sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O diabo detesta o Halloween



Com a americanice cada vez mais difundida, é difícil não dar com o dia das bruxas. Ao almoço fui servido por uma senhora cheia de teias de aranha. Literalmente. Mas suponho que as teias não eram literais. O café estava cheio de motivos halloweenescos.

E quem tem filhos sabe que é impossível ignorar a data. Pelos vistos, pelas minhas constatações diárias em dois infantários, é das ocasiões preferidas para os educadores motivarem os mais pequenos (há dias, um dos meus filhos: “Não te esqueças de me dizer que é o dia das bruxas logo que eu acordar”), mudarem a decoração, testarem pinturas faciais, pedirem a colaboração dos pais.

Ora – e é por isso que escrevo – ontem dei com um louvor católico do dia das bruxas. Cá está (Why the Devil Hates Halloween). O autor, “expert” em catolicismo (e católico, como se pode ler e por outros textos sobre novenas e afins), diz que o diabo detesta o Halloween. E dá seis razões, que até estão bem vistas. E que se aplicam como uma luva ao nosso “pão por Deus”, coisa em que nunca participei, nem sei se há no centro do país, mas da qual ouvia falar as minhas colegas de trabalho na meia década que vivi em Lisboa. Eram saloias-no-bom-e-verdadeiro-sentido (eram de Mafra) e gostavam muito do “pão por Deus”.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A prova da catolicidade de Bento Domingues

De vez em quando dizem cá pelos lados do blogue que Bento Domingues é pouco católico, tal como este blogue (Jacob é judeu, ainda não repararam?). Pois esta foto saída na "Sábado", há semanas, mostra que o dominicano é profundamente católico. Está aqui toda a exuberância e universalidade do catolicismo. Nada de puritanismo, calvinismo, jansenismo. Desarrumação imensamente católica.


O líder da Apple diz que ser gay foi um dos maiores presentes que Deus lhe deu

Tim Cook

No "Público" de hoje:

O homem que sucedeu no cargo o carismático Steve Jobs há três anos sempre quis “manter um nível básico de privacidade” e que a Apple fosse apenas citada pelos seus produtos e pela sua utilização. Citando uma frase de Martin Luther King – “O que estás a fazer pelos outros?” –, Cook explica que o desejo de manter privada a sua vida pessoal o impedia de fazer “algo muito mais importante”. 
“Durante anos, fui aberto com muitas pessoas sobre a minha orientação sexual. Muitos dos colegas na Apple sabem que sou gay e isso não parece fazer a diferença na forma como me tratam. Claro que tive a sorte de trabalhar numa empresa que adora a criatividade e a inovação e sabe que só pode florescer quando aceitarmos as diferenças das pessoas. Nem todos têm tanta sorte”, escreve.
Se até agora a sua homossexualidade era mantida em privado, Tim Cook diz que chegou o momento, aos 53 anos, de falar. “Por isso deixem-me ser claro: Tenho orgulho de ser gay e considero que ser gay foi um dos maiores presentes que Deus me deu”. 
O dirigente diz que a homossexualidade permitiu que compreendesse melhor o que é ser uma minoria. Possibilitou-lhe tornar-se mais “empático”, ter “confiança” em ser como é e ser superior à “adversidade e fanatismo”. “Também me deu a pele de um rinoceronte, o que dá muito jeito quando se é CEO da Apple”. 
Tim Cook afirma que “parte do progresso social é entender que uma pessoa não se define apenas pela sua sexualidade, raça ou género”. “Sou um engenheiro, um tio, um amante da natureza, um doido por fitness, um filho do Sul, um fanático por desportos, e muitas outras coisas. Espero que as pessoas respeitem o meu desejo de me concentrar nas coisas para as quais estou mais preparado e no trabalho que me traz alegria”. 

Não me interessa a pertença sexual de Tim Cook. Noto é que ele a considera um dos maiores presentes de Deus.

Defuntos

Se amarmos é provável que sejamos morte. Se não amarmos, já somos defuntos.

McCabe citado por Timothy Racliffe

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião


No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.

Duas frases de Pascal para abrir

Há dias, uma frase de Pascal. Inesperada, pelo menos para mim:
"O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
(Daqui.)

Outra hoje, embora me pareça mais pascalina:
O último ato é violento, não importante quão refinado é o resto da peça. Atiram-nos terra para cima da cabeça, e ele acabou para sempre.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A asneira franciscana da exigência divina do Big Bang


Eu acho que o Papa Francisco fez asneira ao afirmar o seguinte:

“O Big Bang, que hoje se coloca na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a”, declarou, numa audiência aos membros da Academia Pontifícia das Ciências.

Li aqui.

Por estas e outras é que Stephen Hawking há de sempre repetir que, percebendo tudo da física, Deus não pode existir (por não ser preciso). A asneira pseudo-científica do Papa está, portanto, ao nível das habituais asneiras pseudo-religiosas de Hawking, que é (ou pelo menos era) membro da Academia Pontifícia das Ciências, pois, como disse, é um lugar onde se encontram muitos cientistas.

Riccardi, Osório e portas que Francisco abriu e não se voltarão a fechar


Um artigo e um comentário no JN de ontem. Registo, em consonância com o que se vai por aí ouvindo; "O Sínodo abriu portas que são se voltarão a fechar" (Rui Osório).

