sábado, 23 de abril de 2011

Cultura depois da Segunda Queda


Passei uma parte da tarde a ler “No Castelo do Barba Azul”, de George Steiner, que tem como subtítulo “Algumas notas para a redefinição de cultura”. O final da segunda parte (de quatro) detém-se sobre três “reivindicações do ideal” (a expressão é de Ibsen), três estádios “profundamente interligados”, nos quais “a consciência ocidental é forçada a haver-se com a chantagem da transcendência”, todas elas relacionadas com os judeus: Moisés e o monoteísmo, Jesus e o cristianismo primitivo e o socialismo messiânico.
Escreve a certa altura Steiner, num texto todo ele bom para o contexto pascal que estamos a viver:
O genocídio que teve lugar na Europa e na União Soviética durante o período de 1936-1945 (o anti-semitismo soviético talvez seja a expressão mais paradoxal do ódio e da realidade pela utopia fracassada) foi muito mais do que uma táctica política, uma erupção do mal-estar da classe média inferior, ou um produto do capitalismo decadente. Não foi um mero fenómeno económico – social e secular. Actualizou um impulso tendendo para o suicídio da civilização ocidental. Foi uma tentativa de nivelar o futuro – ou, mais precisamente, de tornar a história comensurável com a crueldade natural, o torpor intelectual e os apetites materiais de uma humanidade que não se transcende a si própria. Se nos servirmos de uma metáfora teológica, e não temos por que nos desculpar por isso num ensaio sobre a cultura, poderemos dizer que o holocausto assinala uma Segunda Queda. Podemos interpretá-lo como um abandono voluntário do jardim e uma tentativa pragmática de queimar o jardim atrás de nós. Sem o que a sua memória continuaria a infectar a saúde da barbárie com os seus sonhos debilitantes ou os seus remorsos. 
Com a tentativa falhada de matar Deus e a tentativa quase conseguida de matar aqueles que O tinham “inventado”, a civilização entrou, justamente conforme a previsão de Nietzsche, “na noite cada vez mais noite”.

Mesmo quando se cala

Creio no Sol,
mesmo quando não brilha.
Creio no amor,
mesmo quando não o sinto.
Creio em Deus,
mesmo quando se cala.

Oração judaica

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Rembrandt e a figura de Cristo, no Louvre

O Museu do Louvre tem patente até 18 de Julho uma exposição sobre o rosto de Cristo nas pinturas de Rembrandt: “Rembrandt et la figure du Christ”. Figura, diz o Museu, é o rosto, a face, mas também a fisionomia, o contorno, a silhueta, personagem, lembrança. Para ver em Paris ou no sítio do Louvre (aqui, clicar em "exposition"). Agradeço a FCO, que me sugeriu esta exposição.



Jesus aparece a Maria Madelena, que pensa que é o jardineiro.

 Ceia de Emaús. De Cristo só se vê a silhueta.
Cegueira dos discípulos antes do partir do pão?
Ou já vêem o que nunca veremos em vida? 

Ceia de Emaús

Procissão ateia não chega a realizar-se em Madrid


Estava marcada para ontem, quinta-feira, mas um tribunal proibiu-a na véspera. A procissão ateia de Madrid, convocada abertamente para ofender os católicos, não chegou a realizar-me, mas fica prometida para outra ocasião – dizem os organizadores.

A  “procissão ateia” prometia levar às ruas faixas com dizeres como "Congregação da Cruel Inquisição", "Irmandade da Santa Pedofilia" e "Confraria do Papa do Santo Latrocínio" com o objetivo de "derrubar a hipocrisia social e moral que representa a Semana Santa Católica".

Os fervorosos que dizem que "a única igreja que se ilumina é a que arde (em chamas)" prometem voltar pelo menos em Agosto, quando o Papa visitar Madrid para a Jornada Mundial da Juventude.

A verdadeira teologia, segundo Lutero

"Crucifixão", de Gaudenzio Ferrari (séc. XVI)

“In Christo crucifixo est vera Theologia et cognitio Dei”, diz Lutero, na "Disputatio heidelbergensis".

