segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Bíblias da tomada de posse de Obama


Bíblia de Abraão Lincoln

Bíblia da família de Michelle
Ontem Obama fez um primeiro juramento sobre a Bíblia. Em privado. As tomadas de posse dos presidentes dos EUA são sempre a 20 de janeiro. Usou a Bíblia da família da sua mulher.

Bíblias de Lincoln e Martin Luther King
Hoje, Obama, para o povo, jura sobre a Bíblia que Lincoln usou em 1861 (na posse da Biblioteca do Congresso) e a de Martin Luther King (pertence ao filho, Martin Luther King III).

Bíblia Celta 
Joe Biden, descendente da emigrantes irlandeses, por seu lado, jurará (está a jurar neste momento, sobre uma Bíblia pesadíssima) sobre a Bíblia que já usou em 2009, uma Bíblia que está na família desde 1893. Dizem que tem uma cruz celta na capa.


Bíblia da família de Joe Biden

Engano

Globalmente, estou certo de não me ter enganado. Quando se estende a mão à miséria, não nos podemos enganar.

Abbé Pierre, 1995

Bento Domingues: "Ano da fé. Um decreto, para quê? (2)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:

1. Em 1953, numa curta viagem de camioneta, sentou-se ao meu lado um padre de outra congregação religiosa. Sobre as características e as imagens de marca das invocadas na conversa adiantou: "Em humildade ninguém nos supera." Não estava a fazer humor. Fiquei tão alérgico ao elogio da humildade como às disputas entre arrogantes. Nada, no entanto, mais inspirador do que uma pessoa humilde.

Esteve, em Portugal, frei Bruno Cadoré. Nasceu em 1954, formou-se em Medicina, entrou nos dominicanos, foi director do Centro de Ética Médica do Instituto Católico de Lille e, depois de ter sido provincial em França, foi eleito, em 2010, mestre geral da Ordem.

Não interessa explicitar aqui o que foi o seu brilhante e inspirador percurso profissional e dominicano, pois ele próprio nunca se lhe refere. É como se não tivesse existido.
Fr. Bruno Cadoré

Veio para visitar a família dominicana portuguesa, na diversidade dos seus ramos, e revelou um estilo que não é muito habitual nos eclesiásticos.

Na primeira reunião com a comunidade a que pertenço, procurou ouvir-nos acerca da situação da Igreja em Portugal, da diocese em que estamos inseridos, do papel das ordens e congregações religiosas, masculinas e femininas, segundo o carisma de cada uma. Passou, depois, ao encontro fraterno, com cada um, individualmente, não para falar, mas para escutar. Durante meia hora ouviu-me, sem dizer uma palavra, despediu-se, sem me fazer qualquer recomendação. É evidente que debateu, com os órgãos das instituições da Província Dominicana Portuguesa, as questões com que ela está confrontada. Fez também a visita às monjas dominicanas, fundadas, no século XIII, por S. Domingos. Ainda antes do ramo masculino, eram elas a Santa Pregação. Encontrou-se também com as outras religiosas e com os leigos dominicanos.

Se Cristo veio, não para condenar, mas para manifestar o amor de Deus pelo mundo, como se poderá chamar evangelização, nova ou antiga, às obras, palavras e atitudes que não sejam escuta humilde dessa amizade divina?

O método de Frei Bruno - muito ouvir antes de falar - foi praticado e exposto na Paróquia de S. Domingos de Benfica, ao apresentar a tradução da obra clássica sobre A Pregação, de Humberto de Romans, e as Actas do Colóquio sobre a Restauração da Província Dominicana em Portugal.

2. É antiga a convicção de que o silêncio é o pai dos pregadores e que a graça da pregação é secundada pelo estudo e pela contemplação. A fórmula dominicana foi cunhada muito cedo e já fazia parte do ensino de Tomás de Aquino:contemplar e dar testemunho da realidade contemplada. Era, desde a antiguidade, conhecida e exaltada a superioridade da vida contemplativa em relação à vida activa. Em benefício da sua própria causa, o santo doutor observou: a vida activa, que nasce da abundância da contemplação, vale mais do que a pura contemplação. Iluminar é melhor do que ser, apenas, luz. Foi este, aliás, o estilo da vida escolhida por Jesus.

A resposta é brilhante. Na prática, continuava a rivalidade entre o tempo consagrado ao principal e o tempo gasto com realidades temporais, inferiores. O tempo gasto na actividade esvaziava os ganhos da contemplação. A oração de S. Domingos, testemunhada pelos seus contemporâneos, estava sempre povoada pelas alegrias e tristezas do quotidiano. O trabalho apostólico não o dispersava nem o esvaziava.

Na sua conferência, frei Bruno Cadoré saltou fora do esquema de falsas oposições. A fonte e o alimento da contemplação não se restringem ao quadro conventual ou às celebrações litúrgicas. A Igreja - e nela o dominicano - não se pode apresentar ao povo cristão, aos membros das outras religiões, aos agnósticos e aos ateus como quem está na posse da verdade, dos bons princípios, dos bons caminhos e das boas soluções. Essa arrogância impede o caminho humilde da escuta, do estudo e do diálogo com todos os mundos em que se encontra, ou aos quais se dirige: a bondade e a verdade, servidas ou traídas, estão disseminadas em todos os estilos de vida e em todas as dimensões da existência. A Igreja, sem crescer e amadurecer nesse convívio, não pode partilhar nada, está fora de jogo. Esquece que Deus se insinua, de muitos modos, na vida das pessoas, expressa na diversidade de problemáticas e linguagens das sociedades, nas suas diferentes épocas e culturas. Os processos não são lineares e nunca nada está garantido.

3. Em vários países, sob o ponto de vista cristão, o século XX foi prodigiosamente fecundo, apesar de duas guerras mundiais. Basta pensar nos movimentos bíblico, litúrgico, missionário, ecuménico, social, na redescoberta da teologia patrística e medieval, nos novos modelos e paradigmas de teologia - das realidades terrestres, do trabalho, da matéria, da evolução, da conjugalidade -, assim como nas formas de evangelização da pura presença, nos meios mais afastados das instituições da Igreja. Foi uma história exaltante de muitas esperanças e desilusões continuadas, pela repressão que se abateu sobre vários destes movimentos.

