quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A velha ideia da felicidade interna bruta

Há um novo partido em Portugal. É o PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza. Todos os partidos devem ser pela natureza e pelos animais, incluindo o ser humano, por isso é um pouco insólito um partido como este. Aliás, os direitos dos animais e da natureza só se entendem como deveres do ser humano e não como direitos em sentido estrito.

O PAN quer que as despesas com medicamentos, cuidados veterinários e alimentação dos animais de estimação sejam deduzidas no IRS (por causa das pessoas que só têm como companhia animais de estimação), o que tem algo de descabido e de pouco justo, socialmente, na minha perspectiva. Quanto ao dia vegetariano por semana, até pode ser uma proposta útil. Mas é preciso um partido para isto?

Por outro lado, afirma Paulo Borges no “Público” (a entrevista pode ser lida no sítio da organização, aqui) que
já se tem falado que talvez o mais importante não seja o produto interno bruto, mas a felicidade interna bruta. Foi o primeiro-ministro do Nepal que surgiu com esta ideia e nós achamos muito interessante.
De facto, tem-se falado esporadicamente, nos últimos tempos. Há meses, até o Sarkosy falou disso (ver notícia aqui). Mas a ideia já é velhinha. António Alçada Baptista explicou-a nas páginas de “A Capital de 25 de Julho de 1972”. Na altura, o holandês Sicco Mansholt (que viria a ser presidente da Comissão Europeia) havia proposto a Franco Maria Malfatti (presidente da Comissão Europeia, de 2 de Julho de 1970 a 1 de Março de 1972) que à noção de PNB (produto nacional bruto) fosse preferida a de BNB (“bonheur” – felicidade nacional bruta). Uma “felicidade bruta” parece uma contradição nos termos. De qualquer forma, é uma ideia com quatro décadas de idade.

Não aprova a confissão por iPhone, não


Notícia do "i" de hoje, obviamente incorrecta. A Igreja não permitiu e nunca vai permitir confissões por telefone. Não há tele-sacramentos. Os sacramentos - como a confissão - são sempre presenciais. Permite-se, sim, usar o telemóvel para fazer o exame de consciência - suponho que seja isso. O telemóvel ou outra coisa qualquer.

O sacramento em questão, que é confissão quanto ao processo, penitência quanto à consequência, e reconciliação quanto à finalidade, exige a presença de um ministro que represente a Igreja para absolver em nome de Deus.

Um esclarecimento sobre Germán Doig

Um leitor deste blogue diz que, no caso de Germán Doig, vigário geral do Sodalício de Vida Cristã, falecido no dia 13 de Fevereiro de 2001, não se trata de “abuso de menores”, como aqui escrevi. Sugere o leitor que se leia o comunicado em www.noticiasdelsodalicio.com.

O comunicado fala de “inconductas sexuales”, mas precisa que “en ningún caso se trató de abuso de niños”.

Algumas notícias referiam “relações sexuais com dois jovens” (aqui) e isso levou-me a falar de “abuso de menores”. De facto, podem ser jovens sem serem menores. Ou nem sequer se tratar disso. Ao certo, a partir do comunicado e de outras fontes credíveis, o que sabemos é que não se trata de pedofilia.

Alguém faça algo de religioso


Esta é de Timothy Radcliffe OP, na página 149 de “Ir à Igreja porquê?”:
Estava um avião prestes a despenhar-se e alguém gritou: «Por amor de Deus, que alguém faça algo de religioso». E, logo, um católico saltou e fez uma colecta.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Deus não é mesmo cristão. Felizmente"

No P2 de hoje vem uma entrevista a Elias Chacour, arcebispo católico-melquita da Galileia, feita por António Marujo. É útil para compreender o que se passa com os cristãos e os palestinianos em Israel, já que as informações que de lá nos chegam quase sempre sofrem na passagem do filtro ideológico anti ou pró-Israel. Deixo alguns excertos que apreciei de modo especial. A entrevista pode ser lida toda aqui. Como dentro de algum tempo fica inacessível, está também nas imagens ao fundo.

(…) Deus não é melquita nem católico nem ortodoxo?
Até diria mais: Deus não é mesmo cristão. Felizmente. Senão, que cristão seria? Um cristão reformado, re-reformado ou ainda não reformado? Deus está acima disso. (…)

Os católicos, em Israel, são árabes mas não muçulmanos, israelitas mas não judeus, católicos mas não de rito latino, orientais mas não ortodoxos. Minoritários em tudo...
Sim, mas se perdermos o tempo a perguntar o que não somos, será uma existência muito triste. Se perguntarmos o que podemos fazer no interior desta grande diversidade, em vez de ver o negativo, começamos a ver o potencial. É belo ser diferente mas complementar. (…)

