sábado, 9 de outubro de 2010

9 de Outubro de 1201. Nasce o teólogo que dá nome à Sorbonne

Capela da Sorbonne. Inicialmente era dedicada a Santa Úrsula, agora serve para recepções e exposições.

Robert de Sorbon (09-10-1210 – 15-08-1274), natural de Sorbon (terra situada no departamento das Ardenas, já perto da Bélgica), foi capelão do rei (S.) Luís IX e, como teólogo, fundou a Casa de Sorbonne (“Maison de Sorbonne”) em 1257, para ensinar teologia a 20 estudantes pobres. A instituição cresce e integra a Universidade de Paris.

A partir de finais do séc. XVIII a designação “Universidade de Sorbonne” sobrepõe-se a “Universidade de Paris”.

Depois do Maio de 1968, que teve como centro da contestação a Sorbonne, a universidade foi dividida em treze universidades autónomas. Quatro delas continuam a partilhar o nome de Sorbonne: Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne); Paris III (Sorbonne Nouvelle); Paris IV (Paris-Sorbonne); Universidade de Paris V (Paris Descartes, com a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - Sorbonne). Há ainda a École Supérieure Robert de Sorbon, privada (aqui).

Anselmo Borges: Religiões e liberdade


Kurt Westergaard, autor das caricatura de Maomé

Realizou-se no sábado passado, na Biblioteca Municipal, o X Simpósio de Santa Maria da Feira. O tema foi Identidade, Liberdade e Violência, tratado por duas figuras mundialmente conhecidas pela sua luta pela liberdade: a iraniana Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz em 2003, e o dinamarquês Kurt Westergaard, célebre por causa do cartoon com Maomé com uma bomba no turbante. Era notória a segurança policial por todo o lado.

A primeira a falar foi Shirin Ebadi. E disse que, sem a liberdade de expressão, de que faz parte a liberdade religiosa, a democracia não existe. O problema das teocracias é que os cidadãos e concretamente as minorias não podem exprimir-se. Ora, as pessoas devem poder exprimir-se sem medo. O direito à liberdade religiosa implica também a possibilidade de converter-se a outra religião, e isto é particularmente importante em países islâmicos como o Irão e a Arábia Saudita, onde a conversão é castigada de modo muito pesado.

Deve haver barreiras para a liberdade de expressão? Não é aceitável a propaganda a favor da guerra, da violência, da discriminação. Mas não se pode considerar que o cartoon com a bomba no turbante seja contra os direitos humanos. "Claro que eu não aceito a reacção dos fundamentalistas".

A censura não é admissível. Aqui, Shirin Ebadi citou o seu país, onde a censura é cada vez mais rígida e se pode estender à tradução de obras famosas estrangeiras. E denunciou o Ocidente, que colabora com a censura, por exemplo, vendendo tecnologia com essa finalidade.

Afinal, "somos todos passageiros no mesmo barco". A liberdade é para todos. Os outros participam no mesmo destino. A árvore do conhecimento deveria dar mais frutos. Devemos irar-nos contra os preconceitos.
Antes de dar a palavra ao cartoonista, Carlos Magno lembrou o recente atentado na sua casa e que houve protestos, porque Merkel o recebeu. Até se quis censurar o Papa por causa do discurso de Ratisbona. Mas a liberdade de expressão não pode estar em causa em lado nenhum.

E Kurt Westergaard falou. A sua herança é cristã, mas confessou-se ateu, respeitador de todas as religiões. Agradeceu ao seu país a segurança policial permanente. Com 75 anos, já passou pelo fascismo, pelo nazismo, o comunismo, agora, o islamismo. Qual é o problema dos "ismos"? Rejeitam a dúvida, esse sentimento humano provocador e que obriga a procurar. Nas religiões, o perigo é a subordinação cega das pessoas às autoridades religiosas.

Muitos islâmicos vieram para o Ocidente com bombas ideológicas ou religiosas. Quis mostrar que o islão está ligado à violência: "A prova é que quiseram matar-me." Não podemos ceder na defesa dos nossos valores de liberdade. Há valores fundamentais, entre os quais a liberdade religiosa, que estão acima dos dogmas religiosos.

Para a sociedade dinamarquesa foi um choque ver a sua bandeira a arder e demonstrações que custaram vidas. O problema é que se trata de regimes que não são capazes de alimentar as pessoas: então, da frustração à agressão é um passo.

Mais tarde ou mais cedo, o choque ou a fricção entre as duas culturas, cristã e islâmica, dar-se-ia. O cartoon foi o detonador. Como vão o cristianismo e o islão conviver? O cristianismo manda dar a outra face e dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Mas o islão é uma religião que sacraliza a guerra e não faz a separação da religião e da política. De qualquer forma, é pelo diálogo que temos de encontrar a solução. O debate sobre o lugar das religiões nas sociedades seculares é essencial.

As palavras destas duas figuras são tanto mais significativas quanto são proferidas por quem enfrenta o risco da própria morte. Tanto é o valor da liberdade! Lá dizia Hegel que o escravo o é, porque antepõe a vida física à liberdade.

É fraca uma religião incapaz de submeter-se à crítica. Religião e liberdade têm um vínculo indissolúvel. Referindo-se ao cristianismo, São Paulo escreveu: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou".

Texto de Anselmo Borges no DN de 09 de Outubro de 2010.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Espíritos da natureza

Há dias recolhi aqui uma notícia sobre o reconhecimento do druidismo pelo Reino Unido. Hoje recolho a retaliação do "Inimigo Público".