Vínculo da morte e morte do vínculo

Um artigo inteligente. Dos melhores que li sobre o assunto, embora tenha lido pouco, talvez por ter ideias próprias de mais e esperança no sínodo sobre a família de menos. Cinco posições do sínodo quanto à comunhão para os católicos recasados. Eu fico-me pela última:
e) há, enfim, a solução que propõe que se considerar a dissolução do vínculo por "morte" também como extensível à hipótese de "morte do vínculo". Na tradição oriental, essa leitura é possível graças a uma interpretação das "exceções matianas" [referentes ao Evangelho de Mateus] entendidas como verdadeiras exceções. A possibilidade de assumir essa leitura também no Ocidente, no entanto, não é totalmente pacífica.
Como disse o outro, é eterno enquanto dura.

Por outro lado, noto que um mal-entendido geral perdurou no sínodo - julgo eu, mas não acompanhei o sínodo com a devida atenção. As pessoas, desde a revolução industrial, casam-se por amor. Antes disso, casavam-se por outros motivos (a escolha dos pais, as questões do património, a obrigação de descendência). Casavam-se e depois talvez surgisse o amor. Se não surgisse, também pouco importava. Hoje casam-se por amor e desejo. Manda a paixão. E enquanto dura a paixão, tudo suportam. Quando acaba, é que pode passar a mandar a vontade. No fim, manda a vontade. E por isso muitos não se separam, mesmo que não se amem. Antes, no princípio mandava a vontade. É com base na vontade que existe todo o processo de casamento católico e toda a teologia sacramental matrimonial da indissolubilidade. Esta discrepância entre a mentalidade comum e a história da Igreja é a fonte de todos os equívocos. Só a alínea e) do artigo de Gillo a pode ultrapassar.

Ao que interessa:  O artigo pode ser lido aqui.

Guardai tesouros no céu, não no espírito santo

A notícia do DN de sábado. Sobre as instituições católicas que perderam (pelo menos terão muita dificuldade em recuperar na totalidade) dinheiro na derrocada do Grupo Espírito Santo.


Glória

Glória a Deus pelas coisas sarapintadas.

Gerard Manley Hopkins

domingo, 26 de outubro de 2014

Bento Domingues; "Eu já não acredito no Papa Francisco"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje, agora como saiu no papel.

Bento Domingues já não acredita no Papa Francisco

Eu já não acredito no Papa Francisco

David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu?

Em meados do século XVIII, o rabi Uri de Strelisk interrogou-se: «David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu? Que sei fazer?» A resposta foi: «Sei lê-los». Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias, desfrutas da experiência passada de outros como se fosse nossa.

Aberto Manguel, "A Cidade das Palavras" (Gradiva), pág.19

Anselmo Borges: "Igreja, sexo, família"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem, 25.

Aí está um tema sobre o qual a Igreja tem imensa dificuldade em falar. À partida, porque é em si mesmo difícil. Mas a dificuldade aumenta na Igreja, porque, para lá de outras razões, que talvez Freud ajudasse a explicar, está entregue ao papa, a cardeais, bispos e padres, que devem ser celibatários e não têm propriamente família. Mas que o tema é relevante, mostra-se, por exemplo, pela enorme importância dada pelos media ao Sínodo que lhe foi dedicado, cuja primeira fase - segue-se um ano de reflexão, que culminará na nova assembleia sinodal, em Outubro de 2015, e na Exortação final do Papa Francisco, nos inícios de 2016 - concluiu no domingo passado.

Quem foram os vencedores e os perdedores? Há quem insinue que o Papa Francisco não conseguiu levar adiante o seu projecto. Não creio nessa tese. É preciso perceber que se trata da primeira fase do Sínodo. Depois, sobretudo, criou-se um clima e abriram-se portas que já não é possível fechar. Votou-se um texto que, se em relação aos divorciados e aos homossexuais, não obteve os dois terços necessários para a aprovação, venceu, mesmo aí, por forte maioria, continuando, portanto, o debate. Que haja tomadas de posição diferentes, é sinal de vida, embora a Igreja não esteja habituada a este estilo de abertura democrática. Teve alto significado o facto de o Papa ter mandado votar os vários pontos e publicar os resultados, para que haja transparência e cada um assuma as suas responsabilidades.

A Igreja não abdica da doutrina, mas esta tem de ser aplicada na vida real, atendendo a dois princípios: o da compreensão e misericórdia e o da não exclusão. Penso, assim, possível antecipar, em termos gerais, o que se seguirá.

1. O casamento enquanto união em amor fiel e estável por toda a vida, aberta à procriação, lugar privilegiado de apoio mútuo e para a educação dos filhos, é um ideal de que se não deve abdicar e pelo qual vale a pena bater-se. Mas, por outro lado, o divórcio é uma realidade que não está em vias de declínio, e por razões múltiplas. Há situações e situações. É inegável um ambiente de hedonismo, de sociedade "líquida" e recusa de compromissos perenes. Pense-se também que há 100 anos a esperança de vida na Alemanha era à volta de 35 anos, sendo hoje de mais de 70; no tempo de Jesus, era à volta de 28 anos. Depois, se tradicionalmente parecia que os casamentos aguentavam mais, isso também se devia ao facto de as mulheres terem de aceitar ficar na penumbra e por vezes quase escravizadas, o que felizmente hoje não aceitam. E há aquele pensamento de Pascal, na linha da identidade processual e narrativa da pessoa: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."

De qualquer modo, pergunta-se: se, divorciados, recomeçarem a vida em amor, em dignidade, se tiverem filhos que se esforçam por educar humana e cristãmente, poderá a Igreja negar-lhes a participação plena na vida eclesial, incluindo a comunhão?

