sábado, 11 de dezembro de 2010

Gianfranco Ravasi e os canais de diálogo da Igreja com o mundo


Anish Kapoor

O cardeal Gianfranco Ravasi deu uma entrevista ao “La Reppublica” em que fala de Igreja e comunicação (do tempo em que era tudo mais simples à época, a actual, em que são precisas novas gramáticas de comunicação para não se ser atropelado pelo sistema mediático), relativismo e diálogo com a cultura. Reproduzo a segunda metade da entrevista, onde se fala da relação com a ciência e a arte. Copiei do IHU (aqui).

La Reppublica - Os canais desse diálogo [Igreja / mundo e cultura] são múltiplos. Um dos mais delicados é o com o mundo da ciência.
Gianfranco Ravasi - Stephen Gould, cientista não crente, formulou um princípio que destrói, com um só golpe, concordismo e fundamentalismo, mas também positivismo e neopositivismo. Sintetiza-se no acrônimo NOMA (Non-overlapping magisteria), com base no qual, para explicar a vida, concorrem magistérios diversos – ciência, teologia, literatura, arte – e não superponíveis. Entenda-se bem: trata-se de percursos paralelos que têm, todos, uma legitimidade, se dotados de coerência epistemológica. Essa teoria, embora preciosa, é insuficiente, porém. Porque, como o objeto de investigação é o mesmo – o homem –, os diversos magistérios inevitavelmente acabam por se cruzar. Por meio de duetos e de duelos.

O entomólogo Norman Lewis sugere um caminho, aparentemente, mais modesto. Visto que criacionistas e evolucionistas não concordam sobre o início do mundo, que o esforço comum se concentre na criação, na preservação de todo ser vivo.
Certamente é justo buscar o acordo onde é mais fácil encontrá-lo. Mas, a meu ver, é preciso confrontar-se também sobre as razões primeiras. Veja, frequentemente, criação e criacionismo, evolução e evolucionismo são usados como sinônimos. Eu, ao contrário, prefiro me concentrar no primeiro binômio, criação-evolução, porque, nesse caso, não necessariamente se vai ao encontro de uma colisão, ao contrário. Em âmbito teológico, o conceito de criação é elaborado com base em princípios de causalidade e finalidade. Dito isso, o homem pode escolher o fruto do bem ou do mal. Portanto, a palavra-chave, no Deus criador cristão, é relação, não domínio. Tanto é que se prevê a liberdade humana e o desenvolvimento da história. Como se vê, o diálogo com a ideia de evolução é possível.

Uma curiosidade, talvez boba. Como é que o senhor, assim como o Papa, além de Veltroni e Fini, citam Saint-Exupéry?
Talvez, porque certas frases dele soam como verdadeiras parábolas. Lembra-se daquela do navegador? Ao navegador, não se deve apenas ensinar como se constrói um navio, mas infundir nele a nostalgia do mar espaçoso e infinito. Os políticos a usam do ponto de vista mundano, mas na realidade é uma parábola da transcendência. No mundo contemporâneo, permanecemos sempre constrangidos na dimensão do acessível, enquanto devemos pensar mais no inacessível, no infinito.

Entre as tarefas do Pontifício Conselho para a Cultura, está também a da relação entre religião e arte, interrompida há muito tempo, como Paulo VI viu bem há 40 anos.
E pensar que arte e fé são irmãs, viajam em trilhos paralelos. Henry Miller, que certamente não era um crente, dizia que a arte e a religião não servem para nada, exceto para mostrar o sentido da vida. Por isso, é paradoxal que não se falem mais. E aqui a Igreja tem as suas responsabilidades. Desde o século passado, ela começou a usar recalques na arquitetura: o neogótico, o neoclássico. E, no lugar da grande arte sacra, ela se confiou a um artesão que muitas vezes ultrapassa o limite do mau gosto. Ou, pense-se em como ela se retraiu diante da música dodecafônica, enquanto no século XV ela havia acolhido uma revolução muito grande, quando se passou da voz monódica do gregoriano à polifonia. Eu estou me empenhando a fundo para retomar esse diálogo. Espero, por exemplo, que na Bienal de Veneza de 2013 possa haver finalmente o estande da Santa Sé, onde grandes artistas – de Bill Viola a Anish Kapoor – se confrontem com os primeiros 11 capítulos do Gênesis: a criação, o dilúvio e a decriação, o mal, a violência, o imperialismo da Babilônia. Nesses 11 capítulos, já estão todos os grandes temas da humanidade.

Esquecer

Anselmo Borges: Ética ecológica

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É significativo que, até pela via etimológica, ética e ecologia estão relacionadas. De facto, ética vem do grego êthos, que significa costumes e morada; ecologia provém de duas palavras gregas (oikos, casa, e lógos, razão, discurso) e significa tratado da casa, também em conexão com economia (oikos e nómos, lei), a lei da casa.


Logo pela etimologia se vê a importância decisiva do tema, pois é da nossa casa e do cuidado por ela que se trata. O debate tem-se tornado premente por causa da crise ecológica: alterações climáticas, contaminação do ar, do solo e da água, desertificação, extinção de espécies.


A responsabilidade ética é evidente, mas não é fácil responder a perguntas que se colocam neste domínio. Por exemplo: como se fundamentam os nossos deveres para com a natureza? Somos obrigados a cuidar dela por causa de nós ou porque ela tem valores objectivos?

Ler tudo aqui.

Manoel de Oliveira faz hoje 102 anos

Recompensa

A recompensa de Deus é o próprio Deus… Pedi outra coisa se achardes alguma outra coisa melhor.

Santo Agostinho (354-430)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

10 de Dezembro de 1968. Morre o teólogo Karl Barth

Karl Barth nasceu (10 de Maio de 1886) e morreu (10 de Dezembro de 1968) em Basileia, Suíça. Pastor da Igreja Reformada, ensinou teologia na Alemanha, mas, por se ter recusado a apoiar Hitler, teve de regressar à Suíça. Liderou a Igreja Confessante, opositora ao regime nazi.

Além da “Epístola aos Romanos” (1919-1922), em que relativiza o método histórico-crítico e realça que o único caminho praticável entre Deus e o ser humano é Jesus Cristo, entre outras obras, naturalmente, Barth escreveu “A Dogmática Eclesial” entre 1932, antes da ascensão de Hitler ao poder, e 1967. Treze tomos com cerca de 10 mil páginas. É, provavelmente, a obra teológica individual mais importante do século XX.

