quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo"



Em Portugal quase não se falou do assunto. Ou pelo menos não teve grande eco nas consciências. É a lei da proximidade. Longe não incomoda. Em Itália, falou-se, mas a persistência das tragédias cria insensibilidade. O escritor Claudio Magris retomou o assunto, provocando o debate:
Em alguns jornais, 200 mortos ou desaparecidos no mar como os de anteontem, em uma fuga do desespero, não acabam nem mais mais na primeira página; deslizam para as seguintes, entre as notícias certamente relevantes, mas não clamorosas. Para catástrofes semelhantes, poucos anos atrás, até um primeiro-ministro se comovia ou pelo menos sentia o dever de se comover publicamente. 
As tragédias de hoje dos refugiados em busca de salvação ou de uma sobrevivência menos miserável que perecem, muitas vezes anônimos e desconhecidos, no mar não são menos dolorosas, mas não são mais uma exceção, embora frequente, mas sim uma regra. 
Tornam-se, portanto, uma crônica costumeira, da qual já estamos calejados, que quase já se espera antes de abrir o jornal e que, portanto, não escandaliza e não perturba mais, não provoca mais emoções coletivas. Essa habituação que leva à indiferença certamente é inquietante e aumenta a distância intransponível entre quem sofre ou morre, naquele momento sempre sozinho, como os fugitivos engolidos pelos redemoinhos, e os outros, todos ou quase todos os outros, que, para continuar vivendo, não podem ser muito absorvidos por aqueles remoinhos que arrastaram fundo. 
É justo mas também é fácil nos acusarmos dessa insensibilidade, que se refere também a mim mesmo enquanto estou escrevendo estas linhas e todos ou quase todos que eventualmente as lerão. Ao contrário de outros casos, em que a indiferença ou a lívida hostilidade se reforçam contra o estrangeiro, o miserável, contra quem é etnicamente ou socialmente diferente, nessa circunstância a nossa insensibilidade não nasce da proveniência e da identidade a nós hostil daqueles afogados. Nasce da repetição desses dramas e do inevitável costume que deles deriva. 
Mesmo que, por circunstâncias adversas, todos os dias os jornais tivessem que reportar notícia de soldados italianos mortos no Afeganistão, a reação, depois de um certo tempo, se tingiria de um hábito cansado. Mesmo crimes atrozes da máfia são, pouco a pouco, vividos como um hábito. 
Não podemos sobreviver emocionando-nos com todas as desventuras que atingem os nossos irmãos no mundo; mesmo a comoção por qualquer delito particularmente macabro, por exemplo o brutal assassinato de uma criança, depois de um certo tempo, horrivelmente se aplaca; a notícia foi absorvida, não agita mais a ordem do mundo nem o coração. 
A habituação – às drogas, à guerra, à violência – é a rainha do mundo. "É preciso, no entanto, viver – diz-se  em um romance de Bernanos – e esta é a coisa mais horrível". Talvez uma das maiores misérias da condição humana consiste no fato de que até o cúmulo de dores e desgraças, além de um certo limiar, não incomoda mais. Se eu anuncio a morte de um parente, encontro uma compreensão contrita, mas se logo depois anuncio uma outro e depois outra corro o risco até do ridículo. 
Justamente por isso – porque, diferentemente de Cristo, não podemos verdadeiramente sofrer por todos, assim como não nos entristece a leitura dos obituários nos jornais –, não podemos confiar-nos apenas ao sentimento parar sermos próximos dos outros. O nosso sentimento, compreensivelmente, nos faz chorar por um amigo que amamos e não por um desconhecido, mas devemos saber – não abstratamente, mas realmente, com a compreensão de toda a nossa pessoa – que homens por nós nunca vistos e não concretamente amados também são reais. 
Aqui reside a diferença entre o pensamento reacionário e a democracia. O reacionário facilmente zomba da humanidade abstrata e do abstrato amor ideológico pelo gênero humano, porque sabe amar o seu próprio colega de escola, mas não sabe verdadeiramente entender que os colegas de pessoas de pessoas a ele desconhecidas também são reais; não abstrações, mas carne e sangue. 
A democracia – ridicularizada como fria e ideológica –, ao contrário, é concretamente poética, porque sabe se colocar na pele dos outros, como Tolstoi na de Anna Karenina, e, portanto, também na dos náufragos no fundo do mar.
A propósito, o teólogo leigo Christian Albini lembra palavras de Thomas Merton e sublinha o desconforto que deve provocar nos cristãos, nos que ainda são sensíveis, a morte de africanos no Mediterrâneo.
 "De que serve organizar cursos de doutrina do Corpo Místico e de sagrada liturgia, se não se tem nenhum interesse pelo sofrimento, pela miséria, pela doença e pela morte prematura de milhões de membros potenciais em Cristo?" (Thomas Merton, Vita e Santità, Ed. Lindau, p. 100). 
É a diferença entre a religião da forma, das palavras, do conformismo e a fé que nasce da escuta de uma Palavra que converte a minha vida, que rompe a casca da minha autossuficiência e me faz reconhecer que não sou nada sem o outro que me ama e que eu amo. 
Quando escrevi há alguns dias que a tarefa dos cristãos na política é elaborar uma gramática do bem comum, queria dizer um retorno ao humano, ao reconhecimento da humanidade de todo o tipo e à sua proteção, sem fechamentos e particularismos tribais. 
(…) Para nós, italianos, Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo. É essa convergência no amor que pode se tornar uma verdadeira lei universal. 
Dito novamente com a sabedoria rabínica: "Como tu podes dizer que me amas se não sabes o que pode me ferir?". É a partir do sofrimento pelas feridas dos outros que começa o caminho do amor.
Texto de Claudio Magris aqui.
Texto de Christian Albini aqui.

