sábado, 14 de junho de 2014

Relendo a "Caritas in veritate"

Relendo a "Caritas in veritate", de Bento XVI. Temos aqui o melhor documento para o panorama económico e financeiro da atualidade. Não tem tantos chavões, frases fortes, lugares-comuns, parangonas. Mas tem o equilíbrio que não leva ao repúdio impulsivo. Bem sei, para os tempos das reações instantâneas e epidérmicas não serve. É mais fácil ler (ou ouvir) quatro palavras e não pensar do que ter de refletir.
(N.º 65) Em seguida, é preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. É certamente útil, se não mesmo indispensável em certas circunstâncias, dar vida a iniciativas financeiras nas quais predomine a dimensão humanitária. Isto, porém, não deve fazer esquecer que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, é necessário que não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores. Recta intenção, transparência e busca de bons resultados são compatíveis entre si e não devem jamais ser separados. Se o amor é inteligente, sabe encontrar também os modos para agir segundo uma previdente e justa conveniência, como significativamente indicam muitas experiências no campo do crédito cooperativo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O conservador liberal

Anda para aí uma polémica sobre a atribuição de um prémio da Católica a Alexandre Soares dos Santos.

O Instituto de Estudos Políticos (IEP), da Universidade Católica Portuguesa, vai atribuir o Prémio Fé e Liberdade a Alexandre Soares dos Santos, anterior presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins. A distinção vai ser entregue a 24 de junho, durante o Fórum Político do Estoril, que reúne dezenas de oradores nacionais e estrangeiros sob o tema “Reavaliando a 3.ª vaga de democratização”, por ocasião dos 40 anos do 25 de abril (1974) e os 25 anos da queda do Muro de Berlim (1989). Elísio Alexandre Soares dos Santos (1934), que já foi considerado a pessoa mais rica em Portugal, vai ser apresentado por Manuel Braga da Cruz, anterior reitor da Universidade Católica.
A polémica tem a ver com a oposição de certos setores da Igreja e da cultura. Notícia do DN aqui.

Bento Domingues é um dos que está contra. Mas já houve uma altura em que concordou com o "Sr. Pingo Doce". Ler aqui.

Dizia na altura o "conservador liberal" (hummm, uma posição em que economico-eclesialmente me revejo):
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…)

Ler aqui.

Alexandre Soares dos Santos a puxar pela economia nacional

terça-feira, 10 de junho de 2014

Porta aberta

Hoje dei-me ao trabalho de ler alguns dos comentários que de vez em quando deixam em algumas das entradas. Uma vergonha. Há gente, suponho que muito católica, que não é nada cristã. E há gente que, sob o anonimato, fala contra alguém que conhece. E esse alguém atingido fala para o primeiro sabendo com quem fala, ora parecendo que sim, ora parecendo que não, ora deixando-se confuso. Não gosto disto, embora também haja quem se sirva do anonimato com bons modos (simpatia, elevação do debate, contributos úteis). Mas recuso-me a acabar com a possibilidade da má educação.

Irlanda

Que mais há de acontecer à Igreja católica na Irlanda? (E mais uma série de questões sobre a sexualidade e a mudança de mentalidades e perceções, que é o que está em causa, mas receio que tudo fique pela rama do "papel da Igreja".)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Slender Man ataca


O Slender Man (a wikipedia explica quem é, para quem, como eu, nunca de tal ouviu falar) inspirou duas crianças a assassinar uma terceira (apesar das 19 facadas, felizmente sobreviveu). Foi nos EUA, como poderia ter em qualquer lado com internet. Li aqui.

O que é que isto quer dizer? Muitas leituras possíveis, uma delas, sobre a indistinção entre imaginação e realidade; outra, sobre a ausência da ética elementar que diz que matar ou é mal; e outra sobre como o pior da personalização do mal é a o poder da própria personalização.

Anselmo Borges: "Francisco no Médio Oriente. «Conseguimos!»"


Texto de Anselmo Borges no DN do último sábado (31 de maio), daqui:


Era uma viagem de alto risco. Acabou por ser uma viagem que os media mundiais chamaram de histórica. Francisco queria que a sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel fosse uma peregrinação. E foi, mas com imensas consequências políticas. Afinal, a política não é tudo, mas está em tudo. O que aí fica quer lembrar momentos significativos da viagem.

Na Jordânia, pediu "uma solução pacífica para a crise síria e uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano". Referindo-se concretamente à Síria, lacerada por uma luta fratricida que dura há mais de três anos, com milhões de refugiados, atacou as empresas armamentistas e rezou pela sua conversão: "Que Deus converta os violentos, os que provocam a guerra, os que fabricam e vendem armas, e os torne construtores da paz!"

Defendeu, em Belém, "o direito à existência de dois Estados, gozando de paz e segurança". Na preparação da viagem, já houvera uma referência ao "Estado palestiniano". Ainda em Belém: "A incompreensão entre as partes produz divisões, sofrimentos e êxodo de comunidades inteiras." Aqui, certamente lembrou-se de que a Terra Santa está a ficar sem cristãos, pois no Médio Oriente já só representam 2%, quando há 50 anos eram 10%. E ousou um convite: "Senhor Presidente Mahmoud Abbas, neste lugar onde nasceu o Príncipe da Paz, desejo convidá-lo a si e ao Senhor Presidente Shimon Peres a elevarmos juntos uma intensa oração pedindo a Deus o dom da paz. Ofereço a possibilidade de acolher este encontro na minha casa, no Vaticano." Francisco renovou o convite em Tel Aviv. E Peres e Abbas aceitaram a iniciativa inédita.

A caminho da Basílica da Natividade, em Belém, surpreendeu, quando, ao passar junto ao muro erguido por Israel na Cisjordânia, conhecido como "o muro da vergonha", mandou parar o jipe em que seguia, ficando em oração durante alguns minutos, apoiando a mão e a cabeça no muro, um pouco à maneira do que fazem os judeus no Muro das Lamentações. Este gesto, que causou descontentamento em Israel, foi compensado com uma outra visita-surpresa, quando, a caminho do memorial do Holocausto, símbolo da "monstruosidade" humana, onde perguntou: "Como foste capaz, Homem, deste horror, o que te fez cair tão baixo?" e gritou: "Nunca mais! Nunca mais!", homenageou o memorial às vítimas israelitas dos atentados em Jerusalém. Com estes dois gestos, Francisco estava a dizer que não é com muros nem com o terrorismo que se constrói a paz. Como disse o padre D. Neuhaus, do Patriarcado Latino de Jerusalém, "Francisco tem o perigoso talento de dizer a verdade".

