segunda-feira, 11 de julho de 2011

Marcelo Gleiser: A teoria final do tudo é uma influência do monoteísmo


O físico brasileiro Marcelo Gleiser (aqui aludido) foi entrevistado pelo jornal “Público” no dia 5 de Julho. A entrevista do jornalista Nicolau Ferreira tinha como título. "A ciência é uma narrativa humana como a literatura ou a pintura". Alterei a cor de partes que considero especialmente relacionadas com este blogue, visto que seria prejudicial truncar a entrevista.

A humanidade mudou as leis do Universo ao longo dos séculos, mas para o físico brasileiro Marcelo Gleiser isso não tira o compromisso que existe na busca da verdade através da ciência, é só o reflexo da capacidade incompleta e limitada com que olhamos para a natureza.

Marcelo Gleiser, 52 anos, físico teórico brasileiro radicado nos Estados Unidos. Dá aulas na Universidade de Dartmouth, New Hampshire, mas é também cronista na Folha de São Paulo, e está profundamente empenhado na divulgação da Ciência no Brasil. Em Portugal saiu o último livro escrito pelo cientista sobre o Universo, chama-se Criação Imperfeita (Círculo de Leitores). Fala sobre as forças físicas da natureza, a forma como o Universo poderá ter sido criado e a importância de sermos raros num cosmos aparentemente deserto. Mais importante, desmonta a procura de uma teoria unificadora na Física que tenta explicar todas as forças do Universo de uma só vez. Uma busca que defende estar enraizada na cultura científica e que tem origens monoteístas. Nesta tentativa unificadora, a Ciência cai no erro de generalizar os fenómenos naturais e esquecer-se das assimetrias. Todas as margaridas são semelhantes, mas nenhuma delas é idêntica a outra (disse ao P2 numa entrevista em Lisboa, para promover o livro), e a Ciência nunca vai conseguir olhar para tudo. É uma história em construção. Sem fim.

Diz que a Ciência é uma narrativa humana. Que limitações tem?
As pessoas têm a impressão de que a Ciência é a verdade absoluta. Que os dados científicos são incontestáveis e que tudo está correcto. Quando se estuda a história da Ciência, percebe-se que não é bem assim, a Ciência avança e cria informação à medida que o tempo vai passando. Ela vai ficando cada vez mais complexa e mais completa, mas nunca chega ao fim. O que era verdade no tempo de [Pedro Álvares] Cabral, que o Universo era estático com a Terra móvel no centro, era completamente diferente da verdade no século XVII ou da de hoje. A noção de verdade muda com o tempo. O Universo em que a gente vive vai-se transformando à medida que nós aprendemos mais sobre ele. Dessa forma, a posição do Homem no Universo e a compreensão de quem nós somos também mudam. O que eu tento no livro é desmistificar a Ciência, mostrar que ela é, na verdade, uma narrativa, uma construção profundamente humana, uma tentativa de compreensão de quem nós somos. A Literatura faz isso, a Pintura faz isso, a Ciência também está a fazer isso.

Como é que a cultura molda essa narrativa?
A cultura cria um contexto. As perguntas sobre quem nós somos, qual é a essência da vida podem ser as mesmas, mas as respostas dependem muito desse contexto. Voltando, por exemplo, à imagem de Cabral: no século XVI existia uma cultura completamente dominada pela teologia cristã, a visão do mundo era essencialmente religiosa e, dentro dessa visão religiosa, o Homem era um ser extremamente especial, era uma criação divina, e à medida que a Ciência foi avançando, essa visão foi-se transformando.

Richard Dawkins (cientista e autor de A Desilusão de Deus) utiliza a verdade científica para lutar contra a religião, argumento com o qual não está de acordo. Tem que ver com a Ciência ser uma narrativa?
Sim. Acho que Dawkins concordaria com essa noção de que a Ciência é uma narrativa humana. Espero, nunca conversei com ele sobre isso. No que diferimos profundamente é na atitude. Ele tem uma atitude em que a Ciência é a única forma de conhecimento e eu não acredito nisso, eu acho que a Ciência é uma forma de conhecimento, muito precisa, está ligada ao nosso entendimento do mundo, da natureza. A função da Ciência é descrever a natureza, descrever o mundo.

O que é que as outras formas de conhecimento dão ao Homem, como a religião?
Eu não diria que a religião é uma forma de conhecimento, mas a literatura ou a pintura, a música, a poesia, elas criam conhecimento de uma forma completamente diferente da Ciência. Elas constroem realidades que são paralelas à realidade científica. Na literatura não é preciso um compromisso com o real. Jorge Luís Borges ou Saramago criam realidades completamente fantasiosas mas que nem por isso deixam de trazer um elemento de verdade para a dimensão humana.

E essa dimensão é importante?
É fundamental. Dizem que a ficção, através da mentira, diz verdades. E a Ciência tenta sempre dizer verdades através da verdade. São propostas completamente diferentes de se alcançar a mesma coisa, que é uma maior compreensão do espírito humano.

Dawkins presume de mais dessa verdade trazida pela Ciência?
O que me incomoda em relação ao Dawkins é a sua posição absoluta. É um pouco fundamentalista. Esse fundamentalismo ateu sofre dos mesmos problemas do fundamentalismo religioso. Que é acreditar ser o dono absoluto da verdade. A posição do ateu é uma posição que logicamente não faz sentido. O que é que diz o ateu: diz que "eu acredito no não-acreditar". Como é que se pode acreditar no não-acreditar? Para Dawkins, Deus é completamente impossível. E apesar de concordar com isso - também não acredito em Deus ou no sobrenatural - cientificamente você só pode falar no que existe. A Ciência é muito boa para provar o que existe: electrões existem, planetas existem, estrelas existem, galáxias existem. Mas o que é que não existe? Sei lá! Então, eliminar radicalmente o que não existe usando a linguagem da Ciência: Deus não existe, fadas não existem, duendes não existem - também acho, mas não posso ser radical na minha atitude, prefiro manter a cabeça aberta e essa é a posição do agnóstico.

