sábado, 20 de dezembro de 2014
Anselmo Borges: Herança cristã da Europa
Até grandes pensadores agnósticos e ateus concordam que muito do bom da Europa é herança cristã. Anselmo Borges no DN de hoje.
Salvador
O período litúrgico do Advento e do Natal fala ao desejo de quem espera, e oferece um salvador a quem se sente perdido. O medo de perder coisas e pessoas e de perder-se com elas é uma das nossas preocupações mais profundas. O mistério da maldade que há em nós acrescenta mais alguma coisa do desejo e ao medo, criando mal-estar e desconfiança. Pode-se fingir que se ignora tudo isto, mas é como entrar num beco sem saída.
Domenico Pezzini, "O Tesouro e o Barro", pág. 7
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Perdão e integridade
Houve altura em que cada um de nós sentiu necessidade de perdoar. Também houve momentos em que todos precisámos de ser perdoados. E todos esses momentos voltarão a repetir-se. De uma maneira muito particular, todos nos destroçamos e todos nós magoamos outras pessoas. O perdão é a viagem que empreendemos para sarar as partes destroçadas. É assim que reconquistamos a nossa integridade.
In "Livro do Perdão", de Desmond Tutu e Mpho Tutu (Editorial Presença), pág. 13
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Meditações de Santo Agostinho
Carlos Abreu Amorim, que tentou demonstrar que era esta a narrativa de Salgado, recomendou-lhe que lesse as "Confissões" de Santo Agostinho. O banqueiro, assumindo-se como "católico praticante", com "o maior respeito" pelo grande Doutor da Igreja, garantiu que "sempre que posso leio as Meditações de Santo Agostinho". Não sendo "Meditações" nenhum título canónico da obra do santo de Hipona, a referência de Salgado não deixa de ser adequada. É que, Salgado, meditar, até pode ter meditado. Confessar, não confessou.
Ler mais aqui.
(nota do blogue: Carlos Abreu Amorim é, segundo o conhecimento geral, ateu. Ou pelo menos agnóstico.)
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(nota do blogue: Carlos Abreu Amorim é, segundo o conhecimento geral, ateu. Ou pelo menos agnóstico.)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Natal Comercial
Tem piada. E está lá a história do Natal (ainda que a anunciação do anjo não tenha sido em Belém). E não fala do Pai Natal.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
José Diogo Quintela: Sócrates e Jesus
domingo, 23 de novembro de 2014
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Gálatas 3,28
A Igreja Anglicana aprovou na segunda-feira a possibilidade de ordenar mulheres bispas. Já podiam ser ordenadas em cinco países da Comunhão Anglicana, mas não em Inglaterra. Tenho pena de os católicos não estarem à frente nisto.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Marquês de Fronteira e ligações aos jesuítas
Morreu há dias o Marquês de Fronteira, Fernando Mascarenhas
(deixa ver… foi no dia 12 de novembro), que se opôs à ditadura - “marquês
vermelho” - e foi mecenas da cultura nos tempos democráticos.
E lembrei-me disto porquê? Não sei da fé do marquês, embora
se diga que o funeral teve missa, mas lembro-me de ter lido algures que os
Marqueses de Fronteira apoiaram o Padre Carlos João Rademaker (1828-1885), que
foi o principal impulsionador da restauração da Companhia de Jesus em Portugal.
E julgo que por causa disso, há cerca de uma década, uma edição dos “Monita
Secreta” foi apresentada no Palácio dos Marqueses de Fronteira.
O livro “Monita Secreta” (“Instruções secretas”) são umas
falsas instruções da cúpula dos jesuítas, escritas por um polaco dissidente dos
jesuítas, no princípio do séc. XVII. Há quem diga que os “Monita Secreta” estão
na origem de toda a literatura conspiracionista. E não digo mais, caso contrário, ainda levo o leitor a engrossar as fileiras dos que acreditam nos conteúdos do livro. Aliás, nem devia ter falado nisto.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Óscar Afonso: "Pensamento económico do Papa Francisco"
No "i" de hoje. É mais pertinente esta análise dos que as inflamações por causa de afirmações isoladas do Papa. Mesmo que inteiras.
Jesus farto
Do "Inimigo Público" de hoje. O resto da "notícia" não a reproduzo. Demasiado mau gusto. (E talvez com isto leve algum leitor a procurar a prosa satírica).
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
A confraria
Ouvi hoje na TSF que a Confraria do Pudim do Abade de Priscos quer que o Papa coma esta sobremesa. E pelos vistos, já falaram com um eclesiástico qualquer que tem uns contactos lá em Roma.
Há tempos, estava na moda entrar no Guinness com este tipo de coisas (a maior feijoada, a maior chouriça, o maior grelhador de não-sei-o-quê), agora parece que a moda é pedir publicidade ao Papa. Mesmo que ele não a dê, haverá sempre um jornalista por perto para noticiar a coisa.
E outro aspeto: não é impressionante a profusão de confrarias gastronómicas? E não é paradoxal que quando diminui a presença em atos litúrgicos e em procissões, as confrarias usem uma vestes, umas bandeiras,uns ritos e umas procissões paralitúrgicas? É muito fácil perder a dimensão do ridículo. E ainda mais em grupo.
Como Marx - um dos irmãos, não o Karl - eu era capaz de pertencer somente a uma confraria. A dos que não querem pertencer a nenhuma.
Há tempos, estava na moda entrar no Guinness com este tipo de coisas (a maior feijoada, a maior chouriça, o maior grelhador de não-sei-o-quê), agora parece que a moda é pedir publicidade ao Papa. Mesmo que ele não a dê, haverá sempre um jornalista por perto para noticiar a coisa.
E outro aspeto: não é impressionante a profusão de confrarias gastronómicas? E não é paradoxal que quando diminui a presença em atos litúrgicos e em procissões, as confrarias usem uma vestes, umas bandeiras,uns ritos e umas procissões paralitúrgicas? É muito fácil perder a dimensão do ridículo. E ainda mais em grupo.
