segunda-feira, 7 de março de 2011

7 de Março de 1274. Morre Tomás de Aquino


Tomás de Aquino morreu no dia 7 de Março de 1274, aos 49 anos. Nasceu no sul de Itália, filho dos condes de Aquino. Andou por Paris, Colónia, Itália, sempre a falar e escrever em latim, quando já se falavam as três línguas em questão. A sua principal obra é a “Suma Teológica”, síntese harmónica entre relevação cristã e filosofia aristotélica.

Repudiado pela Igreja nos primeiros anos após a morte, o pensamento filosófico e teológico de S. Tomás, durante séculos, foi considerado doutrina oficial da Igreja Católica, a “filosofia perene”, com o consequente prejuízo de outras formas de pensar.

Tomás de Aquino é o patrono dos filósofos e das universidades e escolas católicas, entre mais uma série de coisas, incluindo os fabricantes de lápis. Menos conhecidas, mas muito belas, são as suas orações. Como esta, que revela a sua fé na Eucaristia.


Adoro-Te com amor, ó Deus escondido
Que, sob estas espécies, verdadeiramente estás presente;
Dou-Te o meu coração inteiramente
Em Tua contemplação estou rendido;

A vista, o tacto, o gosto nada sabem.
Só no que o ouvido sabe se há-de crer.
Creio em tudo o que o Filho de Deus veio dizer.
Nada mais verdadeiro pode ser
Do que a própria Palavra da Verdade.

Na cruz estava oculta a divindade,
Aqui também o está a humanidade.
E, contudo, eu creio e o confesso
Que ambas aqui estão na realidade;
E o que pedia o bom ladrão, eu peço.

Não consigo ver as Tuas chagas, como Tomé,
Mas confesso-Te meu Deus e meu Senhor!
Faz-me ter cada vez em Ti mais fé,
Uma esperança maior e mais amor.

Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que ao homem dás a vida!
Que a minha alma sempre de Ti viva!
Que sempre lhe seja doce o Teu sabor!

Senhor Jesus, doce pelicano!
Lava-me com o Teu sangue a mim, imundo,
Com esse sangue do qual uma só gota
Pode salvar, do pecado, todo o mundo.

Qual a imagem que Gandhi tinha no seu quarto quando o assassinaram?

Quando Mahatma Gandhi morreu, tinha apenas uma imagem no seu quarto, a de Cristo, ressuscitado, com esta citação na base: "Ele é a nossa paz" (Ef 2,14).


Li na pág. 228 de "Ir à igreja porquê?", de Timothy Radcliffe (ed. Paulinas)

Ó doce luz

Ó doce Luz,
que me envolves,
e iluminas as trevas do meu coração:

Tu me guias
como a mão de uma mãe.
Se eu me soltasse,
não poderia dar um só passo mais.

És o círculo,
que me circunda
e me encerra em si.

Separado de Ti, eu cairia
no abismo do nada,
do qual me elevaste até ao ser.

Estás mais perto de mim
do que eu de mim mesma.
Mesmo assim, és inacessível
e incompreensível.
Nenhum nome Te pode conter,
ó Espírito Santo, Amor Eterno!

Edith Stein (1891-1942)

Resultados perturbadores


Repudiado Cristo, o espírito humano pode alcançar os mais perturbadores resultados.

Fiodor Dostoiévski (1821-1881)

Máscaras


"No Carnaval, as máscaras servem para cobrir as máscaras de todos os dias. A Quaresma deve servir para as arrancar e encontrar o Rochedo que nenhuma tempestade poderá abalar".

Bento Domingues, no "Público" de 06 de Março de 2011

domingo, 6 de março de 2011

6 de Março de 1447. Eleição de Nicolau V


O Papa Nicolau V (1397-1455) foi eleito no dia 6 de Março de 1447 e pontificou até 24 de Março de 1455. Relacionou-se especialmente com Portugal, quando o país iniciava a gesta dos Descobrimentos. Através da bula “Romanus Pontifex”, do último ano do pontificado, reconheceu aos reis de Portugal a posse das terras e mares descobertos e a descobrir.

Nicolau V era um entusiasta do humanismo e do Renascimento. Está sepultado na Basílica de São Pedro.

Aconteceu um 11 de Setembro eclesial e a Igreja não se apercebeu


“O Vaticano não tem só um problema de comunicação externa – o problema também é interno. Todas as gafes, os mal entendidos, os erros dos últimos anos não foram realmente provocados pela falta de habilidades de comunicação com o mundo exterior. Essa é uma dimensão dela, mas o verdadeiro problema é que, dentro do Vaticano, a discussão não é livre e ampla o suficiente”, afirma Massimo Franco, jornalista do “Corriere della Sera”, numa entrevista que John L. Allen Jr. lhe fez para o "National Catholic Reporter".