O Vaticano II, iniciativa de um papa que tinha os olhos postos no mundo em transformação e no aggiornamento da Igreja, recuperou e alargou a geografia da esperança.

Como e porquê se perdeu este impulso?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Bento Domingues e os campeões da humildade

Bento Domingues, no "Público" de hoje, fala principalmente da visita do mestre geral dos dominicanos, o francês Bruno Cadoré, aos dominicanos portugueses.

Começa com uma nota de humor para a seguir falar da "pessoa humilde" e inspiradora que é Fr. Cadoré:
Em 1953, numa curta viagem de camioneta, sentou-se ao meu lado um padre de outra congregação religiosa. Sobre as características e as imagens de marca invocadas na conversa adiantou: "Em humildade ninguém bos supera". Não estava a fazer humor.
Esta história faz lembrar uma outra, contada por Timothy Radcliffe, que também já foi mestre geral dos dominicanos. Pode lê-la aqui.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Anselmo Borges: "A regra de ouro e a empatia"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui):

Na Inglaterra, foi de tal modo valorizada que aí recebeu, nos inícios do século XVII, o nome por que é conhecida: "regra de ouro" (golden rule), com duas formulações, uma negativa: "não faças aos outros o que não quererias que te fizessem a ti", e outra positiva: "trata os outros como quererias ser tratado". Frédéric Lenoir faz, com razão, notar que a maior parte dos moralistas prefere a versão negativa, pois o perigo de auto-projecção sobre os outros pode levar a esquecer que cada um tem os seus gostos e a sua própria visão do que é bem. Neste quadro, Bernard Shaw escreveu com o seu sentido de humor: "Não façais aos outros o que quereríeis que vos fizessem; talvez não tenham os mesmos gostos que vós!"

É uma regra tão universal que o filósofo R.-P. Droit perguntava recentemente no Le Monde: "Existem regras morais presentes em todos os tempos e lugares, seja qual for a cultura ou a época? Isso é posto em dúvida a maior parte das vezes. No entanto, há uma excepção notável face ao relativismo generalizado." E apontava precisamente a regra de ouro.

De facto, ela encontra-se em todas as áreas culturais e religiosas do mundo. Apresentam-se exemplos, segundo Olivier du Roy, que acaba de publicar: La règle d'or. Histoire d'une maxime universelle.

Óculos

A leitura que fazemos da vida de Jesus está muito condicionada pela perspetiva da morte e ressurreição e pela interpretação dogmática que se impôs no séc. IV.

Juan Antonio Estrada na pág. 131 de "Quem foi, quem é Jesus Cristo?" (ed. Gradiva)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Da feminilidade da economia portuguesa


Mais uma que nos fizeram Lutero e Calvino. Ou antes, não fizeram. Artigo de Pedro Arroja no "Vida Económica". A economia portuguesa é feminina por causa da sua matriz católica, diz o gestor.

Não sei se este Pedro Arroja é o mesmo que lia em meados dos anos noventa no DN. Na altura, apreciava q.b. as suas opiniões liberais e heterodoxas. Agora parece que alinha por um catolicismo muito típico de certos meios (à falta da expressão adequada, escrevo "certos meios").

Este Pedro é o mesmo que no blogue "Portugal Contemporâneo" escreve:
Na minha opinião, um dos pilares centrais da tradição portuguesa e católica que vai ter de ser reposto é o ensino diferenciado entre rapazes e raparigas, pelo menos até à adolescência.

Numa cultura feminina como é a nossa, o ensino misto feminiliza os rapazes. Na cultura protestante, que é masculina, é ao contrário, o ensino misto masculiniza as raparigas.

Na nossa cultura feminina, quando se põem rapazes e raparigas, homens e mulheres, sob o mesmo tecto, mais cedo ou mais tarde as mulheres controlam e dominam o ambiente. O ensino misto em Portugal é um ónus sobretudo para os rapazes, tolhe o desenvolvimento da sua masculinidade.

Em Inglaterra, 80% das melhores escolas são escolas diferenciadas. E, sendo assim no estrangeiro, pode estar certo que aquilo que eu disse é verdade. O ensino misto em Portugal feminiliza os rapazes.
Está aqui uma das razões por que o Joaquim acha os jovens de hoje tão passivos (aqui).
E agora já se compreende mais o conteúdo da expressão "certos meios".

Clooney do Vaticano

Do "Público" de ontem.

Aborrecimento

Não tenho, em oitenta e dois anos, nenhuma recordação de ter estado alguma vez aborrecido, exceto em reuniões mundanas ou diplomáticas, onde tive a impressão de que nada era sincero, nada era verdadeiro... Nunca.

Abbé Pierre, 1995

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Alguém que traduza e publique: "De la salvación a un proyecto con sentido. Por una Cristología actual", de Juan Antonio Estrada



“Jesus não foi um super-homem, mas alguém que assumiu plenamente a constituição humana”, diz Juan Antonio Estrada a propósito do seu novo livro.

Desconfio que alguns ficarão surpreendidos por Jesus não ter sido um super-homem, logo, não ter tido superpoderes. Não saber tudo. Não poder tudo. Não ver tudo. E ser Filho de Deus, o Baixíssimo.

O livro tem como título "De la salvación a un proyecto con sentido. Por una Cristología actual". 416 páginas que gostava de ver em português. Índice e introdução (29 páginas) aqui em PDF.

Uma nota pessoal: Juan Antonio Estrada, jesuíta, esteve no colóquio Igreja em Diálogo, sobre Jesus Cristo, realizado em Valadares, em outubro de 2011. Na altura, agradeci-lhe ter escrito um dos livros sobre Jesus que mais me marcou, “El Proyecto de Jesus” (Ediciones Sígueme), em co-autoria com Jose M. Castillo, que também esteve em Valadares.

Mas não sobre a minha pessoa

Digam aos que vos enviam que me comprometo a não levantar objeção alguma se quiserem depor a Legião de Honra sobre o meu caixão.

Abbé Pierre em 1992

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"Ser belo não é pecado", diz o secretário do Papa. E ser feio?