A "Certeza" de Gabriel Marcel

Certeza

Se há uma certeza inabalável
é a de que um mundo que é abandonado pelo amor
vai mergulhar na morte;
mas onde o amor perdura,
onde triunfa sobre tudo aquilo que o poderia aviltar,
a morte está definitivamente vencida.

Gabriel Marcel (1889-1973)

Gabriel Marcel é o da direita

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"O espaço entre", poema de Paul Murray, op

O que aconteceu foi para mim
Uma espécie de milagre

Como ser de repente capaz
De respirar debaixo de água

O espanto de encontrar
Ser possível de novo acreditar

E de encontrar o espaço
Para respirar e respirar fundo

Entre a palavra «liberdade»
E a Palavra «Deus».

Paul Murray

Paul Murray (1947 -...)

Humor de carmelita


Quando Teresa de Ávila ouviu dizer que o padre Antonio de Jesús, famoso por uma severidade que raiava a desumanidade, havia sido eleito provincial, comentou: “Deve ser verdade, porque não conheço ninguém melhor do que ele para fazer mártires”.

Igreja "bunker"?


O Fórum de “Curas de Madrid” diz que a igreja espanhola, aqui entendida como "hierarquia e seus seguidores e corifeus", é um “bunker”. “Bunker” quer dizer o “reduto onde alguém se fecha para se defender” e “lugar de onde se pode atacar com vantagem o inimigo”. É uma boa imagem para as aulas e catequeses de eclesiologia sobre o que a Igreja não deve ser. E Espanha não fica assim tão longe.


As consequências das atitudes deste grupo de católicos “assustados e temerosos”, que se sente vítima de uma sociedade dita “agnóstica, laicista, relativista” e se considera possuidor da verdade, são trágicas:
La primera, la incomunicación entre la sociedad y la Iglesia, que ha llevado a ésta a ser una de las peor valoradas entre las instituciones públicas. No es, como debería ser, "bien vista entre la gente". No es una Iglesia atractiva, a pesar de que de cuando en cuando se empeñe en reunir en las calles a miles de adherentes. 
En segundo lugar, la alianza con el poder económico e ideológico y en concreto con la parte más a la derecha de éste último. (…)
Todo esto provoca una reacción en cadena: la vuelta a una teología conservadora, a la más estricta concepción jerárquica, a la marginación de la mujer, al pretendido monopolio de la ética, a una visión negativa de la realidad, al pecado original, al sacrificio, a la obediencia, al ahogo y persecución de las bases críticas. (Isto manifesta-se especialmente no retrocesso do ecumenismo - do diálogo e colaboração à incomunicação - e no esquecimento dos pobres). 
Y en último lugar, pero no con menos resonancia: el fundamentalismo de los medios cercanos a la Iglesia o propiedad de la misma, que, afirmándose cristianos, no dudan en acudir al insulto, la injuria o la calumnia.
Como sair desta situação, se da “Iglesia piramidal y centralista, no hay nada que esperar a corto plazo”? O fórum aponta algumas “acciones decididas”:
* Por una parte es necesario ir realizando en las parroquias y grupos el modelo de Iglesia participativa en la que creemos. 
* Por otra parte no es posible olvidar que nuestro punto de referencia son los pobres, que esperan de la Iglesia una buena noticia. 
* Y finalmente es preciso aunar fuerzas, establecer lazos con grupos de seglares, de curas, con comunidades, parroquias, movimientos y poner en marcha acciones conjuntas. 
As acções podem ir da denúncia de acordos com o Vaticano à colaboração com grupos que trabalham pelos direitos humanos, dizem, mantendo sempre a voz levantada para “para denunciar palabras y actitudes de una Iglesia que no es fiel al Evangelio ni útil para el siglo XXI”. Lido aqui.

Imaginação e humor

A imaginação foi-nos dada para compensar o que não somos, o humor foi-nos dado para nos consolar do que somos.
Mark McGinnis

terça-feira, 7 de junho de 2011

7 de Junho de 1848. Nasce o pintor Paul Gauguin

Auto-retrato de Paul Gauguin

Paul Gauguin, que antes de se dedicar totalmente à pintura foi corretor na bolsa de valores de Paris, nasceu no dia 7 de Julho de 1848, em Partis, e morreu no dia 8 de Maio de 1903, nas Ilhas Marquesas (Polinésia Francesa, Pacífico Sul), onde se refugiou na procura de um mundo mais puro e genuíno.

Gauguin não se integrou no impressionismo dominante, mas fez parte de um grupo denominado “Les Nabis” (“nabi”, em hebraico, quer dizer profeta), vanguardista, que faz da pintura um estilo de vida e abre para arte não figurativa.

"Cristo amarelo", de 1889

"O Filho de Deus nascido". Penso que esta pintura de 1896
é a primeira representação de Maria e o Menino
segundo traços não europeus. Gauguin usa modelos taitianos.

"Um homossexual terá de viver sempre só?"