2. Será reconhecido o valor dos casamentos civis e também das uniões de facto e da coabitação, que até poderão, nalgumas circunstâncias, desembocar no sacramento do matrimónio. Quantos sabem que só a partir do século IX foi exigida no casamento a presença de um padre e só no século XII se começou a definir o matrimónio como sacramento?

3. Quanto à homossexualidade, não se espere o reconhecimento do casamento de pessoas do mesmo sexo. Como já aqui expliquei, a linguagem eclesiástica não fala em casamento, que vem de casa, mas em matrimónio, que vem de mater (no genitivo, matris), mãe, o que significa que, segundo a Igreja, a abertura à possibilidade da procriação é constitutiva do casamento. Mas a linguagem mudou: os homossexuais "devem ser acolhidos com respeito e delicadeza; deve ser evitada qualquer marca de discriminação injusta". Será dada especial atenção às crianças que vivem com pessoas do mesmo sexo.

4. Evidentemente, será necessário rever a questão da contracepção, o que implica rever o pressuposto de uma natureza fixa e imóvel, centrada na biologia. A sexualidade humana não se reduz ao biológico e é próprio da natureza de o homem ser histórico e cultural e intervir artificialmente, com responsabilidade, na natureza.

5. Em todos estes pontos vale um princípio tradicional, retomado por Bento XVI, quando era professor: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica." Não vale tudo, mas, para lá da moral reduzida a normas e proibições, é preciso educar para a autonomia, para a liberdade na responsabilidade e dignificação.


Sobre um escritor que não tem tabus

Leio que o escritor Sr. Assim Etc. Etc. não tem nada de sagrado, quebra os tabus todos, é um iconoclasta. Na pergunta seguinte ou duas mais abaixo, fala das suas irritações, do que o indispõe, do que não tolera. Afinal está cheio de ídolos. É um dogmático. E eu não tenho de o tolerar. Nem de ler.

sábado, 25 de outubro de 2014

Instituições católicas perderam mais de um milhão com o GES

O BPN ia dando cabo de algumas dioceses e instituições católicas que lá tinha posto muito dinheiro (nalguns casos, mais do que o que a notícia que se segue refere). Agora o GES/BES, que ainda por cima tem nome santo.

Do DN de hoje. Em parte, aqui (julgo que o nome correto da congregação religiosa é só "Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coreção de Jesus"). Um milhão de euros talvez não seja tanto para a instituição que tem diversas casas de saúde. Mas este e outros casos servirão sempre para questionar o uso do dinheiro  - o "esterco do diabo", como se dizia na Idade Média - por parte de instituições católicas.
A crise do Grupo Espírito Santo arrastou quatro instituições católicas, que subscreveram empréstimos obrigacionistas. Foi o caso das "Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus no Espírito Santo". Esta IPSS, assim como a sua proprietária, a "Província Portuguesa da Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus", colocaram quase um milhão de euros em obrigações da Espírito Santo Financial (Portugal), a holding que controlava o setor financeiro e os seguros do grupo Espírito Santo. Agora, ambas e mais 158 pessoas e empresasestão no Tribunal do Comércio de Lisboa a reclamar, ao todo, 330 milhões à ESF.

Este blogue já teve mais de 500 visitas diárias

Este blogue já teve mais de 500 visitas diárias. Foi no tempo de Bento XVI e nos primeiros meses de Francisco. Agora anda pelas 100. A queda não tem nada a ver com Papas nem com mudanças de bispo (que aconteceu na diocese em que vivo). Tem a ver somente comigo e as minhas circunstâncias familiares e  laborais.

Mas vou retomar o ritmo antigo das três a cinco entradas diárias (nem nas cinco semanais estou agora). A ver se acontecem três coisas:

- diminui o tom de irritação nos comentários;
- sobem as visitas até aos 300 no prazo de um mês;
- e ficam aqui registadas coisas que me interessam (sim, o meu blogue também funciona para mim como arquivo).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Oxalá que sim

No sínodo parece que não se entendem. E isso é capaz de ser bom. Para continuar tudo na mesma, não era preciso deslocaram-se a Roma. Mesmo em low cost.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Odres velhos

Notícia da Ecclesia:

Bispos abrem caminho para simplificação de procedimentos de nulidade matrimonial


Uau. Uma das simplificações é:

«criação de “tribunais diocesanos”».

Duplo uau.

O matrimónio é indissolúvel, diz a doutrina católica. Enquanto assim disser, nada a fazer. Simplificar processos, agilizar procedimentos, criar estruturas, dentro deste quadro, é igual a zero.


Enquanto não houver soluções para pessoas que se sentiram casadas, legitimamente casadas, validamente casadas, e a seguir se separaram, nada se avança. E é escusado promover, como se tem promovido, a hipocrisia de se descobrir passados uns anos que afinal nunca estiveram casados (declaração de nulidade do matrimónio). Nunca estiveram casados... e não deram por isso?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A mística da promoção



O último livro do P.e Tolentino Mendonça teve direito a um capítulo (ou excertos?) em avulso. Foi publicitado e distribuído com o "Público". Com pensamentos dele, foi feito um bloquinho que as livrarias distribuem gratuitamente (um dos pensamentos diz: "O paladar não é indiferente ao amor de Deus. Deus saboreia-se, Deus é sabor" - e ainda estou e tentar provar isso).