Do "Público" online (aqui):

Quem pensava que uma figura da Igreja não podia ser capa de uma revista mundana, engana-se. Que o diga a edição italiana da revista Vanity Fair que chega às bancas esta quarta-feira com uma figura minimamente surpreendente na primeira página: Georg Ganswein, o secretário pessoal do Papa.


Fermentação

Somos uma força de fermentação da consciência cívica.


Abbé Pierre. Sobre o movimento Emaús. Aplicável a qualquer obra católica.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

15 de Janeiro de 1929. Nasce Martin Luther King




Luther King nasceu em Atlanta, no dia 15 de janeiro de 1929, e morreu em Memphis, assassinado, no dia 4 de abril de 1968.

A este pastor protestante e ativista dos direitos humanos muitas frases célebres são atribuídas. Nem todas terão sido mesmo proferidas por ele. Já vi atribuídas a outros frases como “o que vale não é o quanto se vive; mas como se vive”, “o que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons” e ainda a ecológico-irrealista “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda hoje plantaria uma árvore”.

Mas esta é mesmo dele: “Não somos o que deveríamos ser; não somos o que queríamos ser; mas graças a Deus, não somos o que éramos”. E esta penso que também: “A liberdade jamais é dada pelo opressor ela tem que ser conquistada pelo oprimido”.

Salvamo-nos quando nos tornamos salvadores

Emaús é um pouco o carrinho de mão, as pás e as enxadas antes das bandeiras. Uma espécie de carburante social com base na recuperação dos homens espezinhados. Todo o movimento reside nesta ideia: salvamo-nos quando nos tornamos salvadores.

Abbé Pierre, em 1954, sobre a organização Emaús, que fundou

domingo, 13 de janeiro de 2013

13 de janeiro de 1979. A YMCA processa os Village People por difamação

Village People

YMCA quer dizer Young Men's Christian Association (YMCA), algo como Associação Cristã dos Jovens. Existe no munto anglófilo (nasceu em Londres, em 1844, e é particularmente ativa nos EUA), mas também no Brasil, sob a designação de Associação Cristã de Moços, e em Portugal, como Associação Cristã da Mocidade (ACM Coimbra aqui).

No dia 13 de janeiro de 1979, a YMCA processou os Village People por difamação. A canção é tida como “hino gay”. “They have everything that you need to enjoy, You can hang out with all the boys ...  It's fun to stay at the Y-M-C-A”.

Por coincidência, hoje ouvi falar (quer dizer, li aqui) de um calendário de jovens padres ortodoxos romenos. Há com cada uma.

Questões de Bento Domingues sobre economia e finanças


Do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje, "Ano da Fé. Um decreto para quê? (1)":

As interrogações são inevitáveis: tanta ciência económica e financeira, ensinada nas Universidades Católicas, não será capaz de imaginar contributos para alternativas concretas, técnica e politicamente viáveis? A Banca é para salvar as pessoas ou serão estas, as exploradas, que devem salvar os interesses da Banca, mediante decisões governamentais? Não será possível desconstruir configurações políticas que, nos seus efeitos, resultam em grandes negócios para uns e em castigo para a maioria da população? Estaremos numa civilização esgotada a transitar de continente para continente, enquanto sistema de exploração, sem tentar curar as suas raízes?

As minhas observações
1. Aprecio muito Bento Domingues quando faz perguntas que questionam o funcionamento do sistema económico. Menos quando dá respostas sobre o sistema económico, coisa que hoje não faz. E ainda bem.

2. A partir de hoje, de um modo geral, só copiarei textos da imprensa escrita, na íntegra, no dia seguinte à sua publicação, se não estiverem disponíveis para todos on-line (para onde geralmente faço um link).

Política e meteorologia

Se um partido político se atribui o mérito da chuva, não se estranhe que os seus adversários o culpem da seca.

Dwight Morrow (1887-1931)

sábado, 12 de janeiro de 2013

José Manuel Pureza escreve sobre "Recuperar a ideia de Jesus que muda as nossas vidas"



José Manuel Pureza, o católico do Bloco de Esquerda, escreve hoje sobre Jesus Cristo no “Q” (do DN).

O texto tem como título “Recuperar a ideia de Jesus que muda as nossas vidas”. Surge a propósito do livro coordenado por Anselmo Borges “Quem foi, quem é Jesus Cristo?” (Gradiva).

Vou ler o artigo e hei de escrever aqui as minhas impressões. Talvez amanhã digitalize o texto do bloquista. Se alguém estiver impaciente pode sempre comprar o jornal.

Já por diversas vezes disse que gosto muito do “Q”. O desta semana é daqueles para ler de uma ponta à outra. Gosto do carácter ensaístico dos textos. Vejamos (refiro as peças pela ordem decrescente do meu interesse):

- o artigo de Pureza
- entrevista de seis páginas a António Damásio
- “As mais queridas assombrações da literatura”, peça sobre um livro que fala 500 anos de procura de provas da existência de fantasmas
- sugestões de livros, filmes e discos por João Paulo Cotrim
- peça sobre as crónicas de Rubem Braga
- novas edições de discos, livros e dvd
- texto sobre duas biografias de perfis opostos de Obama.

Leão XIII, o primeiro Papa a ser filmado

Leão XIII foi o primeiro papa a ser filmado. Um integrado, pois. Já aqui havia referido o assunto. Mas hoje pude ver finalmente tais filmagens.



Agradeço a José Serra, que me deu a conhecer o vídeo.

Caminho de Canossa

A propósito de uma campanha de uma marca de eletrodomésticos que usou os préstimos de uma jovem (estilista? manequim? - nunca dela tinha ouvido falar) e a seguir se arrependeu (tal foi o coro de críticas e gozos nas redes sociais; publicidade negativa, pois), Ferreira Fernandes evoca no DN um episódio político-eclesial:
Conhecem a origem do termo "caminho de Canossa"? É humilhar-se. Um imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Henrique IV, excomungado pelo Papa, pôs-se três noites à porta do castelo de Canossa a implorar perdão. Foi perdoado mas os estados europeus ficaram séculos sujeitos a Roma.

