



O pintor Parmigiano ou Parmigianino nasceu no dia 11 de Janeiro de 1503 (e morreu no dia 24 de Agosto de 1540). O seu nome mesmo era Girolamo Francesco Maria Mazzola “Parmigiano” é diminutivo para “o pequeno de Parma” ou “pequeno parmesão”, de onde era natural. Influenciado por Miguel Ângelo e Rafael, as suas obras principais são a “Visão de São Jerónimo” e este espantoso “Nossa Senhora de pescoço comprido”, além de um auto-retrato em espelho convexo.

Miguel Nicolelis (São Paulo, 1961), neurocientista de renome (capa da “Science” e considerado pela “Scientific American”, no início do século, um dos maiores cientistas a nível mundial), com investigações de relevo sobre a integração cérebo-máquina, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, a mais antiga do mundo, criada em 1603 (aqui). A nomeação provocou comentários “absurdos” pelo menos no popular blogue de Luís Nassif (aqui).
O cientista resolveu responder e escreveu o seguinte, com humor e uma informação que eu desconhecia, que a Academia não é confessional, o que está correcto, porque a ciência positiva não implica actos de fé (quanto aos Gaviões da Fiel, pelo que percebi, são os adeptos do Corinthians):
Sou leitor assíduo desse blog, então não tinha como me conter e resolvi responder aos absurdos postados nesse tópico que diz respeito a mim.
Primeiro, sou um cientista brasileiro, ateu, pró-legalização do aborto, pró união civil dos homossexuais e pró Dilma. Fui convidado a me tornar membro da mais antiga academia de ciências do mundo, a mesma a que Galileu Galilei foi membro. Aceitei o convite, pois esse foi feito com a garantia que a academia se interessa pela minha ciência e não pela minha opção (ou falta de opção) religiosa.
Espanta-me verificar que mesmo num site progressista ocorra o grau de patrulha ideológica (ou religiosa) que encontrei nos comentários acima.
Meu outro colega de Academia é o físico Stephen Hawking, que professa as mesmas opiniões que eu. Agora eu me pergunto, a troco de que eu iria recusar a oportunidade de bater bons papos com um dos maiores físicos da história?
A Academia de Ciências deixa claro nos seus estatutos que nenhum dos seus membros precisa acreditar em Deus ou ser membro da religião católica.
Então, a título de esclarecimento, gostaria de deixar registrado que toda vez que eu for convidado a participar do mesmo clube frequentado por gente como Galileu e Stephen Hawking, vocês podem estar certos que eu vou aceitar. Mesmo que fosse a Academia de Ciências da Gaviões da Fiel! E para um palmeirense dizer isso não é fácil, não. Portanto, menos meus amigos, menos. Guardem o besteirol para outros cristãos e poupem o pobre ateu aqui de ler tanto absurdo.

Em meados da década de 1990, João Paulo II começou a ter cada vez mais dificuldades em andar. Percorrer uma pequena distância exigia-lhe cada vez mais tempo. Em 1994, durante os trabalhos do Sínodo dos Bispos, o Papa chegou com dificuldade à mesa presidencial e murmurou:
- Eppur si muove*
* “E, apesar de tudo, move-se” – expressão atribuída a Galileu, que, no entanto, nunca a pronunciou. Aparece somente em Londres, em 1761, nos escritos de um italiano, mais de 100 anos depois da morte de Galileu.

“As Igrejas são crianças que brincam no chão com os seus estojos de química, misturando um lote de TNT mortífero, no domingo de manhã. É uma tolice levar à Igreja chapéus de palha e de veludo de senhora; deveríamos todos utilizar capacetes de protecção. Os porteiros deveriam distribuir protectores de vida e sinais luminosos”.