Como Marx - um dos irmãos, não o Karl - eu era capaz de pertencer somente a uma confraria. A dos que não querem pertencer a nenhuma.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Anselmo Borges: Hawking e Francisco
terça-feira, 11 de novembro de 2014
A comunidade de Christiania tem a bandeira mais bonita que conheço
Pelo P3 (Público) soube de uma série de "reinos do nosso mundo", como o de Christiania, que não é reino mas comunidade. E tem a bandeira mais bonita de todas. Além do nome.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Mais uma grande novidade sobre Jesus. Ai, desculpem, não é
Jesus casou com Maria Madalena, teve dois filhos e tentaram assassiná-lo aos 20 anos (julgo que já depois dos filhos nascidos, tendo em conta os modos de vida da época). Vem num manuscrito que encontraram na British Library. Ler aqui.
Ainda há dias, um investigador russo ou ucraniano dizia que era impossível Jesus ter existido. Será que alguém pode pôr os três investigadores, o eslavo, o canadiano e o israelo-canadiano, em contacto?
A novidade, agora, está sem dúvida na tentativa de assassinato. O resto não é novidade, pois não Dan Brown? Ups, a tentativa de assassinato, antes da cruz, também está nos evangelhos.
Ainda há dias, um investigador russo ou ucraniano dizia que era impossível Jesus ter existido. Será que alguém pode pôr os três investigadores, o eslavo, o canadiano e o israelo-canadiano, em contacto?
A novidade, agora, está sem dúvida na tentativa de assassinato. O resto não é novidade, pois não Dan Brown? Ups, a tentativa de assassinato, antes da cruz, também está nos evangelhos.
domingo, 9 de novembro de 2014
“Senhor, ilumina-o ou elimina-o”
Conheço a oração, “Senhor, ilumina-o ou elimina-o”, as acusações de ser “comunista” e de usar os métodos do “prec” na reforma da cúria, de abusar da noção de hierarquia das verdades e de estar a perder, por palavras, gestos e atitudes, a tradicional dignidade de um “verdadeiro” Santo Padre. Há quem discuta a legitimidade da sua eleição e não só.
Bento Domingues
Público, 09-11-2014
Bento Domingues
Público, 09-11-2014
O Muro de Berlim caiu, mas nem um cristão ajudou com uma martelada?
Pedaço do Muro de Berlim em Fátima
Ainda não li muito da imprensa de hoje (passei os olhos por todo o "Público" e "DN", ambos em papel), mas, do que li e vi, noto uma ausência gritante nos textos sobre a queda do Muro de Berlim, que se deu há 25 anos. Nada se fala do Solidariedade na Polónia, que realmente foi o motor que desencadeou o fim da Guerra Fria, muito menos de João Paulo II, e igualmente nada dos cristãos que em cidades da RDA como Leipzig se vinham organizando em favor da liberdade política. Parece que o fator religioso nada teve a ver com o fim de um regime confessionalmente ateu. Daí a minha interrogação brechtiana no título. (Voltarei aqui se entretanto as notícias impressas me desmentirem.)
sábado, 8 de novembro de 2014
A possibilidade de estar perto da fé segundo Ian McEwan
"Acreditar no amor sem limites é o mais perto que algum dia estarei da fé"
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Tolerância católica
O sínodo sobre a família com poucas famílias lá dentro trouxe ao de cima o que sempre existiu na grande família que é Igreja, mas ultimamente estava mais wojtylaratzingerianamente abafado: duas grandes tendências, que geralmente os observadores dizem ser a dos progressistas e a dos conservadores. (Também há quem diga que são os católicos do Reino e os católicos da Comunhão. Ler aqui. Ou os católicos de Milão e os católicos de Roma, aqui.) Eu ia a dizer, na sequência disto: Não podem tolerar-se? Mas é claro que se toleram. E por isso todos são católicos. Apesar de tudo. E por causa de tudo.
A saúde de João Paulo II
Uma vez, a superiora de uma congregação disse a João Paulo II:
- Estou muito preocupada com a saúde de Sua Santidade.
João Paulo II respondeu:
- Eu também.
- Está preocupado com a sua saúde?!
- Não, com a minha santidade.
- Estou muito preocupada com a saúde de Sua Santidade.
João Paulo II respondeu:
- Eu também.
- Está preocupado com a sua saúde?!
- Não, com a minha santidade.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Mais uma prova da existência de Deus
"Já a pescada arrepiada e anzolada é a prova da existência de Deus",
diz Miguel Esteves Cardoso na crónica de hoje no "Público".
diz Miguel Esteves Cardoso na crónica de hoje no "Público".
Nulidades rápidas
JN de 06 de novembro de 2014. O despedimento foi na Argentina. Quanto à rapidez, facilidade e barateza do processo é simples: copiem o divórcio na hora português. Poderia ser "nulidade na hora". Acontece que não é aqui que reside o problema. Mesmo que todos as declarações de nulidade fossem rápidas, baratas e fácis, continuaria a haver muitos católicos recasados que não põem a questão da nulidade do primeiro casamento.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Certeza
É nas questões em que faltam certezas que se pode experimentar a certeza de uma amizade.
Matteo Ricci, Máxima 26 do seu "Tratado da Amizade"
Matteo Ricci, Máxima 26 do seu "Tratado da Amizade"
terça-feira, 4 de novembro de 2014
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Anselmo Borges: "Os dias da interrogação"
Texto de Anselmo Borges no DN de sábado.
Qual é a constituição da razão, que inevitavelmente põe perguntas a que depois não sabe responder? Essas perguntas, diz Kant, têm a ver com a liberdade: somos livres ou estamos inseridos na cadeia do determinismo causal?, com a imortalidade: tudo acaba com a morte ou continuamos para lá dela?, com Deus: há Deus ou Deus realmente não existe? Perguntas decisivas a que a razão científica não sabe responder. Ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe ou não existe e que haverá ou não vida futura; se alguém o souber, escreve, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".
Sobre aquilo que decisivamente nos interessa estamos praticamente na situação de sempre: nesses domínios, o saber no sentido científico estrito não avança. Mesmo sobre a morte o que é que sabemos? Ninguém sabe o que é morrer - lá está M. Heidegger: "A morte do outro revela-se como uma perda, mas sobretudo como a perda que experienciam os que ficam. A perda sofrida não lhes dá, porém, acesso à perda de ser enquanto tal que o moribundo "sofreu". Nós não experienciamos no sentido forte desta palavra o falecimento dos outros: quando muito, a única coisa que fazemos é "assistir" a ele." Por isso, ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?
