quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Humor após a visita de Bento XVI a Espanha

Em Espanha, após a visita papal, o programa de um tal Buenafuente (no vídeo, é o do meio) gozou com Bento XVI e a Igreja católica. Há piadas que seriam de mau gosto em qualquer parte do mundo, apesar da relatividade do humor. As da pedofilia.

Mas houve uma piada no tal programa, o laSexta, a que achei especial graça: “O Papa foi como Ibrahimovic: chegou com muita agitação, no final regressou a Itália e em Barcelona há muito que não víamos alguém a mexer-se com tanta lentidão”. É mais uma crítica ao actual jogador do Milan, na sua passagem pela Catalunha, do que ao Papa.

E há o vídeo. O Periodista Digital (aqui) diz que “ridiculariza o Papa Bento XVI, Jesus Cristo, a Igreja católica, os religiosos e o sacramento da Eucaristia”. Pode ser. Mas também da religião se pode rir. E neste vídeo em concreto, vejo críticas pertinentes a alguns homens e igreja e também à sociedade que põe grandes esperanças num homem de barbas.

E numa coisa têm absoluta razão. Dizem na primeira frase: "A gente não conhece suficientemente a Igreja católica".

Gotas

Deus é um oceano, do qual nós não recebemos senão pequenas gotas…

Leibniz (1646-1716)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

10 de Novembro de 1793. A deusa Razão é entronizada em Notre-Dame

No dia 10 de Novembro de 1793, inicia-se o culto da deusa Razão na catedral de Notre-Dame de Paris.

Um pouco por toda a França os templos católicos são transformados em lugares de adoração do Ser Supremo e da deusa Razão e Filosofia durante o processo revolucionário. Algumas igrejas ainda têm inscrições dessa fase.

Em Paris, na catedral de Notre-Dame, o culto é promovido por Pierre-Gaspard Chaumette. Sophie Momoro, mulher de Antoine-François Momoro (pintor e político que forjou a expressão "Liberté, Égalité, Fraternité"), é a escolhida para personificar da deusa e ocupa o altar principal do templo.

Diz-me em que(m) acreditas, Katy Perry

Katy Perry no vídeo que a "Rua Sésamo" gravou, mas depois não transmitiu. Por pudor.


Katy Perry, de “I kissed a girl” e “Hot n’ cold”, é filha de pastores evangélicos, daqueles que andam de terra em terra a rezar e a pregar a conversão.

Como eles, também fala em línguas (glossolalia), embora já não tanto nos últimos tempos. E diz, mostrando a tatuagem “Jesus”:

“Deus ainda é uma parte grande da minha vida. Mas o jeito como os detalhes são relatados na Bíblia é muito confuso para mim. Quero vomitar quando digo isso, mas é verdade".

"Ainda acredito que Jesus é o filho de Deus, mas também acredito em ETs, que há pessoas enviadas por Deus para serem mensageiras e todo o tipo de coisa doida".

"Olho para o céu e fico embasbacada – todas aquelas estrelas e planetas, a infinidade do Universo. Não dá para crer que somos a única população poluidora. Sempre que olho para cima, sei que não sou nada e que há algo muito além de mim. Não acho que seja tão simples quanto céu e inferno”.

Li na “Rolling Stone” de Outubro que o amigo Pedro José me trouxe do Brasil.

Os homens do século XXI sabem ainda construir catedrais, diz Tolentino Mendonça


A Sagrada Família não trabalha só o prodígio da altura. Nestes tempos, como dizia Pierre Bordieu, tão afunilados numa desvitalizante miséria simbólica temos aqui o dinâmico esplendor do símbolo. Texto de José Tolendino Mendonça tirado da Ecclesia (aqui).

O Papa Bento XVI deu início, em Barcelona, ao Século XXI. Um dia comentar-se-á assim a primeira sagração que se fez de uma parte da catedral da Sagrada Família. Ainda faltam construir três quartos, as melhores previsões atiram a sua conclusão para 2025 ou 2030, mas o actual momento da obra, com a finalização e funcionalidade da nave central, coberta com um inesquecível céu de colunas arborescentes, representa a viragem há muito desejada.

Só para termos uma ideia. Notre-Dame de Paris tem duas torres mais a agulha do transepto. A Sagrada Família tem, neste momento oito torres, que nos próximos quinze anos, segundo o que está projectado, se converterão em dezoito. E as dez que faltam são ainda mais altas do que as existentes. A grande cúpula de São Pedro (os romanos chamam-lhe, para sublinhar o espanto, “il cupolone”) mede 137 metros. As belíssimas agulhas góticas da Catedral de Colónia (as mais altas da Europa) estendem-se numa vastidão de 157 metros. Ora, a torre central da Sagrada Família estará coroada por uma cruz a 170 metros do chão. A cruz terá 15 a 20 metros com quatro braços horizontais para assegurar, de qualquer ângulo donde se contemple, uma visão central.

E a Sagrada Família não trabalha só o prodígio da altura. Nestes tempos, como dizia Pierre Bordieu, tão afunilados numa desvitalizante miséria simbólica temos aqui o dinâmico esplendor do símbolo. Gaudí, «o arquitecto de Deus» como lhe chamam, idealizou a “sua” Sagrada Família com base no número 12, o número da Jerusalém terrestre, mas também o da Jerusalém do Alto (leia-se a impressiva descrição feita no capítulo 21 do Apocalipse). Gaudí não partiu de soluções pré-existentes, nem repetiu manuais. A sua arquitectura não tem apenas uma sensibilidade ao espiritual, tem a estrutura de uma visão e a profundidade de uma experiência mística. Gaudí mostra a grande Arte como oração intensíssima. E mostra amplamente aquilo que talvez já tínhamos esquecido: os homens do século XXI sabem ainda construir e amar catedrais.