Massimo Franco escreveu um livro intitulado “C'era Una Volta un Vaticano” (“Era uma vez um Vaticano”) defendendo que está a acontecer uma mudança histórica de que o Vaticano ainda não se apercebeu. O Vaticano deixa de ser o capelão do Ocidente.

A entrevista é instrutiva (mais diagnósticos do que soluções – reconhecem entrevistado e entrevistador) em vários aspectos. Dá pistas para uma o Vaticano fazer uma introspecção (e todos nós, como Igreja). Alguns excertos:
Autoconcolação? O Vaticano orgulha-se de ser contracultural, mas às vezes eu acho que essa é uma forma de autoconsolação. Na verdade, eu acho que o Vaticano está certo quando diz que, no futuro, o Ocidente terá que retornar para a religião. 
Divorciados do mundo externo. A questão é: qual religião? Será que o Vaticano vai estar lá no momento certo para responder às perguntas que as pessoas estarão se fazendo? Eu não tenho a resposta, mas posso dizer que há uma desconexão entre o Ocidente e o Vaticano do ponto de vista da linguagem. Não é o fato de os católicos serem uma minoria, mas sim de serem um modelo autorreferencial, não um modelo criativo, com nenhuma capacidade de expansão. É isso que eu temo. O risco é de dar voltas em si mesmo cada vez mais, divorciados do mundo externo. 
Comunicação interna. É importante dizer que o Vaticano não tem só um problema de comunicação externa – o problema também é interno. Todas as gafes, os mal entendidos, os erros dos últimos anos não foram realmente provocados pela falta de habilidades de comunicação com o mundo exterior. Essa é uma dimensão dela, mas o verdadeiro problema é que, dentro do Vaticano, a discussão não é livre e ampla o suficiente. 
11 de Setembro eclesial. O que os atentados das Torres Gêmeas foram para os Estados Unidos, os escândalos dos abusos sexuais são para a Igreja. As Torres Gêmeas significaram que o unilateralismo e a hegemonia militar norte-americanos haviam terminado, e os escândalos dos abusos sexuais significaram que o unipolarismo ético da Igreja Católica acabou. O Ocidente está em crise, de um ponto de vista militar, tecnológico, econômico e moral. Ambos os impérios paralelos hoje estão aprendendo mais interiormente, estão mais fracos e não colaboram um com o outro.
Ler a entrevista toda aqui.

Bento Domingues: Construir sobre a rocha ou sobre a areia


Pergunta Bento: “Tanto as religiões como as ideologias seculares não podem evitar a pergunta: que se passa connosco? Que bases e que desígnios presidem às nossas construções?” Com pontos em comum, sugiro uma vista de olhos na minha reflexão de há dias sobre o mesmo trecho evangélico (aqui).

Deus já se esqueceu de nós

"Deus já se esqueceu de nós". É só o título de uma crónica de Vasco Pulido Valente, pessimista, mas clarividente e contundente, no "Público" de hoje. Não fala de Deus. Fala da irrelevância portuguesa e da mediocridade política dos nossos dirigentes e partidos. Deus só aparece no título.

Nunca parar


O que me impressiona em Jesus é o seu compromisso de seguir sempre em frente. De maneira que podemos dizer que o elemento permanente do cristianismo é ordem de não parar nunca.

Henri Bergson (1859-1941)

sábado, 5 de março de 2011

"Papa iliba judeus". Mau título. Resumo deficiente

Por estes dias tem sido repetido até à exaustão que o “Papa iliba judeus” da morte de Jesus Cristo no livro que vai ser lançada no dia 10 de Março. A coisa apresenta-se como novidade.

Quando eu andava na catequese, e andei na catequese toda, nos anos 70-80, não me lembro uma única vez de me terem dito que os judeus mataram Jesus. A ideia que ficou foi que “os maus mataram Jesus” e, numa teologia que hoje é contestada, mas que a mim não me causou qualquer trauma, mesmo que nela pensasse, acrescentava-se que quando nos portávamos mal estávamos a contribuir para as dores/morte de Jesus.