Ernâni Lopes, um homem livre

Opinião de Maria José Nogueira Pinto, no DN de ontem (9 de Dezembro de 2010) sobre o livro do Papa e sobre o economista que além de ser exemplo da prática da economia com ética viveu com uma dignidade extraordinária últimos anos de vida - marcados por um cancro.

O portal VER, dos empresários e gestores cristãos, reproduz um texto do "Jornal de Negócios". Em excerto:
As características de missão, coragem e combatividade foram uma das suas marcas nos últimos anos de vida. A doença apanhou-o era "chairman" da PT. Mesmo nos dias dos violentos tratamentos a que se teve de submeter lá estava na empresa, sem que ninguém e apercebesse.
...
Coragem, independência, determinação, convicção, combatividade. São as expressões que se ouvem quando se fala de Ernâni Lopes. Características aliadas à frontalidade e a uma elevada capacidade de comunicação. Ninguém lhe podia ficar indiferente. Portugal perdeu um homem livre.

Ler tudo aqui.

"Medicina é contra o filtro"


Só hoje li a crónica de João César das Neves da segunda-feira passada. Começa assim:

O Papa anda de novo nas notícias. Foi insultado em Barcelona e falou do preservativo num livro (“Luz do Mundo”, Lucerna 2010). Parece que a sociedade não entende mesmo a Igreja. Olha que novidade! Nunca entendeu. Podemos até caracterizar cada geração pelos motivos da sua crítica anticatólica.
O tema hoje é... sexo. O que traz à discussão elementos curiosos e efeitos profundos. O debate do preservativo mostra-o bem. Imagine um jornalista perguntar ao médico: "Devo fumar cigarros com filtro?" A resposta natural é que não deve fumar. Então o jornal publica a manchete: "Medicina é contra o filtro." O mal é o tabaco, mas os médicos também acham que uma vida saudável não precisa de filtros para respirar. Então um jornalista mais insistente consegue que o médico diga: "Se faz o erro enorme de fumar, então use filtro", e o jornal publica a novidade: "Medicina muda de posição sobre o filtro." Foi uma tolice deste calibre que se verificou agora.

A comparação está engraçada e é um exemplo interessante para as aulas de jornalismo. Mas é ligeiramente coxa, como a maior parte das comparações. Fumar é intrinsecamente maléfico. E não estou a ver nenhuma situação em que seja bom fumar. É muito diferente com a sexualidade. Ler o resto aqui.

Vender o Vaticano, outra vez

"Vender o Vaticano para acabar com a fome?" Quando vi este título do jornal “O Diabo”, pensei: “«O Diabo» quer vender o Vaticano”. Mas afinal é exactamente o contrário. «O Diabo» acha diabólica a ideia da venda do Vaticano.

Mas não sabia e fiquei a saber que corre uma petição para a venda o Vaticano para acabar com a fome. Só não percebo é por que é que há-de ser sempre a venda do Vaticano que há-de acabar com a fome. Por que não a do Louvre, que tem mais arte e uma boa parte dela chegou lá pelo roubo e pela pilhagem? Ou a do British Museum? Ou a venda completa da cidade de Florença?

É claro que nenhuma dessas vendas resolveria a fome do mundo. Aliás, as receitas dos museus do Vaticano contribuem para algum alívio da fome das comunidades onde trabalham missionários cristãos.

Mas já houve um Papa que pensou em vender bens do Vaticano para ir acabando com algumas fomes e de caminho acabar com a lengalenga de o Vaticano ser muito rico – o que resolveria muito pouco da fome, mas poderia ser um sinal: Paulo VI, que vendeu a tiara e deu o dinheiro que recebeu.

O Papa Montini pensou em ir mais longe e contactou um negociante de arte, judeu, com a ideia de vender peças para fins caritativos. Li isto numa revista, na recensão a um livro, mas infelizmente não me lembro do nome do negociante nem do livro. E perdi a revista. Sei que o nome do "marchand" terminava em “berg”. De tempos a tempos recorro ao Google, mas ainda não encontrei nada de relevante. Mas lembro-me muito bem da nega que o negociante deu ao Papa: “Mas Vossa Santidade quer que eu seja o novo Judas?”


Razão

Jean Daniélou com Andre Chouraqui

Um Deus que a razão dominasse não seria nem um Deus pessoal, nem um Deus transcendente. É ao afirmar ao mesmo tempo que Ele existe e que Ele a ultrapassa que a razão o conhece enquanto Deus.

Jean Daniélou (1905-1974)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Depois de comungar, uma criança...

Depois de comungar, uma criança regressa ao seu lugar e pergunta à senhora que está na ponta do banco:

- Eu pisei o pé da senhora quando saí?

A senhora responde, sussurrando, pronta para aceitar o pedido de perdão, julgando que é efeito da comunhão acabada de fazer:

- Sim, mas não faz mal.

- Óptimo - responde o garoto. Então, é este o meu banco.

9 de Dezembro de 1669. Morre o Papa da colunata de Bernini

"Clemente IX", por Carlo Maratta (1669)

Papa de 1667 a 1669, Clemente IX nasceu no dia 28 de Janeiro de 1600 e morreu no dia 9 de Dezembro de 1669.

Deste breve pontificado realça-se o interesse pelas artes. Clemente IX protegeu Gian Lorenzo Bernini, que neste período esculpiu os anjos da Ponte Sant’Angelo e a colunata da Praça da Basílica de São Pedro, e fez abrir em Roma a primeira ópera.

Em 1668, depois de longas negociações, consegui a paz na igreja francesa, a chamada "paz clementina". Uma ambígua fórmula permitia que os jansenistas prometessem obediência sem tocar em questões teológicas.

Ainda a "Vida de Maus", de Alçada Baptista

Fernando Correia de Oliveira (da Estação Cronográfica; já agora, veja-se aqui a referência ao IV centenário da morte do jesuíta "chinês" Matteo Ricci) deixou aqui a nota que se segue, a propósito do projecto de Alçada Baptista intitulado “Vida de Maus”, que não posso deixar de destacar e agradecer:


Sou amigo de um dos filhos de António Alçada Baptista e ele disse-me que o livro em causa não terá passado do projecto. "Quanto a possíveis apontamentos, tenho comigo seis caixotes enormes com os papéis que guardei dele", confidenciou-me. "Mas ainda não tive tempo de lá mergulhar, apesar da vontade ser muita".

