Ferreira Fernandes no DN de hoje.
Em agosto de 1944, os oficiais alemães acusados de participar no atentado falhado contra Hitler foram julgados em Berlim. Iriam ser todos fuzilados, mas a condenação começou logo no julgamento. Todos os réus tinham calças largas e sem cinto. Quando se levantavam, agarravam-se às calças numa posição ridícula. Em 1952, o PC checoslovaco organizou o Processo de Praga contra ex-dirigentes comunistas caídos em desgraça. À entrada dos réus no tribunal, assistentes, advogados e juízes gargalharam porque os 14 detidos tropeçavam nas calças largas e sem cinto. Onze foram condenados à morte e executados (há um belo filme, A Confissão, de Costa-Gavras, sobre o processo). Ontem, dezenas de soldados ucranianos foram passeados numa avenida de Donetsk, na região leste da Ucrânia controlada por separatistas pró-russos. Os soldados iam de mãos amarradas nas costas e eram escoltados por baionetas e insultados pela multidão nos passeios. Depois de eles passarem, dois camiões de água varreram o asfalto, como que a limpá-lo, e a multidão riu. Era muito importante que os factos históricos - e ontem é também História - fossem lidos como as peças de Shakespeare. O trágico e o rir vão muitas vezes a par. E quando assim é, é porque a tragédia ainda é maior. Na tragicomédia "A Tempestade", Shakespeare quer mostrar que o mal existe - é preciso que se saiba que ele existe para o combater, porque derrotado nunca será. Estás a ouvir, Europa?
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sábado, 23 de agosto de 2014
Para um tratado da amorfidade
Se as verdades do ensino cristão não têm qualquer efeito na nossa vida, que espécie de verdades são?
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Santa liberdade
Podem sempre dizer que o ocidente é isto e aquilo, geralmente, capitalista, consumista e decadente. Ao ver o que vem do oriente, seja do oriente europeu, com Putin a invadir a Ucrânia (que quer ser ocidental e em parte é católica), seja do Médio Oriente, com a instauração do califado (é assustador o que se vê nesta reportagem sobre o Estado Islâmico, incluindo a destruição de uma igreja cristã, pelo minut0 31), mais aprecio a liberdade do ocidente dito decadente. As alternativas são arrepiantes.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
sábado, 16 de agosto de 2014
Anselmo Borges no DN: "China e futuro do cristianismo"
Do artigo de Anselmo Borges no DN de hoje, "China e o futuro do cristianismo":
(...) O Papa Francisco é jesuíta, da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase "venho dos confins do mundo" será uma citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos "confins do mundo". Francisco é considerado um "animal político", que sabe de geoestratégia. Não será por acaso que em menos de meio ano faz duas viagens à Ásia: a primeira, à Coreia do Sul, está a acontecer, a segunda, ao Sri Lanka e Filipinas, será em Janeiro de 2015. E, pela primeira vez, a China abriu o espaço aéreo para que um papa, Francisco, pudesse sobrevoá-la.
Luís Represas, conselheiro vocacional
Lido no DN, no Inquérito do Nilton a Luís Represas (última pergunta).
Um filho teu diz: pai, quero ser cantor! O que lhe respondes?
Trata mas é de ser humorista ou DJ ou até quem sabe as duas coisas. Ou então tira um curso porque ser caixa de supermercado dá para conhecer muita gente e ainda conheces alguém que te acha graça e te descobre como humorista ou DJ ou até quem sabe as duas coisas. Ou então vai para padre porque nas missas dá para conhecer muita gente.
Recuperando do évola: "My focus, however, remains the same - to follow God"
Kent Brantley e a sua mulher, Amber
A boa notícia do dia é que pode ter sido encontrada a cura
para a febre hemorrágica do évola. Kent Brantly está praticamente curado,
depois de o Hospital Universitário de Emory (Atlanta) lhe ter administrado um
soro feito a partir da planta do tabaco geneticamente modificada.
Quando estava na Libéria e percebeu que tinha adoecido com o
ébola, Kent Brantly isolou-se e, contou mais tarde, percebendo que ia morrer,
teve um “sentimento profundo de paz, para além de qualquer compreensão”.
When I started feeling ill on that Wednesday morning, I immediately isolated myself until the test confirmed my diagnosis three days later. When the result was positive, I remember a deep sense of peace that was beyond all understanding. God was reminding me of what He had taught me years ago, that He will give me everything I need to be faithful to Him.
Agora que está quase curado, escreveu na página da Bolsa doSamaritano que está agradecido a Deus “pela sua misericórdia”.
I am growing stronger every day, and I thank God for His mercy as I have wrestled with this terrible disease.
Kent Brantly trabalha para a Samaritan’s Purse, uma
organização dos cristãos evangélicos. Ele e Nancy Writebol (que está a
recuperar, ainda que mais lentamente), estavam como médicos missionários na
Libéria.
Now it is two weeks later, and I am in a totally different setting. My focus, however, remains the same - to follow God. As you continue to pray for Nancy and me, yes, please pray for our recovery. More importantly, pray that we would be faithful to God’s call on our lives in these new circumstances.
Na terça-feira, morreu em Madrid o padre Miguel Pajares, da
Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que também tinha estado na Libéria, tratando
de doentes com évola.
Pode ser da minha visão seletiva, mas os que estão com os
mais desgraçados estão porque veem neles Jesus Cristo – algo bem difícil ou impossível para quem não tem os olhos da fé. Aliás, as duas coisas são intercambiáveis. Não vi Donald Trump fazer barulho pelo repatriamento de ninguém
da Associação Ateia ou da Liga Humanista.
sábado, 19 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
Compreender o Espírito Santo
Do "Diário Económico" de hoje. Julgo que a cronista se referia ao Espírito Santo mesmo, o original. Mas ficaram com piada, o texto e a foto.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Mulheres no episcopado
O sínodo da geral Igreja da Inglaterra (anglicana) aprovou nesta segunda-feira por esmagadora maioria a ordenação de mulheres como bispos, uma medida histórica que a dividia há anos.
Li aqui. Fico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.
Li aqui. Fico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.
Um puxão de orelhas para o Eugénio ou para o Jorge Mario?
A sequência é:
- O Papa conversa com o Scalfari e diz umas coisas descontraidamente. Promotem continuar a conversa.
- Scalfari põe tudo mais ou menos do "La Reppublica".
- O resto da imprensa reproduz duas ou três frases do "La Reppublica".