Novo livro de Philip Job, quer dizer, Roth


O Nobel da Literatura do próximo ano – estou a referir-me, é claro, a Philip Roth, que enquanto não o receber é sempre o candidato mais apontado para recebê-lo no ano seguinte – vai publicar o 31.º romance. Chama-se “Nemesis”. Tem o nome da deusa grega que combate tudo o que é excessivo, diz o “Ípsilon”. Quase uma deusa da vingança. Estraga a felicidade.
Ora, diz o mesmo jornal-revista, e isto é que me interessa: “Como noutros livros, a negociação entre a culpa e o livre arbítrio ocupa o essencial da narrativa, em que o escritor reflecte longamente sobre o papel de Deus na história dos homens. A imprensa que já leu o livro fala de uma exploração rara e directa desse driblar de culpas entre o homem e Deus, assegurando que «Nemesis» permite imaginar que Roth encerra aqui um conjunto de abordagens e temáticas”.
Só li dois livros de Roth (e vi um filme baseado noutro, “A Mancha Humana”), mas Roth não engana. É judeu. E, como todos os judeus que pensam, tem contas a ajustar com Deus. (Alguém disse que para os judeus o perdão não conta – isso é dos cristãos -, só a culpa). Ele sente-se como Job. Se receber o Nobel será que passa?

Almoço inalterado

De todos os sinais de modernidade que se parecem traduzir em algum tipo de decadência, nenhum é mais ameaçador e perigoso do que a exaltação de normas de conduta pequenas e secundárias, à custa das grandes e primárias, à custa dos laços eternos e da trágica moralidade humana.

Desse modo, costuma considerar-se mais injurioso acusar um homem de mau gosto do que de má ética. Hoje em dia, já não se associa a limpeza à santidade, visto que a limpeza se converteu em algo essencial, ao passo que a santidade se converteu em algo ofensivo.

(...) O grande perigo para a nossa sociedade está em que todo o seu mecanismo se possa tornar cada vez mais fixo, à medida que o espírito se torna mais inconstante.

Os pequenos actos de um homem deveriam ser livres, flexíveis, criativos; o que deveria permanecer inalterado são os seus princípios, os seus ideais.

Mas connosco o contrário é que é a verdade: os nossos pontos de vista alteram-se constantemente, mas o nosso almoço permanece inalterado.

G. K. Chesterton in “Tremendas trivialidades”, pág. 61, Aletheia Editores, 2010 (original de 1909). Agradeço a P.G., que me enviou o texto.

O Papa tem motos novas

Há os sapatos do Papa, os chapéus do Papa, o carro do Papa, o relógio do Papa, a bebida do Papa. E agora, também, a novas motos do Papa.

Incrível

Não há senão uma e uma só razão válida para acreditar em Deus: é porque Ele é incrível.

Romano Celli (1949-1995)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O que diz González Faus

José Ignacio González Faus é professor emérito da Faculdade de Teologia da Catalunha, autor, entre muitos outros títulos, de “La Humanidad Nova. Ensayo de Cristologia” (Ed. Sal Terrae, Santander). As declarações foram feitas numa entrevista ao jornal espanhol “Hoy”, no dia 5 de Outubro de 2010 (aqui).

Quem faz mais ateus?
Disse uma vez que a cúria romana fez mais ateus que Marx, Freud e Nietzsche juntos. O que não dá para negar é que muitos homens se afastam dela e, mesmo que mais tarde se sintam vazios e queiram preencher esse vazio, se dão conta de que têm que procurar fora da Igreja. Diante disso, não parece que a Instituição procure aproximar-se. Os pontos fracos da Igreja actual são muitos, e eu disse já disse várias vezes é a cruz da minha fé, mesmo que procure carregá-la com elegância. Vejo que ela é incapaz de compreender o positivo do mundo moderno e os seus dirigentes desejam poder solucionar os problemas com base no poder.

Democracia
Não me parece evangélico que o Papa seja chefe de Estado, nem o modo de nomear a dedo os bispos nem os “príncipes da Igreja”. Quando não havia democracia, eram eleitos democraticamente a partir das comunidades locais.

Mulher
É inegável que a mulher não ocupa na Igreja o lugar que merece.

O que há a mudar
Não é uma questão de receitas. A Igreja tem que mudar muitas coisas. Devia começar por reconhecer que está em crise. Na qual todos temos um pouco de culpa. A partir daí teria que ver como e por onde se pode caminhar. Começando por não excluir como hereges aqueles que pensam diferente.

Linguagem antiga
Algo simples por onde se poderia começar é a linguagem. Não se podem manter as palavras antiquadas da liturgia. Não se entendem ou suscitam imagens contrárias ao que na sua origem se queria expressar.

Por que devemos criticar a Igreja
Ratzinger tem um artigo já clássico no qual diz que se hoje não se critica tanto a Igreja como na Idade Média, não é porque se a ame menos, mas porque falta esse amor que é capaz de arriscar a própria sorte ou a própria carreira pela amada [parte desse artigo foi aqui citada]. E eu tenho um livro sobre a liberdade da palavra na Igreja que é só uma antologia de textos de santos, bispos e cardeais, alguns muito mais duros do que as coisas que se dizem hoje. Também é normal que as autoridades não gostem disso e que de vez em quando te dêem com algum pau ou chamem à atenção “de cima”. E o que sinto é que isso não é feito directamente para mim. Quem tem que arcar com as críticas é o meu provincial, o que não está certo. Bom, não há parto sem dor. E como disse Santa Teresa, a verdade padece, mas não perece.

Newman foi incómodo no seu tempo
Creio que o balanço da visita do Papa não é mau. A experiência foi positiva. A beatificação de John Henry Newman parece-me significativa. Uniu muito a Igreja, apesar de ter sido um homem crítico que incomodou tanto a direita católica como muitos anglicanos. Quando se converteu não sentia nenhuma simpatia pela Igreja católica, mas o estudo da história fê-lo ver que a continuidade com as origens estava em Roma.

Diálogo inter-religioso
A convivência, o afecto e a colaboração entre religiões é um imperativo. E na palavra religiões incluo agora também o ateísmo. Os poderes públicos devem ser neutros e buscar a convivência. Em alguns lugares, como na Catalunha, há muitas iniciativas bem positivas. É preciso buscar o encontro naquilo que nos une como humanos. Devemos buscar no outro a melhor versão de sua personalidade, que é o que Deus pede a todos.

