sexta-feira, 8 de março de 2013

Fumo branco para começar a cerimónia que termina em fumo branco

O conclave começa na terça-feira. Dá-me jeito.

Ana Vicente: Mais um 8 de Março...


Texto de Ana Vicente no "Público" de ontem. Interessa-me especialmente do último parágrafo da segunda coluna para a frente.

Os cardeais não se entendem

Os cardeais não se entendem. É o Vatileaks, a pedofilia, o dinheiro, o ecumenismo, o segredo e a transparência, o evangelho e os escândalos. E sabe-se lá que mais. Bento XVI saiu de repente e o ato deixa a descoberto a barafunda da cúpula eclesial. E antes de sair perdoou Paolo Gabriele, que, também se diz, fez um grande bem à Igreja. Estará o Espírito Santo a pairar sobre o caos, como nas primeiras páginas do Génesis. Virá aí um novo Pentecostes? Uma Cúria  Romana 2.0? Os cardeais não se entendem. É capaz de ser bom.

Às 12:53 alterei "Igreja 2.0" para "Cúria Romana 2.0".

Consequências

Repudiado Cristo, o espírito humano pode alcançar os mais perturbadores resultados.

Dostoiévski 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Pedro Casaldáliga e outros: "Deixa a Cúria, Pedro"


Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinédrio e as muralhas,
Ordena que todos os pergaminhos impecáveis
sejam alterados
pelas palavras de vida e amor.

Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.

A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anónimos.

Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.

O povo é apenas um "resto",
um resto de esperança.
Não O deixes só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção - lei e selo - do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.

Diz-lhes, diz-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.

Não te conturbes mais!

Como tu O amas,
ama-nos a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.

Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas...
... a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia,
ecumenicamente, aberto para o mundo.

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia (Brasil), para reflexão pós-renúncia papal.




Texto enviado por F.M., a quem agradeço. Não pude confirmar se é original.

Já o apelo de deixar a cúria, em si, não é absolutamente original. O insuspeito Hans Urs von Balthazar sugeriu que o Papa fosse viver para os subúrbios de Roma e transformasse todo o Vaticano em museus (aqui; ver comentários). Karl Rahner, escrevendo como se fosse o Papa em 2020, pediu um "downsizing" no estatuto do Papa, tão ao contrário do que se tem visto, pois o Papa não precisa de ser, em todos os aspetos,
o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais perante o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens (ler tudo aqui).
E o próprio Bento XVI recordou, com S. Bernardo (p. 77 do livro-entrevista “Luz do Mundo”), que o Papa é “não é um sucessor do imperador Constantino, mas sim o sucessor de um pescador”.

Gostava de lá ir. Mas não vou


Abriu-se-lhes o espírito

A história da ressurreição do crucificado já não faz parte da história terrena de Jesus de Nazaré. No entanto, é a sua meta, para a qual tudo se encaminha e a única a partir da qual a pessoa e a missão de Jesus podem ser entendidas plenamente.

Joachim Gnilka

quarta-feira, 6 de março de 2013

"Nem novo nem velho", diz Feytor Pinto

Feytor Pinto no "Correio da Manhã" de hoje.

Vasco Graça Moura diz que a Europa precisa de um Papa europeu

“Os problemas europeus são também os relativos a valores de humanidade e a uma tradição civilizacional e cultural esquecida, quando não posta de lado. No quadro desses valores avultam, juntamente com os da herança da Antiguidade grega e latina, os da tradição judeo-cristã, ou, se se preferir, do Cristianismo”, escreve Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias" de hoje.

Com a instabilidade que se vive na Europa e tendo em conta o papel histórico do papado e do catolicismo, o diretor do CCB está em crer que “se o Papa seguinte vier a ser um não-europeu, a construção europeia se tornará ainda mais difícil”. Ler tudo aqui.

Páscoa

Assim te alimentarás da morte, que se alimenta de homens, e, morta a morte, nada mais morre.

Shakespeare

terça-feira, 5 de março de 2013

O que é a não pressa dos cardeais?