John Emerich Edward Dalberg-Acton nasceu no dia 10 de Janeiro de 1834 e morreu no dia 19 de Junho de 1902. Conhecido simplesmente por Lord Acton, este católico inglês foi escritor, político e historiador, reconhecido no final da vida por Cambridge e Oxford (antes, como católico, estas universidades estavam-lhe vedadas). Pensou em escrever uma "Grande História da Liberdade". Sucedeu a John Henry Newman como editor do jornal católico “The Rambler” em 1859.
É dele uma frase muito citada, por vezes atribuída a Churchill (como muitas outras): “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”.
Em 1990, foi fundado nos EUA um “think thank” que tem como patrono Lord Acton (e pelo menos um seguidor em Portugal: João Carlos Espada), o Lord Acton Institute, “para o estudo da religião e da liberdade”.
“Inspirado nos escritos de Lord Acton, o grande historiador e pensador moral de Cambridge, o Instituto realiza seminários em inglês, dirige pesquisas e publica livros, ensaios e jornais que invocam a religião como defensora da liberdade”, lê-se na versão portuguesa do sítio.
Outra efeméride de 10 de Janeiro: Tintin.

Reflexão breve e provocadora de José Antonio Pagola, autor do livro (polémico) “Jesus, uma abordagem histórica” (ed. Gráfica de Coimbra), no blogue “Buenas Noticias”:
La crisis religiosa de nuestros días se está extendiendo con tal radicalidad que la indiferencia está afectando ya a los mismos creyentes. Los indicios son cada vez más inquietantes. Hay analistas que denuncian el "ateísmo interior" que está diluyendo la fe de algunos que se dicen cristianos.
La Iglesia no es un "espacio inmunizado". Hay practicantes que de hecho no cuentan con Dios. Pueden pasar tranquilamente sin él. Dios no estimula su vida ni inspira su comportamiento. Viven una religión vacía de comunicación con Dios. En la práctica, Dios no existe para ellos. Sin advertirlo, se están instalando en la "cultura de la ausencia de Dios".
¿Vamos a permanecer pasivos ante esta extinción progresiva de la verdadera fe incluso dentro de nuestros hogares y comunidades? ¿No nos estamos haciendo cada vez más indiferentes a la indiferencia religiosa que parece invadirlo todo? ¿No ha llegado el momento de reaccionar?
Ler tudo aqui.

No dia 9 de Janeiro de 1144, o Papa Celestino II (1143-1144) publica a bula “Milites Templi” (“Soldados do Templo”), que ordena que o clero proteja e apoie os Cavaleiros do Templo, criados em 1119. O documento promete indulgências aos fiéis que contribuírem para os Templários.
A bula contribuiu muito para o sucesso da ordem militar.
Bento Domingues no "Público" de 9 de Janeiro de 2011: "A marca do Vaticano II não é feita só pelas viragens que fez, mas pelas viragens a fazer para não voltar atrás. O “aggiornamento” é algo que tem de ser continuamente empreendido à luz dos sinais dos tempos em mudança. Esta perspectiva só foi possível porque a Igreja abandonou a ideia de ser o centro de tudo. Foi-se descentrando para Jesus Cristo, para as outras igrejas cristãs, para as outras religiões não cristãs e para o mundo, mas sua riquezas, alegrias e esperanças".

O Natal já lá vai. Já ninguém pensa nisso, como não pensou muito quando ele por nós passou. No rescaldo, sabe bem ler o texto de José Ignacio González Faus, no seu blogue, em espanhol (aqui), ou traduzido em português no IHU (aqui, apesar de erros como “esquisita Maria” por “Maria de bom gosto” ou “Corte inglesa” pelo nome da cadeia de supermercados que, com certeza, não existe no Brasil).
Assim esquecemos todo o lado polêmico da mensagem natalina: que Deus não nasceu no Templo de Jerusalém, nem sequer numa pousada decente, senão num estábulo. O que, com palavras de hoje, significa: Deus não nasce na catedral de Barcelona, nem na igreja Sagrada Família, senão no [rio] Besós [Barcelona] ou no Raval [nos arredores de Barcelona, ndt]; nem nasce na Catedral de Nossa Senhora daAlmudena, senão na Canadá real; nem nasce na Corte inglesa, senão numa favela, nem nasce no Vaticano, senão na Faixa de Gaza, nem em Manhattan, senão no Haiti... E seu sinal não são as luzes em nossas ruas senão a falta de luz nos subúrbios.
(…)
Imaginemos então o que ocorreria se uma multidão de cristãos, mais conscientes de todo este significado, começasse a tomar decisões como estas: no natal não vamos consumir nada, não porque não possa ter sentido materializar o gozo interno, senão para compensar a unilateralidade na qual caímos. Nem vamos jogar na loteria porque não queremos enriquecer-nos precisamente nos mesmos dias em que Deus empobrece. Nem damos presentes às pessoas queridas senão somente àquelas com as quais nos encontramos inimizados ou a quem necessitamos perdoar. Nem plantaremos beléns transbordantes de figuras caras, senão um simples presépio desvencilhado e vazio, da mesma forma como aquela cadeira daquele prêmio Nobel da paz que esteve vazia durante a cerimônia: como que simbolizando que a Deus igualmente não deixamos vir hoje porque é um dissidente deste mundo, como Liu Xiaobo.