Diz que a procura de uma teoria geral na Física é uma ideia monoteísta. De onde vem?
Essa busca por uma unificação de tudo, por uma teoria final, que seria a soma de todas as teorias possíveis de como a matéria se organiza, que descreve as interacções entre as partículas da matéria, é uma noção essencialmente monoteísta. À medida que as religiões monoteístas foram ganhando força mais ou menos há 3000 anos, essa noção de que Deus é um criador de tudo, então tudo tem uma explicação única que volta a Deus. Essa ideia tomou muita força e entrou na Filosofia. Platão foi influenciado pelos pitagóricos, que defendiam que a natureza é matemática e que a função do filósofo era entender a construção matemática do mundo. Através dessa construção entender-se-ia a mente de Deus. Essa noção de que a natureza é uma ponte entre a mente humana e a de Deus torna a Matemática num instrumento teológico. O cientista passa a ser o intérprete da criação. Essa noção inspirou muitos cientistas. Por exemplo [Johannes] Kepler, no século XVII, foi uma pessoa muito influenciada por isso, e depois Einstein, mesmo que se tenha libertado dessa noção monoteísta do Deus autoritário, ficou com a ideia de que a natureza é matemática, e que pode ser compreendida de uma forma perfeita pela mente humana.

Essa ideia continua presente?
Sim. Por exemplo, existe a teoria das supercordas, a ambição máxima da Física moderna, unificar as forças da natureza numa teoria única. É a encarnação moderna desse sonho platónico de traduzir toda a existência em termos geométricos. Ela traz consigo essa bagagem cultural do monoteísmo, que há uma justificação única e central para tudo o que existe pelas ordens da Física. Para mim, essa noção é um preconceito filosófico influenciado por uma teologia de 3000 anos. Em termos práticos, se você olhar para o que está a acontecer nas descobertas da Física moderna, vê que existe uma tensão entre uma discussão completa do mundo, as simetrias da natureza e as quebras dessas simetrias. Então, criamos uma teoria simétrica, muito bela, e aí as experiências vão e - bum! - quebram essa simetria e mostram que é apenas aproximada. Isso é uma constante na história da Física.

Por que é que essa procura deixou de lhe fazer sentido?
Porque a Física é essencialmente uma Ciência empírica, baseada nos dados, nas experiências. Podemos querer construir teorias muito belas, mas no final quem vai dizer como é a natureza é a própria natureza, através de experiências. Comecei a perceber que, apesar do meu desejo adolescente, romântico, de construir uma visão única do mundo, baseada numa teoria unificada, a história dos últimos 50 anos da Física está a levar-nos a uma posição completamente diferente em que as simetrias são quebradas, que elas são aproximadas e que talvez essa insistência que nós tenhamos em criar uma teoria completa do mundo seja só um preconceito.

Na educação da Física, como cientista, é-se influenciado para a teoria final?
Para a teoria final e também para a confusão entre simetria como uma aproximação e simetria como uma verdade. Em Filosofia, você tem duas correntes, a Filosofia do ser, que é atemporal, não se transforma, e a do devir, do que está sempre a construir-se. E na história da Filosofia houve sempre uma espécie de crise, ou tensão, entre elas. A Ciência contém as duas. O ser - a conservação da energia, por exemplo, que é uma lei que existe independentemente do quando e do onde, e por outro lado o devir - todas as variações locais das coisas que vão acontecendo, em cada planeta, que dependem da história, de detalhes. Para mim, o que é interessante hoje é as forças que criam as diferenças, a origem das assimetrias.

O livro chama essas assimetrias logo para o título "Criação Imperfeita".
No livro, eu tomo cuidado ao dizer que não sou contra a unificação. Mas sou contra a ideia do abuso dessa noção. Para mim, a teoria final é completamente absurda. Pode falar-se em teorias que são parcialmente unificadas, como o electromagnetismo, mas mesmo essa, que é o paradigma da unificação, não é perfeita. Porque existem diferenças entre as propriedades da electricidade e do magnetismo. As unificações que vão ocorrendo vão ser sempre aproximadas, nunca vão ser perfeitas. E certamente nunca vão chegar numa teoria final. Basta ver como funciona a Ciência: através dos dados que colectamos sobre o mundo. Dependemos de telescópios, de aceleradores de partículas, etc. Esses instrumentos vão ficando mais precisos e poderosos à medida que a tecnologia vai avançando, mas eles têm limites de precisão. Como nós não temos uma visão total do mundo, a nossa descrição da natureza vai ser sempre limitada. A ideia de chegarmos a uma teoria que contém tudo não faz sentido, porque nunca vamos saber se a teoria está certa ou errada. Por isso eu falo em narrativa, a Ciência é uma construção que está sempre em andamento, ela não tem um ponto final.

Os próprios conceitos como electromagnetismo não limitam o modo como olhamos para a Física?
Eles não limitam como vemos a Física, eles são como a Física é. A Física é construída a partir desses conceitos porque ela é feita por nós.

A Física não é a natureza.
Exactamente. A Física é o que a gente pode dizer sobre a natureza. Aliás, não fui eu que disse isso, foi [Niels] Bohr (Nobel da Física em 1922). Idealmente, podemos descrever tudo sobre o mundo, e a posição mais concreta e realista é que infelizmente não é verdade, porque somos seres muito sofisticados, mas limitados. A noção de teoria final é tentar equiparar o Homem a Deus, e isso, para mim, é uma noção extremamente perigosa.

Uma das frases que mais repete no livro é. "Só sabemos o que podemos medir." Qual é o perigo das teorias impossíveis de serem testadas?
O perigo é levar à perda da credibilidade da Ciência. A força da Ciência está justamente no facto de que quando se diz que o Sol é uma estrela, que tem uma temperatura na superfície de 5800 graus, está a fazer-se uma asserção que se pode comprovar. Mas se se disser que vivemos num universo em que existem infinitos universos, mas que não se podem contactar esses múltiplos universos, então está a fazer-se uma asserção que não é científica, em que tudo é válido, e começa a discutir-se mais Filosofia do que Ciência. Essa noção de concreto da Física está a perder-se com a especulação um pouco exagerada dos físicos teóricos.

