sábado, 19 de fevereiro de 2011

À procura de um rosto áspero e judeu


Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das imagens.
É áspero e judeu. Não o vejo
e continuarei a procurá-lo até ao dia
último dos meus passos sobre a terra.


Jorge Luís Borges

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

18 de Fevereiro de 1546. Morre Martinho Lutero


Lutero morreu há 465 anos, no dia 18 de Fevereiro de 1546. Um dos criadores da modernidade. Para o bem e para o mal, somos todos filhos de Lutero. Mesmo que haja mais católicos do que protestantes, o pequeno mundo tipicamente ocidental (Europa, EUA e partes da América Latina) é mais protestante do que católico. Não poderíamos entender o subjectivismo, a liberdade de expressão e de iniciativa, o individualismo, o progresso científico, etc. sem Lutero.

Foi um bom cristão, se ignorarmos a propaganda antiprotestante - como deve ser ignorada.

Se me fosse possível criar um outro mundo a partir da mudança de um facto do passado, eu criaria este: o Papa dava ouvidos a Lutero, Lutero continuava católico, os príncipes alemães não apoiavam Lutero (porque daí não adviria nada), a Igreja empreendia uma reforma a partir de Roma, e Lutero acabava os seus reconhecido e  como cardeal. Hoje seria reconhecido como santo, grande reformador ao lado de Francisco e Domingos.

Talvez tivéssemos assim perdido os jesuítas. Inácio teria entrado para os dominicanos. Mas não teria havido Trento nem a ignorância católica da Bíblia. O clero há muito que seria casado ou celibatário sem qualquer confusão fosse para quem fosse. A revolução industrial teria começado no norte de Itália um século antes e estender-se-ia pelo Mediterrâneo. Não teria havido escravatura em massa. África seria hoje um continente desenvolvido.

Uma oração de Lutero:

Olha, Senhor,
sou como um vaso vazio.
Enche-o.
Sou fraco na fé.
Fortalece-a.
Sou frio no amor.
Permite que meu coração queime.
Deixa que meu amor jorre
sobre o meu próximo.
Não tenho uma fé firme e forte.
Às vezes, duvido
e não consigo confiar completamente em ti.
Senhor, ajuda-me.
Aumenta a minha fé,
permite que eu confie em ti.
Sou pobre, tu és rico.
No entanto,
tu vieste para ter compaixão dos pobres.
Eu sou um pecador,
tu és justo.
Sofro por causa do pecado.
Em ti está toda a justiça.
Fico contigo,
pois de ti posso receber
e não preciso de dar.

Móveis protestantes

Na revista “Sábado” de há semanas (3 de Fevereiro), Johan Stenebo, antigo assistente pessoal do sr. Kampard, dono da Ikea, dizia que não havia ninguém tão bom para lhe suceder no cargo como uma candidata asiática, mas foi escolhido um “homem alto, de cabelo louro e olhos azuis”, “um sueco protestante e heterossexual, exactamente como eu”, diz ele.

Fica assim explicada a fiabilidade dos móveis nórdicos. E quem os aprecia deve ficar contente por nunca haver um/a católico/a, latino/a no topo da hierarquia da empresa.

Ainda o manifesto dos teólogos: Liberdade e fidelidade à Igreja ou a Jesus?


Entre os muitos comentários sobre as proposta dos teólogos de língua alemã para mudar alguns aspectos da prática eclesial estão as respostas inteligentes e sensatas do teólogo jesuíta brasileiro João Batista Libânio. Eu resumiria assim: Quem quer mudanças na Igreja apela a Jesus Cristo e ao seu agir e pensar. Geralmente, quer arriscar. Quem não quer que a Igreja mude apela à Tradição. Conservar é a palavra de ordem.

Mas o melhor é ler o que diz o teólogo jesuíta:
A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade.
Ler tudo aqui.

Camus e Jesus Cristo


Eu não creio na sua ressurreição, mas não ocultarei a emoção que sinto diante de Cristo e dos seus ensinamentos. Perante Ele e a sua história não experimento senão respeito e reverência.

Albert Camus

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

17 de Fevereiro de 1941. O franciscano Maximiliano Kolbe é preso pela Gestapo


Maximiliano Kolbe, frade franciscano, foi preso pela Gestapo, no dia 17 de Fevereiro de 1941, por dar abrigo a refugiados, incluindo dois milhares de judeus. No dia 25 de Maio seguinte foi transferido para Auschwitz, onde viria a morrer no dia 14 de Agosto de 1941, véspera de um feriado dedicado a Nossa Senhora.