Intrigas sobre o Vaticano e as origens do cristianismo atraem leitores contemporâneos

No "Diário Económico" de 21 de Abril. Vale a pena ler a segunda parte, que é sobre o fascínio que este tipo de livros exerce sobre os leitores actuais.

O cristão ao pé da cruz

"Crucificação" de Giotto

Beijo a tua paixão, com a qual fui libertado das minhas más paixões.
Beijo a tua Cruz, com a qual condenaste o meu pecado e me libertaste da condenação à morte.
Beijo aqueles cravos, com que removeste o castigo da maldição.
Beijo as feridas dos teus membros, com que foram curadas as feridas da minha rebelião.
Beijo a cana com que assinaste o atestado da minha libertação e com que feriste a cabeça arrogante do dragão.
Beijo a esponja encostada aos teus lábios incontaminados, com que a amargura da transgressão me foi transformada em doçura.
Tivesse podido eu degustar aquele fel, que dulcíssimo alimento não teria sido!
Tivesse podido eu tomar o vinagre, que bebida agradável!
Aquela coroa de espinhos teria sido para mim um diadema régio.
Aquelas zombarias ter-me-iam ornado como sinal de profundo obséquio.
Aquelas bofetadas ter-me-iam glorificado como o prestígio mais alto.
Eu te beijo, Senhor, e a tua paixão é o meu orgulho.
Beijo a lança que dilacerou o documento da minha dívida e abriu a fonte da imortalidade.
Beijo o teu lado do qual jorraram os rios da vida e brotou para mim o rio perene da imortalidade.
Beijo a tua mortalha com que me adornaste, tirando-me minhas vestes vergonhosas.
Beijo o preciosíssimo sudário de que te revestiste, para envolver-me na veste dos teus filhos adoptivos.
Beijo o túmulo no qual inauguraste o mistério da minha ressurreição e me precedeste pela estrada que sai do abismo.
Beijo aquela pedra com a qual me tiraste o peso do medo da morte.

Jorge de Nicomédia, bizantino do séc. IX

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sabonetes Pilatos



Nos magníficos nano-contos (histórias com menos de 40 palavras), do meu amigo Francisco Gomes, no Facebook (é procurar "Nano-contos"), um deles diz assim:
O publicitário estava em alta. O cliente adorou o nome para os seus produtos de higiene e sabonetes: "Pilatos". Na agência deram-lhe os parabéns e passaram a olhá-lo com respeito e inveja. "Lave as mãos com Pilatos! Está boa!". Quando o produto fracassou, crucificaram-no.

O Estado deve pedir desculpa aos jesuítas?

Artigo do domingo passado, 17 de Abril, no "Público". Embora não seja especificamente sobre a Lei da Separação dos Estado das Igrejas, vem a propósito, porque esta lei completou 100 anos no dia 20 de Abril.

A primeira missa aconteceu numa quarta-feira?

O DN de hoje diz que a primeira missa, ou seja, a última ceia de Jesus, deve ter sido a uma quarta-feira. A questão já é velhinha. E há muito que se explica a diferença de datações entre os evangelhos sinópticos e o de João com o seguimento de diferentes calendários em uso na época. Bento XVI fala disso no seu recente livro sobre Jesus de Nazaré. Mas escrito por um físico, que também tem uma obra sobre as explicações naturais da passagem do Mar Vermelho, é capaz de ter mais, digamos, "carácter científico". Dá para espreitar no livro na Amazon, aqui.

Aprender democracia crítica olhando para o processo de Jesus

Pedro Lomba refere no seu texto o livro de Gutav Zagrebelsky, “A Crucificação e a Democracia” (ed. Tenacitas, 2004), aqui. É uma óptima leitura para estes dias, uma grande reflexão sobre a democracia a partir do julgamento de Jesus.