Ler tudo aqui. A "enciclopédia livre" explica o "caminho de Canossa".

Anselmo Borges: "Que futuro para Deus?"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

É sobre o tema em epígrafe que Marie Drucker publicou uma entrevista com Frédéric Lenoir, da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Faz parte do livro Dieu (Deus).

Alguns indicadores estatísticos. Actualmente, dois terços da população mundial confessam acreditar em Deus. O outro terço reparte-se entre as religiões sem Deus (religiões chinesas, budismo, animismo, xamanismo...) e uma pequena parte que se declara sem pertença religiosa (menos de 10% da população mundial, principalmente na China e nos países europeus descristianizados).

Mesmo se a fé está a diminuir progressivamente desde há várias décadas, cerca de 90% dos americanos e dois terços dos europeus acreditam em Deus. A França e a República Checa constituem excepção, pois são os países que contam hoje com a taxa mais elevada de ateus na Europa. De qualquer modo, mesmo na França, a fé em Deus resiste melhor do que a pertença religiosa e permanece estável: 52%.

As projecções para 2050 dizem que os cristãos passarão de dois mil milhões para três mil milhões; os muçulmanos, de mil e duzentos milhões para dois mil e duzentos milhões; os hindus, de oitocentos milhões para mil e duzentos milhões; os budistas, de trezentos e cinquenta milhões para quatrocentos e trinta milhões; os judeus, de catorze milhões para dezassete milhões.

Estes números não consideram, evidentemente, "evoluções internas profundas" que as mentalidades podem vir a conhecer nem catástrofes ou agitações excepcionais. Segundo a evolução das mentalidades, é a Europa que indica a tendência: "uma secularização crescente, sem que a fé em Deus se afunde. Assim, as religiões terão cada vez menos domínio sobre as sociedades e serão cada vez mais numerosos os indivíduos a declarar-se sem religião, sem que isso signifique o fim da fé em Deus." Acentua-se, portanto, aquele movimento que os sociólogos caracterizam como "crer sem pertencer", emancipação progressiva dos indivíduos em relação às instituições religiosas, mas continuando a ter fé em Deus ou uma espiritualidade pessoal.

Este fenómeno está na linha dos "três grandes vectores da modernidade": "individualização, espírito crítico, mundialização". Assim, no quadro do que Marcel Gauchet chamou uma "revolução da consciência religiosa", é expectável que já não seja "o grupo a transmitir e impor a religião ao indivíduo, mas que seja este a exercer a sua livre escolha em função do seu desejo de realização pessoal". "Salvo se houver uma enorme catástrofe, nenhuma ditadura poderá manter-se na Terra e nenhuma religião conseguirá impor a sua lei aos indivíduos. Os principais vectores da modernidade vão progressivamente, com recuos pontuais, conquistar o mundo todo. Neste contexto, a religião tem razões para preocupar-se, mas não necessariamente Deus e ainda menos a espiritualidade, isto é, a procura do sentido da vida." De facto, as pessoas continuarão a interrogar-se sobre o enigma da existência e as suas questões essenciais: qual o sentido último?, como fazer face ao sofrimento e à morte?, como ser feliz?, quais são os valores que alicerçam a vida?

Por isso, ao mesmo tempo que assistimos à crise da prática religiosa constatamos que a fé em Deus "regressa docemente, mas de modo seguro". Significativamente, os dois elementos que se mantêm estáveis na Europa ao longo dos últimos trinta anos são as cerimónias funerárias religiosas e a fé em Deus, o que mostra que, apesar do distanciamento em relação às Igrejas, ainda se considera que a religião traz respostas à questão do enigma da vida e face à morte. Por isso, "enquanto a existência permanecer um enigma, enquanto a experiência do amor e da beleza nos fizer tocar no sagrado, enquanto a morte nos interpelar", há fortes chances de Deus, seja qual for o nome que se lhe dê, permanecer para muitos "uma resposta credível, um absoluto, uma força transformadora."

Mas há "metamorfoses" do rosto de Deus na modernidade que se acentuam: "Passa-se de um Deus pessoal a um divino impessoal; de um Deus masculino a um divino de qualidades femininas de amor e protecção; de um Deus exterior a um divino que se encontra no interior, no mais íntimo."

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ver o Papa com o bolso cheio de notas e moedas - o nosso bolso, não o do Papa

Notícia do DN de hoje.

Sucessão de bispos num mundo pequeno e em forma de bola


Ontem, um leitor deixou um comentário um pouco escatológico sobre o trabalho dos jornalistas dizendo que o título era “Papa nomeia substituto de bispo que saiu por pedofilia”, dando uma ideia errada, já que o que aconteceu foi que Donald Murray se demitiu em 2009 por ter encoberto abusos sexuais (no comentário aqui). Não saiu por pedofilia. Saiu por encobrir pedofilia.

Pois bem, hoje vem na “Bola” uma breve que, à partida, na sua concisão, não tem imprecisões. Obrigado, “Bola”, pela excelente informação religiosa. Bem sabemos que és um órgão confessional, mas também falas das outras fés de vez em quando. Como agora.



O que me chama a atenção, no entanto, não é o bispo mas a diocese para onde vai, Limerick. É a cidade da universidade de um autor muito apreciado cá por estes lados, David Lodge. É na Universidade de Limerick que se passa o romance “O mundo é pequeno” (Asa). Hoje, de facto, existe uma universidade em Limerick, mas não existia quando o católico reticente escreveu a obra. O romance é de 1984. A universidade é de 1989 (evoluiu de um instituto superior). Vi na Wikipédia, mas cruzei os dados e parece-me que estão corretos.

(Em “Pensamentos secretos”, na Asa, Lodge fala da Universidade de Gloucester, que também não existia quando escreveu a obra, mas agora existe como University of Gloucestershire. A obra foi publicada originalmente em 2001; nesse mesmo ano o instituto de mecânica tornou-se universidade.)

Insolências comedidas


Recebi um dom de Deus: fazer passar mensagens por meio de insolências comedidas. Para lá dessa medida, agrada-se mas nada mais avança, porque aqueles a quem nos dirigimos não estão preparados para compreender mais.