O franciscano era devoto do Coração Imaculado de Maria, tendo fundado em 1917 uma associação de apostolado mariano e a seguir o jornal "Cavaleiro da Imaculada". Foi também missionário em Nagasaki, de 1930 a 1936.

Kolbe foi canonizado pelo Papa João Paulo II no dia 10 de Outubro de 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, o homem de quem Kolbe quis tomar a vez quando os nazis decidiram punir dez prisioneiros devido à fuga de um outro.

«Amigo, a que vieste?»


George McLeod encomendou dois cálices de cristal para a comunidade de Iona e deixou que o artífice, um agnóstico, escolhesse a inscrição para um deles. A legenda era esta: «Amigo, a que vieste?» [pergunta de Jesus a Judas em Mt 26,50, momentos antes de ser traído]. Era uma advertência salutar ao celebrante, sempre que beijasse o cálice, de que cada um de nós poder ser Judas.

Caso contado por Timothy Radcliffe na pág. 174 de "Ir à Igreja porquê?"

Nota: George Fielden McLeod (1895 –1991), soldado e clérigo escocês, fundou em 1938 a comunidade ecuménica de Iona, com homens e mulheres. A comunidade tem sede em Glasgow mas funciona principalmente na Ilha de Iona. Actualmente é presidida por Peter MacDonald.

Se tem pressa em ser santo pense nisto


John L. Allen Jr. aponta no “National Catholic Reporter” (01-02-2011) os cinco traços em comum nas beatificações rápidas (ou seja, de pessoas mortas há menos de 30 anos). Resumo-os a partir do texto traduzido pela Unisinos (aqui). As palavras-chave de cada item são da minha responsabilidade.

1. Dinheiro. A maioria tem por trás uma organização plenamente comprometida com a causa, contando tanto com os recursos quanto com a astúcia política para fazer as coisas andarem. Pense-se em Josemaria Escrivá.

2. Originalidade do santo. Implicam uma “primeira vez”, geralmente em termos do reconhecimento de uma região geográfica específica ou de um conjunto de membros sub-representados.  Ex.: Maria Corsino e Luigi Beltrame Quattrocchi, o primeiro casal “beato”.

3. Momento político-cultural. Às vezes há uma questão política ou cultural simbolizada por esses candidatos que contribui para a percepção de sua urgência. É o caso da leiga italiana Gianna Beretta Molla que recusou tanto um aborto quanto uma histerotomia que teriam resultado na morte do seu filho não-nascido.

4. Interesses do Papa. Por vezes as causas passam pela via rápida porque o respectivo Papa sente um investimento pessoal nelas. Ex.: Em relação a João Paulo II, santos polacos como Jerzy Popieluszko e Michal Sopocko.

5. Lobby dos bispos. Apoio hierárquico muito forte, tanto por parte dos bispos da região como por parte de Roma. É o caso da jovem focolare Chiara Badano.

E cemitério quer dizer "lugar do sono"

"Estamos a trabalhar para fazer deste cemitério um lugar mais seguro".

Placa que os serviços municipais de uma povoação inglesa colocaram no cemitério.

Doença



Aquele cuja doença se chama Jesus nunca mais ficará curado.

Ibn Arabi (Murcia, 1165 – Damasco, 1240)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

E se Bento XVI falasse assim?


O Papa quer mais exigência nos casamentos católicos e declarações de nulidade mais escrutinadas (aqui). O discurso do Papa, dos últimos papas, tem sido quase sempre o do aumento do rigor, de maior moral nos actos. E se um Papa tivesse um discurso como o que se segue? Por que é que a palavra do Papa não é de esperança para os que mais dela precisam? Ou se é, é de uma esperança desencarnada. As palavras que se seguem não de ninguém de fora da Igreja. São de Timothy Radcliffe, que foi mestre geral dos dominicanos (nas páginas 166-167 de "Ir à Igreja porquê?"). Um Papa não poderia falar assim? Hoje seria difícil por causa da alínea dos pedófilos, mas mesmo assim.

