sábado, 20 de novembro de 2010

O passo surpreendente de Philip Roth


O "Ípsilon" da sexta-feira passada diz que Philip Roth, em "Nemesis", o seu mais recente romance, ainda não traduzido para português, "no que é um passo surpreendente ao fim de 31 livros, [explora] a relação com Deus".

O que me surpreende é a surpresa do crítico Tiago Bartolomeu Costa com tal passo surpreendente. A questão de Deus continua a ser a maior questão humana.

Bíblia com textos de seis deputados

A notícia já tem uns dias. Mas é sobre um livro que não passa de validade. A Bíblia.

20 de Novembro de 1820. Um cachalote ataca o baleeiro Essex, inspirando “Moby Dick”

No dia 20 de Novembro de 1820, a cerca de 3700 km da costa do Chile, um cachalote anormalmente grande destrói o navio baleeiro Essex (de Massachusetts, EUA).

Thomas Nickerson, 14 anos, ia no “Essex” e escreveu um relato sobre o ataque, incluindo o desenho acima e os três meses de sobrevivência em alto mar que se seguiram. O episódio inspirou o romance "Moby Dick", publicado em 1851 por Herman Melville.

“Moby Dick” é uma extraordinária metáfora da condição humana. Na longa viagem do navio “Pequod”, a tripulação está interessada em enriquecer rapidamente, enquanto o capitão Ahab está obcecado com a captura do “monstro”. Há uma luta entre o homem e a natureza que tanto fala do absurdo das ambições humanas como, de outro ponto de vista, da tentativa inglória de derrotar o suposto leviatã.

Anselmo Borges: Hospital do Menino Deus

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Bento XVI esteve de novo na Espanha, e os comentadores reconheceram, em geral, que a visita foi um êxito. Houve críticas? É a coisa mais natural. Numa sociedade pluralista, é evidente que nem todos concordarão com o Papa - como lembrou o teólogo galego Andrés Torres Queiruga, "quem fala em público expõe--se à crítica e ao peso das razões opostas" - e têm o direito de manifestar-se, como foi o caso dos homossexuais. O primeiro-ministro não esteve na missa? Fez bem e é mesmo de saudar, se realmente não acredita. O Papa foi alguma vez excessivo? Sim, quando comparou a actual situação espanhola em relação à Igreja com o que se passou na II República: "Em Espanha nasceu uma laicidade, um anticlericalismo, um secularismo forte e agressivo como o vimos precisamente nos anos trinta". Realmente, não se deve comparar o que não é comparável, mesmo se é verdade que hoje na Espanha e na Europa há má vontade contra a Igreja e se quer implantar um laicismo no lugar da laicidade. Mas também a Igreja não pode bater a culpa só no peito alheio.


Mas qual foi o núcleo da mensagem papal?


Em Santiago de Compostela, apareceu como "um peregrino mais" e daí lançou um convite premente à Europa para que recupere as suas "raízes cristãs". "É preciso que Deus volte a ressoar sob os céus da Europa", afirmou, acrescentando: "A Europa deve abrir-se a Deus." E reiterou a mensagem que tem mais a peito: a fé não é inimiga do ser humano, do progresso ou da razão; pelo contrário, constitui a sua plena realização.


Em Barcelona, no contexto da agora Basílica da Sagrada Família, esse hino de rara beleza em pedra a Deus e à fé, obra genial de Gaudí, o Papa cantou a beleza, ligando-a ao ideal da defesa da vida, da família e do casamento.


"Que fazemos ao dedicar este templo? No coração do mundo, perante o olhar de Deus e dos homens, num acto humilde e gozoso de fé, levantamos uma imensa mole de matéria, fruto da natureza e de um incomensurável esforço da inteligência humana, construtora desta obra de arte", como "sinal visível do Deus invisível, a cuja glória se erguem estas torres, setas que apontam para o absoluto da luz e dAquele que é a Luz, a Altura e a Beleza em si mesma". Gaudí conseguiu "unir a inspiração que lhe vinha dos três grandes livros nos quais se alimentava como homem, como crente e como arquitecto: o livro da natureza, o livro da Sagrada Escritura e o livro da Liturgia".


Para Bento XVI, "só onde há o amor e a fidelidade nasce e perdura a verdadeira liberdade". Por isso, "a Igreja advoga adequadas medidas económicas e sociais para que a mulher encontre no lar e no trabalho a sua plena realização; para que o homem e a mulher que contraem matrimónio e formam uma família sejam decididamente apoia- dos pelo Estado; para que se defenda a vida dos filhos como sagrada e inviolável desde o momento da sua concepção; para que a natalidade seja dignificada, valorizada e apoiada jurídica, social e legislativamente. Por isso, a Igreja opõe-se a todas as formas de negação da vida humana e apoia tudo quanto promova a ordem natural no âmbito da instituição familiar".


