segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Algumas coisas que aprendi com Bento XVI - 2


Bento XVI disse:

No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.

“Deus caritas est”, 1

Esta frase apareceu no primeiro número da primeira encíclica de Bento XVI. Como é sabido, as primeiras encíclicas de cada papa são programáticas. Ou pelo menos assim são lidas. A de Bento XVI, julgo eu que ninguém tem dúvidas, foi-o. Iniciou um percurso que começou no amor, seguiu pela esperança (“Spe salvi”) e terminou no amor em ação (“Caritas in veritate”). Se alguém esperava uma encíclica sobre a fé, como eu, não a teve. Talvez o Ano da Fé constitua um paliativo.

Penso que será uma das marcas deste pontificado – como deveria ser de todos – a procura do rosto de Jesus Cristo. Os três volumes que sobre Jesus Cristo escreveu mostram precisamente o resultado da procura ratzingeriano-beneditina ao longo dos anos. Parece-me que qualquer teólogo, com o passar dos anos e das investigações, tem a tentação de escrever uma cristologia. Chamemos-lhe tentação teofílica: “Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído” (Lucas 1). Ainda bem que Bento XVI caiu nessa tentação, ainda que mantenha, como noutro ponto já disse, que os três volumes, no panorama da cristologia, são obras menores. Interessam mais para a espiritualidade do que para a teologia – o que talvez, afinal, seja mais importante.

Ter dito, entre outras coisas, que os cristãos devem ser uma minoria criativa vai na mesma linha da afirmação da “Deus caritas est” e, como se costuma dizer, ao arrepio da pastoral vigente, que continua interessada em multidões, massas, e não em minorias, fermentos.

Imaginemos que uma paróquia, diocese, conferência episcopal, etc. leva a sério aquela afirmação de Bento XVI. Continuaria a haver casamentos católicos só porque os noivos querem? E crismas de jovens que não são capazes de dizer três ou quatro ideias da mensagem de Jesus? E batismos de crianças que, obviamente, nunca se encontraram com a pessoa e acontecimento (vida, mensagem) de Jesus? Comunhões de quem não se interessa pela palavra de Jesus?

Levada a frase a sério, o cristianismo talvez se transformasse em seita. Mas antes seita transformadora, pequenos focos de sentido pessoal e comunitário, do que massa sensaborona com saudades da cristandade impossível.

Algumas coisas que aprendi com Bento XVI -1

Bento Domingues: Venha o novo Papa

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

Das costas largas do Espírito Santo

Anda para aí uma teoria da dupla verdade, como na Idade Média. Diz respeito ao Papa. É mais ou menos assim: "Eu acho que o próximo Papa devia fazer isto mais aquilo e aquilo, por isso devia ser esta pessoa com estas características mais aquelas. Mas quem vai decidir é o Espírito Santo e esse será o meu Papa".

Ontem Marcelo Rebelo de Sousa, depois de conjeturar sobre tudo e coisa nenhuma, como é costume, disse: "Mas o Espírito Santo é que vai decidir". Nem sei por que hão de gastar dinheiro no conclave, ao preço a que as viagens estão. Mais valia fazerem um sorteio, como no livro dos Atos dos Apóstolos, para a eleição de Matias. Poupava-se dinheiro, tempo e a responsabilidade ficava toda do lado do Espírito Santo.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Estou a pensar em não permitir comentários anónimos no meu blogue - como alguns, aliás, me têm aconselhado. Ainda não decidi, mas penso nisso. É muito triste porque, suponho, um blogue como este só interessará a cristãos. A temática é cristã-católica. O que significa que alguns comentários anónimos, cheios de má educação e ódio, com calúnias e mau gosto, por vezes também dirigidos a mim, são escritos por cristãos. Quando são dirigidos a mim, tolero. Entristeço-me é quando são dirigidos a terceiros.

Tenho defendido o anonimato porque "não saiba a tua mão esquerda o que fez a direita", porque para fazer o bem não precisamos de dar o nome, porque pode haver razões positivas para esconder a identidade. Mas a cobardia não é uma delas.

A possibilidade do anonimato não é uma obrigação. Quem quiser pode sempre identificar-se. Infelizmente, dá azo à inveja, à maledicência, à maldade, o que muito me entristece.

Se decidir não permitir comentários anónimos, haverá sempre a possibilidade de identidades falsas. Em todo o caso, é a alternativa que está em cima da mesa.

João Miguel Tavares: "Papa interrompido"



Texto de João Miguel Tavares no "Público" de 15 de fevereiro.


Precisamente uma semana antes de Bento XVI anunciar a sua resignação, estreou-se na televisão americana o novo documentário de Alex Gibney "Mea Maxima Culpa - Silence in the House of God". Gibney é um dos mais conceituados documentaristas da actualidade, vencedor de um Óscar em 2007 por Taxi to the Dark Side, e aplica aqui todo o seu talento a desvendar a longa e vergonhosamente impune história dos abusos do padre Lawrence Murphy durante os anos 60 e 70, quando violou mais de 200 crianças surdas numa escola católica do Milwaukee. Mea Maxima Culpa é um documentário chocante, revoltante e arrasador, que não deixa quaisquer dúvidas sobre as responsabilidades da hierarquia da Igreja Católica no encobrimento de milhares de casos de pedofilia em todo o mundo.

Gibney começa em Murphy e acaba em Ratzinger, e é a linha que leva de um a outro que é exibida com uma clareza inédita. Há mais excelentes documentários sobre este tema - como Livrai-nos do Mal, de Amy Berg -, mas nunca nenhum deles tinha chegado tão próximo, e de forma tão sustentada, das paredes do Vaticano. Bento XVI, justiça lhe seja feita, não fechou os olhos ao problema da pedofilia de forma tão escandalosa quanto João Paulo II (santo?, a sério?), mas também não foi capaz de pôr cobro ao maior dos pecados da Igreja Católica: colocar invariavelmente os interesses da estrutura à frente dos interesses dos mais desprotegidos, espezinhando o Evangelho que tem por missão proteger.