A questão, em 1940, não foi a de criar dois estados, no início?
Ninguém pensava em dois estados. Ninguém pensava mesmo no Estado de Israel. Israel expulsou os palestinianos das suas cidades, das suas terras e propagandeou que os palestinianos não existiam. Mas nós estávamos cá, eles preferiram ser míopes. Há a famosa frase de Theodore Herzl: "Uma terra vazia deve pertencer a um povo que não tem Estado." A assistente dele disse-lhe que a Palestina era superpovoada. Ele respondeu: "Devemos ser míopes, fazer como se não houvesse ninguém". (…)

Não há líderes comprometidos com a não-violência?
Os líderes que podem representar os palestinianos estão na prisão, seja nas prisões árabes, seja nas prisões israelitas. Não nos faltam líderes, falta-nos liberdade para que os líderes possam agir, falta liberdade de expressão dos palestinianos.

Falta uma figura como Mandela, Gandhi, Luther King, Desmond Tutu?
Talvez. São figuras de referência. Uma vez, estive com Tutu, num jantar com o [então] Presidente [norte-americano James] Carter. Ele disse-me subitamente: "Padre Chacour, tenho muito mais sorte que o senhor, porque sou um negro da África do Sul. Os brancos não queriam expulsar-nos, queriam que fôssemos seus escravos e nós recusámos. A vocês, Israel não queria que vocês fossem os seus escravos, queria que desaparecessem. Por isso temos mais esperança". E ele tinha razão. (…)

Na Igreja Melquita, há pessoas casadas que se tornam padres...
A nossa é uma igreja oriental, bizantina. Estamos em comunhão com Roma. Mas temos 17 padres, num total de 30, que são casados. São muito bons, muito dedicados. Sinto-me muito orgulhoso deles.

Num dos seus livros, diz que o seu ideal é secar as lágrimas a cada judeu, cada muçulmano, cada cristão. Continua a ser?
Desejo verdadeiramente não ver nenhum judeu, nenhum muçulmano ferido ou a chorar. Porque quem chora é um homem, que é imagem de Deus. Queria colocar um sorriso no lugar do medo, um sorriso de esperança no lugar do desespero.

E essa esperança é possível ainda? Em breve?
Claro que sim. Espero que o mais cedo possível.


8 de Fevereiro de 1949. O cardeal húngaro Mindszenty é condenado por traição ao governo comunista

Jószsef Mindszenty e guardas em 1956

Jószsef Mindszenty (1892-1975), húngaro, bispo desde 1944, primaz da Hungria, e cardeal desde 1946, foi prisioneiro dos nazis por se ter mostrado contrário ao regime e ter colaborado na fuga de judeus, e condenado pelo regime comunista da Hungria, no dia 8 de Fevereiro de 1949, por ter conspirado contra o governo. Entre as várias acusações que pesavam sobre o cardeal estavam o plano para roubar as jóias da coroa de Santo Estêvão (fundador da Hungria, no ano 1000) e a conspiração com americanos para desencadear uma III Guerra Mundial de forma a afastar os comunistas do poder na Hungria.

Mindszenty foi libertado na Revolução Húngara de 1956 e pediu asilo à embaixada dos EUA. Viveu na embaixada até 1971. Passou os últimos anos em Viena. Consta que ao deixar a Hungria disse: “A pretensão de construir um mundo sem Deus será sempre ilusória; e isso levará somente ao reforço da união da Igreja com o povo e com todos os que sofrem. Só os que tem medo da verdade temem a Cristo".

Ética bestial ou como o comportamento animal não serve para justificar o humano

O comportamento animal não serve para justificar o humano. Mesmo que sejamos animais, a ideia de humano continua válida. E não é preciso parar onde diz: "Proibida a entrada a animais", embora sejamos os únicos que sabem ler. A reflexão do sr. padre é pertinente.

Noite escura


Por muito que a fé seja profunda, ou provavelmente por isso mesmo, não se evita a “noite escura da alma”, como os mais ou menos místicos bem sabem, de João da Cruz a Teresa de Calcutá. Por isso, Teresa de Ávila afirmou: “Se assim tratais os vossos amigos, não admira que tenhais tão poucos!”

As obras das tuas mãos


Grande é o nosso Deus,
grande é o seu poder
e a sua sabedoria é infinita.
Louvai-o, ó céus!
Louvai-o, Sol, Lua e planetas,
na língua que vos foi dada
para louvar o vosso Criador.

E também tu, minh’alma, canta,
canta o mais que puderes
a honra do Senhor.

Dele e para Ele são todas as coisas,
mesmo as que ainda
nos são desconhecidas
e as que já conhecemos.

A Ele Louvor, Honra e Glória
pelos séculos dos séculos.

Johannes Kepler (1571 - 1630)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

7 de Fevereiro de 1878. Morre Pio IX


Pio IX morreu no dia 7 de Fevereiro de 1878. Foi Papa durante 31 anos, desde 16 de Junho de 1846 – o pontificado mais longo da história depois do de São Pedro.

