sexta-feira, 21 de março de 2014

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

As tentações, segundo Botticelli

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado, 15 de março.

1 Soube que era chamado por Deus a uma missão essencial para o mundo. Para decidir, foi, como fazem todos os que na história são grandes, meditar. E então Jesus foi tentado. Três tentações, todas à volta do mesmo: o poder. O que ele tinha de decidir era entre um Messias do poder enquanto dominação e um Messias do serviço e da criação.

O diabo colocou-o sobre o pináculo do templo em Jerusalém e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, deita-te abaixo, pois os anjos tomar-te-ão nas mãos." Esta é a tentação do domínio pelo espectáculo do poder.

Pela sua própria dinâmica, o poder quer ser total. Por isso, o demónio levou-o a um monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência e disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares." O que a gente faz, quantas prostrações, para poder dominar! Dominar todos os reinos do mundo.

Se há fascínio, é o do poder. A volúpia do poder! Porque subjugar a vontade de outros ao domínio próprio surge como redenção e bênção. Disse quem sabe, Henry Kissinger: o poder é "o maior afrodisíaco." E, no limite, o poder total. Porque, no fundo, há a ilusão de que, com o poder total, se teria o poder de todos os poderes: matar o poder da morte. Ser imortal.

Daí, por princípio, Deus ser concebido e apresentado como todo--poderoso, omnipotente. Como se a omnipotência fosse a característica mais própria de Deus. A tentação primeira, logo no início, foi a da serpente: "Sereis como Deus." A omnipotência seria agora nossa.

2 Jesus, porém, fez uma experiência avassaladoramente diferente de Deus: Deus não é omnipotente enquanto poder de dominação, Deus é omnipotente enquanto Força infinita de amar e de criar. Por isso, disse: "Eu não vim ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos." E amou, amou até ao fim, por palavras e obras, criando e recriando a vida de todos os desamparados, feridos e perdidos, que somos todos. E amou até à morte e morte de cruz, para dar testemunho da verdade de Deus como Força infinita de criar e de amar. Por isso, morreu como blasfemo, contra o Deus da dominação.

A revolução de Jesus consiste na revolução operada na imagem de Deus. Deus é outro que não poder de dominação. Quem cria e ama é que é como Deus. Afinal, a história não pertence aos dominadores, mas aos criadores.

3 A vida é potência, força que se afirma e expande. Mas a vida só é vida se se afirmar e tiver possibilidade de se expandir em todos. O poder como dominação é apenas de alguns e para alguns, excluindo sempre a maior parte, os dominados. O poder como serviço, força de criar e amar, não exclui ninguém, pelo contrário, inclui a todos e não diminui mas acrescenta.

Quem quiser entender precisa de parar, para reflectir e meditar. Meditação tem a mesma raiz que medicina e moderação. Vivemos num mundo perigoso, impondo-se, pois, a moderação e a meditação como medicina que cura e, pela conversão, abre a possibilidades outras que não as da destruição.

Foi assim que esta semana o Papa Francisco pegou em si e na Cúria e foram todos para fora do Vaticano meditar, iniciando o retiro com o texto bíblico das tentações de Jesus, que são as nossas. Em ordem à conversão. Não sem antes dizer à Cúria que ela não é nem pode ser "a Corte".

Na primeira tentação, o diabo disse a Jesus para transformar as pedras em pão. Jesus disse-lhe que nem só de pão vive o homem. Há outras necessidades e é urgente perceber que a felicidade se não confunde com o consumismo sem limites e a auto-satisfação, que, dentro de um egoísmo insolidário, acabam por gerar o vazio. Isto sim: com a conversão, virão também a fome de justiça e o pão para todos. Como escreve o biblista José A. Pagola, que constata com Jesus que não basta o pão, "o ser humano precisa também de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério último da vida com esperança".

quarta-feira, 19 de março de 2014

Disse o Tomás...

Uma inteligência que te conheça,
uma solicitude que te procure,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te aguarde,
uma perseverança que te espere com confiança
e uma confiança que, por fim, te possua.

Tomás de Aquino

sábado, 15 de março de 2014

Noé

Mais uma polémica. Agora por causa do filme "Noé". A notícia do "Público" diz, mais coisa menos coisa, que há críticas de judeus (o realizador, Aronofsky, é judeu), católicos e muçulmanos. Mas por que motivos? Quanto aos muçulmanos, parece que é apenas e simplesmente por o filme representar fisicamente Noé. A velha questão da iconoclastia. Não é se é bem ou mal representado. É simplesmente por representar.

É altamente improvável vir a ver o filme no cinema. Mas até gostaria.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Tripé de Casaldaliga

Brasão de Langton na Magna Carta, diz a Wikipedia


Um leitor comentou assim os três versos de Stephan (ou Stephen) Langton que aqui pus há hora e meia:
Um tripé interessante para um cursilho especialmente dedicado aos “padres sem o Espírito Santo aos leigos com batina no espírito e aos espíritos sem a carne da vida”, como escreveu o Bispo Pedro Casaldaliga!
Bom proveito para todos!

Já agora, todos temos pelo menos duas dívidas a este inglês do séc. XII-XIII e alguns, três: a liberdade para a qual contribuiu a Magna Carta e a divisão da Bíblia em capítulos. Ler aqui. A terceira, é a Sequência de Pentecostes. Aqui.

Dobra o que é rígido

Dobra o que é rígido,
Aquece o que está frio,
Endireita o que está torto.

Oração de Stephan Langton 

domingo, 9 de março de 2014

Anselmo Borges: "Francisco sobre temas em discussão"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem (aqui):


Já sabíamos, mas agora é o próprio Francisco, entrevistado peloCorriere della Sera, a dizê-lo: "Gosto de estar com as pessoas, com os que sofrem. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como toda a gente. É uma pessoa normal." Por isso, não gosta que façam dele um mito, e cita Freud: "Em toda a idealização há uma agressão.

"Não decide sem ouvir o conselho de muitos, e ouve mesmo, não finge. Mas, claro, "quando se trata de decidir, de assinar, fica só com o seu sentido de responsabilidade". Na entrevista, enfrenta os temas mais delicados. Com uma liberdade e clareza desarmantes. Assim: "Nunca entendi a expressão "valores não negociáveis". Os valores são valores e pronto.