- O porta-voz do Vaticano vem dizer que não foi bem isso que o Papa disse.
E parece que o puxão de orelhas, em público e em voz alta, é para o jornalista. Não sei se em privado e no silêncio não será para Francisco.
- O Papa conversa com o Scalfari e diz umas coisas descontraidamente. Promotem continuar a conversa.
- Scalfari põe tudo mais ou menos do "La Reppublica".
- O resto da imprensa reproduz duas ou três frases do "La Reppublica".
- O porta-voz do Vaticano vem dizer que não foi bem isso que o Papa disse.
E parece que o puxão de orelhas, em público e em voz alta, é para o jornalista. Não sei se em privado e no silêncio não será para Francisco.
sábado, 12 de julho de 2014
A Família de Nazaré enquanto modelo para as famílias de hoje
De vez em quando, um ou outro leitor, sei lá se o mesmo entre os dois ou três que por cá passam,
escreve que eu dou demasiado destaque ao que escreve o P.e Anselmo Borges (e Fr.
Bento Domingues – mas esse não é para aqui chamado, agora), como se concordasse
com tudo. Não concordo. Hoje, por exemplo, discordo frontalmente do último
ponto do seu texto. Cito:
6. Last but not least, dito com cautela e imenso respeito: apresentar a Sagrada Família de Nazaré, tal como é comummente idealizada pela Igreja institucional e pela piedade popular, como modelo de família cristã é inadequado, para não dizer contraproducente.
Na verdade, parece-me que a família de Nazaré é bem um modelo
para as famílias de hoje.
Vejamos:
- A mãe estava grávida, e não era do marido, quando se
casou.
- O casal só teve um filho, segundo a tradição, preconizando
o inverno demográfico que estamos a viver.
- Segundo outras tradições, havia filhos da primeira relação
de José, o que os terá levado a viver menos parte daquela realidade hoje tão comum de "os meus, os teus e
os nossos”.
- Jesus só saiu de casa aos 30 anos, como acontece com
muitos jovens adultos na atualidade. Demorou muito a abandonar o ninho dos pais.
- Jesus andava em jantaradas e noitadas junto ao lago. Perece
que sem dinheiro. Pelo menos desprezava-o. Teria dificuldades em arranjar
emprego como multidões dos jovens de hoje? A quem cravava a boa vida?
- Parece que teve problemas com os seus pais (entendamos:
mãe e pai adotante) e outros familiares. Não os reconheceu em diversas
situações e enfraqueceu com generalizações os laços familiares, como se tudo
pudesse ser família (“A minha mãe e os meus irmãos são aqueles que…”). Estava a
destruir a família tradicional ao reconhecer outros tipos de família?
Anselmo Borges: "Família em crise, desejo de família. 2"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
Há questões cruciais para a Igreja na actualidade. Uma delas, no quadro da concepção cristã da família e da sexualidade, é a da pastoral da família em crise. Sobre o carácter urgente e decisivo do tema falam a importância essencial da família como célula fundamental da sociedade e da Igreja, a sua crise e o cisma na Igreja por causa da moral sexual.
Consciente da situação, o Papa Francisco lançou, de forma inédita, um inquérito aos católicos do mundo inteiro, com 39 perguntas, pertinentes, lúcidas e sem tabus, sobre o tema. O resultado das respostas acaba de ser publicado num Intrumentum laboris (instrumento de trabalho) sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, que servirá de ponto de partida para a reflexão do sínodo dos bispos em Outubro próximo, seguido de um outro em 2015. Este deixará linhas de força para uma exortação pastoral do Papa.
Embora dirigido aos católicos, a sua leitura pode ser de enorme vantagem para quem se interessa por questão tão importante como complexa: a família. Já aqui deixei na semana passada alguns dos seus dados, referentes precisamente à importância da família e às razões da sua crise. Acrescento alguns pontos mais para a reflexão.
1. Começo por sublinhar que no documento, como aliás em todos os textos eclesiásticos, nunca se fala em casamento, mas em matrimónio. Atendendo ao étimo de casamento: casa, e de matrimónio: mater, matris, mãe, percebe-se que a designação não é arbitrária.
2. Trata-se de uma síntese das respostas vindas de todo o mundo. Assim, faz-se eco da variedade da concepção de família e das suas dificuldades, segundo a diversidade de culturas. É dito, por exemplo, que várias conferências episcopais de África, Oceânia e Ásia oriental referem que "nalgumas regiões é a poligamia que se considera natural", o mesmo sucedendo com o repúdio de uma mulher que não pode ter filhos. Pense-se igualmente no "feminicídio", no casamento por etapas, na promiscuidade sexual em família e no incesto.
3. Há uma tomada clara de consciência da cisão entre a doutrina oficial da Igreja e a prática dos fiéis em temas como a contracepção, a participação dos divorciados recasados nos sacramentos, as relações pré-matrimoniais, a própria homossexualidade e a adopção.
4. Uma linha de fundo perpassa o texto: mesmo mantendo, no essencial, a doutrina tradicional católica, há uma nova atitude pastoral de compreensão e misericórdia para quem está em situação de irregularidade canónica: "A família encontra-se objectivamente num momento muito difícil, com realidades, histórias e sofrimentos complexos que requerem um olhar compassivo e compreensivo". Isso também é válido para os homossexuais: "Não existe qualquer fundamento para assemelhar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família. Não obstante, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito, compaixão, delicadeza. Evitar-se-á a seu respeito todo o sinal de discriminação injusta." Todas as crianças, seja qual for a situação dos pais, serão acolhidas com carinho pela Igreja.
5. Numa análise crítica, penso que há concretamente dois pontos que precisam de mais reflexão. Não sendo o ser humano uma essência fixada, será preciso aprofundar toda a questão da "lei natural". O que é a natureza? Dever-se-á ir também mais fundo no referente à chamada gender theory.
Assim, e a partir de uma nova hermenêutica da "paternidade responsável", a contracepção será vista a nova luz. Também será necessário rever o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos.
6. Last but not least, dito com cautela e imenso respeito: apresentar a Sagrada Família de Nazaré, tal como é comummente idealizada pela Igreja institucional e pela piedade popular, como modelo de família cristã é inadequado, para não dizer contraproducente.
Ler aqui o Família em crise, desejo de família. 1
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Frargentina contra Bentalemanha
A Renascença compilou imagens sobre a final do mundial e os dois Papas (prefiro insistir dois bispos de Roma; um é emérito). Ver aqui.