Eu sei que hoje não é de bom tom falar ou escrever sobre estes temas. Mas não é a morte, facto perfeitamente natural, que se torna espaço de e da cultura? Sem a morte e a sua consciência, haveria religiões e filosofias?
O sintoma mais claro da crise deste nosso tempo - uma crise financeira, social, económica, religiosa, moral - é a morte tornada tabu, o único tabu. Para ser o que é, a nossa sociedade não teve apenas de fazer da morte tabu, ela é a primeira na história a colocar o seu fundamento sobre o tabu da morte: disso não se fala e vive-se como se ela não existisse.
O que se passou é que, como analisou Max Weber, na distinção entre Zweckrationalität (racionalidade referente a um fim condicionado, no quadro de imperativos hipotéticos) e Wertrationalität (racionalidade referente a valores morais categóricos), a primeira assumiu o primado e até o monopólio. A razão instrumental ou racionalidade técnica substituiu a razão prática enquanto racionalidade moral. Assim, como escreve o filósofo Luc Ferry, o nosso mundo é completamente dominado pela concorrência total, "o benchmarking, competição das empresas entre si, mas também dos países, das culturas, das universidades, dos laboratórios, etc. A história já não avança animada pela representação de uma finalidade, pelo projecto de construir um mundo melhor, animada por objectivos como a liberdade, a felicidade e o progresso. Já não avançamos referidos à representação de uma finalidade, mas apenas impelidos pela obrigação absoluta de fazer crescer os meios de que dispomos. Daí, a liquidação progressiva do sentido que caracteriza a vida política moderna". É preciso produzir, competir, inovar sempre, cada vez mais, mas, agora, "sem saber porquê nem para quê, em virtude de que finalidade", de tal modo que o homem moderno se tornou "o funcionário da técnica", como já tinha reflectido M. Heidegger.
Compreende-se que nesta sociedade, no quadro da objectivação total e humanamente "des-finalizada", a morte não tenha lugar. Daí, a desumanização crescente, sendo, pois, necessário voltar ao pensamento sadio, não mórbido, da morte. Esse pensamento não impede de viver. Pelo contrário, pela consciência do limite, leva a viver intensamente o milagre do existir, a cada instante, é ele também que remete para a ética, distinguindo entre bem e mal, justo e injusto, o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale, e ensina a fraternidade: somos mortais, logo, somos irmãos. E abre à Transcendência, pelo menos enquanto questão.
Neste sentido, apesar do tabu, os dias 1 e 2, hoje e amanhã, dias dos santos e dos finados, são os dias da interrogação essencial.
Nik Wallenda Conquers Chicago Skyline
Saltei à sorte para o minuto 3:00 e lá estava, uns segundos a seguir, o habitual agradecimento.
Reverberação
Em cada instante pode reconhecer-se a reverberação de uma Presença: os passos de Deus.
JTM, "A mística do instante"
JTM, "A mística do instante"
domingo, 2 de novembro de 2014
Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas”...
Bento Domigues no "Público" de hoje:
Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas” devido a certas posições da hierarquia eclesiástica. Nessas alturas, lembro-me da reacção do Padre Chenu, quando, em meados do século passado, louvaram a sua “obediência”, em vez de revolta contra as condenações romanas a que fora submetido. Escreveu um texto para dizer que não se tratava de obediência: foi e é a fé sobrenatural em Jesus Cristo, que recebi na Igreja, mas que não é propriedade de nenhuma instituição humana ou religiosa, que me sustenta.
Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas” devido a certas posições da hierarquia eclesiástica. Nessas alturas, lembro-me da reacção do Padre Chenu, quando, em meados do século passado, louvaram a sua “obediência”, em vez de revolta contra as condenações romanas a que fora submetido. Escreveu um texto para dizer que não se tratava de obediência: foi e é a fé sobrenatural em Jesus Cristo, que recebi na Igreja, mas que não é propriedade de nenhuma instituição humana ou religiosa, que me sustenta.
Máxima 50 de Matteo Ricci
Os amigos são superiores aos pais pois estes podem não se amar, aqueles não. Quando os membros de uma mesma família não se amam, os laços de parentesco permanecem. Retirai o amor à amizade, e ela não terá mais razão de ser.
Matteo Ricci, máxima 50 do seu "Tratado da Amizade"
Matteo Ricci, máxima 50 do seu "Tratado da Amizade"
sábado, 1 de novembro de 2014
A propósito da parábola do mau samaritano contada por P.e Portocarrero de Almada
O papel do burro está claramente subestimado na história do P.e Gonçalo Portocarrero de Almada
O P.e Portocarrero de Almada, hoje, no “Observador” (ver link na entrada anterior) conta a
“parábola do mau samaritano” para criticar quem defende mudança na abordagem da
Igreja a certos problemas. As questões subjacentes são as dos católicos
recasados e dos homossexuais católicos.
Na parábola, o homem espancado pelos salteadores é, para essa nova moral, a imagem dos fiéis que, por se encontrarem em situação canónica irregular, não se podem confessar, nem receber a comunhão. Também eles parecem vítimas de uma Igreja que os não compreende e abandona, embora tenham sido eles que, pelas suas opções e acções, se colocaram à margem, não da Igreja, que continua a acolhê-los, mas da vida sacramental, de que se auto-excluíram.
Tem alguma piada e faz umas boas observações no início do
texto, mas, quanto a mim, falha o alvo. Aliás, as suas observações e paradoxos
mais depressa se aplicam ao seu texto do que às situações que pretende atingir.
Segundo P.e Portocarrero, “dever-se-ia elogiar o sacerdote e
o levita que, em nome da nova moral, se abstiveram de intervir, e criticar a
acção da Igreja, representada na censurável atitude do samaritano”.
Ora, Jesus conta a história do samaritano precisamente para dizer que a compaixão não veio do lado institucional, legal, ortodoxo – o sacerdote e o levita – mas do herético, transgressor, semi-estrangeiro, heterodoxo, que era o do samaritano. E é precisamente a história contada por Jesus na versão de Lucas que podemos invocar para pedir as mudanças na Igreja, que, por muito evangélica que seja, tem sempre poder religioso, tem sempre sacerdotes e levitas zelosos do Direito Canónico.