"Sobre a pedofilia: "Os casos de abusos são terríveis, porque deixam feridas profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu o caminho. E, seguindo esse caminho, a Igreja avançou muito. Talvez mais do que ninguém. As estatísticas sobre o fenómeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande maioria dos abusos provém do ambiente familiar e das pessoas próximas. A Igreja Católica é talvez a única instituição pública que se moveu com transparência e responsabilidade. Ninguém mais fez tanto. E, no entanto, a Igreja é a única a ser atacada.

"Família: hoje, "é difícil formar uma família". "Os jovens já não se casam. Há muitas famílias separadas, cujo projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. E nós temos de dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso reflectir muito e em profundidade. E é à luz dessa reflexão profunda que se poderá enfrentar de modo sério as situações particulares, também a dos divorciados." Casamento homossexual: "O casamento é entre um homem e uma mulher. Os Estados laicos querem justificar a união civil para regular diversas situações de convivência, impulsionados pela necessidade de regular aspectos económicos entre as pessoas. É preciso considerar cada caso e avaliá-los na sua diversidade." Quanto à Humanae Vitae, diz que Paulo VI "teve a coragem de ir contra a maioria, defender a disciplina moral, aplicar um freio cultural, opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro. O problema não é mudar a doutrina, mas ir fundo e certificar-se de que a pastoral tem em conta as situações de cada pessoa e o que essa pessoa pode fazer.

"Sobre as mulheres: "Podem e devem estar mais presentes nos lugares de decisão da Igreja. Mas a isto eu chamaria uma promoção de tipo funcional." Só com isto não se avança muito, sendo necessário aprofundar teologicamente a questão, o que está a ser feito, também com "muitas mulheres peritas". Não o aborrece absolutamente nada que o acusem de marxista. "Nunca adoptei a ideologia marxista, pois é falsa." Esclarece que o Evangelho condena o culto da riqueza e que a pobreza nos afasta da idolatria, lembrando que Zaqueu deu metade dos bens aos pobres. Sobre a globalização: "Salvou muitas pessoas da miséria, mas condenou muitas outras a morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A globalização em que a Igreja pensa não se parece com uma esfera, na qual cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas é um poliedro, com as suas diversas faces, em que cada povo conserva a sua própria cultura, língua, religião, identidade. A actual globalização "esférica" económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento débil. E no seu centro não está a pessoa humana, mas o dinheiro.

"O final da vida: "Não sou um especialista em bioética e temo equivocar-me. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém está obrigado a usar métodos extraordinários quando está na sua fase terminal. Pastoralmente, nestes casos, eu sempre aconselhei os cuidados paliativos. Em casos mais específicos, se for necessário, convém recorrer ao conselho dos especialistas.

"Francisco: apenas um homem, normal. "Essa é a sua grandeza", dizia há tempos Fernando Alves.

quinta-feira, 6 de março de 2014

João Miguel Tavares: "Pinto Monteiro e Adolf Hitler"


Texto de João Miguel Tavares no "Público" de hoje. Se o ponho aqui, é apenas por uma razão. A "reductio ad Hitlerum" é uma técnica comum em discussões sobre aborto e eutanásia, geralmente com católicos pelo meio. E a Lei de Godwin também já por cá andou, quer em comentários, quer em posts, como aqui, usada por João César das Neves.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Cá está: "Il Mio Papa"


Cá está a revista semanal dedicada a Francisco. Do grupo editorial do Silvio. (É capaz de ser uma espécie de "Caras", mas só para o Papa.)

Il Mio Papa. Revista semanal dedicada a Francisco

Dizem que hoje o grupo Mondadori lança uma revista semanal dedicada exclusivamente a Francisco. "Il Mio Papa", assim se chama. Vou ver se encontro a capa.

Qual o livro que mais o marcou, sr. Brecht?


Resposta de Bertolt Brecht à pergunta de uma revista berlinense, no anos 20, sobre "a impressão mais forte" de leitura das suas vidas:
- Você vai rir-se: a Bíblia.
(Lido no livro "Alfabetos", de Claudio Magris)

Idem

Continuarei desejando, embora trema.

Paul Verlaine

sábado, 1 de março de 2014

Anselmo Borges: "Eles já não são os mesmos"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui).

1. A exposição do cardeal-teólogo Walter Kasper na semana passada aos cardeais, reunidos em Roma para darem início à reflexão sobre a família no mundo actual e a pastoral familiar, foi publicamente aplaudida pelo Papa Francisco.

A intervenção não veio a público. Mas o cardeal já tinha expressado claramente o seu pensamento, concretamente sobre a admissão à comunhão dos divorciados que voltam a casar. Já em Dezembro tinha dito ao semanário Die Zeit que os divorciados recasados "terão em breve acesso novamente aos sacramentos". E, na véspera do debate no consistório dos cardeais, afirmou, aliás na linha de Francisco, que repete constantemente "Deus não se cansa de perdoar": "Todo o pecado pode ser perdoado. Também o divórcio. Esse é o ponto de partida. Alguém pode cair num buraco negro de que Deus o pode tirar." E insistiu: "O Papa convida-nos a ir às periferias, aos subúrbios da existência humana, para sermos como o bom samaritano que ajuda e não como o sacerdote e o levita do Evangelho que têm respostas preparadas para tudo. A Igreja deve ser o hospital de campanha que cura todas as feridas." A doutrina "não é uma lagoa estancada. É uma viagem, um ponto de partida, não de chegada, e a tarefa da Igreja é ir ao encontro das pessoas". Não se pode "defraudar as expectativas, especialmente no referente à família".

Está, pois, aberto o caminho para a admissão à comunhão dos divorciados que se voltam a casar. A resposta definitiva virá dentro de dois anos, no Sínodo de 2015.

2. Nem todos estão de acordo. O cardeal G. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por exemplo, declarou: permitir "o acesso dos divorciados à Eucaristia causaria confusão nos fiéis quanto à doutrina da Igreja".