Essa especulação é recente?
Está pior nos últimos 20 anos.

Normalmente o nível da discussão ultrapassa o conhecimento comum.
É, mas por exemplo o [Stephen] Hawking escreveu um livro que faz asserções do tipo "a Ciência explica hoje a origem do Universo" e não é verdade. Existem modelos matemáticos, extremamente abstractos, que fazem previsões em relação à origem do Universo, mas dizermos que a Ciência explica a origem do Universo não é verdade. Passa-se ao público uma impressão de que sabemos muito mais do que sabemos, e isso faz com que a Ciência perca credibilidade.

Diz: "O cientista deve estar preparado para encarar as consequências do seu trabalho." Parece algo que pedimos aos políticos. Também devemos exigir isso aos cientistas?
A Ciência pode trazer o bem e o mal. Isso vê-se, por exemplo, na bomba atómica, na energia nuclear. Os usos das descobertas científicas em geral escapam das mãos dos cientistas, e vão ser utilizadas pelos políticos, pelos industriais, pelas grandes empresas, etc. Os cientistas têm que estar muito conscientes desse perigo e da aliança que têm com o poder.

Fukushima [acidente na central nuclear no Japão em Março último] é culpa dos cientistas?
Não. Os cientistas também não são culpados pela bomba em Hiroxima e Nagasáqui. Esse é o ponto.

Há coisas que devem estar fechadas aos cientistas e à Humanidade?
Mas quem vai definir isso? Não há como controlar a pesquisa científica, é uma espécie de caixa de Pandora. Destruir todas as bombas nucleares e apagar esse capítulo da humanidade - isso nunca vai acontecer. Porque já foi descoberto, pode voltar. O que tem que ser feito é uma maior consciencialização da população, dos políticos que são eleitos. Por isso é que o cientista não se deve dar ao luxo de ficar só na academia. Tem que se manifestar publicamente como intelectual. Tem que ter uma consciência ética do que está a fazer e quais são as possíveis consequências. Na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de cientistas foi trabalhar no projecto Manhattan para as bombas, eles estavam a responder ao medo que tinham que os nazis tivessem a bomba. Essa era a motivação principal. Mas quando a Alemanha se rendeu, o projecto tinha uma inércia tão grande que não conseguia parar. Transformou-se muito mais numa arma política, militar, do que numa descoberta científica. Os cientistas perderam o controlo e a bomba passou a ser uma propriedade dos políticos e militares. Esse é um risco que vai sempre acontecer.

Talvez até flutuar um pouco

No entanto, o que quero na minha vida
é estar disposta
a ficar deslumbrada
a pôr de parte o peso dos factos.


E talvez até flutuar um pouco
acima deste mundo difícil.
Quero acreditar que estou a mergulhar
no fogo branco de um grande mistério.


Mary Oliver (1935-...)



sábado, 9 de julho de 2011

9 de Julho de 1797. Morre Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno

Edmund Burke, que no séc. XIX era visto como fundador do moderno conservadorismo e representante respeitável do liberalismo clássico (actualmente é mais relacionado com a primeira corrente), nasceu no dia 12 de Janeiro de 1729, em Dublin, e morreu no dia 9 de Julho de 1797, em Beaconsfield.


Para Burke, como para o conservadorismo em geral, a igreja e a moralidade judeo-cristâ têm muita importância. Diz-se, aliás, que o conservadorismo é a única das principais ideologias políticas que aceita a religião como um dos fundamentos do Estado ou, pelo menos, e por maiores ordens de razões, da sociedade.


Em “Reflections”, sua principal obra, a religião é o assunto que ocupa maior número de páginas, à excepção da propriedade. Filho de uma católica romana, Burke integrava-se na fé anglicana, mas deu atenção à situação dos católicos na Grã-Bretanha. Ficou horrorizado com os golpes desferidos pelos Jacobinos à Igreja em França durante a Revolução de 1789. O pensador opôs-se à Revolução Francesa, tendo saudado 13 anos antes a Americana.

Reflexão de José María Castillo sobre o Papa e o seu poder


A reflexão de José María Castillo surge a propósito da Jornada Mundial da Juventude, convocada por Bento XVI para Madrid, em meados de Agosto. Reflexão não por erudição, mas para questionar o direito de convocar concentrações “mundiais”. “Será que ele é o bispo do mundo inteiro?”, pergunta o teólogo espanhol.
No cânon 331 do Código de Direito Canônico se diz que a potestade do Papa é “suprema, plena, imediata e universal”, como Pastor que é da “Igreja universal na terra”. Além disso, é uma potestade contra a qual “não cabe apelação nem recurso” algum (c. 333, 3). Ou seja, o Papa não tem que dar contas a ninguém do que diz ou do que faz. Mas o Papa realmente tem esse poder? Faço esta pergunta porque está mais do que demonstrado que nos Evangelhos não existe nenhum argumento que prove que o bispo de Roma tenha tido ou tenha essa potestade. Além disso, está igualmente demonstrado que o poder supremo universal do papado não tem origem apostólica, mas imperial, de forma que a bibliografia muito documentada que existe sobre este ponto concreto é enorme. Segundo os minuciosos e detalhados estudos que foram feitos sobre esta questão, a “potestade universal” foi uma invenção dos imperadores de Roma. No século IV, de Roma passou para Constantinopla, ao Império Bizantino. E dali, não sem forte resistência dos papas, finalmente, em 1049, Leão IX a apropriou para a sede romana. Mas antes, o Papa Gregório Magno (séculos VI-VII) chegou a dizer que utilizar o título de patriarca “universal” era uma “blasfêmia” (Mon. Germ. Hist., Epist. V, 37).
Ler tudo aqui.