Mas não está lá esta.
Mas não está lá esta.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Anselmo Borges: Família em crise, desejo de família. 1
Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado:
Quem porá em dúvida o valor essencial da família como lugar predilecto dos afectos, do amor, da partilha, célula fundamental da sociedade, espaço privilegiado para ter filhos e educá-los?
Sobre tema tão fundamental o Papa Francisco quis saber, em tempos de crise, o que verdadeiramente se passa. E saber directamente, não por intermediários, pois estes vão frequentemente ao Vaticano dizer apenas o que julgam que o Papa e a Cúria querem ouvir.
A síntese das respostas dadas, por diversos meios, pelos católicos do mundo inteiro ao famoso inquérito papal sobre a família, com 39 perguntas, foi publicada na semana passada pelo Vaticano. Esse documento de mais de 80 páginas servirá de base para o debate do próximo Sínodo dos bispos de todo o mundo sobre a família, a realizar em Roma de 5 a 19 de Outubro próximo.
Um dos pontos mais sublinhados pelo documento refere-se precisamente à importância da família. Ela é "núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial", a "célula fundamental da sociedade, o lugar onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer a outros". "A família é reconhecida no povo de Deus como um bem inestimável, o ambiente natural de crescimento da vida, uma escola de humanidade, de amor, de esperança para a sociedade"; "reconhecida como o lugar natural para o desenvolvimento da pessoa, é também o fundamento de toda a sociedade e Estado"; ela é definida como a "primeira sociedade humana", "o lugar no qual se transmitem e se podem aprender desde os primeiros anos de vida valores como a fraternidade, a lealdade, o amor pela verdade e o trabalho, o respeito e a solidariedade entre as gerações bem como a arte da comunicação e da alegria. É o espaço privilegiado para viver e promover a dignidade e os direitos do homem e da mulher. A família, baseada no matrimónio, representa o âmbito de formação integral dos futuros cidadãos de um país". "A primeira experiência de amor e de relação tem lugar na família: sublinha-se a necessidade de que cada criança conte com o amor e o cuidado protector dos pais e viva uma casa onde habita a paz."
O documento é notável. Conseguiu em pouco tempo fazer uma síntese clara e integrada - reconheça-se que era uma tarefa dificílima - das respostas recolhidas pelas conferências episcopais de todo o mundo ou enviadas directamente por outros organismos. E há razões sérias para considerá-lo fidedigno, pois até reconhece inequivocamente as dificuldades e mesmo alguma "resistência" de boa parte dos católicos quanto à aceitação integral dos ensinamentos da Igreja sobre múltiplos temas: controlo da natalidade, o divórcio e novo casamento, as relações pré-matrimoniais, a fidelidade, as uniões de facto, o casamento à experiência, a homossexualidade, a fecundação in vitro, etc.
Embora se dirija directamente aos católicos e no quadro do pensar católico, o documento é mais abrangente, mesmo quando apresenta razões da crise da família e, mais concretamente, da moral familiar. Referindo as respostas recebidas, diz: "Existe unanimidade também no que se refere aos motivos de fundo das dificuldades, quando se trata de acolher os ensinamentos da Igreja: as novas tecnologias; a influência dos meios de comunicação social; a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo; a secularização crescente; o facto de prevalecerem concepções que conduziram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; a fragilidade das relações interpessoais; uma cultura que rejeita decisões definitivas, condicionada pela precariedade, a provisoriedade, própria de uma "sociedade líquida", do "usar e deitar fora", do "tudo e imediatamente"; valores sustentados pela denominada "cultura do descarte" e do "provisório", como recorda frequentemente o Papa Francisco".
E lá está a constatação: apesar da crise, há testemunhos significativos nos quais "se manifesta claramente, sobretudo nas novas gerações, um renovado desejo de família". Voltarei ao tema e suas dificuldades no próximo sábado.
domingo, 6 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Defesa
Se a vós, magistrados do Império romano, que na vossa alta posição presidis publicamente à justiça lá quase no cimo da cidade, não é lícito indagar abertamente e examinar na presença de todos o que haja por detrás da questão dos cristãos; se, neste caso tão somente, a vossa autoridade tem medo ou tem pejo de uma diligente e justa devasse pública; e se, como recentemente se passou, a ânsia de atacar esta nossa seita - ânsia muito atreita a denúncias domésticas - tapa simplesmente a boca à defesa... deixai que a verdade vos chegue aos ouvidos, pela via oculta, ao menos, destas letras silenciosas.
Tertuliano, n.º 1 de "Apologético"
Tertuliano, n.º 1 de "Apologético"
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Eyal, Gilad e Naftali e o outro jovem de quem não se sabe o nome
Hoje, os meninos estão mortos, vítimas de uma cultura de ódio que cresce imparável em toda a região. Israel e todo o mundo judaico choram os seus filhos, porque cada homem, cada mulher, cada criança morta é um pouco do seu próprio coração que se quebra.
Esther Mucznik escreveu esta frase no "Público" de hoje. Refere-se aos jovens israelitas Eyal, Gilad e Nafatli (onde já ouvimos estes nomes?), que foram raptados no dia 12 de junho e assassinados no último dia do mês passado.
Um adolescente palestiniano foi raptado e morto no que se suspeita ser um ataque de vingança pela morte de três jovens israelitas encontrados mortos depois de mais de duas semanas desaparecidos.
O governo israelita (como a autoridade palestiniana, que condenara o rapto dos israelitas) veio dizer que não é admissível a lei de talião.
Benjamin Netanyahu já reagiu à notícia mencionando um “crime abominável”, pediu uma investigação rápida ao crime e apelou aos israelitas para não “tomarem a justiça nas suas mãos”.A cultura de ódio, com escreve Mucznik, cresce imparável em toda a região, apesar do sinal dos dirigentes políticos com o Papa.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Os bispos e o sofrimento
Mais um bispo ao lado dos que sofrem (li e na Ecclesia). Estão todos ao lado dos que sofrem. Ainda não vi nenhum que dissesse que não está ao lado dos que sofrem. Mas se estão mesmo, emitam bem o não estar. Nota-se pouco, tirando um caso ou outro (como aquele que cumprimentou a romena que pedia à porta da sé, quando todos, eu incluído, nunca lhe dei a mão - mas serviu de lição), mesmo que vivam na simplicidade, como vive a grande maioria.