Então, há quem proponha como solução sobretudo a avaliação das condições de validade dos casamentos e a aceleração da declaração de nulidade. Ora, certamente é urgente acelerar e agilizar os processos de nulidade, mas pensar que essa é a via pura e simples de solução é perigosíssimo. Em primeiro lugar, porque daria azo a facilmente desqualificar a liberdade e a responsabilidade dos casais. Depois, porque o que acontece normalmente é que as pessoas partem de boa-fé e vontade para o ideal de um casamento estável, fiel e feliz, mas, depois, a vida é o que é, e por culpa de um ou do outro, por culpa dos dois ou por culpa de nenhum, a vida em comum já não é mais suportável, de tal modo que, em certas circunstâncias, o divórcio não só é legítimo mas necessário. A identidade humana é narrativa e o tempo tudo corrói. O grande Pascal disse-o de modo inexcedível nos Pensamentos: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente (tout autre). Talvez ele ainda a amasse, se ela fosse como era." E não terão o direito a recomeçar a vida e outro amor, na dignidade livre e na liberdade com dignidade?

3. Olhei para a imagem daqueles 150 cardeais em Roma e perguntei a mim mesmo: vão ser estes homens, só homens, solteiros e alguns com idade avançada, que, por mais dignos e competentes que sejam, vão, sozinhos, decidir da família do futuro, da moral sexual e da pastoral familiar? E aplaudi com as duas mãos a pergunta que organizações cristãs de todo o mundo fizeram ao Papa e ao G8 cardinalício: "Que seria um "Sínodo da Família" sem incluir aqueles que vivem numa família?" Evidentemente, um Sínodo autêntico sobre a família requer a participação de mulheres e homens comprometidos, vindos de todas as partes.

P. S. Depois dos descaminhos da imprensa no ensaio de nomes, o Papa Francisco nomeou finalmente o novo bispo do Porto: António Francisco dos Santos, até agora bispo de Aveiro. Homem simples, humilde e sábio, vem como pastor para uma diocese tão importante quanto difícil. Também se chama Francisco, e, neste caso, o nome não é mera coincidência.

Sim, porquê?

Por que é que tu és tão louco pela tua criatura?

Catarina de Sena

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O primeiro homem-hortaliça

Circulam por aí umas declarações do Papa Francisco sobre o não-fogo do inferno e a não realidade-física do par Adão e Eva. Parece que a coisa é falsa. Pelos menos, não se encontra a fonte. A mim, muito me admira que este tipo de afirmações ainda cause espanto e partilhas no Facebook por parecerem novidade. Em relação a Adão e Eva, estamos pelo menos 250 anos atrasados - o que não quer dizer que não tenham significado.


Como dizia o outro, se Adão existiu mesmo, foi o primeiro homem-hortaliça.
- Como?
 - Sim, foi o primeiro homem q'houve.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Papa quer destruir um argumento que tem levado muita gente à Igreja


O Papa pediu aos cardeais, novos e velhos, que evitem “intrigas, maledicência, fações, favoritismos, preferências”. Li aqui.

Com certeza não falou por falar. A linguagem dos mais altos responsáveis da Igreja deve ser a do Evangelho, disse Francisco. Na realidade, isso vale para qualquer cristão. Em Roma ou na Romelha de Baixo.

Temo, porém, que o Papa esteja a contribuir para a destruição de um forte argumento para acreditar na Igreja Católica: o da pecaminosidade dos seus membros.

Duas histórias vão contra Francisco. A primeira, vem daqui. Durante as convulsões napoleónicas, queixam-se ao cardeal Consalvi que “Napoleão quer destruir a Igreja”. E o cardeal responde: “Isso nem sequer nós fomos capazes de fazer”.

A outra tem mais uns séculos. Vem no “Decameron”, de Boccaccio (séc. XIV). Tento resumir.

O mercador Giannotto di Civigni, cristão, quer convencer o seu colega Abraão, judeu, a converter-se ao cristianismo. Depois de muita catequização, Abraão dispõe-se a aceitar a nova fé, mas precisa de ir a Roma observar “a vida e os costumes” do vigário de Deus na Terra e dos seus irmãos cardeais. Giannotto bem tenta convencê-lo a não sair de Paris, onde há muita gente sábia, mas Abraão não cede. E vai mesmo a Roma.

Quando regressa, o judeu vai ter com Giannotto, que perdera toda a esperança de ver o seu amigo batizado. Abraão conta o que viu em Roma: “Nenhuma santidade, nenhuma devoção, nenhuma boa obra, nenhum exemplo de vida”, e segue-se uma descrição dos pecados (aqui não há espaço!) para mostrar que Roma era uma “oficina de diabólicas operações mais do que divinas”. Por fim, revela o seu veredicto: se aqueles que deveriam ser o “sustentáculo” da religião tudo fazem para a “reduzir a nada” e mesmo assim ela se dilata, “radiosa”, é porque é a “verdadeira e mais santa” e “tem no Espírito Santo fundamento e sustentáculo”. E o judeu recebe o batismo na Notre-Dame de Paris.

Claro que, na linha se Francisco, a nossa conclusão será outra. Se mesmo com pessoas de maus hábitos a Igreja é boa, como não seria se todos cultivassem as atitudes evangélicas.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

As mãos do filho de Philip Seymour Hoffman

Philip Seymour Hoffman morreu no dia 2 de fevereiro (ver aqui) e teve funeral católico. Agora, por causa do consumo de droga, o seu funeral católico tem estado a ser discutido, muito à americana. Ler aqui.

Se volto a este assunto (dei com ele ao procurar umas coisas sobre o vaticanista John Allen, que deixou o NCR) é simplesmente por causa da fotografia. O choro de uma das filhas. A oração do filho mais velho, que é a cara do pai. Dor e fé.


Anselmo Borges: "O que pensam os católicos sobre a Igreja?"

Texto de Anselmo Borges no "DN" de hoje.

1- A Bendixen & Amandi realizou, entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014, com 12 038 fiéis adultos de 12 países maioritariamente católicos dos cinco continentes, para a Univisión, a principal televisão em espanhol dos Estados Unidos, uma sondagem sobre temas importantes na e para a Igreja. Fiabilidade: 95%.

Alguns resultados, com dissonâncias entre a doutrina e a opinião e vivência dos fiéis. a) Anticonceptivos: 78% a favor; 19% contra; 3% não responderam. b) Ordenação sacerdotal das mulheres: 45% a favor; 51% contra; 4% não responderam. c) Casamento dos padres: 50% sim; 47% não; 3% não responderam. d) Aborto: 8% deve permitir-se sempre; 65% nalguns casos; 33% nunca; 2% não responderam. e) Quanto ao casamento homossexual, há acordo com a doutrina: 66% contra; 30% a favor; não responderam 4%. f) Como avalia o trabalho do Papa Francisco? 41% excelente; 46% bom; 5% medíocre; 1% mau; 7% não responderam.