O Fórum Europeu dos grupos cristãos de lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros vai enviar, no dia 10 de Junho, uma carta ao Papa com um pedido:
"Vossa Santidade, que não se dê mais como indicação que as pessoas homossexuais se devem submeter a terapias, mas sim que tenham direito a uma vida que preveja também uma relação afetiva no sinal da fidelidade".
A notícia veio no jornal “L'Unità” (li aqui). Interroga-se o jornal ligado ao Partido Comunista Italiano se “o Papa sabe que algumas dioceses começaram uma pastoral de acolhimento para os grupos gays”. E adianta-se que “não chegou do alto nenhuma de ordem para parar”. “Isso significa que está sendo dada autonomia aos bispos sobre o assunto? Se o povo católico vir, nas Igrejas, lésbicas e gays activos como todos os outros, o efeito será a dissolução de parte dos preconceitos”.
Em Portugal, a questão praticamente não se põe. Há tempos lia notícia de uma paróquia lisboeta que acolhe um grupo de reflexão de homossexuais. Mas tendo em conta o que diz o Catecismo sobre a homossexualidade, compreendo o silêncio de uns, as perplexidades de outros e os lamentos de mais alguns.
Timothy Radcliffe, a propósito deste assunto e do recasamento, lança questões em que vale a pena pensar e, mais do que uma resposta, sugere um processo:
“Se uma pessoa está divorciada e encontra alguém por quem se apaixona, deve ou não voltar a casar? Um homossexual terá de viver sempre só? Dado que é assustador ter de pensar o seu caminho, através destes problemas, rezar a respeito deles, estudá-los à luz do ensino dos Evangelhos e da Igreja, a tentação passa por fazer o que nos apetece ou, para a Igreja, despachar a questão com uma resposta rápida” (pág. 62 de "Ser cristão para quê?").

Inspirados em Velásquez



Um dos vários "Inocêncio X" de Francis Bacon inspirados em Valásquez e fotografia de Serge Bramly e Bettina Rheims a mimetizar o Crucificado.  

6 de Junho de 1599. Nasce o pintor Diego Velásquez

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez, o grande pintor barroco, retratista inultrapassável, nasceu no dia 6 de Junho de 1599. E morreu no dia 6 de Agosto de 1660. Tinha ascendência portuguesa. O “Silva” refere-se ao avô, que era do Porto.
Inevitavelmente, a temática religiosa inspirou-o.

 Inocêncio X

Cristo Crucificado

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A ingenuidade perigosa da abertura ao mundo



Vai ser leitura nos próximos dias, um artigo por dia. O tema do último número em português desta revista fundada por Urs von Balthasar, J. Ratzinger e H. de Lubac é "Novos olhares sobre a Igreja". Vou lê-lo todo, provavelmente ao ritmo de um artigo por dia, e aqui darei conta do que de mais interpelante encontrar. Na minha perspectiva, claro.
Para já, li o artigo de D. Claude Dagens, bispo de Angoulême (já aqui apareceu), "Breve meditação sobre a visibilidade da Igreja. Ver a Igreja com os olhos da fé". Tenho de o ler outra vez, porque à primeira leitura não encontrei nada de muito interessante na prosa deste bispo que é muito apreciado pela intelectualidade francesa. Pelo menos é membro da Academia. Talvez esta afirmação:
"A Igreja só pode, portanto, ser aberta, não exactamente ao mundo, como por vezes se afirmou com uma ingenuidade perigosa, mas, num único movimento, ao mistério de Deus que vem Ele próprio enmtrergar-ser aos homens, em Cristo, e àquilo a que se pode chamar o «mistério do homem», que só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo incarnado (GS 22)".
Registo a expressão "ingenuidade perigosa" referida à abertura da Igreja ao mundo. Alguns leitores deste blogue, a julgar pelos comentários, apontam-me com frequência ingenuidades perigosas nos pontos de vista aqui expressos. Mas gostava de saber o que ele entende por "mistério do homem" e como se abre a Igreja a ele sem se abrir ao mundo. D. Dagens não explica. Se a Igreja se casa com o mundo, depressa dá divórcio, bem sei. Isso nunca. Mas não sei como é que a Igreja há-de ser sinal, farol (não é a luz), ser significativa para os homens e mulheres sem falar com eles. E sem abertura, como pode falar e ouvir? Só falar?

"A história de Adão e Eva não se aguenta em pé", diz o biblista Armindo Vaz

No "Público" de hoje, contra a persistência da interpretação literalista. Entrevista de António Marujo. Em baixo, páginas separadas para se ler melhor.


As eleições de ontem e as de todos os dias

As mínimas eleições diárias são a trama da própria vida, o clima da alma, a têmpera do espírito. Elas definem, momento a momento, a atitude interna e criam o estado permanente que definitivamente conta na vida. A arte de escolher é a arte de viver e vivemos a todas as horas, porque escolhemos a todas as horas.


Carlos G. Vallés, s.j., "Saber escolher. A arte do discernimento", pág. 178

A mais antiga oração cristã pela autoridade política

Dirigi, Senhor, o seu conselho segundo o que é bom

Concedei-lhes, Senhor,
a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade,
para que exerçam sem entraves a soberania
que lhes concedestes.

Sois vós, Mestre, rei celestial dos séculos,
quem dá aos filhos dos homens glória,
honra e poder sobre as coisas da terra.

Dirigi, Senhor,
o seu conselho segundo o que é bom,
segundo o que é agradável aos vossos olhos,
a fim de que, exercendo com piedade,
na paz e mansidão,
o poder que lhes destes,
vos encontrem propício.

Clemente  Romano

Esta prece é considerada a mais antiga oração cristã pela autoridade política. Foi escrita pelo Papa Clemente Romano (4.º Papa, entre 89 e 97 d.C.). No seu pontificado, ocorreu a segunda perseguição aos cristãos, ordenada pelo imperador Domiciano. Mais tarde, Clemente seria preso por Trajano e condenado a trabalhos forçados nas minas de cobre de Galípoli (Turquia). Converteu muitos presos e por isso foi atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço.

domingo, 5 de junho de 2011

Viciados em doces


História contada por Timothy Radcliffe em “Ser cristão para quê?” (ed. Paulinas), nas páginas 53-54:
“Um dia, uma mãe foi com a sua filha ver o Mahatma Gandhi. Estava preocupada porque a criança estava viciada em doces e pediu à mãe que levasse a pequena e voltasse três semanas depois, o que ela fez. Então, Gandhi falou com a criança e convenceu-a a cortar com os doces. No fim, a mãe perguntou-lhe:
- Mas Gandhiiji, porque não disse isso à pequena, há três semanas?
Ele respondeu:
- Porque há três semanas, também eu estava demasiado viciado em doces”.
E o frade dominicano conclui: “Nós, cristãos, se queremos falar de liberdade com convicção, também precisamos de ser libertados do que nos mantém cativos”.

