sábado, 24 de outubro de 2015

Heróis do hospital



O Diário de Notícias de hoje em vez de fotografias traz desenhos. Desta vez tem a ver com o festival de BD da Amadora. Já há cinco meses fez coisa parecida, numa edição que, diz o jornal, "foi um sucesso".

Copia o que o Público já fez há uns anos, várias vezes, aliás. E também o que fez “O Independente” no final dos anos 80 ou no princípio dos 90, julgo que, por sua vez, imitando o que o “Liberation” fazioa a propósito do festival de BD de Angoulême.

Nestas edições todas, na minha opinião, a única que teve piada foi a de "O Independente", que guardo, como muitas outras, algures em casa dos meus pais.

De resto, o DN de hoje perde muito do seu valor informativo. As imagens estorvam, como esta, que por meter uma cruz provocou este meu comentário. A reportagem fala do pessoal não médico que trabalha no hospital (início aqui). Padre (P.e Fernando Sampaio, do Santa Maria) incluído.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Há um cardeal que vai ser o ministro da família

Pelo que percebi, a família deixa de ser uma secretaria de estado e passa a ser um ministério. Por outras palavras, uma congregação. No Vaticano.

"Decidi instituir um novo dicastério com competência sobre leigos, a família e a vida, que vai substituir o Conselho Pontifício para os Leigos e o Conselho Pontifício para a Família, ao qual vai estar ligada a Academia Pontifícia para a Vida", disse o Papa.

E o que adianta? Não sei.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que é o inferno


Leio na "Ler" que Jón Kalman Stefánsson escreveu uma trilogia em que "a procura de sentido para a ideia da existência de um Deus bom e todo-poderoso que permite o sofrimento dos homens, quando Lhe seria tão fácil evitá-lo, é a bússola" que o guia.

Dessa trilogia estão publicados em português os títulos "Paraíso e Inferno" (2013) e "A Tristeza dos Anjos" (2014).

Não sei onde foi buscar a ideia de que seria tão fácil a Deus evitar o sofrimento dos homens. Nunca foi fácil. Pelo menos pelos critérios humanos, está patente. Deve vir da afirmação da omnipotência de Deus a ideia da facilidade de fazer tudo. Não sendo Deus omnipotente, ainda pode ser Deus? Talvez Deus tenha dito que é omnimpotente e quem ouviu percebeu mal. E Deus, na sua omnimpotência, não percebeu que o perceberam mal. E gerou-se o equívoco.

Mas concordo com Stefánsson: "O Inferno é ter braços mas ninguém para abraçar". 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Enzo Bianchi: A misericórdia vem antes da justiça

Enzo Bianchi escreveu o artigo mais esclarecedor sobre o decorrer do sínodo dos bispos. Bom, não tenho lido muitos. Mas todos muito pífios.

Neste, diz que ao sínodo tem valido principalmente pela partilha entre diferentes situações familiares numa Igreja  que é mesmo global, mas que começa a pensar localmente, ou pelo menos continentalmente (parte não citada).

Recolho, contudo, a parte de que mais gostei, embora continue sem perceber como é que poderá haver comunhão para recasados e manter-se a indissolubilidade do casamento sem contradições.


Em todos os casos, o que mais ocupou os Padres e acendeu os ânimos foram as disposições pastorais a serem assumidas em relação aos divorciados recasados, isto é, aqueles que trazem em si mesmos as feridas da ruptura ou do fim do matrimônio celebrado e sancionado diante de Deus na Igreja.

Todos os Padres sinodais estão convencidos de que o matrimônio cristão é indissolúvel, que essa indissolubilidade é um fim que sempre deve ser buscado com esforço, mas também que se trata de um valor de ordem revelativa e profética, porque mostra a fidelidade de Deus na aliança com o seu povo e com a humanidade inteira.

O que está sendo discutido diz respeito a "como" a Igreja pode ter uma palavra e agir com uma atitude de acordo com o Evangelho pelas famílias concretas de hoje: situações de divórcio, pessoas recasadas civilmente, mães abandonadas, mulheres jovens grávidas e deixadas sozinhas, famílias monoparentais...

Tornou-se de domínio público o episódio de um menino que, no dia da sua Primeira Comunhão, partiu a hóstia recebida para dar uma metade para o pai, que, divorciado recasado, não poderia recebê-la. Alguns bispos, ouvindo o relato, se comoveram, mas essa situação não é uma exceção: divisões intrafamiliares como essa são vividas rotineiramente por cônjuges cristãos que participam da missa, mas sem poder comungar, ambas fazendo parte do corpo de Cristo, mas impedidos de manifestar sacramentalmente essa sua verdade.

Pense-se também em cônjuges cristãos de confissão diferente, também eles unidos no amor selado em uma celebração eclesial, unidos na vida de fé, na educação cristã dos seus filhos e, depois, divididos no momento de participar do alimento eucarístico que nutre a sua vida cristã...

De várias partes, assim, prospecta-se uma possibilidade de acesso aos sacramentos por parte de cônjuges divorciados recasados, mas com algumas condições específicas: que o pedido dos sacramentos parta da sua consciência cristã, que estejam convencidos de terem que assumir a responsabilidade pela ruptura do vínculo matrimonial como contradição com a vontade de Deus – salvo o caso do cônjuge abandonado –, que tenham feito toda a justiça em relação ao cônjuge anterior e aos filhos nascidos da primeira união, que vivam eclesialmente o seguimento de Cristo, que estejam disponíveis a um caminho penitencial sob o discernimento e a custódia do bispo.