Drogados pelo consumo
Deixamos passar uma grande oportunidade para mudar os elementos injustos e irracionais de nosso sistema económico. Esta crise serviu apenas para ajudar aqueles que a provocaram, mas não as verdadeiras vítimas. Todos fomos cúmplices do sistema, drogados como estamos pelo consumo. Isto foi um passo a mais rumo ao desmantelamento do Estado de bem-estar social. A culpa é em parte da esquerda, que participou desse “socialismo assistencial” da partilha de subvenções, em vez de se ocupar em fazer justiça social.

Prostituição da actividade publicitária

Trata-se de "prostituição da actividade publicitária" o uso depreciativo de situações religiosas para fins comerciais. E contra os católicos, pode-se tudo. Mesmo assim, como diz Eduardo Cintra Torres, e eu subscrevo, é um erro as autoridades proibirem este tipo de anúncios. O texto vem o "Jornal de Negócios" de 07-10-2010.

Os judeus e a primeira República - observações de Esther Mucznik

Judeus na Sinagoga de Lisboa.
Imagem retirada do blogue Sinagoga de Lisboa

Esther Mucznik, em artigo de opinião no “Público” de hoje, relativiza a liberdade religiosa para os judeus com o advento de I República. “Contrariamente ao que frequentemente se pretende, a República não foi o «25 de Abril da liberdade religiosa»”, escreve. Mas trouxe algo de novo para os judeus portugueses? Sim. “A existência legal: com a Lei de Separação, são aprovados os estatutos da Comunidade Israelita de Lisboa em alvará de 9 de Maio de 1912”.

A investigadora em assuntos judaicos, num texto abonatório para a cultura portuguesa de finais dos séc. XVIII e dos séculos XIX e XX, já que o anti-semitismo é tido como raro e importado, afirma que ao longo do séc. XIX o culto judaico é tolerado em Lisboa, Faro e Açores e aponta dois alvarás que significam o “reconhecimento, de facto, da existência da religião judaica em Portugal”: o alvará de D. Luís, de 1868, que permite aos judeus de Lisboa a construção de um cemitério; e o alvará do Governo Civil, de 1892, que ratifica os estatutos da “Associação Guemilut Hassadim, irmandade israelita de socorros mútuos na hora extrema e funerais”. Ou seja, mais uma vez, antes da República de 1910 não era tão mau como por vezes se diz.

Teologia da incerteza

Thierry Maulnier, Jacques Hébertot e André Malraux

Deus é aquele que não pode ser provado. Ele está para lá de todas as provas. Se eu fosse cristão, votaria os meus esforços a uma teologia da incerteza.

Thierry Maulnier (1909-1988)

Mentiras do 5 de Outubro de 1910

Caricatura do anticlerical Afonso Costa

Outra mentira habitual é a de que o regime saído do 5 de Outubro teria feito da educação uma das suas prioridades – é o mito da “educação republicana”, essa lenda que alimenta a farsa da “inauguração”, pelo centenário, de 100 novas escolas. Ora a primeira preocupação da República não foi a educação, antes a perseguição dos católicos, em especial dos jesuítas. Menos de cem horas depois de José Relvas ter subido à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, foi proclamada uma lei a renovar a proscrição dos jesuítas, repondo em vigor a legislação do Marquês de Pombal. Todos os membros de associações religiosas foram proibidos de “exercer o ensino ou intervir na educação”, o que teve como consequência imediata o encerramento de muitas escolas. No tempo de Pombal a expulsão dos jesuítas fizera desaparecer a rede de ensino secundário, a qual levaria décadas a ser reconstruída; com a República repetia-se o mesmo erro.

José Manuel Fernandes, "Público", 04-10-2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Entrevista a José Antonio Pagola: “Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual”