Quem não trabalha não coma, dizia S. Paulo

Conversa entre padres.
- Não vais tirar férias este ano, pois não?
- Não, não vou.
- Compreendo. Eu vou porque estou mesmo a precisar de descansar.

Anselmo Borges: Os Dez Mandamentos

Wim Wenders também acha que os Dez Mandamentos continuam actuais

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Em todas as épocas, há quem julgue estar-se num momento decisivo. Também para se dar importância.

Desta vez, porém, é mesmo a sério: encontramo-nos num cotovelo, num momento obscuro e decisivo, imprevisível, da História. A crise é imensa, de contornos não bem definidos, global. O que se segue pode ser pura e simplesmente o caos. As suas causas são múltiplas. Aliás, quanto aos fenómenos sociais, deve-se desconfiar das explicações monocausais.

A crise é, evidentemente, financeira, económica, política, social, religiosa, moral, de valores. Sim, de valores. De valores vinculantes.

Implantou-se o princípio do ter e do prazer e impera o individualismo descomprometido e consumista. Como já aqui escrevi, o célebre sociólogo Zygmunt Bauman, professor jubilado da Universidade de Leeds, caracterizou a situação como "modernidade líquida". Os laços, íntimos e sociais, são frágeis. Há o receio de compromissos a longo termo. Tudo deve ficar em aberto, para não fechar possibilidades.

Baumann dá o exemplo do amor e da sua vivência contraditória, dolorosa. Por um lado, num mundo incerto e instável, " tem-se mais necessidade do que nunca de um parceiro leal e dedicado, mas, por outro, fica-se aterrado com a ideia de compromisso (para já não falar de compromisso incondicional) com este tipo de lealdade e dedicação". Há o receio de perder a liberdade e oportunidades. "E se o parceiro/a fosse o/a primeiro/a a decidir que está farto/a, de modo que a minha entrega acabasse no caixote do lixo? Isto leva então a tentar realizar o impossível: ter uma relação segura, mas permanecendo livre, para poder acabar com ela a cada instante. Melhor: viver um amor verdadeiro, profundo, durável, mas revogável a pedido... Tenho o sentimento de que muitas das tragé- dias pessoais derivam desta contradição insolúvel."

No fundo, é a recusa do sacrifício. De facto, querer salvar o amor do turbilhão da 'vida líquida' é inevitavelmente custoso, como é custosa e difícil a vida moral. Entregar-se a outro ser humano no amor traz felicidade real e duradoura, mas "não se pode recusar o sacrifício de si e esperar ao mesmo tempo viver o 'amor verdadeiro' com que sonhamos".

Na nossa sociedade, tende-se a substituir a noção de 'estrutura' pela de 'rede'. É que, "ao contrário das 'estruturas' de outrora, cuja razão de ser era vincular com laços difíceis de desfazer, as redes servem tanto para ligar como para desligar". Por isso, Baumann contrapõe 'liquidez' e 'solidez' das instituições. Afinal, "instituições sólidas, no sentido de duráveis e previsíveis, constrangem, mas ao mesmo tempo tornam possível a acção dos agentes".

Pessoalmente, mais do que a imoralidade preocupa-me a amoralidade. Porque, quando tudo vale, nada vale, pois tudo é igual. Uma sociedade sem convicções e valores comuns partilhados não tem futuro, porque lhe falta horizonte e sentido. Por isso, fonte maior de mal-estar hoje está na falta de critérios de valor e de orientação.

Neste contexto, a revista alemã Stern publicou um dossier subordinado à pergunta: "Os Dez Mandamentos estão ultrapassados?" Significativamente, políticos como o actual ministro federal das Finanças, W. Schäuble, realizadores como Wim Wenders, filósofos como Peter Sloterdijk, declararam que eles continuam vivos e actuais. De facto, quem negará actualidade a preceitos como: "Não farás imagens de Deus, mas respeitarás a dignidade de todos os seres humanos, sua imagem", "Não matarás", "Não cometerás adultério", "Amarás os filhos e respeitarás os pais", "Não roubarás", "Não viverás à custa dos outros", "Serás justo com todos", "Protegerás a natureza", "Assumirás as tuas responsabilidades"?

Referindo-se-lhes como um compêndio da sabedoria humana, acumulada ao longo de séculos, o grande escritor Thomas Mann disse que eles são "manifestação fundamental e rocha da decência humana", "o ABC da conduta humana".

Uma qualidade do olhar

A fé revela não tanto a capacidade de entendimento mas mais a qualidade do olhar.


Donatien Mollat

sexta-feira, 8 de julho de 2011

8 de Julho de 1623. Morre o Papa Gregório XV



Gregório XV começou o seu pontificado no dia 9 de Janeiro de 1554 e terminou-o no dia 8 de Julho de 1623. Para promover e coordenar as missões no mundo, fundou a Congregação da Propagação da Fé ("Propaganda Fide"), que é hoje a Congregação da Evangelização dos Povos. 


Imagem: Escultura de Pierre Le Gros, o Jovem, para o túmulo de Gregório XV, na Igreja de Santo Inácio, em Roma.

O último livro do Index


O Index foi formalmente abolido no dia 15 de Junho de 1966, no pontificado de Paulo VI. No entanto, há anos que não entravam livros para a lista. O último a entrar foi, imagine-se, uma vida de Jesus, devido à interpretação dos evangelhos de infância. Na obra em questão, “Vie de Jésus”, do biblista francês Jean Steinmann, não eram interpretados à letra quando a interpretação católica dos evangelhos prevalecente ainda era demasiado literalista.

Flash mob eucarística

Foi em Preston, Reino Unido, na quinta-feira da Ascenção de 2011 (2 de Junho). Franciscanos capuchinhos. Acredito no que se diz no texto que o outro franciscano proclama.