Com a reunificação de Itália, o Papa perdeu os Estados Pontifícios e ficou confinado ao Vaticano e pouco mais. Por causa disso, mal com os novos poderes de Itália, declarou-se “prisioneiro no Vaticano” e proibiu os católicos de votar nas eleições do reino italiano. Este problema, conhecido como a “Questão Romana”, só foi resolvido em 1929, no tempo de Mussolini, com os Tratados de Latrão.

Entrevista a Anselmo Borges na "Pública": A religião oprime quando impede a alegria a nível sexual

Entrevista de António Marujo a Anselmo Borges, na "Pública" de 06 de Fevereiro de 2011.








Como concentrar-se na oração

Herbert McCabe, um dominicano que viveu entre 1926 e 2001 (vi na Wikipedia), muito citado por Timothy Radcliffe, escreveu que “as pessoas em barcos naufragados se queixam de muitas coisas, mas não de distracções durante as suas orações”. 

É um bom tema de meditação para os que se distraem na oração. Nós, os comuns mortais.

Ratzinger era dador de órgãos, isto sim, é uma novidade


Pela notícia do "Correio da Manhã" de ontem (06-02-2011), em cima, ficamos a saber que o actual Papa não tem hipóteses de ser santo: "Órgãos do Papa seriam relíquias caso fosse santificado". Se assim é, não se justifica a proibição do Vaticano. E mais uma imprecisão: trata-se de uma precaução eclesial e não propriamente do Vaticano. E não, tal gesto não vai contra a vontade do Papa. É ridículo dar a entender, pelo menos neste caso, que há um conflito.
Pelo comentário do mesmo jornal, em baixo, ficamos a saber que o Vaticano calou uma campanha de um médico alemão. Obviamente não foi nada assim.
Na realidade até se compreende a prática eclesial. Eu não aprecio nada a questão das relíquias. Acho-a dispensável na fé cristã. Mas sabendo que outros não pensam o mesmo, parece-me prudente que um Papa não seja dador de órgãos.
Com isto tudo ficamos a saber que Ratzinger era dador de órgãos. Ora cá está uma notícia simpática. E não se perde nada da exemplaridade de tal atitude com a suposta proibição vaticana.

Uma personagem que não se pode deixar matar pela teologia


Heiner Geissler, no livro “O que diria Jesus hoje?” (aqui elogiado por Anselmo Borges), afirma que não tem a pretensão de acrescentar mais texto aos cem mil livros sobre a Bíblia, nos quais conceitos como “Trindade”, “justificação” e “transubstanciação” se transformaram num “labirinto religioso impenetrável para o leigo”, nem aos dez volumes do “Comentário Teológico da Herder sobre o Novo Testamento” ou aos três volumes do comentário ecuménico sobre o Evangelho de Lucas. E deixa uma observação que deveria estar escrita no início de cada livro de teologia:
Provavelmente, a personagem principal dos Evangelhos teria ela própria dificuldade em orientar-se neste labirinto de conceitos teológicos. Contudo, a sua mensagem é tão esplêndida e convincente que não se deve deixar matar pela teologia.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

6 de Fevereiro de 1452. Nasce Joana de Portugal, venerada como santa

Joana de Portugal. Quadro da Escola de Nuno Gonçalves. Está no Museu de Aveiro

Joana de Portugal, filha de Afonso V e Isabel, nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1452 e morreu no dia 12 de Maio de 1490. Até nascer D. João II, em 1455, foi a herdeira da coroa de Portugal. Em 1471, durante a expedição do seu pai, “o africano”, a Tânger, foi regente do reino.

Tendo recusado várias propostas de casamento, Joana fez-se dominicana em Aveiro, a sua “pequena Lisboa”, escolhida por ser terra pobre, diversas vezes acossada pela peste devido à estagnação das águas da Ria, quando o canal de ligação ao mar ainda não estava regularizado.

Na realidade, Joana nunca chegou a fazer votos devido à sua condição de potencial herdeira do trono. Morreu aos 38 anos. Foi beatificada em 1693 e é a padroeira de Aveiro. Apesar de não ter sido canonizada, é venerada como santa.

Por que não responde Deus à oração?


História que Timothy Radcliffe conta em “Ir à Igreja porquê?” (pág. 138) para percebermos que talvez as nossas orações sejam ouvidas. Nós é que, muitas vezes, nem sequer damos por isso.
Num bar, no Alasca, um homem estava a ficar bêbedo. Afirma que já cortou com Deus. O seu avião despenhara-se. Enterrado na neve, viu-se prestes a morrer e rezou a Deus para que o salvasse, mas Ele não o fez. Por isso, sente-se totalmente decepcionado. O empregado do bar disse-lhe, então: «O quê?! Mas você está aqui, salvo!» Ele acrescentou: «Ah, isso deve-se a um esquimó que apareceu por lá».