Giotto (1266-1337)
Giotto di Bondone morreu no dia 8 de Janeiro de 1337, em Florença. Quem gosta de arte religiosa pode chamar-lhe S. Giotto, porque além de mestre do top ten da pintura de todos os tempos, pelo menos pela introdução da perspectiva, humanizou os santos e as figuras divinas. Um mediador, portanto.
Só pintou motivos religiosos, sendo a vida de Francisco de Assis um deles, mas, como escreveu Lionello Venturi ("Para compreender a pintura. De giotto a Chagall", Estúdios Cor, 1955), “Giotto encerra uma civilização pictural que se ocupa sobretudo de Deus e abre outra que se ocupa sobretudo do homem”. Com Giotto, começa um novo capítulo da história da pintura, com realismo, perspectiva, humanidade, corpos e autores a assinar as obras. Segundo Gombrich, a história da arte passa a ser a história dos grandes artistas.
A foto acima é do exterior da Galeria Uffizi. Consta que Giotto era anão, como de alguma forma dá para perceber pela imagem.

Livro de Heiner Geissler referido por Anselmo Borges no texto do DN de hoje (aqui copiado).
Ainda não li o livro, mas tendo ouvido o padre e filósofo dele falar numa conferência, umas semanas antes do texto do DN, fiquei com vontade de o conhecer.
Quando o comprei, por três euros menos um cêntimo, desconhecia totalmente o autor. O facto de estar em promoção fez-me pensar que não valeria grande coisa. Comprei-o por causa do título, não do autor. Soava ao movimento wwjd ("What would Jesus do?"), apesar de o autor não parecer dos EUA. Agora olho para a obra de outro modo.
Principais temas, segundo o índice: “A boa nova e a mensagem felicitante”, “Guerra e Paz”, “Jesus e o capital”, “Ajudar e curar”, “Jesus e as mulheres”, “Os hipócritas”, “O ser humano e a lei”.
Promete.

