domingo, 22 de maio de 2011

Bento Domingues: Os partidos na Igreja

No "Público" de 22 de Maio de 2011

Era ontem o princípio do fim do mundo

A notícia veio no DN de ontem (aqui). "Tha Bible guarantees it". Cá estamos para confirmar que não se confirmou:

O pastor evangélico Harold Camping acredita que os verdadeiros crentes serão levados para junto de Deus e salvos. Mas já falhou em Setembro de 1994, dizendo ter sido um "erro de cálculo".
Segundo Camping, da Califórnia, um megassismo às 18.00 locais na Nova Zelândia (7.00 de sábado em Lisboa) dará início aos acontecimentos que culminarão no fim do mundo, a 21 de Outubro.
O pastor de 85 anos acredita que, como os verdadeiros fiéis, ascenderá aos céus com Deus, num evento conhecido em inglês como 'Rapture' (Arrebatamento).

sábado, 21 de maio de 2011

A questão judaica, pela não-sei-quanta-vez

Dominique Strauss-Kahn é judeu, rico e mulherengo. Se calhar, agora gostava de não ser.

Por estes dias há duas novas questões judaicas.

Uma podia ser simplesmente uma questão de justiça e de como “uma empregada de hotel pode ter dignidade e ser escutada quando acusa um dos homens mais poderosos do mundo de ser um predador” ("New York Times" citado por Jorge Almeida Fernandes no "Público" de 21 de Maio). Acontece que Dominique Strauss-Kahn é judeu. Para a justiça deve ser indiferente se é judeu ou não. Leis diferentes para judeus no Estado de Direito, nunca mais. Mas para alguns comentadores, parece que não é – daí a questão judaica.

Esther Mucznik, “investigadora em assuntos judaicos”, defende-o nas páginas do “Público” (19-05-2011) e afirma que ele próprio já disse que, numa eventual candidatura à presidência da República Francesa, teria três obstáculos a ultrapassar: a riqueza, as mulheres e o seu judaísmo. Ou seja, para o próprio, haverá sempre uma questão judaica. Na mesma página, Miguel Esteves Cardoso, um neojudeu (não duvido da sua cultura filojudaica, mas não o imagino de quipá), tenta ilibar o “homem que incomparavelmente é e foi bom para muitas pessoas”. Parece uma questão de irmandade. No mesmo jornal, na última página, Pedro Lomba cita Bernard Henry Levy, outro judeu, que apresentou uma série de dúvidas sobre as circunstâncias do dito crime de DSK.

Será esta uma verdadeira questão judaica? Julgo que não. Pegar em alguns elementos e cozinhá-los, poderá dar essa aparência. Foi o que fiz aqui, ignorando uma imensidão de comentadores do caso que não falam da origem judaica de DSK. Eu também me sinto filojudaico – penso mesmo que não pode haver cristãos sem admiração pelo judaísmo. E por vezes, num exercício que a Internet facilita, procuro os traços judaicos de um facto.

No mesmo jornal de onde tirei informações para parte do que já escrevi e parte do que vou ainda escrever, isto é, o "Público" de hoje, fala-se da reunião, no Porto, de três arquitectos premiados com o Pritzker, vulgo “Nobel da Arquitectura”. Olho para o Siza Vieira (ou outros dois são Rafael Moneo e Souto Moura) e penso: “É parecido com Howard Jacobson” (a comparação, usando o Google images, é imediata). Howard Jacobson escreveu “A questão Finkler” (ver aqui), que o mesmo é dizer “A questão judaica”. “Finkler”, para o protagonista inglês e não judeu, é o mesmo que judeu. Como se isso não bastasse, o nome Pritzker tem o seu não sei o que de judeu. Santa Wikipedia confirma: Jay Arthur Pritzker (1922-1999), criador do prémio, é judeu, de uma família que emigrou da Ucrânia.

Howard Jacobson é judeu e gosta de ser

Siza Vieira não é judeu, suponho, e não sei qual a sua opinião sobre o assunto


Mas a verdadeira questão judaica é a do às vezes dito católico Lars von Trier (numa mesma entrevista em que afirmou que rezava, disse que se calhar só era católico para provocar os dinamarqueses maioritariamente protestantes).