Bento Domingues: Educação, ciência e religião

Texto de Bento Domingues no "Público" de 6 de Fevereiro de 2011. "Para dialogar é preciso que cientistas e teólogos se escutem e interpelem mutuamente".

Preceito dominical


Copiado daqui (06.02.11).

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Novo caso Maciel? Novo escândalo

João Paulo e Germán Doig

Diz-se que há um novo caso Maciel Degolado, o fundador dos Legionários de Cristo que vida dupla e tripla. Dupla porque, sendo padre católico celibatário, teve filhos. Tripla porque abusou de seminaristas.

Agora diz-se que um dos líderes máximos do Sodalício de Vida Cristã (há pouca informação disponível sobre esta organização - a região brasileira tem sítio aqui), Germán Doig, um leigo consagrado, também tinha vida dupla. Surgiram três “graves acusações” que evidenciam uma vida dupla. Mais uma vez, abuso de menores.

Os processos preliminares para declarar sua vida exemplar, a caminho da beatificação, foram encerrados.

Germán Doig Klinge (1957-2001), peruano, coordenou o Sodalício de Vida Cristã (um sodalício é uma sociedade de pessoas que vivem juntas),  “nova realidade eclesial com crescimento elevado”, dizia a agência Zenit (aqui), desde 1985. A organização está presente no Peru, Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Costa Rica, Equador, Estados Unidos e Itália.

A confirmarem-se as notícias, aliás, parecem mais que confirmadas, é mais um motivo para a Igreja avaliar bem os fenómenos de crescimento rápido, geralmente de sinal conservador. Mais do que lamentável.


(Nota de 9 de Fevereiro de 2011) Sobre esta questão, ver esclarecimento aqui.

Anselmo Borges: Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É a primeira vez que se celebra, de 1 a 7 de Fevereiro, a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa, na sequência de uma Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, tomada por unanimidade no dia 20 de Outubro de 2010 e proclamando precisamente a primeira semana de Fevereiro de cada ano a "World Interfaith Harmony Week" (Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa), semana da harmonia entre todas as religiões, fés e crenças. A sua adopção seguiu--se a uma proposta do rei Abdullah II da Jordânia, no dia 23 de Setembro de 2010.

A Assembleia Geral fê-lo, lembrando várias resoluções e declarações suas anteriores, todas no sentido da promoção de uma cultura de paz e não-violência, compreensão, harmonia e cooperação inter-religiosa e intercultural, diálogo entre as civilizações, eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação com base na religião ou na crença, louvando múltiplas iniciativas a nível global, regional e local para a mútua compreensão e harmonia inter-religiosa, e reconhecendo, por um lado, a necessidade imperiosa do diálogo entre os diferentes credos e religiões em ordem a uma maior compreensão mútua, harmonia e cooperação entre os povos, e, por outro, que os imperativos morais de todas as religiões, convicções e credos fazem apelo à paz, à tolerância e ao mútuo entendimento.

A Assembleia Geral reafirma que a compreensão mútua e o diálogo inter-religioso "constituem dimensões importantes de uma cultura de paz" e encoraja todos os Estados a apoiar a difusão da mensagem da harmonia e boa vontade inter-religiosa em todas as igrejas, mesquitas, sinagogas, templos e outros lugares de culto durante esta semana, "fundada no amor de Deus e do amor ao próximo ou no amor do bem e do próximo, cada um segundo as suas próprias tradições ou convicções religiosas".

Na sua mensagem de 1 de Dezembro de 2010 sobre esta Semana, Jorge Sampaio, alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, depois de declarar que a Aliança procura reduzir tensões criadas por divisões culturais que ameaçam a estabilidade e a paz das e entre as comunidades e sociedades, e, por conseguinte, apoiar os esforços dos Estados, da sociedade civil e de outros actores na construção de bases de confiança e respeito entre as diversas comunidades, incluindo as religiões, saúda com entusiasmo esta Resolução das Nações Unidas. "O seu objectivo é abrangente e inclusivo, vinculando as pessoas de todas as religiões, fés e crenças." Por isso, convida os membros da Aliança das Civilizações, as organizações da sociedade civil, comunidades religiosas, escolas, universidades a informar-se sobre a iniciativa e a promovê-la.

Penso que o diálogo inter-religioso tem, como aqui tenho sublinhado, vários pressupostos. O primeiro diz que, antes de sermos religiosos ou não, somos seres humanos: une-nos a humanidade comum. Outro pressuposto essencial tem a ver com a separação da(s) Igreja(s) e do Estado e o fim da leitura literal dos textos sagrados das religiões.