Heiner Geissler
Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje, após a ausência de Natal e Ano Novo.
Os dias de Natal são especiais. Há uma atmosfera diferente, o melhor de nós pode revelar-se: mais proximidade, mais intimidade, mais amor, mais solidariedade. Directa ou indirectamente, há uma presença inegável: o nascimento de um Menino, com "a mensagem mais bela e revolucionária da história mundial", no dizer de Heiner Geissler, que foi ministro do Governo Federal da Alemanha e que escreveu um livro admirável precisamente com o título: "O que diria Jesus hoje?"
Mesmo se muitas vezes os que se reclamam de Jesus fizeram da sua mensagem um Disangelho, como disse Nietzsche, ela é real e verdadeiro Evangelho, notícia boa e felicitante.
Essa mensagem tem na sua base a afirmação de que é o ser humano, com a sua dignidade inviolável e fundamentada em Deus, que ocupa o centro de toda a actividade política e económica. Essa dignidade e os direitos que dela derivam constituem o critério de todas as leis, mesmo das leis "divinas", e o fundamento para a convivência em igualdade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, cultura, etnia, religião, classe, nação, estatuto social ou jurídico.
O amor a Deus sem amor ao próximo é uma ilusão, e este amor ao próximo não é platónico, pois tem de ter tradução prática concreta - dar de comer, de beber, de vestir, visitar o doente e o preso -, e supera as barreiras culturais, nacionais, religiosas. Próximo é o próprio inimigo em dificuldade.
Os seres humanos e os seus interesses estão antes dos interesses do capital. O capitalismo neoliberal não está de acordo com o Evangelho e "constitui um crime contra milhares de milhões de pessoas que têm de viver na pobreza, na doença e na ignorância". "Quem transforma o valor na bolsa e a cotação das acções de uma empresa em algo absoluto e quem atribui importância, em termos económicos, apenas aos interesses do capital faz parte das pessoas que, como diz Jesus, possuem muito dinheiro e para as quais será difícil entrar no Reino de Deus." Os mais de dois mil milhões de cristãos têm, pois, de formar uma força impulsionadora de uma nova ordem económica mundial com base na justiça.
A mulher tem de ser tratada na plenitude da sua dignidade humana em igualdade com o homem. Qualquer discriminação, na sociedade ou na Igreja, está em contradição com o Evangelho. "A proibição da ordenação das mulheres e o celibato obrigatório não têm fundamentam evangélico."
Jesus não excluiu os estrangeiros - curou o servo do centurião romano e a filha da mulher sírio-fenícia. Portanto, a xenofobia não é compatível com o Evangelho. Os romanos enquanto potência ocupante podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano comece a conversar, e quem sabe se não acabarão por beber um copo juntos? Aí está: "A reconciliação, o desanuviamento e a solução pacífica dos conflitos são preferíveis à violência e à guerra."
Quando se olha para o comportamento de Jesus, por palavras e obras, com as mulheres, os estranhos, os samaritanos (hereges), os pobres, os doentes, os leprosos, os inimigos (romanos e cobradores de impostos), entende-se como a nova imagem do ser humano constituía um acto revolucionário, com significado político-religioso explosivo.
O conflito foi mortal por causa de duas imagens de Deus. De um lado, o deus do sistema do Templo e do Império de Roma, em cujo nome as autoridades sacerdotais e o prefeito romano oprimiam e exploravam o povo. Do outro, o Deus dos últimos. Jesus acaba por ser crucificado, porque a sua mensagem e a sua acção abalavam na sua raiz um sistema organizado ao serviço dos poderosos da religião do Templo e do Império.
E hoje? Jesus é o modelo da credibilidade, na harmonia entre ideias e actos. "Hoje, seria o deputado e o porta-voz ideal do povo, uma vez que, no seu tempo, defendeu as pessoas - de forma independente, aberta e corajosa - contra os detentores do poder."

Thierry Maulnier, à esquerda, com Jacques Hébertot e André Malraux
Segundo o velho dito que fazia dantes a alegria dos seminários, não se deve fumar orando, mas pode-se orar fumando. Não é permitido aos cristãos conhecer o pecado, mas quem quereria interditar ao maior dos pecadores de crer em Deus?
Thierry Maulnier (1909-1988)

No 138.º aniversário do nascimento de Péguy.
Os fariseus querem que os outros sejam perfeitos,
Exigem-no.
Não sabem falar de outra coisa.
Mas Eu sou menos exigente, diz Deus.
Porque Eu sei bem o que é a perfeição e não a exijo tanto aos homens.
Precisamente porque Eu sou perfeito e não há em Mim mais do que perfeição, não sou tão difícil como os fariseus.
Sou menos exigente. Sou o Santo dos santos e sei o que é ser santo, o que custa, o que vale.
São os fariseus que querem a perfeição.
Para os outros.
Consideram que os outros são sempre indignos, consideram indigno o mundo inteiro.
Mas Eu, diz Deus, Eu sou menos difícil.
E considero que um bom cristão, um bom pecador da comum espécie, é digno de ser meu filho e de reclinar a sua cabeça sobre o meu ombro.