Em Jerusalém, Francisco e Peres clamaram em uníssono: "Não nos cansemos de perseguir a paz com determinação e coerência." O Papa: "Que Jerusalém seja verdadeiramente a cidade da paz, que corresponda à sua identidade, ao seu carácter sagrado e verdadeiro valor como tesouro para toda a humanidade. Que todos possam ter acesso livre aos lugares santos e participar nas celebrações."

E sucederam-se os encontros ecuménicos e inter-religiosos. Com o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, assumiu a urgência da união de todos os cristãos, propondo "um novo modo" de exercer o primado papal, tendo talvez no horizonte a ideia de um primus inter pares (o primeiro entre iguais). Na Esplanada das Mesquitas, encontrou-se com o Grande Mufti, pedindo aos "amigos muçulmanos" um trabalho em conjunto pela justiça e pela paz. "Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência!" Depois do muro de Belém, rezou no Muro das Lamentações. E, num encontro com rabinos, um rabino proclamou: "Em Jerusalém, não deve existir mais ódio nem inimizade entre os irmãos."

E os três velhos amigos dos tempos de Buenos Aires - o rabino A. Skorka, o xeque O. Abboud e o agora Papa Francisco - abraçaram-se ali, junto ao Muro, e foi o grande abraço das três religiões abraâmicas. E Skorka, comentando o velho sonho em Jerusalém: "Conseguimos!" E Francisco regressou a casa, com a esperança fundada de em breve serem retomadas negociações sérias em ordem à paz.

domingo, 1 de junho de 2014

Liderança bicéfala só no Vaticano

Diz Sócrates, o teólogo (no comentário que faz na RTP):

"Liderança bicéfala só no Vaticano, que tem dois Papas. Só que um está à frente da Igreja e o outro recolhido em oração".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Castigo divino pela vitória de Conchita

Líderes religiosos dos Balcãs afirmam que as inundações na região foram um "castigo divino" pela vitória de Conchita Wurst no Festival Eurovisão da Canção.
Conchita Wurst, artista austríaco cujo verdadeiro nome é Thomas Neuwirth e que ficou conhecido internacionalmente após ter ganho o Festival Eurovisão da Canção este ano, está a ser acusado por vários líderes religiosos dos Balcãs de ter sido o responsável pela catástrofe na região.

Ler para crer, aqui.

Vai um brinde aos papas santos!

Parece que o Papa não gostou de uma festa com buffet, e se calhar bar livre, num terraço com vista para a Praça de São Pedro, durante a canonização de João Paulo II (ainda não consigo dizer "São João Paulo II" até porque penso logo no São João Paulo I) e de João XXIII...



...muito menos que um dos padres com responsabilidades num organismo vaticano servisse a Comunhão num recipiente da empresa de catering (não, não se vê o logo da empresa).


A festa só custou 18 mil euros, paga por patrocinadores privados, mas choca com o estilo que Francisco quer para a Igreja. A notícia, li-a no "Público". As imagens, copiei-as daqui. E há lá mais.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O burrito de D. Eurico

Morreu ontem D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo de Braga até 1999. Assim de repente, dele, há um episódio que é imperial não lembrar. Pelo menos faz todo o sentido. Mas recordo-me do orgulho com que nas aulas de Religião e Moral, era eu adolescente, D. Manuel de Almeida Trindade (sim, o bispo dava aulas no Seminário de Aveiro) falava do jovenzinho que, dos confins da diocese de Coimbra, atravessava os montes num burrito ou cavalo que fosse para ir para o seminário. "E é hoje o arcebispo de Braga!", assim acabava a história.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Linha da vida

Moving On from ainslie henderson on Vimeo.

Cantam os James (mais ou menos Jacob em inglês).

Só com grandeza

Dizia R. M. Rilke a F. X. Kappus:

Mas se notar que ela é grande, alegre-se, pois o que seria uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) sem grandeza?

Mulheres apaixonadas por padres escrevem ao Papa

Vinte e seis mulheres apaixonadas por padres escreveram ao Papa. Li no Público. O que me intriga nesta notícia é: como se conheceram, já que se trata de uma carta única? De resto, o celibato presbiteral obrigatório não é milenar (diz-se que o celebrado Bartolomeu dos Mártires, em Trento, pediu uma exceção para os seus padres do Barroso. Foi mesmo?), como se diz na notícia. Nem universal para os católicos (há os protestantes convertidos, os ex-anglicanos, os católicos de rito grego). E como opção até é pré-cristão. Por outro lado, porque não lhe escrevem os padres?

João César das Neves: "A Europa corre mal"


Gostei muito de ler o texto de João César das Neves no DN de hoje. Fala da Europa e das críticas justas que lhe fazem: 
Os membros do Sul acusam-na de injustiça e opressão e os do Norte de esbanjadora e parasita. Os americanos desprezam-na como decadente e preguiçosa, os africanos acham-na colonialista e pedante. No concerto das nações surge como caduca, enfatuada, sempre em discussão consigo e perdida em ideais. Todas as críticas são verdadeiras e justas.
E ainda mais do feito magnífico que é:
Que países vizinhos, inimigos seculares, chacinando-se em permanentes conflitos, se unam num magno esforço de partilha de soberania é uma ideia que desafia toda a lógica social e política. Que esse projecto tão ambicioso tenha gerado uma prosperidade, liberdade e progresso dos mais elevados de sempre, recuperando rapidamente do maior dos desastres bélicos, ainda mais o distingue. A maior coroa de glória é que, além disso, os seus membros não tenham medo de abrir a experiência a outros, passando, dos seis iniciais, para os actuais 28. E que o façam confiando plenos direitos aos recém-chegados, sem privilégios para os fundadores. Poucas organizações humanas alguma vez tentaram reger-se por princípios tão dignos e magníficos.Tudo isto está simplesmente omisso na maior parte das discussões sobre a União. A única hipótese de compreender a grandeza do projecto europeu, além das liturgias oficiais comunitárias, a que ninguém dá atenção fora dos círculos diplomáticos, está na involuntária homenagem que os países externos lhe prestam. A verdade é que a grande maioria dos vizinhos gostaria de aderir, e os países longínquos pretendem copiar.
Já agora, sobre este assunto da Europa e as origens da união, sugiro a leitura da nota 2 deste post (sim, não tenho tido muito tempo para coisas originais).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Na Premier League os milagres acontecem - com a ajuda do Papa Francisco

"Na Premier League os milagres acontecem", notícia do "Público".