Lars von Trier disse em Cannes:
Durante muito tempo pensei que era judeu e estava feliz por ser judeu. Depois conheci Susanne Bier [realizadora dinamarquesa e judia, que ganhou este ano o Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro com "Num Mundo Melhor", ver aqui] e não fiquei assim tão contente. Mas depois descobri que, na verdade, era nazi. A minha família era alemã. E isso também me deu algum prazer. O que é que posso dizer? Compreendo Hitler… Simpatizo um pouco com ele. Eu sei que ele fez coisas muito más, mas posso também imaginá-lo no bunker no seu final. Que fique claro que eu não sou a favor da segunda Guerra Mundial, não estou contra os judeus. Estou com os judeus, com certeza, mas não muito, porque Israel aborrece-me verdadeiramente.
Lars von Trier não é judeu mas gostava de ser

Pediu desculpas, mas foi expulso do festival e viraram-se contra ele autoridades, organizações judaicas, cineastas… O episódio revela o mal-estar que Hitler e o Holocausto (que não foi directamente referido) ainda provocam, em certos países e contextos – a verdadeira questão judaica.

Coisas que os homens que riem não fazem



Cães que ladram talvez mordam. Homens que riem nunca disparam.


Konrad Lorenz (1903-1989)

Restauracionismo e justiça dúbia no caso do bispo australiano

Ainda a propósito do caso do bispo australiano, D. William Morris, afastado da sua diocese pelos superiores (ou seja, o Papa, aconselhado pelas estruturas do Vaticano e por uma visita feita por um bispo norte-americano, durante três dias, que já antes era um conhecido anti-obamista, D. Charles Chaput), é útil ler o texto que surgiu na revista dos jesuítas "America". E não está longe do espírito do texto de hoje de Anselmo Borges (post anterior) . Umas linhas do texto da "America":
Defensores indignados se mobilizaram em torno do bispo. O Conselho Nacional de Presbíteros da Austrália saiu na frente em defesa a Dom Morris: "Estamos revoltados com a falta de transparência e do devido processo legal que levou a essa decisão pelas autoridades da Igreja", afirmou o conselho em um comunicado. "Estamos envergonhados com o desprezível tratamento dispensado a um excelente pastor (...). Estamos preocupados com um elemento dentro da Igreja cuja ideologia restauracionista quer reprimir a liberdade de expressão dentro da Igreja Católica Romana e que nega a autoridade magisterial legítima do bispo local dentro da Igreja".
Sobre a prática da justiça no caso é pertinente o seguinte parágrafo (isto dirige-se principalmente a Paulo C., que deixou uma dúvida nos comentários, aqui, que naturalmente merecerá mais esclarecimentos):
Um comunicado divulgado por Peter Wilkinson, porta-voz do grupo de tendência reformista Catholics for Ministry, da Austrália, chamou o processo que levou à remoção de Dom Morris de "uma farsa de julgamento". Disse Wilkinson: "Dom Morris nunca recebeu, pelo que se sabe, qualquer acusação formal contra ele por parte do Vaticano, nunca pôde ver as provas reunidas contra ele e nunca lhe foi permitido enfrentar como testemunhas em público qualquer um dos seus acusadores (…) Sem o devido processo, os católicos não podem ter nenhuma confiança no sistema legal da seu Igreja ou naqueles que o administram".
 Ler tudo aqui.

Anselmo Borges: A Igreja ainda tem salvação?

Texto de Anselmo Borges no DN deste sábado (aqui).

Não falta quem se irrite com o simples nome de Hans Küng, acusando-o inclusivamente de ressentido: não teria ainda perdoado a João Paulo II nem a Bento XVI a condenação. Mas quem tenha boa fé sabe que Küng se confessa convictamente cristão - para ele, ser cristão é ter Jesus Cristo como determinante na vida e na morte - e não pode ignorar o seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos global. Leia-se, por exemplo, a sua recente obra "Was ich glaube", várias vezes aqui citada e agora traduzida para espanhol - "Lo que yo creo" -, onde, de modo profundo e pessoal, responde às perguntas essenciais: em que posso acreditar?, em que posso confiar?, em que posso esperar?, como posso configurar a minha vida?