Um dia, numa viagem a Fátima, daquelas que demoravam o dia todo e incluíam uma passagem pela Nazaré (isto foi nos anos 70, ainda os autocarros levavam bagagem no tejadilho), tive a confirmação de quem eram os maus: os romanos com capacete, saias e lanças. Se estava pintado no interior da colunata do Santuário, não podia estar errado. Portanto, quando dizem que a Igreja pensa até 10 de Março de 2011 que os judeus é que mataram Jesus e a partir desse dia ficam ilibados pelo Papa, a questão a fazer é: qual Igreja? Há muitas décadas que os católicos não pensam assim. Isso ficou mais que dito e redito no Vaticano II, se dúvidas havia.

Colunata de Fátima nos anos 1970. 
A via-sacra que refiro fica nas costas do fotógrafo 

Como resumo dos capítulos que falam da traição, julgamento, condenação e morte (podem ser lidos aqui), “Papa iliba judeus” é mau resumo. Em resumo, o que diz é que o termo “judeus”, que é mais usado pelo evangelista João, tem de ser entendido como “autoridades judaicas”, a aristocracia do templo, os saduceus. E essas não são ilibadas.

Escreve Ratzinger/Bento XVI:
Quem insistiu para que Jesus fosse condenado à morte? Nas respostas dos Evangelhos, há diferenças sobre as quais devemos reflectir. Segundo João, eles são simplesmente «os judeus». Mas este termo, em João, não indica de modo algum – ao contrário do que o leitor moderno talvez se sinta inclinado a interpretar – o povo de Israel enquanto tal, e menos ainda reveste um carácter «racista». Em última análise, o próprio João, quanto à nacionalidade, era israelita, tal como Jesus e todos os seus. A comunidade primitiva era inteiramente formada por israelitas. Em João, o referido termo tem um significado específico e rigorosamente limitado: designa a aristocracia do templo. Portanto, no quarto Evangelho, o círculo dos acusadores que pretendem a morte de Jesus é descrito com precisão e claramente limitado: trata-se precisamente da aristocracia do templo, com alguma excepção, como deixa entender a alusão a Nicodemos (cf. 7, 50-52).
Jesus foi condenado num processo em que ambos (autoridades religiosas e autoridades políticas) querem condená-lo sem assumir as responsabilidades. Já alguém falou em condenação e morte virtuais. A aristocracia do templo não suporta as atitudes de Jesus (o sábado, o ser Filho de Deus, as regas da pureza transgredidas, as ameaças ao templo…). É blasfemo. Condena-o, mas não quer derramar sangue. Os romanos (não estamos a falar dos habitantes de Roma, estamos a falar das autoridades romanas na Palestina, não vá o Papa um dia ter que ilibar os habitantes do Império) não querem condená-lo, mas vêm no título “rei dos judeus” uma atitude de subversão. Cá está um bom motivo. Rebeldia. Ou seja, para o poder religioso, é blasfemo. Para o poder político, é subversivo. O poder religioso rasga as vestes e entrega-o ao poder político que, apesar de lavar as mãos, mata-o. Quem tem responsabilidades nisto? Em todo o caso, o poder. (O processo faz lembrar a Inquisição. O poder religioso julga e condena. O poder político aplica a pena, já que os religiosos não podem sujar as mãos.)

A propósito deste nova questão judaica, vale a pena ler a entrevista do “Il manifesto” (jornal italiano, de esquerda) a Amos Luzzatto, presidente da União das Comunidades Judaicas Italiana (aqui).

Diz Amos Luzzatto:
Só sei que Jesus foi morto na cruz e que se tratou de uma execução capital tipicamente "romana". De resto, também eram romanos os executores materiais. Os judeus estavam "ocupados", a autoridade era romana. Certamente, entendo que, depois, o cristianismo tenha escolhido Roma como o seu centro propulsor, mas Jesus foi morto pelos romanos.
O jornalista insiste. Insiste. Insiste. O judeu tem pouco a dizer. Não há nada de novo. Só falta o jornalista pedir: “Por favor, mostre admiração, mostre indignação”. Mas o que Luzzato diz é: “Para mim, tudo continua como antes”.

Imagens de um Jesus judeu

Por estes dias, vários têm vindo dizer que Jesus era judeu. E parece que até há uma nova questão judaica com o Papa a dizer (ou melhor, os resumos dizem que disse) que iliba os judeus da morte de Jesus.

Anselmo Borges, no texto de hoje, também fala do assunto: “Quantos cristãos se lembram de que Jesus era judeu e de que os primeiros discípulos também?” Na realidade, muitos ainda o representam como um jovem loiro de olhos azuis. Ao contrário do que se diz, Jesus, com trinta e tais anos, não morreu jovem. Nem sequer havia jovens na época. Mataram-no com a idade de muitos avôs da altura.