Portanto, não se trata de negar a indissolubilidade do matrimônio cristão, até porque essas disposições não diriam respeito indiscriminadamente a todos os divorciados recasados cristãos, mas apenas a alguns casos sabiamente avaliados e acompanhados não por escritórios burocráticos diocesanos, mas pelo bispo, pessoalmente ou através de pessoas competentes encarregadas, peritas em humanidade, obedientes ao Evangelho e refratárias a lógicas mundanas ou a pedidos que não se configuram como fruto de uma consciência iluminada pelo Evangelho.

Essa possibilidade está no espaço da misericórdia que a Igreja sempre deve colocar em prática em relação aos seus filhos e aos homens todos, em conformidade com o seu Senhor Jesus Cristo. Misericórdia não vendida, mas a caro preço: o preço do dom da vida que Cristo deu por nós.

Então, não existe nenhuma contraposição entre misericórdia, justiça e verdade, porque em Deus, que é o legislador, a misericórdia vem antes da justiça, e esta nunca é punitiva, nunca é retributiva, nunca é meritocrática: é uma justiça não enfaixada, porque olha para o rosto de cada um e discerne o sofrimento, o desejo do amor e, só depois, o pecado.
Copiado daqui.

A jantarada dos bispos

Enquanto termina e não termina o sínodo dos bispos sobre a família (porque não um sínodo das famílias sobre os bispos?), sem nada para mostrar, ao que se saiba, dizem as notícias que o cardeal Marx deu uma jantarada (terá sido uma "cheat meal"?) a uma série de bispos numa "villa" que a arquidicose de Munique tem em Roma. Isso foi no domingo.

Parece que hoje há outra. Se alguém poder ir, o casarão de nove milhões de euros fica na Via delle Medaglia d’Oro.


Alguns poderão ficar admirados com a jantarada dos padres sinodais, cerca de 20, de vários países. Mas já houve concílios que terminaram com bailes.
Voltei.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Fé e política

De férias em Cuba, um português conversa com um cubano. A certa altura pergunta-lhe o cubano: "Você vem de um país muito católico, até lá apareceu Nossa Senhora... Fátima. É católico?"
"Mais ou menos", responde o português. "Acredito, mas não pratico. Já agora, deixe-me fazer-lhe uma pergunta", continua o português. "Você vive num país oficialmente comunista. É comunista?"
"Mais ou menos", responde o cubano. "Pratico, mas não acredito".

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Teilhard entrou na grande missa cósmica há 60 anos


Está quase a fazer 60 anos que morreu Teilhard de Chardin. É na sexta-feira. Li um texto sobre o assunto aqui.

As suas relações com os seus superiores nem sempre foram fáceis e, com alguns dicastérios da Santa Sé, foram bastante problemáticas e não poucas vezes ameaçadoras e punitivas, porém, dois papas – Paulo VI e Bento XVI –, sobre o pensamento de Teilhard de Chardin, expressaram juízos de elogio e de alto interesse e apreciação.

Miguel Esteves Cardoso: Duvidar é bom

Miguel Esteves Cardoso no "Público" de hoje:

A educação é o que acontece quando se põem em causa a verdade e as verdades. Aprende-se a distinguir os factos (ou as observações) das verdades.

É um facto observado que alguém tirou um pão sem pagá-lo. Mas é a partir daí que não conseguimos impedir-nos de pensar mais; mais longamente; mais tarde. Será que a pessoa tinha fome? Será que a pessoa é contra o roubo? Será que é assim que se define o roubo e, por conseguinte, o ladrão?

O relativismo é muito atacado: por alguma razão é. Talvez seja porque é a maneira de o mundo sustentar muitas verdades adversárias ao mesmo tempo. É como os vários estilos do jazz: é por serem vários que são (ou, mais convincentemente ainda, não são) jazz.

A educação é a edificação da incerteza informada, curiosa e divertida. Só funciona se formos ambivalentes: se eu, por exemplo, não for capaz de suspeitar que têm valor estético as obras de arte (ou coisas) que me repugnam e afastam, torno-me num apreciador fanático e obstruído.

O relativismo é a única maneira inteligente de reconciliar verdades concorrentes que se deixam vitimar pelo desejo comum de vencer.

É a curiosidade — e a abertura solidária para se provar que estamos errados — que nos salva de termos certezas estúpidas.

A educação é o que nos prepara para não estarmos preparados. A certeza é a feição mais atraente da ignorância. Também a estupidez convencida e inviolável é o melhor antídoto para o remédio da sempre angustiada e céptica inteligência.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Laicidade, o que é?, por Claudio Magris


"Laicidade não é um conteúdo filosófico, mas sim um âmbito mental, a capacidade de distinguir o que é demonstrável racionalmente do que, pelo contrário, é objeto de fé - independentemente da adesão ou não a essa fé - e de distinguir as esferas e os âmbitos das diferentes competências, por exemplo, as da Igreja e as do Estado, o que - precisamente conforme o dito evangélico - se deve dar a Deus e o que se deve dar a César."

Claudio Magris, na pág, 24 do admirável "A História não acabou. Ética, Política, Laicidade", Quetzal

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Crónica de Páscoa 2 - Portocarrero de Almada: "São Judas Iscariotes?"