E tudo isto por uma única razão: manter a imagem de instituição exemplar. Impondo o interesse da Igreja como supremo bem, e não sendo ao mesmo tempo capaz de lidar com o escrutínio da modernidade, o Vaticano transferiu padres violadores de paróquias em paróquias, pagou dois mil milhões de dólares em indemnizações, tentou comprar silêncios, ameaçou com excomunhões, protegeu sacerdotes e bispos até ao fim. Há uma lógica fundamentalista que dá sentido a essa protecção. "Ninguém tem direito a receber o sacramento da Ordem", lê-se no catecismo. "É-se chamado a ele por Deus." E se é Deus quem chama, quem é o Homem para dizer que um pedófilo não pode ser padre? Eis a armadilha ontológica do sacerdócio católico: tanto se quer aproximar o padre da imagem de Cristo que a Igreja perde a capacidade para lidar com a sua mais trágica humanidade.

Joseph Ratzinger viveu uma vida preso nessa armadilha, mas é provável que ao chegar a papa tenha sentido que ela se fechava demasiado sobre si. Basta ler o livro de Gianluigi Nuzzi Sua Santidade, escrito a partir das cartas secretas conhecidas como "Vatileaks", para se perceber a dimensão homérica de intriga palaciana, e a incapacidade do Papa em lidar com ela. Ora, a sua renúncia é o mais radical gesto contra este estado de coisas. Ao abdicar, Ratzinger institui que o exame de consciência de um indivíduo, realizado perante Deus, se sobrepõe às tradições milenares da Santa Madre Igreja. É um gesto revolucionário, que dessacraliza o cargo que João Paulo II cultivou como se fosse a nova cruz. Esta resignação não faz de Bento XVI nem um herói, nem um santo. Mas faz dele um homem e pode obrigar o Vaticano a descer das nuvens onde tem escondido as maiores barbaridades em nome de uma pureza falsa como Judas.

"Venha o novo Papa", diz Bento Domingues no "Público" de hoje

Começa assim:


1. O Código de Direito Canónico (Cân.401) reza assim: roga-se ao bispo diocesano, que tiver completado 75 anos de idade, que apresente a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice. O cardeal Ratzinger, quando foi eleito Papa, isto é, bispo da diocese de Roma, testemunha da fé apostólica de Pedro e Paulo, em comunhão e ao serviço dos bispos das outras dioceses da Igreja Católica, já tinha 78 anos. Quanto à idade, um bispo diocesano merece mais cuidados do que um Papa, que tem uma responsabilidade muito mais ampla e pesada.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Tolentino sobre Ruy Belo


Na "Ler" 121, de fevereiro de 2013. Um texto de Tolentino Mendonça. Eu gosto do que Tolentino Mendonça escreve e gosto de Ruy Belo, embora conheça pouco deste poeta. Gastei umas tardes, maravilhado, a ouvir "A margem da alegria", sobre Inês de Castro, porque me ofereceram o poema em CD (duplo). Corria o ano de 2004 e desde então deu para perceber, eu, porque outros já perceberam há muito, que Ruy Belo está no lote dos maiores poetas portugueses do séc. XX (reparei agora que este blogue tem um poema Ruy Belo).

Como tem sido habitual nos últimos tempos, este texto vai gerar mais comentários negativos sobre Tolentino Mendonça. É pena. Principalmente porque anónimos. Mas já vou estando habituado cá por estes lados. É Tolentino, é Bento, é Anselmo, é Opus, é... Ninguém gera consensos absolutos, claro está. Mas eu desejaria que ao menos não se gerasse maledicência gratuita. Crítica, com certeza, mas com rosto.

O Reino de Jesus - 2

Todas as parábolas de Jesus, semeaduras, crescimentos, ou banquete de núpcias, obscuras para aquele que acredita saber tudo, mas luminosas para aquele que aceita contemplar, evocam esta realidade maravilhosa: Deus está disposto a subverter o nosso mundo para que o amor, enfim, aí tome o poder. É isso o Reino.

Jean-Noël Bezançon

Anselmo Borges: "Bento XVI resigna. E depois?"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Julgo que não se consegue imaginar o peso que cai em cima de quem aceita ser Papa. Torna-se o responsável primeiro pela Igreja Católica, com 1200 milhões de fiéis. Uma Igreja vergada sob a rigidez da tradição e talvez a única instituição verdadeiramente global, portanto, confrontada com múltiplas sensibilidades, problemas e aspirações: as questões dos europeus não são as dos norte-americanos, dos sul-americanos, dos africanos, dos asiáticos, dos australianos. É uma figura de relevo mundial, com imensa influência política no mundo, mas sujeito aos seus jogos, manhas e ardis. Mesmo viajando pelo mundo inteiro, fica a viver num pequeno território, com os seus rituais seculares e rígidos. Num mundo de homens. Só, onde, quando e como contacta com a família e com os amigos? E os olhos de todos estão sobre ele. Quase sem vida privada. Monarca absoluto, mas com todos os passos vigiados. Qual é o seu poder real? O Papa João XXIII, interrogado por um estudante num Colégio universitário pontifício: "Santidade, como é sentir-se o primeiro?", terá respondido: "Está enganado. Pus-me a contá-los e eu, lá no Vaticano, devo ser o quarto ou quinto."

Bento XVI não foi sempre conservador. Ainda só professor, escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Também escreveu que era necessário repensar a descentralização da Igreja, abrindo um debate sobre o primado papal. Opondo-se à teologia da "satisfação" que situava a Cruz "no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido", rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa". Defendeu, com outros grandes teólogos, a necessidade de debater a questão do celibato obrigatório.

Quando, jovem professor de Teologia, chegou ao Concílio Vaticano II como assessor do cardeal J. Frings, de Colónia, foi crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios e foi provocador, criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Em 1968, frente à revolução de estudantes ateus de Teologia, teve medo, encontrando-se aí o ponto decisivo para a sua orientação conservadora; abandonou então a Universidade de Tubinga e o colega e amigo Hans Küng, para ir para Ratisbona. Depois, foi feito arcebispo de Munique e, mais tarde, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou dezenas de teólogos.

Aceitou o papado como "humilde servidor da vinha do Senhor". Deixa uma marca num tema que lhe é caro: a exigência do diálogo entre a fé e a razão; acabou por ser duro e inequívoco contra a pedofilia na Igreja; prosseguiu, embora timidamente, o diálogo com as confissões cristãs e as diferentes religiões, em ordem à paz; condenou sistematicamente a ditadura financeira sem regulação.

Percebeu que não controlava a Cúria, mergulhada em escândalos de corrupção e intrigas, até ao Vatileaks. Foi admoestando cardeais para "renunciarem ao estilo mundano de poder e glória", e dizendo que lhe coubera viver o pontificado de "um pastor rodeado de lobos". Queixava-se: "Os javalis entraram na vinha do Senhor." O cardeal W. Kasper foi advertindo que Bento XVI andava "muito triste" com o péssimo clima no Vaticano.