"O Espírito fala nas escrituras, mas não deixa de falar no tempo"

Comentário de alguém - com quem concordo claramente - a propósito do que disse o Patriarca de Lisboa sobre a ordenação das mulheres (aqui).
É pena, de facto, que se estreitem os horizontes que Jesus alargou.A bem dizer, é problemático, desde logo, falar de ordenação sacerdotal. Jesus, no judaísmo que professava, era um leigo. Pertencia à tribo de Judá e não à de Levi, esta sim a tribo a que pertenciam os sacerdotes.Ao designar Apóstolos, Jesus quis assegurar a perenidade da mensagem. Não consta que pretendesse modelar uma estrutura rígida.O Espírito fala nas escrituras, mas não deixa de falar no tempo.E mesmo nas escrituras, a sadia pluralidade é manifesta.Os apóstolos, depois de espalharem a mensagem e constituírem comunidades, deixaram pessoas à sua frente. Ser homem ou mulher não era relevante (Príscila e Áquila formavam um casal). Relevante era a fé.Concentremo-nos na fé. A fé não é um freio que inibe. É uma janela que abre, um sopro que se respira.Na paz, tudo há-de seguir o seu caminho.Ser mulher não é impedimento para nada.Atribuir o contrário a Jesus é uma pretensão desmedida e indevida.

Deus

Uma palavra que caminha ao lado das palavras,
uma palavra à imagem do silêncio.


Paul Celan (1920-1970)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Roubaram o mais antigo guia de peregrinos de Compostela

Já se diz que é o roubo do século. Desapareceu da Catedral de Santiago de Compostela, talvez no domingo passado, o Códice Calixtino, um manuscrito do século XII que dá conselhos aos peregrinos, indica possíveis alojamentos, descreve rotas e obras de arte. É o primeiro guia do Caminho de Santiago.




1 Antigüedad
Se trata de un códice del siglo XII en el que además del texto también tienen especial importancia las ilustraciones. Tiene un extraordinario valor como fuente de información sobre la peregrinación.
 
2 Tamaño
En el año 1964 fue encuadernado en un solo volumen incorporándole el libro de Turpín, que se había desmembrado y encuadernado aparte. Mide 30 por 21 centímetros y la caja en la que se conserva la escritura, 23 por 16.
 
3 Páginas
La obra consta de 225 folios de pergamino con paginación en números romanos, a los que se añade la arábiga en el reincorporado libro de Turpín.
 
4 Autor
El libro se atribuyó al papa Calixto II, y de ahí el nombre por el que es conocido. En la Edad Media era costumbre atribuir los trabajos a personalidades de gran relevancia para adornarse así con su prestigio.
 
5 Libros
El códice se divide en cinco libros: el primero tiene carácter litúrgico y recoge sermones y homilías. El segundo relata los milagros realizados por el Apóstol Santiago; el tercero recoge la traslación del cuerpo; el cuarto es el libro de Turpín, y el quinto, una auténtica guía de peregrinación.
 
Valor literario
Además del contenido histórico y artístico, hay que destacar también el valor literario de la obra, con unas descripciones de gran realismo y también con notas líricas. No existe límite entre realidad y ficción, que mezcla en las narraciones.
 
225 folios
Componen la obra. Muchos de ellos encabezados con miniaturas primorosamente decoradas. 
 
3
Amanuenses. Los estudiosos opinan que el manuscrito fue realizado por tres amanuenses distintos, todos con gran dominio de su oficio. Según las investigaciones de Moralejo Laso, uno escribió hasta el folio 186; otro, desde éste al 222, y un tercero, con un tipo de letra más avanzado, realizaría los dos últimos.
 
1964
Reforma. En ese año fue cuando por acuerdo entre el Cabildo y la Dirección Xeral de Archivos y Bibliotecas se procedió a encuadernar la obra.
Retirado de El Correo Galego, o primeiro jornal a dar a informação, aqui.

Maria José Nogueira Pinto: Nada me faltará



Morreu ontem, vitimada por um cancro do pâncreas, Maria José Nogueira Pinto. Desta vez os jornais não disseram que morreu de "doença prolongada", o que já revelador do modo aberto como viveu a sua  doença.
No DN, diário em que a deputada era colunista, está hoje um testemunho que vale a pena ler. Últimas linhas de "Nada me faltará":

Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Ler tudo aqui.

Cardeal esclarece sobre a ordenação de mulheres



Texto do "Público" de 7 de Junho de 2011. Ler o esclarecimento na íntegra aqui. Entrevista que esteve na origem da polémica aqui, em pdf (pág. 35-41).

Contra a corrente



Num mundo de fugitivos
Uma pessoa que esteja a ir na direcção contrária
Parecerá estar a fugir.


T. S. Elliot, citado em Livres para acreditar. Dez passos para a fé, de Michael Paul Gallagher

quarta-feira, 6 de julho de 2011

6 de Julho de 1535. Morre Tomás Moro

Estudo de Hans Holbein para o retrato da família More

Thomas More ou Tomás Moro, como também é conhecido, morreu no dia 6 de Julho de 1535, aos 47 anos, decapitado por antes querer obedecer à sua consciência e ao Papa do que ao rei contra Igreja, embora fosse fiel servidor da coroa inglesa. Em 2000, o Papa João Paulo II declarou-o patrono dos governantes e políticos. Ver aqui.

Escreveu a narrativa “Utopia”, que é basicamente o relato do marinheiro português Rafael Hitlodeu sobre a ilha Utopia, "nenhures", "não lugar".  O português é um marinheiro experiente “como Ulisses ou, melhor, como Platão”, “muito culto em grego”, que conheceu mundo com Vespúcio. O nome Hitlodeu, explica o tradutor, vem do grego “hutlos”, que significa patranha.