Mete mais uma camisola para o papa Francisco e uma espécie de lenda no campeonato onde treina o 15.º ou 16.º melhor treinador do mundo, sim, José Mourinho. Mas é lenda é o Sunderland.


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dois textos de João César das Neves

João César das Neves escreveu na segunda-feira, no DN, sobre "A festa dos cinco papas", os quatro da canonização do dia 27 mais um outro.
Ontem foi um dia especial. Dois papas vivos declararam perante o mundo que dois papas mortos estavam na vida plena. A canonização de João XXIII e João Paulo II pelo Papa Francisco, na presença do papa emérito Bento XVI, constitui um acto único na história do mundo. Será que interessa ao mundo?
Ler tudo aqui.

Oito dias antes, JCN escreveu um conto de Páscoa.

O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.
Ler tudo aqui.

domingo, 27 de abril de 2014

Bento Domingues: "Domingo de canonizações"

Texto de Bento Domingues no "Público" de 27 de abril de 2014.

Morreu Vasco Graça Moura

Morreu Vasco Graça Moura. Não tinha relação especial com ele para além de ser leitor habitual das suas crónicas. Citei-o sete vezes neste blogue, como aqui, o suficiente para ficar triste com a morte deste intelectual. E surpreendido, como acontece geralmente com a manifestação da irmã morte.

Santos

João Paulo II e João XXIII são santos desde há minutos - diz a imprensa online. Antes não eram.

Bento Domingues: "A noção de infalibilidade tem pouco de infalível"

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

Hoje é domingo de canonizações, de surpresas e decepções. Fizeram-me, a este respeito, uma pergunta estranha: será verdade que uma canonização envolve a infalibilidade pontifícia?

Digo estranha porque, nas questões de ordem teológica, o que me preocupa, em clima cristão, é saber se um determinado acontecimento, atitude, gesto ou palavra servem a dimensão imanente e transcendente dos seres humanos, como criaturas de relação e de interajuda. Respondi que uns teólogos dizem que sim e outros dizem que não. Sabem tanto uns como outros. Estamos, portanto, em matéria opinável. Como a própria noção de infalibilidade tem pouco de infalível, é melhor não ligar muito a esse género de preocupações.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

JOC: Jovens Organizados e Combativos


A JOC belga, no fundo, a mãe de todas as juventudes operárias católicas e do próprio movimento mais geral da Ação Católica, fundada pelo quase beato Cardijn, deixou de ser Operária e Católica. Agora, JOC quer dizer Jovens Organizados e Combativos.
“Há dois anos, os jovens jocistas decidiram iniciar um longo processo de reflexão sobre a identidade da JOC”, explica o movimento num comunicado. Foram realizados debates internos sob a forma de questionário, dirigido aos membros, e encontros com os militantes históricos. 
Visto à luz do novo nome, a combatividade torna-se o principal valor do movimento num contexto de crise. “A JOC procura organizar todos aqueles que estão revoltados e querem lutar contra todas as formas de opressão causadas especialmente pelo sistema capitalista, precisa o comunicado. Não se trata apenas de denunciar as injustiças que os jovens vivem, mas também de lutar concretamente para aboli-las”. Li aqui.

Isto provoca-me duas ou três reações (ainda não as contei, porque é tudo tão rápido que não dá tempo). A primeira seria uma peroração sobre o fim da identidade católica da Bélgica. Mas isso há muito que foi feito. A segunda, seria uma breve dissertação sobre o catolicismo enquanto religião (ou confissão) da saída da religião, à Marcel Gauchet. Mas neste momento até duvido do nome do autor e da correcção da ideia. A terceira seria uma saudação por os jovens jocistas belgas terem feito o que muitos jocistas e emeceístas (do Movimento Católico de Estudantes) portugueses no fundo querem, mas não têm coragem para tal. A quarta seria um lamento vattimista sobre a dentidade débil do catolicismo no séc. XXI. A quinta seria ver aqui um sinal dos tempos. E a sexta, seria falar dos pobres tempos que vivemos. A sétima, porque está mesmo a ser pedida, seria.

Anselmo Borges: "Francisco e o 25 de Abril"

Texto de Anselmo Borges no DN de 12 de abril (aqui):


1. A fotografia percorreu mundo: o Papa Francisco de joelhos, diante de um padre no confessionário, a confessar-se à vista de quem estava. Sabia-se que o Papa também peca e portanto se confessa. Mas agora está mesmo lá a confessar-se normalmente, como qualquer católico. Afinal, também é pecador, como repete constantemente, e tem dúvidas e engana--se como toda a gente, não é infalível. É simplesmente um homem, que acredita no perdão de Deus. E quer melhorar a sua vida, tanto mais quando tem uma imensa responsabilidade perante a humanidade inteira.

Pouco depois, na semana passada, Francisco deu uma entrevista a um grupo de cinco estudantes católicos belgas de comunicação. E foi-lhes dizendo, textualmente: "Enganei-me e engano-me. Diz-se que o ser humano é o único animal que cai duas vezes no mesmo sítio. Os erros foram grandes mestres de vida. Não diria que aprendi com todos os meus erros; com alguns, não, também sou casmurro. Mas aprendi com muitos outros erros e isso faz-me bem." Entre os equívocos na sua vida recorda que, quando ainda jovem, com 36 anos foi nomeado superior da Companhia de Jesus, cometeu erros "com o autoritarismo". Depois, deu-se conta de que "é preciso dialogar, escutar o que os outros pensam".

Já ouviu dizer : "Este Papa é comunista!", por causa do seu discurso sobre os pobres, mas esclarece que não. "Não, esta é a bandeira do Evangelho, a pobreza sem ideologia, os pobres estão no centro do anúncio de Jesus."

Confessa que é feliz, com uma grande paz, apesar dos problemas. "Sempre houve problemas, mas esta felicidade não vai embora com eles." Lamenta é que "neste momento da história o ser humano foi retirado do centro", sendo o seu lugar ocupado "pelo poder e pelo dinheiro". Referindo o desemprego dos jovens, arremete contra "uma cultura do descartável": o que não serve a globalização reinante deita-se fora: "Os jovens são expulsos, são expulsas as crianças, não queremos filhos, só famílias pequenas, e são expulsos os velhos, muitos deles morrem com uma eutanásia oculta, porque não se cuida deles." Mas está confiante: ainda na Argentina, falou com muitos políticos jovens e comprovou que, de direita ou de esquerda, falam "com uma nova música, um novo estilo de política". E faz uma pergunta: "Onde está o teu tesouro?" Porque, "onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração", como diz o Evangelho. E responde: pode estar no "poder, no dinheiro, no orgulho" ou na "bondade, na beleza, no desejo de fazer o bem".