Fragilizado, sentindo-se sem forças no corpo e no espírito, anunciou que resigna no próximo dia 28, às 20.00 (19.00 em Lisboa e Funchal). Um gesto de inteligência, honestidade e humildade, que fica para a História, pois quebra um tabu e mostra que o Papa é tão-só um servidor da Igreja e do mundo, continuando humano, também com as suas debilidades. Depois, retira-se para um convento, para rezar, meditar, tocar e ouvir música, escrever, mantendo o apagamento. Os cardeais elegerão um novo Papa. Talvez europeu ou latino-americano.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dois modos de agir, uma mesma fidelidade, ponto de interrogação

Mais um exercício de contorcionismo papal. Têm sido muitos por estes dias. Parece ser assim: “Santo Padre, faço o que quiser que a gente justifica”. O gesto de Bento XVI desencadeou páginas e páginas disto.

Digo contorcionismo papal porque, por muito que queiram, ainda que haja “uma mesma fidelidade”, os gestos são opostos. Bento XVI diz-nos que não quer ter um final como João Paulo II.

Por outro lado, há, na realidade, há cristãos que se sentem defraudados. Como os compreendo. São mais coerentes do que os que se perdem em encómios para com Bento XVI. Há movimentos ditos conservadores que estão desiludidos com este Papa e receiam que seja eleito um mais novo, pois é essa uma das leituras possíveis quanto ao significado da resignação de Bento XVI. Alguém com forças.

O texto seguinte, de Miguel Almeida, padre jesuíta (diretor do CUPAV - Centro Universitário Pe. António Vieira, Lisboa), veio no “Público” de ontem.

 Há mais ou menos oito anos víamos como um Papa, o Papa João Paulo II, resistia até ao extremo das suas forças para levar até ao fim a missão que lhe fora confiada. Agora soubemos que outro Papa, o Papa Bento XVI, apresentou a sua renúncia. 
Há oito anos, muito se discutia, dentro e fora da Igreja, se João Paulo II devia "abdicar", já que estava manifestamente incapacitado para exercer convenientemente o seu mandato, devido à idade e à falta de saúde. Entre os fiéis católicos, porém, muitos defendiam que o Papa devia permanecer na Sede de Pedro até ao fim dos seus dias. Era, diziam, um testemunho para o mundo. Um mundo em que as pessoas idosas contam pouco mais que nada, em que a imagem é tudo, um mundo que valoriza as pessoas por aquilo que fazem e não pelo que são. O Papa Wojtyla surgia então como uma luz, ténue é verdade, mas uma luz que iluminava caminhos de fidelidade e de compromisso, bem para lá do "apetecer" ou da imagem a manter. E esta foi a opção clara de João Paulo II. Discutível? Sim. E a atitude assumida hoje por Bento XVI mostra, pelo menos, que há outros caminhos. Mas a posição de João Paulo II foi, então e de facto, um testemunho de fidelidade e de entrega como poucos. 
Surpreendentemente, Bento XVI apresentou aos cardeais em Consistório a sua renúncia: "Bem consciente da gravidade deste acto - afirma o Papa -, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro." As razões são declaradas com uma lucidez, humildade e clareza notáveis: "... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado." 
Esta decisão apanhou o mundo inteiro de surpresa. Percebeu-se pelas reacções dos próprios cardeais que, até para os colaboradores mais directos do Papa, esta declaração não era de todo esperada. De facto, assim reagiu o cardeal decano, Angelo Sodano: "Ouvimo-la [a sua comovida comunicação] com um sentimento de perplexidade, quase completamente incrédulos." Por muito apoiada e bem acompanhada que uma pessoa esteja, as grandes decisões da vida são tomadas na solidão. Ainda mais quando a pessoa de quem falamos é um Papa. Ainda mais quando a decisão que ele toma é algo que muito raramente aconteceu na história da Igreja e que altera necessariamente o modo de pensar e de actuar a que nos habituámos. Para quem tanto fora acusado de tradicionalista e retrógrado, há que lhe reconhecer a liberdade e a coragem de assumir uma opção que é tudo menos tradicional. Um Papa não abdica. Pelo menos assim diz a tradição. Com esta renúncia, Bento XVI sabe que está a abrir novas portas no modo de exercer o Papado, está a fazer Tradição. 
O interessante, no meio de todo este acontecimento, é que os cristãos não se sentem defraudados. Mesmo aqueles que defenderam que João Paulo II devia permanecer na Cadeira de Pedro até morrer, sentem hoje uma paz grande - depois da perplexidade própria da surpresa - ao lerem o discurso de renúncia de Bento XVI. Porquê? É que a motivação que levou o Papa Wojtyla a manter-se até morrer e que conduz o Papa Ratzinger a resignar é uma e a mesma motivação. São tão-só dois modos antagónicos de viverem e exprimirem o amor inquestionável à Igreja e ao mundo. Para um, o testemunho de ficar até ao fim era, então, essencial para mostrar como "da cruz não se abdica"; para o outro, a necessidade que o mundo actual tem de uma Igreja que possa responder às "rápidas mudanças e às questões de grande relevância para a vida da fé", requer um Papa cujo vigor Bento XVI sente escapar-lhe. 
As opções são diferentes, mas a fidelidade à missão de Pedro é a mesma: anunciar a liberdade com que Cristo nos libertou.

Portocarrero de Almada: Sinais de contradição

Um crónica de 11 de fevereiro, no "i". Já cá deveria ter sido posta, mas só agora saiu do vórtice da resignação papal. Eu também não gosto do carnaval. Ou pelo menos do carnaval-que-temos.

Reino de Jesus

Jesus fala do Reino de Deus. Ele não fala como de um outro mundo, destinado a fazer-nos esquecer os cuidados deste mundo, como num conto de fadas. Este Reino é o mais profundo do nosso mundo, para aquele que tem olhos para ver:é o nosso mundo quando o olhamos como o domínio de Deus. É aí onde Deus reina, já aqui e agora.

Jean-Noël Bezançon

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Algumas coisas que aprendi com Bento XVI - 1

Bento XVI disse:

A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na «economia» da caridade, mas esta por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente se não mesmo refractário à mesma.

Caritas in veritate, 2

Não digo que o Papa tenha posto no lixo aquela expressão "a verdade na caridade", que nas suas aplicações habituais transformava a verdade numa verdadezinha, logo menos verdade, e contaminava a caridade. Mas reforçou, sem dúvida, a necessidade de busca da verdade como condição de vida cristã (vida enquanto pensamento e ação).