E por falar em bispos, vivendo numa diocese vacante, garantira-me ontem, com nomes e datas, que já houve um nomeado para Aveiro. Era auxiliar. O titular da diocese de que era e é auxiliar simplesmente disse: "Não". E, portanto, começou tudo do zero. Até lá para dezembro. Uma vergonha para quem quer que sejam os responsáveis.
E por falar em bispos, vivendo numa diocese vacante, garantira-me ontem, com nomes e datas, que já houve um nomeado para Aveiro. Era auxiliar. O titular da diocese de que era e é auxiliar simplesmente disse: "Não". E, portanto, começou tudo do zero. Até lá para dezembro. Uma vergonha para quem quer que sejam os responsáveis.
domingo, 22 de junho de 2014
sábado, 21 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Anselmo Borges: "Jerusalém e Roma"
Já temos pás. Falta a paz
Artigo de Anselmo Borges no DN de ontem:
1 A política está em tudo mas não é tudo. A oração também pode ser força política. E condição essencial para a paz é a conversão interior, do coração. Por outro lado, a História não está pré-escrita em parte alguma e, por isso, é preciso construí-la e ao mesmo tempo ter a capacidade de se deixar surpreender por ela. Cá está: quem poderia supor há apenas um mês que seria possível o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, encontrarem-se no Vaticano para rezar? Mas o inesperado, o que se diria impossível, aconteceu.
Na sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel, inesperadamente, o Papa Francisco desafiou os dois presidentes para um encontro na "sua casa", no Vaticano, para rezarem pela paz. E essa oração histórica ocorreu nos jardins do Vaticano, no domingo passado, dia 8, com a presença de um quarto convidado, o patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla. O abraço dos dois líderes, palestiniano e israelita, com o Papa como testemunha, fica para a História. "Que Deus te abençoe!", disse Peres a Abbas, saudando-o. E Francisco: "Sim ao diálogo e não à violência; sim à negociação e não à hostilidade; sim ao respeito pelos pactos e não às provocações. Senhor, desarma a língua e as mãos, renova os corações e as mentes: Shalom, paz, salam".
Após um breve intróito musical, seguiu-se a oração. No centro, Abbas, Francisco e Peres, à esquerda, Bartolomeu. De um lado e de outro, representantes das três religiões abraâmicas, também ditas monoteístas, proféticas e do Livro, e dos governos palestiniano e israelita. Por ordem histórica, a primeira oração coube aos judeus, seguindo-se os cristãos e os muçulmanos. Louvou-se a Deus pela Criação, pediu-se perdão pelos pecados, ergueram-se súplicas pela paz entre judeus e palestinianos, na Terra Santa, em todo o Médio Oriente, para toda a humanidade. No fim, um novo abraço e um gesto simbólico: os quatro líderes plantaram uma oliveira. A paz "não será fácil, mas lutaremos por ela no tempo que nos resta de vida".
2 Se, como escreveu a grande filósofa Hannah Arendt, também a economia é um problema teológico, eu diria que a Palestina o é muito mais. Para quem quiser aprofundar a questão, pode ler as duas obras monumentais do teólogo Hans Küng: O Judaísmo e O Islão.
Como é sabido, em 29 de novembro de 1947, por maioria sólida e com o beneplácito dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, as Nações Unidas aprovaram a divisão da Palestina em dois Estados: um Estado árabe e um Estado judaico, com fronteiras claras, a união económica entre os dois e a internacionalização de Jerusalém sob a administração das Nações Unidas. Note-se que, apesar de a população árabe ser quase o dobro e os judeus estarem então na posse de 10% do território, ficariam com 55% da Palestina.
O mundo árabe rejeitou a divisão. Mas, à distância, mesmo admitindo a injustiça da partilha e as suas consequências - é preciso pensar na fuga e na expulsão dos palestinianos -, considera-se que a recusa árabe foi "um erro fatal" (Küng). Aliás, isso é reconhecido hoje também pelos palestinianos, pois acabaram por perder a criação de um Estado próprio soberano pelo qual lutam.
Como se tornou claro, a guerra não gera a paz, que só pode chegar mediante o diálogo, a diplomacia, cedências mútuas, com dois pressupostos fundamentais: o reconhecimento pelos Estados árabes e pelos palestinianos do Estado de Israel e o reconhecimento por parte de Israel de um Estado palestiniano viável, soberano e independente. E Jerusalém: internacionalizada?
O conflito do Médio Oriente é sobretudo político. Mas lá não haverá paz enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem politicamente activos, impedindo o fanatismo religioso. Com base nos seus livros sagrados - Bíblia hebraica, Novo Testamento, Alcorão -, judeus, cristãos e muçulmanos devem reconhecer-se mutuamente e lutar a favor da paz. Esta é a mensagem de Roma para Jerusalém.
sábado, 14 de junho de 2014
Relendo a "Caritas in veritate"
Relendo a "Caritas in veritate", de Bento XVI. Temos aqui o melhor documento para o panorama económico e financeiro da atualidade. Não tem tantos chavões, frases fortes, lugares-comuns, parangonas. Mas tem o equilíbrio que não leva ao repúdio impulsivo. Bem sei, para os tempos das reações instantâneas e epidérmicas não serve. É mais fácil ler (ou ouvir) quatro palavras e não pensar do que ter de refletir.
(N.º 65) Em seguida, é preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. É certamente útil, se não mesmo indispensável em certas circunstâncias, dar vida a iniciativas financeiras nas quais predomine a dimensão humanitária. Isto, porém, não deve fazer esquecer que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, é necessário que não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores. Recta intenção, transparência e busca de bons resultados são compatíveis entre si e não devem jamais ser separados. Se o amor é inteligente, sabe encontrar também os modos para agir segundo uma previdente e justa conveniência, como significativamente indicam muitas experiências no campo do crédito cooperativo.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O conservador liberal
Anda para aí uma polémica sobre a atribuição de um prémio da
Católica a Alexandre Soares dos Santos.
A notícia diz:
O Instituto de Estudos Políticos (IEP), da Universidade Católica Portuguesa, vai atribuir o Prémio Fé e Liberdade a Alexandre Soares dos Santos, anterior presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins. A distinção vai ser entregue a 24 de junho, durante o Fórum Político do Estoril, que reúne dezenas de oradores nacionais e estrangeiros sob o tema “Reavaliando a 3.ª vaga de democratização”, por ocasião dos 40 anos do 25 de abril (1974) e os 25 anos da queda do Muro de Berlim (1989). Elísio Alexandre Soares dos Santos (1934), que já foi considerado a pessoa mais rica em Portugal, vai ser apresentado por Manuel Braga da Cruz, anterior reitor da Universidade Católica.