O tempo e Deus

A Estação Cronográfica, sempre atenta ao tempo e aos relógios, aponta para um artigo interessantíssimo sobre Deus e o tempo (“Relógios e o Relojoeiro. O que é que a contemplação do tempo nos diz de Deus?”, original aqui).

O texto remete, como não poderia deixar de ser, para o Santo Agostinho das "Confissões" e para a “kenosis” paulina (Jesus que, sendo eterno, se esvazia a si mesmo, se aniquila, entra no tempo para partilhar a história humana), acrescentando novos pontos de vista de dois teólogos (não católicos) que têm feitos pontes entre a fé e a ciência: Ian Barbour e Polkinghorne. Este último é cientista e padre anglicano (de Barbour lembro-me de uma críticas a Bento XVI e do clássico disponível em espanhol "Encontro entre Ciencia y Religión").

As concepções científicas modernas de tempo não estão longe de alguns conceitos clássicos de tempo, de Deus e da omnisciência divina.

Diz a Estação, remetendo para o final do artigo: “Para os que acreditam em Deus: Será que Deus criou o Tempo? Como fazem notar alguns, Deus não criou a gravidade - criou a massa, ela é que por seu turno tem a propriedade da gravidade. Talvez o Tempo seja um fenómeno semelhante - não criado, mas apenas propriedade dos acontecimentos”.

Verdade


Deus é o nome próprio da verdade,
como a verdade é o nome abstracto de Deus.

Henri Lacordaire (1802-1861)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

9 de Novembro de 1970. Morre Charles de Gaulle

Charles de Gaulle morreu no dia 9 de Novembro de 1970.

Que tinha a mania das grandezas é um dado da cultura comum (alguns dirão que é próprio dos franceses em geral). Chegou a desejar que a França atingisse os 100 milhões de habitantes para o caso de ter de enfrentar nova guerra. Mais do dobro do que tinha no seu tempo. Hoje tem 63 ou 64 milhões.

“La grandeur” que Gaulle queria para a França (aqui) e que pensava sobre si próprio deu origem a imensas anedotas. Apontei aqui e aqui algumas de inspiração religiosa.

Mas se assinalo aqui a morte do estadista francês é porque disse um dia: “Qualquer que seja a vossa impaciência de me ver partir, precisarão de esperar três anos. Se Deus me emprestar vida, bem entendido. Mas, como vocês não o ignorais [ligeiro piscar de olhos]… Deus é um gaulista”.

Muitas vagas em certas corporações

"...E deixaram tudo", dizem os evangelhos

Se já havia a história do “monge que vendeu o Ferrari” e a do apostador da bolsa que revoluciona a gestão do mosteiro (“Deus é o meu corrector”), agora pode bem surgir o do banqueiro que acumula tesouros nos céus. Ou a do advogado que defende a causa celeste.

Os capuchinhos suíços (ramo dos franciscanos) puseram anúncios nos classificados de um jornal a pedir banqueiros, comerciantes, advogados, jornalistas e professores que queiram mudar de vida, segundo ecoou o jornal “Folha de S. Paulo” (li aqui).

Só deve responder quem tiver “disponibilidade integral, o dia inteiro, todos os dias da semana, inclusive aos sábados, domingos e feriados”. É preciso ser homem, ter entre 22 e 35 anos, ser solteiro e desejar de viver em comunidade.

Em vez de salários altos, o angariador promete “liberdade de riquezas materiais”.

A oferta foi publicada ao lado de propostas de emprego para altos quadros.

Eles bem precisam de conselho


Concedei-lhes, Senhor,

a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade,

para que exerçam sem entraves a soberania

que lhes concedestes.


Sois vós, Mestre, rei celestial dos séculos,

quem dá aos filhos dos homens glória,

honra e poder sobre as coisas da terra.


Dirigi, Senhor,

o seu conselho segundo o que é bom,

segundo o que é agradável aos vossos olhos,

a fim de que, exercendo com piedade,

na paz e mansidão,

o poder que lhes destes,

vos encontrem propício.


Clemente Romano

Esta prece é considerada a mais antiga oração cristã pela autoridade política. Foi escrita por Clemente Romano (4.º Papa, entre 89 e 97 d.C.).

No seu pontificado, ocorreu a segunda perseguição aos cristãos, ordenada pelo imperador Domiciano. Mais tarde, Clemente seria preso por Trajano e condenado a trabalhos forçados nas minas de cobre de Galípoli (Turquia).

Como convertia muitos presos, diz-se que foi atirado ao mar com uma pedra ao pescoço.

Medíocres

Deus deve amar os homens medíocres. Fez vários deles.

Abraham Lincoln (1809 - 1865)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

8 de Novembro de 1880. Dostoiévski termina “Os Irmãos Karamazov”

Notas de Dostoiévski para o capítulo quinto

Dostoiévski (1821-1881) terminou no dia 8 de Novembro de 1880 o romance “Os Irmãos Karamazov”. Estava em São Petersburgo, onde morreria no dia 9 de Fevereiro do ano seguinte. O escritor foi sepultado no mosteiro Alexander Nevsky. Na sua lápide estão escritos os versículos do Evangelho de São João (12,24) que servem também de subtítulo a “Os Irmãos Karamazov”: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”.