2- "Agora, o Papa Francisco, no confronto com os reaccionários da Cúria, pode apelar para as respostas da maioria dos fiéis sobre temas tão importantes. O Papa emérito Bento XVI escreveu-me há pouco, a mim eterno rebelde, uma carta afectuosa na qual mostra empenho em apoiar Francisco, esperando que ele tenha todo o êxito - "a minha única e última tarefa é apoiar Francisco", escreve." Quem isto revelou foi Hans Küng, o famoso teólogo crítico, condenado por João Paulo II e um dos poucos peritos do Vaticano II vivos, numa entrevista ao La Reppublica, no dia 10 deste mês, sobre a sondagem, na qual é manifesta a distância entre a Igreja oficial e os fiéis.

Para ele, o mais importante nela é a maioria esmagadora de vozes favoráveis a Francisco, que também já lhe escreveu pessoalmente: 87% dos católicos interrogados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É "um pequeno milagre" Francisco ter conseguido, em menos de um ano, inverter a tendência dos fiéis e não só quanto à crise de confiança na Igreja.

Interrogado sobre o significado dos resultados da sondagem para a hierarquia, Küng dá uma resposta sensata: "Para os bispos preparados para reformas, e eles existem em todo o mundo, eles significam um grande encorajamento. Quanto aos conservadores, que têm as suas reservas: deveriam reflectir sobre as suas reservas e escutar os argumentos dos renovadores. Os bispos reaccionários, presentes não só no Vaticano mas em todo o mundo, deveriam abandonar a sua resistência obstinada e optar pela razoabilidade."

E o Papa Francisco? "Se me é permito dar-lhe um humilde conselho, deveria avançar com coragem no caminho iniciado e não ter medo das consequências." Em concreto, "espero que use a arte do "Distinguo" que aprendemos na Universidade Gregoriana: onde, na sondagem, há consenso na Comunidade eclesial, deveria propor uma solução positiva ao Sínodo. Onde há dissentimento, deveria permitir e suscitar um debate livre na Igreja. Onde ele próprio tem uma opinião diferente da da maioria dos católicos, como quanto à ordenação das mulheres, deveria nomear uma task force de teólogos e outros peritos, homens e mulheres, para enfrentar o tema."

Está contente? "Não me considero vencedor, não travei batalhas para mim, mas para a Igreja. Tenho a alegria de ver, ainda vivo, o êxito das ideias de reformas da Igreja pelas quais tanto combati."

3- A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global. Assim, um problema maior será o da convivência com a variedade de posições.

Exemplos, a partir desta sondagem global, após a apresentação dos dados totais. Os divorciados recasados não podem comungar: na Europa, não concordam com esta proibição 75%, mas a não concordância é de 46% nas Filipinas. Ordenação das mulheres: na Europa estão a favor 64%, mas, nas Filipinas, 76% são contra. Casamento homossexual: em Espanha, 64% são favoráveis, mas na África 99% opõem-se-lhe. Na Europa, 50% pronunciam-se a favor do casamento dos padres, mas na África só 28%.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Igreja não é uma coisa só minha!

Eu não sou mais que um momento de uma vida imensa - a da Igreja - que se personaliza em mim, mas que me envolve e me ultrapassa, me precedeu e sobreviverá depois de mim. Não é uma coisa só minha!

Yves Congar, 1967


E muito penso no papel de cada um, da leiga ao leigo, passando pelos ordenados e focando muito em concreto num bispo.

Hubert Reeves: "Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo"


Excerto da entrevista que Hubert Reeves deu ao "Público":
Acredita que a divulgação tornou as pessoas mais conscientes da necessidade de ter conta as descobertas científicas? 
Tem de haver alguma coisa entre a religiosidade – num sentido absolutamente naïf – e a ciência pura. Não é preciso fazer parte de nenhum grupo evangelista, nem negar toda a possibilidade de espiritualidade. As pessoas hoje podem decidir por si. 
Como é que um homem de ciência vê o debate crescente nos EUA sobre o criacionismo? 
É ridículo. Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo. 
Mas já há estados dos EUA onde há a possibilidade disto ser ensinado nas escolas. 
Acho que essa é mais uma questão política do que uma questão científica. Há uma pressão social e política de algumas pessoas com interesses. É difícil ver que um miúdo que tem algum cérebro possa acreditar que o mundo foi feito há 4000 anos. E é o caso. Acho que é inútil lutar contra o criacionismo.

Foto e excerto daqui.

Para algumas pessoas, a iniciação na literatura de divulgação científica foi com o livro (e a série) "Cosmos", de Carl Sagan. Foi o meu caso. Para outros, foi com o livro deste senhor, "Um pouco mais de azul", que foi buscar o título a um poema de Mário de Sá-Carneiro. Por pouco não foi o meu caso. Li-o logo a seguir ao "Cosmos", por influência do amigo Manuel Augusto Oliveira.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Os seres humanos só podem viver como humanos acolhendo, criando e recriando, desconstruindo e reconstruindo as narrativas simbólicas da sua condição inacabada. Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a pintura, a beleza das civilizações antigas e modernas.

É próprio da linguagem simbólica viver em figurações materiais, finitas, historicamente marcadas, em passagem permanente ao intemporal, ao infinito, superando-se na sua própria configuração concreta, limitada. A religião e as artes vivem do mesmo fundo de intranquilidade. Apesar de todas as tensões, têm, no impulso de transcendência, uma alma comum, que só morre ou se eclipsa quando instrumentalizada.

 Como escreveu Fernando Pessoa, a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Mas também não a pode substituir.

“A vida é breve, a morte é certa”, gritava durante toda a Quaresma, um ancião, meu vizinho. A religião é a revolta contra os limites, a simbólica da absoluta transcendência, a voz do impossível. A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados. O silêncio de Deus na cruz de Cristo é a sua linguagem, perante as diabólicas tentações messiânicas. Ao entregar o seu espírito nas mãos do Pai, Jesus recebe o Espírito da ressurreição, a fonte de uma Igreja sem fronteiras que O poderá reconhecer na diversidade das culturas, pois é Ele que sempre a precede.