Indicações para a viagem



Livres para acreditar. Dez passos para a fé
Michael Paul Gallagher
Tenacitas
180 páginas


“Livres para acreditar” convida o leitor a fazer um percurso em dez passos. Explica o próprio autor que a sua pretensão é que cada um descubra a sua “história de libertação-busca-amor”. O livro é como que um “mapa para uma possível decisão sobre a fé”. “É como se estivesse a fazer um telefonema a pedir conselhos para uma viagem de um fim-de-semana de férias. Dir-lhe-iam quais são os melhores caminhos a seguir para evitar maiores demoras e dificuldades, Mas estas indicações são o levarão ao seu destino; terá de ser o leitor a fazer a viagem” (pág. 28).

As dez etapas da viagem então agrupadas em três partes maiores: histórias de libertação (o falso eu, do questões erradas, de falsos deuses), histórias de busca (as grandes questões, a consciência, os desejos do coração) e histórias de amor (o esvaziamento de si e o encontro com Cristo).

Escreve Vasco Pinto de Magalhães na contracapa que este livro é “mais para fazer do que para ler”. Fazer um percurso, uma descoberta, um encontro. “Quem for muito céptico ou não crente poderá, pelo menos, entender que encontro é esse a que os cristãos chamam fé. E quem for crente poderá praticar este livro para se tornar mais livre”, adianta o jesuíta português.

Michael Paul Gallagher é padre jesuíta, irlandês, actualmente reitor do Colégio Belarmino, em Roma. Durante duas décadas, foi professor universitário de Literatura Inglesa em Dublin, pelo que povoa os textos deste livro com referências às grandes obras literárias. Desde 1995 é professor de Teologia Fundamental na Universidade Gregoriana, em Roma.

A fé precisa de arte e vice-versa - por vezes



Notícia do DN de hoje sobre a exposição nos 60 anos de sacerdócio de Bento XVI, em que também esteve Tolentino Medonça (ler aqui o seu poema). Uma celebração deste tipo parece promover o culto da personalidade, pela sua oportunidade (60 anos...), mas é sempre importante realçar que a fé precisa da arte. E os artistas precisam da fé. Pelo menos alguns.

Menino Jesus da Cartolinha agora também é GNR e PSP

Menino Jesus de GNR

Quando ouvi pela primeira vez falar do Menino Jesus da Cartolinha julguei tratar-se de uma qualquer expressão, mas apenas expressão, para dar a ideia da atribuição de uma importância desmedida a algo insignificante, um realce da forma sobre o conteúdo, uma contradição por aquele que se fez último estar de cartola, símbolo de poder e riqueza. Porém, o Menino Jesus da Cartolinha existe mesmo, como confirmei aqui.
Ora segunda-feira, o “Público” diz isto, a propósito da extinção dos governos civis:
Um dos últimos actos oficiais do governador civil de Bragança, ao fim de seis anos de mandato, foi a entrega de duas novas fardas ao Menino Jesus da Cartolinha, em Miranda do Douro. A imagem do santo, um dos ícones de devoção religiosa que data do século XVIII, é, também, cartaz turístico da Sé Catedral de Miranda do Douro, onde existe um vasto guarda-roupa que vai sendo acrescentado com o escrúpulo de quem não despreza tradições. 
Desta vez, foi Rui Pereira, o ex-ministro da Administração Interna quem assumiu a promessa de oferecer ao santo uma farda da PSP e outra da GNR, aquando da sua última visita ao concelho. Jorge Nunes, o governador civil, cumpriu-a antes de deixar funções. O acontecimento teve honra de notícia no site oficial do Governo Civil de Bragança, com a imagem do santo já devidamente fardado de guarda republicano.
Na página electrónica do Governo Civil de Bragança ainda é possível confirmar o acto oficial:
O Governador Civil de Bragança entregou esta terça feira, dia 21 [de Junho], duas novas fardas ao menino Jesus da Cartolinha em Miranda do Douro. Jorge Gomes entregou uma farda da PSP e outra da GNR à imagem que remonta ao século XVIII cumprindo, assim, uma promessa do ex ministro da Administração Interna, Rui Pereira que se comprometeu a doar aquelas fardas aquando da sua ultima visita a Miranda do Douro. “É um acto simbólico porque o ministro é nascido em Duas Igrejas e como é conhecedor das tradições de Miranda do Douro decidiu oferecer duas fardas ao Menino Jesus da Cartolinha: uma da Guarda Nacional Republicana e outra da Policia de Segurança Pública” referiu o governador acrescentando que se trata “ de um gesto que visa reconhecer a capacidade e qualidade de trabalhos na área da segurança que estas duas forças policiais têm prestado aos cidadãos”. No acto simbólico da entrega das fardas estiveram também presentes os comandantes distritais desta duas forças de segurança que agradeceram o gesto de reconhecimento.   “Temos muito gosto em ver o nosso uniforme associado a um ícone tão forte de Miranda do Douro como é o Menino Jesus da Cartolinha” referiu o Tenente-coronel da GNR Sá Pires. “A partir de agora teremos no Menino Jesus da Cartolinha um protector dos polícias para nos ajudar a prestar um serviço de melhor qualidade e mais eficiente” frisou o comandante da PSP Amândio Correia. Além de reforçarem o guarda-fatos do Menino Jesus da Cartolinha, as duas novas fardas serão a partir de agora, mais um motivo de atracção da Sé Catedral de Miranda do Douro (texto e imagem retirados daqui).

Vidros partidos


Se Deus vivesse na terra, as pessoas atirariam pedras às suas janelas.


Provérbio judaico 

Mais uma teoria

terça-feira, 5 de julho de 2011

5 de Julho de 1687. Newton publica “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”

Terceira edição, em 1726, um ano antes da morte de Newton

Isaac Newton publicou no dia 5 de Julho de 1687 “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica” (“Princípios Matemáticos da Filosofia da Natureza”), uma obra de primeiríssimo plano na História da Ciência, só destronada, para as questões do quase infinitamente pequeno e infinitamente grande, pelas obras de Einstein e pelas teorias quânticas.
Contudo, Newton, que também era filósofo e teólogo, achava que ficaria na história antes por obras de carácter teológico como “An Historical Account of Two Notable Corruption of Scriptures”, “Chronology of Ancient Kingdoms Atended” e “Observations upon the Prophecies”.