Certamente que a verdade é um fim. Mas também é uma condição quando aliada ao amor. Mas pelo facto de o amor ser mais alto, não deve deturpar a verdade. Pelo contrário, exige que ela seja sempre cumprida. Espanto-me por isso que alguns ratzinguerianos, e o próprio papa, em algumas circunstâncias ajam como quem tem medo da verdade. Na investigação teológica por exemplo (penso em Ratzinger enquanto prefeito da CDF e enquanto autor dos livros sobre Jesus). A questão não foi, boa parte das vezes o "se é verdade", mas antes o "se está de acordo com o Magistério", quando ambos, teólogos e Magistério devem ser servidores da verdade.

Em resumo, a verdade como imperativo da vida cristã (lá haveremos de chegar à questão do relativismo) é um dos legados de Bento XVI. Assumir a verdade em todos os âmbitos da vida eclesial e na relação com o mundo, no mundo, provocará muita dor.

Que título para Bento XVI?

Quando João Paulo II morreu, tentaram colar-lhe o "Magno" ao nome. Não colou. Pelo menos por agora, que estas coisas levam tempo.

Que título podemos dar a Bento XVI / Ratzinger? O Teólogo? Não creio. Ratzinger é um grande teólogo no panorama atual, mas é irrelevante na teologia dos séculos XX e XXI. Os livros sobre Jesus, passado o pontificado, vão ser esquecidos. Não trazem nada de novo à teologia e a investigação histórica e teológica já está mais à frente. Talvez alguma das suas outras obras, que estão a ser publicadas nas obras completas, seja importante. Como não leio alemão, desconheço. Bento XVI, o Breve?

Outra notícia do dia 11: "Patriarca fica mais um ano"


Notícia do "Correio da Manhã" de 11 fevereiro, o dia em que o raio caiu do céu sobre o Vaticano e obnubilou tudo em termos mediáticos. Registe-se o aparecimento de um quarto candidato. Ou seja, o segundo depois de D. Manuel Clemente, já que D. António Marto é demasiado nortenho para Lisboa (não é candidato real). Mais depressa vai parar ao Porto. E D. Carlos Azevedo já por lá passou. Se lá fosse desejado, não teria sido "promovido" para Roma. 

Quaresma


O papa Bento XVI apelou hoje [13 de fevereiro de 2013] ao fim da "hipocrisia religiosa" e "rivalidades" dentro da Igreja Católica, na sua última missa na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

É o que diz o DN. Levar a sério este apelo provocaria (uso condicional porque não tenho ilusões sobre a sua concretização de hoje para a amanhã) um novo Pentecostes. Nasceria outra Igreja. E teríamos de arranjar-lhe outro nome. Como me dizem uns amigos, não os imaginava tão perto de Bento XVI, “Igreja é sinónimo de hipocrisia católica”.

Nota às 10h48: Vale a pena ler os comentários que se seguem, especialmente o primeiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

13 de fevereiro de 1130. Morre o Papa Honório II



Lamberto Scannabecchi foi eleito no dia 21 de dezembro de 1124. Dizem que através de um suborno. No entanto Honório II foi um Papa decente.

Liderou a Igreja católica até ao dia 13 de fevereiro de 1130. Morreu aos 55 anos. No seu pontificado realizou-se o Concílio de Troyes (1128), que estabeleceu a regra da Ordem dos Templários.

Bento Domingues: As religiões não são todas iguais


A resignação do Papa foi um vórtice que engoliu tudo. Eu, por, exemplo, esqueci-me de pôr aqui o texto de Bento Domingues. Começa com esta tirada impagável:
Na polémica com os liberais, o católico ultramontano Louis Veuillot (1813-1883) assumiu uma posição que ficou célebre: "Quando estou em situação desfavorável, em nome dos vossos princípios, exijo a liberdade; quando estou em posição forte, em nome do meu antiliberalismo, nego-vos a liberdade".

Louis Veuillot, o antipatrono da liberdade

Hans Kung sobre a resignação

Ele fez uma escolha secular como se fosse um simples Presidente da República. (...) Nunca imaginei que este Papa me pudesse surpreender um dia de forma positiva.

Hans Kung

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Anselmo Borges: Sobre a resignação de Bento XVI

No DN de hoje, aqui:

Percebo e não percebo o aparente choque que se apoderou da opinião pública. Para mim, foi surpresa por ter sido ontem. Mas estava convencido de que, mais tarde ou mais cedo, isto iria acontecer. Aliás, ele próprio já há dois anos tinha afirmado que, se sentisse que já não tinha forças para continuar à frente do governo da Igreja, resignaria.

Foi um gesto de grande coragem, lucidez e honestidade. Reflectiu em consciência e fê-lo em plena liberdade - foi bom que o tenha declarado. Já não sente forças no corpo e no espírito, disse também. Os problemas do mundo actual, com incidência na fé, são gigantescos e a Igreja precisa de alguém com mais energia e vigor.

Penso que uma das causas maiores do desgaste foi a sua incapacidade para reformar a Cúria Romana, questão essencial para o futuro da Igreja - ele próprio se queixou de que lhe sonegavam informações. Houve uma série de escândalos, desde a pedofilia à corrupção, do Vatileaks às intrigas no Vaticano, com correntes que se digladiam e preparam para a sucessão. Bento XVI é um homem afável e quase tímido - foi a impressão que me ficou da vez em que estive com ele. É um intelectual e não um homem da administração e, assim, na impossibilidade dessa reforma, resignou.

Deste pontificado fica a importância do diálogo entre a fé e a razão, a condenação sistemática da especulação financeira sem regulação, a continuação do diálogo com as outras confissões cristãs e com as diferentes religiões, o apelo a dois Estados soberanos: um israelita e outro palestiniano, a possível abertura ao preservativo.

O sucessor? Ninguém sabe. Mas, no meu entender, deve ser profundamente cristão, seguir Jesus no seu Evangelho, relativamente jovem, com capacidade de reformar a Cúria, próximo das pessoas e dos seus problemas reais. Mais interessado nas pessoas do que na instituição. Penso num João XXIV.

Capas de Bento na imprensa portuguesa de hoje






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Para onde vai Bento XVI - 2

Vídeo retirado do sítio da Rádio Renascença. Um comentador deste blogue, Pedro, escreveu que o porta-voz do Vaticano já explicou para onde vai Bento XVI.Procurei o vídeo. A resposta surge aí pelos 1:45. Primeiro, Bento XVI vai para a residência de Castel Gandolfo e depois para um mosteiro de irmãs de clausura no Vaticano.