O padre Portocarrero de Almada diz que Judas Iscariotes está a ser reabilitado por uma ética relativista. Supondo que sim, essa ética relativista que não quer condenar um mau não terá algo de cristão? O amor cristão não é justicialista, é relativista pelo menos num sentido, no sentido dos mais desprotegidos, frágeis, esquecidos, ofendidos, atormentados, sofredores. E pelo menos nestas duas últimas categorias Judas poderá caber. O amor cristão pode ser justicialista a priori, mas é relativista a posteriori. O pai ameaça o filho com o chicote antes de ele partir. Mas depois vai a correr para ele, quando ele regressa, mostrando os tornozelos e não se importanto por ser motivo de chacota.

Ler aqui.



Um bocadinho:

"Não é inocente a devoção a “São” Judas Iscariotes: a ética relativista tudo reduz à ambiguidade do propósito do sujeito e, neste sentido, até a traição de Judas se justificaria. Pelo contrário, a moral cristã está fundada na lei de Deus, que Cristo não veio abolir, nem alterar, mas dar pleno cumprimento, na expressão misericordiosa do mandamento novo do seu amor".

Crónica de Páscoa 1 - E se não houvesse religiões?

Crónica de Páscoa de Paulo de Almeida Sande no "Observador". Realço isto:


Na troca de argumentos entre crentes e não-crentes que ocorre no grupo [um grupo de ateus no Facebook] o que mais impressiona é a parte de violência que contém (há excepções, claro): são violentos os argumentos dos não-crentes, violentas as respostas dos crentes de qualquer religião (nele “postam” cristãos, evangélicos, muçulmanos, judeus e muitas outras denominações religiosas). Recorre-se a filmes (de actualidade, como os linchamentos no Estado Islâmico ou declarações mais ou menos caricatas de pastores de distintos cultos), caricaturas – sim, lá está o traço inconfundível do Charlie Hebdo no seu pior -, citações das escrituras ou do Corão, fotografias e muito mais, em defesa do sim e do não. O maniqueísmo é absoluto, a já descrita violência (verbal ou, neste caso, escrita e visual) servida a rodos e com generosidade.

Vida

Páscoa. Vida nova. Mesmo nova.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Autor e Deus

Um autor no seu trabalho deve ser como Deus no Universo, presente em toda a parte, visível em parte alguma.

Flaubert

domingo, 28 de dezembro de 2014

Bento Domingues: "Um milénio entre a excomunhão e a bênção"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

1. Segundo a cronologia, devia ter deixado para hoje o que escrevi no Domingo passado. Mas assim é melhor. Vamos, então, à fonte donde nasceram as questões que os jornalistas levantaram ao Papa, no voo de regresso da Turquia.

Foi uma peregrinação que durou três dias cheios de acontecimentos, cuja significação profunda e decisiva para o futuro passou quase despercebida. Começo pelo contraste complementar entre as declarações fervorosas sobre o Islão – a não confundir com as organizações que o invocam para matar em nome de Deus - e o apelo veemente aos dirigentes religiosos e políticos muçulmanos para que se unam na denúncia clara e pública desses crimes e ameaças.

 A Turquia é a fronteira de muitas fronteiras políticas, religiosas e cristãs. Bergoglio não foi lá dar lições a ninguém. Foi encorajar os que procuram caminhos de paz no Medio Oriente, intensificar o diálogo inter-religioso e revigorar a proximidade católica com o mundo cristão da Ortodoxia.

Era conduzido pelo desejo de congregar as energias de todas as pessoas de boa vontade, daquelas que vêem o mundo a partir do rosto das vítimas da violência, dos pobres e dos excluídos e que não aceitam esta vergonha como uma fatalidade.

2. Depois de se referir ao horror da islamofobia, da cristianofobia e de realçar a importância do diálogo inter-religioso, ele próprio explicou a alma da sua viagem: Eu fui à Turquia e fui como peregrino, não como turista. De facto, o que me levou, o motivo principal, foi a festa de hoje: fui precisamente para a partilhar com o Patriarca Bartolomeu; foi um motivo religioso. Depois, quando fui à Mesquita, não podia dizer: "Não! Agora sou turista!" Isto não; era tudo religioso. E vi aquela maravilha! O mufti explicava-me bem as coisas, com tanta serenidade e mesmo com o Alcorão, onde se falava de Maria e de João Baptista, explicava-me tudo... Naquele momento, senti necessidade de rezar. E disse: "Rezamos um bocado?" "Sim, sim!" – disse ele. E rezei… pela Turquia, pela paz, pelo mufti... por todos... por mim, que bem preciso... Rezei verdadeiramente. E, sobretudo, rezei pela paz. Disse: "Senhor, acabemos com a guerra!" Assim mesmo. Foi um momento de oração sincera.

3. Ao participar na Oração Ecuménica, na Sede do Patriarcado Ortodoxo, no dia da festa de Santo André, fez e disse algo, que irritou os fanáticos da superioridade católica e à qual as outras igrejas se deveriam render: “(...) André e Pedro eram irmãos de sangue, mas o encontro com Cristo transformou-os em irmãos na fé e na caridade. E nesta noite jubilosa, nesta oração de vigília, quero, sobretudo, dizer: irmãos na esperança.

Que grande graça, diz Francisco a Bartolomeu, poder ser irmãos na esperança do Senhor Ressuscitado! Que grande graça – e que grande responsabilidade – poder caminhar juntos nesta esperança, sustentados pela intercessão dos Santos irmãos Apóstolos, André e Pedro! Saber que esta esperança comum não desilude: está fundada - não sobre nós e as nossas pobres forças – mas sobre a fidelidade de Deus.

Com esta jubilosa esperança, transbordante de gratidão e trepidante expectativa, formulo a Vossa Santidade, a todos os presentes e à Igreja de Constantinopla os meus votos cordiais e fraternos pela festa do Santo Patrono. E peço um favor: de nos abençoar, a mim e à Igreja de Roma.

