterra é dos países onde as liberdades individuais há mais tempo são respeitadas e dos mais descristianizados, onde hoje se discute se o cristianismo não estará a chegar ao fim, principalmente na versão anglicana –, fica por saber se restará espaço para os valores humanos. Temo que não.


2 comentários:

Tony Moreno disse...

Para o socialmente correcto, a religião não pode ser tida em conta na análise da realidade pois viola o multiculturalismo. A sua análise parece-me correcta. Resta acrescentar que em nenhuma sociedade a lei ou o Direito são cimento dessa mesma sociedade. Apenas garantem o mínimo para as pessoas viverem em comunidade.

Anónimo disse...

Parábéns pela descrição e reflexão. Na minha opinião é a falta de Deus na vida dos mais novos, sobretudo ao nível comunitário. Claro que a Igreja aqui tem muita culpa. Penso que o Anglicanismo e as protestantes estão em maior crise que a Igreja Católica. Peçamos a Deus que em Madrid seja um grande testemunho de comunhão universal

Os dois maiores erros da história de Portugal

António Rendas, reitor da Universidade Nova (de partida) e durante dez anos reitor dos reitores portugueses, diz que "expulsar os judeu...