Pilatos submete Jesus ao veredito do povo, num “procedimento «democrático»”. O povo escolhe matar o inocente, naquilo que parece um “irrefutável argumento contra a democracia”, “uma prova incontestável da insensatez da democracia”. Restam assim duas alternativas para a ética política. Ou o dogma de quem não precisa de perguntar ao povo ou a dúvida, ou o absolutismo ou o relativismo de valores. Para o espírito dogmático a democracia é, em princípio, inadmissível. Mas já a justifica o cepticismo, por conveniência e oportunismo. Dogmatismo e cepticismo só a aceitam na medida em que a democracia servir como força para impor uma verdade ou alcançar um consenso. Ambos concordam na instrumentalização da democracia.


Zagrebelsky, a partir do julgamento de Jesus, concebe uma terceira alternativa: a democracia crítica, o “regime das possibilidades sempre abertas”, em que as decisões irreversíveis (como fazer morrer alguém) são incompatíveis, mas em que pode haver dúvidas. Aliás, só quem tem convicções pode ter dúvidas. Pilatos, aparentemente democrático, tinha dúvidas mas não tinhas grandes convicções. Jesus tinha convicções, mas silencia-se, sujeita-se ao veredicto. Não é democracia o que acontece no julgamento de Jesus. Ou pelo menos não é a democracia crítica que o autor defende. “A democracia das possibilidades e da busca, a democracia crítica, deve mobilizar-se contra quem rejeita o diálogo, nega tolerância, busca somente o poder e crê ter sempre razão”. Pode-se aprender democracia crítica olhando para o processo de Jesus, que numa primeira instância é condenado pelo poder religioso do sinédrio (dogmático) e numa segunda pelo poder romano (relativista ou céptico).
“Ser homem de dúvida, mas não céptico, significa antes ter convicções mas não ceder à soberba até ao ponto de não estar disposto a coloca-las em questão. Mas o mesmo acontece com o homem de fé, quando não renuncia à sua liberdade e à sua responsabilidade e, não se sujeitando cegamente ao dogma eclesiástico, escuta na experiência da vida a palavra de Deus, com o temor de quem não teme ouvi-la ou, tendo-a escutado, com o receio de lhe compreender mal o significado, sabendo porém medir e incomensurabilidade das fontes” (pág. 141).

"O silêncio de Jesus", texto de Pedro Lomba sobre o processo que condenou Jesus à morte

Texto de Pedro Lomba na última página do "Público" de hoje.

Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos



Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.



Sophia de Mello Breyner Andersen
(lido no Gang Nocturno)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Habemus Papam. Uns gostam, outros não. Como sempre

O jornal dos bispos italianos, "L'Avvenire", não gosta do filme de Moretti, que estreou na sexta-feira passada. “Habemus Papam? Sim, já temos” – é o título do texto. O vaticanista Salvatore Izzo diz que o melhor é boicotar o filme:
Boicotemos na bilheteria. Por que temos que financiar a quem ofende a nossa religião? O fato de que devemos conhecer antes de julgar não vem ao caso: não preciso me jogar do sexto andar para entender que poderia me matar.
Nanni Moretti respondeu:
"Habemus Papam" não trata de bispos, mas da dificuldade de estar à altura das expectativas.
Um outro vaticanista (em Itália, os jornais estão povoados de especialistas em Vaticano), Marco Politi, do "Il Fatto Quotidiano", diz que é “um filme genial”. “É uma pesquisa sobre o sentido do poder, da solidão, sobre a necessidade de afeição”, afirma. E sugere que Bento XVI veja o filme:
Moretti  faz-se intérprete de uma busca da sociedade que pede uma Igreja capaz de amor e de compreensão e que esteja em contacto com todos. Por causa disso, então, acho que o secretário do papa deveria levar para ele o videocassete e fazê-lo ver, porque é estimulante.
Li aqui contra o filme.
Li aqui a favor do filme.
Marco Politi gosta

Habemus Papam - imagens do filme de Moretti

Já há imagens do filme mais aguardado do ano (para mim). "Habemus Papam", de Nanni Moretti. O Papa eleito não se sente com costas suficientes para carregar a cristandade e chamam o psicólogo, papel desempenhado por Moretti. Ver aqui mais referências ao filme.