2. O código genético do Cristianismo, na sua nascente e nas suas configurações históricas, brota do monoteísmo trinitário que as religiões do Livro – Judaísmo e Islão - consideram impuro e ao qual não pode renunciar sem cair no deus abstracto do deísmo, da metafísica das Luzes e que infeccionou a catequese e a pregação do séc. XIX.

No Vaticano II, D. Hakim, bispo grego-melquita de Akka, denunciou os esquemas da teologia latina, por ignorarem a catequese e a teologia orientais de Cirilo de Jerusalém, de Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, de Máximo Confessor e de João Crisóstomo. Com a mesma preocupação, na Assembleia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em Upsala (1968), o notável bispo I. Hazim (1920-2012), mais tarde Patriarca de Antioquia, fez uma intervenção inesquecível.

“Eis a novidade: a ressurreição de Jesus Cristo, o mistério pascal,  não se explica pelo passado, mas pelo futuro.

Deus vem ao mundo, ao seu encontro; está diante de nós e chama, sacode, faz crescer, liberta. Qualquer outro deus é um falso deus, um ídolo. Está na hora de a nossa consciência moderna o enterrar. Esse deus multiforme, que habita na velha consciência do ser humano, está como que por trás do ser humano, como uma causa. Manda, organiza, faz regredir, aliena. Nada tem de profético, pelo contrário, vem sempre depois como a única razão do inexplicável, ou como o último recurso dos irresponsáveis. Esse falso transcendente é tão velho como a própria morte.

A novidade criadora vem ao mundo com o mundo. Essa novidade não se inventa nem se prova, revela-se, mostra-se. Diante dela, ou se diz sim ou se diz não. Vem como um acontecimento.

Esta é a acção do Espírito Santo que introduz a novidade no mundo. Sem Ele, Deus fica longe; Cristo habita no passado; o Evangelho não passa de letra morta; a Igreja não seria mais do que mera organização; a autoridade, dominação; a missão, propaganda; o culto, evocação mágica e todo o agir cristão, pura moral de escravos”.

Este cristão, mostrou que o seu discurso não era retórica vazia. Depois da sua eleição como patriarca, disse o que gostaríamos de ouvir a toda a hierarquia: "Serei julgado se não levar a Igreja e cada um de vós no meu coração. Não me é possível falar convosco como se fosse diferente de vós. Nenhuma diferença nos separa. Sou uma parte de vós; estou em vós e peço-vos que estejais em mim. Pois o Senhor vem e o Espírito desce sobre os irmãos reunidos, unidos em comunhão, manifestando uma diversidade de carismas na unidade do Espírito."

3. Depois do Vat. II, a teologia latina revisitou a teologia oriental. Passou a respirar, simbolicamente, com dois pulmões. Leonardo Boff, no contexto da teologia da libertação, tentou repensar o mistério sacrossanto da Trindade, que sempre o tinha desafiado. Publicou várias obras para responder a esta questão: se Deus não é a solidão do Uno, ao revelar-se e entregar-se como comunidade, quais as consequências para entender a nossa história una e plural?

Não lhe bastou afirmar que Deus era a melhor comunidade. Foi mais longe: Não há nenhuma razão teológica que nos obrigue a parar na encarnação do Filho. Sustentei a tese que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria. Assim temos a família divina inteiramente presente na família humana.

As reticências que estas Josefologia e Mariologia suscitam, obrigam a continuar a investigação: afinal, que implicações espirituais tem a fé na misteriosa trindade de Deus, na transformação da nossa vida na Igreja e na sociedade?

O Céu. Mesmo que fosse só isso

O avô de C. S. Lewis - conta Timothy Radcliffe em "Imersos na vida de Deus, (Paulinas) - esperava e previa ter, no Céu, conversas cultas e corteses com S. Paulo, como dois gentis-homens clérigos cavaqueando no seu clube.

Ao preço a que está uma boa conversa, coisa cada vez mais rara e interrompida por telemóveis ou trasladada para feicebuques, cá está uma aliciante imagem do Céu.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Nestas condições...

Pormenor de "O Desterrado"

“Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.”

Últimas palavras de Soares dos Reis, que se suicidou faz hoje 125 anos. Ler no "Público".

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "O Papa e o maldito sexo. 2"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui):

Num gesto sem precedentes, o Papa Francisco enviou aos católicos de todo o mundo um inquérito com 39 perguntas, para saber directamente e não já só pelos bispos o que se passa em domínios considerados tabu: novas formas de família, casais homossexuais, uniões de facto, relações pré-matrimoniais, divorciados que voltam a casar e a sua relação com os sacramentos, adopção, contracepção, uniões à experiência, educação religiosa das crianças...

Os resultados, que ajudarão na preparação para a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização", em Outubro próximo, ainda não são totalmente conhecidos, mas nomeadamente as Conferências Episcopais da Alemanha e da Suíça já publicaram os referentes aos seus países. Em ambos os casos, bem como num inquérito realizado pela Bendixen & Amandi para a cadeia de televisão norte-americana Univisión a católicos dos cinco continentes, conclui-se que a maioria dos católicos não está de acordo com a doutrina oficial da Igreja.

Concretamente nos relatórios alemão e suíço, pode ler-se a valorização do casamento católico. Textualmente, no alemão: "A ideia do casamento enquanto sacramento, que implica a fidelidade e a exclusividade do cônjuge bem como a transmissão da vida, é normalmente aceite por quem se casa na Igreja." Mas logo a seguir: "Pelo contrário, as afirmações da Igreja sobre as relações sexuais pré-matrimoniais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controlo da natalidade são aceites por pouquíssimos ou prevalentemente rejeitadas de forma explícita."

Não se deverá esperar um simples aval do Papa e do Sínodo ao resultado do inquérito mundial. Marcello Semeraro, secretário do G8 cardinalício que aconselha o Papa, já preveniu contra a ideia de ver as maiorias aprovadas: "O papel do Papa e dos bispos não consiste em serem notários de uma maioria." Mas é igualmente claro que algo tem de ser feito.

Como escreveu Miguel Oliveira da Silva, deve perguntar-se se, no universo sexual, que continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", vale tudo. É claro que não, e reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher - ao contrário".

De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. E lá está, por exemplo, o famoso número 14 da encíclica Humanae Vitae contra a contracepção artificial. Neste domínio, o equívoco fundamental da encíclica encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica, pois envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual, e é preciso superar o dualismo de fim primário (procriativo) e fim secundário (unitivo) e a argumentação moral centrada nos actos isolados. Por outro lado, não é o homem interventivo e transformador da natureza? E ainda serão naturais os métodos que têm que ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?