A decisão do início do próximo conclave é “um procedimento que quer ser aprofundado e não apressado”, disse o porta-voz da Santa Sé. Li aqui. E ouvi de uma fonte bem informada, para a qual não tenho links, que, para além de ainda faltarem cinco cardeais eleitores, como é por de mais sabido, o que acontece é que os cardeais americanos querem tudo em pratos limpos, nomeadamente saber o que está no relatório que três cardeais fizeram a pretexto do Vatileaks e entregaram ao Papa.

“Aprofundado e não apressado”. Traduzo: Isto está lindo. Há uma barafunda nos cardeais e não sabemos como vamos sair daqui.

José Diogo Quintela: Algumas considerações papais

José Diogo Quintela na revista do "Público" de domingo passado.

Até gostava de saber quem mandou fazer estes cartazes






 Até gostava de saber quem mandou fazer estes cartazes. Alguém que gosta muito do cardeal ganês? Ou alguém que quer precisamente afastá-lo?

(Uma hora depois): Parece que foi um grupo de artistas italianos como reação ao facto de o cardeal ter referido as principais necessidades da Igreja, dando a entender, na perspetiva do grupo, que estava em campanha.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Bento Domingues: "Perfil do papa ou perfil da Igreja?"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem. É infeliz a referência à marca Prada (deve ser por causa dos sapatos, que não são Prada, como já foi dito mil vezes; mais uma). O mesmo se diga da "emérita infalibilidade". Mas vale a pena pensar no que diz o texto.

Miguel Esteves Cardoso também escreve sobre o Papa Benedito



Miguel Esteves Cardoso no "Público" de 2 de março:

Já não me lembro do proprietário de uma empresa americana que anunciou que se demitia perante um administrador que o avisou: "You can"t do that - you"re the boss".

Em inglês, lido por um português, resign tem mais força: tanto parece resignar-se (ao destino) como voltar a assinar (uma vez para entrar; outra para sair).

Joseph Alouisus Ratzinger, que terá 86 anos no dia 16 de Abril, foi o Papa Benedito XVI que, por vontade própria, deixou de ser, voltando a ser, com todas as responsabilidades e obrigações que acarreta, o bispo de Roma. Foi um bom Papa - todos os Papas desde João XXIII têm sido bons e, julgando pela lentidão necessária às subtis mudanças para melhor da Igreja Católica, até nem foi o menos progressista.

Dizem, erradamente - até os inimigos - que era um intelectual. Não era. Gostava de ler livros com que estava de acordo e era justo na avaliação dos pseudo-inimigos de outrora (os judeus, por exemplo), mas não tinha, nem podia ter, por causa do espírito (muito provavelmente santo, dentro da corrente do catolicismo e da ética católica), uma atitude minimamente céptica ou desconfiada. Atacava o relativismo - com razão para quem defende qualquer religião - sem pensar no relativismo como verdade possível e potente. Ou seja: não sentia a necessidade real de se defender dele.

Demitindo-se, revelou e admitiu a humanidade dos Papas. Continuando a trabalhar encoraja toda a gente.

Adeus, Papa Bento: continuamos a contar consigo.

Gonçalo M. Tavares: "O incompetente não entrará no reino da Terra"


O poema 37 de "O homem ou é tonto ou é mulher", de Gonçalo M. Tavares, começa assim:
Uma vez abri a Bíblia ao acaso e li:
"É inútil ensinar o imbecil."
Ficamos a saber que de vez em quando lê a Bíblia.

Noutro momento, o mesmo escritor disse que:
Abrir um livro é muito semelhante a entrar numa igreja.
Mas não esclareceu se entrar numa igreja é muito semelhante a ler um livro. Supomos que se trata mesmo de entrar numa igreja e não entrar para uma Igreja. A quantos livros corresponde entrar para uma Igreja?

Gonçalo M. Tavares diz que a sua religião é o novo. Mas com maiúsculas:
A minha Religião é o Novo.
Os pecados da religião dele são o velho, o desoriginal? Qual será o pecado desoriginal? O plágio?