Pensava que a questão da judaicidade de Jesus era no mínimo disparatada. Por isso já aqui há dias apontei a idiotia de Stewart Chamberlain, que escreveu: “Todo aquele que defende que Jesus Cristo era judeu, é ignorante ou desonesto”.

E por isso é bom voltar de vez em quando ao Jesus BBC – a reconstituição meramente sugestiva que a BBC há anos mandou fazer a partir de um crânio da Palestina do séc. I. É irrelevante a imagem que Jesus teria mesmo (há toda uma teologia e prática sobre o outro ser a imagem de Deus). Mas por isso mesmo não deve ser adocicada.


O que interessa é mesmo Jesus. “O modelo de vida cristão é pura e simplesmente Jesus de Nazaré como o Messias, o Cristo, o Ungido e Enviado de Deus. Na vida e na morte, o fundamento da autêntica espiritualidade cristã é Jesus Cristo, um desafio vivo para a nossa relação com os homens e com o próprio Deus” (…), escreve Anselmo Borges.

Às vezes parece que isto fica esquecido, mesmo em discursos dos mais altos responsáveis da Igreja - o que constitui uma crítica terrível.

Anselmo Borges: Religiões proféticas



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Continuo a reflexão da semana passada sobre as religiões mundiais. Hoje, sobre as religiões proféticas, abraâmicas, monoteístas.

Em primeiro lugar, o judaísmo. Quantos cristãos se lembram de que Jesus era judeu e de que os primeiros discípulos também? Não se pode esquecer o que há de comum entre judaísmo e cristianismo. Também o cristão acredita em um só Deus, o Deus criador e consumador do mundo e da história, em quem o homem pode, com razões, pôr a sua confiança. Também aceita a Bíblia Hebraica ("Antigo Testamento") e reza os Salmos. Também o cristão está vinculado por uma ética da justiça e da promoção da paz, na base do amor de Deus e do próximo. Como disse Thomas Mann, referindo-se aos Dez Mandamentos, eles são "manifestação fundamental e rocha da decência humana", "o ABC da conduta humana".

Há hoje 1300 milhões de muçulmanos, seguindo o Profeta Maomé, que está na base do islão. Como os judeus e os cristãos, os muçulmanos crêem num só Deus, o criador misericordioso, providente e juiz da História. Mas, enquanto para os judeus o centro é constituído por Israel como povo e terra de Deus e para os cristãos central é Jesus Cristo como Messias e Filho de Deus, esse centro para os muçulmanos é o Alcorão como palavra e livro de Deus. Ele é o livro vivo e sagrado para os muçulmanos em todo o mundo. Nele, encontram o seu modelo de vida, de que fazem parte os chamados cinco pilares do islão: acreditar que Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta; rezar cinco vezes ao dia; auxiliar os pobres; jejuar durante o mês do Ramadão; ir em peregrinação a Meca uma vez na vida.

E o modelo cristão? O fundamento da espiritualidade cristã não se encontra em dogmas por vezes incompreensíveis ou em sublimes mandamentos morais nem numa grande teoria ou num sistema eclesiástico. O modelo de vida cristão é pura e simplesmente Jesus de Nazaré como o Messias, o Cristo, o Ungido e Enviado de Deus. Na vida e na morte, o fundamento da autêntica espiritualidade cristã é Jesus Cristo, um desafio vivo para a nossa relação com os homens e com o próprio Deus, orientação e critério para mais de 2 mil milhões de seres humanos em todo o mundo. Cristão é aquele ou aquela que na sua vida e também na morte se esforça por orientar-se na prática por este Jesus Cristo e o seu Evangelho do Reino de Deus. A cruz só se entende à luz da sua vida e dos conflitos que criou. Mas os cristãos são transportados pela convicção de fé de que a sua morte não foi o fim: a ressurreição significa que Jesus está em Deus, que morreu não para o nada, mas para a Realidade mais real, isto é, foi recebido na vida eterna de Deus. Ele é, assim, o modelo cristão de vida em pessoa.

Logo a partir desta experiência existencial resulta que nenhuma religião se pode considerar como a única via de salvação. Quem poderia reclamar esse privilégio? Pelo contrário, percebe-se que as religiões, agora do ponto de vista teológico, em vez do confronto precisam de entrar no diálogo, corrigir-se e enriquecer-se mutuamente, colaborar.