E insistiu na beleza: "A beleza é a grande necessidade do ser humano; é a raiz da qual brotam o tronco da nossa paz e os frutos da nossa esperança." Assim, Gaudí realizou uma das tarefas mais importantes: "Superar a cisão entre existência neste mundo temporal e abertura a uma vida eterna, entre a beleza das coisas e Deus como Beleza".


Num belo gesto simbólico, a última visita foi ao Hospital do Menino Deus, em Barcelona, cujo nome oficial é "Obra Benéfico-Social do Menino Deus", dirigido a crianças e jovens deficientes e suas famílias. Quis assim mostrar o seu interesse e afecto pelo trabalho a favor dos que mais precisam.


Afinal, quem duvidará de que este hospital e outras instituições do género são mais sinal do Evangelho de Jesus do que o Vaticano? Isto, também para sublinhar que "os papas do futuro viajarão cada vez mais como pastores", como disse ainda A. Torres Queiruga.

Pés


Possa Deus dar-nos a fé quotidiana. Eu não penso minimamente na fé que foge do mundo, mas naquela que o experimenta, o ama e que lhe permanece fiel, a despeito de todos os sofrimentos que ele contém por nós. Eu temo que os cristãos que só têm um pé na Terra, também não tenham mais do que um pé no céu.

Dietrich Bonhoeffer (1906-1954)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

19 de Novembro de 1819. Inauguração do Museu do Prado

"Jardim das Delícias", de Bosch

O Museu do Prado, em Madrid, foi inaugurado no dia 19 de Novembro de 1819 por Fernando VII. Tinha então 311 obras de arte.

O edifício foi projectado por Juan de Villanueva, por ordens de Carlos III (rei de Espanha de 1759 a1788), que queria dotar a capital de um Museu de História Natural. Com as invasões francesas, o edifício teve uso militar e algumas partes entraram em ruína. Foi a portuguesa Maria Isabel de Bragança (filha de D. João VI de Portugal), mulher de Fernando VII, que impulsionou a recuperação do edifício. Morreu um ano anos antes da inauguração.

O Prado está no “top five” dos melhores museus do mundo. Os outros: Louvre, British, Metropolitan (Nova Iorque) e Vaticano. Também gostava de meter aqui o Hermitage de Sampetersburgo, mas não saberia qual tirar. Mas se pudesse ficar com uma obra do Prado, ficava com o “Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch (aqui).

Paróquias alternativas lideradas por leigos na Holanda e na Bélgica

Na Bélgica e na Holanda, algo está a mudar na Igreja Católica.

“Dom Bosco é uma das cerca de dez igrejas católicas alternativas que surgiram e cresceram nos últimos dois anos nas regiões de língua holandesa da Bélgica e da Holanda. Elas são uma reacção inquietante a uma combinação de forças: escassez de padres, fecho de igrejas, insatisfação com as nomeações do Vaticano de bispos conservadores e, mais recentemente, a consternação diante do encobrimento de abusos sexuais cometidos por padres.

As igrejas são chamadas «ecclesias», palavra derivada do verbo grego para "convocação". Cinco delas começaram no ano passado na Holanda por católicos que se afastaram de suas paróquias existentes, e outras estão a ser planeadas”.

A reportagem veio no “New York Times” do dia 16 de Novembro. Faz pensar em movimentos laicais como o da "devotio moderna", que surgiu precisamente nesta região. Será que vai aparecer algum Pedro Valdo (francês, séc. XII)? Como não poderia deixar de ser, a notícia está a ser muito comentada em blogues católicos tradicionalistas. Com uma indignação e termos que nada dignificam quem os usa.

Livro-entrevista do Papa chega em finais de Novembro

O livro do Papa será publicado em português pela Lucerna. O lançamento está previsto para finais de Novembro. Apresentação mundial aqui.

Por que razão os gregos tinham de ganhar o Euro 2004

Sobre ver a besta em todo o lado (a propósito do pedido da Igreja Ortodoxa grega, no "post" anterior), veja-se o seguinte vídeo. Nem o Euro 2004, o de Portugal, escapa. Quer dizer, a taça escapou a Portugal. Ganharam-na... os gregos. Está explicado porquê no vídeo (aos 2 minutos e 47 segundos).

Medos dos símbolos ou superstição?

A Igreja Ortodoxa grega (na Grécia, o Estado é constitucionalmente ortodoxo) está a pedir às autoridades que não utilizem o número 666 nos novos cartões de identificação dos cidadãos, que estão em preparação para emitir no próximo. Isto porque, justificam, o número 666 é o símbolo do Anticristo (li aqui).