O sacerdote basco José Antonio Pagola (Guipúzcoa, 1937), o já célebre autor de "Jesús, Aproximación histórica", mantém uma visão contemporânea e radical de Jesus Cristo. O número dois de José María Setién [bispo de 1979 a 2000] na diocese de San Sebastián vendeu 40 mil exemplares de seu livro em dois meses, antes que a Conferência Episcopal interferisse no assunto e a obra fosse retirada das livrarias eclesiásticas e diocesanas pela editora católica que a publicou. Em Portugal a obra está publicada na Gráfica de Coimbra 2 (“Jesus, uma abordagem histórica”), vendendo-se com um livrinho de 62 páginas, “suplemento”: “Uma explicação ao meu livro «Jesus, uma abordagem histórica”. A obra principal tem 552. A entrevista de Matías Vallés foi publicada no jornal “La Nueva España”, no dia 03 de Outubro de 2010. Copiei daqui. Original aqui.
Considera-se uma vítima?
Não. No meu livro apresento Jesus como conflitivo e perigoso. Agora comprovei na minha própria carne que ele o foi e o será sempre. Quando são conhecidas as suas palavras de fogo, a sua liberdade para defender as pessoas, o seu projecto de uma sociedade ao serviço dos últimos ou a sua crítica a uma religião vazia de compaixão, Jesus gera reacções encontradas de atracção ou de rejeição. Creio que, em boa parte, meu livro suscitou inquietação quando se captou que Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual.
Jesus Cristo era mais homem do que Deus?
Provavelmente, ninguém exerceu um poder tão grande sobre os corações como Jesus, ninguém expressou como ele as inquietações e interrogações do ser humano, ninguém despertou tantas esperanças. Ainda hoje, quando as ideologias e religiões experimentam uma crise profunda, Jesus continua a alimentar a fé de milhões de homens e mulheres. Nós, cristãos, pensamos que Jesus é tão plenamente humano que não é como nós. Leonardo Boff dizia que “tão humano só pode ser Deus”. Para mim, Jesus é Deus, falando-nos, acompanhando-nos e salvando-nos a partir desse homem entranhável.
A nomeação de Munilla [José Ignacio Munilla Aguirre, 48 anos, nomeado bispo de San Sebastián em Novembro de 2009 ] é um desafio de Rouco [arcebispo de Madrid] à Igreja nacional basca?
É um erro analisar o que ocorreu em San Sebastián a partir de chaves exclusivamente políticas. Penso, ao contrário, que o que se vive em minha diocese é, sobretudo, um conflito eclesial que está a ocorrer também em outras partes, como consequência de um confronto entre dois modelos de Igreja ou duas sensibilidades sobre o conteúdo e o significado do Vaticano II ou sobre a missão da Igreja na sociedade secularizada. O lamentável é que, em geral, as nossas mútuas desqualificações não estão a conduzir-nos em direcção a uma Igreja mais fiel a Jesus e ao seu projecto.
Vai ler o livro de Hawking que nega a existência de Deus?
Não. Os trabalhos de Stephen Hawking sobre astronomia sempre me interessaram, mas não as suas conjecturas sobre Deus. Os especialistas no diálogo ciência-fé afirmam que nem as religiões podem provar a existência de Deus, nem a ciência a sua não existência. Parece que o homem moderno decidiu que o que o ser humano não pode provar cientificamente não existe.
Deus é necessário?
Deus não é necessário para ganhar dinheiro, adquirir poder ou conquistar bem-estar. Também não é necessário para nos dispensar do mal, do sofrimento ou das desgraças da vida. Deus serve, para nós, crentes, para enfrentarmos com uma luz, um estímulo e um horizonte novo a dureza da vida e o mistério da morte.
Gostaria de manter um debate aberto com Bento XVI sobre os conteúdos de seu livro?
Gostaria que, em Roma, fossem ouvidas as diversas correntes teológicas existentes no seio da Igreja – não só na Europa –, mas, principalmente. Alegrar-me-ia que a hierarquia liderasse um movimento de conversão a Jesus Cristo. Não há nada mais urgente.
Jesus tomaria as mesmas decisões que o Vaticano toma sobre a mulher?
Jesus critica uma sociedade patriarcal que estabelece o domínio e o poder do homem sobre a mulher. Essa actuação de Jesus está a exigir-nos hoje uma revisão profunda da situação injusta da mulher na Igreja e na sociedade, uma consciencialização mais viva da nossa infidelidade a Jesus e um processo valente de renovação para que a mulher possa desfrutar da sua dignidade, direitos e protagonismo.
Jesus acabou numa vala comum como os desaparecidos da Guerra Civil?
Não. Historicamente, é muito provável. Essa hipótese do norte-americano John Dominic Crossan não encontra apenas aceitação entre os especialistas.
Inclusive, seus críticos mais duros renderam-se diante do brilhante estilo literário de “Jesus”.
O que me enche de alegria é comprovar que muitas pessoas que lêem o meu livro sentem Jesus mais vivo e próximo, encontram um sentido diferente para a sua vida, desperta-se neles o desejo de uma vida mais humana. Encontram no meu livro algo que eu não coloquei.
Pensou alguma vez que ele se converteria num sucesso de vendas?
Nunca. Normalmente, o êxito de um livro mede-se nesta sociedade pelo número de exemplares vendidos. Eu não acho isso. De "O Código Da Vinci", de Dan Brown, foram vendidas milhões de cópias, mas eu considero-o um fracasso, pois não introduz verdade nem esperança, não nos aproxima do mistério de Jesus, não ajuda a viver de forma mais humana.
As contradições no discurso de Jesus abundam nos evangelhos?
Os evangelhos não são relatos biográficos redigidos para oferecer informação precisa de carácter histórico. São relatos em que, de forma variada e matizada por cada evangelista, se recolhe a memória de Jesus. Para nos aproximarmos do conteúdo histórico que eles conservam sobre Jesus é necessário contrastá-los, analisar os géneros literários que empregam, os procedimentos narrativos, o vocabulário próprio de cada evangelista, o contexto.
Jesus Cristo expulsaria os mercadores do Vaticano?
Não se deve esperar que Jesus volte. A partir dos milhões de famintos e desnutridos da terra, dos pobres esquecidos pelas religiões, das mulheres humilhadas em todos os povos, Jesus está a grita-nos agora mesmo, aos dirigentes do Vaticano e a todos os que nos dizemos cristãos, que expulsemos da Igreja riquezas, poderes, grandezas ou interesses que ocultam sua mensagem de esperança.
Pode-se seguir Jesus sem seguir sua Igreja?
Nestes momentos, eu não encontro outra forma melhor de seguir Jesus do que vivendo nesta Igreja, mas esforçando-me por me converter, eu mesmo, ao Evangelho, e trabalhando para fomentar nela um clima de conversão para Jesus.
A crise económica que tanto nos ocupa irá provocar um renascimento da espiritualidade?
Observo que o desejo de espiritualidade se desperta principalmente em pessoas que experimentam com força o vazio existencial, o sem sentido de sua vida, a saturação de bem-estar. Não é fácil viver uma vida que não aponta para nenhuma meta.
O que um não crente pode obter com a leitura de seu livro?
Recebi muitas centenas de cartas e escritos de leitores não crentes. A maioria me diz que se encontrou com um Jesus que nem sequer suspeitavam; alguns sentiram-se chamados a repropor a sua vida com mais verdade e honestidade; muitos sentiram-se libertos de medos e fantasmas religiosos que lhes fizeram sofrer muito apesar de se terem distanciado da Igreja; muitos ficam comovidos com um Deus amigo que ama com amor incrível e imerecido a todos os seus filhos. Alguns dizem: “Oxalá que esse Deus exista”. Muitos animam-se a trabalhar por um mundo mais humano e justo.