A polémica tem a ver com a oposição de certos setores da
Igreja e da cultura. Notícia do DN aqui.
Bento Domingues é um dos que está contra. Mas já houve uma
altura em que concordou com o "Sr. Pingo Doce". Ler aqui.
Dizia na altura o "conservador liberal" (hummm,
uma posição em que economico-eclesialmente me revejo):
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…)
terça-feira, 10 de junho de 2014
Porta aberta
Hoje dei-me ao trabalho de ler alguns dos comentários que de vez em quando deixam em algumas das entradas. Uma vergonha. Há gente, suponho que muito católica, que não é nada cristã. E há gente que, sob o anonimato, fala contra alguém que conhece. E esse alguém atingido fala para o primeiro sabendo com quem fala, ora parecendo que sim, ora parecendo que não, ora deixando-se confuso. Não gosto disto, embora também haja quem se sirva do anonimato com bons modos (simpatia, elevação do debate, contributos úteis). Mas recuso-me a acabar com a possibilidade da má educação.
Irlanda
Que mais há de acontecer à Igreja católica na Irlanda? (E mais uma série de questões sobre a sexualidade e a mudança de mentalidades e perceções, que é o que está em causa, mas receio que tudo fique pela rama do "papel da Igreja".)
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Slender Man ataca
O Slender Man (a wikipedia explica quem é, para quem, como eu, nunca de tal ouviu falar) inspirou duas crianças a assassinar uma terceira (apesar das 19 facadas, felizmente sobreviveu). Foi nos EUA, como poderia ter em qualquer lado com internet. Li aqui.
O que é que isto quer dizer? Muitas leituras possíveis, uma delas, sobre a indistinção entre imaginação e realidade; outra, sobre a ausência da ética elementar que diz que matar ou é mal; e outra sobre como o pior da personalização do mal é a o poder da própria personalização.
Anselmo Borges: "Francisco no Médio Oriente. «Conseguimos!»"
Texto de Anselmo Borges no DN do último sábado (31 de maio), daqui:
Era uma viagem de alto risco. Acabou por ser uma viagem que os media mundiais chamaram de histórica. Francisco queria que a sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel fosse uma peregrinação. E foi, mas com imensas consequências políticas. Afinal, a política não é tudo, mas está em tudo. O que aí fica quer lembrar momentos significativos da viagem.
Na Jordânia, pediu "uma solução pacífica para a crise síria e uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano". Referindo-se concretamente à Síria, lacerada por uma luta fratricida que dura há mais de três anos, com milhões de refugiados, atacou as empresas armamentistas e rezou pela sua conversão: "Que Deus converta os violentos, os que provocam a guerra, os que fabricam e vendem armas, e os torne construtores da paz!"
Defendeu, em Belém, "o direito à existência de dois Estados, gozando de paz e segurança". Na preparação da viagem, já houvera uma referência ao "Estado palestiniano". Ainda em Belém: "A incompreensão entre as partes produz divisões, sofrimentos e êxodo de comunidades inteiras." Aqui, certamente lembrou-se de que a Terra Santa está a ficar sem cristãos, pois no Médio Oriente já só representam 2%, quando há 50 anos eram 10%. E ousou um convite: "Senhor Presidente Mahmoud Abbas, neste lugar onde nasceu o Príncipe da Paz, desejo convidá-lo a si e ao Senhor Presidente Shimon Peres a elevarmos juntos uma intensa oração pedindo a Deus o dom da paz. Ofereço a possibilidade de acolher este encontro na minha casa, no Vaticano." Francisco renovou o convite em Tel Aviv. E Peres e Abbas aceitaram a iniciativa inédita.
A caminho da Basílica da Natividade, em Belém, surpreendeu, quando, ao passar junto ao muro erguido por Israel na Cisjordânia, conhecido como "o muro da vergonha", mandou parar o jipe em que seguia, ficando em oração durante alguns minutos, apoiando a mão e a cabeça no muro, um pouco à maneira do que fazem os judeus no Muro das Lamentações. Este gesto, que causou descontentamento em Israel, foi compensado com uma outra visita-surpresa, quando, a caminho do memorial do Holocausto, símbolo da "monstruosidade" humana, onde perguntou: "Como foste capaz, Homem, deste horror, o que te fez cair tão baixo?" e gritou: "Nunca mais! Nunca mais!", homenageou o memorial às vítimas israelitas dos atentados em Jerusalém. Com estes dois gestos, Francisco estava a dizer que não é com muros nem com o terrorismo que se constrói a paz. Como disse o padre D. Neuhaus, do Patriarcado Latino de Jerusalém, "Francisco tem o perigoso talento de dizer a verdade".
Em Jerusalém, Francisco e Peres clamaram em uníssono: "Não nos cansemos de perseguir a paz com determinação e coerência." O Papa: "Que Jerusalém seja verdadeiramente a cidade da paz, que corresponda à sua identidade, ao seu carácter sagrado e verdadeiro valor como tesouro para toda a humanidade. Que todos possam ter acesso livre aos lugares santos e participar nas celebrações."
E sucederam-se os encontros ecuménicos e inter-religiosos. Com o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, assumiu a urgência da união de todos os cristãos, propondo "um novo modo" de exercer o primado papal, tendo talvez no horizonte a ideia de um primus inter pares (o primeiro entre iguais). Na Esplanada das Mesquitas, encontrou-se com o Grande Mufti, pedindo aos "amigos muçulmanos" um trabalho em conjunto pela justiça e pela paz. "Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência!" Depois do muro de Belém, rezou no Muro das Lamentações. E, num encontro com rabinos, um rabino proclamou: "Em Jerusalém, não deve existir mais ódio nem inimizade entre os irmãos."
E os três velhos amigos dos tempos de Buenos Aires - o rabino A. Skorka, o xeque O. Abboud e o agora Papa Francisco - abraçaram-se ali, junto ao Muro, e foi o grande abraço das três religiões abraâmicas. E Skorka, comentando o velho sonho em Jerusalém: "Conseguimos!" E Francisco regressou a casa, com a esperança fundada de em breve serem retomadas negociações sérias em ordem à paz.
domingo, 1 de junho de 2014
Liderança bicéfala só no Vaticano
Diz Sócrates, o teólogo (no comentário que faz na RTP):
"Liderança bicéfala só no Vaticano, que tem dois Papas. Só que um está à frente da Igreja e o outro recolhido em oração".