Freud considerou “Os Irmãos Karamazov” uma das três obras literárias mais importantes de sempre, a par de “Rei Édipo”, de Sófocles, e “Hamlet”, de Shakespeare.

Um pouco mais de iconoclastia, por favor

Quando vejo certa arte religiosa tenho acessos de iconoclastia. Controlados, apesar de tudo. Esta notícia do DN parece-me referir-se a uma dessas obras de arte que nunca deveriam sair do papel, a julgar pela coroa.

Arcebispo de Bruxelas entortado

Notícia do Correio da Manhã de hoje. Na realidade, o D. André Joseph-Leonard não foi esbofeteado, mas antes entortado ou entartado. Atiraram-lhe uma torta, tarte, ou que quer que seja, costume muito francófono. "Entarté". É fácil confirmar no youtube.

Mais um sinal do desnorte belga. Até os compreendo. O Tintin e o Jacques Brel são belgas, mas toda a gente pensa que são franceses. Os melhores chocolates do mundo são belgas, mas imaginam-nos suíços. E as melhores cervejas do mundo são feitas na Bélgica, monacais, bien sûr, mas todos pensam (e bebem) primeiro nas alemãs. Não admira que a Bélgica esteja em desagregação.

Há dias li que, com a mania de separarem a parte francófona da parte flamenga, dividiram também uma universidade histórica, incluindo a biblioteca. Uma parte ficou com os volumes de A a M, a outra ficou com os restantes.

Saramago versus Tomás de Aquino

Saramago, descrente, disse um dia: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro”. Tomás de Aquino, crente, escreveu há muito mais tempo: “Não é evidente que Deus exista”.

As afirmações fazem pensar que ateus e crentes podem estar muito próximos nas afirmações racionais sobre Deus. Tomás até parece mais descrente. A diferença virá depois pelo tom absolutista, ou mesmo fundamentalista, que cada um põe na fase. Tomás de Aquino não foi, de modo nenhum, um fundamentalista.

Nome

Os nomes têm o poder estranho de esconder Deus. Nós encontramos um nome e imaginamos que compreendemos alguma coisa mais do que dantes. Esta palavra cobre o abismo da nossa ignorância.

F. W. Robertson (1816-1853)

domingo, 7 de novembro de 2010

7 de Novembro de 1550. Morre o último bispo católico islandês

Na sequência do processo de luteranização da Islândia levado a cabo por Cristiano III da Dinamarca, Jon Arason, bispo de Hólar, foi decapitado no dia 7 de Novembro de 1550. Foi o último defensor do poder papal na terra do gelo.

Segundo a lenda, no momento da morte, ao ser confortado por um padre chamado Sveinki sobre a vida para além da morte, disse: "Veit ég það, Sveinki!" ("Isso bem eu sei, Sveinki!").

A expressão entrou na cultura islandesa e é repetida quando alguém ouve algo que é tido como óbvio.

(Actualmente, a Islândia tem apenas uma diocese católica, Reiquejavique. O seu bispo é o suíço D. Pierre Burcher. Integra a Conferência Episcopal da Escandinávia com os prelados da Dinamarca, Gronelândia, Ilhas Aland, Ilhas Faroé, Finlândia, Noruega e Suécia).

Capa da "Pública" de 7 de Novembro de 2010


Bento Domingues: Semana e livros da religião

Necessidade

Deus meteu-se no caso de ter necessidade de nós.

Charles Péguy (1873-1914)

sábado, 6 de novembro de 2010

6 de Novembro de 1789. Pio VI nomeia o primeiro bispo católico dos EUA

Estátua de John Carrol na Georgetown University

John Carrol (08-01-1735 – 03-12-1815) foi o primeiro bispo e arcebispo católico dos Estados Unidos. Entrou para os jesuítas em 1753, estudou em Liège, na Bélgica, e foi ordenado padre em 1769. Após a dissolução da Companhia de Jesus, em 1773, regressou aos EUA e foi aprovado como bispo de Baltimore no dia 6 de Novembro de 1789, pelo Papa Pio VI, após eleição pelo clero norte-americano.

John Carrol fundou a primeira universidade católica norte-americana, a Georgetown University (onde estudou Bill Clinton), em Washington D.C., ligada aos jesuítas, e ergueu a primeira catedral norte-americana, hoje Basílica e Santuário Nacional da Assunção da Abençoada Virgem Maria, em Baltimore, Maryland.

Anselmo Borges: Sínodo para o Médio Oriente

Texto de Anselmo Borges no DN de 6 de Novembro de 2010.


Passou despercebido entre nós, mas foi um acontecimento importante, a ponto de ter sido objecto de crítica por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita.


Refiro-me ao Sínodo dos Bispos para a Médio Oriente, que teve lugar no Vaticano de 10 a 24 de Outubro passado. Participaram 185 Bispos, do Médio Oriente e da África do Norte e do Leste, onde os cristãos vivem entre a maioria muçulmana e judeus. Houve representantes das Igrejas ortodoxas e comunidades evangélicas, bem como convidados hebreus e muçulmanos. Os cristãos no Médio Oriente são apenas 1,6%, com tendência a diminuir - teme-se mesmo o seu lento desaparecimento -, por causa da situação político-social. Ler mais aqui.

Explosão na tipografia


Mesmo que não se concorde com a mensagem (e eu não concordo, apesar de crer do Criador, porque parece um argumento para os criacionistas bíblicos e fãs da interpretação bíblica literal), é uma frase sugestiva:

Achar que o mundo não tem Criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.