Como pedia o cardeal Carlo Martini, "é um sinal de grandeza e autoconsciência alguém confessar os seus erros e visão limitada". Assim, "o Papa talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade". "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a homossexualidade, a contracepção."

Mas, aqui, impõe-se uma outra pergunta: enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório, que Martini também interrogava, não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?

Mundo novo

A fé tem muito a ver com o simples facto de que há vida cheias de confiança para serem vistas, de que podemos ver, em certas pessoas crentes, um mundo em que gostaríamos de viver.

Rowan Williams

Atração pelo abismo

Ó abismo de amor!

Catarina de Sena

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

É daqui a pouco, na Bertrand do Chiado: Biblista católico e pastor evangélico falam sobre Jesus

O padre Joaquim Carreira das Neves, biblista e antigo professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, e o pastor evangélico Tiago Cavaco vão juntar-se para uma conversa pública intitulada "Ler Jesus".

Contando também com a participação de António Marujo, jornalista especializado em temas religiosos, o encontro organizado pela revista “Ler” e Livrarias Bertrand decorre a 13 de fevereiro, em Lisboa.

«Ler Jesus, como ler Jesus?, que palavras dizem Jesus?, Ele está sempre no meio de nós?, existe um antes e um depois na vida de Jesus?» são algumas das questões que motivam o debate moderado pela jornalista Anabela Mota Ribeiro.

António Marujo é o autor de uma entrevista recente ao religioso franciscano, publicada no livro “O coração da Igreja tem de bater” (ed. Paulinas), volume que inclui textos inéditos do investigador sobre dez temas.

Tiago Cavaco, pastor da Segunda Igreja Batista de Lisboa, assinou recentemente o livro “Felizes para sempre – e outros equívocos acerca do casamento” (ed. Cego, Surdo e Mudo).

A sessão, com entrada livre, começa às 18h30 na Livraria Bertrand do Chiado.

Tirado do SNPC.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (2)"

Texto de Bento Domingues no "Público" do último domingo (aqui):


1. Nada é inocente, nada está irremediavelmente perdido, tudo precisa de nascer de novo, a começar pelas palavras da fé cristã e dos seus rituais. A dignidade essencial do ser humano manifesta-se, precisamente, na capacidade de se interrogar, de se corrigir, de mudar de rumo, de não se conformar com o mundo tal como se apresenta. A história do cristianismo está carregada de ambiguidades, de equívocos, de pecados, mas a conversão faz parte do seu caminho de reencontro com o seu “código genético”.

É legítimo dizer, ainda que de modo esquemático, que o cristianismo foi-se afirmando face à cultura e à religiosidade antigas, seguindo um duplo caminho, nem sempre linear, como afirma Isidro Lamelas. Em relação ao judaísmo, rompeu com as práticas rituais e prescrições legais impostas pela religião da Lei, mas não deixou de assimilar muitos dos seus hábitos litúrgicos e cultuais. A prioridade da fé sobre as obras, pelo menos na perspectiva de S. Paulo, implicava, segundo uns, uma ruptura total com a religião de Moisés, enquanto outros preferiam sublinhar a continuidade entre a fé de Abraão e a nova fé em Cristo. No extremo da primeira tendência, temos Marcião e os seus seguidores; no outro extremo, encontramos o judeo-cristianismo persistente, em muitas versões.

No respeitante ao mundo pagão, também foi duplo o critério seguido. Por um lado, foram rejeitadas as suas práticas e convicções religiosas, na medida em que não eram compagináveis com a revelação bíblica. Por isso, os primeiros cristãos foram acusados de ateísmo. Por outro lado, foi assumida a natural religiosidade pagã como preparação para acolher a “verdadeira religião”, identificada com o cristianismo. Enquanto, porém, no paganismo a religião se resume ao culto que, por sua vez, não se distinguia da cultura (vida social e política), no cristianismo, a fé precede o culto, sem se confundir com nenhum tipo de cultura ou sistema religioso (1).

2. O duro e persistente conflito que opôs o cristianismo ao judaísmo e ao paganismo explica-se pela clara destrinça que Jesus Cristo e a sua herança vieram estabelecer entre fé e religião.

A fé cristã não assenta, de facto, nem num Livro sagrado nem na observância da Lei e na reverência ao “Deus dos Pais”, dos antepassados. A sua referência existencial é a experiência do encontro com Jesus real reconhecido como Cristo, Filho de Deus (Abba) e que partilha connosco o seu Espírito de amor filial ( Rom. 8, 14-17).         

Como lembrei no Domingo passado, é num credo trinitário que renascem, por uma radical transformação espiritual, os que acedem ao Baptismo cristão: ”Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Essa invocação é tão decisiva que, no começo da Eucaristia, é sempre com ela que marcamos o nosso corpo celebrante. O desejo de quem preside à Eucaristia retoma as palavras de Paulo (2Cor.13,13): A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

Compreende-se que para o Judaísmo e para o Islão, o Cristianismo continue a ser considerado uma religião politeísta ou, pelo menos, um monoteísmo impuro. No cristianismo de rito latino, tirando a atracção que a fé trinitária exerce em algumas correntes místicas, não vai muito além de uma misteriosa fórmula abstracta, de uma matemática estranha, sem influência real, concretizada apenas no nome ligado a algumas pessoas, igrejas ou hospitais. A rede de subtilezas dos teólogos parece o fruto de uma ociosidade mal empregue. O grande filósofo da modernidade, I. Kant, confessava a inutilidade religiosa e ética do dogma da Trindade.

3. Resta portanto a questão de fundo: adianta ou não a fé trinitária das igrejas cristãs implicada na Incarnação do Verbo? Sem ela que perdem os cristãos, as igrejas e a sociedade? Será mesmo assim tão essencial para viver e entender o sentido da vida?

Segundo o filósofo, teólogo e politólogo dominicano, Paul Blanquart (2),a simbólica trinitária é um modelo social e uma forma de pensar e repensar o mundo e a sociedade. É o modelo da perfeita democracia: na indestrutível unidade de Deus, as pessoas são todas iguais, todas activas, todas diferentes, sem subordinação e em comunhão. É a existência simultânea do uno e do múltiplo.