Aproveito para incluir aqui a digitalização da página onde li a referência a tal projecto como obra “Em preparação”.

Com certeza que nos “seis caixotes enormes” que um dos filhos guardou haverá muita coisa interessante. A começar pela correspondência.

De qualquer forma, esta “Vida de Maus” afigura-se-me como algo muito estimulante. Remete para as clássicas vidas de santos. Uma “Vidas de Maus” poderia ir em dois ou três sentidos possíveis.

Ou contar a vida de pessoas que não foram declaradas santas mas que são exemplares. Pensemos em teólogos, em políticos, em artistas, ou em católicos que na época de Alçada Baptista se batiam contra a ditadura ou que se esforçavam por dialogar com as margens, ou que queriam estabelecer pontes entre o cristianismo e o marxismo…

Ou contar a vida de pessoas más de onde saiu coisa boa. Vilões. Como se sabe, “Deus escreve direito por linhas tortas”, como dizia Congar, um teólogo que Alçada Baptista publicava na revista “Concilium”. Tal como há bons que fazem coisas más, há maus que fazem coisas boas. O próprio Tomás de Aquino dizia que a piedade não era a primeira qualidade dos políticos, mas sim o zelo pela coisa pública. E são todos eles (todos nós) que fazem a Economia do Amor. O trigo e o joio andam muito misturados. Até na mesma pessoa.

Mas o livro também poderia ser sobre o corpo e o amor. Sempre uma anti-hagiografia. Pelo menos no sentido tradicional.

Natal digital viral

Mais um caso de publicidade viral. E com sucesso, pois não param de cair sugestões na minha caixa de mail para ver este vídeo. E eu contribuo.

Nem sempre a gaffe é a morte do artista

O padre polaco Slawomir Oder é o postulador da causa de beatificação de João Paulo II. Ou seja, apresenta argumentos para que JPII seja declarado beato (e a seguir santo; ver notícia da “Visão” aqui). O jornal “i”, além da notícia, apresenta três casos passado com o postulador que, em si, já mostram a excepcionalidade de JPI. Ou antes: que às vezes as gaffes até dão jeito.

Prepotência ou acolhimento para os divorciados?

Era uma vez um médico, totalmente dedicado à saúde dos seus pacientes, que aplicava com rigor o que tinha estudado. Um dia chegou à sua consulta um paciente com fortes dores num dedo do pé. O ilustrado médico diagnosticou rápida e acertadamente: “Isto é gangrena”. E repetiu o que dizia o seu livro: “A gangrena não tem cura, deve-se amputar para evitar a sua extensão ao resto do corpo, cortando pela parte sã”. Depois de urgentes preparativos, o doente entrou no mesa das operações e saiu com as penas amputadas. Naturalmente, aquele zeloso méidio ficou sem clientes.

Não será algo parecido o que se passa na Igreja, especialmente com os divorciados?


Início do texto de Jairo del Agua sobre o caminho a fazer da intransigência religiosa à misericórdia evangélica no caso do recasamento do divorciados, porque é preciso evitar a prepotência sobre os seres humanos, que fecha portas em vez de curar feridas. Em espanhol, aqui.

Razão superior

É certo que a convicção – aparentada ao sentimento religioso – de que o mundo é racional, ou, pelo menos, inteligível, está na base de todo o trabalho científico um pouco elaborado. Esta convicção, profundamente ressentida, de uma razão superior que se manifesta no mundo da experiência constitui a minha concepção de Deus.

Albert Einstein (1879-1955)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Anjo caído

Há dias o Equinócio de Outono (aqui, ver dia 28/11/10) "postou" uma quadro magnífico sobre o anjo da guarda. Chama-se "Anjo ferido". Foi pintado em 1903 por Hugo Simberg (1873-1917). O pintor com certeza teria em mente aquelas representações clássicas do anjo da guarda. Os amigos são para as ocasiões.


Dia da "cheia de graça"

“Imaculada Conceição”, de Giovanni Battista Tiepolo (séc. XVIII), no Museu do Prado

Hoje é dia da Imaculada Conceição. O dogma diz que Maria foi preservada do pecado original com vista aos méritos de Jesus. Tal como o tabernáculo do Antigo Testamento tinha de ser feito de material nobre para conter a Arca da Aliança, o tabernáculo da Nova Aliança tinha de ser puro.

O dogma só foi declarado no dia 8 de Dezembro de 1854, pelo que há muitos cristãos que não o aceitam, embora há muito fosse acreditado, principalmente na Península Ibérica.

Na verdade, sem deixar de considerar que Maria tem um papel importante na História da Salvação, no cristianismo, por vezes parece-me que este dogma está demasiado dependente da teologia do pecado original (que diz um pecado das origens marcou toda a humanidade, passando de geração em geração), que, por sua vez, é um barco que mete água por todos os lados, demasiado agustiniano.

Mas creio que Maria é a “cheia de graça”.

Queda

O que é a queda? Se foi a unidade tonada dualidade, foi Deus quem caiu. Por outras palavras, a Criação não seria ela a queda de Deus?

Charles Baudelaire (1821-1867)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O que é feito da "Vidas de Maus" de António Alçada Baptista?

Passando hoje dois anos sobre a morte de António Alçada Baptista, peguei no livro “O Tempo nas Palavras”, que reúne as suas crónicas em “A Capital”, nos idos de 1972-73 (já então de dizia que a Felicidade Nacional Bruta devia substituir o Produto Nacional Bruto, hoje Produto Interno Bruto), à procura de uma história que queria copiar para este blogue. Não a encontrei, mas deliciei-me a ler uma série delas. António Alçada Baptista era um dos melhores contadores de histórias e casos pessoais. Leia-se a crónica da “Máxima” a seguir.

Mas espantou-me que na lista das obras do autor se escrevesse: “Em preparação: «Vidas de Maus – Elementos para uma anti-hagiografia – Pequeno Manual de Economia do Amor»”. Tanto quanto sei, tal obra nunca foi publicada. Pelo menos não aparece em nenhuma lista das suas obras. Mas devem existir apontamentos. Quem os pode publicar?

Crónica copiada daqui. Clique para aumentar.