Benjamin Franklin (1706-1790)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

5 de Novembro de 1499. É publicado o dicionário “Le Catholicon”

No dia 5 de Novembro de 1499, o padre francês Jehan Lagadeuc publica o dicionário trilingue “Le Catholicon”. O título, que não aparece na obra mas pelo qual ficou conhecida, refere-se à pretensão - ser universal na abordagem do das línguas bretã, francesa e latina - e não ao contexto em que surge. Na realidade, o sacerdote pretendia que o dicionário fosse um instrumento útil para a aprendizagem das línguas por parte dos futuros clérigos.

Este dicionário surgiu na Bretanha e foi o primeiro em bretão e em francês (língua que muitos bretões não falavam).

Por onde há-de ir a evangelização?


"Voltemos a ensinar a fé. Mas que tal pôr o foco nos ensinamentos básicos de Jesus? Será que a nossa Igreja está a proclamar e a viver adequadamente seus ensinamentos?" Questões lançadas no editorial do jornal "National Catholic Reporter" de 04-11-2010. Copio daqui uns parágrafos (e aqui em inglês).

De novo, o que estamos a ouvir? A resposta triste é que ouvimos muito pouco sobre as bem-aventuranças e muito sobre o julgamento e a admoestação, aparentemente sempre com um foco no comportamento sexual. A nossa Igreja ganharia a atenção de muitos se fosse vista como uma comunidade inclusiva e acolhedora.

A evangelização efectiva exige uma boa dose de humildade. Nós vemos isso suficientemente na nossa Igreja hoje. A humildade requer ouvir, e ouvir um pouco mais – abster-se do julgamento, reconhecendo os desafios e as lutas que todos enfrentamos. Algo poderia ser conquistado ao reconhecer a bondade e a compreensão daqueles que estão fora da fé católica? Isso poderia iniciar uma conversa mais efectiva sobre a fé? Ao contrário disso, temos visto uma ênfase na expressão do catolicismo como a única e verdadeira fé. As nossas superioras religiosas norte-americanas estão a ser investigadas hoje pelo Vaticano por não defenderem adequadamente a supremacia da fé católica. Talvez as mulheres sejam simplesmente melhores ouvintes.

Será que a nossa Igreja se apresenta como afectiva, acolhedora e inclusiva? Pergunte aos gays e lésbicas e aos seus pais. Eles vão dar-lhe um raspanete. Muitas das nossas paróquias são inclusivas, são acolhedoras para todos. Mas isso também acontece muitas vezes em contramão com a natureza episcopal, não com ela.

E depois está o elefante branco na sala. Ele apenas está lá e bloqueia uma visão para o avanço da boa evangelização. É a questão das mulheres na Igreja. Nesse ponto, há uma década no século XXI, as mudanças culturais e educacionais do século XX que levaram as mulheres a posições de liderança mundial não se espelham na nossa Igreja. As mulheres simplesmente não têm voz nas decisões-chave.

Por falar em Mendelsshon: Oratória Elias

Por falar em Mendelsshon (morreu num 4 de Novembro), no próximo 13 de Novembro, há concerto. Oratória Elias, op. 70, no Centro Cultural de Belém, às 21h00, pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do Teatro Nacional de São Carlos, com a direcção musical de Julia Jones.

Espanha: Bilhetes da lotaria com a data da visita do Papa muito procurados

A visita do Papa a Espanha, nos dias 6 e 7 de Novembro, fez aumentar a procura dos números 61110 e 71110 da Lotaria do Natal, que vai ser sorteada no dia 22 de Dezembro. Os pedidos, na esperança de alguma bênção divina faça com que um desses números seja “el gordo”, têm origem principalmente em Compostela e Barcelona, cidades que Bento XVI vai visitar, mas também noutras localidades espanholas. Li aqui.

"Graffiti" cobrem igrejas de Lisboa

Notícia do DN de 05 de Novembro de 2010.

Evacuado da sua própria criação


É porque o ser humano pode dizer não que o seu sim assume uma plena ressonância e se coloca no mesmo registo que o sim de Deus. E é por isso também que Deus aceita ser recusado, desconhecido, rejeitado, evacuado da sua própria criação.

Paul Evdokimov (1901-1970)

Filmes inspirados

Imagem de "Andrei Rubliev”, de Tardovski

No “Ípsilon” (“Público”) da semana passada, do dia 29 de Outubro, vinha uma lista dos melhores filmes de sempre, segundo os críticos do “The Guardian”. Não vi “Chinatown” nem “Breve encontro”, mas noto que há uma inspiração cristã em todas. Ou quase.

Em primeiro ficou “Chinatown”, de Polanski, que é “uma brilhante evocação de Los Angeles como deserto espiritual”. Espiritual.

Em segundo ficou “Psycho”, do católico Hitchcok. A redenção é sempre possível durante a vida, como sabem os católicos. E também (ex-aequo)“Andrei Rubliev”, de Tardovski. Biografia do ortodoxo pintor de ícones. O mais conhecido é o da Trindade.

Em terceiro está “Annie Hall”, do judeu laico Woody Allen, porque os judeus não têm perdão, só culpa, como ouvi uma vez numa série americana (“Anjos”).

A seguir vem “2001: Odisseia no Espaço”, de Kubrick, que é um hino ao sentido do universo, contra o vazio que do materialismo dialéctico.

Vem depois “Breve Encontro”,de David Lean, que não conheço (o filme é de 1945) e “Apocalypse Now”, de Coppola. Falar de de Apocalipse é revelar-se cristão ou, no máximo, judeu.