Se o ser humano, no mundo, é criado à imagem de Deus, não é indiferente que esse Deus seja pura solidão ou uma comunhão de pessoas. Na experiência humana, se insistimos apenas na unidade, esquecendo as diferenças, temos uma unidade vazia. Se, pelo contrário, insistirmos nas diferenças, pomos em causa a igualdade. A simbólica trinitária serve para, no plano mental e na realidade social, promover a máxima unidade na máxima diversidade. Se nesse modelo, não existe a subordinação das pessoas, também não existe a vontade de poder de umas sobre as outras, existe a alegria da comunhão nas diferenças.

Não é por acaso que Paulo, nas suas cartas, é pela unidade da Igreja na multiplicidade de carismas. Não existe nenhum carisma para abafar os outros.

Não podemos deixar de ouvir a voz de Leonardo Boff, que entende a Trindade como a melhor comunidade. Fica para a próxima.


1)Sim, Cremos. O credo comentado pelos Padres da Igreja, UCP, 2013


2) Paul Blanquart, Une Histoire de La Ville, Découverte, 2005


Ler "Código genético (1)" aqui.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo


No primeiro texto de "Alfabetos", depois de apontar alguns livros que o influenciaram, Claudio Magris escreve que

 "(...) acima de todos, estavam o Antigo e o Novo Testamento, depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo e se compreende que a pedra mais vil, aquela desprezada pelos construtores, é a verdadeira pedra angular".

Estamos em comunhão.

E o Porto ali tão perto

Várias vozes, anónimas, por isso não sei se é a mesma, comentaram aqui no blogue que D. António Couto, bispo de Lamego, aceitou ir para o Porto. A ver vamos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "O Papa e o maldito sexo. 1"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Não. Francisco não é o Papa dos "pobrezinhos", ao contrário do que, com menosprezo, escrevem certos comentadores. Ele é o Papa de todos, na justiça, na solidariedade, nas reformas da Igreja, e é esperável que tenha êxito.

Tem gigantescos desafios pela frente e, entre eles, está certamente a questão da sexualidade e da família no mundo actual. Nesse sentido, lançou um inquérito dirigido a todos os católicos do mundo e não apenas aos bispos e aos padres, precisamente sobre este tema, de tal modo que os fiéis todos puderam exprimir-se livremente a Roma, o que nunca tinha acontecido ao longo dos dois mil anos da Igreja. O Papa quer ter conhecimento directo da experiência e do pensar das pessoas sobre estas temáticas. Antes, a Cúria era informada pelos bispos, contendo os seus relatórios "mais desejos piedosos do que factos", como refere a Der Spiegel da passada semana (27 de Janeiro). Não se conhece ainda o número de respostas nem os seus resultados - em Portugal, o interesse parece ter sido diminuto e não se viu empenho forte por parte da Igreja oficial -,mas eles constituirão uma base de reflexão para o Sínodo extraordinário dos Bispos, em Outubro próximo.

O número referido da Der Spiegel, com capa com o título acima - Der Papst und der verdammte Sex -, adianta já respostas de algumas das 27 dioceses alemãs, mostrando "o abismo entre a Igreja e os fiéis". Mesmo na Baviera conservadora, 86% dos fiéis não consideram pecado a utilização da pílula ou do preservativo; 63% dos casados que voltaram a casar continuam a comungar e 90% não foi por causa disso que o não fizeram; 70% declararam que nas fases difíceis da separação não receberam apoio por parte da Igreja.

Muitos condenaram a doutrina católica por "estranha à realidade" e alguns, atendendo à linguagem das perguntas, sentiram-se enquanto "europeus da Europa Central a recuar pelo menos cem anos". Segundo a BDKJ (União dos católicos alemães - juventude), "a moral sexual católica não tem qualquer importância para nove em cada dez jovens católicos"; "sexo antes do casamento e anticonceptivos fazem evidentemente parte da sua vida em relação". Ainda segundo a BDKJ, 96% das pessoas que mantêm "vida sexual" sem casamento católico não têm nenhum problema com isso e, apesar disso, os jovens católicos participam nos sacramentos. O Vaticano está enganado quando pensa que os casais só depois do casamento vivem e dormem juntos. Uma vida em comum à experiência "é hoje uma realidade de que já se não pode abstrair", comunica a diocese de Augsburgo. E assim por diante, na sequência alfabética das dioceses, até Würzburg, onde "uns 90% dos casais praticam uma vida em comum ad experimentum" - Friburgo: "a vida comum antes do casamento pela Igreja não é nenhum caso extraordinário, mas normal".

Alguns sentiram-se inclusivamente "chocados", quando o interrogatório usa, para os divorciados, a expressão "situações irregulares", sendo excluídos da comunhão e não se tendo a Igreja preocupado com os seus "problemas" ou "necessidades de fé". Outro grupo que recebe grande apoio da base é o dos homossexuais. Comunidades houve que acharam muito importante que se acrescentasse um ponto às perguntas do Vaticano, exigindo que se ponha fim à lei do celibato obrigatório.

Os resultados das respostas, que dão um mau testemunho da instituição eclesiástica e mostram a discrepância entre a doutrina e a realidade mereceram este comentário do bispo de Mainz, o famoso cardeal Karl Lehmann, uma voz constante a favor de um catolicismo aberto: "Estes resultados, mesmo que não sejam representativos, testemunham e fortalecem a impressão de uma situação infeliz, fatal." "Há muito que já sabíamos", disse sobre o profundo abismo entre o povo fiel e a hierarquia, "muita coisa foi reprimida".

Os fiéis exigem agora a publicação integral dos resultados. Seja como for, mesmo com todas as suas deficiências, o inquérito desencadeou uma dinâmica que será difícil parar. A pergunta é: como vai Roma lidar com a questão?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Fez de padre em "A dúvida / Doubt"

Morreu Philip Seymour Hoffman, de overdose, ao que dizem. Como muitos, lamento a perda de um dos maiores atores dos últimos anos. Só aparecia em filmes bons. Ou então tornavam-se bons quando ele aparecia.

Recupero uma cena do filme "A dúvida", que já por cá andou. E acrescento outra do mesmo filme.



Bento Domingues: "Código genético (1)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Fui interpelado acerca do texto do Domingo passado com duas perguntas pouco inocentes: haverá um baptismo para homens e outro para mulheres e será possível abordar o baptismo cristão sem falar da democracia na Igreja?