7 de Dezembro de 2008. Morre António Alçada Baptista


António Alçada Baptista (Covilhã, 29 de Janeiro de 1927) morreu em Lisboa, no dia 7 de Dezembro de 2008.
Teve uma longa carreira de serviço público (jornalismo, assessor do ministro da Educação, criador do Instituto Português do Livro, promotor das relações culturais entre Portugal, Brasil, Cabo Verde e Moçambique, crítico do hino nacional…), mas aqui interessa mais ter sido um “católico progressista” nos anos 50 e 60 do século passado, director da editora Moraes (ai a colecção "Linha de Risco", com o John A. T. Robinson, o Paul Tillich, o Encarnação Reis...; ai a revista "Concillium" editada a partir de Portugal...) e um dos fundadores da revista “O Tempo e o Modo”.
Os cristãos do século XXI ainda lhe devem muito.
António Alçada Baptista tem sítio aqui. Dá para ler as crónicas na revista "Máxima", por exemplo.
A foto acima foi tirada do Centro Nacional de Cultura (aqui).

João Paulo II ainda vai ser santo?

Na "Visão" da semana passada (2 de Dezembro), um texto sobre o postulador da causa de João Paulo II (que fez um périplo por vários jornais e revistas). Confesso que sempre me incomodou um pouco que tenha de haver milagres para que uma pessoa seja declarada santa. Se o milagre é de Deus, a "coisa" está dependente de Deus. É bem de ver. O tal "selo". Mas Deus é livre para fazer milagres.

Não chega a atestação meramente humana? O Padre Américo, português, por exemplo, não é santo. Porquê? Porque não há suficiente dinheiro a impulsionar a causa, isto é, a pôr gente à procura de um milagre ou, talvez, a promover a popularidade do Pai Américo para que se lembrem de invocá-lo nas aflições...

Em relação aos milagres, há sempre uma objecção de base que não afecta a fé em Deus (porque é fé), mas afecta a fé no milagre. Os milagres são sempre coisas contra as leis físicas, mas só até certo ponto. No fundo, nunca são verdadeiros milagres. Não há milagres impossíveis. Não crescem braços em amputados, por exemplo. Talvez a teologia católica clássica já tenha resolvido essa objecção. De qualquer forma, dever-se-ia evitar a maçada de ter que encontrar um milagre atribuído à intercessão do santo.

Em relação a João Paulo II, de todo o modo, há algumas objecções fortes. O imbróglio do Banco Ambrosiano nunca foi bem explicado. E do Banco do Vaticano (IOR) ainda persiste. E há também a questão dos Legionários de Cristo. Dinheiro e sexo. Desde 2000 que se sabe que o fundador tinha vida dupla. E nada se fez até Bento XVI.


Implicações religiosas das recentes descobertas da ciência

Diarmuid O'Murchu

Diarmuid O'Murchu, irlandês, padre da Congregação Missionária do Sagrado Coração, reflecte sobre a fé e a vida religiosa à luz das novas descobertas da ciência. Publicou os livros "Quantum Theology", "Evolutionary Faith"e "Reclaiming Spirituality". No “National Catholic Reporter” publicou uma estimulante reflexão sobre “implicações religiosas das recentes descobertas da ciência”. Termina com oito pensamentos que copiei daqui.

1. Muito antes de a religião evoluir, o homem acreditava que o divino estava intimamente envolvido na criação. Todas as religiões sustentam essa ideia. Seria, então, a criação uma espécie de revelação primária de Deus a nós? Se assim for, precisamos observar atentamente a como entendemos a criação.

2. Nossa tendência humana, especialmente nos últimos 2 mil anos, é a de reduzir a criação a um artefato humano, que podemos usar e subjugar à nossa vantagem. Todas as grandes religiões, de uma forma ou de outra, endossam essa orientação. Consequentemente, não podemos mais aceitar que as compreensões religiosas da criação são, de certa forma, adequadas, espiritual ou teologicamente.

3. Embora os cientistas também assumam o interesse viciante com o poder e o controle, muitas de suas intuições sobre a vida cósmica e planetária podem ser muito mais informadas espiritualmente agora do que as compreensões das religiões formalizadas. Por outro lado, vários desses conhecimentos científicos são congruentes com os dos grandes místicos de todas as tradições religiosas da humanidade.

4. Os teólogos cristãos manifestam um forte interesse com o conceito de creatio ex nihilo (criação a partir do nada). Eles pretendem manter essa crença, a fim de salvaguardar a iniciativa divina e, presumivelmente, sua compreensão do poder divino. Hoje, nós entendemos o nada primordial como um substrato da criatividade efervescente. Talvez, para Deus, a noção de um ponto de partida não é significativa. Que isso não seja outro deslumbramento antropocêntrico!

5. As escrituras de todas as tradições fazem alusão ao fim do mundo. Ele é muito explícito nas tradições cristã e muçulmana. A ciência contemporânea está se movendo rapidamente em direção à noção de um mundo sem começo nem fim. Não seria esse um indicador mais forte da verdade, ao invés da postura antimundo que algumas das principais religiões sustentam?

6. O grande temor – científica e religiosamente – gerado por muitas dessas novas ideias faz referência ao nosso lugar e papel humanos no plano da criação. Está abundantemente claro que não estamos no comando, que não somos a espécie máxima em qualquer sentido, que dependemos de muitos outros aspectos da criação para sobreviver na terra, que somos um pequeno organismo dentre muitos outros e, perturbadoramente, não somos tão sábios quanto nós gostaríamos que fôssemos. Então, qual é o nosso propósito?

7. De todas as respostas a essa questão, a que eu acho mais desafiadora e inspiradora é a proposta de que somos a criação tornando-se consciente de si mesma. A nossa singular vocação - e contribuição para a criação – é aumentar o crescimento da consciência. Uma gigantesca responsabilidade! (Talvez é disso que os grandes místicos trataram e tratam!).

8. Teologicamente, a questão crucial está em torno da noção de revelação. Se o divino vem revelando criatividade e sentido em toda a história da criação, ao longo desses bilhões de anos, por que restringir a autonomia do divino aos limites de tempo e cultura religiosamente validados? De alguma forma, isso não parece fazer mais sentido!

Puzzle

Deus é um puzzle de que nos faltará sempre uma peça.

Romano Celli (1949-1995)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O livro do Papa (2): És o sucessor de um pescador

S. Bernardo na capitular de um manuscrito

O capítulo 7 do livro “Luz do Mundo”, intitulado “Habemus Papam”, e primeiro da segunda parte ("O Pontificado"), para mim, foi o mais revelador, até agora, da leitura intermitente que venho fazendo.