"Liderança bicéfala só no Vaticano, que tem dois Papas. Só que um está à frente da Igreja e o outro recolhido em oração".
quinta-feira, 29 de maio de 2014
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Castigo divino pela vitória de Conchita
Líderes religiosos dos Balcãs afirmam que as inundações na região foram um "castigo divino" pela vitória de Conchita Wurst no Festival Eurovisão da Canção.
Ler para crer, aqui.
Conchita Wurst, artista austríaco cujo verdadeiro nome é Thomas Neuwirth e que ficou conhecido internacionalmente após ter ganho o Festival Eurovisão da Canção este ano, está a ser acusado por vários líderes religiosos dos Balcãs de ter sido o responsável pela catástrofe na região.
Ler para crer, aqui.
Vai um brinde aos papas santos!
Parece que o Papa não gostou de uma festa com buffet, e se calhar bar livre, num terraço com vista para a Praça de São Pedro, durante a canonização de João Paulo II (ainda não consigo dizer "São João Paulo II" até porque penso logo no São João Paulo I) e de João XXIII...
...muito menos que um dos padres com responsabilidades num organismo vaticano servisse a Comunhão num recipiente da empresa de catering (não, não se vê o logo da empresa).
A festa só custou 18 mil euros, paga por patrocinadores privados, mas choca com o estilo que Francisco quer para a Igreja. A notícia, li-a no "Público". As imagens, copiei-as daqui. E há lá mais.
...muito menos que um dos padres com responsabilidades num organismo vaticano servisse a Comunhão num recipiente da empresa de catering (não, não se vê o logo da empresa).
A festa só custou 18 mil euros, paga por patrocinadores privados, mas choca com o estilo que Francisco quer para a Igreja. A notícia, li-a no "Público". As imagens, copiei-as daqui. E há lá mais.
terça-feira, 20 de maio de 2014
O burrito de D. Eurico
Morreu ontem D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo de Braga até 1999. Assim de repente, dele, há um episódio que é imperial não lembrar. Pelo menos faz todo o sentido. Mas recordo-me do orgulho com que nas aulas de Religião e Moral, era eu adolescente, D. Manuel de Almeida Trindade (sim, o bispo dava aulas no Seminário de Aveiro) falava do jovenzinho que, dos confins da diocese de Coimbra, atravessava os montes num burrito ou cavalo que fosse para ir para o seminário. "E é hoje o arcebispo de Braga!", assim acabava a história.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Só com grandeza
Dizia R. M. Rilke a F. X. Kappus:
Mas se notar que ela é grande, alegre-se, pois o que seria uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) sem grandeza?
Mas se notar que ela é grande, alegre-se, pois o que seria uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) sem grandeza?
Mulheres apaixonadas por padres escrevem ao Papa
Vinte e seis mulheres apaixonadas por padres escreveram ao Papa. Li no Público. O que me intriga nesta notícia é: como se conheceram, já que se trata de uma carta única? De resto, o celibato presbiteral obrigatório não é milenar (diz-se que o celebrado Bartolomeu dos Mártires, em Trento, pediu uma exceção para os seus padres do Barroso. Foi mesmo?), como se diz na notícia. Nem universal para os católicos (há os protestantes convertidos, os ex-anglicanos, os católicos de rito grego). E como opção até é pré-cristão. Por outro lado, porque não lhe escrevem os padres?
João César das Neves: "A Europa corre mal"
Gostei muito de ler o texto de João César das Neves no DN de hoje. Fala da Europa e das críticas justas que lhe fazem:
Os membros do Sul acusam-na de injustiça e opressão e os do Norte de esbanjadora e parasita. Os americanos desprezam-na como decadente e preguiçosa, os africanos acham-na colonialista e pedante. No concerto das nações surge como caduca, enfatuada, sempre em discussão consigo e perdida em ideais. Todas as críticas são verdadeiras e justas.E ainda mais do feito magnífico que é:
Que países vizinhos, inimigos seculares, chacinando-se em permanentes conflitos, se unam num magno esforço de partilha de soberania é uma ideia que desafia toda a lógica social e política. Que esse projecto tão ambicioso tenha gerado uma prosperidade, liberdade e progresso dos mais elevados de sempre, recuperando rapidamente do maior dos desastres bélicos, ainda mais o distingue. A maior coroa de glória é que, além disso, os seus membros não tenham medo de abrir a experiência a outros, passando, dos seis iniciais, para os actuais 28. E que o façam confiando plenos direitos aos recém-chegados, sem privilégios para os fundadores. Poucas organizações humanas alguma vez tentaram reger-se por princípios tão dignos e magníficos.Tudo isto está simplesmente omisso na maior parte das discussões sobre a União. A única hipótese de compreender a grandeza do projecto europeu, além das liturgias oficiais comunitárias, a que ninguém dá atenção fora dos círculos diplomáticos, está na involuntária homenagem que os países externos lhe prestam. A verdade é que a grande maioria dos vizinhos gostaria de aderir, e os países longínquos pretendem copiar.Já agora, sobre este assunto da Europa e as origens da união, sugiro a leitura da nota 2 deste post (sim, não tenho tido muito tempo para coisas originais).
quinta-feira, 15 de maio de 2014
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Na Premier League os milagres acontecem - com a ajuda do Papa Francisco
"Na Premier League os milagres acontecem", notícia do "Público".
Mete mais uma camisola para o papa Francisco e uma espécie de lenda no campeonato onde treina o 15.º ou 16.º melhor treinador do mundo, sim, José Mourinho. Mas é lenda é o Sunderland.
Mete mais uma camisola para o papa Francisco e uma espécie de lenda no campeonato onde treina o 15.º ou 16.º melhor treinador do mundo, sim, José Mourinho. Mas é lenda é o Sunderland.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Dois textos de João César das Neves
João César das Neves escreveu na segunda-feira, no DN, sobre "A festa dos cinco papas", os quatro da canonização do dia 27 mais um outro.
Oito dias antes, JCN escreveu um conto de Páscoa.
Ontem foi um dia especial. Dois papas vivos declararam perante o mundo que dois papas mortos estavam na vida plena. A canonização de João XXIII e João Paulo II pelo Papa Francisco, na presença do papa emérito Bento XVI, constitui um acto único na história do mundo. Será que interessa ao mundo?Ler tudo aqui.