Foi por imperativo de consciência que escreveu o livro que acaba de ser publicado: "Ist die Kirche noch zu retten?" ("A Igreja ainda tem salvação?"). "Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica", mas, "na presente situação, o silêncio seria irresponsável".


De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual. Que propõe Küng?


É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo." Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?


A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.


A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares - oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos -, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.


Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos."


Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de base; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a vedar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho em conjunto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

20 de Maio de 1277. Morre João XXI, o Papa português


João XXI, o único Papa português desde que existe Portugal (o outro, Dâmaso, vimaranense, é anterior à nacionalidade), morreu no dia 20 de Maio de 1277, quando visitava as obras no seu palácio de Viterbo.

Foi eleito no dia 20 de Setembro de 1276, pelo que só esteve oito meses à frente da cristandade. Há quem diga que foi um mau papa, outros que foi politicamente hábil, num tempo em que o papado lidava directamente com os líderes das nações.

Mais do que como papa, é conhecido como intelectual por causa das várias centenas de manuscritos e obras publicadas, a maior parte por estudar. Dante colocou-o no Paraíso, como teólogo e sábio, autor das “Summulae Logicales”: "Pedro Hispano, a reluzir nos doze belos livros".

Em 2000, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (Pedro Hispano, como assinava, ou Pedro Julião, era lisboeta, talvez da freguesia de S. Julião) deu-lhe um sepulcro “digno de um papa” na Catedral de Viterbo, onde estava humildemente sepultado.

Pedro Hispano é uma das personagens do recente romance “O Papa, o Bispo e o Filósofo. Conspiração e morte na Sorbonne”, de Alexandre Dorozynski (Paulus). Ver aqui.

Neste dia, mas em 325, começou o Concílio de Niceia. Ver aqui.

Mais um não milagre. O do Sol em Fátima

No "Público" de hoje, 20 de Maio de 2011.

Um estudo sobre a pedofilia e a descrença na mudança


A opinião do novo Prémio Camões, de quem citei há dias um poema (ver aqui) é capaz de não ser a mais esclarecida. Leia-se, sobre esse estudo, um artigo que saiu no "National Catholic Reporter" e que está traduzido em português.
O relatório de 300 páginas, formalmente intitulado As Causas e o Contexto do Abuso Sexual de Menores por Padres Católicos nos Estados Unidos, 1950-2010, derruba uma série de equívocos populares. Enquanto alguns contestarão a metodologia do relatório – e notar que os bispos dos EUA pagaram metade do preço de tabela estimado em 1,8 milhão de dólares –, o estudo Causas e Contexto é claramente um marco na investigação dos abusos sexuais de crianças.
Ler tudo aqui.

Penso, no entanto, que a questão da pedofilia, como qualquer outra que tenha a ver com a sexualidade dos clérigos, põe em causa o celibato, a formação sacerdotal e a instituição que o mantém. A única maneira de a pedofilia e outra qualquer forma de perversão não ter a ver com a instituição é assumir que a sexualidade de cada membro do clero tem apenas a ver com a privacidade de cada um, dentro dos limites das leis comuns do Estado e, claro, da moral cristã - o que naturalmente seria o fim do celibato como obrigação, não certamente como opção individual.

Leia-se também o texto de David Clohessy (director da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres - SNAP, na sigla em inglês), que apareceu no jornal norte-americano acima referido: Dez razões pelas quais as novas diretrizes do Vaticano sobre pedofilia vão mudar pouco.

Ignorância e mistério


Quanto mais aprendemos, mais assombrados ficamos ou devíamos ficar… A nossa obrigação é aprender cada vez mais e assim separar a nossa mera ignorância do verdadeiro mistério.

Lewis Thomas (1913-1993)

Dois provérbios chineses sobre o rir

Nunca ninguém foi castigado
por ter feito alguém morrer a rir.