Inevitável começar-se a falar dos sucessores de Bento XVI

O "Público" diz que o ganês Peter Turkson é o preferido. Não me parece. Vai ser um europeu. Italiano. Do norte. Da eScola de Ratzinger. Ou então um do sul. Mas de outro hemisfério e a falar latino.

Para onde vai Bento XVI?


Não sei se já alguma coisa foi dita oficialmente sobre isto. No meu papel de tudólogo, acho que vai para um convento, mosteiro ou algo do género. Beneditino. Com uma boa biblioteca. O de Monte Cassino reúne as condições. Foi fundado pelo primeiro Bento. E tem boas vistas.

Bento e os ventos

Ouvindo os comentadores (vi na TVI do café ao lado), parece que a resignação era esperada e que Bento XVI fez muito bem.

Se ele tivesse morrido no ofício, diriam o mesmo? Que era esperado e que fez muito bem? Que era esperado que não resignasse e que fazia muito bem em não resignar? Parece-me que sim.

Quando morreu João Paulo II, não me lembro de nenhum comentador eclesiástico dizer que já deveria ter renunciado. Todos invocavam o "não se renuncia à paternidade" de Paulo VI. E ai de quem dissesse o contrário. Eu dizia. Na altura ouvi que era uma desconsideração da velhice, um ir na onda das organizações mundanas (e a Igreja também não é isso?), até uma falta de fé.

E se há dias alguém dissesse que o Papa deveria naturalmente resignar como qualquer bispo, diriam que não pode ser assim, que é diferente, blá-blá-blá. Hoje, parece natural que tenha de ser assim.

Bento XVI é grande na hora de saída. Os comentadores (os que eu ouvi) vão conforme lhes dá o vento.

O Papa vai renunciar no dia 28 de fevereiro

O Papa vai renunciar no dia 28 de fevereiro.

Grande decisão a de Bento XVI. Só falta que o Bispo de Roma faça como todos os outros, que aos 75 anos apresentam a disponibilidade para deixarem de estar à frente das suas dioceses. Quem diz 75 diz 80 ou qualquer outra idade. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A mensagem do Papa para a Quaresma diz 28 vezes caridade

Quando tinha frutos também tinha ninhos

A mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2013 (li-a aqui) insiste na relação entre fé e caridade. “Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente”. O Papa diz que tanto é “redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo” como é igualmente redutivo “defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o ativismo moralista”.

Claro que o Papa não é pelagiano porque diz que as obras de caridade “não são fruto principalmente do esforço humano, de que [alguém poderia] vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância”.

A mensagem não é muito provocadora, como penso que seria desejável num texto que afirma que estamos a entrar num tempo precioso de reavivar a fé. Mas tem elementos suficientes para quem quiser um pouco de metanóia. A principal provocação é ao mesmo tempo uma das frases mais ignoradas de Bento XVI, pelo menos nas suas consequências. Afirma ele, citando-se a si próprio (“Deus caritas est”, 1):

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro».

Pode haver fé (e logo caridade) sem este encontro pessoal? Porque continua a Igreja a dar sacramentos (todos eles) a quem manifestamente não dá sinais do encontro pessoal? Basta começar pelo Batismo e necessariamente chegar o Matrimónio, como, aliás, há dias o Papa já disse. Encontros pessoais não se delegam por muita fé que tenham os delegados.

Bento Domingues: "As religiões não são todas iguais"


As religiões não são todas iguais e nem tudo é santo nas religiões, diz Bento Domingues no seu texto de hoje no “Público”.

O dominicano começa por citar um ultramontano, Louis Veuillot (1813-1883), que disse algo que hoje tem perfeita aplicação em muitos muçulmanos, talvez mais nos líderes, que querem liberdade religiosa nos países de minoria muçulmana, mas odeiam-na nos países árabes: "Quando estou em situação desfavorável, em nome dos vossos princípios, exijo a liberdade; quando estou em posição forte, em nome do meu antiliberalismo, nego-vos a liberdade".

E aponta o edificante – o adjetivo é a minha opinião – exemplo norueguês:
A Noruega não parece disposta a aceitar a chantagem terrorista. O Governo norueguês aceita a construção de mesquitas no seu território. Não admite, porém, que a Arábia Saudita e os seus homens de negócios entrem com milhares de milhões para financiar esplendorosas mesquitas e continuem a impedir a construção de igrejas cristãs no seu país. Exige reciprocidade.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, Jonas Gahr Stor, levará esta exigência ao Conselho da Europa.
Bento Domingues conta ainda como Jesus não respeitou a integridade da Sagrada Escritura, o mesmo é dizer a relação das religiões com a violência. Esse é mais um dos motivos para admirar, se de mais não formos capazes, Jesus Cristo. O texto na íntegra estará por cá amanhã.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O latim como deve ser



No “Q” (DN) de sábado passado – eu já cá deveria ter falado disso, mas passou-me – falou-se do latim como deve ser. Ou seja, pelo seu valor cultural e não pela sua pseudo-importância religiosa.

Temas principais das 15 páginas dedicadas ao latim:

- “Uma antiga herança europeia” – como o latim ajudou a definir a Europa; 
- “Aprender latim no século XXI” – um ateliê mostra aos mais novos como a língua continua viva em palavras que usamos todos os dias; 
- “A «Eneida» a um policial de 2011” – sobre os 84 mil títulos em latim que a Amazon tem no seu catálogo; 
- “Entre a música sacra e Rodrigo Leão” – um percurso pela história da música; 
- “O São Sebastião de Derek Jarman” – sobre o primeiro filme britânico abertamente «gay», todo ele falado em latim; 
- “A primeira língua franca da ciência” – sobre o «Sidereus Nuncius» de Galileu e o uso do latim para a divulgação do conhecimento científico.

"Sidereus Nuncius"

Anselmo Borges: O cristianismo e o islão em diálogo?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (o da semana passada, sobre o mesmo assunto, pode ser lido aqui):


Asua finalidade é estabelecer pontes para o diálogo entre as religiões e as culturas. Olhando para o futuro, elaborou já um programa de actividades, como: colaboração multi-religiosa para a sobrevivência e bem-estar das crianças - o primeiro projecto terá lugar no Uganda, em aliança estratégica com "Religiões pela Paz" -, um ciclo de conferências sobre "a imagem do outro", um projecto internacional para futuros professores de religião e líderes religiosos com um profundo compromisso com o diálogo inter-religioso e intercultural.