As tentativas de “resposta” só podem ser de ordem histórica e teológica. Na Idade Média, perante a floresta de símbolos que povoavam o imaginário sagrado do culto, das devoções e superstições, foram recortadas sete celebrações fundamentais, os sete sacramentos. No registo do pensamento analógico, são entendidos como irradiações da Páscoa de Cristo, nas etapas mais típicas e estruturantes da vida sacramental da Igreja. O baptismo é a porta de entrada, personalizada e comunitária, num processo vital da graça transfiguradora da existência humana no seu devir espiritual, do nascimento à morte, na esperança da ressurreição. A omnipresença da graça não suprime a liberdade humana nem o mistério da iniquidade actuante na nossa história.

No código genético cristão, não se conhece um baptismo para homens e outro para mulheres. Sendo assim, elas perguntam: qual é a deficiência natural ou sobrenatural de que sofremos para não podermos ser chamadas a receber o sacramento da ordem integrado pelo diaconado, presbiterado e episcopado?

Referem-se a uma situação de facto na Igreja católica romana e nas Igrejas ortodoxas. Para muitas teólogas e teólogos católicos trata-se de uma anomalia antiga que já vai sendo tempo de superar. Não existe nenhuma maldição de Cristo a dizer que as mulheres ficavam para sempre excluídas da possibilidade de serem chamadas aos ditos “ministérios ordenados”. As Igrejas protestantes, que assinaram o acordo baptismal com a Igreja católica romana e ortodoxa, estão a seguir um caminho diferente.

2. Pode-se falar do Baptismo, sem abordar a questão da democracia na Igreja? Era a segunda pergunta. A democracia não é uma invenção moderna. Amartya Sen (1933 -), considerado o mais humanista dos economistas, presta homenagem à Grécia que, no séc. VI (a. C.), adoptou um sistema eleitoral e cultivou o debate público. Os gregos, aliás, gostavam muito mais do diálogo com os persas, os indianos e os egípcios do que com os godos e visigodos. Alexandre Magno passou mais de um ano na Índia e os intelectuais da época estavam fascinados pelo Oriente que recebeu da Grécia o sistema eleitoral antes da França, da Alemanha ou da Grã-Bretanha. Seis séculos antes da Magna Carta inglesa, o Japão estava dotado de uma Constituição que impunha ao imperador consultas antes de decidir. A Índia vive uma antiga tradição de debate público, onde tudo poderia ser discutido.

A democracia, tal como a conhecemos hoje, é o produto da modernidade, do século das Luzes, sendo a sua história e a sua geografia muito mais vastas e antigas. Sem uma persistente educação para a cidadania e para a tornar uma atitude, uma tarefa permanente, uma forma de vida pessoal nas suas múltiplas relações, acaba por se esvaziar e ficar resumida a alguns momentos rituais que até eles tendem a desaparecer.

Recordo isto para dizer o seguinte: Desde o Vaticano II, os documentos da doutrina social da hierarquia católica, são abundantes e insistentes na defesa da democracia política, económica, social e cultural. O que diz respeito a todos deve ser tarefa de todos, para benefício de todos, segundo as capacidades de cada um. Para serem democráticas, as instituições não devem sufocar, antes estimular, a criatividade social, em todas as suas manifestações. Não podem contribuir para uma sociedade de privilégios, de monopólios, de opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Os conflitos são inevitáveis. A controvérsia é normal. Os cidadãos não são clonáveis. A democracia é o regime da cooperação.

Esses documentos rompem com os receios e ataques do magistério eclesiástico do séc. XIX e princípios do séc. XX. A generosidade actual não se estende a uma gestão democrática da Igreja. Repete-se que a Igreja não é uma democracia.

 3. Importa, no entanto, não fechar demasiado depressa esse dossier. A concepção hierárquica neoplatónica vê a Igreja como uma pirâmide, um sistema escalonado: Deus, Cristo, o papa, os bispos, os padres e os diáconos, seguidos dos religiosos e, finalmente os “leigos”, primeiro os homens, depois as mulheres e as crianças. Nesse esquema, o Espírito Santo vai de férias. Ao “Vigário de Cristo”, com a sua infalibilidade definida no Vat. I, basta-lhe exigir obediência.

Quando se diz que a Igreja não é uma democracia continua-se a pensar na pirâmide, esquecendo que os seus membros, homens e mulheres, renascidos de um só baptismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, formam uma vasta comunhão de fraternidades de profetas e sacerdotes do povo cristão ao serviço da humanidade inteira, na sua unidade plural.

A Igreja cristã não vive num vazio sociocultural e político. Não pode viver num gueto. Embora deva manter um distanciamento crítico em relação às estruturas socio-políticas – não são o Reino de Deus realizado –, mas uma gestão democrática do seu governo será sempre preferível, em qualquer circunstância, a um regime autoritário. Do código genético baptismal, não constam os genes de ditadura na Igreja.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Morreu o teólogo João Batista Libânio

Morreu na quinta-feira, 30, o padre jesuíta João Batista Libânio, grande teólogo brasileiro, da teologia da libertação, mas também da pastoral urbana.



No sítio digital dele (aqui), há de voltar a ser possível conhecer alguns dos seus escritos. E há aqui uma revista digital sobre o seu percurso e pensamento.

Agradeço ao P.e Pedro José, que nos seus tempos brasileiros me deu a conhecer este teólogo.

Anselmo Borges: "Mandela: o milagre do perdão"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.


Ainda se pode dizer algo que não tenha já sido dito sobre Nelson Mandela, perante quem o mundo todo se inclinou, em sinal de respeito e veneração, aquando da sua morte a 5 de Dezembro passado, aos 95 anos? Já antes também.

Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid. Ainda vi, por exemplo, em bancos de jardim ou indicação de praia, a ordem: "Whites only" (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E foi com muita simpatia que me receberam.

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível sem um banho de sangue? Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para a democracia no quadro da coexistência racial. Isso deveu-se certamente também à inteligência política do presidente De Klerk, no novo contexto criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris". É necessário caminhar com a utopia, que nos diz, por um lado, o que não pode ser, porque intolerável, e, por outro, nos indica o caminho do para onde se deve ir.

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

Mandela era cristão. Por isso, sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem que ver nomeadamente com o drama do perdão.

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste "desejo" ou deste "pensamento" do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...