A parábola do bom samaritano, que ele reconta como se a
suposta nova moral a lesse como “parábola do mau samaritano”, é precisamente
uma crítica à intransigência do poder religioso (sacerdotes e levitas, duas
profissões do sagrado), ao legalismo, à formalidade, à lei sobre o espírito. O
que Jesus ensina é que o cumprimento da lei é fazer o bem, amar, cuidar do
próximo. E por isso é que alguns tidos por perdidos nos hão de preceder no Reino
dos Céus.
No fundo, como não poderia deixar de ser, o P.e Portocarrero
concorda com a precedência do amor. E afirma:
É que Cristo não veio ao mundo para revogar a lei – sendo Deus, como poderia revogar a sua lei?! – mas para lhe dar pleno cumprimento, nomeadamente através de mais um preceito: o mandamento novo da caridade. O único amor que nos salva, precisamente porque nos cura.
Mas o final da parábola original não é contado nem
parafraseado. É que é muito mais direto e percetível, tanto no tempo de Jesus
(porque omite o padre atual que quem faz a pergunta é um “doutor da lei”, um
especialista em Escritura e em legalidades?) como hoje:
"Qual destes três achas que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o doutor da lei. Jesus disse-lhe: "Vai e faz o mesmo" (Lc 10...).
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Seis ideias contrárias ao pensar comum a propósito das bruxas
Umas coisinhas sobre as bruxas, ao arrepio do pensar comum. E posto isto, vou para casa dar cabo de uma abóbora.
1
As bruxas e os seus sabbats são uma invenção dos
inquisidores medievais tardios, mais concretamente nas montanhas da Suíça. Foram
os inquisidores que associaram as feiticeiras ao culto do diabo e à heresia. E
a partir daí acaba a tolerância e começa a perseguição no centro da Europa.
2
A queima das bruxas aconteceu em muito maior escala na Idade
Moderna do que na Idade Média. Na realidade, se considerarmos que Idade Média
vai até 1453 (Queda de Constantinopla), a perseguição às bruxas foi uma
raridade. Houve condenações, mas quase todas no contexto de heresias como as
dos cátaros. O pior viria a seguir, de modo sistemático, até aos princípios do séc. XVIII. Diz-se
que a última mulher a ser condenada à morte por bruxaria foi uma jovem, em
Glarus (cantão protestante), na Suíça, em 1783. A tragédia terminou onde
começara.
3
Os protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos)
queimaram mais bruxas do que os católicos (o que, mesmo assim, é claro, não é
motivo nenhum de glória). E, o que ainda é mais estranho e contrário ao pensar
comum, houve mais juízes e condenações seculares (em tribunais seculares) do que religiosas.
4
O livro que foi um best-seller na perseguição das bruxas, o “Malleus
Maleficarum” (“O Martelo das Bruxas”), de 1487, escrito por dois frades
dominicanos, nunca foi aprovado pela Igreja Católica. Pelo contrário, foi
colocado no Index. Mas fez imenso sucesso entre católicos e ainda mais entre
protestantes alemães.
5
Na Península Ibérica, não houve queima de
bruxas (ou se houve, foram residuais e a bruxaria não foi o principal motivo). Porquê? Por causa da Inquisição ibérica, quase exclusivamente preocupada
com a perseguição aos judeus e muçulmanos. Isso mesmo. Não queimou bruxas. Sem
tirar nem pôr.
6
Há uma tese que diz que nos tempos em que algumas mulheres (geralmente
viúvas, solitárias, com conhecimentos de medicina popular, nas margens das
povoações, curandeiras) eram perseguidas como bruxas detinham um alto estatuto
jurídico. E que depois do fim das perseguições passaram a ser consideradas doentes,
incapazes de personalidade jurídica, pelo que viram o seu estatuto social
diminuído.
O diabo detesta o Halloween
Com a americanice cada vez mais difundida, é difícil não dar
com o dia das bruxas. Ao almoço fui servido por uma senhora cheia de teias de
aranha. Literalmente. Mas suponho que as teias não eram literais. O café estava
cheio de motivos halloweenescos.
E quem tem filhos sabe que é impossível ignorar a data. Pelos
vistos, pelas minhas constatações diárias em dois infantários, é das ocasiões preferidas
para os educadores motivarem os mais pequenos (há dias, um dos meus filhos: “Não
te esqueças de me dizer que é o dia das bruxas logo que eu acordar”), mudarem a
decoração, testarem pinturas faciais, pedirem a colaboração dos pais.
Ora – e é por isso que escrevo – ontem dei com um louvor
católico do dia das bruxas. Cá está (Why the Devil Hates Halloween). O autor, “expert” em catolicismo (e católico, como se pode
ler e por outros textos sobre novenas e afins), diz que o diabo detesta o Halloween.
E dá seis razões, que até estão bem vistas. E que se aplicam como uma luva ao
nosso “pão por Deus”, coisa em que nunca participei, nem sei se há no centro do
país, mas da qual ouvia falar as minhas colegas de trabalho na meia década que
vivi em Lisboa. Eram saloias-no-bom-e-verdadeiro-sentido (eram de Mafra) e
gostavam muito do “pão por Deus”.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
A prova da catolicidade de Bento Domingues
De vez em quando dizem cá pelos lados do blogue que Bento Domingues é pouco católico, tal como este blogue (Jacob é judeu, ainda não repararam?). Pois esta foto saída na "Sábado", há semanas, mostra que o dominicano é profundamente católico. Está aqui toda a exuberância e universalidade do catolicismo. Nada de puritanismo, calvinismo, jansenismo. Desarrumação imensamente católica.
O líder da Apple diz que ser gay foi um dos maiores presentes que Deus lhe deu
Tim Cook
No "Público" de hoje:
O homem que sucedeu no cargo o carismático Steve Jobs há três anos sempre quis “manter um nível básico de privacidade” e que a Apple fosse apenas citada pelos seus produtos e pela sua utilização. Citando uma frase de Martin Luther King – “O que estás a fazer pelos outros?” –, Cook explica que o desejo de manter privada a sua vida pessoal o impedia de fazer “algo muito mais importante”.
“Durante anos, fui aberto com muitas pessoas sobre a minha orientação sexual. Muitos dos colegas na Apple sabem que sou gay e isso não parece fazer a diferença na forma como me tratam. Claro que tive a sorte de trabalhar numa empresa que adora a criatividade e a inovação e sabe que só pode florescer quando aceitarmos as diferenças das pessoas. Nem todos têm tanta sorte”, escreve.