Abbé Pierre

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Uma questão de genes

Anda por aí alguma celeuma por o chefe dos lefebvriamos ter dito que os judeus são inimigos da Igreja deles - e parece que da nossa. Bernard Fellay afirmou, no dia 28 de dezembro, no Canadá: "Nós temos muitos inimigos, muitos inimigos. Mas, veja, é muito interessante. Quem, em todo este tempo, foi o mais hostil a que a Igreja reconhecesse a Fraternidade? Os inimigos da Igreja: os judeus, os maçons, os modernistas” (li aqui).

Federico Lombardi, chefe da sala de imprensa da Santa Sé, já veio dizer que o Vaticano rejeita formalmente a descrição dos judeus como sendo “inimigos da Igreja”.

Admiro-me com a repercussão das afirmações do lefebvriano, pois o carácter antissemita dos tradicionalistas, a começar pelo antissemitismo teológico, é evidente. É genético. Este assunto já por cá andou. Mas interrogo-me também sobre a pertinência do esclarecimento do porta-voz da Santa Sé. Até parece que havia dúvidas a esclarecer.

Mais uma de João XXIII


José Roncalli

Num dia de S. José, quando já era Papa, João XXIII falou aos cardeais sobre a convocação do concílio. No fim, quando já dispunha de pouco tempo, lembrou-se de S. José e disse: “Hoje é dia de S. José. Que vos hei de dizer de S. José? Olhai: era tão humilde que nem seque monsenhor o fizeram”.

De humano a humano

A ajuda humanitária é agir e testemunhar. É, em primeiro lugar, uma questão de homem a homem, de mulher a criança perdida, de jovem a velho isolado, de reformado a desempregado desesperado. De humano a humano...

Abbé Pierre, 1993
(faz lembrar Wisława Szymborska)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

9 de janeiro de 1902. Nasce o fundador do Opus Dei


Paulo VI e Josemaría Escrivá

O fundador do Opus Deus, Josemaría Escrivá de Balaguer, nasceu no dia 9 de janeiro de 1902, em Aragão. Morreu no dia 26 de junho de 1975, em Roma, e foi canonizado por João Paulo II no dia 6 de outubro de 2002.

A Wikipédia cita deste santo uma frase que eu por vezes gostaria de levar mais a peito contra a minha tendência para o diletantismo e a procrastinação:

"O trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e um meio pelo qual os homens hão de contribuir para o progresso da sociedade; é também um caminho de santificação".

Missa ateia em Londres

Cerca de 200 “fiéis” participaram na primeira missa ateia, celebrada numa igreja dessacralizada do norte de Londres. A ideia séria partiu dos cómicos Sanderson Jones e Pippa Evans. Li aqui.

Como não conheço estes humoristas, vou ver quem são. São estes. O Jonas tem umas barbas patriarcais. A Eva é a da direita. É preciso dizer isto nestes tempos em que todos podem ser tudo. Jonas é nome bíblico. “Evans” vem de quê? Não deve ser de Eva. De “Evangelist”?


Antes da celebração, Jones disse: “Pensamos que seria uma pena não desfrutar das coisas boas da religião, unicamente por uma discordância teológica”. Ficamos assim a saber que ele deve andar a ler Alain de Botton. E que acha que há somente um “desacuerdo teológico” entre quem diz que Deus existe e que Jesus Cristo é Deus e os que dizem que não só Deus não existe como Jesus não pode ser Filho de Deus.

Penso que a celebração começou com uma dissonância identitária, como muitos casamentos católicos e funerais, em que os ateus lá acabam por entrar na igreja: participaram pela menos uma católica e um judeu.

Os ministros, suponho que os cómicos, mandaram umas piadas e convidaram os “fiéis” (outra vez; fiéis a quê?) a fechar os olhos e “pensar”. Quase lhes descaíam as palavras para “rezar”.

O salmo principal da celebração teve como refrão: “Life is good, life is great" (“a vida é boa, a vida é maravilhosa”), que pode muito bem ter-se inspirado num salmo qualquer cristão, o 8, por exemplo, ou numa marca de eletrodomésticos. Mas compreende-se que se acentuem apenas as coisas boas. Não podiam falar do mal. Os cristãos sabem que o mal é uma constante na história da comunidade e na vida pessoal. Afinal, quando um ateu se arrepende, a quem pede perdão? A quem poderiam as 200 pessoas pedir que lhes perdoassem os pecados? Aos genes? À sociedade? Ao id? Só podem ficar pela maravilha da vida, mesmo sabendo que ela não é só maravilhas.

Imagino que os “fiéis” desta igreja ateia aumentem em número. Eu próprio gostava mais de ir a uma celebração destas do que a algumas que conheço. Refiro-me a seitas.

Assaltam-me, no entanto, algumas questões. Em todas as igrejas há abandonos e deserções. O que acontece quando um ateu abandona a sua igreja? Converte-se? Torna-se um verdadeiro ateu, um neo-ateu, ou entra numa religião mais tradicional?

E quando a deserção for coletiva? Forma-se uma seita ateia? Um Igreja dos ateus dos últimos dias? Igreja universal dos verdadeiros ateus? E, com o tempo, vai surgir um movimento ecuménico ateu para promover a unidade dos ateus?

Efeitos e causas

Trata-se de lutar em simultâneo para remediar as causas e prestar ajuda imediata. É preciso sempre levar a cabo ao mesmo tempo estes dois atos.

Abbé Pierre, 1955

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

8 de janeiro. Eleição de Inocêncio III em 1198 e morte de Giotto em 1337


O Papa que aprovou os franciscanos, Inocêncio III, foi eleito no dia 8 de janeiro de 1198, mesmo dia em que morreu o antecessor, Celestino III, pelo menos é o que dizem as fontes mais imediatas on-line. Neste mesmo 8 de janeiro, mas de 1337, morreu Giotto.


Francisco de Assis e Inocêncio III pintados por Giotto

O Papa anda muito citado na imprensa de hoje



Dois artigos da imprensa escrita de hoje. O de Mário Soares saiu no DN. É só um excerto. Precisamente a parte em que um papa cita o outro (no DN online leia-se o resto da opinião). O de Cluny, que toda a gente sabe ser do PCP, sai no "i". Temos, portanto, um socialista e um comunista a citar o Papa Bento XVI. Convertidos? Reconhecem no Papa uma autoridade moral? Dá jeito para a jogada política?