Os pilares desse diálogo poderiam sintetizar-se assim: 1. Embora não sejam igualmente verdadeiras, todas as religiões são reveladas e contêm verdade. 2. Nenhuma tem a verdade toda, pois todas estão referidas ao Absoluto, mas nenhuma o possui. 3. O fundamentalismo é uma questão de ignorância ou estupidez. De facto, quem é o ser humano, finito, para ter a pretensão de possuir o fundamento? 4. O diálogo inter-religioso impõe-se pela própria dinâmica religiosa: se nenhuma religião possui a verdade toda, devem todas dialogar e exercer a autocrítica. 5. Os ateus que sabem o que isso quer dizer podem dar um contributo fundamental, já que mais facilmente se apercebem da superstição e inumanidade que as religiões podem transportar.

Tomamos cada vez mais consciência do que Hans Küng há anos vem repetindo: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial."


Nota deste blogue: Sobre a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa ver aqui

Um boneco diferente dos outros


O texto de Edson Athayde não deve referir-se a "action figure" acima. É um dos "Jesus toy" entre os milhares que há. Mas há um especial. Se quiser rir (espero que não se irrite), clique aqui.
Há uns anos, nos Estados Unidos (como só podia ser) uma companhia de brinquedos decidiu lançar um boneco concebido à imagem de Jesus Cristo.
Não fez isso intempestivamente. Estava escudada em rigorosos estudos de mercado. A partir de uma pesquisa que indicava que os pais americanos gostariam que os valores cristãos fossem melhor incutidos nos seus filhos, desenvolveram um protótipo de um boneco idêntico a Jesus. Era mais ou menos como a Barbie só que com batas e barbas.
Os pais deliraram. Que grande ideia! Agora sim, Jesus Cristo seria uma espécie de amigo dos miúdos. Seria o fim das Tartarugas Ninjas e do He-Man.
Pois bem, o boneco foi colocado no mercado. Bateu recordes de vendas. Imagino que a companhia já estava a preparar futuros lançamentos. Por que não os Três Reis Magos? Adão e Eva também poderiam ser uma boa opção, com as folhas, é claro, vendidas à parte. Mas passado algum tempo, as vendas empancaram. O boneco de Jesus estava encalhado nas lojas.
A companhia reuniu alguns dos pais que compraram o boneco e pediu-lhes para opinarem sobre o que havia de errado. E tiveram de ouvir o relato de gente horrorizada com as atrocidades que os miúdos tinham feito com Jesus. Arrancavam-lhes a cabeça, vestiam-no de combatente, casavam-no com outras bonecas e coisas assim.
Os miúdos, na verdade, nada tinham contra Jesus. Apenas não compreendiam que era um boneco diferente dos outros.
Edson Athayde, “Tempestade Cerebral”, pág. 36 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Bíblia de Abrabanel e como os jesuítas portugueses levaram o relógio para a China


Fernando Correia de Oliveira sugere-me que veja a Bíblia de Abrabanel, no Rerum Natura. Aqui. "Nesta Bíblia judaica do século XV, guardada na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, alguns versículos aparecem em microcaligrafia numa decoração labiríntica..." Leiam-se também os comentários, incluindo aquele que diz que a primeira imagem está de pernas para o ar (copiei-a para este blogue correctamente).
Já agora, de FCO, veja-se o texto sobre o papel dos jesuítas portugueses na introdução do relógio mecânico na China. Ligações aqui.

Porque Gregório XVI temia o comboio


Gregório XVI temia o comboio e o que significavam os caminhos-de-ferro (lembrei aqui há dias). Por isso, não queria deixá-los entrar (ou passar) nos territórios pontifícios, quando estes ainda ocupavam toda a cintura da bota transalpina. Comboio é movimento, mudança, desenraizamento, gente do campo para a cidade, perda de referências, ateísmo. Pensava o Papa.

Não era o único a temer o comboio. Na altura, ou talvez uns anos antes, discutia-se sobre o que aconteceria se os comboios ultrapassassem certas velocidades, tipo 30 ou 40 km/h. Desintegrava-se? Morriam todos?

Em França, um acidente do comboio Versalhes - Paris, no dia 8 de Maio de 1842, não deixa qualquer sobrevivente. Os vagões com madeira ardem como palha, matando toda a gente, o que leva Antoine Madrolle (1792-1860), impressionado com a catástrofe, a escrever uma “Théologie des chemins de fer de la vapeur et du feu” - contra o progresso.

De outro medo do comboio fala-nos Timothy Radcliffe e não é descabido pensar que Gregório XVI, um francófilo, conhecia tais teorias:
“Os sociólogos especularam sobre as propriedades mágicas das estações de caminho-de-ferro, na França do século XIX. Camponeses profundamente religiosos vinham para paria à busca de trabalho e, quando os seus pés tocavam na plataforma, deixavam de ir à Igreja. Esqueciam-se de Deus”.
Num capítulo sobre a dádiva e a gratidão, Radcliffe acrescenta que “num bairro de lata urbano, deixou de ser óbvio que tudo era uma dádiva, e a memória do Doador de todas as coisas depressa se desvaneceu” (pág. 112 de “Ir à Igreja porquê?”).