2. Pelo menos 80% dos portugueses ainda se consideram católicos, e é nesse pressuposto que faço uma breve reflexão.

Há uma herança indiscutivelmente imensa e positiva do 25 de Abril. A democracia, as liberdades, os direitos humanos, erradicação do analfabetismo, algum desenvolvimento, uma nova consciência de cidadania... são bens inestimáveis. Mas muita coisa correu mal, de tal modo que a gente pergunta como é que, tendo podido fundar um país moderno, se está onde nos encontramos. Incompetência e irresponsabilidade política, ganância desmesurada, anteposição de interesses próprios e partidários ao bem comum, cumplicidades entre partidos e negócios, investimentos irracionais, corrupção, justiça inoperacional, multiplicação cega de instituições de ensino superior e perda de autoridade nas escolas, consumismo hedonista leviano, um tsunami demográfico, abismo cada vez mais fundo entre os muito ricos e os pobres, incapacidade de pensar o futuro com um projeto viável para Portugal... eis alguns dos responsáveis.

Será preciso parar. Para pensar - do latim, pensare: pesar razões, também em conexão o penso para cura das feridas. Para confessar os erros e aprender com eles: é espantosa a "inocência" de comentadores que falam como se a maioria não tivesse estado no poder.

E a Igreja oficial precisa, tornando-se verdadeiramente livre, acima de interesses e partidos, de ser mais interventiva enquanto voz político-moral, iluminada e iluminante.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Um bispo para Itália e outro para o Norte de África

Há dois novos bispos para Portugal. Ou melhor, portugueses, já que são bispos de dioceses no Norte de África e na Itália. Um é bispo de uma terrinha da Numídia, perto dos sítios por onde andou Agostinho de Hipona; o outro é bispo de uma diocese perto de Roma. Como têm de ser bispos de algo, nem importa que sejam de dioceses já não existem.

sábado, 12 de abril de 2014

Acumulação burguesa de Cristos?


Boaventura Sousa Santos fala na sua segunda casa, em São Pedro de Alva, perto de Coimbra, no "Fugas" de hoje:

"Abandonei a religião aos 22 anos. A religião católica era extremamente conservadora.”

E a reportagem acrescenta: "Criado na religião católica, com comunhão diária até aos 16 anos, deixou de acreditar. É agora um não-crente que tem uma coleção de Cristos como objetos de arte-sacra".

Anselmo Borges: "O dinheiro faz a felicidade?"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (5 de abril; tirado daqui):


Lá está Epicuro: "É preciso meditar sobre o que traz a felicidade, pois, se ela estiver presente, temos tudo, mas, se estiver ausente, fazemos tudo para obtê-la." E é o que faz F. Lenoir, num belo livro recente, exigente e acessível, Du bonheur. Un voyage philosophique: como alcançar a felicidade, ser feliz. E não podia faltar um capítulo sobre o dinheiro: ele traz a felicidade?

J. Renard atirou: "Se o dinheiro não faz a felicidade, dê-o." Mas quantos estão dispostos a isso? No entanto, num artigo célebre de 1974, o economista americano R. Easterlin mostrou que no seu país, embora o rendimento bruto por habitante tenha dado o salto extraordinário de 60%, entre 1945 e 1970, a proporção de pessoas a considerar-se "muito felizes" não tinha variado: 40%. Não se confirma a fórmula mágica do capitalismo liberal: crescimento do PIB = aumento da felicidade. Aliás, as estatísticas do Insee diziam o mesmo em relação à França: embora entre 1975 e 2000 se observe um crescimento global do PIB superior a 60%, a proporção das pessoas "satisfeitas ou muito satisfeitas" permaneceu à volta de 75%. Mas há mais. Na Inglaterra, por exemplo, enquanto a riqueza nacional quase triplicou em meio século, as pessoas que se declaram "muito felizes" passaram de 52% em 1957 para 36% em 2005. E quando se compara o índice de satisfação em países com níveis de vida incomparáveis? Ao contrário do que se poderia esperar, a taxa de satisfação é praticamente a mesma nos Estados Unidos ou na Suécia e no México ou Gana, embora o rendimento por habitante nestes países divirja numa escala de um a dez.

Depois, para o sentimento de felicidade, é determinante a comparação social. O grau de felicidade é influenciado pela comparação que se faz da situação própria com a dos vizinhos e de pessoas de nível social próximo. Por exemplo, uma investigação com estudantes mostrou que uma grande maioria deles (62%) se sentiria "mais feliz" a ganhar num primeiro emprego 33 mil dólares, sabendo que os colegas receberiam 30 mil, do que a receber 35 mil, sabendo que os outros ganhariam 38 mil. "O que revela a nocividade de uma disparidade de rendimentos demasiado forte no seio de uma sociedade, devido à frustração criada." A questão agrava-se com a globalização mediática, que leva a comparações à escala planetária. Lá está Séneca: "Nunca serás feliz enquanto fores torturado por alguém mais feliz." A comparação com outros acaba por envenenar a felicidade própria.

Repare-se agora no paradoxo. Por um lado, quando se pergunta: "Que coisas lhe parecem mais importantes para ser feliz?", o que surge em primeiro lugar não é o dinheiro e o conforto material, mas sim, em todos os continentes, a família, a saúde, o trabalho, a amizade e a espiritualidade, pilares do bem-estar e da felicidade. Diga-se que a religião ocupa um lugar importante nos Estados Unidos, já que as pessoas praticantes de uma religião se dizem mais felizes, vivendo em média mais sete anos que as outras (menos álcool, menos droga, menos suicídios, depressões e divórcios).

Mas, por outro lado, agora, quando se pergunta: "Que coisas gostaria de ter para ser mais feliz hoje?", a maioria responde: "Dinheiro." Três explicações. Vivemos na mais grave crise económica do pós-guerra e ao mesmo tempo numa sociedade que exacerba o desejo de posse. Depois, um período de enorme incerteza, com o perigo de desemprego, de ameaças financeiras, e dificilmente se consegue viver sem aquelas facilidades que entretanto se tornaram necessidades: televisão, telemóvel, carro. Finalmente, o dinheiro dá possibilidades de satisfação de desejos, desde viajar a uma vida independente.