Druidismo reconhecido como religião

A liberdade religiosa (acreditar no que se quiser e participar em cultos ou nada disso, incluindo o ateismo) é uma das liberdades fundamentais do quadro civilizacional em que nos movemos, a par com a liberdade política (poder escolher quem queremos que nos governe e poder afastá-los), de opinião (onde incluo a liberdade de imprensa, de expressão e de associação) e económica (onde se inclui a livre iniciativa, a propriedade, o fazer e desfazer negócios). Mas o druidismo como religião? Vejo positivamente a espiritualidade da harmonia com a natureza (que está presente em algum cristianismo). E sei que alguns arquitectos desenham obras a pensar no "espírito do lugar". Mas se há alguma religião que não se deve sentir bem com os tempos actuais é o druidismo, que não passa de uma versão do animismo, que aloca a todos os seres uma alma. Falar em druidismo parece-me sempre regressar ao passado. Suponho que também este revivalismo de religiões antigas, incluindo o paganismo e o gnosticismo, possa ser uma reacção à ciência sem alma dos nossos tempos e, por vezes, à igrejas sem carisma. A notícia é do "Jornal de Notícias" de 3 de Outubro de 2010.

Revista de património e arte sacra: "Invenire"

É apresentado hoje, no Museu Nacional de Arte Antiga, às 18h, o primeiro número da revista “Invenire: Revista de Bens Culturais da Igreja”, da responsabilidade do Secretariado Nacional dos Bens Culturais. Custa 9 euros. Sai duas vezes por ano.

Este primeiro número tem os seguintes conteúdos:

- Dois artigos de investigação: “São Paulo na Arte Portuguesa”, por Carlos A. Moreira Azevedo; e “O Discurso do Tempo: para uma releitura das Memórias Paroquiais de 1758”, por Nuno Resende.

- Um portfólio: “Marfins do Patriarcado de Lisboa”, por Carla Alferes Pinto

- Várias obras em destaque: Colecção têxtil do Tesouro-Museu da Sé de Braga; Pintura mural da Capela de São Marcos de Fonte Arcadinha; Um projecto-piloto de salvaguarda: a igreja de Nossa Senhora da Piedade de Santarém e a arte ao serviço do seu orago; Compromisso dos Pescadores e Mareantes do Alto da Confraria, e Irmandade do Espírito Sancto; Do Paço Patriarcal aos Palácios Nacionais: transferência das obras de escultura dos jardins de S. Vicente de Fora; Variações para uma Ceia: A Última Ceia de Cirillo V. Machado para S. Sebastião da Pedreira; Um «Aeolian Orchestrelle» em São Salvador de Elvas.

- Um caderno sobre a Rota das Catedrais.

- Um texto de opinião de Rui Vieira Nery: “Salvar o património de música sacra portuguesa”.

Notícia de ontem: República laica inaugura igreja

Uma pequena diferença

Tudo se passa como se, com o tempo, se tivesse visto já não Jesus, mas a Igreja como sendo Deus incarnado cá em baixo. A metáfora do “Corpo místico” serve de ponte entre as duas concepções. Mas existe uma pequena diferença: é que o Cristo era perfeito, enquanto a Igreja está minada por uma quantidade de crimes.

Simone Weil (1909-1943)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro de 1703. Nasce o teólogo calvinista Jonathan Edwards

Jonathan Edwards (05-10-1703 – 22-03-1758) foi um grande teólogo calvinista (presbiteriano) norte-americano, defensor do determinismo teológico e da absoluta soberania de Deus. Escreveu obras que ainda hoje são lidas, como “O fim para o qual Deus criou o mundo” e “A Vida de David Brainerd”, que inspirou muitos missionários da igreja evangélica reformada.

A partir de 1734 liderou um movimento de grande fervor religioso entre os presbiterianos e luteranos de Pensilvânia e New Jersey que ficou conhecido por “First Great Awakening” (“primeiro grande despertar” ou “primeiro grande reavivamento”).

No final da vida, foi professor no Colégio de Nova Jersey, que viria a dar origem à Universidade de Princeton. Está sepultado em Princeton. Antes disso, formara-se na Universidade de Yale, onde também foi professor durante dois anos. Yale homenageia-o com um centro de estudos sobre a sua figura (aqui).

Sabe de religião mais do que um norte-americano?


O Pew Forum colocou on-line parte do questionário (15 da 32 perguntas) que lançou aos norte-americanos, aqui. Podemos responder-lhe e no final obter uma comparação do nosso conhecimento das religiões com o dos inquiridos para o estudo. Para uma análise mais detalhada do estudo, leia-se a versão em pdf, que inclui, por exemplo, todas as 32 questões lançadas .

Traduzi as questões do quiz online. No final, as respostas correctas.

1. Qual a figura bíblica que mais se associa ao êxodo do Egipto?
- Job
- Elias
- Moisés
- Abraão

2. Qual era a religião de Madre Teresa?
- Católica
- Judaica
- Budista
- Mórmon
- Hindu

3. Qual dos seguintes não é um dos 10 Mandamentos?
- Não cometer adultério
- Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti
- Não roubar
- Santificar o sábado

4. Quando começa o Sabbath dos judeus?
- Sexta-feira
- Sábado
- Domingo

5. O Ramadão é…
- A festa hindu das luzes
- O dia judaico da expiação
- O mês sagrado islâmico

6. Qual destas frases descreve melhor o ensinamento católico sobre o pão e o vinho usados na Comunhão?
- O pão e o vinho tornam-se de facto corpo e sangue de Jesus Cristo
- O pão e o vinho são símbolos do corpo e sangue de Jesus Cristo

7. Em que religião Vishnu e Shiva são figuras centrais?
- Islão
- Hinduísmo
- Taoísmo

8. Qual a figura bíblica associada mais de perto à contínua confiança em Deus apesar do sofrimento?
- Job
- Elisas
- Moisés
- Abraão

9. Qual era a religião de Joseph Smith?
- Católica
- Judaica
- Budista
- Mórmon
- Hindu

10. Segundo as leis do Supremo Tribunal dos EUA, é permitido a um professor orientar uma oração numa escola pública?
- Sim, é permitido.
- Não, não é permitido.