Duas coisas que eu não sabia e fiquei a saber (a primeira considero-a uma lacuna apreciável, embora em seja mais abelardiano do que claravalense). A primeira: a pedido do Papa Eugénio III, São Bernardo de Claraval redigiu um exame de consciência intitulado “O que um Papa tem de ter em consideração”. Pelos vistos é leitura obrigatória dos Papa. Numa próxima oportunidade, obviamente sem pretensões papais, vou querer ler tal livro. Diz Bento XVI: “As «considerações» de Bernardo são, naturalmente, uma leitura obrigatória para qualquer Papa. Lá estão também advertências importantes, como por exemplo: «Lembra-te de que não és um sucessor do imperador Constantino, mas sim o sucessor de um pescador»”.

É uma consideração sem dúvida alguma importante, porque durante a maior parte da história os Papa procederam exactamente em sentido contrário. Dessas «considerações» Bento XVI realça principalmente uma: não ficar absorvido no activismo.

A segunda: Paulo VI tinha um diário. Escreveu na noite da eleição sobre o “profundo sentimento simultaneamente de mal-estar e de confiança”. Chegou a pensar em suspender a oração do Angelus a partir da janela do Palácio Apostólico. Escreveu, diz Seewald: “Que necessidade é esta de querer ver uma pessoa? Tornámo-nos um espetáculo”.

Bento responde que compreende os sentimentos de Paulo VI, mas que interpreta que o desejo das pessoas como um desejo de contactar com o “representante do Santificado, com o mistério de que existe um sucessor de Pedro”. Não se trata de uma “homenagem pessoal”.

De qualquer forma, mais aumentou a minha admiração por Paulo VI, o maior Papa do século XX.

Missas sem padre

Numa paróquia, à hora da missa, o padre não está presente. As pessoas começam a ficar preocupadas, até que alguém recebe um telefonema. O padre está retido numa complicação de trânsito. A assembleia decide, mesmo assim, fazer a celebração. Pede-se a um leigo mais acostumado às coisas da Igreja que dirija o culto. O leigo começa:

- Já que hoje não temos padre, rezemos a Deus…

Como González Faus sonha uma viagem do Papa

O teólogo José Ignacio González Faus contou à revista espanhola “21” como sonha que deveria ser a viagem do Papa a Barcelona.

O Papa viajou em um avião de passageiros da Alitalia em classe turismo, não business. Não ia como chefe de Estado, nem havia jornalistas no avião. Ao aterrissar, se supusermos que foi no aeroporto de Prat, o arcebispo de Barcelona o recebeu, naturalmente. Dali, em um carro normal, nem blindado nem papamóvel, se transladou... para a La Mina. Conversou com ciganos e imigrantes, romenos ou marroquinos, ouviu suas queixas e suas piadas. E lhes disse o mesmo que, quase 50 anos antes, Paulo VI havia dito aos campesinos da Colômbia: "Vós sois Cristo para mim". Dali foi transladado para a prisão Modelo ou para a prisão de Can Brians, onde teve outra conversa parecida com os presos que quiseram ouvi-lo.

Reuniu-se com um grupo de católicos da diocese, dentre os quais havia um contingente de clérigos ou párocos, outros de religiosos de ambos sexos, outro de leigos e um quarto grupo de mulheres seculares. Não havia entre eles nenhum político ou, em todos os casos, um número bem reduzido. O Papa lhes disse: vim para ouvi-los, porque ouvir-me é algo que vocês podem fazer pelo rádio ou pela televisão, enquanto eu não posso ouvi-los.

O resto, que não é muito mais na versão do IHU, pode ser lido aqui.

Inomeado


Aquele para quem o mundo é essencialmente aquilo de onde se tira proveito perspectivará Deus da mesma maneira. A sua oração é uma forma de se descarregar de um fardo, ela cai no buraco da orelha. Este homem é verdadeiramente mais um homem sem Deus do que um ateu que, do fundo da noite, faz subir pela sua estreita janela o chamamento da sua nostalgia e invoca o Inomeado.

Martin Buber (1878-1956)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Uma oração de vez em quando. Esta é de Tomás de Kempis

Impulso do amor

Nada mais doce do que o amor,
nada mais forte,
nada mais sublime,
nada mais amplo,
nada mais delicioso,
nada mais perfeito
ou melhor no céu e na terra;
porque o amor procede de Deus,
e só em Deus pode descansar,
acima de todas as criaturas.
O amor muitas vezes não conhece limites,
mas seu ardor excede toda a medida.
O amor não sente peso,
não faz caso das fadigas
e quer empreender mais do que pode;
não se escusa com a impossibilidade,
pois tudo lhe parece lícito e possível.
Por isso, de tudo é capaz e realiza obras,
enquanto o que não ama desfalece e cai.


Tomás de Kempis (1380-1471)

Bento Domingues: O sonho é a fonte

Escondido

Alguma coisa me ajudou. É a ausência de provas da existência de Deus, Deus escondido. Para mim, esta ausência de provas é a primeira prova: porque, se Deus respeita o homem, Ele deve querer da nossa parte uma adesão livre: Ele não nos deve meter numa obrigação de crer nele.

Henri-Georges Clouzot (1907-1977)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Documento da reforma litúrgica

O “Público” de hoje, na secção “No passado” lembra que foi no dia 4 de Dezembro de 1963 que Paulo VI assinou o documento “Sacrosanctum Concilium”. Saída do Concílio Vaticano II, a constituição sobre a “sagrada liturgia” introduzia a possibilidade de celebrar os sacramentos na língua vernácula. Tal significou, praticamente, o fim da missa em latim. No entanto, assiste-se hoje ao crescimento da missa em latim entre os grupos católicos tradicionalistas.

“Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes” (n.º 36, parágrafo 2 da "Sacrosanctum Concilium").

4 de Dezembro de 749. Morre João Damasceno, pai da cultura audiovisual

João Damasceno nasceu em 676 e morreu no dia 4 de Dezembro de 749.

Reconhecido pela Igreja católica e também por confissões protestantes, João Damasceno, o último Padre da Igreja do Oriente, é um dos pilares da ortodoxia. Escreveu “Exposição da Fé Ortodoxa”.

Teólogo, poeta, filósofo e músico, João Damasceno defendeu o uso de imagens no culto cristão, contra a iconoclastia. Distinguiu entre adoração (“latreia”), que só se pode prestar a Deus, e veneração (“proskynesis”), que pode ser prestada às imagens.