Volta!

Não! Volta
com todos os teus tormentos!
Oh, volta
para o último dos solitários!
Todos os rios das minhas lágrimas
correm em direcção a ti!
E a última chama do meu coração
ergue-se para ti”
Oh, volta,
meu Deus desconhecido!
Minha dor! Minha derradeira felicidade.

Nietzsche em “Assim falava Zaratustra”

3 de Fevereiro de 1468. Nasce Gutenberg


João Gutenberg (ou Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg), o inventor da impressão por tipos móveis, nasceu em 1398 e morreu no dia 3 de Fevereiro de 1468 em Mogúncia (isto é, Mainz), Alemanha.

Depois de testar a sua invenção numas impressões menores, reproduziu a Bíblia (de 46 linhas), em latim, a partir de uma versão da Vulgata de São Jerónimo. Começou a imprimir nos finais de Setembro de 1452.

A invenção de Gutenberg mudou o mundo, por várias razões. Um delas, religiosa, pois deu reformadores (que Gutenberg não conheceu) um óptimo meio de divulgação das suas ideias.

Lutero, nascido 31 anos depois da impressão da primeira Bíblia, disse da invenção do seu patrício: "A impressão é o último dom de Deus e o maior. Por seu intermédio, Deus quer dar a conhecer a verdadeira Religião a toda a terra e expandi-la em todas as línguas. É a chama que brilha antes da extinção do mundo".

Ver aqui uma lista do paradeiro de cada um dos 49 exemplares da primeira Bíblia impressa que ainda existem. Um deles está na Biblioteca Nacional de Lisboa.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O menino que queria dizer olá ao Papa

Veio no DN de hoje (e parece que deu nas televisões). Aconteceu na audiência de ontem. Se fosse grande, não tinha juízo. Sendo pequeno, a ternura é imensa.

Raimon Llull reabilitado

Ramon Llull (esq.) a conversar com com o  discípulo Thomas Le Myésier


O Pontifício Ateneu Antonianum de Roma afirma que as acusações que pesavam sobre o franciscano Ramon Llull (1232-1315) são infundadas, tendo publicado o livro “Da Raimondo Lullo a Nicola Eimeric. Storia di una falsificazione testuale e dotrinale”.
Ramon Llull (ou Raimundo Lúlio) foi vítima do conflito entre franciscanos e dominicanos, estes últimos dominando os aparelhos repressivos da Igreja, nomeadamente a Inquisição. Está provado que no séc. XV o inquisidor Nicolau Eimeric falsificou documentos para encontrar as centenas de heresias que disse ter encontrado das obras do leigo franciscano natural de Palma de Maiorca. Agora a canonização de Ramon Llull, venerado logo após a morte, poderá avançar (li aqui).
Ramon Llull viveu a maior parte do tempo na Catalunha e foi um precursor do diálogo inter-religioso. Defendia a conversão dos “inféis”, mas por métodos que na altura era tidos como irrealistas: o diálogo, a aprendizagem das línguas e das culturas, nomeadamente o árabe e o hebraico. Foi o primeiro a utilizar uma língua neolatina, no caso o catalão, para expressar conhecimentos teológicos e filosóficos. É considerado o pai da língua catalã.
Luísa Costa Gomes escreveu um magnífico romance sobre a vida deste franciscano da ordem terceira: “Ramón” (ed. D. Quixote, 1994). Além disso, traduziu para português a “Vida Coetânea”, uma biografia anónima escrita nos últimos anos de LLull. Está aquiFiquemos com um excerto (mas vale a pena ganhar uma hora a lê-la toda):
Chegando a Paris, no tempo em que Berthaud chanceler dos Estudos, leu na sua aula um comentário da Arte Geral, mandatado por ele. Lido o comentário e vista a organização dos escolares, Raimon voltou a Montpeller, onde leu de novo publicamente, e fez um livro a que deu o título de Arte de Encontrar a Verdade; Raimon pôs nesse livro, assim como em todos os que fez aí para a frente, apenas quatro figuras, subtraindo ou dissimulando doze das dezasseis que anteriormente apareciam na sua Arte, por causa da fragilidade do intelecto humano de que tivera experiência em Paris. E feito isto em Montpeller, partiu a caminho de Gênova, onde traduziu em árabe o dito livro da Arte Inventiva. Dirigiu depois a Roma os seus passos, desejando, como anteriormente, obter que se fundassem mosteiros em todo o mundo destinados ao ensino das diversas línguas; mas, dado o escasso êxito ali alcançado, dados os impedimentos postos pela Cúria ao seu intento, deliberou regressar a Gênova, na idéia de passar à terra dos Sarracenos, para tentar fazer sozinho alguma coisa entre eles, discutindo com os sábios e manifestando-lhes, segundo a Arte recebida de Deus, a encarnação do Filho de Deus e a beatíssima Trindade das Pessoas Divinas em suma unidade de essência, em que não acreditam os Sarracenos, que, cegos, afirmam adorarem os Cristãos três deuses.