Em suma, o elemento judaico-cristão está lá sempre. Até no nome de David Lean.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

4 de Novembro de 1847. Morre Felix Mendelsshon

Mendelssohn aos 12 anos

Jakob Ludwig Felix Mendelssohn Bartholdy (3 de Fevereiro de 1809 – 4 de Novembro de 1847), oriundo de uma família judaica alemã, neto do filósofo Moisés Mendelssohn, educado sem religião mas convertendo-se mais tarde ao luteranismo, se não tivesse sido um grande músico, teria ficado na História da Música devido ao protagonismo no despertar do interesse por Johann Sebastian Bach.

Em 1829, Mendelssohn adaptou e conduziu a interpretação do oratório “Paixão de São Mateus”, de Bach, em Berlim. Esta peça de duas horas e meia ou três, consoante as interpretações, é, para muitos, o ponto mais alto da música barroca – ou até da música em geral. Não era ouvida desde a morte de Bach (1750). A interpretação de Mendelssohn foi aclamada e a Alemanha primeiro e depois a Europa redescobriram Johann Sebastian Bach. Até hoje.


A surpreendente relação dos símbolos nos quadros

Na "Sábado" desta quinta o destaque vai para os padres que não cumprem a promessa de celibato. Fé e escândalo.

Notícia mais original é a do prémio atribuído pelo Vaticano ao investigador Luís Casimiro, que estudou os esquemas geométricos para a colocação das figuras nos quadros religiosos dos pintores portugueses do séc. XVI. Arte e ciência.


Ouvido


Deus desce à Terra tão naturalmente como a música de Mozart sobe ao céu, mas falta-nos o ouvido para escutar.

Christian Bobin (1951-...)

Regressar a casa


Todas as flores aspiram a ser fruto
Todas as manhãs a ser noite,
Nada há de eterno na Terra
A não ser a mudança, a fuga.

Mesmo o mais belo dos Verões anseia
Por conhecer o Outono, o definhar
Aguenta-te, mantém-te clama,
Quando o vento te quiser arrebatar.

Deixa estar, não tentes defender-te
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixa o vento, que te arranca e parte,
Conduzir-te de regresso a casa.


Hermann Hesse

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Paintballing

3 de Novembro de 1584. Morre o cardeal Carlos Borromeu

Carlos Borromeu pintado por Giovanni Ambrogio Figino

Carlos Borromeu (Carlo Borromeo), arcebispo de Milão de 1560 a 1584, foi muito influente no Concílio de Trento (1545-1563) e é tido como o principal promotor da criação dos seminários enquanto casas de preparação dos padres. Nasceu no dia 2 de Outubro de 1538 e morreu no dia 3 de Novembro de 1584.

Foi amigo de Bartolomeu dos Mártires (outro dos grandes de Trento). O arcebispo de Braga terá convencido o de Milão a continuar na diocese numa altura em que Borromeu ponderava abraçar a vida contemplativa.

Inusitada estátua de Carlos Borromeu aqui.

Os padres ganham muito?

A resposta é simples, apesar da relativa má fama da classe em alguns sítios: não, não ganham. Alguns têm profissões para lá o ministério sacerdotal (professor – é a mais comum) e ganham mais (por vezes são convidados a partilhar com o clero de serviços ou paróquias com menos rendimentos). E a maioria do clero tem habitação garantida. Mas mesmo assim não ganham muito.

Em Espanha, na arquidiocese de Sevilha, os padres ganham os 633,30 euros do chamado salário mínimo interprofissional (SMI – corresponde ao salário mínimo nacional português, que é de 475 euros).

Nas outras dioceses ganham mais (valores em euros):

Barcelona – 923

Bilbau – 906

Madrid – 844

Li aqui.

O esterco do diabo habita no Vaticano

Imagem medieval sobre a usura

Saiu há dias no "Il Fatto Quotidiano" (sítio aqui, mas não encontro o texto original; traduzido para português aqui, com alguns nítidos erros que tentei evitar) um informativo e muito divertido texto do jornalista e escritor Riccardo Chiaberge sobre dinheiro, usura, clero, Igreja, Idade Média e actualidade: "O esterco do diabo habita no Vaticano". Já há algum tempo que não sorria tanto com um texto com aqueles ingredientes.


Na Europa da Idade Média não existiam leis anti-reciclagem, mas o Inferno funcionava muito melhor do que agora e o circuito dos usuários estava repleto de bons financeiros cristãos, como Ettore Gotti Tedeschi. “Fenus pecuniae, funus est animae”, “o lucro do dinheiro é a morte da alma”, admoestara a seu tempo o papa Leão Magno. Quem empresta dinheiro em troca de juros, lê-se num manuscrito anónimo do século XII, comete um pecado gravíssimo contra a natureza, “pretendendo gerar dinheiro do dinheiro, como um cavalo de um cavalo ou uma mula de uma mula”. E, no seu manual para confessores, o bispo inglês Thomas Cobham retoma a dose: “O usurário procura ganhar sem trabalhar e até mesmo enquanto dorme; isso vai contra o preceito do Senhor que disse: «Com o suor do teu rosto comerás o pão»”.

Se a Igreja medieval divide a sociedade em três classes – homens de oração, guerreiros e trabalhadores –, o pregador francês Giacomo di Vitry acrescenta-lhe uma quarta: os profissionais da usura. “Estes não participam do trabalho dos outros homens e por isso não sofrerão o castigo dos homens, mas o dos demónios. A quantidade de dinheiro que ganharam com a usura corresponde à quantidade de lenha enviada aos Infernos para queimá-los”.