Não basta sair da inércia

Não basta sair da inércia. Não basta agir. É preciso vencer, a saber, é preciso agir mais do que agem as forças de recuo, ou então - e os elogios não servem para nada - sucumbimos.

Abbé Pierre, 1959

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ano da Fé. Ter fé na fé

3.
Há um submundo de pessoas que têm fé na fé sem terem fé. Escrevem nos jornais sobre Bento XVI sem serem católicos, defendem o Papa, realçam a importância social do cristianismo, participam em debates e diálogos com crentes, não para esgrimir argumentos sobre o crer mas para encontrar pontes de diálogo. São pela presença da religião no espaço público. São capazes de defender a Igreja católica, nos meios laicos a que têm acesso, com base na “missão histórica e social” da Igreja. E porque feito pela Igreja fica mais barato. Têm fé na fé.

Geralmente os ministros da Igreja Católica gostam de ouvir estes que não sendo propriamente católicos, têm fé na fé. Fazem o jogo do lado de cá. Não são os ateus ou agnósticos puros. Nem ateus inveterados, nem agnósticos retintos. São antes uma espécie de, como alguém lhes chamou, “patos mancos”. Sou simpático para eles. Conheço dois ou três. Mas não gosto de ter fé na fé sem ter fé.

Via sacra de Botero em Lisboa

Exposição. Via sacra pintada pelo colombiano Botero. Sugestão para quem estiver perto do Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa. Gostava de a ver, apesar da má crítica que teve no "Público" há semanas.

Marinheiro, missionário e salteador

Quando, na minha infância, me perguntavam o que eu queria ser, teria respondido: marinheiro, missionário ou salteador. Fui um pouco os três ao mesmo tempo. Missionário através do mundo, marinheiro durante seis meses como capelão do "Jean-Bart", na Escola Naval, salteador na Resistência onde, se me tivessem aprisionado, me teriam tratado como tal.

Abbé Pierre, 1992

domingo, 6 de janeiro de 2013

No Sporting perderam-se até as mais simples noções do calendário litúrgico


Só hoje tive conhecimento desta capa do jornal do Sporting, que saiu no Natal passado (julgo não ser o único a ter a sensação de que o Natal já foi há umas boas semanas). Anda muita confusão lá para aqueles lados, como se sabe. Tudo levava a crer que o episódio escolhido seria o Presépio. Teria tudo a ver com a quadra. Mas é capaz de ter havido demasiados candidatos ao lugar de burro - sem ofensa para este animal simpático e de conotações reais na tradição bíblica, como o leão, com a vantagem de ser pacífico.

Acontece que escolheram a Ceia. Talvez na Páscoa se decidam finalmente pelo Presépio, ou pelo Pentecostes, se já tudo tiver ardido, como é de esperar.

A Ceia está bem escolhida porque a seguir vem o Calvário. E nessas lides, mas sem nenhum cireneu de jeito, anda já o Sporting já há muitas jornadas. E como só falta um ponto para descer de divisão, este episódio permitirá aludir à descida aos infernos. Quanto ao Judas, embora eu tenha umas simpatias por este clube, não faço a mínima ideia sobre quem será. Não sei se há muitos, se há poucos. Vejo é que não há crentes suficientes para fazer uma equipa de 11.




Bento Domingues: "Presépio aberto"



Grande texto de Bento Domingues no “Publico” de hoje. Vale mais que muitos livros sobre o Natal e o presépio.

A banalização ou a ocultação dos presépios escondem as teologias das construções literárias do presépio dos evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas. Reflectem, ambos, um debate interno ao próprio judaísmo. As primeiras gerações dos discípulos de Jesus eram formadas por mulheres e homens judeus que desejavam abrir por dentro o próprio judaísmo. O presépio reflecte o que se passou na vida adulta de Jesus e na construção das comunidades com a presença do mundo pagão. 
Jesus não nasce na cidade de Jerusalém, centro do poder político e religioso. Os pastores representam, precisamente, os que não frequentavam o culto oficial e são os primeiros a chegar ao presépio. Os Magos passam por Jerusalém, mas não ficam lá. A estrela desloca-os para a periferia, significando que se trata não de um fenómeno astronómico, mas teológico. Se os judeus da religião ortodoxa não reconhecem Jesus, os Magos, pagãos, procuram-no. Jesus, com Maria e José, depois da viagem pelo Egipto, não vão morar no templo. Vão trabalhar para Nazaré, no meio de toda a gente. O presépio realiza, em miniatura, o que foi a revelação de Jesus na sua vida adulta: Deus anda à solta e faz a sua morada, o seu templo, onde menos se espera e faz família com quem não é da família.

E mais este bónus, a pequena história que revela muito:
Não se esqueça que L'Osservatore Romano, no dia seguinte ao anúncio do Concílio, feito por João XXIII, ocultou essa notícia, a mais importante no campo religioso do século XX e quando já ocupava a primeira página da imprensa mundial. Foi um boicote falhado, mas indicava que o presépio do mundo em mudança, com as suas alegrias e tristezas, não fazia parte da Cúria Vaticana.

Esclarecimento às 11:52. Um leitor informa que a quando do anúncio do Concílio, que foi 25 de janeiro de 1959, o jornal da Santa Sé não era diário. Tinha saído no próprio dia (acrescento que não fazia sentido antecipar na imprensa o anúncio papal) e deu destaque no número seguinte. Ver comentários.

Sozinho não consigo

Ó Deus, invoco-te na aurora!
Ajuda-me a orar e a reunir os meus pensamentos;
Sozinho não consigo.

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Anselmo Borges: "Cronista do Reino de Deus a caminho"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


No passado dia 10 de Dezembro, realizou-se em Lisboa uma merecida homenagem a Frei Bento Domingues, com a apresentação do livro Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência, onde escrevem personalidades destacadas de diferentes quadrantes da cultura, da política, da religião.