Só com isto acima, nunca vi um livro católico ser tão promovido. E só acho bem. Mas o que eu nunca tinha visto: pacotes de açúcar a promover um livro católico. Sim, pacotinhos da Delta com a capa de "A mística do instante". No instante em que alguém toma um café, lê (mais um pensamento do tal bloquinho): "Só nos resta o instante, só o instante nos pertence". Bate certo enquanto dura o café. Mas a seguir estamos atrasados para qualquer coisa.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Duvidam muitos, sim.

“Alguém duvida que 2000 anos de história da Igreja a tornaram numa perita em humanidade?”


José Tolentino Mendonça entrevistado no "Público" de hoje.

domingo, 28 de setembro de 2014

Anselmo Borges: "A ciência e o divino 3"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem.



Como vimos, Einstein afirmava-se como pessoa religiosa, mas acreditando no "Deus de Espinosa que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos."

Há o mistério último da realidade, que se impõe. A pergunta é se se opta pela Natureza impessoal ou pelo Deus transcendente, pessoal e criador.

Compreende-se o fascínio da afirmação da Natureza como força geradora divina de tudo. Esta concepção é bem resumida pelo filósofo Marcel Conche, ao escrever que Deus é inútil, pois a Natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria Natureza. Está a referir-se não à natureza "oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade", mas à "Natureza omnienglobante, a physis grega, que inclui nela o Homem. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito."

Esta concepção confronta-se, porém, com objecções de fundo. Ao divinizar a Natureza, põe em causa a secularização e, consequentemente, a liberdade. Depois, tem dificuldades em explicar como é que a Natureza, que é impessoal, dá origem à pessoa, como é que mecanismos da ordem da terceira pessoa acabam por dar origem a alguém que se vive a si mesmo como eu irredutível na primeira pessoa.

Neste domínio, houve recentemente um debate significativo entre o matemático P. Odifreddi e o Papa emérito Bento XVI. Na sua resposta ao livro de Odifreddi, "Caro Papa, ti scrivo", Bento XVI escreveu uma longa carta, em parte publicada no jornal "La Repubblica" de 24 de Setembro de 2013, na qual refere precisamente este debate. Textualmente: "Com o 19.º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 esteja muito longe do que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Mas se o senhor quer substituir Deus por "A Natureza", fica a questão: quem ou o que é essa natureza. O senhor não a define em lugar nenhum e, portanto, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu quereria sobretudo fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana não são considerados: a liberdade, o amor e o mal. Espanta-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia."

Evidentemente, quem acredita no Deus transcendente, pessoal e criador sabe que Deus não é pessoa à maneira das pessoas humanas, finitas. Deus também não é um Super-homem. O que se quer dizer é que Deus não é um Isso, uma Coisa. Como escreveu o teólogo Hans Küng, "Deus, que possibilita o devir da pessoa, transcende o conceito do impessoal: não é menos do que pessoa". Não esquecendo que Deus é e permanece o Inabarcável e Indefinível - Gregório de Nazianzo (330-390), doutor da Igreja, pergunta: "Ó Tu, o para lá de tudo, não é tudo o que se pode dizer de Ti?" -, pode dizer-se que é "transpessoal".

sábado, 27 de setembro de 2014

A Alegria do Evangelho, 84

Em quem estaria o Papa a pensar quando escreveu que já pessoas que vivem um

neopelagianismo autorreferencial e prometeico,

que (adapto),

no fundo, só confiam nas suas próprias forças e se sentem superiores aos outros por cumprirem determinadas normas ou por serem irredutivelmente fiéis a um certo estilo católico próprio do passado
?


Temo que, à minha maneira, também eu faça parte do grupo. Mas ri-me em latim dos meus amigos gregórios.

domingo, 21 de setembro de 2014

Anselmo Borges; "A ciência e o divino 2"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:


É difícil, se não impossível, determinar qual a maior revolução da história da humanidade. Mas estaremos de acordo em conceder que a revolução científica no sentido moderno da palavra,se não foi a maior, está entre as maiores e decisivas.

A ciência exerce fascínio fundamentalmente por dois motivos. Um deve-se ao seu método empírico-matemático, de verificação experimental, que faz que seja verdadeiramente universal, não havendo, portanto, uma ciência para crentes e outra para ateus ou agnósticos. O outro: todos acabam por ser beneficiados pelas suas aplicações técnicas. O que devemos à ciência é incomensurável. Ela satisfaz a curiosidade natural do homem por saber, como bem viu Aristóteles, e também as suas outras necessidades: de saúde, bem-estar, locomoção, comunicação. Hoje, até se fala, mais propriamente, de tecnociência, pois a própria investigação científica precisa de tecnologia. Acrescente-se apenas que é preciso estar consciente dos perigos das tecnologias, como mostram as ameaças ecológicas.

É tal a dívida para com a ciência que se corre mesmo um risco e tentação: pensar que ela detém o monopólio da razão. De facto, não detém, pois a razão é multidimensional e há necessidades humanas a que a ciência não responde: por exemplo, a estética, a ética, a religião. O homem será sempre religioso, porque não deixará de colocar a questão do fundamento e sentido últimos.

Na continuação da semana passada, cito outros físicos eminentes na sua relação com o divino.

Max Planck: "Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula do átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente."

Heisenberg: "Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo. Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora. Assim, no decurso da minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam."

De Broglie: "Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus."

Einstein respondeu à pergunta sobre se era uma pessoa religiosa: "Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso."