Quem sabe quanta lenha seria necessária para um Madoff ou um Tanzi. Por certo as chamas eternas para os agiotas eram de bem escassa consolação para as suas vítimas, que não podiam contar com a justiça dos homens e deviam confiar-se à do Pai Eterno. No entanto, talvez a punição chegasse antecipadamente: conta-se isso de ricos prestamistas privados do uso da palavra no momento da morte, de modo a não poderem confessar-se (mas, talvez se servissem da faculdade de não responder ao sacerdote), ou atingidos por enfarte sem tempo para arrependimentos. E um dominicano de Lyon narra um episódio particular: “No ano do Senhor de 1240, em Dijon, um usuário quer celebrar as suas núpcias com grande aparato... Enquanto os dois prometidos esposos felizes estavam para entrar na igreja, aconteceu que uma estátua de pedra representando um usurário arrastado para o inferno pelo Diabo se soltou e caiu com sua bolsa na cabeça do usurário em carne e osso, matando-o”.

Retornando ao suscitado Gotti Tedeschi, actual chefe da IOR [Banco do Vaticano], compará-lo aos usurários do século XIII seria ridículo antes de ser injusto. Mas a história milenar da Igreja e de sua relação atormentada e ambivalente com o mundo da economia ajuda-nos a entender muitas coisas, também sobre a realidade de nossa época. No mesmo dia em que o Tribunal de Roma confirmava o sequestro de 23 milhões de euros a cargo do banco do Vaticano para certas movimentações suspeitas, o presidente intervinha numa convenção sobre ética e finanças, promovida pelo "Osservatore Romano" e pontualmente retomada pelo laico "Sole 24 Ore". E, parafraseando a famosa passagem do Evangelho de Marcos sobre o camelo e o buraco da agulha, lançava uma ousada hipótese teológica: “O rico, para entrar no reino dos céus, deve tornar-se ainda mais rico, porque, se a riqueza não é criada, o risco é, depois, o de distribuir a pobreza”. Isso vale também quando a riqueza é fruto de especulação, ou pior, de fraudes com prejuízo dos aforradores? E quando a bossa do camelo está inchada de títulos tóxicos ou de contas correntes dadas em empréstimo?

Como recorda o grande medievalista Jacques Le Goff no seu “O esterco do diabo. O dinheiro na Idade Média” (Laterza), o único modo de evitar o Inferno, para um usurário, era a restituição do mal extorquido. Coisa que não ocorria com frequência, malgrado as fulminações do clero: como dizia o rei Luís IX, o santo, “é uma péssima coisa apropriar-se dos bens alheios, porque restituí-los é tão árduo que a mera pronúncia da palavra estrangula a garganta por causa dos “r” que contém, os quais representam os vestígios do demónio que puxam sempre para baixo aqueles que decidiram restituir os bens alheios”.

Depois, com o desenvolvimento das actividades comerciais, o aumento da circulação monetária e o crescimento do endividamento, o mundo ultraterreno também teve necessidade de ampliações, de modo que foi instituído o Purgatório, onde também os especuladores e agiotas tinham uma possibilidade de redenção. Um regime de cárcere menos duro, com possibilidade de redução da pena por boa conduta. Os mais hábeis e meritórios conseguem extorquir um “louvor ad personam” e vão directos para o Paraíso sem passar pela antecâmara. Basta qualquer obra de bem ou um oratório dedicado à Virgem. É típico o caso dos Scrovegni, ricos mercadores paduanos do século XIII. Dante atira o pai, Reinaldo, para o círculo dos usurários, mas o filho Enrico, que consolida o “business” da família, expia a própria opulência com um gesto exemplar de “caritas”: investe um monte de dinheiro numa capela com frescos de Giotto, recomendando que o ciclo dos vícios e das virtudes não pareça punitivo para sua categoria. Como condená-lo? No final das contas, os Scrovegni do século XX não deixam à humanidade igrejas com frescos, mas vilas à Antigua e compram para si a benevolência do clero vetando as uniões gays.

Além disso, é difícil mandar para o inferno os mercadores, quando quem manda se mostra mais ávido do que eles. Além de ter de lidar com as leis da economia, desde a Idade Média a Igreja é, ela própria, uma potência económica que tem sempre mais fome de “pecunia”. É ainda Le Goff que nos recorda que foi a transferência para Avinhão, nos inícios do século doze, que fez empinar as despesas da Santa Sé. Sobe o número de dignitários da corte (entre 400 e 500, uma centena a mais em relação ao último papa romano, Bonifácio VIII) e Clemente V chega a gastar bem 120 mil florins por ano, dos quais 30 mil somente “para a gestão doméstica de seu palácio, entre estipêndios, alimentação, cera, lenha, roupa lavada, feno, manutenção dos cavalos e esmolas”. E as entradas? À parte as somas que bispos e abades devem pagar no momento da nomeação, o grosso do montante provém dos “tributos” pagos pelo rei de Nápoles e por outros senhores italianos e do óbulo de São Pedro vertido pelos reinos escandinavos. “Todos estes impostos – observa o historiador – são saldados de má vontade pelos devedores, não obstante o frequente recurso à excomunhão”. Que gosto tem sustentar papas que só pensam em construir palácios sumptuosos e armar exércitos para defender suas terras? O fisco pontifício é uma sanguessuga que recorre a qualquer meio para engordar, incluindo-se a Peste negra que se abateu sobre a Europa de 1348: “Os benefícios de muitos titulares mortos durante a epidemia – recorda Le Goff – alimentam directamente as finanças da Igreja”. E, quando não sabem a que se arrimar, trazem à baila a luta contra as heresias, bicho-papão sempre bom para justificar confiscos, procurações judiciais e tributos. E depois disso, lamentamo-nos com o oito por mil [permilagem do imposto sobre os rendimentos que os italianos podem destinar à Igreja e a outras instituições] e a isenção do ICI [imposto comunal sobre imóveis]...