Os intervenientes na sessão salientaram os valores por que Frei Bento se rege: a coerência, o diálogo, o humanismo universalista (Guilherme d'Oliveira Martins), a sabedoria, a dignidade humana, a ética (Maria José Morgado), o amor, a tolerância (Luís Osório, que concluiu: "Sempre que vejo um homem e penso em Jesus, penso em Frei Bento").

Ao longo da sua vida, foi deixando lições fundamentais: a paixão por Jesus Cristo, a liberdade cristã - "foi para a liberdade que Cristo nos libertou", escreveu São Paulo -, uma teologia que tem de ser encarnada, o combate pelos direitos humanos, a magnanimidade com os perseguidores, o despojamento em relação ao Poder, que conhece mas ao qual nunca se colou, a alegria, aliada a uma ironia fina, uma generosidade sem limites. É enorme a dívida da Igreja e dos portugueses para com Frei Bento Domingues.

O que aí fica é uma brevíssima tentativa de leitura da sua teologia, expressa cada domingo nas suas crónicas. Ele também lê o Evangelho, e lá está, no Prólogo do Evangelho segundo São João: o Logos, a Palavra, fez-se carne, ser humano frágil, fez-se tempo (Chronos), assumindo-o na sua fragilidade e dando-lhe sentido. Aí está a crónica no sentido teológico: a Palavra no tempo - a Palavra habita o tempo, e então o ser humano transcende o tempo na sua voragem, há um Sentido de todos os sentidos - quantas vezes, nos seus textos, Frei Bento refere esta ideia: a articulação do Sentido de todos os sentidos.

O que são os Evangelhos senão narrativas - histórias do e no tempo, iluminadas pela Palavra? O que são os evangelistas senão cronistas do Reino de Deus a acontecer em histórias paradigmáticas? Será possível uma teologia viva que não seja teologia narrativa? Concretamente a teologia cristã o que é senão reflexão explicitada sobre a praxis do Reino de Deus? É assim que Frei Bento é o teólogo-hermeneuta, se se quiser, cronista do Reino de Deus, que é o reino do homem bom, justo, livre, fraterno e feliz.

E aí estão os seus grandes princípios arquitectónicos: teologia do Reino de Deus; contra a gnose, porque "não há salvação fora do mundo"; teologia que não abandona a razão crítica, também em relação à Igreja, frequentemente "pasmada e sentada", no dizer de Fernando Alves, até porque sabe que a razão autónoma, feito o seu percurso todo, descobre que ela própria se acende na noite do Mistério e que só um homem livre pode dizer sim a Deus; teologia que vincula ética e estética; teologia ecuménica: todos estão incluídos, sem anular, pelo contrário, implicando, as diferenças; teologia para a paz e articulando-se à volta da ética e da mística, num vínculo indissolúvel, pois a nova catolicidade passa por essa outra nova globalização desde baixo, desde os débeis, pobres e marginalizados, à escala mundial.

O tempo, na sua fragilidade e carácter efémero, é habitado: o Verbo fez-se carne no tempo. Frei Bento Domingues continuará a alumiar-nos como cronista do Reino de Deus a caminho, Reino de uma humanidade boa, livre, justa e feliz. Precisamente a concretização desta bondade, liberdade, justiça, fraternidade, diálogo, felicidade, no horizonte sempre mais aberto de esperança no Sentido de todos os sentidos, irá sendo o critério de verificação da verdade da fé e da teologia, uma verificação sempre frágil, porque, num mundo que é processo, a verificação última é para todos escatológica: só no fim se saberá.

De todos os modos, como ele escreveu, "A religião verdadeira é a respiração da alegria da terra ou o projecto contra o sofrimento do mundo. Quando uma religião, uma igreja ou uma seita se cala perante a humilhação da condição humana, é porque se esqueceu da pergunta de Deus que percorre a história da desumanidade: 'que fizeste do teu irmão?' A arte de viver de Jesus de Nazaré foi esta pergunta feita carne, humanidade de Deus".

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

4 de janeiro de 1309. Morre a mística Ângela de Foligno


Ângela de Foligno, franciscana terceira, morreu no dia 4 de janeiro de 1309, aos 68 anos. Converteu-se em 1285, depois de uma visão de São Francisco de Assis, e é reconhecida como uma grande mística medieval , tendo fundado uma comunidade religiosa. Inocêncio XII beatificou-a no final do séc. XVII.

Bento XVI dedicou-lhe uma catequese no dia 13 de outubro de 2010 e afirmou:
No itinerário espiritual de Ângela, a passagem da conversão para a experiência mística, daquilo que se pode expressar para o que é inefável, tem lugar através do Crucificado. É o «Deus-homem apaixonado» que se torna o seu «mestre de perfeição». Toda a sua experiência mística consiste, portanto, em tender para uma «semelhança» perfeita com Ele, mediante purificações e transformações cada vez mais profundas e radicais. A este maravilhoso empreendimento, Ângela dedica-se inteiramente, de alma e corpo, sem se poupar a penitências e tribulações, desde o início até ao fim, desejando morrer com todos os sofrimentos padecidos pelo Deus-homem crucificado, para ser transformada totalmente nele: «Ó filhos de Deus — ela recomendava — transformai-vos totalmente no Deus-homem apaixonado, que vos amou a ponto de se dignar morrer por vós com uma morte extremamente ignominiosa, total e inefavelmente dolorosa, de modo penosíssimo e amarguíssimo. E isto somente por amor a ti, ó homem!». Esta identificação significa também viver aquilo que Jesus viveu: pobreza, desprezo e dor, porque — como ela afirma — «através da pobreza temporal, a alma encontrará riquezas eternas; mediante o desprezo e a vergonha, ela alcançará a suma honra e uma glória excelsa; através de um pouco de penitência, feita com esforço e dor, possuirá com infinita docilidade e consolação o sumo Bem, Deus eterno» (ler aqui).

Ano da fé. Confiança e fé pública

2.
Se substituirmos nas frases anteriores a palavra confiança pela palavra fé, o texto continuaria a ter o sensivelmente o mesmo sentido.