Um milénio entre este pedido de bênção e o envio de uma excomunhão papal!

Com este espírito, não era difícil que, no final da Divina Liturgia, de Domingo, o Patriarca Bartolomeu e o Papa assinassem uma Declaração Comum de empenhamento em superar os obstáculos que dividem estas Igrejas.

Não é uma Declaração para servir as respectivas “sacristias”, mas para colocar as duas Igrejas no horizonte das suas responsabilidades no mundo, escutando as suas vozes: a voz dos pobres, que pedem uma ajuda material necessária em muitas circunstâncias, mas sobretudo que os ajudemos a defender a sua dignidade de pessoas humanas e a lutar contra as causas estruturais da pobreza; a voz das vítimas dos conflitos, em diversas partes do mundo - conflitos, muitas vezes entre grupos religiosos; a voz dos jovens, que vivem sem esperança, dominados pelo desânimo e resignação e que vão buscar a alegria apenas à posse de bens materiais e na satisfação das emoções do momento. Devemos encorajar as multidões de jovens, ortodoxos, católicos e protestantes, que se reúnem em Taizé, apressando o momento da unidade de todos.

Na Catedral Católica, o Papa sublinhou a nossa permanente tentação de resistir ao Espírito Santo, porque ele perturba, revolve, faz caminhar e incita a Igreja a avançar. É sempre mais fácil e confortável acomodarmo-nos nas posições estáticas e inalteradas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo, quando desiste de o regular e domesticar e afasta a tentação de só olhar para si própria. Nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para nos deixamos conduzir pelo Espírito. Ele é frescura, criatividade, novidade.

O diagnóstico das 15 doenças do Vaticano só pode vir de quem se incomoda e não se acomoda. Bom Ano!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Take Me To Church. Já há algum tempo que não ouvia uma canção tão poderosa



"Take Me To Church"

My lover's got humour
She's the giggle at a funeral
Knows everybody's disapproval
I should've worshipped her sooner

If the heavens ever did speak
She's the last true mouthpiece
Every Sunday's getting more bleak
A fresh poison each week

'We were born sick, ' you heard them say it

My Church offers no absolutes
She tells me, 'Worship in the bedroom.'
The only heaven I'll be sent to
Is when I'm alone with you—

I was born sick,
But I love it
Command me to be well
Amen. Amen. Amen. Amen.

[Chorus 2x:]
Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins and you can sharpen your knife
Offer me that deathless death
Good God, let me give you my life

If I'm a pagan of the good times
My lover's the sunlight
To keep the Goddess on my side
She demands a sacrifice

Drain the whole sea
Get something shiny
Something meaty for the main course
That's a fine looking high horse
What you got in the stable?
We've a lot of starving faithful

That looks tasty
That looks plenty
This is hungry work

[Chorus 2x:]
Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins so you can sharpen your knife
Offer me my deathless death
Good God, let me give you my life

No Masters or Kings
When the Ritual begins
There is no sweeter innocence than our gentle sin

In the madness and soil of that sad earthly scene
Only then I am Human
Only then I am Clean
Amen. Amen. Amen. Amen.

[Chorus 2x:]
Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins and you can sharpen your knife
Offer me that deathless death
Good God, let me give you my life

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Respiremos neste Natal

O melhor livro de Advento-Natal. Já tem uns aninhos. Original litaliano de 1995, edição portuguesa de 1996. Bem antes de Bento XVI, César das Neves e outros, afirmou o lugar do burro e o boi no presépio.

"O burro e o boi já fazem parte integrante do quadro em que Deus opera a nossa salvação. São o sinal de que o dia-a-dia em todas as suas versões não é um segmento de vida pobre ou sem sentido, mas o caminho pouco vistoso, por vezes até um pouco aborrecido, ao longo do qual Deus nos conduz gradualmente até ao cume da montanha. É fundamental que saibamos acolher o burro e o boi na nossa vida. Porque, apesar de nalguns dias não conseguirmos cantar nem falar, será importante que, pelo menos, possamos respirar" (pág. 98).

Bom Natal. A todos.

Luís Osório: "Jesus vive no Papa Francisco?"


Editorial de Luís Osório no "i" de hoje, Sobre Francisco, que chega aonde mais nenhum Papa chegou, pelo menos assim de repente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 7


Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 6


Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 5



Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 4


Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 3


Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 2


Bento Domingues: "Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora" - 1

Frei Bento Domingues deu uma entrevista ao "Expresso" de sábado passado. Vale a pena ler. Acho. Porque ainda não li. Mas vou ler. E colocá-la toda aqui. Aos bocadinhos. De meia em meia hora.

domingo, 21 de dezembro de 2014

O verdadeiro líder

"Todo o líder deve servir os seus liderados", disse Abraham Skorka na entrevista que deu ao DN. Se todos os líderes eclesiais assim pensassem e agissem, mais os líderes políticos e os gestores, o mundo seria uma maravilha. Ainda mais do que é.

Bento Domingues: Quantos Cristos ressuscitaram? (1)


1. Nas crónicas de Natal, durante vários anos, preocupei-me, com questões de ordem histórica e teológica, levantadas pelo género literário dos chamados “Evangelhos da Infância”. Esses belos tecidos simbólicos, anunciando o reinado do Espirito de Cristo – recusa do mundo de senhores e escravos – são mal servidos por uma leitura estéril de biologia milagrosa.