Oito dias antes, JCN escreveu um conto de Páscoa.
O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.Ler tudo aqui.
domingo, 27 de abril de 2014
Morreu Vasco Graça Moura
Morreu Vasco Graça Moura. Não tinha relação especial com ele para além de ser leitor habitual das suas crónicas. Citei-o sete vezes neste blogue, como aqui, o suficiente para ficar triste com a morte deste intelectual. E surpreendido, como acontece geralmente com a manifestação da irmã morte.
Santos
João Paulo II e João XXIII são santos desde há minutos - diz a imprensa online. Antes não eram.
Bento Domingues: "A noção de infalibilidade tem pouco de infalível"
Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:
Hoje é domingo de canonizações, de surpresas e decepções.
Fizeram-me, a este respeito, uma pergunta estranha: será verdade que uma
canonização envolve a infalibilidade pontifícia?
Digo estranha porque, nas questões de ordem teológica, o que
me preocupa, em clima cristão, é saber se um determinado acontecimento,
atitude, gesto ou palavra servem a dimensão imanente e transcendente dos seres
humanos, como criaturas de relação e de interajuda. Respondi que uns teólogos
dizem que sim e outros dizem que não. Sabem tanto uns como outros. Estamos,
portanto, em matéria opinável. Como a própria noção de infalibilidade tem pouco
de infalível, é melhor não ligar muito a esse género de preocupações.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
JOC: Jovens Organizados e Combativos
A JOC belga, no fundo, a mãe de todas as juventudes operárias católicas e do próprio movimento mais geral da Ação Católica, fundada pelo quase beato Cardijn, deixou de ser Operária e Católica. Agora, JOC quer dizer Jovens Organizados e Combativos.
“Há dois anos, os jovens jocistas decidiram iniciar um longo processo de reflexão sobre a identidade da JOC”, explica o movimento num comunicado. Foram realizados debates internos sob a forma de questionário, dirigido aos membros, e encontros com os militantes históricos.
Visto à luz do novo nome, a combatividade torna-se o principal valor do movimento num contexto de crise. “A JOC procura organizar todos aqueles que estão revoltados e querem lutar contra todas as formas de opressão causadas especialmente pelo sistema capitalista, precisa o comunicado. Não se trata apenas de denunciar as injustiças que os jovens vivem, mas também de lutar concretamente para aboli-las”. Li aqui.
Anselmo Borges: "Francisco e o 25 de Abril"
Texto de Anselmo Borges no DN de 12 de abril (aqui):
1. A fotografia percorreu mundo: o Papa Francisco de joelhos, diante de um padre no confessionário, a confessar-se à vista de quem estava. Sabia-se que o Papa também peca e portanto se confessa. Mas agora está mesmo lá a confessar-se normalmente, como qualquer católico. Afinal, também é pecador, como repete constantemente, e tem dúvidas e engana--se como toda a gente, não é infalível. É simplesmente um homem, que acredita no perdão de Deus. E quer melhorar a sua vida, tanto mais quando tem uma imensa responsabilidade perante a humanidade inteira.
Pouco depois, na semana passada, Francisco deu uma entrevista a um grupo de cinco estudantes católicos belgas de comunicação. E foi-lhes dizendo, textualmente: "Enganei-me e engano-me. Diz-se que o ser humano é o único animal que cai duas vezes no mesmo sítio. Os erros foram grandes mestres de vida. Não diria que aprendi com todos os meus erros; com alguns, não, também sou casmurro. Mas aprendi com muitos outros erros e isso faz-me bem." Entre os equívocos na sua vida recorda que, quando ainda jovem, com 36 anos foi nomeado superior da Companhia de Jesus, cometeu erros "com o autoritarismo". Depois, deu-se conta de que "é preciso dialogar, escutar o que os outros pensam".
Já ouviu dizer : "Este Papa é comunista!", por causa do seu discurso sobre os pobres, mas esclarece que não. "Não, esta é a bandeira do Evangelho, a pobreza sem ideologia, os pobres estão no centro do anúncio de Jesus."
Confessa que é feliz, com uma grande paz, apesar dos problemas. "Sempre houve problemas, mas esta felicidade não vai embora com eles." Lamenta é que "neste momento da história o ser humano foi retirado do centro", sendo o seu lugar ocupado "pelo poder e pelo dinheiro". Referindo o desemprego dos jovens, arremete contra "uma cultura do descartável": o que não serve a globalização reinante deita-se fora: "Os jovens são expulsos, são expulsas as crianças, não queremos filhos, só famílias pequenas, e são expulsos os velhos, muitos deles morrem com uma eutanásia oculta, porque não se cuida deles." Mas está confiante: ainda na Argentina, falou com muitos políticos jovens e comprovou que, de direita ou de esquerda, falam "com uma nova música, um novo estilo de política". E faz uma pergunta: "Onde está o teu tesouro?" Porque, "onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração", como diz o Evangelho. E responde: pode estar no "poder, no dinheiro, no orgulho" ou na "bondade, na beleza, no desejo de fazer o bem".
2. Pelo menos 80% dos portugueses ainda se consideram católicos, e é nesse pressuposto que faço uma breve reflexão.
Há uma herança indiscutivelmente imensa e positiva do 25 de Abril. A democracia, as liberdades, os direitos humanos, erradicação do analfabetismo, algum desenvolvimento, uma nova consciência de cidadania... são bens inestimáveis. Mas muita coisa correu mal, de tal modo que a gente pergunta como é que, tendo podido fundar um país moderno, se está onde nos encontramos. Incompetência e irresponsabilidade política, ganância desmesurada, anteposição de interesses próprios e partidários ao bem comum, cumplicidades entre partidos e negócios, investimentos irracionais, corrupção, justiça inoperacional, multiplicação cega de instituições de ensino superior e perda de autoridade nas escolas, consumismo hedonista leviano, um tsunami demográfico, abismo cada vez mais fundo entre os muito ricos e os pobres, incapacidade de pensar o futuro com um projeto viável para Portugal... eis alguns dos responsáveis.
Será preciso parar. Para pensar - do latim, pensare: pesar razões, também em conexão o penso para cura das feridas. Para confessar os erros e aprender com eles: é espantosa a "inocência" de comentadores que falam como se a maioria não tivesse estado no poder.