Como conclui Hans Küng, podemos aprender uns com os outros, não apenas tolerar-nos, mas cooperar; temos o direito de debater sinceramente sobre a verdade: ninguém tem o monopólio da verdade, embora isso não signifique renunciar à confissão da verdade própria - "diálogo e testemunho não se excluem"; cada um deve seguir o seu caminho comprovado, mas conceder que os outros podem encontrar a salvação através da sua religião; vendo as coisas de fora, há diferentes caminhos de salvação, diversas religiões verdadeiras, mas, a partir de dentro - por exemplo, "para mim como cristão crente", só há uma religião verdadeira: a minha; a atitude ecuménica significa ao mesmo tempo "firmeza e disposição para o diálogo": "para mim pessoalmente, manter-me fiel à causa cristã, mas numa abertura sem limites aos outros."

Não há verdade abstracta. Por um lado, Deus revela-se na história. Por outro, a pessoa religiosa relaciona-se com o Divino pela mediação histórico-concreta de uma tradição religiosa particular.

sexta-feira, 4 de março de 2011

4 de Março de 1678. Nasce Vivaldi


Antonio Vivaldi, o músico das “Quatro Estações”, nasceu no dia 4 de Março de 1678, em Veneza, e morreu no dia 28 de Julho de 1741, em Viena. Era conhecido por “il petre rosso”, “o padre ruivo”.

Compôs mais de setecentas obras, mas sobre ele persiste uma frase-assassina de Stravinsky: Compôs um único concerto repetido centenas de vezes. Curiosamente, o mesmo Stravinsky afirmou que este compositor italiano descoberto em meados do séc. XX seria especialmente apreciado no século XXI.

Oração de Malebranche: Senhor, não te esqueças de mim


Senhor, não te esquecerás dos meus problemas quando eu trato dos teus.
Não os esqueceste, mesmo quando eu não atendia aos meus nem aos teus;
mesmo quando eu arruinava os meus negócios e adiava os teus.


Quantas vezes derrubei o que tinhas edificado!
Quantas vezes profanei o que tinhas santificado!
Muitas vezes adiei a conclusão da tua obra.


Eis-me na tua presença, consciente dos males que causei.
Ponho-me nas tuas mãos como um instrumento pronto a seguir todos os teus
movimentos. Ensina-me a reparar as desordens e dá-me a honra de me empregar nos
serviços da tua casa. Anima-me com o teu espírito, ilumina-me e fortalece-me.

Nicolas Malebranche (1638-1715)
(espantosa oração do padre filósofo criador do ocasionalismo)

José Luis Cortés sugere a Bento XVI um livro que muito provavelmente o Papa não lerá


Ultimamente tenho copiado para este blogue alguns desenhos de José Luis Cortés. Muitos outros podem ser vistos aqui. Há novos todos os dias.

Conheci o autor algures no final dos anos 80 do século passado. Um colega de estudos era superfã, tinha um exemplar do único livro publicado em português e mais alguns que mandava vir de Espanha. E imitava o seu traço nos desenhos, cartazes, autocolantes que fazia (tinha e tem muito talento, talvez subaproveitado). O único livro em português era “Que bom teres vindo”, uma ilustração dos evangelhos nas edições Conhecer - das quais não conheço nenhum outro livro.

Dessa altura ficou-me uma frase que dizia assim: “A Igreja existe para a nossa alegria e não para nos causar dores de estômago”. Esta frase de Cortés ajudou a formar a minha eclesiologia, sempre relativa e provisória. Fui agora à procura do livro e confirmei que não só a frase não diz o que escrevi, como não é de Cortés (embora seja sobre a sua teologia).

A frase diz: “Jesus veio salvar e não pôr-nos úlceras no estômago”. E é de Bernardino M. Hernando, que assina o prólogo da obra. Mas se resgatei das estantes um livro de 1978, publicado em Portugal em 1980, foi porque queria confirmar outro dado. Cortés, de nome completo José Luis Cortés Salinas, é padre. Há dias, um amigo que às vezes lê este blogue dizia-me isso mesmo. Mas eu precisava de confirmar. Foi ordenado na Páscoa de 1975.