Um sorriso dirigido a um vivo
vale mais do que um rio de lágrimas
por um morto. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Como suspender o tempo

As ligações entre o tempo e o divino são frequentes. O tempo é a primeira criatura de Deus. E será a última a desaparecer no fim… dos tempos. Até já se disse que “Deus é o relojoeiro”. Cego para uns; providente, logo atento, para outros. Superar o tempo é entrar na dimensão divina. Mesmo que Deus seja “íntimo à realidade”.
Nós não somos os senhores do tempo. Mas hoje fiquei a saber podemos ter algum poder sobre o tempo. O nosso tempinho.
O suplemento “Cronos – Pilares do tempo”, no “Público” de hoje, fala em “milagre da suspensão do tempo”. E este tipo de milagres (ver post anterior) aceito de coração mais aberto. Trata-se de um relógio, um Hermès, modelo Arceau Temps Suspendu, que, com um toque, recolhe os ponteiros para as 12 horas.
“Imagine que, a meio de um dia de trabalho, recebe a visita de alguém que lhe é caro – os filhos, por exemplo. Para eles, o tempo pode ser suspenso. Com uma pressão num botão, os ponteiros das horas e dos minutos «recolhem-se» em módulo de «tempo suspenso», numa posição às 12 horas, enquanto o ponteiro da data desaparece. E a sua dedicação às crianças é total. Quando a visita acaba, basta pressionar de novo um botão, e os ponteiros das horas e dos minutos recuperam o tempo que tinha estado suspendo, indo ocupar as posições normais, como se o relógio nunca tivesse sido «parado»”.
Uma versão mais longa do texto foi já publicada no blogue Estação Cronográfica, aqui, de onde tirei a imagem (clique para ver melhor a maravilha).
Fernando Correia de Oliveira, autor do blogue e responsável pela publicação, escreve no editorial que em tempos de crise e depressão colectiva temos de ser indulgentes connosco próprios. Aqui fica o apontamento, que encerra um contributo para a cultura religiosa:
“Uma palavra inglesa, indulgence, tem em português a correspondente «indulgência». O étimo é comum (do Latim, indulgere, conceder), mas os significados não podiam ser mais distantes. Enquanto a indulgência lusa nos faz lembrar Igreja, a compra do perdão dos pecados, revolta Protestante; a indulgence inglesa é sibatírica, hedonista. Em tempos como estes, indulge yourself!”
Gostava de ser indulgente comigo e ter uma daquelas maravilhas que pára o tempo. Mas, pela descrição, é muito cara a máquina da suspensão do tempo. Se tempo é dinheiro, não tempo é ainda mais dinheiro.

Acreditar apesar dos milagres

Eu não gosto de milagres. Acho-os desnecessários e irrelevantes para a fé. Por vezes, penso mesmo que são contraproducentes. Seria mais fácil acreditar se não houvesse certos milagres ridículos. E mesmo milagres em geral. Não vejo para que serve o desconforto que provocam nem para a fé, que, por definição, deles prescinde ("nenhum outro sinal será dado para além do de Jonas"; "felizes os que acreditam sem terem visto"), nem para a razão, que, mais do que ultrapassada e aberta ao transcendente, se pode sentir ridicularizada.

Parece-me um pouco injusta a quebra de leis físicas por parte de Deus, que as quebra para umas coisas e não para outras, por intercessão dos santos, segundo os Seus superiores desígnios que, dizem os defensores dos milagres, não nos cabe a nós indagar. A minha sensação de injustiça será – já vi argumentar – uma resposta à mesma perplexidade que noutros pode provocar a fé, na linha da desusada apologética tradicional. Terei de conceder que rezar a um santo é uma possibilidade aberta a todos. E algo mais democrático do que um crítico raciocínio teológico.

Já os cépticos argumentam que nunca viram milagres evidentes e impossíveis (uma perna amputada voltar a crescer, por exemplo), que há milagres sem ser por intercessão de santos (ou seja, que não são verdadeiros milagres mas coisas que acontecem ainda sem explicação), que há milagres noutras religiões, que é uma questão de estatística, que a mente manda no corpo de formas ainda não desvendadas...

De qualquer forma, quase todos os milagres católicos são uma boa história, como a de Georgina Monteagudo, contada pelos principais diários de hoje. E uma boa história (em geral, é irrelevante se é verdadeira ou falsa) é sempre bom ouvir.