Inspirações no futebol e na campanha

Um cronista desportivo diz que "o futebol, na sua infinita sabedoria, admite todos os estilos". Já um director de campanha chama aos prospectos eleitorais "santinhos".


Mais inspirações.

Bento Domingues: Subir aos céus

Texto de Bento Domingues no "Público" deste domingo, 5 de Junho.

Dia da Ascensão e das comunicações



Hoje é Dia Mundial das Comunicações Sociais. Dia da Ascensão. Jesus "subiu" ao céu. Em vez de ficar ausente, diz a fé que ficou mais acessível a todos. Mais comunicante e comunicado. Em rede, que é a Igreja. Daí o dia mundial.
As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um novo mundo de potenciais amizades. Esta é uma grande oportunidade, mas exige também uma maior atenção e uma tomada de consciência quanto aos possíveis riscos. Quem é o meu «próximo» neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo «diferente» daquele onde vivemos? Temos tempo para reflectir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras? É importante nunca esquecer que o contacto virtual não pode nem deve substituir o contacto humano directo com as pessoas, em todos os níveis da nossa vida.
(...) Os crentes encorajam todos a manterem vivas as eternas questões do homem, que testemunham o seu desejo de transcendência e o anseio por formas de vida autêntica, digna de ser vivida. Precisamente esta tensão espiritual própria do ser humano é que está por detrás da nossa sede de verdade e comunhão e nos estimula a comunicar com integridade e honestidade. 
Da mensagem de Bento XVI para este dia. Ler tudo aqui.

sábado, 4 de junho de 2011

4 de Junho de 1313 a.C. Moisés sobre ao Sinai pela primeira vez



A  tradição judaica diz que foi num dia correspondente a 4 de Junho de 1313, antes de Cristo, segundo o calendário cristão, que Moisés subiu ao monte Sinai pela primeira vez e ouviu de Deus:
"(...) Se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira (...)" (Ex 19,4-6).
Este dia é celebrado como o "Dia da Distinção".

As “Novas Oportunidades” de Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira conta hoje no “Público” como usa o seu iPad para seguir aulas de grandes universidades, geralmente Yale. Anda a seguir aulas de Robótica, Química, Literatura e… Novo Testamento. São as suas "Novas Oportunidades".

Não é preciso ter um iPad para seguir tais aulas. Qualquer PC com ligação à Internet serve. O professor de Novo Testamento – Novo Testamento como  literatura e não como Escritura (ou seja, não como Palavra de Deus, não como texto inspirado pelo Espírito Santo, não como assunto de fé) – é Dale Martin, “um cínico”, como diz Pacheco Pereira.

Por momentos pensei que “cínico” tivesse a ver com a corrente filosófica em que alguns, como John Dominic Crossan, dizem que Jesus se inseriu. Mas não. É cínico dos que dizem que “o Novo Testamento é como uma novela greco-latina, mas sem sexo”. Mas não é verdade que a sexualidade esteja ausente do Novo Testamento.

Aqui fica a primeira aula de Dale Martin (e as restantes aqui).


Watch it on Academic Earth

A dúvida, a pergunta, o transcendente



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (4 de Junho de 2011):


Há um texto de Joseph Ratzinger, em 1968, ainda só professor, que dá que pensar. "Não há fuga possível ao dilema do ser humano. Quem quiser escapar à incerteza da fé terá de experienciar a incerteza da descrença, que, por sua vez, nunca pode dizer com certeza definitiva se não é a fé que é a verdade. Ninguém pode tornar Deus e o seu Reino evidentes aos outros nem a si mesmo. Tanto o crente como o não crente, se não se ocultarem a si próprios e à verdade do seu ser, participam, cada um à sua maneira, na dúvida e na fé. Nenhum deles pode escapar completamente à dúvida, nenhum pode escapar completamente à fé; para um a fé torna-se presente contra a dúvida, para o outro mediante a dúvida e sob a forma da dúvida. É a figura fundamental do destino humano: só poder encontrar a definitividade da sua existência nesta rivalidade sem fim de dúvida e fé, perplexidade e certeza. Talvez assim precisamente, a dúvida, que impede um e outro de se fecharem em si mesmos, possa tornar-se o lugar da comunicação. Ela impede-os de se encerrarem totalmente em si próprios, abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que tem fé; para um é a sua participação no destino do descrente, para o outro a forma como a fé, apesar de tudo, permanece um desafio."


O ser humano é, constitutivamente, o ser da pergunta, do perguntar ilimitadamente, pois, estando nós referidos ao não-dito e indizível, toda a resposta é ela própria perguntável. Assim, quando se pergunta pelo próprio perguntar, isto é, pela perguntabilidade, não é difícil concluir que, em última instância, toda a pergunta tem como termo último o Infinito, de tal modo que, se se reflectir até à raiz, concluir-se-á que o fundamento último da dignidade humana é neste estar referido estrutural do ser humano ao Infinito que reside: nessa referência constitutiva do homem à questão do Infinito, se se quiser, à questão de Deus, precisamente enquanto questão (independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê), o homem aparece como fim e já não como simples meio. De facto, o que é que há para lá do Infinito?