Se até agora a sua homossexualidade era mantida em privado, Tim Cook diz que chegou o momento, aos 53 anos, de falar. “Por isso deixem-me ser claro: Tenho orgulho de ser gay e considero que ser gay foi um dos maiores presentes que Deus me deu”.
O dirigente diz que a homossexualidade permitiu que compreendesse melhor o que é ser uma minoria. Possibilitou-lhe tornar-se mais “empático”, ter “confiança” em ser como é e ser superior à “adversidade e fanatismo”. “Também me deu a pele de um rinoceronte, o que dá muito jeito quando se é CEO da Apple”.
Tim Cook afirma que “parte do progresso social é entender que uma pessoa não se define apenas pela sua sexualidade, raça ou género”. “Sou um engenheiro, um tio, um amante da natureza, um doido por fitness, um filho do Sul, um fanático por desportos, e muitas outras coisas. Espero que as pessoas respeitem o meu desejo de me concentrar nas coisas para as quais estou mais preparado e no trabalho que me traz alegria”.
Não me interessa a pertença sexual de Tim Cook. Noto é que ele a considera um dos maiores presentes de Deus.
Defuntos
Se amarmos é provável que sejamos morte. Se não amarmos, já somos defuntos.
McCabe citado por Timothy Racliffe
McCabe citado por Timothy Racliffe
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião
No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.
Duas frases de Pascal para abrir
Há dias, uma frase de Pascal. Inesperada, pelo menos para mim:
Outra hoje, embora me pareça mais pascalina:
"O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."(Daqui.)
Outra hoje, embora me pareça mais pascalina:
O último ato é violento, não importante quão refinado é o resto da peça. Atiram-nos terra para cima da cabeça, e ele acabou para sempre.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Mais sínodo
Uma síntese interessante - para usar o adjetivo mais desinteressante -, e com muitas referências, do sínodo da família. Por António Marujo, no Religionline.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
A asneira franciscana da exigência divina do Big Bang
Eu acho que o Papa Francisco fez asneira ao afirmar o seguinte:
“O Big Bang, que hoje se coloca na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a”, declarou, numa audiência aos membros da Academia Pontifícia das Ciências.
Li aqui.
Por estas e outras é que Stephen Hawking há de sempre repetir que, percebendo tudo da física, Deus não pode existir (por não ser preciso). A asneira pseudo-científica do Papa está, portanto, ao nível das habituais asneiras pseudo-religiosas de Hawking, que é (ou pelo menos era) membro da Academia Pontifícia das Ciências, pois, como disse, é um lugar onde se encontram muitos cientistas.
Riccardi, Osório e portas que Francisco abriu e não se voltarão a fechar
Vínculo da morte e morte do vínculo
Um artigo inteligente. Dos melhores que li sobre o assunto, embora tenha lido pouco, talvez por ter ideias próprias de mais e esperança no sínodo sobre a família de menos. Cinco posições do sínodo quanto à comunhão para os católicos recasados. Eu fico-me pela última:
Por outro lado, noto que um mal-entendido geral perdurou no sínodo - julgo eu, mas não acompanhei o sínodo com a devida atenção. As pessoas, desde a revolução industrial, casam-se por amor. Antes disso, casavam-se por outros motivos (a escolha dos pais, as questões do património, a obrigação de descendência). Casavam-se e depois talvez surgisse o amor. Se não surgisse, também pouco importava. Hoje casam-se por amor e desejo. Manda a paixão. E enquanto dura a paixão, tudo suportam. Quando acaba, é que pode passar a mandar a vontade. No fim, manda a vontade. E por isso muitos não se separam, mesmo que não se amem. Antes, no princípio mandava a vontade. É com base na vontade que existe todo o processo de casamento católico e toda a teologia sacramental matrimonial da indissolubilidade. Esta discrepância entre a mentalidade comum e a história da Igreja é a fonte de todos os equívocos. Só a alínea e) do artigo de Gillo a pode ultrapassar.
Ao que interessa: O artigo pode ser lido aqui.
e) há, enfim, a solução que propõe que se considerar a dissolução do vínculo por "morte" também como extensível à hipótese de "morte do vínculo". Na tradição oriental, essa leitura é possível graças a uma interpretação das "exceções matianas" [referentes ao Evangelho de Mateus] entendidas como verdadeiras exceções. A possibilidade de assumir essa leitura também no Ocidente, no entanto, não é totalmente pacífica.Como disse o outro, é eterno enquanto dura.
Por outro lado, noto que um mal-entendido geral perdurou no sínodo - julgo eu, mas não acompanhei o sínodo com a devida atenção. As pessoas, desde a revolução industrial, casam-se por amor. Antes disso, casavam-se por outros motivos (a escolha dos pais, as questões do património, a obrigação de descendência). Casavam-se e depois talvez surgisse o amor. Se não surgisse, também pouco importava. Hoje casam-se por amor e desejo. Manda a paixão. E enquanto dura a paixão, tudo suportam. Quando acaba, é que pode passar a mandar a vontade. No fim, manda a vontade. E por isso muitos não se separam, mesmo que não se amem. Antes, no princípio mandava a vontade. É com base na vontade que existe todo o processo de casamento católico e toda a teologia sacramental matrimonial da indissolubilidade. Esta discrepância entre a mentalidade comum e a história da Igreja é a fonte de todos os equívocos. Só a alínea e) do artigo de Gillo a pode ultrapassar.
Ao que interessa: O artigo pode ser lido aqui.
Guardai tesouros no céu, não no espírito santo
A notícia do DN de sábado. Sobre as instituições católicas que perderam (pelo menos terão muita dificuldade em recuperar na totalidade) dinheiro na derrocada do Grupo Espírito Santo.
domingo, 26 de outubro de 2014
David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu?
Em meados do século XVIII, o rabi Uri de Strelisk interrogou-se: «David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu? Que sei fazer?» A resposta foi: «Sei lê-los». Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias, desfrutas da experiência passada de outros como se fosse nossa.
Aberto Manguel, "A Cidade das Palavras" (Gradiva), pág.19
Aberto Manguel, "A Cidade das Palavras" (Gradiva), pág.19
Anselmo Borges: "Igreja, sexo, família"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem, 25.