Estou a referir-me ao Centro Internacional para o Diálogo Inter-Religioso e Intercultural King Abdullah bin Aziz (KAICIID), com sede em Viena, cujo Comité Directivo se reuniu pela primeira vez nos dias 1 e 2 de Fevereiro, em Madrid, como aqui anunciei no sábado passado. Os seus fundadores são a Arábia Saudita, a Espanha e a Áustria. Tem o nome do monarca saudita, que teve a iniciativa.

Como não saudar e colaborar com o que é hoje o maior centro mundial de diálogo? O próprio Papa Bento XVI o fez e a Santa Sé (Vaticano) assumiu o papel de observador fundador.

Mas, evidentemente, há perguntas que têm de ser feitas e problemas que não podem ser ignorados.

Assim, pergunta-se legitimamente se vai ser possível e quando um encontro do Comité Directivo do KAICIID, com representantes das grandes religiões mundiais, em Riade ou na capital de outro país islâmico. De facto, o diálogo não pode ser unidireccional. Por isso, também se pergunta, por exemplo, quando é que a liberdade de construção de mesquitas no mundo de influência cristã será acompanhada da mesma liberdade de construção de igrejas nos países de influência islâmica. De qualquer forma, o cristianismo é hoje a religião mais perseguida do mundo, a ponto de se falar em autêntica cristianofobia, e essa perseguição dá-se também em países de orientação islâmica, sem que sejam suficientemente claros e fortes os protestos dos seus responsáveis políticos e religiosos.

Evidentemente, seria abusivo generalizar, mas é necessário reconhecer que a raiz dos problemas é, porém, mais funda e tem a ver com três ordens de questões: a interpretação dos textos sagrados, a separação da religião e da política e a atitude de Jesus e de Maomé face à violência.

A atitude dos cristãos ao longo dos séculos e também da Igreja Católica enquanto instituição não foi de modo nenhum exemplar. Pelo contrário, foi frequentemente vergonhosa no que se refere a estes três domínios. Mas, quando pensam nas origens, na atitude de Jesus e no que ele verdadeiramente quis, os cristãos têm de arrepender-se e arrepiar caminho.

Nunca os teólogos cristãos afirmaram que a Bíblia foi ditada por Deus: é Palavra de Deus em palavras humanas. Por isso, mais tarde ou mais cedo, teriam de abrir-se a uma leitura histórico-crítica e à hermenêutica. Mas, no islão, afirma-se, de modo geral, que o Alcorão foi ditado por Deus e, por isso, tantas vezes os teólogos islâmicos que exigem uma hermenêutica histórico-crítica, não podendo fazê-lo livremente nos seus países, tiveram de refugiar-se em universidades europeias e norte-americanas.

Jesus disse que se deve "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Tem aqui um dos seus fundamentos a separação da Igreja e do Estado, em ordem à salvaguarda da liberdade religiosa. Mas, no islão, continua, com raras excepções, a confusão dos dois planos, tanto mais quanto Maomé foi simultaneamente um líder religioso, político e militar.

Maomé entrou vitorioso em Meca, após anos de combates, e expandiu o islão, certamente mediante a força da palavra e do exemplo, mas também com a luta pelas armas. Jesus, porém, entrou pacificamente na cidade de Jerusalém, para apresentar e oferecer o seu projecto de Reino enquanto Reino de graça e de amor entre os seres humanos. Quando Pedro puxou pela espada, mandou que a metesse na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre, e ele próprio foi crucificado por quem não aceitou a sua mensagem.

A aprendizagem que tanto custou à Igreja Católica terá de ser também o caminho doloroso, mas urgente, do islão.

A ovelha Madalena

A escritura cumpriu-se em ti; pois diz que a ovelha perdida
Foi encontrada e que Jesus levou-a nos braços até ao rebanho

Excerto de uma oração do séc. XV "a Maria Madalena"

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mais um artigo arrojado: Os jesuítas são os luteranos católicos; e os opus são os calvinistas católicos

Há dias pus aqui um artigo de Pedro Arroja, que ultimamente tem vindo a refletir sobre a catolicidade da Igreja e do país.

Ontem, no jornal “A Ordem”, saiu o que a seguir reproduzo. Tem a sua piada, embora, na minha perspetiva, ainda que haja comparações entre Lutero e Inácio, o otimismo jesuíta não se coaduna com o pessimismo luterano (segurança antropológica jesuíta versus insegurança luterana). Mais parecidos com os luteranos eram os jansenistas, ambos fruto de tendências agustinianas exacerbadas. Ora, jesuítas e jansenistas não se podiam ver nem pintados, ainda que ambos andassem de preto (o preto dos jesuítas, diz a lenda, era do mais negro que há desde que o decretasse o superior, ainda que fosse branco).

O jornal “A Ordem”, quinzenário, é do Porto, de um grupo de leigos, suponho, e vai no centésimo ano de publicação.

Posso já adiantar que a edição de 21 de fevereiro traz novo artigo de Pedro Arroja. Desta vez o economista reflete sobre a “religião pública” que deve ser o catolicismo. Se o catolicismo está cada vez menos público (“os representantes da Igreja deixam de estar presente nas cerimónias oficiais, os padres agora raramente aparecem em debates na televisão…”), é porque está a privatizar-se, ou seja, a protestantizar-se. Como sei? O número de 21 de fevereiro já saiu hoje.




Perdão e poder

O perdão é, antes de mais, um ato de libertação. Liberto-me da energia negativa que surgiu em mim através da mágoa. E liberto-me da ligação ao outro. Quando não perdoo, continuo ligado àquele que me magoou. E, desse modo, estou a permitir que ele continue a ter poder sobre mim. No perdão, liberto-me do seu poder.

Anselm Grun

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

7 de fevereiro de 1550. É eleito o Papa Júlio III


Concílio de Trento

Júlio III sucedeu ao Papa Paulo III. Foi eleito no dia 7 de fevereiro de 1550 e liderou a Igreja Católica até ao dia 23 de março de 1555. Morreu de gota.

No dia 13 de dezembro de 1545, este Papa, com uma oração, abriu o Concílio de Trento, que duraria até 1563.

O pecado pode ser perdoado antes de ser cometido?