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Guerra preventiva contra Walter Kasper

O sínodo da família vai dar em algo? Eu acho que não. Nada mudará. E a dupla Francisco/Kasper sairá derrotada. Mas Deus queria que eu esteja enganado. Cardeais manifestam-se contra Kasper, como se lê no Vatican Insider.

domingo, 14 de setembro de 2014

É preciso que Jesus...

..."É preciso que Jesus reine", disse São Paulo aos coríntios, disse Pio XI à humanidade e disse hoje D. António Moiteiro à diocese de Aveiro.

(D. Manuel Celemente não esteve no Porto quando D. António Francisco lhe sucedeu; e não esteve agora em Aveiro, a povoação que Joana de Portugal escolheu para viver como "pequena Lisboa". Há ausências que se notam, por muitas justificações que haja.)

Bento Dominguues: "O desterro da teologia"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje,

Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por ela.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papa casa (...) divorciado

A notícia do "Público" diz no título:

Papa casa 20 casais no domingo, entre eles uma mãe solteira e um divorciado


Ainda não a li, mas não pode ser o que um católico pensa ao ler o título. O "divorciado" é divorciado de uma união civil, a qual, para a Igreja, não é mais do que uma coisa em forma de nada. Se nunca foi casado pela Igreja, não é divorciado. No fundo, o jornalista valoriza mais o casamento civil do que a Igreja católica.

(cinco minutos depois)

A coisa não é bem assim. Pode ser divorciado pelo civil, mas o que aconteceu foi que viu o seu casamento católico declarado nulo. É outra coisa. Para a Igreja (e o nosso inefável direito matrimonial), Guido nunca foi casado.
No dia 14 de Setembro, o Papa vai casar 20 casais, entre eles Gabriella, uma mãe solteira, e Guido, cujo anterior casamento foi anulado, ambos com cerca de 50 anos, avança o jornal italiano La Repubblica
Notícia aqui.

25 mulheres no sínodo sobre a família. Tantas?

O sínodo sobre a família tem 25 mulheres (e 228 homens). Para quê tantas mulheres?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

E a Salamanca dos capitalistas?

Viriato Soromenho-Marques escreveu há dias, no DN, sobre Escola de Salamanca, "Salamanca: a escola do universo". Vale a pena ler. Pena não falar do outro grande contributo da Escola de Salamanca, com derivações em Coimbra e Évora: a teorização sobre o mercado livre, sobre o valor das coisas, que não valem consoante o trabalho que dão (a grande ilusão do comunismo, de uma maneira geral), mas consoante o valor que quem as quer lhes dá. Sim, os salmanticenses são os primeiros teóricos (ou talvez segundos, se tivermos em conta certos medievais que eles, no fundo, seguiam) do capitalismo. O texto de Soromenho-Marques:


Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Chavez nosso que estás no céu

Os chavistas rezam a Hugo Chávez. Não podiam tornar mais evidente aquilo que há muito é dito, que certas versões do comunismo tendem para a religião.

Chávez nosso que estás no céu
na terra, no mar, em nós e nos delegados,
santificado seja o teu nome,
venha a nós o teu legado, para levá-lo ao povos daqui e de lá.
Dai-nos hoje a tua luz
para que nos guie todos os dias.
E não nos deixes cair na tentação do capitalismo,
mas livra-nos da maldade, da oligarquia
como do delito do contrabando
porque de nós é a pátria, a paz e a vida
pelos séculos dos séculos amém. Viva Chávez.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ferreira Fernandes: "E pouco se falará do que se passou ontem"

Ferreira Fernandes no DN de hoje.


Em agosto de 1944, os oficiais alemães acusados de participar no atentado falhado contra Hitler foram julgados em Berlim. Iriam ser todos fuzilados, mas a condenação começou logo no julgamento. Todos os réus tinham calças largas e sem cinto. Quando se levantavam, agarravam-se às calças numa posição ridícula. Em 1952, o PC checoslovaco organizou o Processo de Praga contra ex-dirigentes comunistas caídos em desgraça. À entrada dos réus no tribunal, assistentes, advogados e juízes gargalharam porque os 14 detidos tropeçavam nas calças largas e sem cinto. Onze foram condenados à morte e executados (há um belo filme, A Confissão, de Costa-Gavras, sobre o processo). Ontem, dezenas de soldados ucranianos foram passeados numa avenida de Donetsk, na região leste da Ucrânia controlada por separatistas pró-russos. Os soldados iam de mãos amarradas nas costas e eram escoltados por baionetas e insultados pela multidão nos passeios. Depois de eles passarem, dois camiões de água varreram o asfalto, como que a limpá-lo, e a multidão riu. Era muito importante que os factos históricos - e ontem é também História - fossem lidos como as peças de Shakespeare. O trágico e o rir vão muitas vezes a par. E quando assim é, é porque a tragédia ainda é maior. Na tragicomédia "A Tempestade", Shakespeare quer mostrar que o mal existe - é preciso que se saiba que ele existe para o combater, porque derrotado nunca será. Estás a ouvir, Europa?

sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Santa liberdade

Podem sempre dizer que o ocidente é isto e aquilo, geralmente, capitalista, consumista e decadente. Ao ver o que vem do oriente, seja do oriente europeu, com Putin a invadir a Ucrânia (que quer ser ocidental e em parte é católica), seja do Médio Oriente, com a instauração do califado (é assustador o que se vê nesta reportagem sobre o Estado Islâmico, incluindo a destruição de uma igreja cristã, pelo minut0 31), mais aprecio a liberdade do ocidente dito decadente. As alternativas são arrepiantes.