Ora (isto tudo só para chegar aqui), o padre Cortés escreve hoje uma carta aberta a Bento XVI. Reconheço que alguns ficarão assustados com o teor e não passarão das primeiras linhas:
Não tenho o gosto em conhecer-te pessoalmente, porque das vezes que vieste a Espanha (e ultimamente vens muito a Espanha), não corri a vitoriar-te, e quando estive em Roma, nunca coincidimos em nenhum restaurante. Talvez se algum dia me chamares a Roma possamos finalmente ver-nos cara a cara.
A carta tem como pretexto principal um livro acabado de sair. Cortés gostou muito e quer recomendá-lo ao Papa: “Padres casados. História de fé e ternura” (edição MOCEOP):
[O livro] recolhe as histórias e os testemunhos pessoais, pessoalíssimos, uns mais literários, outro mais descarnados, alguns objectivos e outros sumamente íntimos, de 23 homens e algumas mulheres (suas esposas) que, em certo momento das suas vidas, decidiram continuar o seu ministério como pessoas casadas, sem deixar por isso de sentir-se padres, quer dizer, “animadores da fé e das celebrações”. Demonstra, com os factos, que “é possível ser padre sem ser clero”.
O livro não é contra o carisma do celibato. É contra a disciplina que o torna obrigatório, conferindo determinado perfil aos que animam comunidades e presidem à Eucaristia (condição sem a qual não há comunidades cristãs). A carta, essa, termina assim, depois de afirmar que Bento XVI tem dado “demasiado espaço aos fanáticos, aos carreiristas, aos receosos, aos tarados” (e no que se segue, julgo que todos concordarão):
Se outro mundo é possível, como cremos firmemente, também é possível outra igreja. 
Um abraço, Santidade (ou “Santi”, se preferires).
A carta está aqui.

Perdoar ao cristianismo


O meu pai contou-me a história do carpinteiro de Nazaré, que foi morto pelos ricos, e dizia frequentemente que podemos perdoar muitas coisas ao cristianismo porque ensinou a amar as crianças.

Eleanor Marx (1855-1898), filha de Karl Marx

quinta-feira, 3 de março de 2011

3 de Março de 1983. Morre Hergé, criador de Tintin


O belga Georges Remi, mais conhecido por Hergé (a partir da leitura, em francês, de RG, as iniciais trocadas), nasceu no dia 22 de Maio de 1907 e morreu no dia 3 de Março de 1983.

A primeira aventura de Tintin, “Tintin no país dos sovietes”, apareceu em Janeiro de 1929 no “Le Petit Vingtième”, o suplemento infantil do jornal católico belga “Le XXe Siècle”.

O director da publicação, o padre Norbert Wallez, pedira a Hergé que criasse um herói para os jovens. Católico, naturalmente. Surgiu Tintin, o repórter que viaja pelo mundo desmascarando vigaristas e resolvendo enigmas, sem nunca escrever uma notícia.


Está para breve, um filme de Steven Spielberg e Peter Jackson sobre Tintin. “Tintin e o segredo do Unicórnio” está prometido para corrente ano.

Sermão para mim próprio: "Não foi em teu nome que profetizámos?"


Uma amiga do blog Levantai-vos! desafiou-me a dizer o que penso dos evangelhos do domingo seguinte. Inicialmente o desafio não era bem este, mas acabou assim formulado. Começo hoje a dizer o que penso do evangelho que os católicos escutam na missa do domingo seguinte. Não sei se o farei todas as semanas. É um compromisso que tentarei cumprir à quarta ou quinta-feira. São os sermões para mim próprio.

“Senhor, Senhor! Não foi em teu nome que profetizámos, em teu nome que expulsámos os demónios em teu nome que fizemos muitos milagres?” (de Mt 7,21-17)


A resposta é: “Não vos conheci”. Escusava de ser tão ingrato. Mas é que pode tudo ter sido feito no nome do Senhor sem ter sido feito na “vontade” do “Pai que está no Céu”. É um sério aviso para todos os que têm títulos, fazem parte de denominações e confissões, andam com o credo na boca ou coleccionam sacramentos. É que até milagres podem (podemos) fazer na falsidade. E têm abundado os tristes exemplos das vidas duplas. O título não dá garantia.

Noutro ponto, Jesus diz que pelos frutos se vê a árvore, o que quer dizer que, para mais em tempo de engenharia genética, de OGM, e de viveiros especializados em criar árvores pequenas que dêem grandes frutos, o que interessa mesmo é o fruto, não o título. Ninguém pergunta à repositora da frutaria pelo tamanho da macieira quando compra um quilo de maçãs.

Com o bem, é a mesma coisa. Interessa mais o bem bem feito (não há nenhuma palavra a mais) do que o título de quem o faz. Por isso é que há mais cristãos do que os que foram baptizados. Por isso é que há muitas moradas no reino dos céus.

E como não ser apanhado em falso quando se diz “Senhor, Senhor”, já que religião é dependência e todos desejamos genuinamente ser dependentes do Senhor realmente Senhor?

Aqui, a reposta já não está nos frutos, que se vêem, mas nas raízes, que não se vêem. Nos alicerces da casa. A casa que não cai é a que está fundada sobre a rocha. Isso é que é construir com qualidade e garantia contra os lobos maus. Essa é a guerra preventiva no interior de nós próprios que temos de levar a cabo.