Charles Pierre Péguy, um radical socialista e anticlerical que depois de aproxima do catolicismo e autor que de vez em quando gosto de citar neste blogue (ver aqui), nasceu no dia 7 de Janeiro de 1873, em Orléans (terra de Joana d'Arc, que admirava), e morreu no dia 5 de Setembro de 1914, durante a Grande Guerra, em Villeroy. O seu nome aparece no memorial acima. É o primeiro do canto superior direito.
Gosto especialmente deste seu poema:
Se precisas de valentes sob o teu estandarte
aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…
aí estão Lourenço, Cecília…
Mas se, por acaso,
alguma vez precisares de um preguiçoso
e de um medíocre, de um ou outro ignorante,
de um orgulhoso, de um cobarde,
de um ingrato e de um impuro,
de um homem que esteve de coração fechado
e rosto duro…
aqui estou eu.
Quando te faltarem os outros,
a mim sempre me terás.

Sartre não tinha carta de condução e há pelo menos um bispo português que também não tem. É uma boa desculpa para uma vida menos stressante (não será esse o motivo do sr. bispo).
Havia um padre que também não tinha carta de condução. Habitualmente davam-lhe boleia os paroquianos. Mas num dia de tempestade, não aparecendo a boleia habitual, o padre viu-se na necessidade de pedir a um táxi que o levasse a uma missa num lugar distante do centro da paróquia.
À hora marcada, o padre lá estava, mas paroquianos… nem um. “Por causa da chuva” – pensou o padre. Perguntou então ao taxista se valeria a pena rezar a missa. O taxista disse que sim e que, se o sr. padre não se importasse, incluísse homilia, ou até um sermãozinho à moda antiga. O padre ficou admirado com a fé do taxista e estendeu-se na homilia, notando o agrado do taxista.
Só no regresso a casa é que o padre percebeu por que razão o taxista queria missa com sermão. O taxímetro esteve sempre ligado.
José Leite Pereira (JN/TSF): Não queria perder a oportunidade de falar consigo, Sr. D. Manuel, sobre a sua homilia no início do ano de combate ao laicismo, que no fundo, tem a ver com o que estivemos a falar: do envolvimento dos cidadãos.
D. Manuel Clemente: Exactamente. A laicidade é uma enorme conquista da civilização. Essa, sim, é uma verdadeira conquista da civiloização porque é uma redescoberta e um aprofundamento da realidade pessoal como dinamismo de apreensão, escolha, opção e decisão em termos daquilo a que se chama a verdade. A verdade em geral, mas, sobretudo, a verdade como ela é sentida por cada um. O respeito pela pessoa e pelas suas opções, religiosas ou não - o Papa diz na sua mensagem para este ano que a liberdade religiosa também permite a alguém não só mudar de religião como até não ter nenhuma. É uma liberdade da pessoa em relação à verdade da pessoa. A laicidade e secularidade é um grande bem. O laicismo, sobretudo como ele foi protagonizado em alguns sectores mais radicais desde a revolução francesa e depois se espalhou, em especial, na Europa latina, é outra coisa. É dizer que as convicções religiosas dos cidadãos não têm nem devem ter nenhuma projecção pública. Isto é mau e é exactamente o contrário da laicidade. A laicidade respeita a liberdade religiosa da pessoa. O laicismo suprime essa liberdade religiosa porque a põe apenas no seu intímo, na sua consciência.
JLP: Isso seria um tema bom para outro programa. De qualquer modo creio que o Sr. D. Manuel não subscreve as palavras do Cardeal espanhol, o Arcebispo Roco, que, curiosamente no mesmo dia, falando do combate ao laicismo, dizia que era preciso lançar uma reconquista pela Espanha que estava demasiado laica. Estamos a falar de duas personalidades muito diferentes: a sua e a do Cardeal espanhol. Também penso que as suas visões são um pouco diferentes das dele.
DMC: Sobretudo não uso nem sinto as coisas em termos belicistas. Compreendo historicamente a palavra reconquista. Sou capaz de a situar em Espanha que, tal como Portugal, nasceu num quadro da chamada reconquista cristã. Compreendo a alusão histórica, mas não gosto de utilizar esse tipo de terminologia porque acho, antes de mais, que serve mais para distanciar as posições do que propriamente para fazermos qualquer coisa em conjunto e nos reencontrarmos mais à frente.