Hoje, Bento XVI clama com razão contra o poder destruidor dos “capitais anónimos que põem o homem em escravidão” e prega o advento de um “mercado bom”, uma espécie de ‘non profit’, não-lucro universal que reconcilie a esfera da justiça e da caridade. Mas, a sua mensagem perde credibilidade se as finanças vaticanas, o IOR ou a Propaganda Fide, se comportarem com a mesma cupidez e escassa transparência dos capitalistas sem Deus. Como escreve Monsenhor Giuseppe Casale, arcebispo emérito de Foggia-Bovino, num corajoso libelo (“Para reformar a Igreja”, edições La Meridiana, 76 pp., 12 euros), “a pobreza é para a Igreja mais um discurso teológico do que sociológico”. Após o fim da aliança trono-altar, a Igreja católica não reencontrou o caminho do Evangelho e hoje, “na opulenta sociedade do Ocidente ajuda os pobres, mas permanece quase impermeável à escolha da pobreza para si mesma. O culto a Deus justifica o barroquismo de vestes litúrgicas e de insígnias episcopais. A necessidade de sustentar obras pastorais impele a servir-se de mecanismos das modernas finanças”. Corre o risco de envolver-se nas malhas da justiça como os muitos pecadores de casaca que manejam com demasiada desenvoltura o “esterco do diabo”.

Certeza

Deus não pode morrer. É a única coisa que Ele não pode fazer. Se (ou porque) o homem foi criado à imagem de Deus, o homem não morrerá. Deus não deixará que se extinga a sua imagem.

Eugène Ionesco (1912-1994)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Fernanda Câncio não tem trauma nenhum

Quando o monte de jornais e revistas começa a atingir um tamanho lamentável na minha secretária – o sinal vermelho não acende quando se alcança uma determinada altura em centímetros, mas quando os apelos familiares à reciclagem se tornam diários –, convenço-me de que tenho de fazer a triagem mínima para a seguir os despachar: guardar uma ou outra crónica, ler esta e aquela reportagem.

Chego às "Notícias Magazine" e é inevitável. Penso sempre: contra que aspecto da Igreja Católica escreve hoje a Fernanda Câncio? Na verdade, este pensamento não é original. Já neste blogue o confessei. E normalmente, a jornalista do DN não me desilude. Escreve mesmo contra a Igreja Católica. Ou contra Deus, que, não sendo a mesma coisa, enquadra-se no mesmo espírito. (Por isso escrevi "a Fernanda". É alguém cujo pensamento já me é familiar. Não foge dos seus estreitos cânones.)

O sermão que para aqui copio, de 24 de Outubro, é apenas um exemplo que desmente o que a autora diz ser um preconceito sem argumentos. O preconceito é este: “a pessoa que critica deve ter (tem de ter) «um problema qualquer» com a instituição em causa [aqui, o que interessa é a Igreja, quanto ao PC não me pronuncio], assim a modos que um trauma, uma mania persecutória, um complexo, uma fobia”. Os argumentos que provam que Fernanda Câncio fez uma óptima descrição de si própria na frase anterior, a acrescentar à própria crónica, estão aqui.

2 de Novembro de 676. Eleição do Papa Dono

Mosaico numa igreja de Ravena

O Papa Dono (Donus ou Domuns) sucedeu a Adeodato II no dia 2 de Novembro de 676. Morreu no dia 11 de Abril de 678.

Pouco se sabe deste Papa, como, aliás, de outros desta época. Facto importante no pontificado de Dono foi o regresso de Reparato, arcebispo de Ravena, à obediência à Santa Sé, pondo fim ao cisma criado pelo arcebispo Mauro, que queria que Ravena fosse autocéfala, como são hoje as igrejas ortodoxas.

E o próximo Papa é... europeu

O próximo Papa: Gianfranco Ravasi, culto como Ratzinger e com ares de João XXIII

Artigo de Robert Mickens, na revista inglesa "The Tablet", traduzido para português aqui, sobre a europeização dos cardeais e talvez mesmo italianização (são 20%), apesar 75 % dos católicos não serem europeus. Inclui uma pequena lista de "papabile", isto é, nomes que atraem alguma "especulação real".

Agonia

Quase três quartos de século após a afirmação proferida por Nietzsche, "Deus está morto", uma outra afirmação, menos proferida do que murmurada na angústia, vem hoje fazer eco: o homem está em agonia.

Gabriel Marcel (1889-1973)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

10 Tweets da Lei de Deus

Rowan Williams foi apanhado de surpresa na criação da estrutura católica para acolher anglicanos descontentes

O arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, primaz da comunhão anglicana, visitou a Índia e deu uma entrevista ao "The Hindu", traduzida para português pelo Instituto Humanitas Unisinos (aqui).

Cito aqui uma parte em que é visada a Igreja Católica. Rowan Williams diz ter-se sentido surpreendido pela criação do ordinariato pessoal para acolher anglicanos descontentes na Igreja Católica "sem qualquer consulta real" à Igreja Anglicana.