Este ano, opto pela peregrinação ecuménica do Papa Francisco à Turquia, fundamental para o renascimento das Igrejas. Selecciono, apenas, duas respostas descontraídas a perguntas dos jornalistas, no voo de regresso [1]. Voltarei, em breve, a outros aspectos.

O Papa Bergoglio tinha afirmado que, para chegar à suspirada plenitude da unidade, “a Igreja católica não tem intenção de impor qualquer exigência”. Daí a questão: “estaria a referir-se ao Primado (do Bispo de Roma)?

Resposta: A questão do Primado não é uma exigência; é um acordo porque também os ortodoxos o desejam. É um acordo para encontrar uma modalidade que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Li, uma vez, algo que me fez pensar – um parêntesis – aquilo que sinto de mais profundo acerca deste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo. Li, com efeito, que só o caminho do Espírito Santo é caminho certo, porque Ele é surpresa. Ele mostrar-nos-á onde está o ponto decisivo. Ele é criativo…

Talvez isto seja uma autocrítica, mas corresponde, mais ou menos, ao que eu disse nas congregações gerais, antes do Conclave, o problema está no seguinte: a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se imaginasse que possui luz própria. Mas, como sabem, a Igreja não tem luz própria. Deve voltar-se para Jesus Cristo!

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.

Hoje, Bartolomeu usou uma palavra, não foi "auto-referencial", mas era muito semelhante, uma palavra muito bela… Agora não me recordo, mas era muito bela, muito bela [o termo na versão italiana é introversão].

Eles aceitam o Primado [do Bispo de Roma]. Hoje, na Ladainha, rezaram pelo "Pastor e Primaz". Como diziam? "Aquele que preside…". Reconhecem-no; disseram-no, hoje, na minha frente. Mas, quanto à forma do Primado temos de ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja errou, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas, agora, a estrada histórica da Igreja é aquela que pediu João Paulo II: "Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo à luz do primeiro milénio".

Este é o ponto-chave. Quando se fixa em si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para ser uma ONG teológica.

2. Uma jornalista interpelou-o “acerca da histórica inclinação” que ontem o Papa Francisco tinha feito diante do Patriarca de Constantinopla: como pensa agora enfrentar a crítica de quem talvez não entenda estes gestos de abertura?

Resposta: Atrevo-me a dizer que não se trata de um problema só nosso; é também um problema dos ortodoxos. Eles têm o problema de alguns monges, de alguns mosteiros que estão nessa estrada. Por exemplo, há um problema que se discute desde os tempos de Paulo VI: é a data da Páscoa. E não nos pomos de acordo! Mas porquê? Porque, se a fizéssemos na data da primeira lua depois do 14 de Nisan, com o avanço dos anos, correríamos o risco – os nossos bisnetos – de ter de a celebrar em Agosto. E devemos procurar… Paulo VI propôs uma data fixa concordada, um domingo de Abril.

3. Bartolomeu foi corajoso, sublinhou o Papa. Por exemplo, em dois casos, recordo um, mas há outro. Na Finlândia, ele disse à pequena comunidade ortodoxa: festejai a Páscoa com os luteranos, na data dos luteranos, para que num país de minoria cristã não haja duas Páscoas. E o mesmo problema vivem os orientais católicos. Ouvi esta, uma vez, à mesa, na Via della Scrofa: preparava-se a Páscoa na Igreja católica e estava presente um oriental católico que dizia: "Ah, não! O nosso Cristo ressuscita um mês mais tarde! O teu Cristo ressuscita hoje?" O outro observou: O teu Cristo é o meu Cristo.

A data da Páscoa é importante. Há resistência a isto por parte deles e nossa. Quanto a estes grupos conservadores, devemos ser respeitosos, sem nos cansarmos de explicar, catequizar, dialogar, sem insultar, sem os denegrir nem criticar porque tu não podes arrumar uma pessoa dizendo: "este é um conservador". Não. Este é tão filho de Deus como eu. Mas convidemo-lo: vem cá, falemos! Se não quer falar é um problema dele, mas eu respeito-o. Paciência, mansidão e diálogo.

Boas festas.

[1] Cf. Seguirei, de perto, a narrativa do L’Osservatore Romano, 04.12.2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

Anselmo Borges: Herança cristã da Europa

Até grandes pensadores agnósticos e ateus concordam que muito do bom da Europa é herança cristã. Anselmo Borges no DN de hoje.

Salvador


O período litúrgico do Advento e do Natal fala ao desejo de quem espera, e oferece um salvador a quem se sente perdido. O medo de perder coisas e pessoas e de perder-se com elas é uma das nossas preocupações mais profundas. O mistério da maldade que há em nós acrescenta mais alguma coisa do desejo e ao medo, criando mal-estar e desconfiança. Pode-se fingir que se ignora tudo isto, mas é como entrar num beco sem saída.

Domenico Pezzini, "O Tesouro e o Barro", pág. 7

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O amigo Abraão do Papa

Entrevista dada pelo amigo do Papa ao DN. Edição de 17 de dezembro de 2014.

Perdão e integridade


Houve altura em que cada um de nós sentiu necessidade de perdoar. Também houve momentos em que todos precisámos de ser perdoados. E todos esses momentos voltarão a repetir-se. De uma maneira muito particular, todos nos destroçamos e todos nós magoamos outras pessoas. O perdão é a viagem que empreendemos para sarar as partes destroçadas. É assim que reconquistamos a nossa integridade.