Aí está um tema sobre o qual a Igreja tem imensa dificuldade em falar. À partida, porque é em si mesmo difícil. Mas a dificuldade aumenta na Igreja, porque, para lá de outras razões, que talvez Freud ajudasse a explicar, está entregue ao papa, a cardeais, bispos e padres, que devem ser celibatários e não têm propriamente família. Mas que o tema é relevante, mostra-se, por exemplo, pela enorme importância dada pelos media ao Sínodo que lhe foi dedicado, cuja primeira fase - segue-se um ano de reflexão, que culminará na nova assembleia sinodal, em Outubro de 2015, e na Exortação final do Papa Francisco, nos inícios de 2016 - concluiu no domingo passado.
Quem foram os vencedores e os perdedores? Há quem insinue que o Papa Francisco não conseguiu levar adiante o seu projecto. Não creio nessa tese. É preciso perceber que se trata da primeira fase do Sínodo. Depois, sobretudo, criou-se um clima e abriram-se portas que já não é possível fechar. Votou-se um texto que, se em relação aos divorciados e aos homossexuais, não obteve os dois terços necessários para a aprovação, venceu, mesmo aí, por forte maioria, continuando, portanto, o debate. Que haja tomadas de posição diferentes, é sinal de vida, embora a Igreja não esteja habituada a este estilo de abertura democrática. Teve alto significado o facto de o Papa ter mandado votar os vários pontos e publicar os resultados, para que haja transparência e cada um assuma as suas responsabilidades.
A Igreja não abdica da doutrina, mas esta tem de ser aplicada na vida real, atendendo a dois princípios: o da compreensão e misericórdia e o da não exclusão. Penso, assim, possível antecipar, em termos gerais, o que se seguirá.
1. O casamento enquanto união em amor fiel e estável por toda a vida, aberta à procriação, lugar privilegiado de apoio mútuo e para a educação dos filhos, é um ideal de que se não deve abdicar e pelo qual vale a pena bater-se. Mas, por outro lado, o divórcio é uma realidade que não está em vias de declínio, e por razões múltiplas. Há situações e situações. É inegável um ambiente de hedonismo, de sociedade "líquida" e recusa de compromissos perenes. Pense-se também que há 100 anos a esperança de vida na Alemanha era à volta de 35 anos, sendo hoje de mais de 70; no tempo de Jesus, era à volta de 28 anos. Depois, se tradicionalmente parecia que os casamentos aguentavam mais, isso também se devia ao facto de as mulheres terem de aceitar ficar na penumbra e por vezes quase escravizadas, o que felizmente hoje não aceitam. E há aquele pensamento de Pascal, na linha da identidade processual e narrativa da pessoa: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
De qualquer modo, pergunta-se: se, divorciados, recomeçarem a vida em amor, em dignidade, se tiverem filhos que se esforçam por educar humana e cristãmente, poderá a Igreja negar-lhes a participação plena na vida eclesial, incluindo a comunhão?
2. Será reconhecido o valor dos casamentos civis e também das uniões de facto e da coabitação, que até poderão, nalgumas circunstâncias, desembocar no sacramento do matrimónio. Quantos sabem que só a partir do século IX foi exigida no casamento a presença de um padre e só no século XII se começou a definir o matrimónio como sacramento?
3. Quanto à homossexualidade, não se espere o reconhecimento do casamento de pessoas do mesmo sexo. Como já aqui expliquei, a linguagem eclesiástica não fala em casamento, que vem de casa, mas em matrimónio, que vem de mater (no genitivo, matris), mãe, o que significa que, segundo a Igreja, a abertura à possibilidade da procriação é constitutiva do casamento. Mas a linguagem mudou: os homossexuais "devem ser acolhidos com respeito e delicadeza; deve ser evitada qualquer marca de discriminação injusta". Será dada especial atenção às crianças que vivem com pessoas do mesmo sexo.
4. Evidentemente, será necessário rever a questão da contracepção, o que implica rever o pressuposto de uma natureza fixa e imóvel, centrada na biologia. A sexualidade humana não se reduz ao biológico e é próprio da natureza de o homem ser histórico e cultural e intervir artificialmente, com responsabilidade, na natureza.
5. Em todos estes pontos vale um princípio tradicional, retomado por Bento XVI, quando era professor: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica." Não vale tudo, mas, para lá da moral reduzida a normas e proibições, é preciso educar para a autonomia, para a liberdade na responsabilidade e dignificação.
Sobre um escritor que não tem tabus
Leio que o escritor Sr. Assim Etc. Etc. não tem nada de sagrado, quebra os tabus todos, é um iconoclasta. Na pergunta seguinte ou duas mais abaixo, fala das suas irritações, do que o indispõe, do que não tolera. Afinal está cheio de ídolos. É um dogmático. E eu não tenho de o tolerar. Nem de ler.
sábado, 25 de outubro de 2014
Instituições católicas perderam mais de um milhão com o GES
O BPN ia dando cabo de algumas dioceses e instituições católicas que lá tinha posto muito dinheiro (nalguns casos, mais do que o que a notícia que se segue refere). Agora o GES/BES, que ainda por cima tem nome santo.
Do DN de hoje. Em parte, aqui (julgo que o nome correto da congregação religiosa é só "Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coreção de Jesus"). Um milhão de euros talvez não seja tanto para a instituição que tem diversas casas de saúde. Mas este e outros casos servirão sempre para questionar o uso do dinheiro - o "esterco do diabo", como se dizia na Idade Média - por parte de instituições católicas.
Do DN de hoje. Em parte, aqui (julgo que o nome correto da congregação religiosa é só "Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coreção de Jesus"). Um milhão de euros talvez não seja tanto para a instituição que tem diversas casas de saúde. Mas este e outros casos servirão sempre para questionar o uso do dinheiro - o "esterco do diabo", como se dizia na Idade Média - por parte de instituições católicas.
A crise do Grupo Espírito Santo arrastou quatro instituições católicas, que subscreveram empréstimos obrigacionistas. Foi o caso das "Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus no Espírito Santo". Esta IPSS, assim como a sua proprietária, a "Província Portuguesa da Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus", colocaram quase um milhão de euros em obrigações da Espírito Santo Financial (Portugal), a holding que controlava o setor financeiro e os seguros do grupo Espírito Santo. Agora, ambas e mais 158 pessoas e empresasestão no Tribunal do Comércio de Lisboa a reclamar, ao todo, 330 milhões à ESF.