A sabedoria de viver, neste campo, ouvi-a uma vez ao grande Viktor Frankl, o da logoterapia: "A medida exacta do dinheiro é aquela que não nos obriga a pensar nele, nem por cima nem por baixo." É evidente que a falta cruel de um mínimo impede até a possibilidade de viver, mas fazer-se escravo dele, tornando-se o objectivo da vida enriquecer a todo o custo, impede o melhor: a família, os amigos, a poesia, a música, as alegrias simples, a vida interior, a transcendência.

O dinheiro não faz a felicidade, mas uma chuva de notas...

terça-feira, 8 de abril de 2014

D. António Francisco. Do Paço aos Paços

Até há pouco era o meu bispo. Julgo que nunca falei dele no meu blogue (talvez apenas num ou noutro comentário, como reação). Agora que já não é meu, por cá estará sempre que... (na verdade, não sei qual é a condição), como hoje. Começa com um gesto simples. Caminhar a pé, do Paço até aos Paços. Um gesto simples de um homem grande. Que espero que conquiste o Porto com a sua simplicidade, humildade, serviço.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Génios da literatura - do santo ao ateu

As minhas cem figuras, desde Shakespeare até ao recentemente falecido Ralph Ellison, representam talvez cem atitudes diferentes para com a espiritualidade, abrangendo todo o espetro desde São Paulo e Santo Agostinho até ao secularismo de Proust e de Calvino.

Harold Bloom, "Génio", Temas e debates

terça-feira, 1 de abril de 2014

domingo, 30 de março de 2014

sábado, 29 de março de 2014

Trindade

És não só o amor amante, mas também o amor amável e o próprio elo do amor amante com o amor amável.

Nicolau de Cusa (1401-1464)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Três Papas


Legendas. Diz o maior para o mais pequeno:
1 – Calma, somos só nós dois. O Bento não conta.
2 – Quando andaste vestido de CR7 e de Homem-Aranha não choraste tu…
3 – Vais-te rir o resto da vida por causa desta fotografia.
4 – Com o que é que a tua mãe lavou a tua roupa, que está a ofuscar a minha?
5 – Preferias a sede gestatória, é?

Um Papa impecável

Julgo que os outros também o faziam, mas nunca tinha visto um papa confessar-se.


Fotografia e notícia na Ecclesia. Não inclui a lista dos pecados do Papa Francisco.

Jesus Cristo, o milagreiro espectacular

Crítica de Luís Miguel Oliveira, no "Público", sobre o filme do Jesus de Digo Morgado, "Filho de Deus", que está agora nos cinemas portugueses:


As dez horas da série televisiva A Bíblia comprimidas em duas horas e picos. É difícil imaginar que isto alguma vez tenha sido bom, mas assim em versão digest (quem nem por isso deixa de parecer longuíssima) é uma penitência que só se aguenta em nome dos mais inconfessáveis pecados de cada um. Sem sentido de estrutura ou de dramaturgia, limita-se a atirar umas figuras para a paisagem e a ilustrar uma espécie de greatest hits da Bíblia, saltando de episódio célebre em episódio célebre, sempre sem contexto, sem olhar, sem construção. Sem crítica, também, no sentido em que não propõe nenhum pensamento sobre as personagens e as histórias, tal como remove cuidadosamente o pensamento de Jesus Cristo, reduzido ao estereotipo do milagreiro espectacular. O cinema filma esta história desde os primórdios, e de DeMille a Mel Gibson, de Oliveira a Zeffirelli, a vida de Cristo já serviu para muita obra-prima e para muito pastelão. O Filho de Deus é tão mau que põe tudo numa perspectiva nova: ao pé dele, até Gibson é parecido com DeMille, até Zeffirelli é parecido com Oliveira - pois ao menos tinham alguma ideia, minimamente pessoal, sobre o que estavam a filmar. Uma ideia estética, no limite. É finalmente o que mais impressiona neste Filho de Deus que não passa de um tristíssimo enteado dos deuses cinematográficos: a sua completa cegueira aos dois mil anos de trabalho que a arte ocidental leva sobre a representação destas figuras e destas histórias. Apenas uma inóspita fealdade, o nulo total, caso para dizer, com propriedade, que eles não sabem o que fazem.
Tirado daqui.

E a julgar por estar imagem, é mesmo de temer o pior.


Museus que querem ser igrejas e igrejas que são maus museus

No utilíssimo "Religião para ateus", Alain de Botton propõe uma reorganização dos museus - uma reinvenção - para que passem a ser lugares que "usam objetos belos para tornar-nos bons e sábios". "Só então - escreve - os museus poderão afirmar que cumpriram devidamente a nobre mas ainda elusiva ambição de se tornarem as novas igrejas".

Se o filósofo imagina que numa espiritualidade ateia os museus podem ser os lugares que "usam objetos belos para tornar-nos bons e sábios", quer dizer no contexto cristão as igrejas têm tal função. E de facto, toda a tradição, principalmente católica, foi construída neste pressuposto da ligação entre o visível e o invisível. Analogia do ser - diria a tradição tomista. Uma questão, porém, impõe-se: Quantas igrejas hoje cumprem tal função? E outra: Quais os cristãos que sabem ler o espaço da igreja, as suas imagens, a sua história? E outra, ainda: Quais os pastores que ajudam nesta leitura, quer por saberem ler as imagens, quer pelas celebrações (e homilias), participando no movimento geral de "pela beleza até Deus"?

quinta-feira, 27 de março de 2014

Violências

O que o amor tem de mais doce são as suas violências;

o seu abismo insondável é a sua forma mais bela;

perder-se nele é atingir o fim.

Hedviges de Antuérpia (1180-1260)

domingo, 23 de março de 2014

Anselmo Borges e a morte de José Policarpo: "Ouvir o silêncio que fala"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:

1. E pus-me a caminho de Lisboa. Com a única finalidade de prestar uma última homenagem ao colega e amigo José Policarpo, cardeal-patriarca emérito. Fomos colegas na Universidade Gregoriana, em Roma, e ficámos amigos e, quando um amigo se nos vai embora, precisamos de uma despedida.