In "Livro do Perdão", de Desmond Tutu e Mpho Tutu (Editorial Presença), pág. 13

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Meditações de Santo Agostinho

Carlos Abreu Amorim, que tentou demonstrar que era esta a narrativa de Salgado, recomendou-lhe que lesse as "Confissões" de Santo Agostinho. O banqueiro, assumindo-se como "católico praticante", com "o maior respeito" pelo grande Doutor da Igreja, garantiu que "sempre que posso leio as Meditações de Santo Agostinho". Não sendo "Meditações" nenhum título canónico da obra do santo de Hipona, a referência de Salgado não deixa de ser adequada. É que, Salgado, meditar, até pode ter meditado. Confessar, não confessou.

Ler mais aqui.


(nota do blogue: Carlos Abreu Amorim é, segundo o conhecimento geral, ateu. Ou pelo menos agnóstico.)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Natal Comercial

Tem piada. E está lá a história do Natal (ainda que a anunciação do anjo não tenha sido em Belém). E não fala do Pai Natal.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Gálatas 3,28

A Igreja Anglicana aprovou na segunda-feira a possibilidade de ordenar mulheres bispas. Já podiam ser ordenadas em cinco países da Comunhão Anglicana, mas não em Inglaterra. Tenho pena de os católicos não estarem à frente nisto.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Marquês de Fronteira e ligações aos jesuítas


Morreu há dias o Marquês de Fronteira, Fernando Mascarenhas (deixa ver… foi no dia 12 de novembro), que se opôs à ditadura - “marquês vermelho” - e foi mecenas da cultura nos tempos democráticos.

E lembrei-me disto porquê? Não sei da fé do marquês, embora se diga que o funeral teve missa, mas lembro-me de ter lido algures que os Marqueses de Fronteira apoiaram o Padre Carlos João Rademaker (1828-1885), que foi o principal impulsionador da restauração da Companhia de Jesus em Portugal. E julgo que por causa disso, há cerca de uma década, uma edição dos “Monita Secreta” foi apresentada no Palácio dos Marqueses de Fronteira.

O livro “Monita Secreta” (“Instruções secretas”) são umas falsas instruções da cúpula dos jesuítas, escritas por um polaco dissidente dos jesuítas, no princípio do séc. XVII. Há quem diga que os “Monita Secreta” estão na origem de toda a literatura conspiracionista. E não digo mais, caso contrário, ainda levo o leitor a engrossar as fileiras dos que acreditam nos conteúdos do livro. Aliás, nem devia ter falado nisto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Óscar Afonso: "Pensamento económico do Papa Francisco"

No "i" de hoje. É mais pertinente esta análise dos que as inflamações por causa de afirmações isoladas do Papa. Mesmo que inteiras.

Jesus farto


Do "Inimigo Público" de hoje. O resto da "notícia" não a reproduzo. Demasiado mau gusto. (E talvez com isto leve algum leitor a procurar a prosa satírica).

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A confraria

Ouvi hoje na TSF que a Confraria do Pudim do Abade de Priscos quer que o Papa coma esta sobremesa. E pelos vistos, já falaram com um eclesiástico qualquer que tem uns contactos lá em Roma.

Há tempos, estava na moda entrar no Guinness com este tipo de coisas (a maior feijoada, a maior chouriça, o maior grelhador de não-sei-o-quê), agora parece que a moda é pedir publicidade ao Papa. Mesmo que ele não a dê, haverá sempre um jornalista por perto para noticiar a coisa.

E outro aspeto: não é impressionante a profusão de confrarias gastronómicas? E não é paradoxal que quando diminui a presença em atos litúrgicos e em procissões, as confrarias usem uma vestes, umas bandeiras,uns ritos e umas procissões paralitúrgicas? É muito fácil perder a dimensão do ridículo. E ainda mais em grupo.

Como Marx - um dos irmãos, não o Karl - eu era capaz de pertencer somente a uma confraria. A dos que não querem pertencer a nenhuma.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mais uma grande novidade sobre Jesus. Ai, desculpem, não é

Jesus casou com Maria Madalena, teve dois filhos e tentaram assassiná-lo aos 20 anos (julgo que já depois dos filhos nascidos, tendo em conta os modos de vida da época). Vem num manuscrito que encontraram na British Library. Ler aqui.

Ainda há dias, um investigador russo ou ucraniano dizia que era impossível Jesus ter existido. Será que alguém pode pôr os três investigadores, o eslavo, o canadiano e o israelo-canadiano, em contacto?

A novidade, agora, está sem dúvida na tentativa de assassinato. O resto não é novidade, pois não Dan Brown? Ups, a tentativa de assassinato, antes da cruz, também está nos evangelhos.

Bento Domingues: "Este Papa é incorrigível"


Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

domingo, 9 de novembro de 2014

“Senhor, ilumina-o ou elimina-o”

Conheço a oração, “Senhor, ilumina-o ou elimina-o”, as acusações de ser “comunista” e de usar os métodos do “prec” na reforma da cúria, de abusar da noção de hierarquia das verdades e de estar a perder, por palavras, gestos e atitudes, a tradicional dignidade de um “verdadeiro” Santo Padre. Há quem discuta a legitimidade da sua eleição e não só.

Bento Domingues
Público, 09-11-2014

O Muro de Berlim caiu, mas nem um cristão ajudou com uma martelada?