No seu mandato assistiu a relações repletas de preocupação com a Igreja Católica Romana. Delas fez parte a Constituição Apostólica quase unilateral que o papa emitiu ano passado criando um novo rito anglicano dentro da Igreja Católica Romana, direccionado para anglicanos que não se sentiam à vontade com a ordenação de mulheres e clérigos gays. Quais são os seus comentários sobre essa situação? Havia uma manchete de jornal que falava da presença de tanques papais no relvado do Palácio de Lambeth.

Sim, eu sei. Eu disse nessa altura época que essa era uma versão da história que não fazia sentido. Fiquei muito surpreso com o facto de termos sido confrontados com essa medida de grande alcance sem qualquer consulta real. E pareceu-me que algumas partes do Vaticano não comunicaram com as outras. De um modo geral, pareceu-me uma providência pastoral para certas pessoas que não podiam aceitar o rumo que a Igreja da Inglaterra estava a tomar, uma providência pastoral que, em si, não afectava as relações entre as duas igrejas, entre igrejas tradicionais.

Mas causou algumas agitações porque creio que havia uma opinião muito disseminada de que teria sido melhor consultar [a Igreja Anglicana]. Havia perguntas que poderiam ter sido feitas e respondidas e tratadas em conjunto. E como isto está a ser implementado agora, estamos a tentar garantir que haja um grupo bilateral que fique atento a como isso irá acontecer. Na Inglaterra, as relações entre a Igreja da Inglaterra e os bispos católicos romanos são muito calorosas e estreitas. Creio que temos condições de trabalhar nessa questão juntos e de não considerar isso uma dificuldade.


No ano passado, o senhor tocou nessa questão num discurso que fez em Roma. Não é um tanto inexplicável que a ordenação de mulheres por parte de igrejas anglicanas se tenha tornado um motivo de rompimento no diálogo católico-anglicano, apesar do facto de que as duas igrejas alcançaram um acordo em questões teológicas bem mais complexas nos anos que se passaram desde a Reforma protestante?

Sim, o que eu estava a tentar dizer em Roma ano passado era, efectivamente, que nos últimos 30 ou 40 anos tínhamos alcançado um nível extraordinário de acordo a respeito de como entendemos o ministério ordenado e os sacramentos. E eu ainda estava bastante perplexo pelo facto de que essa única questão – quem pode ser sacerdote? – de repente surgiu como a única questão que importava, por assim dizer. Na verdade, acho que eu disse que o copo está cheio pela metade, e não vazio pela metade.

De facto, tratamos de muitas questões substanciais lá, e acho que na ocasião eu realmente queria lembrar à minha própria Igreja e às nossas irmãs e irmãos católicos romanos que tínhamos estabelecido uma linguagem comum para falar sobre o sacerdócio e sobre os sacramentos. E não deveríamos supor que a nossa discordância sobre o status das mulheres simplesmente invalidasse todo o resto!

1 de Novembro de 610.O Panteão romano é transformado em igreja cristã





No dia 1 de Novembro de 610, a casa de “todos os deuses” (“pan”+“theon”) foi transformada em casa de todos os santos, em igreja cristã dedicada à Virgem Maria e a Todos os Santos e Mártires. Tal gesto do Papa Bonifácio IV, quando o paganismo já estava proibido, evitou que o Panteão fosse destruído.

Hoje, este templo mandado construir por Marco Agripa no ano 27 a.C. (“M AGRIPPA L F COS TERTIUM FECIT”, "Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, pela terceira vez cônsul", lê-se na fachada) é o edifício da antiguidade romana mais bem conservado. É o único considerado intacto na sua estrutura.

A sua cúpula, até surgir a da duomo de Florença, no séc. XV, era a maior de todas.

Prolixitas mortis

Karl Rahner

A morte está sempre presente ao longo da vida. Karl Rahner fala da prolixitas mortis, da presença da morte em tudo o que fazemos. Rahner traduziu para a teologia o conceito deo seu professor de filosofia, Martin Heidegger, o conceito de “ser para a morte”. Foi buscar esta expressão a São Gregório Magno. Significa “o precesso concreto da crescente acumulação de elementos da morte na história da vida humana” (Auer, 1995, p. 52). Romano Guardini fala da vida como uma morte prolongada. Na interpretação que Karl Rahner faz da prolixitas mortis, em todas as experiências de debilidade, de doença e de desilusão, o Homem morre um bocadinho, havendo um declínio das qualidades palpáveis da vida. Em todas estas pequenas horas da morte, que ocorrem por etapas, é-nos perguntado o que fazemos para subsistir” (cit.por Auer, 1995, p. 125).

Texto de Anselmo Grun em "A sublime arte de envelhecer", p. 121

Morreste-me. a morte e a esperança cristã


A diocese do Porto distribui por estes dias, nos cemitérios, uma brochura com reflexões sobre a morte. "Morreste-me". 16 páginas, sem datas nem autores, para ler em qualquer altura do ano. Publicou também um volume mais extenso, cuja capa se reproduz acima (a pintura é usada como capa de ambas publicações). Ver aqui e aqui.

O folheto dos cemitérios termina assim:

O amor é a ponte que uno o ínfimo ao infinito. A vida não nos é roubada na morte, porque ela nunca foi nossa, nunca possuímos a vida como bem pessoal que conquistamos por direito. Foi-nos dada para a restituirmos, para a darmos (…). Lidamos mais com as palavras gastas, mas há palavras que são faróis de vida. A esperança leva dentro a confiança da Fé. (…) Mais do que fim, será princípio, em comunhão com o Amor inteiro, com aquele mais que nos faltava quando, por aqui, fomos felizes. A nossa confiança tem nome de ressurreição e garantia de pessoa: Jesus Cristo.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...