A Madonna vai ser do Opus Dei?



A notícia veio no DN de segunda (aqui). É tão improvável que até pode ser verdade. E se for, vai ser lindo. Vai ter de repudiar metade do reportório, a começar por "Like a virgin", e mudar todos os espectáculos, cheios de encenações para-religiosas. Pode até ter de mudar o seu nome, a sr.ª Ciccone, digo eu. Mas o da filha mais velha, Lurdes, fica.
Segundo o "Daily Mirror", Madonna teria abandonado a Kabala, seita de origem judaica da qual fazia parte há anos, para integrar a Opus Dei, de cariz católico.O tablóide britânico diz que na base da renúncia de Madonna à Kabala está a polémica do alegado desvio de fundos de uma ONG pertencente à seita no Malawi. E avança ainda que a cantora esteve reunida em Londres com padres ingleses na última sexta-feira."Ela está interessada em explorar diferentes religiões. Madonna sempre teve curiosidade pela Opus Dei. Até agora, ela não é membro, está apenas tendo conversas informais", disse uma fonte ao jornal.O jornal, porém, não garante que Madonna já se tenha desligado da Kabala. Mas refere que a cantora ficou muito incomodada com a polémica do desvio dos fundos e teria mesmo despedido alguns directores da seita.

Fartos de palavras, dizia António de Lisboa em Pádua

Fartos de palavras. E também eu contribuo para o excesso de palavra. Que ao menos façam sentido. E pelo meio cita-se um português.
Muitas vezes queixamo-nos da imensa ignorância dos jovens relativamente ao Cristianismo. Mas será uma pura perda de tempo produzirmos mais documentos, vídeos, programas de rádio e de televisão, se não nos esforçarmos também por fazer da Igreja um lugar de coragem, alegria e esperança evidentes. Devemos escolher com cuidado as palavras que usamos. A Verdade conta. Mas as nossas palavras serão inúteis, se não estiverem ancoradas em comunidades que mostrem como estão apontadas para além de nós mesmos, para Aquele que nos procurou e nos deu a sua Palavra. Santo António, o pregador franciscano do século XIII, queixava-se de que a Igreja estava «farta» de palavras. As coisas não mudaram muito. Continuamos a produzir grandes quantidades de documentos, longos e aborrecidos sermões, mas se não se apreender uma lufada de liberdade nas nossas vidas, as nossas palavras corromperão radicalmente a pregação do Evangelho.
Timothy Radcliffe, pág. 15 de “Ser Cristão para quê?” (ed. Paulinas)

terça-feira, 19 de abril de 2011

19 de Abril de 1932. Nasce o pintor e escultor Fernando Botero

 "Mãe e filho", Parque Eduardo VII, Lisboa

Coração de Jesus

Fernando Botero nasceu em Medellín, Colômbia, no dia 19 de Abril de 1932. Este pintor e escultor é conhecido pelas suas figuras gordas, que dizem sugerir tanto a imobilidade da humanidade como a sua ganância. São especialmente famosos os quadros da nova "Gioconda" e do novo "Casal Arnolfini".


Quase que naturalmente, pois será difícil a um pintor em ambiente cristão iludir o contexto, pintou vários cristos. É dele a “Mãe e filho” (não sei qual o nome correcto) que está no Parque Eduardo VII (em cima).

"Ecce homo"

"Crucifixão"

Sabedoria pascaciana

O desespero não tem pés para andar o caminho que é Cristo.
Pascácio Radberto, francês do séc. XI

Deus e o sexo. Na Bíblia.

Na revista "Focus" de 20 de Abril e que já está hoje nas bancas. Como é Páscoa, é obrigatório falar de religião. Stonehill College é uma universidade católica em Massachusetts, EUA.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...