Pedaço do Muro de Berlim em Fátima

Ainda não li muito da imprensa de hoje (passei os olhos por todo o "Público" e "DN", ambos em papel), mas, do que li e vi, noto uma ausência gritante nos textos sobre a queda do Muro de Berlim, que se deu há 25 anos. Nada se fala do Solidariedade na Polónia, que realmente foi o motor que desencadeou o fim da Guerra Fria, muito menos de João Paulo II, e igualmente nada dos cristãos que em cidades da RDA como Leipzig se vinham organizando em favor da liberdade política. Parece que o fator religioso nada teve a ver com o fim de um regime confessionalmente ateu. Daí a minha interrogação brechtiana no título. (Voltarei aqui se entretanto as notícias impressas me desmentirem.)

sábado, 8 de novembro de 2014

A possibilidade de estar perto da fé segundo Ian McEwan

"Acreditar no amor sem limites é o mais perto que algum dia estarei da fé"


Ian McEwan no DN de hoje. Um bocadinho aqui.
Ian McEwan com a questão de Deus já por cá andou.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Tolerância católica

O sínodo sobre a família com poucas famílias lá dentro trouxe ao de cima o que sempre existiu na grande família que é Igreja, mas ultimamente estava mais wojtylaratzingerianamente abafado: duas grandes tendências, que geralmente os observadores dizem ser a dos progressistas e a dos conservadores. (Também há quem diga que são os católicos do Reino e os católicos da Comunhão. Ler aqui. Ou os católicos de Milão e os católicos de Roma, aqui.) Eu ia a dizer, na sequência disto: Não podem tolerar-se? Mas é claro que se toleram. E por isso todos são católicos. Apesar de tudo. E por causa de tudo.

A saúde de João Paulo II

Uma vez, a superiora de uma congregação disse a João Paulo II:
- Estou muito preocupada com a saúde de Sua Santidade.
João Paulo II respondeu:
- Eu também.
- Está preocupado com a sua saúde?!
- Não, com a minha santidade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Ética escandinava

No "Correio da Manhã" de há dias, no "Radar" de João Vaz, vinha isto:

Mais uma prova da existência de Deus

"Já a pescada arrepiada e anzolada é a prova da existência de Deus",
diz Miguel Esteves Cardoso na crónica de hoje no "Público".

Nulidades rápidas


JN de 06 de novembro de 2014. O despedimento foi na Argentina. Quanto à rapidez, facilidade e barateza do processo é simples: copiem o divórcio na hora português. Poderia ser "nulidade na hora". Acontece que não é aqui que reside o problema. Mesmo que todos as declarações de nulidade fossem rápidas, baratas e fácis, continuaria a haver muitos católicos recasados que não põem a questão da nulidade do primeiro casamento.

Ou mais

Aprender a amar-se a si mesmo é tarefa para uma vida inteira.

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Certeza

É nas questões em que faltam certezas que se pode experimentar a certeza de uma amizade.

Matteo Ricci, Máxima 26 do seu "Tratado da Amizade"

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Anselmo Borges: "Os dias da interrogação"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado.


Qual é a constituição da razão, que inevitavelmente põe perguntas a que depois não sabe responder? Essas perguntas, diz Kant, têm a ver com a liberdade: somos livres ou estamos inseridos na cadeia do determinismo causal?, com a imortalidade: tudo acaba com a morte ou continuamos para lá dela?, com Deus: há Deus ou Deus realmente não existe? Perguntas decisivas a que a razão científica não sabe responder. Ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe ou não existe e que haverá ou não vida futura; se alguém o souber, escreve, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".

Sobre aquilo que decisivamente nos interessa estamos praticamente na situação de sempre: nesses domínios, o saber no sentido científico estrito não avança. Mesmo sobre a morte o que é que sabemos? Ninguém sabe o que é morrer - lá está M. Heidegger: "A morte do outro revela-se como uma perda, mas sobretudo como a perda que experienciam os que ficam. A perda sofrida não lhes dá, porém, acesso à perda de ser enquanto tal que o moribundo "sofreu". Nós não experienciamos no sentido forte desta palavra o falecimento dos outros: quando muito, a única coisa que fazemos é "assistir" a ele." Por isso, ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?

Eu sei que hoje não é de bom tom falar ou escrever sobre estes temas. Mas não é a morte, facto perfeitamente natural, que se torna espaço de e da cultura? Sem a morte e a sua consciência, haveria religiões e filosofias?

O sintoma mais claro da crise deste nosso tempo - uma crise financeira, social, económica, religiosa, moral - é a morte tornada tabu, o único tabu. Para ser o que é, a nossa sociedade não teve apenas de fazer da morte tabu, ela é a primeira na história a colocar o seu fundamento sobre o tabu da morte: disso não se fala e vive-se como se ela não existisse.

O que se passou é que, como analisou Max Weber, na distinção entre Zweckrationalität (racionalidade referente a um fim condicionado, no quadro de imperativos hipotéticos) e Wertrationalität (racionalidade referente a valores morais categóricos), a primeira assumiu o primado e até o monopólio. A razão instrumental ou racionalidade técnica substituiu a razão prática enquanto racionalidade moral. Assim, como escreve o filósofo Luc Ferry, o nosso mundo é completamente dominado pela concorrência total, "o benchmarking, competição das empresas entre si, mas também dos países, das culturas, das universidades, dos laboratórios, etc. A história já não avança animada pela representação de uma finalidade, pelo projecto de construir um mundo melhor, animada por objectivos como a liberdade, a felicidade e o progresso. Já não avançamos referidos à representação de uma finalidade, mas apenas impelidos pela obrigação absoluta de fazer crescer os meios de que dispomos. Daí, a liquidação progressiva do sentido que caracteriza a vida política moderna". É preciso produzir, competir, inovar sempre, cada vez mais, mas, agora, "sem saber porquê nem para quê, em virtude de que finalidade", de tal modo que o homem moderno se tornou "o funcionário da técnica", como já tinha reflectido M. Heidegger.