Este blogue já teve mais de 500 visitas diárias
Este blogue já teve mais de 500 visitas diárias. Foi no tempo de Bento XVI e nos primeiros meses de Francisco. Agora anda pelas 100. A queda não tem nada a ver com Papas nem com mudanças de bispo (que aconteceu na diocese em que vivo). Tem a ver somente comigo e as minhas circunstâncias familiares e laborais.
Mas vou retomar o ritmo antigo das três a cinco entradas diárias (nem nas cinco semanais estou agora). A ver se acontecem três coisas:
- diminui o tom de irritação nos comentários;
- sobem as visitas até aos 300 no prazo de um mês;
- e ficam aqui registadas coisas que me interessam (sim, o meu blogue também funciona para mim como arquivo).
Mas vou retomar o ritmo antigo das três a cinco entradas diárias (nem nas cinco semanais estou agora). A ver se acontecem três coisas:
- diminui o tom de irritação nos comentários;
- sobem as visitas até aos 300 no prazo de um mês;
- e ficam aqui registadas coisas que me interessam (sim, o meu blogue também funciona para mim como arquivo).
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Oxalá que sim
No sínodo parece que não se entendem. E isso é capaz de ser bom. Para continuar tudo na mesma, não era preciso deslocaram-se a Roma. Mesmo em low cost.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Odres velhos
Notícia da Ecclesia:
Bispos abrem caminho para simplificação de procedimentos de nulidade matrimonial
Bispos abrem caminho para simplificação de procedimentos de nulidade matrimonial
Uau. Uma das simplificações é:
«criação de “tribunais diocesanos”».
Duplo uau.
O matrimónio é indissolúvel, diz a doutrina católica.
Enquanto assim disser, nada a fazer. Simplificar processos, agilizar
procedimentos, criar estruturas, dentro deste quadro, é igual a zero.
Enquanto não houver soluções para pessoas que se sentiram
casadas, legitimamente casadas, validamente casadas, e a seguir se separaram,
nada se avança. E é escusado promover, como se tem promovido, a hipocrisia de
se descobrir passados uns anos que afinal nunca estiveram casados (declaração
de nulidade do matrimónio). Nunca estiveram casados... e não deram por isso?
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
A mística da promoção
O último livro do P.e Tolentino Mendonça teve direito a um capítulo (ou excertos?) em avulso. Foi publicitado e distribuído com o "Público". Com pensamentos dele, foi feito um bloquinho que as livrarias distribuem gratuitamente (um dos pensamentos diz: "O paladar não é indiferente ao amor de Deus. Deus saboreia-se, Deus é sabor" - e ainda estou e tentar provar isso).
Só com isto acima, nunca vi um livro católico ser tão promovido. E só acho bem. Mas o que eu nunca tinha visto: pacotes de açúcar a promover um livro católico. Sim, pacotinhos da Delta com a capa de "A mística do instante". No instante em que alguém toma um café, lê (mais um pensamento do tal bloquinho): "Só nos resta o instante, só o instante nos pertence". Bate certo enquanto dura o café. Mas a seguir estamos atrasados para qualquer coisa.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Duvidam muitos, sim.
“Alguém duvida que 2000 anos de história da Igreja a tornaram numa perita em humanidade?”
José Tolentino Mendonça entrevistado no "Público" de hoje.
domingo, 28 de setembro de 2014
Anselmo Borges: "A ciência e o divino 3"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem.
Como vimos, Einstein afirmava-se como pessoa religiosa, mas acreditando no "Deus de Espinosa que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos."
Há o mistério último da realidade, que se impõe. A pergunta é se se opta pela Natureza impessoal ou pelo Deus transcendente, pessoal e criador.
Compreende-se o fascínio da afirmação da Natureza como força geradora divina de tudo. Esta concepção é bem resumida pelo filósofo Marcel Conche, ao escrever que Deus é inútil, pois a Natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria Natureza. Está a referir-se não à natureza "oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade", mas à "Natureza omnienglobante, a physis grega, que inclui nela o Homem. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito."
Esta concepção confronta-se, porém, com objecções de fundo. Ao divinizar a Natureza, põe em causa a secularização e, consequentemente, a liberdade. Depois, tem dificuldades em explicar como é que a Natureza, que é impessoal, dá origem à pessoa, como é que mecanismos da ordem da terceira pessoa acabam por dar origem a alguém que se vive a si mesmo como eu irredutível na primeira pessoa.
Neste domínio, houve recentemente um debate significativo entre o matemático P. Odifreddi e o Papa emérito Bento XVI. Na sua resposta ao livro de Odifreddi, "Caro Papa, ti scrivo", Bento XVI escreveu uma longa carta, em parte publicada no jornal "La Repubblica" de 24 de Setembro de 2013, na qual refere precisamente este debate. Textualmente: "Com o 19.º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 esteja muito longe do que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Mas se o senhor quer substituir Deus por "A Natureza", fica a questão: quem ou o que é essa natureza. O senhor não a define em lugar nenhum e, portanto, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu quereria sobretudo fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana não são considerados: a liberdade, o amor e o mal. Espanta-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia."
Evidentemente, quem acredita no Deus transcendente, pessoal e criador sabe que Deus não é pessoa à maneira das pessoas humanas, finitas. Deus também não é um Super-homem. O que se quer dizer é que Deus não é um Isso, uma Coisa. Como escreveu o teólogo Hans Küng, "Deus, que possibilita o devir da pessoa, transcende o conceito do impessoal: não é menos do que pessoa". Não esquecendo que Deus é e permanece o Inabarcável e Indefinível - Gregório de Nazianzo (330-390), doutor da Igreja, pergunta: "Ó Tu, o para lá de tudo, não é tudo o que se pode dizer de Ti?" -, pode dizer-se que é "transpessoal".
sábado, 27 de setembro de 2014
A Alegria do Evangelho, 84
Em quem estaria o Papa a pensar quando escreveu que já
pessoas que vivem um
neopelagianismo autorreferencial e prometeico,
que (adapto),
no fundo, só confiam nas suas próprias forças e se sentem superiores aos outros por cumprirem determinadas normas ou por serem irredutivelmente
fiéis a um certo estilo católico próprio do passado
?