E quais são as pessoas que nós, Igreja, empurramos para fora ou, pelo menos, deixamos vaguear em torno da cerca, como cidadãos de segunda classe: os divorciados e recasados, as pessoas que vivem juntas (não casadas), os homossexuais. Tem de haver para eles um lugar à volta dos nossos altares, regozijando-se com a hospitalidade de Cristo, juntamente com todos os outros, Muitas vezes, as nossas Igrejas mantêm vida uma compreensão veterotestamentária da santidade, apartando as nossas comunidades daqueles que são tidos por desencaminhados. Talvez isto se assemelhe à manutenção das normas, à recusa do relativismo moral, mas trata-se tão-só, na verdade, da incapacidade de captar a santidade nova e inédita de Cristo.Quem são as pessoas fora do acampamento na nossa sociedade, os leprosos imundos, as prostitutas e os cobradores de impostos? Rufias, bandos de rua, criaturas que atraem os rapazes e as jovens para a prostituição, MPs apanhados a falsear as suas despesas? O imundo supremo na nossa sociedade é, porventura, o pedófilo quem mesmo depois de ter cumprido a pena de prisão, será caçado, cujas portas estarão marcadas com o abuso, e que é visto como o compêndio do mal, o bode expiatório no qual projectamos todo o nosso medo e fracasso. Eis os indivíduos que são lançados fora do acampamento, para o lugar onde Cristo morreu. Cristo também morreu por eles.

Vamos lá ouvir Bach

Desenhos sempre críticos, sempre provocadores, mas sempre evangélicos de José Luis Cortés no "El hermano Cortés". Outros do género aqui.


Menos nulidades de casamentos, mais rigor no matrimónio - pede Bento XVI


O Papa pediu, no início do novo ano judicial do Vaticano, “maior atenção na análise dos processos de nulidade de casamento, no Vaticano, defendendo que a Igreja deve apostar na preparação dos noivos para evitar casamentos precipitados e anulações facilitadas” (notícia da Ecclesia).

Disse em concreto: “Há que empenhar-se para que, na medida do possível, se interrompa o círculo vicioso que muitas vezes se verifica entre uma admissão fácil ao matrimónio, sem a adequada preparação e sem um sério exame dos requisitos previstos para a sua celebração, e uma declaração judiciária igualmente fácil, mas de sinal oposto, na qual se considera o próprio matrimónio apenas com base na constatação da sua falência” (ler o discurso todo aqui).

Compreende-se o que o Papa quer dizer. O casamento é indissolúvel. Se não deu certo, é porque não houve casamento, logo, declare-se a sua nulidade. Este é o pensar de muita gente e, pelo que Papa dá a entender, também de alguns juízes eclesiásticos nos tribunais diocesanos e na Rota Romana.

Perante isto, só há duas alternativas, ou admitir o divórcio, como fazem os ortodoxos, reconhecendo que o matrimónio idealmente é indissolúvel, mas o ser humano não é impecável. Ou endurecer a disciplina. Parece que é esta a via do Papa. Mas se é esta, o casamento deveria ser apenas para uma elite, e do mesmo modo os restantes sacramentos.

Casamento católico só para quem quer mesmo o casamento católico e não simplesmente para quem quer o que a Igreja quer (é neste princípio que se aceita quem deseja um sacramento), mesmo sem saber o que realmente a Igreja quer. Casamento católico só para quem vai à missa todos os domingos, chega virgem ao casamento, deseja efectivamente baptizar os filhos na fé católica, acredita no Credo de uma ponta à outra… Mas a mesma liberdade de consciência para querer o casamento católico deveria ser exigida a todos os outros sacramentos, o que significava, numa análise imediata, que os sacramentos só seriam administrados a adultos, a começar pelo Baptismo.

Podendo parecer que não, isto está muito ligado, porque a Igreja não tem como recusar o casamento a dois adultos que sejam baptizados e respondam afirmativamente ao inquérito que lhes é feito, mesmo que mintam.

Concordo com Bento XVI que tem de haver “adequada preparação” e um “sério exame dos requisitos previstos”, mas não apenas para este sacramento. Para todos. Mas receio que isso significasse o fim do Evangelho da misericórdia e o início de uma seita. E mesmo que o casamento fosse apenas para uma elite fiel, as dificuldades nas relações não terminariam. Quantos já vi que pareciam tão rigorosos, tão honestos, tão fiéis e faziam da vida em comum um inferno. Admito: não sei onde nos levaria o rigorismo nem o liberalismo matrimonial.