Jazia dentro da urna fechada, no chão da sé catedral. Desde a sua morte que as palavras nunca mais pararam. E falou-se, falou-se, falou-se. E imagens e mais imagens sobre outras imagens. E talvez poucos se tenham ocupado com estar calados. Talvez precisemos tanto de falar porque temos medo do silêncio da morte. Os mortos não falam. Está ali, imenso, o silêncio que fala, a dizer o essencial. Mas quantos estão preparados para, num tempo de rebuliço, ouvir o silêncio?

Repetiu-se, e bem, que José Policarpo foi um intelectual, um homem de cultura, de inteligência superior. Por isso, várias vezes conversámos sobre o que agora ali estava: a morte e o seu impensável, que nos obrigam a pensar. Hoje, o pensamento é débil e banal, à tona das coisas, e porquê? A nossa é a primeira sociedade na história que teve de fazer da morte tabu. No entanto, é ela que põe a pensar até ao fundo, à ultimidade. A crise do nosso tempo, que é, antes de mais, uma crise de cultura, é a crise da morte e do seu tabu. Afinal, é o pensamento sadio da morte que nos coloca perante a distinção real do justo e do injusto, do que verdadeiramente vale e do que não vale. E até percebemos, bem lá no fundo, que somos mortais, logo, somos irmãos.

2. Desde cedo José Policarpo entendeu que a Igreja precisa de renovar-se, na linha do Concílio Vaticano II. Estar atenta aos "sinais dos tempos", tema da tese de doutoramento. E dialogar com todos, nomeadamente no mundo da cultura, dando razões da fé. E ser próximo daqueles e daquelas que estão nas margens, nas periferias existenciais, sociais e geográficas, como diz agora o Papa Francisco. Não ignorou os pobres e injustiçados. Permaneceu distante dos poderes, para poder manter a liberdade crítica da denúncia das injustiças e do anúncio de caminhos pelo pensar e a solidariedade.

Homem de convicções, afirmou-as sem medo. Por outro lado, teve o saber e a sabedoria de não criar rupturas, concretamente quando se tratou de questões ditas fracturantes, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Afinal, a Igreja tem o direito e o dever de anunciar claramente a sua doutrina, mas José Policarpo sabia também que vivemos numa sociedade democrática e pluralista e as leis são votadas no Parlamento.

3. Um homem afável, embora haja quem diga que ficou um pouco amargo nos últimos tempos. Também terá tido as suas tristezas: por exemplo, nem sempre ter sido compreendido, ver o País a afundar-se. Amigo do seu amigo, gostava da família e apreciava as coisas boas da vida. Bem--disposto, contava estórias, tinha um humor fino. Movia-se à vontade dentro da Igreja e na sociedade. Honrou a Igreja e o País, tanto dentro como além-fronteiras. Fiel ao espírito conciliar, olhava para o futuro e deve ter tido grande alegria com a renovação que via através do Papa Francisco.

Falhas? Quem as não tem? A tentativa de ir por diante com uma televisão da Igreja foi um erro e, lamentavelmente, nunca pediu desculpa a pessoas modestas que meteram lá dinheiro, pensando que era para bem da Igreja e do Evangelho. Como teólogo, argumentou que não há razões teológicas que impeçam a ordenação das mulheres, mas, depois, chamado ao Vaticano, voltou atrás, autocensurando-se. Foi pena que, reitor e magno chanceler da Universidade Católica, não tenha conseguido fazer com que a orientação nos domínios da economia e da gestão se aproxime mais da doutrina social da Igreja.

4. Dizia o filósofo Ernst Bloch, o ateu religioso, que os mortos apenas levam consigo as boas obras e a música. As falhas também, digo eu.

José Policarpo partiu e, como todos, não deixou endereço. Mas ele acreditava, e eu também, que não morremos para o nada, mas para o mistério da vida plena de Deus, o Deus que é amor e misericórdia.

sábado, 22 de março de 2014

A arte de Ana Jotta não emita a vida, "sampla" a arte

No “Público” de hoje, fala-se de Ana Jotta, que venceu “o mais relevante prémio de artes plásticas nacional”, o Grande Prémio EDP.

Ao ver uma das suas obras, que a seguir reproduzo, a partir do que o matutino apresenta…




…lembrei-me logo desta pintura de Philip Guston (1913-1980), que há tempos por aqui andou a propósito de Philip Roth.


Estranhei. Mas a explicação vem na notícia:
A arte de Ana Jotta não imita a vida, é uma manifestação de um modo singular de viver, escreveu em tempos João Fernandes: "Referências da história da arte misturam-se com referências da cultura popular do século XX numa permanente reciclagem." Velázquez, Mondrian, Paul Klee, Edward Hopper, Mike Kelley, Stuart Carvalhais, Tom, Vilhena, Bill Watterson, imagens de livros de colorir, calendários, pintura vernácula… Os processos de Ana Jotta começam com a artista como respigadora das mais diferentes realidades plásticas para culminar num trabalho de "samplagem" derrisória em que os mais diferentes elementos ganham nova vida.
Está explicado. Samplagem. Artista respigadora. Ok. "A arte de Ana Jotta não emita a vida", emita a arte. Não tenho mais comentários.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

As tentações, segundo Botticelli

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado, 15 de março.

1 Soube que era chamado por Deus a uma missão essencial para o mundo. Para decidir, foi, como fazem todos os que na história são grandes, meditar. E então Jesus foi tentado. Três tentações, todas à volta do mesmo: o poder. O que ele tinha de decidir era entre um Messias do poder enquanto dominação e um Messias do serviço e da criação.

O diabo colocou-o sobre o pináculo do templo em Jerusalém e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, deita-te abaixo, pois os anjos tomar-te-ão nas mãos." Esta é a tentação do domínio pelo espectáculo do poder.

Pela sua própria dinâmica, o poder quer ser total. Por isso, o demónio levou-o a um monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência e disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares." O que a gente faz, quantas prostrações, para poder dominar! Dominar todos os reinos do mundo.

Se há fascínio, é o do poder. A volúpia do poder! Porque subjugar a vontade de outros ao domínio próprio surge como redenção e bênção. Disse quem sabe, Henry Kissinger: o poder é "o maior afrodisíaco." E, no limite, o poder total. Porque, no fundo, há a ilusão de que, com o poder total, se teria o poder de todos os poderes: matar o poder da morte. Ser imortal.

Daí, por princípio, Deus ser concebido e apresentado como todo--poderoso, omnipotente. Como se a omnipotência fosse a característica mais própria de Deus. A tentação primeira, logo no início, foi a da serpente: "Sereis como Deus." A omnipotência seria agora nossa.