Era pouco e acabou-se. As férias.

Address Is Approximate from The Theory on Vimeo.

sábado, 16 de agosto de 2014

Anselmo Borges no DN: "China e futuro do cristianismo"


Do artigo de Anselmo Borges no DN de hoje, "China e o futuro do cristianismo":

(...) O Papa Francisco é jesuíta, da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase "venho dos confins do mundo" será uma citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos "confins do mundo". Francisco é considerado um "animal político", que sabe de geoestratégia. Não será por acaso que em menos de meio ano faz duas viagens à Ásia: a primeira, à Coreia do Sul, está a acontecer, a segunda, ao Sri Lanka e Filipinas, será em Janeiro de 2015. E, pela primeira vez, a China abriu o espaço aéreo para que um papa, Francisco, pudesse sobrevoá-la.

Luís Represas, conselheiro vocacional

Lido no DN, no Inquérito do Nilton a Luís Represas (última pergunta).


Um filho teu diz: pai, quero ser cantor! O que lhe respondes?
Trata mas é de ser humorista ou DJ ou até quem sabe as duas coisas. Ou então tira um curso porque ser caixa de supermercado dá para conhecer muita gente e ainda conheces alguém que te acha graça e te descobre como humorista ou DJ ou até quem sabe as duas coisas. Ou então vai para padre porque nas missas dá para conhecer muita gente.

Recuperando do évola: "My focus, however, remains the same - to follow God"

Kent Brantley e a sua mulher, Amber

A boa notícia do dia é que pode ter sido encontrada a cura para a febre hemorrágica do évola. Kent Brantly está praticamente curado, depois de o Hospital Universitário de Emory (Atlanta) lhe ter administrado um soro feito a partir da planta do tabaco geneticamente modificada.

Quando estava na Libéria e percebeu que tinha adoecido com o ébola, Kent Brantly isolou-se e, contou mais tarde, percebendo que ia morrer, teve um “sentimento profundo de paz, para além de qualquer compreensão”.
When I started feeling ill on that Wednesday morning, I immediately isolated myself until the test confirmed my diagnosis three days later. When the result was positive, I remember a deep sense of peace that was beyond all understanding. God was reminding me of what He had taught me years ago, that He will give me everything I need to be faithful to Him.
Agora que está quase curado, escreveu na página da Bolsa doSamaritano que está agradecido a Deus “pela sua misericórdia”.
I am growing stronger every day, and I thank God for His mercy as I have wrestled with this terrible disease.
Kent Brantly trabalha para a Samaritan’s Purse, uma organização dos cristãos evangélicos. Ele e Nancy Writebol (que está a recuperar, ainda que mais lentamente), estavam como médicos missionários na Libéria.
Now it is two weeks later, and I am in a totally different setting. My focus, however, remains the same - to follow God. As you continue to pray for Nancy and me, yes, please pray for our recovery. More importantly, pray that we would be faithful to God’s call on our lives in these new circumstances.
Na terça-feira, morreu em Madrid o padre Miguel Pajares, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que também tinha estado na Libéria, tratando de doentes com évola.


Pode ser da minha visão seletiva, mas os que estão com os mais desgraçados estão porque veem neles Jesus Cristo – algo bem difícil ou impossível para quem não tem os olhos da fé. Aliás, as duas coisas são intercambiáveis. Não vi Donald Trump fazer barulho pelo repatriamento de ninguém da Associação Ateia ou da Liga Humanista.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Compreender o Espírito Santo

Do "Diário Económico" de hoje. Julgo que a cronista se referia ao Espírito Santo mesmo, o original. Mas ficaram com piada, o texto e a foto.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Mulheres no episcopado

O sínodo da geral Igreja da Inglaterra (anglicana) aprovou nesta segunda-feira por esmagadora maioria a ordenação de mulheres como bispos, uma medida histórica que a dividia há anos.

Li aquiFico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.

Um puxão de orelhas para o Eugénio ou para o Jorge Mario?

A sequência é:

- O Papa conversa com o Scalfari e diz umas coisas descontraidamente. Promotem continuar a conversa.
- Scalfari põe tudo mais ou menos do "La Reppublica".
- O resto da imprensa reproduz duas ou três frases do "La Reppublica".
- O porta-voz do Vaticano vem dizer que não foi bem isso que o Papa disse.


E parece que o puxão de orelhas, em público e em voz alta, é para o jornalista. Não sei se em privado e no silêncio não será para Francisco.

sábado, 12 de julho de 2014

A Família de Nazaré enquanto modelo para as famílias de hoje

De vez em quando, um ou outro leitor, sei lá se o mesmo entre os dois ou três que por cá passam, escreve que eu dou demasiado destaque ao que escreve o P.e Anselmo Borges (e Fr. Bento Domingues – mas esse não é para aqui chamado, agora), como se concordasse com tudo. Não concordo. Hoje, por exemplo, discordo frontalmente do último ponto do seu texto. Cito:

6. Last but not least, dito com cautela e imenso respeito: apresentar a Sagrada Família de Nazaré, tal como é comummente idealizada pela Igreja institucional e pela piedade popular, como modelo de família cristã é inadequado, para não dizer contraproducente.

Na verdade, parece-me que a família de Nazaré é bem um modelo para as famílias de hoje. 