A crise do nosso tempo é uma crise económica, financeira, de valores, uma crise moral, crise política, local e global... Mas, se se reflectir sempre mais fundo, a raiz dessa crise é uma crise filosófica. Mais do que de respostas, do que o nosso mundo precisa é de não obturar a pergunta, a pergunta insconstruível, porque radicada e referida ao Ser. Sem essa pergunta, assistimos à morte do próprio homem.


A dúvida coloca-nos ao mesmo tempo para lá dos dogmatismos fundamentalistas e dos cepticismos niilistas, pois põe-nos em marcha, na pergunta radical, para a busca da verdade. Com o eclipse dessa pergunta, desaparece o sentido do mundo e da dignidade humana, pois a humanidade sucumbe à imediatidade, a uma visão fragmentária do aqui e agora. Infelizmente, talvez seja isso que realmente está a acontecer, como constatou já o marxista heterodoxo e ateu religioso Ernst Bloch: "Está a concretizar-se o que Nietzsche profetizou para o século XX: Vamos ao encontro de uma época de terrível miséria. Com subprodução de transcendência."


Acumulamos racionalidade científica e técnica. Mas, então, ainda falta responder ao essencial do humano. Um ser humano atento pode dar-se conta de que a reflexão consciente sobre o eu como centro reflexivo e sobre os objectos pressupõe a sua apreensão vivida, pré-reflexiva, num fundo de um Ser omnicompreensivo, metafenoménico e inabarcável, pois é ele que tudo abarca. Precisamente dessa experiência de fundo, ainda que vaga, nascem as diferentes interpretações, da poesia às metafísicas, da ciência às religiões. Afinal, a experiência humana é mais vasta do que pretende a ciência experimental. Por isso, escreve com razão o filósofo F. Copleston que talvez se possa inverter a famosa frase de Wittgenstein: "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo", dizendo: "os limites do meu mundo significam os limites da minha linguagem", entendendo aqui por "meu mundo" a experiência que estou disposto a reconhecer: mais estreita ou mais vasta.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

3 de Junho de 2001. Morre o actor Anthony Quinn, Papa de “As Sandálias do Pescador”


O actor mexicano-estadunidense Anthony Quinn morreu no dia 3 de Junho de 2001, aos 86 anos. Ganhou dois óscares como melhor actor secundário (em “Viva Zapata!” e “Lust for Life”) e ficou imortalizado em papéis em filmes como “Zorba, o Grego”, talvez o mais conhecido, “Lawrence da Arábia” e “La strada”.

No entanto, recordo-o aqui pela participação em “As Sandálias do Pecador”, filme de Michael Anderson, de 1968, baseado num romance do Morris West, um escritor australiano falecido em 1999, muito em voga nos círculos católicos no anos 80 e 90 porque as temáticas do seus livros versavam assuntos relacionados com o Vaticano.

Em “As Sandálias do Pescador” (o livro é de 1963; o filme é de 1968), Kiril Pavlovich Lakota (Anthony Quinn), arcebispo de Lviv (hoje na Ucrânia, durante várias décadas na Polónia) é libertado após duas décadas de trabalhos forçados na Sibéria. Feito cardeal, é inesperadamente eleito Papa após a morte de Pio XIII. Escolhe o nome eslavo de Kiril... Os tempos são de Guerra-Fria.

Após a eleição de João Paulo II (que, soube-se há poucos dias, quis escolher o nome eslavo de Estanislau) foi inevitável comparar o romance / filme com a realidade. Diz-se, contudo, que o enredo não antecipa a história de Karol Wojtyla, "o Papa que veio do Leste", mas reflecte antes a de Josyf Slipyj (1892-1984), um arcebispo ucraniano libertado no tempo de Nikita Khrushchev.


João XXIII morreu há 48 anos


Um leitor sugeriu (com um elogio, obrigado!):
Sei que este excelente blog não vai deixar de referir uma grande efeméride deste dia: o 48.º aniversário da morte do Papa João XXIII, o Papa bom! Que falta nos faz o «hálito» daquela bondade, daquela bonomia, daquela paz, daquele abrir de portas!
Na realidade, não é a efeméride que espero assinalar hoje, visto que foi a que apontei no ano passado (aqui). Já agora, recordando o “Papa bom”, deixo aqui ligações para alguns textos deste blogue sobre João XXIII:

As histórias contadas por Hannah Arendt (1, 2, 3, 4, 5, 6).
Para ver estas e outras referências, siga-se a etiqueta João XXIII.