Suponho que o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa faz esta exigência por medo do símbolo e não por superstição. Mas na minha perspectiva, isto não faz sentido nenhum. Isto e, por exemplo, a obsessão dos chineses pela sorte que o 8 dá, a nossa superstição no 13, a paranóia norte-americana de alguns prédios passarem do 12.º para o 14.º andar (em Portugal, os grandes prédios costumam parar no 12.º andar), ou o medo cigano dos sapos. Será necessário eliminar o 666 da matrícula dos carros, dos números de porta, dos números das facturas, do conta quilómetros, das páginas dos livros...?

Uma notícia de hoje do "Público" (aqui) diz que os comerciantes de Beja estão a pôr sapos à porta dos seus estabelecimentos para evitar que os ciganos entrem (a discriminação acontece em muitos outros locais do país).

Seria bom que a mentalidade científica e o cristianismo crítico ajudassem a acabar com estes símbolos que revelam, mais do que tudo, superstição, mesmo que baseada em tradições culturais e religiosas.

Palavra que aborrece


Se a palavra “Deus” aborrece, é porque ela significa verdadeiramente alguma coisa. Nenhum outro nome é capaz de provocar tanto.

Jacques de Bourbon Busset (1912-2001)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

18 de Novembro de 1626. É consagrada a Basílica de São Pedro

A Basílica de São Pedro foi dedicada no dia 18 de Novembro de 1626 por Urbano VIII, exactamente 1300 anos depois da consagração da primeira Basílica de São Pedro, que havia sido construída pelo imperador Constantino.

A imagem de cima é da Wikipedia. Aqui, sítio oficial da Basílica, estão disponíveis 10 vistas panorâmicas. Qualquer delas espantosa.

Livro-entrevista de Benedikt XVI.

Mais de 90 perguntas, divididas em três partes: assuntos da actualidade, um balanço dos primeiros anos de pontificado e questões fundamentais sobre o futuro da Igreja e da fé.

No original, intitula-se "Licht der Welt. Der Papst, die Kirche und die Zeichen der Zeit", ou seja, "Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos". Curioso: o ponto final na capa, a seguir ao nome do Papa.

O livro tem 284 páginas e será apresentado no dia 23 de Novembro, no Vaticano.

Durante seis dias, de 26 a 31 de Julho de 2010, em Castel Gandolfo, o Papa respondeu durante uma hora por dia às perguntas do jornalista Peter Seewald, que já o havia entrevistado para o jornal “Süddeutsche Zeitung” e em dois livros de 1996 e 2000 (em Portugal: “O Sal da Terra. O Cristianismo e a Igreja Católica no limiar do Terceiro Milénio”, ed. Multinova, 1997; e “Deus e o Mundo. A Fé Cristã Explicada por Bento XVI”, ed. Tenacitas, 2006).

"Todos serão surpreendidos por encontrar um Ratzinger tão disponível e tão aberto", explicou o jornalista na Feira de Frankfurt. O Papa respondeu directamente a uma grande quantidade de perguntas, sem querer conhecê-las antes: a hipótese de renúncia, o Concílio, mas também as causas e os "encobrimentos" do escândalo da pedofilia, o caso do negacionista Williamson, o perigo de um "cisma" na Igreja, até a possibilidade de um diálogo "genuíno" com o Islão.

No livro, Bento XVI fala do sentido da "infalibilidade" do Pontífice, mas reflecte também sobre os erros que podem ter sido cometidos pela Igreja e também pelo Papa, admitindo que, na “lectio magistralis” de Regensburg – que desencadeou polémicas no mundo muçulmano –, pretendia fazer um discurso académico, científico, e não havia previsto que as palavras do Papa seriam lidas como um discurso político.

Responde ainda a questões típicas dos contemporâneos, explicando as posições da Igreja sobre o celibato dos padres, o "não" à ordenação feminina, a homossexualidade, a contracepção, o uso de preservativos e a SIDA, a comunhão aos divorciados de segunda união e assim por diante. Com uma preocupação acima de todas: o futuro da Igreja, chamada a renovar-se e a ocupar-se essencialmente da verdade do Evangelho, e o anúncio de Deus ao nosso tempo.

Texto do "Corriere della Sera" adaptado a partir daqui.

Boa nova: Portal Universal de Cosmologia

"Smiley astronómico". No dia 1 de Dezembro de 2008 os céus sorriram para a Terra graças a um alinhamento de Vénus, Júpiter e da nossa Lua, criando um alegre smiley astronómico. Isto ocorreu apenas na Ásia. Na América, onde a fase da lua era a oposta, o que se viu foi um smiley triste... Legenda e imagem retiradas de Obviousmag.org


Boa nova cosmológica:

O Vaticano vai lançar em breve o Portal Universal de Cosmologia, para que o público “possa conhecer a autêntica revolução que as missões especiais produziram no conhecimento do Universo”, informou o Conselho Pontifício da Cultura.