A teologia do Damasceno viria a prevalecer no segundo Concílio de Niceia (787), que condena a iconoclastia. Esta, em si, poderá ter surgido por causa do islamismo circundante e em ascensão, profundamente iconoclasta (pense-se na polémica dos cartoons dinamarqueses; para muitos, o que era condenável era a representação do profeta Maomé; nem sequer tinham visto as caricaturas).

Regis Debray disse há tempos que Hollywood nasce em Niceia II. João Damasceno é, podemos dizer, um dos pais da nossa cultura audiovisual.

Conferência de Anselmo Borges sobre o P.e Joaquim Alves Correia

Anselmo Borges, cujo texto semanal do DN, falando de Joaquim Alves Correia (1886-1951), foi copiado no "post" anterior, proferiu no Centro de Reflexão Cristã uma conferência sobre o "padre cristão", a "figura católica mais lúcida da primeira metade do século XX em Portugal".

Primeira parte:


O resto da conferência pode ser visto aqui.

Anselmo Borges: Cristianismo e Democracia

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Sugiro que se confrontem as ideias repescadas do P.e Joaquim Alves Correia com as do bispo Spong que ontem aqui apontei. Há muitos pontos de contacto. Ambas implicam transformação.

P.e Joaquim Alves Correia


No contexto das celebrações do centenário da República, fica aí uma reflexão sobre o pensamento do Padre Joaquim Alves Correia, a figura católica mais lúcida da primeira metade do século XX em Portugal. Republicano convicto, morreu no exílio, em 1951 - a ocasião próxima foi a publicação do artigo "O mal e a caramunha", que pode ler-se na Antologia que preparei: Joaquim Alves Correia. Cristianismo e revolução.

Foi um precursor do Concílio Vaticano II. Chamavam-lhe o "Padre Larguezas", por causa de um livro admirável: A Largueza do Reino de Deus, que mostra como o Reino de Deus se estende para lá da Igreja. Muito considerado por ateus e agnósticos, como António Sérgio, que o admirava por ser um "padre cristão", ou Bento de Jesus Caraça, que o convidou para escrever De Que Espírito Somos, era um democrata e um pensador. O que hoje mais falta: pensar.


O seu pensamento gira à volta de alguns princípios fundamentais.


1. O princípio primeiro é o da Comunhão transcendente ou Transcendência comunional. No princípio, era a Vida em comunhão. Para o cristianismo, Deus não é o Motor imóvel, mas o Deus unitrino, o Deus Amor, que cria por amor.


Este princípio destrói toda a forma de totalitarismo e supera o niilismo. É preciso salvaguardar a Transcendência. De facto, no quadro da imanência, há sempre o perigo do totalitarismo: a totalidade seria plenamente cognoscível e quem detivesse a verdade toda deveria impô-la. A outra face do totalitarismo é o niilismo. E não é aí que estamos? Mas, se no princípio é a Transcendência comunional, a criação não é cega, tem um sentido.


2. Daqui, derivam todos os outros princípios. Em primeiro lugar, o princípio da liberdade: Deus cria a partir do nada por puro amor, não por necessidade.


3. Outro princípio é o da história, do progresso, da autonomia. Na criação por amor, há a afirmação da autonomia das realidades terrestres. A ciência, a política, a economia, a própria moral seguem as suas normas e regras, sem tutela da religião.


4. Impõe-se o princípio dos direitos divinos do ser humano. Deus não cria por causa dele, mas por causa do ser humano, do seu bem-estar e felicidade. Lá está a afirmação mais revolucionária da história: "O homem não é para o Sábado, mas o Sábado para o Homem". Mesmo as leis de Deus só valem se e na medida em que estão ao serviço da dignidade humana.


5. Segue-se, consequentemente, o princípio da consciência e da tolerância: o princípio do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, no qual se incluem também os ateus que sabem o que isso quer dizer.


6. Outro princípio: o da condenação das absolutizações históricas. A pretensão de realizar totalmente o Reino de Deus no tempo, sob forma religiosa ou secular, é uma tentação constante. Aí está a tentação de confundir o Reino de Deus com a política ou com o dinheiro ou com o sexo.


Ora, isso seria desdivinizar Deus, o que o cristianismo não permite.


A união destes dois princípios - o dos direitos divinos da pessoa, que faz com que todos os seres humanos devam ser respeitados e tenham o direito de participar em todos os domínios da vida como expressão da sua humanidade e para a sua realização, e o da condenação das absolutizações históricas - fundamenta a democracia pluralista, dado que nenhum partido pode ter a pretensão da realização plena e única do ser humano. Por outro lado, esta democracia não pode ser apenas de política formal, pois tem componentes económicas, sociais, ecológicas, etc., o que se traduz nos direitos humanos nas suas várias gerações. A democracia tem de ser política, económica, social, ecológica.


7 . Finalmente, o princípio do sim da esperança. Se Deus é amor, não abandona o ser humano, nem mesmo na morte.


Como disse D. António Ferreira Gomes: "É preciso que não morram no deserto as vozes que, vindas de longe, ainda encerram apelo válido para hoje e para amanhã".

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

3 de Dezembro de 1996. Morre Georges Duby, especialista na Idade Média

Georges Duby nasceu no dia 7 de Outubro de 1919, em Paris, e morreu no dia 3 de Dezembro de 1996, perto de Aix-en-Provence. É um dos maiores especialistas na Idade Média. Ajudou a contrariar a ideia iluminista e positivista de que a Idade Média teria sido uma “idade das trevas” (a própria expressão “Idade Média”, idade entre a Antiguidade gloriosa e o presente de progresso, já comporta algo de pejorativo).

Entre as muitas obras de Duby contam-se os clássicos “O Ano 1000”, “O Cavaleiro, a Mulher e o Padre”, “O Tempo das Catedrais” e “Amor e Sexualidade no Ocidente”. Com Philippe Àries dirigiu também a “História da Vida Privada”.

Note-se que a edição portuguesa da “O Tempo das Catedrais”, que tem como subtítulo “A Arte e a Sociedade. 980-1420”, publicada pela Editorial Estampa em 1979, tem como tradutor José Saramago. Dizem que é uma belíssima tradução.

Noé e o dilúvio universal

Uma catequista contava às crianças do primeiro ano a história de Noé e o dilúvio mostrando bonitas ilustrações.

Uma delas mostrava os animais em fila a subirem para a arca, quando já estava a chover. A catequista explicava que Noé chamava os animais e eles lá iam entrando para fugir do dilúvio. De repente, uma das crianças afirma apontando para a imagem:

- Mas os patos sabem nadar!