Somos mais do que o que partilhamos



Há dias a Agência Ecclesia pediu-me um texto sobre o perfil digital católico, a partir da minha experiência. Escrevi o seguinte (aqui, no sítio da agência de notícias católica):
1. Um casal jovem chega às portas do céu. São Pedro, consultando o computador, diz a ambos, de rostos apreensivos: 
- O vosso registo na rede social é terrível… Duas oportunidades falhadas de clicar “gosto” em “Jesus, nosso Senhor e Salvador” e recusa em mostrar a vossa fé com um simples “reencaminhe para dez amigos”. 
O cartoon do sítio Reverendfun.com (aqui) não diz apenas que é preciso pôr na Internet as convicções de fé, dar testemunho. Deixa entender também que tudo o que lá fazemos fica registado. Se na imaginação São Pedro, por força do ofício, tem acesso à nossa vida “on-line”, a realidade é que, quando usamos, trabalhamos ou simplesmente passeamos pela Internet, deixamos um rasto que, na implausível hipótese de alguém se interessar por isso, permitirá reconstruir a nossa existência com pormenores impressionantes. 
O jornalista Riccardo Stagliano, especialista em novas tecnologias do “La Repubblica”, contou há dias que pediu a uma empresa que pesquisasse os seus dados pessoais na rede. Em poucas horas, a empresa apresentou um relatório com dados biográficos, números de telefone, qualificação profissional, preferência partidária… Por outro lado, como tem alguns conhecimentos informáticos, foi à “caixa preta” do Google e encontrou todas as suas relações como motor de busca. “E é como olhar a alma no espelho. Desde o momento em que eu ativei a cronologia, ou seja o registo histórico de cada pesquisa feita, eles sabem exatamente o que eu vi nos últimos anos”, descreve. E encontrou a mensagem que enviou no dia 27 de maio de 1996 a um grupo de discussão sobre publicidade on-line, o que o leva a constatar: “Pelo que eu sabia na época, era como anexar um anúncio num mural da universidade. O que eu aprendi depois é que ninguém jamais o removeria, ou melhor, seria embalsamado para a memória futura. Se eu tivesse pedido instruções para confecionar uma bomba seria o mesmo” (ler aqui em português e aqui em italiano). 
Claro que o perfil digital que anda pela rede ou que é possível construir com os dados dispersos na rede é feito de elementos fornecidos por nós próprios, “às vezes de maneira ativa, preenchendo questionários, assinando abaixo-assinados e assim por diante”, mas, “mais frequentemente, de modo passivo, simplesmente navegando, comprando ou sendo marcados nas fotos de outras pessoas”, atividade tão comum no Facebook, como afirma Stagliano. A lição? “Deus perdoa, a Internet não. Sobretudo não se esquece de nada. Ela conhece-nos melhor do que uma mãe, do que um amigo, do que um psicanalista. E é capaz de reunir tantas peças daquele mosaico caótico que é a vida, reconstruindo-o num nível de detalhe impensável na era pré-web”, afirma no texto do “La Repubblica”. 
Ao fim de alguns anos ligados à grande rede, pode entrar-nos em casa ou no computador um romeiro que em vez de nos dizer que é “Ninguém!”, mostra-nos que somos o que pensávamos que estava definitivamente enterrado no passado. 
2. É relevante pensar no perfil digital católico. Bento XVI afirma na mensagem para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais que “existe um estilo cristão de presença também no mundo digital: traduz-se numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro”. O modo de comunicar, as escolhas, as preferências, os juízos “devem ser profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele”, afirma o Papa (ler aqui). 
Nos exercícios do jornalista italiano acima referidos, que imagem sobressairia do cristão que passa várias horas on-line? E do comunicador que se afirma católico? 
3. Desde há dois anos colaboro no blogue “Religionline” e alimento o “Tribo de Jacob” (TdJ). Este último surgiu como resposta pessoal ao apelo do Papa em 2009 para “levar para o mundo digital o testemunho da fé”. 
Um dia, um leitor do TdJ, do lado de lá do Atlântico, perguntou-me se sou católico. Um “sim” ou um “não” bastava. Respondi-lhe de imediato, mas na altura não me lembrei de contar o caso do corcunda que conta a toda a gente que é corcunda. Como se precisasse de o dizer. Eu sentia-me um corcunda consciente. Pensava que não era preciso dizer o que sentia como evidente. Escrevia e escrevo como católico. Mas não sabia que isso nem sempre se notava em quem me lê. O leitor brasileiro diz-me na volta que eu falo muito da “banda podre” do catolicismo. Talvez. E acrescento que tenho simpatias pela insegurança antropológica luterana e pela segurança ontológica judaica. Mas sou católico. Pensava que isso se notava pelas efemérides quase diárias e quase sempre papais. Pelas notícias recolhidas da imprensa escrita e da Ecclesia. Pelo apontamento do sinal crente, por vezes inesperado, na cultura pop. Rumores de anjos. Pelas frases de conteúdo positivo. Pelos excertos de livros de espiritualidade. Pelas pontes que procuro entre culturas, ciências, artes e religiões. O católico sabe que há muitas moradas na Casa do Pai. Que o Papa é pontífice para lançar pontes. E cada um de nós, à sua maneira, também há-de lançá-las. Ou pelo menos atirar uma escada. Se for como a de Jacob, melhor. Ou permitir que subam pela corcunda. Talvez a minha corcunda seja pequena. 
4. Como é que se mostra a identidade católica nas ferramentas digitais da comunicação? Arriscaria um perfil baseado no Concílio Vaticano II. Os novos meios são maravilhosos. Há que usá-los (“Inter mirifica”). Não é possível fazê-lo bem se não for em liberdade e com criatividade (“Dignitatis humanae”). Na rede, sabemos que somos o que partilhamos. Na vida, sabemos que a maior partilha é a que nos constitui em comunidade de comunhão (“Lumen gentium”). Pelo dom, somos mais do que o que partilhamos. A vida contém a rede. Não o contrário. Mas a rede é metáfora para a comunidade que interessa. A comunicação, na qual também nos revelamos, é sempre um mero sinal de uma revelação maior (“Dei verbum”). Nas redes, temos de olhar para os que estão mais próximos, com os quais temos muito a aprender (“Unitatis redintegratio”), e para os mais afastados, que podem ter muito a ensinar (“Nostra aetate”). Sempre com alegria e esperança. Diálogo, nunca monólogo, ditado ou anátema (“Gaudium et Spes”). 
Nunca como nas últimas semanas se tem falado tanto do medo. “Não tenhais medo”, diz o Ressuscitado. Disse-o o agora bem-aventurado polaco. Dizem os políticos. Também foi essa uma das mensagens saídas do recente encontro dos blogueiros com responsáveis do Vaticano: Não devemos ter medo de entrar nos debates informativos eclesiais” (aqui). Arrisco, nesta linha, um perfil trinitário. O comunicador cristão sabe que a autoridade, que é típica do Pai, está com o Papa e a Igreja. Mas comunica com a liberdade que a própria comunicação e os meios exigem e que é típica do Filho, o Libertador. Como aliar autoridade da paternidade/maternidade com liberdade da filiação? Só com a criatividade do Espírito. O Consolador que dissipa o medo.