11. Segundo as leis do Supremo Tribunal dos EUA, é permitido a um professor do escola pública ler da Bíblia como exemplo de literatura?
- Sim, é permitido.
- Não, não é permitido.

12. De que religião professa a maior parte das pessoas do Paquistão?
- Budismo
- Islamismo
- Cristianismo

13. Como se chama a pessoa cujos escritos e acções inspiraram a Reforma Protestante?
- Martinho Lutero
- Tomás de Aquino
- John Wesley

14. Qual destas religião anseia pelo nirvana, o estado de libertação do sofrimento?
- Islão
- Budismo
- Hinduísmo

15. Qual destes pregadores participou no período religioso conhecido como “Primeiro Grande Despertar”
- Jonathan Edwards
- Charles Finney
- Billy Graham

Respostas
1. Moisés
2. Católica
3. Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti
4. Sexta-feira
5. O mês sagrado islâmico
6. O pão e o vinho tornam-se de facto corpo e sangue de Jesus Cristo
7. Hinduísmo
8. Job
9. Mórmon
10. Não, não é permitido
11. Sim, é permitido
12. Islamismo
13. Martinho Lutero
14. Budismo
15. Jonathan Edwards

Ateus sabem mais de religião do que crentes

Os ateus/agnósticos, seguidos dos judeus, são quem mais sabe de religião nos EUA, segundo um inquérito realizado pelo Pew Forum, organização que se dedica ao estudo da presença da religião na vida pública.

Em média, os americanos responderam correctamente a 16 das 32 questões. Mas os ateus deram 20,9 respostas certas, os judeus 20,5, os mórmons 20,3, os protestantes evangélicos brancos 17,6 (incluindo os outros grupos protestantes, 16), e os católicos brancos 16 (incluindo os outros grupos católicos, 14,7). Ver aqui.


Cinzas


Deus sacode de tempos a tempos os impérios
como uma velha que remove
a cinza da sua lareira.

Victor Hugo (1802-1885)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ambições judaicas e católicas

Um rabino e um padre discutem acerca das suas actividades.
- O senhor é ambicioso? – pergunta o padre.
- Bom, penso que poderia ter, talvez, uma comunidade maior. E o senhor?
- Eu… por mim, julgo que poderia chegar a cardeal.
- E depois?
- Como depois? Acha que não chega? Queria que eu me tornasse Deus?
- Sabe – responde suavemente o sabino -, um dos nossos já o conseguiu.

4 de Outubro de 1515. Nasce Lucas Cranach, o Jovem


O alemão Lucas Cranach, o Jovem (1515- 1586), foi pintor como o seu pai, Lucas Cranach, o Velho (1472-1553). Ambos são pintores da Reforma Protestante, próximos de Lutero, que conheceram.

A Crucifixão que aqui se reproduz (clicar para aumentar) foi começada pelo pai e concluída pelo filho. Encontra-se na Igreja de S. Pedro e S. Paulo, em Weimar, na Alemanha. Repare-se especialmente em Lutero, segurando a Bíblia sobre um chão florido. Entre o braço de João Baptista e os pés de Jesus vê-se Moisés, ao fundo, num chão rochoso, segurando as tábuas da Lei. Na Bíblia de Lutero há três trechos. Um deles diz: “Tal como Moisés elevou a serpente no deserto, assim deve ser elevado o Filho do Homem, para que aqueles que nele acreditam tenham a vida eterna”.

Católicos (e protestantes), republicanos e interventivos

A “Pública” (revista dominical do “Público”) de ontem encheu-me as medidas. Já para aqui copiei a “crónica é muito isto” de José Diogo Quintela. Não vou copiar a entrevista a Maria João Avillez sobre o que a Gulbenkian anda a fazer em África (cooperação inteligente) nem as 11 páginas sobre a filantropia dos empresários portugueses (ela existe, sim, amigos cínicos, e nem sempre é feita com intenções de aumentar os lucros), ou a entrevista sobre o Brasil a Laurentino Gomes (autor de “1822”). Mas não resisto a copiar o artigo de António Marujo, nas vésperas dos 100 anos da implantação da República, quando crescem as opiniões de que não há nada para comemorar (Pulido Valente, Pacheco Pereira…). Intitula-se “Católicos (e protestantes), republicanos e interventivos”. Oito páginas. Valiosas. Também está on-line, aqui.








Oração de S. Francisco que não é de S. Francisco

Oração que não é de Francisco de Assis*, mas que fica sempre bem citar no dia de S. Francisco (hoje).

Senhor,
Fazei de mim um instrumento da vossa paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz !
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
perdoando que se é perdoado e
é morrendo que se vive para a vida eterna!


* Atribuída a Francisco de Assis, esta oração é, na verdade, de um autor protestante do século XX. Foi escrita em 1917, no contexto da Grande Guerra, e publicada pela primeira vez em 1922 numa revista protestante francesa. No ano seguinte, saiu um jornal dos Capuchinhos (um dos ramos dos franciscanos) com o comentário: "Bem podia ser uma oração franciscana". E a partir daí ficou colada a S. Francisco de Assis, apesar de as frases não terem nada a ver com as fórmulas típicas da Idade Média.

Gerir uma empresa de sucesso em nome de Deus? É possível

Não creio que seja possível gerir uma empresa em nome de Deus. Nem me parece que seja isso que os jesuítas defendem. Mas vale a pena ler os textos do "i" de hoje (4 de Outubro) sobre liderança. Os "pilares da liderança inaciana" serão assim tão originalmente jesuíticos?


Impotência

Ao nos tornarmos mais velhos, somos levados a reconhecer realmente a nossa situação diante de Deus. Deus faz-nos saber que nós temos que viver enquanto homens que conseguem viver sem Deus. Deus é impotente e fraco no mundo e só assim Ele está connosco e nos ajuda.