2 Jesus, porém, fez uma experiência avassaladoramente diferente de Deus: Deus não é omnipotente enquanto poder de dominação, Deus é omnipotente enquanto Força infinita de amar e de criar. Por isso, disse: "Eu não vim ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos." E amou, amou até ao fim, por palavras e obras, criando e recriando a vida de todos os desamparados, feridos e perdidos, que somos todos. E amou até à morte e morte de cruz, para dar testemunho da verdade de Deus como Força infinita de criar e de amar. Por isso, morreu como blasfemo, contra o Deus da dominação.

A revolução de Jesus consiste na revolução operada na imagem de Deus. Deus é outro que não poder de dominação. Quem cria e ama é que é como Deus. Afinal, a história não pertence aos dominadores, mas aos criadores.

3 A vida é potência, força que se afirma e expande. Mas a vida só é vida se se afirmar e tiver possibilidade de se expandir em todos. O poder como dominação é apenas de alguns e para alguns, excluindo sempre a maior parte, os dominados. O poder como serviço, força de criar e amar, não exclui ninguém, pelo contrário, inclui a todos e não diminui mas acrescenta.

Quem quiser entender precisa de parar, para reflectir e meditar. Meditação tem a mesma raiz que medicina e moderação. Vivemos num mundo perigoso, impondo-se, pois, a moderação e a meditação como medicina que cura e, pela conversão, abre a possibilidades outras que não as da destruição.

Foi assim que esta semana o Papa Francisco pegou em si e na Cúria e foram todos para fora do Vaticano meditar, iniciando o retiro com o texto bíblico das tentações de Jesus, que são as nossas. Em ordem à conversão. Não sem antes dizer à Cúria que ela não é nem pode ser "a Corte".

Na primeira tentação, o diabo disse a Jesus para transformar as pedras em pão. Jesus disse-lhe que nem só de pão vive o homem. Há outras necessidades e é urgente perceber que a felicidade se não confunde com o consumismo sem limites e a auto-satisfação, que, dentro de um egoísmo insolidário, acabam por gerar o vazio. Isto sim: com a conversão, virão também a fome de justiça e o pão para todos. Como escreve o biblista José A. Pagola, que constata com Jesus que não basta o pão, "o ser humano precisa também de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério último da vida com esperança".

quarta-feira, 19 de março de 2014

Disse o Tomás...

Uma inteligência que te conheça,
uma solicitude que te procure,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te aguarde,
uma perseverança que te espere com confiança
e uma confiança que, por fim, te possua.

Tomás de Aquino

sábado, 15 de março de 2014

Noé

Mais uma polémica. Agora por causa do filme "Noé". A notícia do "Público" diz, mais coisa menos coisa, que há críticas de judeus (o realizador, Aronofsky, é judeu), católicos e muçulmanos. Mas por que motivos? Quanto aos muçulmanos, parece que é apenas e simplesmente por o filme representar fisicamente Noé. A velha questão da iconoclastia. Não é se é bem ou mal representado. É simplesmente por representar.

É altamente improvável vir a ver o filme no cinema. Mas até gostaria.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Tripé de Casaldaliga

Brasão de Langton na Magna Carta, diz a Wikipedia


Um leitor comentou assim os três versos de Stephan (ou Stephen) Langton que aqui pus há hora e meia:
Um tripé interessante para um cursilho especialmente dedicado aos “padres sem o Espírito Santo aos leigos com batina no espírito e aos espíritos sem a carne da vida”, como escreveu o Bispo Pedro Casaldaliga!
Bom proveito para todos!

Já agora, todos temos pelo menos duas dívidas a este inglês do séc. XII-XIII e alguns, três: a liberdade para a qual contribuiu a Magna Carta e a divisão da Bíblia em capítulos. Ler aqui. A terceira, é a Sequência de Pentecostes. Aqui.

Dobra o que é rígido

Dobra o que é rígido,
Aquece o que está frio,
Endireita o que está torto.

Oração de Stephan Langton 

domingo, 9 de março de 2014

Anselmo Borges: "Francisco sobre temas em discussão"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem (aqui):


Já sabíamos, mas agora é o próprio Francisco, entrevistado peloCorriere della Sera, a dizê-lo: "Gosto de estar com as pessoas, com os que sofrem. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como toda a gente. É uma pessoa normal." Por isso, não gosta que façam dele um mito, e cita Freud: "Em toda a idealização há uma agressão.

"Não decide sem ouvir o conselho de muitos, e ouve mesmo, não finge. Mas, claro, "quando se trata de decidir, de assinar, fica só com o seu sentido de responsabilidade". Na entrevista, enfrenta os temas mais delicados. Com uma liberdade e clareza desarmantes. Assim: "Nunca entendi a expressão "valores não negociáveis". Os valores são valores e pronto.

"Sobre a pedofilia: "Os casos de abusos são terríveis, porque deixam feridas profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu o caminho. E, seguindo esse caminho, a Igreja avançou muito. Talvez mais do que ninguém. As estatísticas sobre o fenómeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande maioria dos abusos provém do ambiente familiar e das pessoas próximas. A Igreja Católica é talvez a única instituição pública que se moveu com transparência e responsabilidade. Ninguém mais fez tanto. E, no entanto, a Igreja é a única a ser atacada.

"Família: hoje, "é difícil formar uma família". "Os jovens já não se casam. Há muitas famílias separadas, cujo projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. E nós temos de dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso reflectir muito e em profundidade. E é à luz dessa reflexão profunda que se poderá enfrentar de modo sério as situações particulares, também a dos divorciados." Casamento homossexual: "O casamento é entre um homem e uma mulher. Os Estados laicos querem justificar a união civil para regular diversas situações de convivência, impulsionados pela necessidade de regular aspectos económicos entre as pessoas. É preciso considerar cada caso e avaliá-los na sua diversidade." Quanto à Humanae Vitae, diz que Paulo VI "teve a coragem de ir contra a maioria, defender a disciplina moral, aplicar um freio cultural, opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro. O problema não é mudar a doutrina, mas ir fundo e certificar-se de que a pastoral tem em conta as situações de cada pessoa e o que essa pessoa pode fazer.