O melhor que temos na Igreja

José António Pagola

Decorridos vinte séculos, qualquer pessoa que se aproxime interessada e honestamente da figura de Jesus, fica confrontada com esta pergunta: “Quem é Jesus?” A resposta tem de ser pessoal. Sou eu quem tem que responder. Pergunta-se-me sobre o que é que eu digo, não sobre aquilo que os concílios disseram, ao formularem os grandes dogmas cristológicos, nem sobre o que explicaram os teólogos, nem sobre as conclusões a que chegaram aos exegetas e investigadores acerca de Jesus.
(…)
O primeiro que se deve fazer é colocar a Jesus no centro do cristianismo. Tudo o resto virá depois. Que poderá haver de mais urgente e de mais necessário para os cristãos do que despertar entre nós a paixão pela identidade de Jesus? É o melhor que temos na Igreja. É o melhor que podemos oferecer e comunicar ao mundo de hoje.

José Antonio Pagola, nas páginas 481-482 de “Jesus. Uma abordagem histórica” (Gráfica de Coimbra 2, 2008)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

2 de Fevereiro de 1831. É eleito o Papa que não gostava de comboios


Gregório XVI (Bartolomueu Cappellari) foi Papa de 2 de Fevereiro de 1831 até 1 de Junho de 1846. Este Papa viveu numa época em que os Estados Pontifícios (basicamente a Itália central) foram acossados por invasões e revoltas. Várias vezes teve de recorrer ao imperador austro-húngaro para segurar as hostes. Mais tarde, no papado seguinte, o de Pio IX, aconteceria a reunificação de Itália, com a absorção dos Estados Pontifícios no novo país.

Porque temia o poder crescente da burguesia, Gregório XVI não gostava de inovações como o gás de iluminação pública ou o caminho-de-ferro. Chamava-lhe “chemin d'enfer” (caminho de inferno, na muito culta língua francesa).

Publicou a encíclica “In Supremo Apostolatus”, em 1839, contra a escravatura.

Como mudar-se a si próprio e, já agora, o mundo


O Pai-Nosso. Uma ajuda para uma vida autêntica
Anselm Grün
Paulinas
128 páginas

“Nós, cristãos, rezamos diariamente o Pai-Nosso. Mas, muitas vezes, isso é apenas uma rotina. Já não sabemos aquilo que estamos a rezar. A uns, incomoda-os os pedidos individuais que não compreendem. Para outros, as palavras tornaram-se vazias e estranhas”, escreve Anselm Grün nas primeiras páginas desta obra. No entanto, o Pai-Nosso é o resumo de todo o evangelho (dizia Tertuliano, cristão do séc. II-III). É um guia para uma vida abençoada por Deus (dizia Gregório de Nisa, Padre da Igreja do séc. IV). É a nossa possibilidade de participar na oração de Jesus, a única que ensinou expressamente aos discípulos.

Este livro explica passo a passo a oração transmitida por S. Mateus (a que mais se assemelha com o Pai-Nosso e que todos sabem de cor) e apresenta, numa segunda parte, um guia para a oração no Evangelho de S. Lucas, que por vezes é conhecido como “o Evangelho da oração”.

Anselm Grün sabe que hoje “corremos de facto o risco de distorcer o sentido da espiritualidade, transformando-a num círculo de narcisismo à nossa volta”. Isso acontece quando se reduz a oração a uma espiritualidade do bem-estar, que não produz frutos para a sociedade, não é actuante, não é interventiva. O Pai-Nosso, bem rezado, centra-nos no núcleo do Evangelho, leva-nos a assumir o espírito de Jesus, o espírito de filhos, a rezar com palavras encarnadas na vida, a pedir a vinda do Reino.

Pessoas que rezem conscientemente o Pai-Nosso – e é para aumentar essa consciência que o livro foi escrito -, individual ou comunitariamente, tornam o mundo à sua volta mais luminoso, mais humano e mais cristão.

Secretário do Papa: Desassossegado na "gaiola dourada"

O secretário do Papa, Georg Gänswein, na revista "Focus" de 2 de Fevereiro de 2011. A imprensa gosta dele e não há nada a fazer. Mais secretário aqui.


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Esperança e desejo


Diz Timothy Radcliffe que Tomás de Aquino chama à oração “a intérprete do desejo” ou “a intérprete da esperança”. O que quer dizer que a oração não anda longe nem do desejo nem da esperança. É bom saber isso.