Dietrich Bonhoeffer (1899-1945)

domingo, 3 de outubro de 2010

3 de Outubro de 1226. Morre Francisco de Assis

Placa numa rua de Assis

Francisco de Assis, a “luz que brilhou sobre o mundo”, segundo expressão hiperbólica de Dante (no Evangelho de João diz-se o mesmo sobre o Verbo), e que inspirou uma das obras de Saramago, por exemplo, morreu no dia 3 de Outubro de 1226, aos 44 anos. Amanhã é dia de S. Francisco. E dos animais e da ecologia, mas por causa do santo de Assis.

Para quem gosta de livros e de bolachas

José Diogo Quintela: Quem quer ser miserável?

José Diogo Quintela deve ter andado na catequese até bastante tarde. Por pouco que não foi seminarista – suponho eu. É que é dos humoristas mais conhecedores da cultura católica. O outro, Ricardo Araújo Pereira, foi aluno de jesuítas. Mas parece-me que JDQ conhece mais por dentro as coisas católicas. Para fazer humor sem ofender é preciso conhecer bem. Veja-se a crónica de hoje na “Pública”. JDQ merece ser uma etiqueta.

Bento Domingues: Nova ordem pastoral

Bento Domingues escreve sobre os esforços da igreja católica portuguesa em repensar a sua pastoral. Deixa uma crítica perspicaz: “Se, porém, a preocupação primeira for a conexão entre tudo o que os diferentes grupos da Igreja já estão a fazer, corre-se o risco de confundir evangelização com operações centralizadoras”. Esta observação é, claramente, um exercício do espírito crítico que preconiza num dos últimos parágrafos e que tanta falta faz nas coisas eclesiais, onde se tende a abdicar do pensamento próprio em favor do pensamento dos superiores: “A má-língua nada tem a ver com o espírito crítico, que se caracteriza pela capacidade de ver, analisar e avaliar, isto é, saber destrinçar para decidir segundo todos os dados recolhidos. A má-língua é derrotista e paralisante. O espírito crítico, pelo contrário, ao não reproduzir velhas perguntas – perguntas velhas só podem trazer velhas respostas –, levanta questões que, pondo em causa falsas evidências, abrem o caminho à investigação do desconhecido”.

Herético

Uma vez que não existe acordo unânime quanto à concepção que se faz de Deus, é-se sempre o herético de alguém.

Armand Pierhal (1897-1976)

sábado, 2 de outubro de 2010

2 de Outubro de 1869. Nasce Gandhi

Mohandas Gandhi nasceu no dia 2 de Outubro de 1869. A “grande alma”, “Mahatma”, foi o fundador do Estado moderno da Índia, defendeu a não-violência, a revolução pacífica, admirava as Bem-aventuranças cristãs e o Sermão da Montanha. Morreu no dia 30 de Janeiro de 1948. Continua a inspirar a acção política e a defesa dos direitos humanos.

Estratégias para aproximar ciência e religião

Não creio que a lei hegeliana esteja correcta, pelo que não espero que a fusão entre ciência e religião aconteça no séc. XXI, nem noutro século, mas julgo que as propostas de Hiroshi Tasaka merecem a atenção de quem aposta no diálogo, na conversação sem fim (“na vida conversada”, dizia Agostinho da Silva), como é próprio da condição humana.

Escreve o poeta, cientista e economista japonês: “Qual a coisa mais importante que vai acontecer no século XXI? A fusão da ciência e da espiritualidade. Isso vai acontecer. Porquê? Porque este mundo em que vivemos muda, desenvolve, progride e evolui de acordo com uma lei determinada: a Lei de Interpenetração da Dialéctica. Essa lei, defendida pelo filósofo alemão Georg Hegel, diz-nos que "as coisas que se opõem e competem entre si chegarão a assemelhar-se umas às outras". Se essa lei hegeliana estiver correcta, ciência e espiritualidade chegarão a assemelhar-se uma à outra, misturando-se entre si e fundindo-se em um «algo» maior e melhor”.

Quais são as propostas de Hiroshi Tasaka, importantes para um diálogo, mas nunca geradoras de uma fusão?

Estratégia 1: Ensinar ciência moderna na comunidade religiosa (Abordagem das Ciências Naturais)

Estratégia 2: Aprofundar a psicologia moderna por meio da sabedoria das religiões tradicionais e da espiritualidade (Abordagem das Ciências Humanas)

Estratégia 3: Criar um novo princípio económico por meio da combinação da revolução da Internet e da sabedoria da compaixão das religiões tradicionais e da espiritualidade (Abordagem das Ciências Sociais).

Estão explicadas aqui, em inglês, e aqui, em português.

Anselmo Borges: Quem guardará a guarda?

Wittgenstein

Um dia, numa conferência, L. Wittgenstein disse mais ou menos o seguinte: se fosse possível escrever um livro de ética que fosse verdadeiramente um livro de ética, esse livro arrasaria todos os outros.

Hoje, toda a gente se queixa: "não há ética, perderam-se os valores"... Quem pode negar razão a essas queixas? Mas, depois, fundamentar a ética e, sobretudo, ser ético, é tremendamente complicado. Se há terreno há muito revisitado teoreticamente, é o da ética, mas lá estão as éticas materiais e as formais, as ontológicas, as teleológicas e as deontológicas, as éticas da virtude e até as teológicas, também há a negação do seu conteúdo cognoscitivo, pois estaríamos apenas no campo das exclamações emotivas de aprovação ou reprovação... Etc. Mas o mais difícil mesmo é ser ético na vida. Porque devo ser honesto, se isso prejudicar os meus interesses?

Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada).