Horta vertical
Timothy Radcliffe, o.p., em “Ir à Igreja porquê?”, nota que “as pessoas que contactam com a terra e com o milagre anual da fertilidade raramente são ateias. Contudo, num supermercado, os vegetais são revestidos de plástico e tornam-se mais produtos do que dons”.
No ambiente cada vez mais urbano em que vivemos (note-se, no entanto que a expansão dos cristianismo nascente foi essencialmente urbana), tudo é construído pelas mãos humanas, há mais bulício, menos silêncio, menos abertura à gratidão. António Alçada Baptista, salvaguardando que não tinha grandes sentimentos bucólicos, dizia que “é necessário saber deitar as coisas na terra e sentir que elas crescem e levam tempo a crescer”, porque há toda uma “abissal distância entre plantar uma couve e escrever um ofício numa repartição”.
Radcliffe conta uma história elucidativa:
Quando Oshida orientava um retiro aos bispos asiáticos, mandava-os para aos arrozais, nos primeiros dias, para plantarem arroz, e recusava-se a deixá-los parar por causa das dores de costas e de joelhos. Escreveu ele: “Um camponês que trabalha duramente, desde a aurora até ao crepúsculo, sabe que um grão de arroz não é um produto seu, uma coisa feita pelo seu próprio esforço, mas algo que lhe é dado, por Deus. Deve oferecer o grão de arroz a Deus que está oculto, mas que tudo dá. Deve dizer: ‘Isto é vosso’”.
Não admira, por isso, que em algumas cidades estejam a surgir hortas, ou que de vez em quando volte a moda dos bonsais, ou que alguns criem jardins nas varandas. Na realidade, mais do que da economia da horta e da estética das varandas, precisamos de escutar o crescimento demorado e silencioso que é sempre uma dádiva de algo que nos ultrapassa.

De 4 a 6 de Janeiro de 1964, Paulo VI peregrinou à Terra Santa. Foi a primeira vez desde Pio VII (Papa de 1800 a 1823; viajou a Paris para coroar Napoleão e esteve preso em Savona e Fontainebleau) que um Papa saiu de Itália. Julgo que foi a primeira vez que um Papa foi à Terra Santa, além de Pedro.
Num sábado, domingo e segunda, o Papa aterrou em Amã, na Jordânia, esteve em Amã e Jerusalém no primeiro dia, seguindo os passos de Jesus na Vida Dolorosa, presidindo à missa no Santo Sepulcro e rezando no Getsémani. No dia 5, esteve em Nazaré, Caná, Cafarnaum, Monte Tabor (tudo na Galileia) e regressou a Jerusalém. Na Jordânia, ainda neste dia 5, um momento histórico de primeira grandeza: encontra-se com o patriarca Atenágoras de Constantinopla. É a primeira vez que o primaz de Roma e o de Constantinopla se encontram desde a tentativa de aproximação das duas igrejas no Concílio de Florença (1439).
No dia seguinte vai a Belém, volta a Jerusalém e fala novamente com ortodoxos e muçulmanos. De Amã regressa a Roma com o epíteto de “Papa peregrino”.

Pouco depois da inauguração do pontificado, conseguiu entrar no quarto pontifício um grupo de amigos de Cracóvia. Amizade era uma coisa, mas o Papa era outra, e ajoelharam-se todos,- Não façam folclore – disse o hospedeiro.

Um leitor atento e contributivo informa (aqui, nos comentários) que o livro de T. S Eliot “Old Possum's Book of Practical Cats” (em cima a capa da primeira edição), uma série de poemas sobre a psicologia e sociologia felina, deu origem ao musical “Cats”. E eu só lhe agradeço, mesmo não sabendo quem é.