Compreende-se que nesta sociedade, no quadro da objectivação total e humanamente "des-finalizada", a morte não tenha lugar. Daí, a desumanização crescente, sendo, pois, necessário voltar ao pensamento sadio, não mórbido, da morte. Esse pensamento não impede de viver. Pelo contrário, pela consciência do limite, leva a viver intensamente o milagre do existir, a cada instante, é ele também que remete para a ética, distinguindo entre bem e mal, justo e injusto, o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale, e ensina a fraternidade: somos mortais, logo, somos irmãos. E abre à Transcendência, pelo menos enquanto questão.

Neste sentido, apesar do tabu, os dias 1 e 2, hoje e amanhã, dias dos santos e dos finados, são os dias da interrogação essencial.

Nik Wallenda Conquers Chicago Skyline

Saltei à sorte para o minuto 3:00 e lá estava, uns segundos a seguir, o habitual agradecimento.

Reverberação

Em cada instante pode reconhecer-se a reverberação de uma Presença: os passos de Deus.

JTM, "A mística do instante"

domingo, 2 de novembro de 2014

Os católicos recasados que podem comungar são os...


...que vivem como irmãos (espero que não como Caim e Abel). Capa do DN de hoje, 2 de novembro.

Bento Domingues: "Eu já não acredito no Papa Francisco (2)"


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas”...

Bento Domigues no "Público" de hoje:

Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas” devido a certas posições da hierarquia eclesiástica. Nessas alturas, lembro-me da reacção do Padre Chenu, quando, em meados do século passado, louvaram a sua “obediência”, em vez de revolta contra as condenações romanas a que fora submetido. Escreveu um texto para dizer que não se tratava de obediência: foi e é a fé sobrenatural em Jesus Cristo, que recebi na Igreja, mas que não é propriedade de nenhuma instituição humana ou religiosa, que me sustenta.

Máxima 50 de Matteo Ricci

Os amigos são superiores aos pais pois estes podem não se amar, aqueles não. Quando os membros de uma mesma família não se amam, os laços de parentesco permanecem. Retirai o amor à amizade, e ela não terá mais razão de ser.

Matteo Ricci, máxima 50 do seu "Tratado da Amizade" 

sábado, 1 de novembro de 2014

A propósito da parábola do mau samaritano contada por P.e Portocarrero de Almada

O papel do burro está claramente subestimado na história do P.e Gonçalo Portocarrero de Almada


O P.e Portocarrero de Almada, hoje, no “Observador” (ver link na entrada anterior)  conta a “parábola do mau samaritano” para criticar quem defende mudança na abordagem da Igreja a certos problemas. As questões subjacentes são as dos católicos recasados e dos homossexuais católicos.
Na parábola, o homem espancado pelos salteadores é, para essa nova moral, a imagem dos fiéis que, por se encontrarem em situação canónica irregular, não se podem confessar, nem receber a comunhão. Também eles parecem vítimas de uma Igreja que os não compreende e abandona, embora tenham sido eles que, pelas suas opções e acções, se colocaram à margem, não da Igreja, que continua a acolhê-los, mas da vida sacramental, de que se auto-excluíram.
Tem alguma piada e faz umas boas observações no início do texto, mas, quanto a mim, falha o alvo. Aliás, as suas observações e paradoxos mais depressa se aplicam ao seu texto do que às situações que pretende atingir.

Segundo P.e Portocarrero, “dever-se-ia elogiar o sacerdote e o levita que, em nome da nova moral, se abstiveram de intervir, e criticar a acção da Igreja, representada na censurável atitude do samaritano”.

Ora, Jesus conta a história do samaritano precisamente para dizer que a compaixão não veio do lado institucional, legal, ortodoxo – o sacerdote e o levita – mas do herético, transgressor, semi-estrangeiro, heterodoxo, que era o do samaritano. E é precisamente a história contada por Jesus na versão de Lucas que podemos invocar para pedir as mudanças na Igreja, que, por muito evangélica que seja, tem sempre poder religioso, tem sempre sacerdotes e levitas zelosos do Direito Canónico.

A parábola do bom samaritano, que ele reconta como se a suposta nova moral a lesse como “parábola do mau samaritano”, é precisamente uma crítica à intransigência do poder religioso (sacerdotes e levitas, duas profissões do sagrado), ao legalismo, à formalidade, à lei sobre o espírito. O que Jesus ensina é que o cumprimento da lei é fazer o bem, amar, cuidar do próximo. E por isso é que alguns tidos por perdidos nos hão de preceder no Reino dos Céus.

No fundo, como não poderia deixar de ser, o P.e Portocarrero concorda com a precedência do amor. E afirma:
É que Cristo não veio ao mundo para revogar a lei – sendo Deus, como poderia revogar a sua lei?! – mas para lhe dar pleno cumprimento, nomeadamente através de mais um preceito: o mandamento novo da caridade. O único amor que nos salva, precisamente porque nos cura.
Mas o final da parábola original não é contado nem parafraseado. É que é muito mais direto e percetível, tanto no tempo de Jesus (porque omite o padre atual que quem faz a pergunta é um “doutor da lei”, um especialista em Escritura e em legalidades?) como hoje:
"Qual destes três achas que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o doutor da lei. Jesus disse-lhe: "Vai e faz o mesmo" (Lc 10...).

P.e Portocarrero de Almada: "Parábola do mau samaritano"

A parábola do mau samaritano, no "Observador"

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...