Um pecado pode ter um perdão adiantado, antes de ser cometido? Não é este o enredo principal do filme, mas reconheça-se que sem o contexto católico o drama não teria tanto sentido.

Deus escondido

Aprendam ao menos qual é a fé que rejeitam, antes de rejeitá-la. Se esta religião se vangloriasse de ter uma clara visão de Deus e de possuí-la abertamente e sem véus, seria efetivamente um modo de combatê-la o dizer que não se vê nada no mundo que no-la mostre com tal evidência. Mas o cristianismo diz, ao contrário, que os homens estão nas trevas e no forçado afastamento de Deus, que ele se escondeu do conhecimento deles, que é precisamente este o nome que ele a si mesmo se dá nas Escrituras; Deus escondido, Deus absconditus...

Blaise Pascal

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dinheiro 5 - O banqueiro católico



Mesmo ao fundo. Fernando Ulrich: "O que tinha de aprender, aprendi com a minha família, na escola e na Igreja Católica. Não tenho de pedir desculpa a ninguém."

Deus absconditus

Se esta religião se vangloriasse de ter uma clara visão de Deus e de possuí-la abertamente e sem véus, seria efetivamente um modo de combatê-la o dizer que não se vê nada no mundo que no-la mostre com tal evidência.

Pascal

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Dinheiro 4 - A Nobel generosa

Da última página do "Público" de hoje. Ela, que dizia que não se deve amar a humanidade, mas sim as pessoas (aqui). 


Dinheiro 3 - O ladrão piedoso


Mais dinheiro, ou falta dele. No JN de hoje. Quase que o padre lhe dava as pratas, como o bispo a Jean Valjean.

Dinheiro 2 - O sacristão careiro


Mais questões de dinheiro. No "Correio da Manhã" de domingo.

Dinheiro 1 - O boicote à Páscoa


Notícia do JN de ontem. “Paroquianos sem missa ameaçam boicotar Páscoa”. Só pelo título poderíamos fazer muitas leituras. Se os paroquianos não têm missa, que é uma celebração pascal, porque haverão de ter Páscoa?  Como será possível a Páscoa cristã sem missa? E ainda: como é que o desejo de missa, que é algo que, entre outras coisas, deve levar à fraternidade, pode provocar uma retaliação, uma vingança (o boicote)? Na realidade, o que ameaçam boicotar é o compasso pascal, a visita pascal, que, como se sabe, principalmente no norte, acaba por ser a principal fonte de receitas da paróquia (a côngrua). Ou seja, dinheiro.

Informem-se

Aprendam ao menos qual é a fé que rejeitam, antes de rejeitá-la.

Blaise Pascal

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Valores construídos e sedimentados no culto de uma imagem de um homem despido

O provedor do leitor do DN, Óscar Mascarenhas, escreveu ontem sobre a queixa que uma foto da guerra civil na Síria provocou:
Queixa-se a leitora de que a fotografia é "chocante". O facto de uma imagem ser "chocante" não deve impedir a sua publicação. Não é a primeira vez que aqui digo que vivemos, nesta sociedade ocidental, numa civilização cujos valores foram construídos e sedimentados no culto de uma imagem de um homem despido, torturado e morto numa cruz. Essa imagem tem lugar de relevo em muitos lares e templos, aparece a balançar nos espelhos retrovisores de inúmeras viaturas, enfim, é omnipresente - e ninguém a manda retirar por ser "chocante".
Ler tudo aqui.

Bento Domingues: Santas, submissas e rebeldes

Bento Domingues, no “Público” de hoje, considera altamente negativa a persistência da hierarquia católica em não contar com as mulheres para conceber, projetar, orientar e realizar a missão da Igreja no mundo contemporâneo, ainda que noutros ambientes eclesiais essa situação ainda se possa apresentar como absolutamente normal, pois "sempre foi assim".

Amanhã porei aqui o texto na íntegra.


Este, sim, um bom texto para o Ano da Fé. Mas é ter fé a mais imaginar que o Ano da Fé vai contribuir em algo para mudar a teologia e pastoral católica das mulheres.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Horas canónicas seculares

Altar das notícias. Inclui auréola

Hegel disse um dia que a leitura do jornal é uma espécie de oração da manhã (aqui). De Botton, no dia para dia mais proveitoso “Religião para ateus”, diz que, na esfera secular, esta entidade [ou seja, as “notícias”] ocupa a mesma posição de autoridade que o calendário litúrgico na esfera religiosa, com os seus principais avisos a assinalar as horas canónicas com uma precisão inquietante: as matinas foram aqui transubstanciadas no boletim informativo do pequeno-almoço e as vésperas no noticiário da noite”.

De certa forma, De Botton é menos secular do Hegel.

Anselmo Borges: O KAICIID em Madrid

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui):

Independentemente de se ser crente ou não, ninguém, consciente da presente situação do mundo, em convulsão global e à procura de um novo horizonte de compreensão, porá em dúvida a importância fundamental do diálogo inter-religioso e intercultural em ordem à paz. De facto, como há anos vem repetindo o teólogo Hans Küng, autor principal da "Declaração para uma Ética Mundial", aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, em 1993, "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial."

Em Novembro de 2007, o rei da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdulaziz, encontrou-se no Vaticano com o Papa Bento XVI, sublinhando ambos a urgência da promoção do diálogo em ordem à convivência pacífica entre os povos.

No ano seguinte, com o seu patrocínio, realizou-se em Madrid uma Conferência Internacional para o Diálogo.

No dia 26 de Novembro último, na presença de centenas de convidados e de figuras eminentes do universo religioso, cultural e político de todo o mundo, foi inaugurado em Viena o KAICIID (King Abdullah bin Abdulaziz International Centre for Interreligious and Intercultural Dialogue: Centro Internacional King Abdullah bin Abdulaziz para o Diálogo Inter-religiosos e Intercultural). O Centro teve o apadrinhamento dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos sócios fundadores, do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, bem como de representantes das principais confissões religiosas mundiais.

A sede do Centro é Viena. Os fundadores são a Áustria, a Espanha e a Arábia Saudita. A Santa Sé (Vaticano), apoiando explicitamente a iniciativa impulsionada pelo monarca saudita, que dá o nome à instituição, participa como observador fundador. Há um comité directivo, constituído por representantes católicos, protestantes, ortodoxos, judeus, hindus, budistas e os três ramos principais do islão: sunita, xiita, wahabi. Entre os seus membros, conta-se uma mulher, a budista japonesa Kosho Niwano.