Sabão

O sabão é para o corpo o que é o riso para o espírito.


Provérbio judaico

Ter liberdade e ser livre

Hugo Gryn (1930-1996)

Temos de identificar uma liberdade mais profunda, que é ser quem somos. O rabino Hugo Gryn escreveu que, em Auschwitz, deu-se uma transformação radical de alguns dos seus valores fundamentais, incluindo o de liberdade. «A liberdade é qualquer coisa que tu e eu consideramos que temos, e que, se estamos na prisão, nos é tirada. Mas nos campos [de concentração], a liberdade passa a ser o que somos e isto deu forma às atitudes que adoptamos face à situação e ao destino».

 Timothy Radcliffe, “Ser Cristão para quê?” (ed. Paulinas), pág. 69. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

2 de Junho de 1857. Nasce o músico Edward Elgar


O compositor britânico Edward Elgar nasceu no dia 2 de Junho de 1857 e morreu no dia 23 de Fevereiro de 1934. A sua música mais conhecida é, sem dúvida, a ode “Land of hope em glory”, que integra as “Marchas de Pompa e Circunstância”. Uma espécie de hino não oficial do Reino Unido.


Mas Elgar compôs também “The Dream of Gerontius”, em 1900, uma peça para vozes e orquestra, a partir de um poema de John Henry Newman (1801-1890), o convertido do anglicanismo que em Setembro passado foi proclamado beato. O poema descreve a viagem de um crente do leito de morte ao julgamento perante Deus e a sua entrada no purgatório. Esta peça, por vezes dita oratório, teve má recepção no Reino Unido, até porque o poema era claramente católico. Mas é hoje reconhecida como a obra-prima de Elgar.


"Mais pastores na luz e menos cowboys no escuro"

Frank Brennan, sj

Excertos da homilia do padre jesuíta Frank Brennan, professor de direito do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Católica Australiana, a propósito do afastamento do bispo D. William Morris, que, entre outros aspectos, era pela possibilidade da ordenação de mulheres. A homilia foi proferida no domingo do Bom Pastor, este ano a 15 de Maio.
Como católicos, somos abençoados por sermos parte do rebanho que tem pessoas especialmente comissionadas para atuar como porteiros e pastores em seus papéis de papa, bispo e padre. Mas nenhum deles é substituto para Jesus – a porta, o porteiro e o pastor. 
Nós, católicos australianos, acabamos de passar por algumas semanas muito difíceis, enquanto os nossos bispos refletiam sobre a remoção forçada de um deles, Bill Morris, bispo de Toowoomba. Devido à falta de transparência nos processos romanos, não sabemos a verdade completa sobre a sua remoção do seu ofício. Provavelmente nunca saberemos. Eu conheci Bill como padre e bispo durante 30 anos. Ele é um bom homem – não um brilhante acadêmico, mas sim o homem pastoral mais pé-no-chão que se possa conhecer. 
(…) Vocês poderiam pensar que alguém na Igreja poderia ter feito alguma coisa para resolver o impasse naquele momento. Todas as instituições sociais são, naturalmente, falíveis. Assim também é a Igreja Católica. A nossa Igreja não é uma democracia e não pretende ser. Também não é igualitária. É muito hierárquica. E, geralmente, lava a sua roupa suja atrás de portas fechadas. 
A Igreja é composta de muitos membros oriundos de países como o nosso, onde há leis e processos que asseguram a transparência e a justiça natural. Se alguém está para ser removido, ele espera obter um julgamento justo. Se uma queixa contra um cidadão deve ser confirmada por alguém com autoridade, o cidadão tem o direito de conhecer o processo contra eles e tem o direito de ser ouvido. Essas expectativas nem sempre se traduzem rapidamente em uma instituição antiga como a Igreja Católica. 
Morris foi um bispo popular, no entanto, incomodou uma minoria de paroquianos e um punhado de padres, alguns dos quais enviavam queixas periódicas a Roma. O bispo norte-americano Charles Chaput visitou a diocese e submeteu um relatório às autoridades do Vaticano que, então, alegaram que os 18 anos de liderança pastoral de Morris foram falhos e defeituosos. 
Essa pode ter sido a avaliação de Chaput. Mas nós simplesmente não sabemos. Também não sabemos com que base ou a partir de que evidência a avaliação foi feita. Morris nunca viu o relatório. Morris afirma com justiça que lhe foi negada a justiça natural. 
Depois da visita de Chaput, todos os padres da diocese, com exceção de três, escreveram a Roma em apoio à liderança pastoral de Morris. Assim também fizeram todos os líderes pastorais e todos os membros do Conselho Pastoral Diocesano. Morris soube que não poderia ver o relatório e que ele poderia se encontrar com o Papa Bento apenas se ele primeiro submetesse a sua renúncia. Isso certamente colocou Bento XVI, assim como Morris, em uma posição hostil. 
(…) Essa é uma tragédia para todos que estão comprometidos com a Igreja, exceto para aqueles que como o rapaz que escreveu no meu Facebook: "Ele [Morris] era um cowboy, não um pastor". É esse tipo de sujeito que provavelmente começou as queixas a Roma, a portas fechadas. Precisamos de mais pastores na luz e de menos cowboys no escuro. Morris foi um bom pastor mesmo para aqueles que agiam como cowboys.
Ler tudo aqui.