No "Diário de Notícias"

No "Correio da Manhã"

No "Público"

Nota: Ao escrever isto tive a sensação de que há dias tinha lido algo sobre milagres em Anselmo Borges. Fui confirmar e é verdade, aqui, nas linhas finais do artigo. A argumentação é ainda mais radical. Radical no sentido de séria e profunda.

Não é religião. Nem filosofia. Nem mito

Proclamamos com Karl Barth que o cristianismo não é uma religião, com Kierkegaard que não é uma filosofia, e com Bultmann que não é um mito: mas Deus não se teria tornado homem se não tivesse entrado, interior e positivamente, com contacto com estas três formas.


Hans Urs von Balthasar (1905-1988)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Missal do Novo Catecismo da "troika"

No dia 14 de Maio, São José Almeida escreveu no “Público” uma opinião sobre o programa de intervenção na economia portuguesa elaborado pela troika. Deu-lhe o título de “A Contra-Reforma” e usou diversas expressões de origem religiosa para falar do assunto.

Sendo a troika constituída por representantes de três instituições (FMI, BCE e CE), só faltou falar em trindade.

Vejamos as frases e expressões com linguagem de inspiração religiosa (os negritos são meus):

- “O documento da troika surge assim como uma espécie de Missal do Novo Catecismo da Contra-Reforma, imposto por um novo Concílio de Trento que instalou a sua doutrina na Europa. E nele surge uma visão salvífica e redentora, que ignora a degradação social que provoca, e que se apresenta como um novo dogmatismo que promete trazer um paraíso de leite e mel ou ser uma espécie de novo sol na terra”;

- [documento apresenta-se como] "verdade absoluta";

- “Não sendo demonstrável a capacidade salvífica do documento da troika…”;

- “Será que contém alguma solução milagrosa para o desenvolvimento económico que tenha resultado na Grécia?”;

- "Contra isso [tensão e revolta social] o Missal da troika não apresenta ainda milagre".

Mais para o final a jornalista, que já em diversos textos mostrou que é ateia ou pelo menos agnóstica, volta a falar do enigmático “Missal do Novo Catecismo desta Contra-Reforma”. Digo enigmático porque não existe nenhum “Missal do Novo Catecismo”. O que existe é o Catecismo de Pio V, preparado pelo Concílio de Trento (1545-1563) e publicado por Pio V em 1566, e o Missal Romano, publicado pelo mesmo Papa em 1570. Mas são coisas diferentes. A jornalista devia ser mais cuidadosa. Devia ter mais trento na língua.

18 de Maio de 1911. Morre o músico Gustav Mahler


Gustav Mahler morreu há precisamente 100 anos, no dia 18 de Maio de 1911, aos 51 anos. Em vida foi reconhecido como grande maestro, mas como compositor, o grande compositor da transição entre o romantismo e o século XX, só foi reabilitado após a II Guerra Mundial e mais ainda na década de 1960.

Proveniente de uma família judaica da Boémia, então parte o império Austro-Húngaro, converteu-se ao catolicismo em Fevereiro de 1897. Há quem diga que foi uma conversão interessada, pois passados dois meses é nomeado Kappellmeister (mestra capela) da Ópera da Corte de Viena. Na Viena imperial diversos cargos estavam vedados a não-católicos (foi no tempo em que o imperador podia vetar a escolha do conclave, como aconteceu com Francisco José, que vetou em 1903 o cardeal Rampola, que havia sido o mais votado, vindo depois a ser eleito Giuseppe Sarto como Pio X).

Outros, a favor da conversão sincera de Mahler, defendem que a Terceira Sinfonia, dos anos imediatamente anteriores ao baptismo católico, se inspira claramente nos sofrimentos de Cristo.

Mahler perde o emprego em 1907, devido à perseguição da imprensa anti-semita, e foi para os EUA, onde dirigiu primeiro a Ópera Metropolitana e depois a Filarmónica de Nova Iorque. Viria a morrer em Viena, de uma infecção no sangue, ele que um dia disse: “Sou três vezes apátrida! Como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda a parte um intruso, em nenhum lugar desejado!"