Merecia uma resposta, mas tem uma certa razão


Com ou sem religião, haverá sempre pessoas boas a fazer coisas boas e pessoas más a fazer coisas más. Mas para as pessoas boas fazerem coisas más, tem de haver religião pelo meio.

Steven Weinberg (1933 - …), Nobel da Física, autor de “Os três primeiros minutos” (Gradiva)

Adaptem a missa às audiências?

O estudo que faltava para aumentar as audiências da missa. No "Público" desta terça-feira. Só parece esquecer que no dia em que JC não for "loucura para os gentios e escândalo para os judeus" (judeus e gentios, hoje, somos todos) não valerá a pena ir à missa. 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O que o Patriarca disse, não disse, quis dizer, pensou, não pensou... sobre a ordenação das mulheres

No "Público" de hoje. Uma tentativa de esclarecer o que realmente quis dizer. "Não foi preciso ao falar do sacerdócio numa entrevista recente", diz no ACI Digital uma "fonte do episcopado português", sem esclarecer o que realmente quis dizer.


(Nota posterior) Esclarecimentos sobre esta questão no dia 7 de Julho aqui.

Poema de Tolentino Mendonça para o Papa

O Mistério está todo na infância

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino Mendonça
Este poema é hoje apresentado ao Papa, no início da exposição “O esplendor da verdade, a beleza da caridade”, que vai estar patente até 4 de Setembro, na Cidade do Vaticano (átrio da sala Paulo VI). A iniciativa insere-se nas comemorações do 60.º aniversário da ordenação sacerdotal de Joseph Ratzinger (29 de Junho de 1951), incluindo trabalhos de pintura, escultura, fotografia, poesia, música, e outras artes de seis dezenas de artistas de vários países, entre os quais está o padre e poeta português. Li aqui.

Milagre de Pio XII em análise

Milagre de Pio XII? No "Correio da Manhã" de hoje.

O cristianismo chegou ao fim?


A fé não desapareceu de entre os nossos jovens nem se afastou das nossas cidades. Não somos daqueles que consideram que, na Europa, o Cristianismo chegou ao fim e deverá renascer no terceiro mundo. A fé não tem em primeiro lugar, uma configuração geográfica, mas pessoal. Está viva onde há pessoas que crêem e dão testemunho da sua fé.


Rino Fisichella, "A fé como resposta de sentido", Paulinas, pág. 159

domingo, 3 de julho de 2011

Bento Domingues: Conversão e hierarquização dos desejos

No "Público" de hoje.

Domingo, dia de festa

Hoje é domingo. Para os judeus, o dia santo, o sábado, é dia de fazer amor. Para os católicos, também, excepto para os ministros, mesmo quando podiam ser casados. Aliás, essa é uma das origens da imposição celibato. Por uma questão cultual, o sacerdote, no dia da oferta do sacrifício, à maneira do Antigo Testamento, devia estar ritualmente puro. Por isso, ao domingo, nada de relações sexuais. Isto passou a ser assim quando o neoplatonismo entrou em força no cristianismo. O cristianismo perdeu feições bíblicas e ganhou traços helénicos, mais ou menos ao mesmo tempo que na missa se sublinhou mais o lado sacrificial do que o festivo, mais o sangue do que a bebida/comida, a refeição. Se no lado oriental, os sacerdotes só celebravam ao domingo, tinham os restantes dias da semana para estarem com as suas mulheres. Mas no lado oriental do império, latino, celebravam todos os dias. Para quê estar casado?


Lembrei-me disto ao ler hoje Timothy Radcliffe (pág. 140-1 de Ser cristão para quê?):
Numa ocasião em que estava a pregar sobre sexualidade, São João Crisóstomo notou que algumas pessoas coravam e ficou indignado. «Porque coram? Não é puro? Comportai-vos como heréticos». Pensar que o sexo é repugnante é uma negação da verdadeira castidade e, segundo nada menos do que São Tomás de Aquino, uma imperfeição moral.

sábado, 2 de julho de 2011

Analisar com Giancarlo Zizola alguns aspectos do governo da Igreja

Giancarlo Zizola

Giancarlo Zizola, do "La Repubblica, escreveu um artigo, digamos, interessante, usando o adjectivo mais desinteressante para descrever seja o que for, para perceber

a) como Bento XVI está a pôr nos lugares-chave homens que se cruzaram com ele ao longo da vida
Isso ocorreu com Tarcisio Bertone, que deve o seu posto de secretário de Estado um pouco mais do que à escrivaninha de secretário da Congregação para a Doutrina, ao lado do escritório do prefeito. Como se um pedaço de burocracia compartilhada pudesse garantir qualidade para qualquer outra função.Da mesma forma, com o canadense Marc Ouellet à frente da Congregação para os Bispos e o patriarca Scola em Milão, projeta-se na cúpula da Igreja o clube teológico da Communio, a revista teológica fundada em 1972 por Ratzinger com Urs von Balthasar e Henri de Lubac, para competir com as visões do reformismo radical da Concilium.

b) como predomina, infelizmente, o modelo verticalista, que é mais centralizador e, enfim, menos democrático
A maior anomalia é visível, mais uma vez, nos procedimentos centralizados. Em meados do século XIX, Antonio Rosmini demostrava que o sistema verticalista não era capaz de tutelar a Igreja das ingerências do poder político. As campanhas midiáticas em favor de um candidato são a nova forma das pressão dos poderes césaro-papistas, que tornam atuais as lutas para as investiduras de Gregório VII.
c) como no tempo de outros papas a Igreja italiana estava mais rica, com maiores vultos episcopais
Paradoxalmente, a Igreja italiana era mais rica, sob Pio XII, de grandes figuras episcopais: um certo Roncalli em Veneza, Montini em Milão, Fossati em Turim,Siri em Gênova, Lercaro em Bolonha, Dalla Costa em Florença, Ruffini emPalermo: serão eles os grandes protagonistas do Concílio Vaticano II.
d) como a cristandade persiste
Von Balthasar era muito claro sobre a necessidade de acabar com a reprodução do regime de cristandade. Ele dizia que, "ao cristão, é proibido o recurso aos meios de ação especificamente mundanos por um suposto incremento do reino de Deus na terra". Ele criticava o integralismo de grupos de "mamelucos cristãos que aspiram a conquistar o mundo" e advertia: "Quem faz tais coisas não tem a exata ideia nem da impotência da cruz, nem da onipotência de Deus, nem das leis próprias do poder mundano".
Ler tudo aqui.