A confiança é irmã gémea da fé. Podem não ser gémeas verdadeiras, mas vêm do mesmo útero. Já com os antigos gregos e romanos assim era. Em Roma, falava-se na “fides populi romani” (“fé do povo romano”), que era o fundamento das relações económicas, sociais e políticas. Tratava-se de uma fé pública nas pessoas e instituições. Por isso, Xenofonte dizia que o homem que não goza de fé é um “pobre no mais valioso dos bens” e perguntava se alguma relação agradável poderia existir sem a confiança mútua.

Não é demais presumir que a crise financeira que atravessamos ou que nos atravessa é uma crise de fé a diversos títulos. Mas não é da fé social que quero falar.

Natal em BD com ligação à rede

Os jornais “Correio Braziliense” e “Diário de Pernambuco” recontam a história do Natal em quadradinhos e com novas tecnologias. Faz lembrar o vídeo de uma empresa portuguesa, no ano passado, mas continua a ter graça.


Dores

Suavizar as dores dos outros é esquecer as próprias.

Abraham Lincoln

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

3 de Janeiro de 1896. Nasce J.R. R. Tolkien


J. R. R. Tolkien nasceu no dia 3 de janeiro de 1892, em Bloemfontein, África Sul. O autor de “O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion” teve educação católica depois de a sua mãe se ter convertido ao catolicismo em 1900, deixando muito desgostosa a sua família batista, que, por isso mesmo, deixou de a apoiar economicamente. Nessa altura já Tolkien era órfão de pai (Arthur Reuel Tolkien morreu em 1896) e vivia em Inglaterra.

A mãe de Tolkien, Mabel, morreu de diabetes, aos 34 anos, em 1904 (ainda não havia tratamentos de insulina). Antes de morrer entregou os filhos  (John e Hilary) a Fr. Francis Xavier, dos Padres do Oratório de Birmingham, que lhes deu, como se costuma dizer, esmerada educação católica.

Mais pedofilia, agora com um bocadinho da famosa hipocrisia católica

Da notícia do “Público” de hoje:
O presidente da associação Rede de Cuidadores lamentou ontem a "hipocrisia da hierarquia da Igreja Católica" após a divulgação do processo que levou à detenção do vice-reitor do Seminário Menor do Fundão por suspeita de abuso sexual de menores e depois de a ex-provedora da Casa Pia Catalina Pestana ter afirmado que conhecia outros casos entre membros do clero. "Quero que seja reposta a verdade dos factos e que a Igreja Católica deixe de tentar tapar o sol com a peneira", explicou o psiquiatra Álvaro Carvalho...


Não sei se é só de mim, mas tenho muita dificuldade em ouvir alguém que invoque à partida a “hipocrisia da hierarquia da Igreja Católica”. E, de facto, leio a notícia e noto mais ressentimento no invocador da católica hipocrisia do que propriamente hipocrisia nos responsáveis católicos. Presumo que faça parte da cruz dos católicos arcar com o rótulo da hipocrisia. Quem nunca ouviu que "todos os católicos são hipócritas"?

Mais notícia:
O psiquiatra destaca também as incongruências das posições do porta-voz da CEP, que, em entrevista a um diário, defendeu recentemente que a gravidade deste tipo de acusações "é tal que exige discrição no seu tratamento", quando dias antes desafiou Catalina Pestana a dizer publicamente os nomes dos eventuais criminosos.
Foi ver o que disse o porta-voz da CEP sobre os nomes. Segundo o “Expresso”, foi (aqui)…

…E como poderia ser diferente? Parece-me que há aqui um mal-entendido. O porta-voz da CEP desafiou publicamente Catalina Pestana a dizer os nomes. Mas não creio – nem poderia ser – que pretenda que ela diga os nomes publicamente. Era o que faltava.

Amor de canetas

Como dizer "amo-te" falando de canetas. E todos precisamos tanto de canetas como da tal frase. Veio no "Público" de ontem.


Ano da Fé. Confiança nos mercados

1.
Confiança tem sido a palavra mais utilizada pelos economistas para explicar a crise económica e financeira, mas precedida de “falta de”.

As agências de rating falam de “falta de confiança nos mercados da dívida”. Os banqueiros dizem que a falta de confiança interbancária faz subir os juros – e a prestação da casa. Os mercados dizem que não confiam neste ou naquele país. Os políticos dizem que é preciso promover a confiança. E as empresas de sondagem e os institutos de estatística medem os índices de confianças dos consumidores e dos empresários.

No fundo, tudo se resume nisto: para quê investir se não há confiança no futuro / no retorno do negócio / no pagamento da dívida / na saída da crise? É assim que a confiança caminha de braço dado com a economia. Ou antes: a economia só progride no caminho aberto pela confiança.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2 de janeiro de 1801. Morre o teólogo que tentou converter Moisés Mendelssohn


Johann Kaspar Lavater

O teólogo suíço zuingliano Johann Kaspar Lavater morreu no dia 2 de janeiro de 1801. Nascera a 15 de novembro de 1741. Tinha 59 anos há 212 anos.

Lavater foi muito conhecido na sua época pelos dons de oratória, fazendo digressões pela Alemanha, como muitos outros, e pelos seus escritos místicos. Mas se o lembro agora é porque tentou converter Moisés Mendelssohn (avô do músico Mendelssohn). Corria o ano de 1769.

Não conseguiu. E boa parte dos intelectuais alemães de então preferiu tomar o lado do filósofo rabino judeu que foi o grande promotor do renascimento hebraico na Europa ao do teólogo pastor protestante.

Moisés Mendelssohn

"Bispos unem-se contra políticas do governo", diz o "i"


No "i" deste 2 de janeiro.

Decisões para 2013

Decisões para 2013 sobre este blogue:

1. Retomar as efemérides diárias;
2. Refletir com alguns dias de antecedência sobre o evangelho do domingo seguinte;
3. Transcrever afirmações sobre a fé, já que estamos no Ano da mesma (quanto desejei escrever uma frase, mesmo sabendo que está incorreta; basta substituir “da mesma” por “dela”).

Balanço no dia 2 de janeiro:
- Já falhei o ponto 1 em relação  a ontem.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Desejo de paz

O desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem.

Bento XVI, no início deste ano. Li aqui.

Linhas tortas

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta

Sophia de Mello Breyner Andresen

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...