A crise que nós, cristãos, estamos a viver tem raízes sociológicas e culturais muito concretas, mas obriga-nos a rever os alicerces e a observar sobre que bases estamos a construir a nossa vida cristã. 
Talvez não tenhamos enraizado o nosso cristianismo sobre o alicerce sólido do evangelho, mas sobre costumes, modas e tradições, nem sempre muito de acordo com a verdade do evangelho. 
Quisemos apoiar a nossa religião na segurança das nossas fórmulas e no rigor da disciplina, mas talvez não nos tenhamos preocupado demasiado em procurar a verdade do evangelho. 
Vivemos muitas vezes demasiado atentos aos códigos, rubricas, normas e prescrições, e não aprendemos a confrontar a nossa própria responsabilidade e os riscos da liberdade cristã. 
José Antonio Pagola, pág. 77 de “O caminho aberto por Jesus”

Índice do novo livro do Papa

O primeiro volume de “Jesus de Nazaré”, de Joseph  Ratzinger / Bento XVI falava do “Jesus histórico” do início da vida pública à Transfiguração. O terceiro vai falar dos inícios, do nascimento (Evangelhos da Infância, isto é inícios de Mateus e Lucas) aos começos da vida pública. O segundo fala da paixão, morte e ressurreição. Pelo que pude coligir (daqui a dia veremos se os títulos estão correctos), as matérias estão distribuídas por nove capítulos e um apêndice:

1. Entrada em Jerusalém e purificação do Templo
2. Discurso escatológico de Jesus
3. Oração sacerdotal
4. Lava-pés (a parte sobre a traição de Judas já foi divulgada)
5. Última Ceia (já é conhecida a parte sobre a questão da data)
6. Oração de Jesus no horto das Oliveira
7. O processo de Jesus (já divulgada a parte sobre o episódio de Jesus diante de Pilatos)
8. Paixão e morte
9. Ressurreição
Epílogo sobre a Ascensão

Três excertos do segundo volume de Bento XVI sobre Jesus de Nazaré

O segundo volume de Joseph Ratzinger / Bento XVI sobre Jesus de Nazaré vai ser lançado mundialmente no dia  10 de Março. No dia 11 em Portugal, pela Principia. O "Público" disponibiliza três grandes excerto da obra. Um sobre a traição de Judas, outro sobre Jesus diante de Pilatos e um terceiro sobre a data da Páscoa/morte de Jesus, que não coincide entre e evangelista João e os sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas). Os textos podem ser lidos aqui.

"Não se preocupem"


Contra a imposição, todos os dias, de um tributo de rotinas e obrigações – como impunham os tributos de menta e ruda –, Cristo pregou a imensa importância de viver inteiramente para o momento.

Oscar Wilde (1854 – 1900)

quarta-feira, 2 de março de 2011

2 de Março de 1810. Nasce Leão XIII

Nasceu Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi, no dia 2 de Março de 1810, e morreu Leão XIII, no dia 20 de Julho de 1903. Foi Papa de 20 de Fevereiro de 1878 até à data da sua morte.
Leão XIII foi o grande Papa do século XIX, o Papa do desanuviamento, da abertura às classes operárias ("Rerum novarum"), da reconciliação com o mundo depois da perda dos Estados Pontifícios, das bases da Democracia Cristã. E um Papa que aparece a sorrir em quase todas as fotos.

Silêncio beneditino e outras expressões


Há a “pobreza franciscana”, o “rigor calvinista”, a “paciência de Job”, o “lamento de Jeremias”... Hoje ouvi falar do “silêncio beneditino”. Então e os jesuítas? Os carmelitas? Os dominicanos? Os salesianos? Os combonianos? Os Opus Dei? Os Arautos do Evangelho? Eu dou umas dicas. Espero que os meus amigos em todas estas organizações (quase escrevia “confissões”) não fiquem zangados. Como diz a nona bem-aventurança, “felizes os que riem de si próprios, porque é deles o reino do humor de Deus”.

As minhas propostas:

Dominicanos
a) curiosidade dominicana
b) inveja dominicana
c) eloquência dominicana

Salesianos
a) jovialidade salesiana
b) humor salesiano
c) engenho salesiano

Carmelitas
a) humildade carmelita
b) elitismo carmelita
c) presunção de carmelita

Combonianos
a) cassete comboniana
b) optimismo comboniano
c) barbas combonianas

Jesuítas
a) omnipresença jesuítica
b) autoconfiança de jesuíta
c) ginástica inaciana

Opus Dei
a) profissionalismo de Opus Dei
b) antecipação à Opus Dei
c) segredo de Opus Dei

Arautos do Evangelho
a) mau gosto de Arauto
b) botas de Arauto
c) intromissão de Arauto.