"À noite com Job, sob o céu de Calar Alto", poema de Manuel António Pina

Manuel António Pina, poeta, cronista do JN e autor de literatura infantil, é o prémio Camões 2011, revelado há dias. Este poema, inédito, ecoando passagens bíblicas, apareceu nas páginas do “Público” de 13 de Maio de 2011:

À noite com Job, sob o céu de Calar Alto

Como um Deus incompreensível
confundido pela própria
argumentação
perguntando: “Onde é que eu ia?”

Como uma pergunta
a que só é possível responder
com novas perguntas.

Como vozes ao longe discutindo:
“Alguma vez deste ordens à manhã,
ou indicaste à aurora o seu lugar?”

Como um filme
em que tudo acontecesse
na escuridão do espectador.

Como o clarão da noite última
e vazia que abraça pela cintura
a jovem luz do dia.

Dois anos de Tribo de Jacob



O meu blogue fez hoje (comecei a escrever a 17 de Maio, mas já passa de meia-noite) dois anos. Inaugurei-o no dia 17 de Maio de 2009 depois de ler a mensagem de Bento XVI para o 43.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Exortava o Papa, dirigindo-se especialmente aos jovens, “para levarem para o mundo digital o testemunho da sua fé”. “Senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida”.

Leitor de alguns blogues, e já não me sentindo jovem, decidi escrever um centrado nos meus interesses católicos: os livros que leio, os cronistas preferidos (infelizmente são poucos) e cujos textos transcrevo, as efemérides relacionadas com o cristianismo, as notícias especialmente significativas, a linguagem de inspiração religiosa na cultura não especificamente confessional, um ou outro texto de opinião da minha autoria, textos clássicos do cristianismo, notas de humor. Num fundo, ponho neste blogue o que gostaria de encontrar num blogue católico livre, dialogante, ecuménico, aberto à cultura. Sem defesas da missa tridentina. Em comunhão com Roma, o que não significa abdicar da crítica na procura da verdade.

Escrevo uma média de quatro vezes por dia e a verdade é que poderia escrever mais. Todos os dias há assuntos de que não falo, mas que julgo que aqui caberiam. Há rubricas que gostava de inaugurar, mas não o faço porque não as sustentaria. Há notícias que gostaria de comentar. Blogues, principalmente estrangeiros, que gostaria de ler mais e citar. O tempo escasseia e a vida offline ainda é o melhorzinho que há para fazer.

Disse há um ano que, no início, esperava merecer umas cem visitas diárias em poucos meses, mas só as atingi precisamente ao completar o primeiro ano. Mas já não esperava que, passado outro ano, o número triplicasse.

O blogue tem motivado alguns contactos proveitosos. O que é óptimo. E tem acolhido comentários, por vezes anónimos, de pessoas que sabem mais e escrevem melhor do que eu. O que é uma bênção ainda maior.

Espero continuar a merecer a atenção de todos os que me lêem. Não darei muito mais do que o que tenho dado diariamente. Mas tenho vontade de melhorar dentro do estilo que caracteriza este espaço.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Portocarrero de Almada: O escândalo da cruz

Reflexão pertinente de Gonçalo Portocarrero de Almada no "Público" de ontem. É tão ridículo não autorizar o uso da cruz num veículo, como, hipoteticamente, obrigar ao uso de qualquer símbolo religioso.

"Só os que crêem profundamente na religião podem gozar com ela”, diz o Papa Urbano IX


O escritor escocês Bruce Marshall (1899-1987) escreveu em “Urbano IX” que “só os que crêem profundamente na religião podem gozar com ela” - frase dita pelo Papa do título depois de uma paródia representada por um arcebispo. O romance não existe em português, tal como nunca existiu um Urbano IX. Não houve mais urbanos depois de Urbano VIII, no séc. XVII, o que canonizou os aportuguesados Isabel de Aragão e Francisco Xavier.
Mas o curioso é que Bruce Marshall, além de “Urban the Ninth”, de 1973, escreveu passados dois anos “Marx the First”. Até gostava de saber do que trata este romance de um autor em que, frequentemente, os protagonistas são clérigos católicos.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...