E a Igreja oficial precisa, tornando-se verdadeiramente livre, acima de interesses e partidos, de ser mais interventiva enquanto voz político-moral, iluminada e iluminante.
sábado, 19 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Um bispo para Itália e outro para o Norte de África
Há dois novos bispos para Portugal. Ou melhor, portugueses, já que são bispos de dioceses no Norte de África e na Itália. Um é bispo de uma terrinha da Numídia, perto dos sítios por onde andou Agostinho de Hipona; o outro é bispo de uma diocese perto de Roma. Como têm de ser bispos de algo, nem importa que sejam de dioceses já não existem.
sábado, 12 de abril de 2014
Acumulação burguesa de Cristos?
"Abandonei a religião aos 22 anos. A religião católica era
extremamente conservadora.”
E a reportagem acrescenta: "Criado na religião católica, com comunhão diária até
aos 16 anos, deixou de acreditar. É agora um não-crente que tem uma coleção de
Cristos como objetos de arte-sacra".
Anselmo Borges: "O dinheiro faz a felicidade?"
Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (5 de abril; tirado daqui):
Lá está Epicuro: "É preciso meditar sobre o que traz a felicidade, pois, se ela estiver presente, temos tudo, mas, se estiver ausente, fazemos tudo para obtê-la." E é o que faz F. Lenoir, num belo livro recente, exigente e acessível, Du bonheur. Un voyage philosophique: como alcançar a felicidade, ser feliz. E não podia faltar um capítulo sobre o dinheiro: ele traz a felicidade?
J. Renard atirou: "Se o dinheiro não faz a felicidade, dê-o." Mas quantos estão dispostos a isso? No entanto, num artigo célebre de 1974, o economista americano R. Easterlin mostrou que no seu país, embora o rendimento bruto por habitante tenha dado o salto extraordinário de 60%, entre 1945 e 1970, a proporção de pessoas a considerar-se "muito felizes" não tinha variado: 40%. Não se confirma a fórmula mágica do capitalismo liberal: crescimento do PIB = aumento da felicidade. Aliás, as estatísticas do Insee diziam o mesmo em relação à França: embora entre 1975 e 2000 se observe um crescimento global do PIB superior a 60%, a proporção das pessoas "satisfeitas ou muito satisfeitas" permaneceu à volta de 75%. Mas há mais. Na Inglaterra, por exemplo, enquanto a riqueza nacional quase triplicou em meio século, as pessoas que se declaram "muito felizes" passaram de 52% em 1957 para 36% em 2005. E quando se compara o índice de satisfação em países com níveis de vida incomparáveis? Ao contrário do que se poderia esperar, a taxa de satisfação é praticamente a mesma nos Estados Unidos ou na Suécia e no México ou Gana, embora o rendimento por habitante nestes países divirja numa escala de um a dez.
Depois, para o sentimento de felicidade, é determinante a comparação social. O grau de felicidade é influenciado pela comparação que se faz da situação própria com a dos vizinhos e de pessoas de nível social próximo. Por exemplo, uma investigação com estudantes mostrou que uma grande maioria deles (62%) se sentiria "mais feliz" a ganhar num primeiro emprego 33 mil dólares, sabendo que os colegas receberiam 30 mil, do que a receber 35 mil, sabendo que os outros ganhariam 38 mil. "O que revela a nocividade de uma disparidade de rendimentos demasiado forte no seio de uma sociedade, devido à frustração criada." A questão agrava-se com a globalização mediática, que leva a comparações à escala planetária. Lá está Séneca: "Nunca serás feliz enquanto fores torturado por alguém mais feliz." A comparação com outros acaba por envenenar a felicidade própria.
Repare-se agora no paradoxo. Por um lado, quando se pergunta: "Que coisas lhe parecem mais importantes para ser feliz?", o que surge em primeiro lugar não é o dinheiro e o conforto material, mas sim, em todos os continentes, a família, a saúde, o trabalho, a amizade e a espiritualidade, pilares do bem-estar e da felicidade. Diga-se que a religião ocupa um lugar importante nos Estados Unidos, já que as pessoas praticantes de uma religião se dizem mais felizes, vivendo em média mais sete anos que as outras (menos álcool, menos droga, menos suicídios, depressões e divórcios).
Mas, por outro lado, agora, quando se pergunta: "Que coisas gostaria de ter para ser mais feliz hoje?", a maioria responde: "Dinheiro." Três explicações. Vivemos na mais grave crise económica do pós-guerra e ao mesmo tempo numa sociedade que exacerba o desejo de posse. Depois, um período de enorme incerteza, com o perigo de desemprego, de ameaças financeiras, e dificilmente se consegue viver sem aquelas facilidades que entretanto se tornaram necessidades: televisão, telemóvel, carro. Finalmente, o dinheiro dá possibilidades de satisfação de desejos, desde viajar a uma vida independente.
A sabedoria de viver, neste campo, ouvi-a uma vez ao grande Viktor Frankl, o da logoterapia: "A medida exacta do dinheiro é aquela que não nos obriga a pensar nele, nem por cima nem por baixo." É evidente que a falta cruel de um mínimo impede até a possibilidade de viver, mas fazer-se escravo dele, tornando-se o objectivo da vida enriquecer a todo o custo, impede o melhor: a família, os amigos, a poesia, a música, as alegrias simples, a vida interior, a transcendência.
O dinheiro não faz a felicidade, mas uma chuva de notas...
terça-feira, 8 de abril de 2014
D. António Francisco. Do Paço aos Paços
Até há pouco era o meu bispo. Julgo que nunca falei dele no meu blogue (talvez apenas num ou noutro comentário, como reação). Agora que já não é meu, por cá estará sempre que... (na verdade, não sei qual é a condição), como hoje. Começa com um gesto simples. Caminhar a pé, do Paço até aos Paços. Um gesto simples de um homem grande. Que espero que conquiste o Porto com a sua simplicidade, humildade, serviço.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Génios da literatura - do santo ao ateu
As minhas cem figuras, desde Shakespeare até ao recentemente falecido Ralph Ellison, representam talvez cem atitudes diferentes para com a espiritualidade, abrangendo todo o espetro desde São Paulo e Santo Agostinho até ao secularismo de Proust e de Calvino.
Harold Bloom, "Génio", Temas e debates
Harold Bloom, "Génio", Temas e debates
terça-feira, 1 de abril de 2014
Le Goff (1924-2014)
Morreu Jacques Le Goff. Quem gosta da Idade Média (mas não de feiras medievais), como eu, deve estar triste.
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