Cristianismo: Mudança ou irrelevância. As ideias de Spong


John Shelby Spong (EUA, 1931, bispo retirado da Igreja Episcopal de Newark) escreveu "A New Christianity for a New World: Why Traditional Faith Is Dying and How a New Faith Is Being Born" (Um novo cristianismo para um novo mundo: Como a fé tradicional está a morrer e como uma nova fé está a nascer), que agora foi publicado em Itália.
Li aqui um texto sobre esse livro e as suas concepções não teístas de Deus. O Deus de Jesus, claro. Não conhecia estas teorias, embora há muito se fale de Deus tanto transcendente como imanente. Mas são ideias estimulantes.
O autor professa-se como "um alegre, apaixonado, convicto crente na realidade de Deus". "Acredito que Deus é real e que eu vivo profunda e significativamente em relação com essa divina realidade. Proclamou Jesus como meu Senhor. Acredito que ele mediou Deus de um modo poderoso e único na história da humanidade e em mim".
Do artigo:

Assim, a nova maturidade que nos é pedida, traduzindo-se na dolorosa, assustadora renúncia a "um ser sobrenatural que nos sirva de genitor, que nos cuide, nos vigie e nos proteja", abre caminho para uma nova busca: a de "uma transcendência que entra na nossa vida, mas que nos chama para além dos limites da nossa humanidade, para para um ser externo, mas para o Fundamento de todo o ser", para a compreensão de um Deus que "pode ser aproximado, experimentado, apresentado de modo radicalmente diferente".
A pergunta diante da qual nos encontramos torna-se: "Existe uma realidade que concordamos em chamar com a palavra de Deus, cujo rosto pode estar escondido, mas cujos efeitos posso ver?". E Spong não se isenta à tentativa de dar uma resposta: "Deus é a fonte última da vida. Venera-se Deus vivendo plenamente, compartilhando profundamente". E ainda: "Deus é a fonte última do amor. Adora-se esse Deus amando generosamente, difundindo amor com delicadeza, doando amor sem se deter para avaliar o custo".

Estas ideias aproximam-se, parece-me, das de um livro de Christian Bobin, que li há mais de uma década e definitivamente perdido nos “livros emprestados”. Tratava-se de uma biografia de S. Francisco de Assis em que este tratava a Deus por “o Baixíssimo”. Aliás, a proximidade de Deus (Abbá, papá), é afinal, a grande inovação religiosa do cristianismo.
As consequências que Spong antevê para a Igreja não são muito diferentes do que em vários sectores católicos se defende.
Do mesmo modo, a Igreja do futuro se dedicará à expansão do Reino de Deus, agindo com determinação não por um programa religioso, mas pelo programa da vida, da vida em abundância para todos, não impondo sua própria verdade a ninguém, mas vivendo só "para aumentar o amor que está presente na vida".
Vale a pela ler e pensar. “Mudança ou irrelevância, enfim, é essa alternativa: embora a tarefa seja imensa, embora pareça ambiciosa, a reformulação de toda a fé cristã será sempre mais o seu único caminho de sobrevivência”.

O livro do Papa (1): As primeiras páginas

Até onde cheguei, ainda não sei qual é a marca dos óculos


Dobrei há poucos minutos a página 50 do livro do Papa, “Luz do Mundo” (ed. Lucerna). Falta-me ler três quartos.

Destas 50 páginas, registo, para já, o seguinte:

- Bento XVI pensou na guilhotina quando foi eleito: “Agora vai cair e apanhar-te”.

- Durante um conclave havias três vestimentas papais preparadas, uma pequena, uma média e uma grande [Bento não diz qual usou].

- João Paulo II tinha lido a “Introdução ao Cristianismo” de Ratzinger e tal obra foi importante para chamar o então teólogo e bispo alemão para o Vaticano.

- Ratzinger não queria ser bispo, não queria ser prefeito e não queria ser Papa. Aceitou por serviço [fico sempre na dúvida se uma pessoa deve aceitar o que em consciência acha que não deve ser.]

- O Papa é “um homem totalmente impotente. Por outro lado, detém uma enorme responsabilidade" [uma boa frase para ser meditada noutras ocasiões].

- A frase “Onde está Pedro, aí está a Igreja” não é de Santo Agostinho, emenda Bento XVI o jornalista [não diz de quem é, mas julgo que é de Ambrósio de Milão, mestre de Agostinho].

- “O Papa pode errar nas suas opiniões particulares" [a dificuldade está é em sabermos o que é particular e o que é geral ou universal, acrescento eu].

- [Seewald:] Houve papas que disseram “O senhor deu-nos este cargo; agora queremos desfrutar dele” [quais? Julgo que um terá sido Leão X. Tenho de confirmar].

- “Como é óbvio, não fui simplesmente sempre do contra” [diz Bento XVI, referindo-se à sua carreira de teólogo e responsável da Igreja, sem dar exemplos].

- Onde o Papa vai buscar força para a sua intensa actividade aos 83 anos: “Organizar bem o nosso tempo. E garantir tempo suficiente para o descanso. […] Resumindo: disciplinar e conhecer o ritmo do dia, para quando precisamos de energia” [é muito alemão o Papa].

- Existe a "família pontifícia", com quem o Papa convive: quatro mulheres da associação eclesial Memores Domini e dois secretários.

- O Papa gostou do filme sobre Josefina Bakhita [uma santa de que fala na encíclica “Spe Salvi”] e gosta, de facto, dos de Don Camillo e Peppone [alguém ofereça uns bons DVD ao Papa].

- Transferiu para o Vaticano o seu gabinete de trabalho “tal como ele evoluiu ao longo de muitas décadas”, desde 1954, porque assim sabe onde estão todos os seus livros, conhece cada canto e “tudo tem a sua história” [é muito alemão este Papa - II].

- Confirma-se: O Papa usa um relógio Junghans. Não o aqui referido, mas o oferecido pela sua irmã. A marca é alemã [é muito alemão este Papa - III].

- O Papa não é místico, mas é fã, "amigo", de Agostinho [era sabido; um platónico], Boaventura [franciscano de ordem, mas agostiniano de espírito, platónico em segunda mão] e Tomás de Aquino [bom senso aristotélico].

Fico pela página 25, mas hei-de continuar.

Progresso

Quando mais de possui Deus, mais se quer procurá-lo; Ele está sempre para lá daquilo que nós atingimos; ele requer sem cessar da nossa parte um novo progresso. O erro estaria em pararmos.