De facto, ele reflete sobres os pecados. Todos os escritores são moralistas. Se não fossem, não escreviam. E ele escreveu no "Público" de 3 de janeiro de 2013:
A moral europeia é, em parte, a moral da máquina. É bom aquilo que funciona. É bom, não apenas em termos de eficácia, mas em termos morais. 
A noção de pecado socializou-se e entrou na esfera da tecnologia. Alguém que não saiba calcular ou que não domine a última versão do Windows comete um pecado. O pecado maior é a ineficácia. Alguém que não funcione bem torna-se um pecador. Os pecados capitais são agora oito: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, vaidade e incompetência. O incompetente não entrará no reino da Terra.

domingo, 3 de março de 2013

Considerações papais de Bento Domingues e José Diogo Quintela

Bento Domingues diz que interessa mais o perfil da Igreja do que o do Papa. Escreve no "Público" de hoje:
Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas.
O texto todo estará por aqui amanhã.

José Diogo Quintela, por seu turno, no mesmo jornal, mas na revista, também faz algumas considerações papais:
Ainda não decidi quem gostaria de ver como próximo Papa. Ou faço como os católicos e analiso os currículos dos candidatos, tento saber o que pensam sobre os temas fundamentais da Igreja e escolho o cardeal mais qualificado - o que me vai dar imenso trabalho - ou faço como os ateus e opto por um preto. 
 É a solução predilecta da esquerda europeia para preencher qualquer vaga que surja no mundo. É preciso um novo Presidente dos EUA? Escolham um preto. Vagou o lugar do Papa? Ponha-se lá um preto. O Le Pen saiu da Front National? Dêem o lugar a um preto. A Miss Universo foi desclassificada por ter implantes mamários? É substituí-la por um preto. Resulta sempre. 
 Face ao benchmarking, é a escolha ideal. Permite um reposicionamento da marca. De uma maléfica multinacional chefiada por um europeu oriundo de uma cultura historicamente colonialista, passa-se para uma simpática ONG liderada por um representante do Terceiro Mundo oprimido. Automaticamente, atacar a Igreja passa a ser racismo.
O texto todo talvez esteja por aqui amanhã.

A noiva e o monstro, que é a mesma, ou seja, nós

Um texto ratzingeriano para reflexão no primeiro domingo sem papa.

Os séculos de história da Igreja estão tão cheios de todo o tipo de falhas humanas que até podemos compreender a visão horrenda de Dante que viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babilónia, ou julgar compreensíveis as terríveis palavras do bispo de Paris, Guilherme de Auvérnia, que no século XIII achava que qualquer um devia ficar horrorizado diante da selvajaria reinante na Igreja: «Já não é uma noiva, mas antes um monstro terrivelmente deformado e feroz […]».

Ler tudo aqui.

sábado, 2 de março de 2013

Pecados cardeais


Está a haver pressão para que os cardeais de alguma forma envolvidos em escândalos, leia-se pedofilia, principalmente por não terem agido com a devida transparência e celeridade (mas quem é que agiu, até há um par de anos?) não participem no conclave. Caiu o escocês (por acusações de conduta imprópria) e fala-se dos ex-arcebispos de Los Angeles e de Bruxelas.

Fica assim patente uma estranha conceção de participação, para não dizer democracia (está dito): só podem votar os puros, os imaculados, os cardeais não pecadores. Levada ao limite, esta conceção trama o Espírito Santo. Como há de Ele escolher o novo Papa se não há nenhum cardeal sem pecado? Se fosse "quem não tiver pecados, atire o primeiro voto", jamais haveria fumo branco.

Fiambre no Coliseu



A Paulus publicou um livrinho sobre o jejum (112 páginas de pequeno formato). Li quase ao acaso um bocadinho que não resisto a partilhar.

“Tenho sempre na retina um grupo de miúdos de um famoso coro a comer pão e fiambre antes da Via-Sacra de Sexta-feira Santa, no Coliseu! Infelizmente, a sexta-feira cristã perdeu a sua identidade, já não tem direito de cidadania, mas a culpa é nossa. Ninguém no-lo tirou. Fomos nós que o quisemos perder” (pág. 66-67).

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...