No “El País” da vizinha Espanha, a propósito deste assunto, uma nota histórica que não é de todo alheia a Portugal (lido aqui):
Muitas das tensões entre o Estado e a Igreja tiveram o matrimónio como testemunha, tendo a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo como último incidente, em 2005. Foi uma disputa furiosa, com bispos manifestando-se contra o Governo pelas ruas de Madrid, mas muito menos agressiva que quando, em 1870, se introduziu na Espanha, pela primeira vez, o direito somente do casamento civil. Os jornais católicos publicaram a notícia da votação nas Cortes em páginas de margens pretas e os bispos ordenaram a celebração de ofícios expiatórios em todas as igrejas. Motivo: acabava-se de legalizar “o concubinato público universal”.

Frases das crianças da catequese

Deus amava tanto Abraão que lhe deu um filho velho.

Jesus ressuscitou muitos doentes.

Jesus encontrou Madalena, uma mulher muito mais velha, ou seja, adúltera.

Atracção

Se era ruivo ou moreno não sei,
Mas alegre como um alfabeto de pássaros.
Se era baixo ou esbelto não sei,
Mas tinha o coração mais alto do que uma rosa
Se era bonito o seu rosto não o sei,
Mas a minha alma vive da água de o admirar.

J.L. Martín Descalzo (1930-1991)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

15 de Fevereiro de 1145. Eleição de Eugénio III


Eugénio III (na imagem, estátua em Dijon, França), monge cisterciense de nome Bernardo, foi eleito Papa no dia 15 de Feveriero de 1145 e morreu no dia 8 de Julho de 1153.

Como Papa, Eugénio III teve de enfrentou Arnaldo de Bréscia, um opositor ao poder temporal dos papas, e viveu a maior parte do tempo no mosteiro de Farfa, 40 km a norte de Roma, e três anos em França. Perseguiu os cátaros.

Depois da conquista do Condado de Edessa pelos turcos, convocou a segunda cruzada com Bernardo de Claraval. Luís VII da França e Conrado III do Sacro Império respondem afirmativamente, enquanto os flamengos e ingleses ajudavam Afonso Henriques na conquista de Lisboa (cruzada do ocidente).

Eugénio III foi beatificado em 1872 por Pio IX.

Teólogos espanhóis aderem ao manifesto dos colegas de língua alemã

Benjamin Forcano, teólogo moralista claretiano

Um grupo de teólogos espanhóis, encabeçados por Evaristo Villar, Julio Lois e Benjamin Forcano está a recolher assinaturas para o manifesto dos teólogos de língua alemã. O contacto é bforcanoc@terra.es. Li aqui.

Manifesto em português aqui.

Eu ficaria estupefacto se o manifesto recolhesse, vá lá, umas dez assinaturas de teólogos e professores de teologia portugueses.

Quando eu sentir que escapo a mim mesmo...


Quando no meu corpo (e muito mais no meu espírito)
começar a notar-se o desgaste da idade,
quando se precipitar sobre mim, de fora,
ou nascer em mim, por dentro,
o mal que apouca ou aniquila,
no momento doloroso em que subitamente
tomar consciência de que estou doente ou estou velho,
nesse momento derradeiro sobretudo em que
eu sentir que escapo a mim mesmo,
absolutamente passivo nas mãos
das grandes forças desconhecidas que me formaram,
em todas essas horas sombrias,
dai-me, meu Deus, o compreender que sois Vós
(contanto que a minha fé seja assaz grande)
que afastais dolorosamente as fibras do meu ser,
para penetrardes até à medula da minha substância,
para me levardes para Vós.

Teilhard de Chardin (1881-1955) 

Inconstância do tempo



Neste mundo, os dias rolam; uns vão e outros vêm; nenhum fica. Também os momentos em que falamos se suplantam uns aos outros e a primeira sílaba não pára, para que a segunda possa ressoar. Desde que falamos, envelhecemos um pouco e sem dúvida que estou agora mais velho do que hoje de manhã. Deste modo, nada está parado, nada fica suspenso no tempo. Por isso, devemos amar aqueles através de quem se faz o tempo, para sermos libertados pelo tempo e amarrados à eternidade, onde já não existe qualquer inconstância do tempo.