Mas o que constitui um acto ético? Há na história da ética dois exemplos famosos: o anel de Giges, de Platão, e o comerciante honesto, de Kant. Nem Giges nem o comerciante eram éticos, pois agiam como agiam no seu próprio interesse. Ora, a ética implica agir não por causa do próprio interesse ou da consideração dos outros, não por castigo ou por prémio, mas exclusivamente pelo dever, pela consideração da humanidade e da dignidade.

Como diz A. Comte-Sponville, não é necessário nem possível fundamentar a ética. Como se fundamenta a razão? Mas fazemos a experiência ética: se virmos uma criança a afogar-se, sabemos o que devemos fazer. É uma exigência. Trata-se de não sermos indignos da nossa humanidade e de estarmos de bem connosco.

E que fazer? Queres saber se esta ou aquela acção é boa ou má? Pergunta a ti mesmo o que aconteceria se todos se comportassem como tu e se quererias isso honrada e dignamente. Se todos mentissem, quem poderia acreditar em alguém? Quererias viver numa sociedade na qual todos roubassem? Se toda a gente matasse, nem sociedade existiria. Se ninguém pagasse impostos, não poderia erguer-se uma vida comum em dignidade e todos perderiam.

Se todos fossem éticos, segundo a ética desinteressada, não era necessária a política, que ficava reduzida a administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos de interesses. Como escreve A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas, de cadeias.

Então, ética e política não se identificam nem confundem, mas os seus objectivos são comuns: a realização da humanidade de todos. O paradoxo não é então encontrar políticos que sejam precisamente políticos, mas com ética?

O grande desafio do nosso tempo é a formação ética, para os valores. Quando isso não acontece, remetemos constantemente para a política, para as leis, para os tribunais... Ora, neste quadro, fica-se confrontado com duas questões temíveis. Primeira: não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico. Depois, seja como for, sem ética assumida - e poderia acrescentar: sem referência religiosa ao Absoluto -, fica apenas a lei e a sua sanção, o medo e a esperança de não ser apanhado. Por exemplo, se não se pagar impostos e se for apanhado, tanto pior... De qualquer forma, nesta lógica, sem valores éticos assumidos, acaba, no limite, por ser necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, mas, como os polícias também são humanos, é preciso pôr um polícia junto de cada polícia... Ai!, o totalitarismo!

Lá está Juvenal, embora noutro contexto: Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes? A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?

Texto de Anselmo Borges no DN de 2 de Outubro de 2010.

Mais uma história de Martin Buber

“Onde é que Deus habita?” A pergunta, posta de repente pelo Rabi Kotzk, surpreendeu os seus convidados, sábio personagens que ele tinha à sua mesa. E os doutores troçaram dele: “O que estais vós a perguntar? Não está o mundo cheio da sua magnificência?” Mas o Rabi deu ele próprio a reposta à pergunta: “Deus habita onde O fazem entrar”.

Martin Buber (1878-1965)

Dá alimento à nossa indigência

Pai nosso invisível, que estás nos céus,
seja santificado em nós o Teu Nome,
porque, no Teu Espírito Santo,
Tu próprio nos santificaste.

Venha a nós o Teu reino,
reino prometido a quantos amam Teu amor.
Tua força e benevolência repousem sobre teus servos,
aqui em mistério e lá na tua misericórdia.

Da mesa que não se esgota,
dá alimento à nossa indigência;
e concede-nos a remissão das culpas,
tu que conheces a nossa debilidade.

Nós te pedimos:
salva aquilo que criaste
e livra-o do maligno, que busca o que devorar.
A ti pertencem o reino, o poder e a glória, ó Senhor.

Não prives da tua bondade os teus santos.

Oração do Breviário Caldeu

Tradução: José Tolentino Mendonça in "Rosa do Mundo. 2001 Poemas para o Futuro". Ed. Assírio & Alvim

Católicos ou gastrónomos

Há um livro de uma escritora luso-brasileira, em que a protagonista se passeia entre ex-comunistas agora católicos ou gastrónomos. Uma das narradoras (julgo que há duas), olhando para os anos 80 lisboetas do século passado, entre outras coisas, lembra-se das porteiras viciadas em Deus. O livro chama-se “Para Interromper o Amor”. As referências que apontei devem ser as duas únicas à religião. Diz Pedro Mexia numa crítica do "Ípsilon" de hoje que, com ele, Mónica Marques trouxe à literatura portuguesa uma desenvoltura sexual. Eu fiquei a pensar em quem serão os ex-comunistas católicos ou gastrónomos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jesus no dicionário dos ateus

Sylvain Maréchal

Sylvain Maréchal (1750-1803), no seu "Dictionnaire des athées anciens et modernes" (“Dicionário dos ateus antigos e modernos”), de 1800, incluiu artigos sobre Pascal, Santo Agostinho e Jesus Cristo, entre outros, naturalmente.

No dicionário cabiam também os anticlericais e os críticos das religiões. Jesus, em certo sentido, sem dúvida que pode ser contado como membro dos dois grupos.

Publicação sobre Igreja e República

A Agência Ecclesia lançou há dias um número especial sobre a Igreja e a Primeira República. A publicação conta com a colaboração científica do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguesa e procura abordar “questões do âmbito da religião na sociedade portuguesa no período da Primeira República”. “A reflexão que se apresenta, acompanhada pela publicação de documentos da época e do levantamento iconográfico e biográfico referentes a acontecimentos e personalidades anteriores e posteriores à República de 1910, pretende contribuir para a memória crítica dos cidadãos portugueses”, escreve António Matos Ferreira, um dos coordenadores da edição. Mais informações e pedidos aqui.

Gramática

Deus é talvez menos um além do saber do que um certo aquém das nossas frases. E se o ocidental é inseparável dele, não é por uma propensão invencível de franquear as fronteiras da experiência, mas porque a sua linguagem o fomente sem cessar à sombra das suas leis: "Eu receio bem que não nos desembaracemos nunca de Deus, uma vez que nós ainda acreditamos na gramática" (Nietzsche).

Michel Foucault (1926-1984)

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...