1 de Fevereiro de 1894. Nasce o realizador John Ford


John Ford nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1894 e morreu no dia 31 de Agosto de 1973. Nasceu no Maine e foi educado num contexto de tradições irlandesas e católicas.

Alguns dos seus filmes aparecem com frequência nas listas dos melhores de sempre (“O Vale era Verde”, “Liberty Valence”, “Grande esperança / O jovem Mr, Lincoln”…). Era o “Homero americano”, o contador de histórias. E era também católico. Os seus filmes não são declaradamente católicos, mas reflectem uma mundividência católica.

Richard A. Blake, no livro “Afterimage: The Indelible Catholic Imagination of Six American Filmmakers”, diz que a filmografia de Ford é uma “viagem para o reino eterno”. (Os outros cinco realizadores são: Scorcese, com o seu "universo sacramental"; Hitchcock, com a “comunhão de pecadores”; Frank Capra, com a religião de fé mundial; Copolla, com a "solidão americana"; e Brian de Palma, com homilias que brotam do lado obscuro,"homilies from the dark side".) Dá para espreitar no livro na Amazon.

Não que Ford tenha filmado alegorias religiosas, mas há nos seus filmes noções de comunidade, de salvação, de como a vida e uma longa caminhada para a pátria. Muitos dos seus filmes, "werterns", passam-se nas últimas fronteiras americanas, onde a sobrevivência depende da família, da tenacidade, de buscas, de lutas que levam à redenção no meio da comunidade. Há em Ford uma imaginação católica, expressamente não declarada, que põe a graça a actuar em qualquer contexto.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dicionários das religiões que não são dicionários


Está a sair à terça-feira, com o “Público” (mas não é obrigatório comprar o jornal) uma colecção de livros sobre as grandes religiões. Já saíram os volumes 1 (“Cristianismo I”), 2 (“Cristianismo II”) e 3 (Budismo I) de um total de 17. O primeiro custou 3,50 euros. Os restantes custam 6,90 euros. 107 no total.

Ainda não percebi por que é que chamam a esta colecção “Dicionários das Religiões”. A apresentação dos textos, que raramente continuam no par de páginas seguinte, nunca segue uma ordem alfabética. Talvez haja alguma explicação na introdução do primeiro volume – que ainda não li.

Apesar de a apresentação nas páginas do jornal parecer indicar volumes maiores do que na realidade são (20 x 13,5 cm), é uma colecção que vale a pena. Os textos estão bem escritos, são sintéticos mas informativos, e as imagens são sugestivas. Só não gosto do uso da palavra “laicos” para referir “leigos”. Deve ser má tradução. Ou ignorância quanto ao termo que mais se usa em português para referir mais de 99 por cento dos fiéis católicos.


Teologia dos animais


Anedota lida em relação a outra confissão cristã e que a minha autocensura levou a adaptar à confissão que professo.

- Sr. padre, quero pedir-lhe para fazer o funeral ao meu cãozinho, que morreu ontem. Com missa.
- Minha senhora, parece que não sabe, mas nós não celebramos missas pelos animais. No entanto, posso indicar-lhe uma outra igreja que talvez lhe faça um serviço fúnebre.
- Muito obrigada, sr. padre, vou já lá falar com eles. Já agora, diga-me uma coisa. Eu quero doar-lhes cinco mil euros. Acha que está bem esse valor?
- Mas por que é que a senhora não me disse logo que o seu cãozinho era católico?

Sinceridade sem reticência na Igreja


Hans Kung recebeu há dias um doutoramento honoris causa em Espanha – facto que foi interpretado como a reparação de uma injustiça, já que tem no currículo 17 doutoramentos do género, nenhum em Espanha, tendo em conta o que tem feito pela causa do conhecimento e diálogo entre religiões e pela promoção da ética comum para a paz. Por outros caminhos e afazeres, dei com este trecho de Kung que não resisto a citar:

«O que é o cristianismo»? Um tal pergunta requer uma sinceridade sem reticência. Semelhante sinceridade não deixarei que ma proíbam, nem sequer Henri de Lubac, apesar de toda a estima pessoa que lhe dedico, pois após a minha conferência sobre «a sinceridade na Igreja», por ocasião do Concílio Vaticano II, disse-me ele em São Pedro de Roma: «Não se fala assim da Igreja. De qualquer modo, é nossa mãe!» Mas Eugen Drewermann. Entre outros, procedeu desde então a uma análise radical do complexo da mãe em numerosos clérigos. E três decénios depois do concílio, o que é feito de tantos belos «sonhos» de Igreja? Contudo, tanto quanto a sinceridade, devemos igualmente justiça e honestidade face à Igreja e ao cristianismo.
Hans Kung na pág. 18-19 de “O Cristianismo. Essência e História” (Circulo de Leitores, 2002).

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...