Anselmo Borges: A sociedade líquida

Zygmunt Bauman
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Este nosso tempo é-o na perplexidade. Vejo muita gente angustiada com o que aí está e sobretudo com o que aí pode vir. De facto, ninguém reflexivo, que não tenha metido a massa encefálica no frigorífico, pode viver como se o amanhã não pudesse ser a hecatombe e o caos. Há épocas na História de relativo sossego, mas a nossa é de sobressalto. A crise é imensa, e é sobretudo moral. Crise de valores.
Três exemplos.
O ex-vice-presidente da Câmara do Porto Paulo Morais afirmou recentemente que "o centro de corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República". De facto, o Parlamento português "parece mais um verdadeiro escritório de representações, com membros da comissão de obras públicas que trabalham para construtores e da comissão de saúde que trabalham para laboratórios médicos". "A legislação vem dos grandes escritórios de advogados, que também ganham dinheiro com os pareceres que lhes pedem para interpretar essas mesmas leis e ainda ganham a vender às empresas os alçapões que deixaram na lei." "Os deputados estão ao serviço de quem os financiou e não de quem os elegeu."
Toda a gente ficou atónita, quando se soube que, no CEJ, os candidatos a magistrados e juízes tinham copiado no exame e que havia suspeitas de que teriam conhecido antecipadamente o seu enunciado.
Há casos de médicos com 80 e 90 anos e alguns até já mortos que continuaram a receitar medicamentos em 2010. Calcula-se que cerca de 40 por cento dos gastos do Estado com a comparticipação em medicamentos possa ser irregular.
E agora? Evidentemente, os crimes devem ser julgados. Mas é essencial compreender que a solução da nossa vida colectiva não pode ser entregue exclusivamente ao Direito Penal. Por duas razões fundamentais. Não é possível legislar sobre tudo e, depois, nesse quadro, seria necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, mas, como os polícias também são cidadãos, ter-se-ia de pôr um polícia a guardar outro polícia e assim sucessivamente. Lá está Juvenal, que aqui já citei: "custos custodit nos; quis custodiet ipsos custodes?" (a guarda guarda-nos; quem guardará a guarda?).
Para dizer que a formação ética para os valores vinculativos (a honra, a virtude, a dignidade, o respeito, a lealdade, a solidariedade, a rectidão, a verdade...) é essencial.
Mas a questão é esta: quem formará para os valores? As famílias desestruturadas? As escolas sem norte e onde os professores lutam por um lugar de sobrevivência? A Igreja moralmente ferida? As televisões em guerra por audiências tolas?
Quando se instalou como valor primeiro o ter em vez do ser, começou a caminhada para o abismo. Por um lado, o ter; por outro, o individualismo.
O famoso sociólogo polaco Zygmunt Bauman, professor emérito da Universidade de Leeds (Reino Unido), chamou a esta situação "modernidade líquida". As nossas sociedades são individualistas, e nelas são precários os laços tanto íntimos como sociais. Diz ele: "Ao contrário dos corpos sólidos, os líquidos não podem conservar a sua forma, quando pressionados por uma força exterior, por mínima que seja. Os laços entre as suas partículas são demasiado fracos para resistir. Ora, este é precisamente o traço mais marcante do tipo de coabitação humana característico da 'modernidade líquida'. Daí, a metáfora que proponho."
Neste quadro, percebe-se a dificuldade de hoje para assumir compromissos de longo termo, pois não se quer restringir a futura liberdade de escolha. Daí a tendência para que "todos os laços que se dão sejam fáceis de desfazer, que todos os compromissos sejam temporários, válidos apenas até 'nova ordem'".
Cá está a dificuldade para manter o amor e a moralidade. Por um lado, quer-se um "parceiro leal e dedicado", mas, por outro, "ninguém se quer comprometer". E o cumprimento dos deveres morais "é custoso, não é uma receita para uma vida fácil e sem preocupações, segundo as promessas da publicidade para os bens de consumo".

Duas coisas que ontem aprendi sobre o Vaticano II

Aula conciliar

Li ontem, de relance, sem tempo para apontar a frase em concreto, uma opinião de Catalina Pestana, no "Sol", pouco favorável aos bispos em geral e muito favorável a um António, ordenado bispo em Lamego. Sobre os bispos, dizia que são Dom quando a monarquia acabou há muito, que são uma espécie de marquesas e que contra isso o arcebispo de Paris se teria insurgido no II Concílio do Vaticano - sem grande sucesso. Esta foi a primeira.


Na Irlanda, quando alguém cometia um erro, dizia-se: "Pode acontecer até a um bispo". A frase deve estar em desuso com os diversos escândalos, também financeiros, que têm assolado a Igreja deste país. Mas em muitos locais, a prática reverencial para com os bispos continua. Alguns dizem: "Sr. Dom...".


A segunda li em "Ser cristão para quê?", de Timothy Radcliffe, pág. 134:
Quando um seminarista perguntou ao cardeal Peter McKeefry, arcebispo de Wellington, com o seu metro e noventa de altura, qual era a sua principal impressão do Concílio Vaticano II, ele respondeu-lhe que as cadeiras eram demasiado pequenas!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...