Os japoneses têm, ou têm de ter, ou procuram até encontrar, a sua “ikigai”, “algo importante para o qual vivem”, o motivo pelo qual se levantam bem-dispostos de manhã. A “raison d'être”, dizem os franceses. Mas se for dito em japonês tem mais piada.
Quem tem “ikigai” vive mais tempo. “Ikigai” é um conceito compreensivo que descreve um bem-estar subjectivo. Varia de pessoa para pessoa. Mas o que interessa é que dá sentido à vida. Encontrá-la (decidi que é de género feminino, como a felicidade e a alma) significa aumentar uns anos à vida. E, mais do que isso, mais vida aos anos.
Vi num vídeo TED, aqui (ver a partir do minuto 10, ou então, 10m40s; mas vale a pena ver tudo).
Confirmei aqui.




No dia 2 de Janeiro de 1625, no reinado de Luís XIII, para normalizar e aperfeiçoar a língua francesa, o cardeal de Richelieu funda a Academia Francesa.
Desde então, a Academia é constituída por 40 eleitos pelos seus pares (“les immortels”). Até 2009 passaram pela Academia 719 intelectuais, de romancistas a bispos (actualmente está lá D. Claude Dagens, há tempos aqui referido), de cientistas a políticos. De momento, há quatro cadeiras vazias, segundo o sítio oficial (aqui).
A primeira mulher na Academia foi Marguerite Yourcenar, em 1980.
Uma vez eleitos, os académicos não podem deixar o lugar, mesmo que de demitam (caso de Julien Green), mas podem ser afastados, como os colaboracionistas, após a II Guerra Mundial.

Bento Domingues escreve na sua crónica de hoje (ver aqui), a propósito da liberdade religiosa, condenada por papas ao longo de séculos, mas consagrada no II Concílio do Vaticano: “A cortesia oficial dos documentos eclesiásticos diz sempre, com humor inconfessado, que está a continuar aquilo mesmo que está a modificar: «Este Concílio Vaticano investiga a sagrada tradição e a doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos»” (Dignitatis Humanae, 1).
Tive um professor, que, julgo que citando alguém da sua companhia, dizia: “Não sabemos quando a Igreja vai começar a ordenar mulheres, mas já sabemos como começa o documento que vai instituir a ordenação de mulheres: «Conforme a sagrada tradição e a doutrina da Igreja…».

Quem tiver talento, trate de o não esconder; quem tiver abundância de riquezas, não seja avaro no exercício da misericórdia; quem tiver um ofício para se sustentar, partilhe com o seu próximo a utilidade e o proveito do mesmo.
Gregório Magno, Homilia IX, 7
Gregório Magno foi Papa de 3 de Setembro de 590 a 12 de Março de 604. Alto funcionário da administração romana, tornou-se monge beneditino. Como Papa, foi responsável pelo envio dos primeiros missionários para as ilhas britânicas e pela divulgação do tipo de música que hoje é conhecido como canto gregoriano.

Basílio de Cesareia (Cesareia Mazaca, na Capadócia, Turquia), um dos quatro grandes padres do Oriente, doutor da Igreja, morreu no dia 1 de Janeiro de 379.
Além da defesa da fé de Niceia (contra Ario), Basílio notabilizou-se pelos seus escritos pneumatológicos (sobre o Espírito Santo) e por ter criado uma extensa obra social que incluía “sopa dos pobres”, centro de acolhimento para pobres e peregrinos, hospício e hospital. Chamou-se basilíada a esta cidade da caridade que pode bem ser considerada antecessora dos hospitais.

Se me envolve a noite escura
E caminho sobre abismos de amargura,
Nada temo porque a Luz está comigo.
Se me colhe a tempestade
E Jesus vai a dormir na minha barca,
Nada temo porque a Paz está comigo.
Se me perco no deserto
E de sede me consumo e desfaleço,
Nada temo porque a Fonte está comigo.
Se os descrentes me insultarem
E se os ímpios mortalmente me odiarem,
Nada temos porque a Vida está comigo.
Se os amigos me deixarem
Em caminhos de miséria e orfandade,
Nada temo porque o Pai está comigo.
Hino da Liturgia das Horas
Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...