Vaticano no banco dos réus por pedofilia

Notícia do DN de 2 de Junho

Não sei se há alguma viabilidade jurídica em processar o Vaticano por causa do crime de pedofilia de pessoas individuais. Espero que não. Para todos os efeitos, o Vaticano tem bens apetecíveis para advogados experientes se atirarem a eles. Não me parece que esteja aqui em causa a honesta tentativa de reparação em relação a um mal cometido.

Mas por outro lado compreendo a lógica – ou uma linha de contacto – e isso tem a ver comigo como eclesialmente católico. Mesmo que não haja relação entre celibato e pedofilia, se dizem que a pedofilia é transversal aos estados e identidades sexuais, há relação entre Igreja Católica e a sexualidade dos seus ministros qualificados (o clero).

A Igreja, com a justificação de que é pelo Reino e pela sua antecipação, pela dedicação total, para ser sinal, por disciplina, etc., quer que... Se a Igreja não quisesse que e deixasse a questão da sexualidade dos seus ministros para o íntimo de cada pessoa, dentro moralidade cristã, naturalmente, os advogados não poderiam processar os organismos centrais.

A Igreja precisa de se libertar desta auto-imposição. E quem gosta dela tem de ajudá-la.

Utopia do imediato?



Se a aposta na transcendência deixar de parecer valer a pena e nos movermos no sentido de uma utopia do imediato, a organização dos valores da nossa civilização, ao longo de pelo menos três milénios, alterar-se-á de modos quase imprevisíveis.


George Steiner, na pag. 98 de "No castelo do Barba Azul. Algumas notas para a redefinição da cultura", ed. Relógio d'Água

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Humor e civilização

Jacques Maritain e Thomas Merton em 1966

Uma civilização sem sentido de humor é uma civilização que está a preparar os seus próprios funerais.

Jacques Maritain (1882-1973)

O que é e não é ressurreição

O que é e não é ressurreição, segundo José Luis Cortés. Desenhos que dão que pensar e, quase sempre, sorrir, aqui.

Moral cristã em tempos de autonomia e liberdade


Aprecio a sensatez com que Timothy Radcliffe expõe a sua visão da Igreja, a sua fé, pessoal e comunitária, católica. Ele não é um apaixonado que prega “a propósito e a despropósito”, segundo a expressão paulina. Na sociedade em que vivemos, quem prega a despropósito é tomado como louco e não é ouvido sequer, nada de bom acrescentando à realidade. A sensatez e o ser comedido recomendam-se.

Onde estas qualidades estão claramente presentes é nas páginas em que fala do ensino moral católico e da autonomia e liberdade dos europeus.
“As pessoas não serão atraídas à Igreja, se o ensino moral for visto apenas como mostrar-lhe o que deve ser feito. Com razão ou sem ela, isso seria visto como uma violação da sua autonomia”.
Esta frase seria suficiente para pensar nos modos de exposição do ensino moral católico. O Papa Pio X dizia que o padre deve ser um leão no púlpito e um cordeiro no confessionário. Dificilmente se aceita esta dimensão leonina, mesmo agora que os tradicionalistas querem reabilitar o púlpito a par da missa tridentina, com o apoio de Bento XVI. O leão falará para cada vez menos pessoas.
“Prezamos a liberdade de escolher os nossos valores morais. Isto implica a rejeição de excessiva interferência de qualquer instituição, seja a Igreja ou o Estado”, escreve o antigo mestre dominicano. E acrescenta: “Uma religião em conflito com a autonomia pessoal será rejeitada pela maioria dos europeus e, pelo menos implicitamente, por muitos católicos”.
Uma boa área para pensar este conflito com a autonomia será a da moral sexual. Quantos solteiros e casados católicos vivem a sua sexualidade segundo os preceitos da Igreja? Não há dados. As impressões dizem que são uma minoria. Neste campo, o rugido do leão nem ridicularizado é. Não há ouvidos que o ouçam. E o cordeiro poucas oportunidades terá de ser meigo perante pecados não confessados porque não interiorizados sequer. Radcliffe não questiona a matéria do ensino moral da Igreja, ao contrário de outros teólogos, mas antes a sua pedagogia – o que não é de modo nenhum despiciendo:
“Mesmo quando o ensino cristão parece claro e inequívoco, devemos estar preparados para entrar na complexidade da vida das pessoas, no seu esforço para descobrir o que é recto”.
Sem baixar a fasquia nem entrar em concessões, há um longo caminho a percorrer de escuta e diálogo. Talvez contra o dominicano, arrisco a pensar que, uma vez percorrido o caminho, algum ensino cristão não será o mesmo. E o leão cordeiro talvez passe a ser simplesmente pessoa.
"A verdade é simples, mas se essa simplicidade não passou pela complexidade da experiência humana é uma simplicidade infantil, uma simplicidade estridente e desumana, não a simplicidade que vislumbramos indistintamente em Deus. Aqueles que pensam que a verdade do nosso ensino deve ser protegida por difamação e ataques violentos aos outros, podem muito bem estar inseguros das suas convicções, com medo de ouvir a outra posição e começar a duvidar. Precisamente, quando estamos mais confiantes no ensino da Igreja, devemos estar mais livres para ouvir e aprender, para abrir as nossas mentes e corações aos que chegaram a conclusões com as quais não concordamos".
Frases de Timothy Radcliffe retiradas as páginas 61-63 de “Ser Cristão para quê?” (ed. Paulinas)

Pensamentos que são orações

Certos pensamentos são orações. Há momentos em que, qualquer que seja a atitude do corpo, a alma está de joelhos.

Victor Hugo (1802-1885)

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...