Temo que, à minha maneira, também eu faça parte do grupo. Mas ri-me em latim dos meus amigos gregórios.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
Anselmo Borges; "A ciência e o divino 2"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:
É difícil, se não impossível, determinar qual a maior revolução da história da humanidade. Mas estaremos de acordo em conceder que a revolução científica no sentido moderno da palavra,se não foi a maior, está entre as maiores e decisivas.
A ciência exerce fascínio fundamentalmente por dois motivos. Um deve-se ao seu método empírico-matemático, de verificação experimental, que faz que seja verdadeiramente universal, não havendo, portanto, uma ciência para crentes e outra para ateus ou agnósticos. O outro: todos acabam por ser beneficiados pelas suas aplicações técnicas. O que devemos à ciência é incomensurável. Ela satisfaz a curiosidade natural do homem por saber, como bem viu Aristóteles, e também as suas outras necessidades: de saúde, bem-estar, locomoção, comunicação. Hoje, até se fala, mais propriamente, de tecnociência, pois a própria investigação científica precisa de tecnologia. Acrescente-se apenas que é preciso estar consciente dos perigos das tecnologias, como mostram as ameaças ecológicas.
É tal a dívida para com a ciência que se corre mesmo um risco e tentação: pensar que ela detém o monopólio da razão. De facto, não detém, pois a razão é multidimensional e há necessidades humanas a que a ciência não responde: por exemplo, a estética, a ética, a religião. O homem será sempre religioso, porque não deixará de colocar a questão do fundamento e sentido últimos.
Na continuação da semana passada, cito outros físicos eminentes na sua relação com o divino.
Max Planck: "Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula do átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente."
Heisenberg: "Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo. Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora. Assim, no decurso da minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam."
De Broglie: "Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus."
Einstein respondeu à pergunta sobre se era uma pessoa religiosa: "Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso."
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Guerra preventiva contra Walter Kasper
O sínodo da família vai dar em algo? Eu acho que não. Nada mudará. E a dupla Francisco/Kasper sairá derrotada. Mas Deus queria que eu esteja enganado. Cardeais manifestam-se contra Kasper, como se lê no Vatican Insider.
domingo, 14 de setembro de 2014
É preciso que Jesus...
..."É preciso que Jesus reine", disse São Paulo aos coríntios, disse Pio XI à humanidade e disse hoje D. António Moiteiro à diocese de Aveiro.
(D. Manuel Celemente não esteve no Porto quando D. António Francisco lhe sucedeu; e não esteve agora em Aveiro, a povoação que Joana de Portugal escolheu para viver como "pequena Lisboa". Há ausências que se notam, por muitas justificações que haja.)
(D. Manuel Celemente não esteve no Porto quando D. António Francisco lhe sucedeu; e não esteve agora em Aveiro, a povoação que Joana de Portugal escolheu para viver como "pequena Lisboa". Há ausências que se notam, por muitas justificações que haja.)
Bento Dominguues: "O desterro da teologia"
Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje,
Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter
sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de
criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder
eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas
expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e
tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por
ela.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Papa casa (...) divorciado
A notícia do "Público" diz no título:
Ainda não a li, mas não pode ser o que um católico pensa ao ler o título. O "divorciado" é divorciado de uma união civil, a qual, para a Igreja, não é mais do que uma coisa em forma de nada. Se nunca foi casado pela Igreja, não é divorciado. No fundo, o jornalista valoriza mais o casamento civil do que a Igreja católica.
(cinco minutos depois)
A coisa não é bem assim. Pode ser divorciado pelo civil, mas o que aconteceu foi que viu o seu casamento católico declarado nulo. É outra coisa. Para a Igreja (e o nosso inefável direito matrimonial), Guido nunca foi casado.
Papa casa 20 casais no domingo, entre eles uma mãe solteira e um divorciado
Ainda não a li, mas não pode ser o que um católico pensa ao ler o título. O "divorciado" é divorciado de uma união civil, a qual, para a Igreja, não é mais do que uma coisa em forma de nada. Se nunca foi casado pela Igreja, não é divorciado. No fundo, o jornalista valoriza mais o casamento civil do que a Igreja católica.
(cinco minutos depois)
A coisa não é bem assim. Pode ser divorciado pelo civil, mas o que aconteceu foi que viu o seu casamento católico declarado nulo. É outra coisa. Para a Igreja (e o nosso inefável direito matrimonial), Guido nunca foi casado.
No dia 14 de Setembro, o Papa vai casar 20 casais, entre eles Gabriella, uma mãe solteira, e Guido, cujo anterior casamento foi anulado, ambos com cerca de 50 anos, avança o jornal italiano La Repubblica.Notícia aqui.
25 mulheres no sínodo sobre a família. Tantas?
O sínodo sobre a família tem 25 mulheres (e 228 homens). Para quê tantas mulheres?
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
E a Salamanca dos capitalistas?
Viriato Soromenho-Marques escreveu há dias, no DN, sobre Escola de Salamanca, "Salamanca: a escola do universo". Vale a pena ler. Pena não falar do outro grande contributo da Escola de Salamanca, com derivações em Coimbra e Évora: a teorização sobre o mercado livre, sobre o valor das coisas, que não valem consoante o trabalho que dão (a grande ilusão do comunismo, de uma maneira geral), mas consoante o valor que quem as quer lhes dá. Sim, os salmanticenses são os primeiros teóricos (ou talvez segundos, se tivermos em conta certos medievais que eles, no fundo, seguiam) do capitalismo. O texto de Soromenho-Marques:
Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Chavez nosso que estás no céu
Os chavistas rezam a Hugo Chávez. Não podiam tornar mais evidente aquilo que há muito é dito, que certas versões do comunismo tendem para a religião.
Chávez nosso que estás no céu
na terra, no mar, em nós e nos delegados,
santificado seja o teu nome,
venha a nós o teu legado, para levá-lo ao povos daqui e de lá.
Dai-nos hoje a tua luz
para que nos guie todos os dias.
E não nos deixes cair na tentação do capitalismo,
mas livra-nos da maldade, da oligarquia
como do delito do contrabando
porque de nós é a pátria, a paz e a vida
pelos séculos dos séculos amém. Viva Chávez.
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