Vejamos:

- A mãe estava grávida, e não era do marido, quando se casou.

- O casal só teve um filho, segundo a tradição, preconizando o inverno demográfico que estamos a viver.

- Segundo outras tradições, havia filhos da primeira relação de José, o que os terá levado a viver menos parte daquela realidade hoje tão comum de "os meus, os teus e os nossos”.

- Jesus só saiu de casa aos 30 anos, como acontece com muitos jovens adultos na atualidade. Demorou muito a abandonar o ninho dos pais.

- Jesus andava em jantaradas e noitadas junto ao lago. Perece que sem dinheiro. Pelo menos desprezava-o. Teria dificuldades em arranjar emprego como multidões dos jovens de hoje? A quem cravava a boa vida?

- Parece que teve problemas com os seus pais (entendamos: mãe e pai adotante) e outros familiares. Não os reconheceu em diversas situações e enfraqueceu com generalizações os laços familiares, como se tudo pudesse ser família (“A minha mãe e os meus irmãos são aqueles que…”). Estava a destruir a família tradicional ao reconhecer outros tipos de família?

Anselmo Borges: "Família em crise, desejo de família. 2"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Há questões cruciais para a Igreja na actualidade. Uma delas, no quadro da concepção cristã da família e da sexualidade, é a da pastoral da família em crise. Sobre o carácter urgente e decisivo do tema falam a importância essencial da família como célula fundamental da sociedade e da Igreja, a sua crise e o cisma na Igreja por causa da moral sexual.

Consciente da situação, o Papa Francisco lançou, de forma inédita, um inquérito aos católicos do mundo inteiro, com 39 perguntas, pertinentes, lúcidas e sem tabus, sobre o tema. O resultado das respostas acaba de ser publicado num Intrumentum laboris (instrumento de trabalho) sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, que servirá de ponto de partida para a reflexão do sínodo dos bispos em Outubro próximo, seguido de um outro em 2015. Este deixará linhas de força para uma exortação pastoral do Papa.

Embora dirigido aos católicos, a sua leitura pode ser de enorme vantagem para quem se interessa por questão tão importante como complexa: a família. Já aqui deixei na semana passada alguns dos seus dados, referentes precisamente à importância da família e às razões da sua crise. Acrescento alguns pontos mais para a reflexão.

1. Começo por sublinhar que no documento, como aliás em todos os textos eclesiásticos, nunca se fala em casamento, mas em matrimónio. Atendendo ao étimo de casamento: casa, e de matrimónio: mater, matris, mãe, percebe-se que a designação não é arbitrária.

2. Trata-se de uma síntese das respostas vindas de todo o mundo. Assim, faz-se eco da variedade da concepção de família e das suas dificuldades, segundo a diversidade de culturas. É dito, por exemplo, que várias conferências episcopais de África, Oceânia e Ásia oriental referem que "nalgumas regiões é a poligamia que se considera natural", o mesmo sucedendo com o repúdio de uma mulher que não pode ter filhos. Pense-se igualmente no "feminicídio", no casamento por etapas, na promiscuidade sexual em família e no incesto.

3. Há uma tomada clara de consciência da cisão entre a doutrina oficial da Igreja e a prática dos fiéis em temas como a contracepção, a participação dos divorciados recasados nos sacramentos, as relações pré-matrimoniais, a própria homossexualidade e a adopção.

4. Uma linha de fundo perpassa o texto: mesmo mantendo, no essencial, a doutrina tradicional católica, há uma nova atitude pastoral de compreensão e misericórdia para quem está em situação de irregularidade canónica: "A família encontra-se objectivamente num momento muito difícil, com realidades, histórias e sofrimentos complexos que requerem um olhar compassivo e compreensivo". Isso também é válido para os homossexuais: "Não existe qualquer fundamento para assemelhar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família. Não obstante, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito, compaixão, delicadeza. Evitar-se-á a seu respeito todo o sinal de discriminação injusta." Todas as crianças, seja qual for a situação dos pais, serão acolhidas com carinho pela Igreja.

5. Numa análise crítica, penso que há concretamente dois pontos que precisam de mais reflexão. Não sendo o ser humano uma essência fixada, será preciso aprofundar toda a questão da "lei natural". O que é a natureza? Dever-se-á ir também mais fundo no referente à chamada gender theory.

Assim, e a partir de uma nova hermenêutica da "paternidade responsável", a contracepção será vista a nova luz. Também será necessário rever o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos.

6. Last but not least, dito com cautela e imenso respeito: apresentar a Sagrada Família de Nazaré, tal como é comummente idealizada pela Igreja institucional e pela piedade popular, como modelo de família cristã é inadequado, para não dizer contraproducente.

Ler aqui Família em crise, desejo de família. 1

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Frargentina contra Bentalemanha

A Renascença compilou imagens sobre a final do mundial e os dois Papas (prefiro insistir dois bispos de Roma; um é emérito). Ver aqui.



Mas não está lá esta.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Anselmo Borges: Família em crise, desejo de família. 1

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado:

Quem porá em dúvida o valor essencial da família como lugar predilecto dos afectos, do amor, da partilha, célula fundamental da sociedade, espaço privilegiado para ter filhos e educá-los?

Sobre tema tão fundamental o Papa Francisco quis saber, em tempos de crise, o que verdadeiramente se passa. E saber directamente, não por intermediários, pois estes vão frequentemente ao Vaticano dizer apenas o que julgam que o Papa e a Cúria querem ouvir.