Jean Daniélou (1905-1861)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

2 de Dezembro de 1891. Nasce o pintor Otto Dix

O pintor alemão Otto Dix nasceu no dia 2 de Dezembro de 1891. E morreu no dia 25 de Julho de 1969.

No tempo do nazismo fez parte do lote de autores da “arte degenerada”, que viram as suas obras destruídas, mas durante a II Guerra Mundial foi capturado por tropas francesas (e libertado no final da guerra) por fazer parte de uma milícia alemã.

Quanto à arte, primeiro pintou com traços vigorosos e realistas a República de Weimar. Depois a brutalidade da guerra. No final, muitas das suas pinturas eram alegorias religiosas.

Bento XVI não é o primeiro Papa a dar uma entrevista

Tem sido dito que “Luz do Mundo”, de Bento XVI / Peter Seewald, é a primeira entrevista dada por um pontífice. Não é verdade. Até o infalível “Expresso” falha nesse ponto, porque diz (aqui, na no final da terceira coluna): “Nunca antes em toda a história da Igreja um pontífice aceitou dar uma entrevista”.

João Paulo II deu uma entrevista a Vitorio Messori, que, diga-se, também tentou entrevistar Bento XVI. O livro-entrevista de João Paulo II / Vitorio Messori teve como título, em português, “Atravessar o limiar da esperança” e foi publicado em 1994, pela Planeta.

E já em 1982, André Frossard publicara uma série de conversas com João Paulo II, “Não tenhais medo!”

E a Livros do Brasil publicou, em data que não sei agora precisar, os “Diálogos com Paulo VI”, de Jean Guitton.

Se estes dois últimos títulos podem não ser considerados entrevista, o de Vitorio Messori é sem dúvida alguma um livro-entrevista. O livro está todo feito com base no esquema pergunta-resposta.

A novidade de “Luz do Mundo” não está em ser uma entrevista, mas em ter surgido na forma de diálogo presencial. Com Messori, o que aconteceu foi que o jornalista italiano enviou as perguntas escritas a João Paulo II e esperou pelas respostas. Com Seewald, houve um frente-a-frente. Por isso o jornalista alemão escreve no prefácio: “Nunca antes na história da Igreja um Pontífice tinha dialogado sob a forma de uma entrevista pessoa e directa”. Mas isto não é o mesmo que dizer que Bento XVI é o primeiro Papa a dar uma entrevista.

Science & Faith

O grupo pop irlandês The Script lançou há dias, quer dizer, em Setembro, ou seja, praticamente há uma eternidade em termos de cultura pop e mediática, o álbum “Science & Faith”. Só por estes dias ouvi a canção que dá título ao disco.

E diz assim o refrão:

You won't find faith or hope down a telescope
You won't find heart and soul in the stars
You can break everything, down to chemicals
But you can't explain a love like ours.

Está explicado de que fé e ciência se trata.

Os cristãos, essa peste

«Los cristianos son como ratas. Apunta bien».

A frase apareceu numa casa de banho da Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad de Barcelona. Faz parte de uma campanha agressiva para proibir a prática do catolicismo na universidade, onde há uma capela.

Não foi só Madrid que não deixou o cardeal falar (aqui). Em Barcelona já se interromperam actos de culto. Li aqui.

A frase lembra, é claro, o "laicismo hostil" dos anos 30, referido por Bento XVI a quando da visita recente a Espanha. Não tarda nada, ainda se vai escrever que o último padre há-de ser enforcado nas tripas do último monárquico. Ou o contrário.

Blasfémia

Deus não é uma ideia que se prova, é um ser com relação ao qual se vive. Procurar provas é uma blasfémia e tornar o cristianismo verosímil é a destruição do cristianismo.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O "Expresso" tresleu o livro do Papa

O infalível "Expresso", na edição do último sábado (27 de Novembro), prometia, na capa, trazer tudo sobre o livro do Papa, porque já o tinha lido. Vou eu a ler e o que traz é o que se segue. Meia dúzia de lugares comuns.

Novo, novo, em relação ao que toda a imprensa já repetiu, é que o Papa gosta de ver o "Dom Camillo" em DVD.

Se se trata dos filmes baseados nas histórias de Guareschi, com Fernandel, por muita piada que tenham, não sei se rir, se lamentar. Alguém que ofereça o canal HBO ao Papa.

Uma oração de vez em quando. Esta é de Teilhard de Chardin

O fogo no mundo


Pleno da seiva do Mundo,
Subo para o Espírito que me sorri
para além de toda conquista,
vestido com o esplendor concreto do Universo.
E eu não saberia dizer,
perdido no mistério da Carne divina,
qual é a mais radiosa
dessas duas bem-aventuranças:
ter encontrado o Verbo para dominar a Matéria,
ou possuir a Matéria para alcançar
e submeter-me à luz de Deus.


Teilhard de Chardin, in "Hino do Universo"

Cardeal de Madrid impedido de falar na universidade

O Cardeal Rouco Varela, de Madrid, tinha previsto para hoje uma conferência na Facultad de Económicas y Empresariales da Universidad Autónoma de Madrid sobre "El Dios desconocido para los españoles del siglo XXI", mas teve de desistir devido aos protestos de várias associações de estudantes e de grupos anti-sistema. Li aqui.

O caso assemelha-se ao de Bento XVI, impedido de falar na Universidade “La Sapienza”, no dia 17 de Janeiro de 2008.

É curioso como a liberdade de associação e de expressão de alguns serve para impedir a liberdade de expressão de outros. Aqui, como noutros casos, devia valer aquela célebre frase de Voltaire (cito de cor): “Posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até ao limite para que o possas dizer”.

No caso dos grupos anti-sistema, tenho quase a certeza de que concordam com pontos de vista de Rouco Varela, não certamente na moral sexual, mas sim nas questões económicas, se tivermos em conta que a Igreja defende o destino universal dos bens, a globalização controlada, a participação dos mais desfavorecidos, a opção pelos mais pobres…

É caso para pensar que aos protestantes se pode aplicar a seguinte frase: “Até podemos pensar como o cardeal, mas lutaremos até ao fim para que ele não se expresse”.

Silêncio

É no coração do silêncio que Deus habita. É lá que Ele mora, não no vento, não no tremor de Terra, nem certamente no ruído das palavras que nós fazemos sem cessar, mas, no mais profundo de nós mesmos, lá onde as vozes do mundo já não chegam.

Julien Green (1900-1998)

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...