Agostinho de Hipona

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ainda podemos falar de Deus? Editorial do "Le Monde des Religions"


Editorial de Frédéric Lenoir, director do “Le Monde des Religions”. É do início do ano, mas vale a pena ler, agora que está traduzido em português (copiei daqui), sobre a dificuldade de falar de Deus. Pode ser lido em francês aqui.

Quando foi feita a pergunta “Você acredita em Deus” a Albert Einstein, este respondeu: “Me diga o que você entende por Deus e eu te direi se creio nele ou não!” Seu interlocutor ficou calado. E por quê! Quando se diz “Deus”, de que Deus se está falando? Do Deus ao qual os astecas sacrificavam crianças? Do Deus pessoal da Bíblia que fala a Moisés e aos profetas? Do Deus de Espinosa que se identifica com a natureza? Do Grande Relógio de Voltaire? Mesmo no interior de uma tradição como o cristianismo, as imagens de Deus são inúmeras: o que há de comum entre o Pai amoroso de Jesus “que faz brilhar o sol tanto sobre os bons como sobre os maus” e o padre Fouettard do século XIX que, pela boca de muitos clérigos, ameaça o menor pecador com o fogo eterno? Entre o Deus da Madre Teresa, em nome do qual ela deu sua vida a serviço dos mais despojados, e o do Grande Inquisidor, que estava convencido de ser seu mais fiel servidor ao condenar à fogueira os heréticos? 
Diante das aberrações da religião, os “mestres da suspeita” vão desenvolver uma crítica radical de Deus e da fé. Denunciada como uma alienação intelectual por Augusto Comte, como uma alienação antropológica por Ludwig Feuerbach, como uma alienação econômica por Karl Marx e como uma alienação psíquica por Sigmund Freud, a fé em Deus é vista pelos principais pensadores do final do século XIX como a sobrevivência infantil de uma necessidade de segurança que impede o homem de atingir sua plena estatura.
Os dramáticos acontecimentos do século XX também vão dar um golpe fatal à ideia bíblica do Deus bom e todo-poderoso. Como ainda podemos crer nesse Deus providencial, que cuida de cada um, depois de 50 milhões de mortos das duas guerras mundiais? Após dezenas de milhões de mortos do Holocausto? Após Hiroshima? Após Auschwitz? “Deus morreu pendurado em uma corda por um verdugo em Auschwitz”, dirá Elie Wiesel para explicar a perda de sua fé após ter atravessado o horror dos campos de concentração. 
Ainda podemos falar de Deus no começo do século XXI? Deus ainda é crível? Alguns filósofos judeus e cristãos, como Emmanuel Lévinas ou Paul Ricoeur, tentaram redesenhar a possível figura de Deus na nossa pós-modernidade. Pois, como destacou Hannah Arendt, “não é certo que Deus esteja morto, porque sabemos tão pouco sobre sua existência [...], mas, sem dúvida, a maneira como se pensou Deus ao longo de séculos não convence mais ninguém: se alguma coisa está morta, só pode ser a maneira tradicional de pensá-lo”. Assim, a maioria dos autores “crentes” contemporâneos e posteriores à Segunda Guerra Mundial enfatiza a necessidade de repensar Deus não mais como o “Todo-poderoso”, mas como o “não-poderoso”, esse que se deixa pregar na cruz, que se apaga diante da liberdade humana. “Deus é impotente e fraco no mundo. E assim apenas está conosco e nos ajuda”, escreveu Dietrich Bonhoeffer pouco antes de ser morto pelos nazistas, fazendo assim eco às proposições de Etty Hillesum. 
Mas, a maneira que me parece hoje a mais justa para um crente para falar de Deus... é falar dele o menos possível. De retornar à posição apofática de muitos místicos de todas as religiões, que lembram que a única coisa que podemos dizer de Deus é o que ele não é. É assim que podemos compreender a desconcertante oração do Mestre Eckart que pede a Deus... para se liberar de Deus! Se quisermos tornar Deus crível em nosso mundo desencantado, mais que falar dele, os crentes deviam sobretudo viver uma experiência interior transformadora e testemunhá-lo através de uma vida alegre e amorosa. Porque, no final das contas, como escreveu o grande teólogo Hans Urs von Balthasar: “Só o amor é digno de fé”.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...