A síntese das respostas dadas, por diversos meios, pelos católicos do mundo inteiro ao famoso inquérito papal sobre a família, com 39 perguntas, foi publicada na semana passada pelo Vaticano. Esse documento de mais de 80 páginas servirá de base para o debate do próximo Sínodo dos bispos de todo o mundo sobre a família, a realizar em Roma de 5 a 19 de Outubro próximo.

Um dos pontos mais sublinhados pelo documento refere-se precisamente à importância da família. Ela é "núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial", a "célula fundamental da sociedade, o lugar onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer a outros". "A família é reconhecida no povo de Deus como um bem inestimável, o ambiente natural de crescimento da vida, uma escola de humanidade, de amor, de esperança para a sociedade"; "reconhecida como o lugar natural para o desenvolvimento da pessoa, é também o fundamento de toda a sociedade e Estado"; ela é definida como a "primeira sociedade humana", "o lugar no qual se transmitem e se podem aprender desde os primeiros anos de vida valores como a fraternidade, a lealdade, o amor pela verdade e o trabalho, o respeito e a solidariedade entre as gerações bem como a arte da comunicação e da alegria. É o espaço privilegiado para viver e promover a dignidade e os direitos do homem e da mulher. A família, baseada no matrimónio, representa o âmbito de formação integral dos futuros cidadãos de um país". "A primeira experiência de amor e de relação tem lugar na família: sublinha-se a necessidade de que cada criança conte com o amor e o cuidado protector dos pais e viva uma casa onde habita a paz."

O documento é notável. Conseguiu em pouco tempo fazer uma síntese clara e integrada - reconheça-se que era uma tarefa dificílima - das respostas recolhidas pelas conferências episcopais de todo o mundo ou enviadas directamente por outros organismos. E há razões sérias para considerá-lo fidedigno, pois até reconhece inequivocamente as dificuldades e mesmo alguma "resistência" de boa parte dos católicos quanto à aceitação integral dos ensinamentos da Igreja sobre múltiplos temas: controlo da natalidade, o divórcio e novo casamento, as relações pré-matrimoniais, a fidelidade, as uniões de facto, o casamento à experiência, a homossexualidade, a fecundação in vitro, etc.

Embora se dirija directamente aos católicos e no quadro do pensar católico, o documento é mais abrangente, mesmo quando apresenta razões da crise da família e, mais concretamente, da moral familiar. Referindo as respostas recebidas, diz: "Existe unanimidade também no que se refere aos motivos de fundo das dificuldades, quando se trata de acolher os ensinamentos da Igreja: as novas tecnologias; a influência dos meios de comunicação social; a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo; a secularização crescente; o facto de prevalecerem concepções que conduziram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; a fragilidade das relações interpessoais; uma cultura que rejeita decisões definitivas, condicionada pela precariedade, a provisoriedade, própria de uma "sociedade líquida", do "usar e deitar fora", do "tudo e imediatamente"; valores sustentados pela denominada "cultura do descarte" e do "provisório", como recorda frequentemente o Papa Francisco".

E lá está a constatação: apesar da crise, há testemunhos significativos nos quais "se manifesta claramente, sobretudo nas novas gerações, um renovado desejo de família". Voltarei ao tema e suas dificuldades no próximo sábado.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mais uma entrevista sobre o Papa

Mais uma entrevista com quase todos os lugares comuns sobre Francisco. Na "Sábado" desta quinta.




Defesa

Se a vós, magistrados do Império romano, que na vossa alta posição presidis publicamente à justiça lá quase no cimo da cidade, não é lícito indagar abertamente e examinar na presença de todos o que haja por detrás da questão dos cristãos; se, neste caso tão somente, a vossa autoridade tem medo ou tem pejo de uma diligente e justa devasse pública; e se, como recentemente se passou, a ânsia de atacar esta nossa seita - ânsia muito atreita a denúncias domésticas - tapa simplesmente a boca à defesa... deixai que a verdade vos chegue aos ouvidos, pela via oculta, ao menos, destas letras silenciosas.

Tertuliano, n.º 1 de "Apologético"

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Eyal, Gilad e Naftali e o outro jovem de quem não se sabe o nome

Hoje, os meninos estão mortos, vítimas de uma cultura de ódio que cresce imparável em toda a região. Israel e todo o mundo judaico choram os seus filhos, porque cada homem, cada mulher, cada criança morta é um pouco do seu próprio coração que se quebra.
Esther Mucznik escreveu esta frase no "Público" de hoje. Refere-se aos jovens israelitas Eyal, Gilad e Nafatli (onde já ouvimos estes nomes?), que foram raptados no dia 12 de junho e assassinados no último dia do mês passado.

Um adolescente palestiniano foi raptado e morto no que se suspeita ser um ataque de vingança pela morte de três jovens israelitas encontrados mortos depois de mais de duas semanas desaparecidos.
O governo israelita (como a autoridade palestiniana, que condenara o rapto dos israelitas) veio dizer que não é admissível a lei de talião.
Benjamin Netanyahu já reagiu à notícia mencionando um “crime abominável”, pediu uma investigação rápida ao crime e apelou aos israelitas para não “tomarem a justiça nas suas mãos”.
A cultura de ódio, com escreve Mucznik, cresce imparável em toda a região, apesar do sinal dos dirigentes políticos com o Papa.

Livro do padre da televisão

Um livro que ando a ler com muito gosto.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...