"Sobre as mulheres: "Podem e devem estar mais presentes nos lugares de decisão da Igreja. Mas a isto eu chamaria uma promoção de tipo funcional." Só com isto não se avança muito, sendo necessário aprofundar teologicamente a questão, o que está a ser feito, também com "muitas mulheres peritas". Não o aborrece absolutamente nada que o acusem de marxista. "Nunca adoptei a ideologia marxista, pois é falsa." Esclarece que o Evangelho condena o culto da riqueza e que a pobreza nos afasta da idolatria, lembrando que Zaqueu deu metade dos bens aos pobres. Sobre a globalização: "Salvou muitas pessoas da miséria, mas condenou muitas outras a morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A globalização em que a Igreja pensa não se parece com uma esfera, na qual cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas é um poliedro, com as suas diversas faces, em que cada povo conserva a sua própria cultura, língua, religião, identidade. A actual globalização "esférica" económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento débil. E no seu centro não está a pessoa humana, mas o dinheiro.

"O final da vida: "Não sou um especialista em bioética e temo equivocar-me. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém está obrigado a usar métodos extraordinários quando está na sua fase terminal. Pastoralmente, nestes casos, eu sempre aconselhei os cuidados paliativos. Em casos mais específicos, se for necessário, convém recorrer ao conselho dos especialistas.

"Francisco: apenas um homem, normal. "Essa é a sua grandeza", dizia há tempos Fernando Alves.

quinta-feira, 6 de março de 2014

João Miguel Tavares: "Pinto Monteiro e Adolf Hitler"


Texto de João Miguel Tavares no "Público" de hoje. Se o ponho aqui, é apenas por uma razão. A "reductio ad Hitlerum" é uma técnica comum em discussões sobre aborto e eutanásia, geralmente com católicos pelo meio. E a Lei de Godwin também já por cá andou, quer em comentários, quer em posts, como aqui, usada por João César das Neves.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Cá está: "Il Mio Papa"


Cá está a revista semanal dedicada a Francisco. Do grupo editorial do Silvio. (É capaz de ser uma espécie de "Caras", mas só para o Papa.)

Il Mio Papa. Revista semanal dedicada a Francisco

Dizem que hoje o grupo Mondadori lança uma revista semanal dedicada exclusivamente a Francisco. "Il Mio Papa", assim se chama. Vou ver se encontro a capa.

Qual o livro que mais o marcou, sr. Brecht?


Resposta de Bertolt Brecht à pergunta de uma revista berlinense, no anos 20, sobre "a impressão mais forte" de leitura das suas vidas:
- Você vai rir-se: a Bíblia.
(Lido no livro "Alfabetos", de Claudio Magris)

Idem

Continuarei desejando, embora trema.

Paul Verlaine

sábado, 1 de março de 2014

Anselmo Borges: "Eles já não são os mesmos"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui).

1. A exposição do cardeal-teólogo Walter Kasper na semana passada aos cardeais, reunidos em Roma para darem início à reflexão sobre a família no mundo actual e a pastoral familiar, foi publicamente aplaudida pelo Papa Francisco.

A intervenção não veio a público. Mas o cardeal já tinha expressado claramente o seu pensamento, concretamente sobre a admissão à comunhão dos divorciados que voltam a casar. Já em Dezembro tinha dito ao semanário Die Zeit que os divorciados recasados "terão em breve acesso novamente aos sacramentos". E, na véspera do debate no consistório dos cardeais, afirmou, aliás na linha de Francisco, que repete constantemente "Deus não se cansa de perdoar": "Todo o pecado pode ser perdoado. Também o divórcio. Esse é o ponto de partida. Alguém pode cair num buraco negro de que Deus o pode tirar." E insistiu: "O Papa convida-nos a ir às periferias, aos subúrbios da existência humana, para sermos como o bom samaritano que ajuda e não como o sacerdote e o levita do Evangelho que têm respostas preparadas para tudo. A Igreja deve ser o hospital de campanha que cura todas as feridas." A doutrina "não é uma lagoa estancada. É uma viagem, um ponto de partida, não de chegada, e a tarefa da Igreja é ir ao encontro das pessoas". Não se pode "defraudar as expectativas, especialmente no referente à família".

Está, pois, aberto o caminho para a admissão à comunhão dos divorciados que se voltam a casar. A resposta definitiva virá dentro de dois anos, no Sínodo de 2015.

2. Nem todos estão de acordo. O cardeal G. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por exemplo, declarou: permitir "o acesso dos divorciados à Eucaristia causaria confusão nos fiéis quanto à doutrina da Igreja".

Então, há quem proponha como solução sobretudo a avaliação das condições de validade dos casamentos e a aceleração da declaração de nulidade. Ora, certamente é urgente acelerar e agilizar os processos de nulidade, mas pensar que essa é a via pura e simples de solução é perigosíssimo. Em primeiro lugar, porque daria azo a facilmente desqualificar a liberdade e a responsabilidade dos casais. Depois, porque o que acontece normalmente é que as pessoas partem de boa-fé e vontade para o ideal de um casamento estável, fiel e feliz, mas, depois, a vida é o que é, e por culpa de um ou do outro, por culpa dos dois ou por culpa de nenhum, a vida em comum já não é mais suportável, de tal modo que, em certas circunstâncias, o divórcio não só é legítimo mas necessário. A identidade humana é narrativa e o tempo tudo corrói. O grande Pascal disse-o de modo inexcedível nos Pensamentos: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente (tout autre). Talvez ele ainda a amasse, se ela fosse como era." E não terão o direito a recomeçar a vida e outro amor, na dignidade livre e na liberdade com dignidade?

3. Olhei para a imagem daqueles 150 cardeais em Roma e perguntei a mim mesmo: vão ser estes homens, só homens, solteiros e alguns com idade avançada, que, por mais dignos e competentes que sejam, vão, sozinhos, decidir da família do futuro, da moral sexual e da pastoral familiar? E aplaudi com as duas mãos a pergunta que organizações cristãs de todo o mundo fizeram ao Papa e ao G8 cardinalício: "Que seria um "Sínodo da Família" sem incluir aqueles que vivem numa família?" Evidentemente, um Sínodo autêntico sobre a família requer a participação de mulheres e homens comprometidos, vindos de todas as partes.

P. S. Depois dos descaminhos da imprensa no ensaio de nomes, o Papa Francisco nomeou finalmente o novo bispo do Porto: António Francisco dos Santos, até agora bispo de Aveiro. Homem simples, humilde e sábio, vem como pastor para uma diocese tão importante quanto difícil. Também se chama Francisco, e, neste caso, o nome não é mera coincidência.

Sim, porquê?

Por que é que tu és tão louco pela tua criatura?

Catarina de Sena

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...