Embora seja Riade a financiar o Centro, sediado no Palácio Sturany, o seu secretário-geral, o saudita Faisal bin Abdul Rahman bin Muaammar, afirmou que "não haverá interferências políticas de nenhum tipo", sendo a direcção o único responsável pelas actividades. Aliás, fontes diplomáticas austríacas declararam que o centro faz parte dos esforços do rei saudita para apoiar sectores mais abertos do seu país. Neste sentido, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, J. M. García- -Margallo, depois de sublinhar que "o que pretendemos é inverter a situação e que a religião seja, não parte de um problema, mas parte de uma solução", acrescentou que a iniciativa é um fórum de diálogo "não entre religiões, mas entre crentes de diferentes religiões que partilham valores e princípios, em última análise para alcançar um mundo mais pacífico, mais harmonioso e mais estável". O cardeal J.-L. Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, apresentou a saudação do Papa bem como "os seus melhores desejos para o sucesso deste Centro para o Diálogo".

Ontem e hoje, o KAICIID celebra, em Madrid, o seu primeiro acto internacional, com o primeiro encontro do Comité Directivo, a que voltarei.

Quais os objectivos estratégicos do Centro? Dentro da sua missão de "facilitar o diálogo e a compreensão inter-religiosos e interculturais, aumentar a cooperação, o respeito pela diversidade, a justiça e a paz", consistem em "gerar, desenvolver e difundir o conhecimento no âmbito do diálogo inter-religioso e inter-cultural; cultivar e promover o respeito pelas diferenças através do diálogo; criar pontes, debater e promover a colaboração entre os diversos grupos".

Perante tão elevados desígnios, só se pode, sinceramente, pedir: Oxalá! Mas fica, inevitável, a pergunta: para quando uma reunião internacional, com a presença de representantes das grandes religiões mundiais, em Riade?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A dívida da catedral é um cancro em Bragança


O "i"entrevistou D. José Cordeiro, bispo de Bragança. Deixo aqui um bocadinho. Está tudo online. 
Quando chegou a Bragança disse que encontrou a diocese num estado quase de falência. Qual é a situação económica neste momento?
A situação financeira da diocese é quase igual à do país. As dívidas prendem-se essencialmente com a catedral de Bragança [que começou a ser construída há cerca de 20 anos]. Ainda estamos a dever 600 mil euros. De resto, as outras situações complicadas com que me deparei estão a ser acompanhadas e resolvidas.
Quanto é que já conseguiu angariar para amortizar a dívida da catedral?
Desde que estou cá, cerca de 100 mil euros, fruto de donativos de instituições e de pessoas. E esperamos continuar a amortizar para honrar os compromissos e aliviar a situação da diocese. Porque a Igreja tem uma missão muito clara: evangelizar. E se nos perdermos no secundário perdemos o essencial. É evidente que esta dívida tem um enorme peso, é quase um cancro na diocese.
Mas a situação financeira da diocese chegou a este ponto porquê? Houve má gestão dos dinheiros?
Por várias circunstâncias, algumas ainda estão a ser apuradas. Na Igreja, quando o bispo chega tem de assumir o pacote inteiro. O positivo e o negativo. E não devo, sequer, criticar. Isso faz-se internamento e apurando a verdade na caridade.
Que tipo de circunstâncias ainda estão a ser apuradas?
Muito do suporte económico da diocese era canalizado para a catedral, para a comunicação social diocesana, para outras estruturas que precisavam desse apoio. Agora estamos a começar a autonomizar as várias estruturas e as várias contas, encontrando um novo modelo de gestão que possa servir as pessoas. A Igreja serve para o serviço do evangelho e não para acumular riqueza. E a riqueza que houver é para estar ao serviço das pessoas e do bem-comum.
Essa reestruturação pode implicar a extinção de algumas valências?
Para já não. Embora um dos problemas da diocese seja a existência de estruturas a mais.
Tem encontrado resistências às mudanças?
É normal que as mudanças provoquem sempre resistência, isso não me preocupa, ocupa-me. Tudo isto exige muito trabalho, muita paciência, muita canseira. Mas não há crescimento sem crises. Não podemos é matar as mudanças, temos de as saber acolher.
Era mesmo preciso construir uma catedral tão grande em Bragança?
Eis a questão. Se calhar não. Mas a opção foi tomada e agora há que ser assumida e levada por diante.
Esse espírito reformista tem a ver com o facto de ser o bispo mais jovem do país?
Não.
Pode permitir-se a ter menos juízo por ser mais jovem que os outros bispos?
(risos) Talvez me permita ter algumas ousadias. Alguns colegas já me têm dito isso. Mas estas mudanças na diocese, como a criação das unidades pastorais, eram necessárias.

Sobre o neoneoneotomismo que domina algum ensino teológico



Réginald Garrigou-Lagrange foi um teólogo francês medieval em pleno século XX. Morreu em 1964, em Roma. Dominicano, dava aulas no Angelicum. Grande teólogo, mas sem escrever qualquer tratado ou ensaio. Fez comentários, como em geral os teólogos dos séculos anteriores, desde a Idade Média. E talvez não se importasse de participar numa disputatio. Aliás, nem sei se não participou.

Garrigou-Lagrange comentou quase toda a Suma teológica, coisa que poucos fizeram, e terá sido um dos últimos a levar a cabo tal empreendimento.

Sabemos agora que ele estava à frente do seu tempo, embora fosse tido por alguns como um fóssil teológico. É que o comentário a Tomás de Aquino regressou com força. Diz-se que não é preciso mais teologia do que a do dominicano do séc. XIII. Pululam por aí teólogos novinhos que mais não fazem do que ler Aquino,mas não todo, e, ainda mais, comentários de Tomás de Aquino. Teologia requentada, pois, e quanto mais indiferente à vida concreta, melhor.

Se os medievais também faziam teologia comentando, pois concebiam-se como anões ao ombro de gigantes (diz João de Salisbúria que Bernardo de Chartres dissera isto), estes teólogos de hoje são anões, ainda que rechonchudos, nalguns casos, e mesmo apreciadores de rock, ao ombro de anões ao ombro de gigantes. Temo que tantas camadas humanas acabe por dar origem a um estrondoso tombo.

Eu é que sou o Papa

Quando foi eleito papa, João XXIII encontrou-se num corredor com o seu secretário e este, todo assustado, disse-lhe:
- Excelência, e que vamos agora fazer?
- Agora vamos acabar de rezar o breviário. E não te aflijas, homem, porque a quem fizeram papa foi a mim.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...