O portal, resultante de uma parceria com a Agência Espacial Italiana (ASI, na sigla italiana), será dirigido por Gianfanco Basti, decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia Lateranense, em Roma.

A Universidade Lateranense coordenará o portal e introduzirá as temáticas teológico-filosóficas, enquanto o ASI terá a seu cargo a secção estritamente científica, com o objectivo de difundir a cultura espacial.

O acordo com a ASI foi assinado no âmbito do projecto STOQ, do Vaticano (STOQ - sigla inglesa para "Science, Theology and the Ontological Quest", Ciência, Teologia e Procura Ontológica).

Li no Religión Digital.

Palavra manchada

Sim, Deus é a mais carregada de todas as palavras humanas. Não há uma só que tenha sido tão manchada, tão dilacerada. É precisamente essa a razão pela qual eu não posso mais renunciar a ela.

Martin Buber (1878-1965)

Os AA portugueses também seguem os 12 passos


Um leitor comentou na entrada "Um padre nos Alcoólicos Anónimos":

"Não é exacto ao dizer «Procurando no sítio dos AA portugueses (aqui), não encontrei a formulação dos 12 Passos». Poderia dizer, com razão, que deveriam estar mais visíveis naquela página, dada a importância daquele programa na respectiva comunidade.

De facto estão lá os 12 Passos. É a pergunta 30 desta lista. Fica reposta a verdade.

Aqui ficam:

  • Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que as nossas vidas se tinham tornado ingovernáveis.

  • Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos nos poderia restituir a sanidade.

  • Decidimos entregar a nossa vontade e a nossa vida aos cuidados de Deus, como O concebíamos.

  • Fizemos, sem medo, um minucioso inventário moral de nós mesmos.

  • Admitimos perante Deus, perante nós próprios e perante outro ser humano a natureza exacta dos nossos erros.

  • Dispusemo-nos inteiramente a aceitar que Deus nos libertasse de todos estes defeitos de carácter.

  • Humildemente Lhe pedimos que nos livrasse das nossas imperfeiçőes.

  • Fizemos uma lista de todas as pessoas a quem tínhamos causado danos e dispusemo-nos a fazer reparaçőes a todas elas.

  • Fizemos reparaçőes directas a tais pessoas sempre que possível, excepto quando fazê-lo implicasse prejudicá-las ou a outras.

  • Continuámos a fazer o inventário pessoal e quando estávamos errados admitíamo-lo imediatamente.

  • Procurámos através da oraçăo e da meditaçăo melhorar o nosso contacto consciente com Deus, como O concebíamos, pedindo apenas o conhecimento da Sua vontade em relaçăo a nós e a força para a realizar.

  • Tendo tido um despertar espiritual como resultado destes passos, procurámos levar esta mensagem a outros alcoólicos e praticar estes princípios em todos os aspectos da nossa vida.

  • quarta-feira, 17 de novembro de 2010

    Teólogo alemão Gotthold Hasenhüttl vai-se embora

    Aqui está um motivo para ficar triste. O teólogo alemão e padre Gotthold Hasenhüttl abandonou a Igreja católica. Como na Alemanha não basta ir-se embora, foi ao registo civil pedir que apagassem o seu nome, para que o seu imposto religioso não vá para a Igreja católica. Recorde-se que, por causa dos casos de pedofilia, houve milhares de casos similares.

    As razões que Hasenhüttl (de quem nunca tinha ouvido falar) aponta:
    1. A Igreja está mais interessada em recolher impostos do que em ser uma comunidade de fé;
    2. Deficiente forma de abordar os casos de abusos sexuais contra menores;
    3. Instituição pouco preocupada com o indivíduo, antiquada, de orientação fundamentalista.

    Hasenhüttl já em 2003 tinha sido suspenso por convidar protestantes para a missa católica. E em 2006, o aqui referido Reinhard Marx, então bispo de Tréveris, proibiu-o de ensinar teologia.

    Li aqui.

    A tristeza é um glutão do coração e alimenta-se da mãe que o gerou

    A tristeza é um glutão do coração e alimenta-se da mãe que o gerou.

    Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, vê-se livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.

    O cristão triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.

    O cristão triste não saberá como contemplar, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.

    Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.

    O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro das paixões.

    A tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.

    Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova da sua derrota, aumenta a atadura.

    O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia à vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira. Com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efectivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem que confia no Senhor não é ferido pela tristeza.


    Evágrio Pôntico

    Originário da Capadócia (actual Turquia), Evágrio Pôntico, viveu no séc. IV nos desertos do Egipto. É um dos chamados “Padres do Deserto”, homens que procuravam a perfeição cristã no isolamento dos lugares inóspitos e através da privação dos bens mais elementares.

    Bento XVI e os abusos sexuais

    Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...