Óscares: Ganhou o cinema espiritual



Um artigo publicado no Religión Digital diz que este ano foi o ano da “recuperação do cinema espiritual” (aqui). É certo que “Dos homens e dos deuses” (sobre os monges assassinados na Argélia) nem sequer estava entre os nomeados para Melhor Filme Estrangeiro, mas “O discurso do rei” (quatro estatuetas, incluindo a de melhor filme) mostra que, “a partir da fraqueza, o ser humano pode transcender as suas possibilidades e assumir compromissos que parecem impossíveis”.

“Indomável”, dos irmãos Coen, não concretizou nenhuma das 10 nomeações, mas, realizado pelos dois irmãos judeus (não há nome mais judeu do que Coen / Cohen), mostra como é a natureza humana que enfrenta o lado obscuro do desejo de vingança “desde uma perspectiva profunda que assume a culpa e se abre ao futuro com confiança”. “Abre-se (…) à presença de Deus que nos cuida e acompanha na mediação dos outros”.

O óscar de Melhor Filme Estrangeiro foi para o dinamarquês “Num Mundo Melhor” (“In a better world”; estreia em Março no Brasil e em Abril em Portugal), de Susanne Bier. “A realizadora dinamarquesa, que foi acusada de forma injusta de anti-islâmica pelo governo do Sudão, apresenta-nos o drama humano geral dentro de um drama particular. Um médico colaborador solidário na África enfrenta o dilema de ajudar o seu filho no seu próprio país, renunciando à violência e avançando pelo caminho de uma dolorosa reconciliação”.

O artigo pode ser lido em português aqui.

Jesus foi judeu desde que nasceu

Uma novidade no "Correio da Manhã" do domingo passado: "Jesus foi judeu desde que nasceu". A entrevista pode ser lida na íntegra aqui, mas cuidado. César Vidal pode ser um bom historiador e até saber grego, mas é um péssimo intérprete do Novo Testamento. O que diz na entrevista on-line está cheio de erros e generalizações indevidas se tivermos em conta os actuais estudos bíblicos (católicos, protestantes e, em menor grau, provenientes dos evangélicos; César Vidal é evangélico) sobre Jesus.

Contra a fatalidade


Todos os sábios, até àquele momento, meditavam sobre o destino, sobre a necessidade confundida com a razão. Ele, o Cristo, o contrário do destino, Ele, a liberdade, a criatividade, a vida. Ele libertou a história do peso da fatalidade.

Roger Garaudy 

terça-feira, 1 de março de 2011

1 de Março de 2006. Bento XVI renuncia ao título de “Patriarca do Ocidente”

O título de “Patriarca do Ocidente” figurou no “Anuário Pontifício” até 2005. Em 2006 já não apareceu. Bento XVI renunciou a ele, no que foi interpretado como um “sinal de sensibilidade ecuménica” em relação aos ortodoxos.

Os Patriarcas do Oriente são os de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, cidades de onde irradiou o cristianismo (como Lisboa, que por isso é patriarcado). Antes do cisma ortodoxo, reconheciam a primazia do Bispo de Roma.

Agora, o Papa é Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo Metropolita da Província Romana e Soberano do Estado da Cidade do Vaticano.

Charro arrependido


Criticando as “cruzadas dos americanos”, a “intifada puritana sobre a intimidade dos políticos”, e a tirania do marketing sobre quem faz política, Henrique Raposo diz no “Expresso” que há hoje um “confessionário do charro”: “Político-que-é-político tem de dizer que fumou um charrinho na juventude”. “(…) O nosso Eça falava num «pensativo cigarro». Ora eu acho que podemos usar a expressão «charro arrependido» para descrevermos esta tontice dos gringos”. Os meus negritos realçam a semântica religiosa do cronista.

Os avanços da ciência condenarão a Igreja a um papel menor na sociedade?

O "Expresso", no seu número 2000, perguntou a várias pessoas como será o mundo em 2049. Tolentino Mendonça respondeu sobre sobre ciência e Igreja. A resposta vale para qualquer época.

A invenção impossível


Uma origem tão humilde para um fundador não se inventa. As sagas não pintam quadros de miséria, muito menos os mantêm durante toda uma vida. O presépio, o filho do carpinteiro, o visionário que se move entre gente da ralé, o patíbulo final… tudo isso é feito de material histórico, não com o material dourado tão querido da lenda.

Ernst Bloch (1885-1977)

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...